A POMÁCEA, O GAVIÃO-CARAMUJEIRO E A DESTRUIÇÃO DOS BIOMAS

Gavião-caramujeiro

Na nossa última postagem falamos dos impactos da poluição do rio Cubatão sobre os guarás-vermelhos (Eudocimus ruber). Essa ave apresenta uma vistosa plumagem num tom de vermelho vivo, o que faz a espécie se destacar na paisagem. A cor das penas se deve a dieta dos guarás, constituída por moluscos e crustáceos ricos em betacaroteno, um pigmento natural rico em vitamina A e que possui uma cor vermelha intensa. No rio Cubatão, a poluição das águas exterminou muitas populações da fauna aquática e os guarás perderam a sua fonte principal de alimentos, passando a apresentar somente penas na cor branca. Conforme a poluição no rio Cubatão foi sendo reduzida e as águas e manguezais voltaram a ser recolonizados pela sua fauna original, os guarás recuperaram a sua dieta rica em betacaroteno e as penas vermelhas voltaram a aparecer. 

Na natureza, porém, não são todas as espécies que tem uma segunda chance nas suas vidas ou que podem sobreviver com uma dieta alternativa. O gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), também conhecido como gavião-de-uruá e gavião-pescador, é um exemplo de animal com dieta altamente especializada e que não se pode dar ao luxo de consumir outros tipos de alimentos. A ave é o que se chama na biologia de malacófago, espécies de carnívoros especializados, cuja dieta é predominantemente à base de moluscos.  

O nome científico da espécie – Rostrhamus, já é uma indicação dessa especialização. O nome vem da junção das palavras em latim rostrum – bico, e hamus – gancho, o que significa, literalmente, gavião com gancho no bico. Essa adaptação evolutiva no bico da ave é perfeita para extrair a carne dos caramujos do interior da concha – a ave segura o caramujo com um dos pés e introduz o bico na concha, puxando o corpo do molusco para fora. Existem três subespécies de gavião-caramujeiro, que ocupam um extenso território que vai das áreas pantanosas do Sul dos Estados Unidos ao Norte da Argentina. No Brasil, a espécie é encontrada em todos os biomas. 

Essa alimentação especializada representa uma vantagem competitiva para os gaviões, que não precisam brigar com outras espécies pela captura dos caramujos. Por outro lado, depender exclusivamente de uma única espécie da fauna como fonte de alimentação se apresenta como um grande risco – caso qualquer impacto ambiental venha afetar os caramujos, reduzindo as suas populações, os gaviões ficam, literalmente, sem ter o que comer. É justamente isso o que está acontecendo em vários biomas brasileiros, deixando os gaviões-caramujeiros privados da sua fonte de alimentos. Um bioma onde isso está acontecendo com uma velocidade assustadora são os Banhados dos Pampas Sulinos. 

Os Banhados são ecossistemas típicos do Extremo Sul do Brasil, ricos em vida e que podem ser comparados aos bancos de corais dos oceanos. Funcionando como uma espécie de “esponja natural”, as áreas de Banhados acumulam grandes volumes de água nos períodos de chuva, auxiliando inclusive no controle das cheias dos rios; nos períodos de seca, fornecem água para as lagoas, garantido a sobrevivência de um sem número de espécies animais e vegetais. Os solos úmidos dos Banhados são ricos em matéria orgânica, resultante da decomposição dos juncos e gramíneas – essa excepcional fertilidade dos solos tornou essas áreas em alvo para a expansão das fronteiras agrícolas. 

As algas estão na base da cadeia alimentar das áreas de Banhado. Estes vegetais se nutrem a partir da filtragem das partículas em suspensão na água, desempenhado um papel de filtro biológico do ecossistema. Diversas espécies de moluscos se alimentam destas algas e, por sua vez, servem de alimento para diversas espécies de peixes – aves locais e migratórias buscam alimento e abrigo nos Banhados, assim como toda uma cadeia de animais como capivaras, lontras, ratões-do-banhado e jacarés-do-papo-amarelo. Toda uma frágil teia de vida e de inter-relações entre espécies animais e vegetais sobrevive nos Banhados. 

Um exemplo da fragilidade do equilíbrio ambiental desses ecossistemas pode ser visto numa espécie de caramujo encontrado nos Banhados – a pomácea. Esse caramujo é uma importante fonte de alimento para diversas espécies de aves, sobretudo ao gavião-caramujeiro, espécie que, no Extremo Sul, se alimenta exclusivamente desta “iguaria”. A drenagem dos banhados para a implantação de culturas de grãos, especialmente o arroz, ou o carreamento de grandes volumes de resíduos de defensivos agrícolas, pode levar à extinção de grandes colônias deste caramujo – a maioria das aves perderá um dos seus alimentos: o gavião-caramujeiro, entretanto, perderá a sua única e exclusiva fonte de comida. 

Os gaviões-caramujeiros não estão sozinhos no drama da destruição sistemática dos Banhados, o que mostra a importância do bioma para diversas comunidades de animais. Essas áreas abrigam uma série de aves migratórias, que utilizam estes ecossistemas como áreas de descanso, alimentação e até como territórios de nidificação. Uma dessas espécies de ave é o cisne-do-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus)que tem seu território distribuído desde a Terra do Fogo, no extremo Sul da América do Sul até áreas na região Sudeste do Brasil. Esse extenso território inclui, além do nosso país, regiões da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Ilhas Malvinas.  

Diversos Banhados dos Pampas Gaúchos ficam no caminho das rotas migratórias dos cisnes. Uma outra espécie, a coscoroba (Coscoroba coscoroba), também chamada de cisne-coscoroba e capororoca, é uma ave migratória com território indo desde a Patagônia, no sul da Argentina e do Chile, até as regiões Sul do Brasil e Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul. Estas aves utilizam áreas de Banhados do Extremo Sul para descanso, alimentação e nidificação ao longo de suas migrações. O comportamento instintivo destas aves é o resultado de milhares de anos de adaptação ao meio ambiente e, quando um dos seus habitats é destruído ou modificado, estes animais não conseguem mudar seus hábitos rapidamente – grupos inteiros de animais podem morrer de fome ou simplesmente não conseguir se reproduzir, colocando a espécie sob pressão e ameaça de extinção. 

As áreas de Banhado também têm importância ímpar para os rios gaúchos. Conforme já comentamos em postagens anteriores, elas atuam na regulação dos níveis de água tanto nos períodos de cheias quanto de secas. Também são fundamentais para a manutenção da biodiversidade das espécies animais que vivem nos rios, incluindo-se peixes, crustáceos, mamíferos, aves e répteis, que têm nos banhados importantes áreas de alimentação e reprodução. Uma função crítica desempenhada pela vegetação dos banhados é a retenção e a depuração de sedimentos e despejos que correm na direção da calha dos rios, auxiliando na manutenção da qualidade das águas. 

Nos Banhados também se encontram nascentes que contribuem com substanciais volumes de água, recurso importante nos períodos de seca. Diversos rios em todo o Estado do Rio Grande do Sul têm sofrido fortes impactos devido a esta sistemática e contínua destruição dos banhados, onde destacamos os problemas dos rios CaíGravataí e dos Sinos, corpos d’água que, infelizmente, integram a lista dos dez rios mais poluídos do Brasil. 

Dentro da complexidade de relações entre as diversas formas de vida de um ecossistema, o desparecimento de uma única espécie tem potencial para levar junto outras tantas espécies. Se os gaviões-caramujeiros desaparecem dos Pampas, várias outras espécies, desgraçadamente, desaparecerão também. 

PS: 3° Aniversário de Água, Vida & Cia. Obrigado a todos os leitores!

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