A HIDROVIA TIETÊ-PARANÁ E A TORCIDA POR BOAS CHUVAS

Eclusa de Barra Bonita

O transporte hidroviário no Brasil está muito aquém da capacidade potencial proporcionada pela imensa rede de rios do país. Calcula-se que o potencial de rios navegáveis em terras brasileiras é da ordem de 29 mil km, porém, apenas uma fração dessas vias navegáveis é efetivamente utilizada – menos de 2% do volume de cargas do país utiliza esse modal, enquanto perto de 60% das cargas continuem sendo transportadas por caminhões. Nunca é demais relembrar: um único comboio de barcaças de carga pode substituir até 200 caminhões, com um consumo menor de combustíveis, menor poluição e uma eficiência muito maior. 

Um dos melhores exemplos da eficiência dos transportes hidroviários no Brasil é a Hidrovia Tietê-Paraná, que tem aproximadamente 2.400 km de extensão, sendo 1.800 km de curso navegável no rio Paraná e cerca de 800 km no rio Tietê. São transportadas atualmente 5 milhões de toneladas de cargas a cada ano na hidrovia, que se destaca por possuir a melhor infraestrutura do país. Entre as principais cargas transportadas destacam-se a soja e farelo de soja, óleos comestíveis, milho, cana, fertilizantes. madeiras e calcário agrícola

Apesar de atender algumas das regiões de maior desenvolvimento econômico do país, o volume de cargas transportados pela Hidrovia Tietê-Paraná corresponde a pouco mais de 1% do volume de cargas transportados anualmente na hidrovia dos rios Mississipi-Missouri-Ohio nos Estados Unidos. Caso essa comparação inclua a Hidrovia Dourada da China, por onde circulam perto de 2 bilhões de toneladas de carga a cada ano, perdemos de goleada: a tonelagem de cargas da equivalente brasileira equivale a meros 0,25%.  

Apesar de todo o potencial natural dos rios brasileiros, faltam pesados investimentos em infraestrutura hidroviária, onde se incluem portos, terminais de carga, sinalização das vias navegáveis e, especialmente, em sistemas de controle do nível dos rios. Durante o período das chuvas, os rios costumam apresentar bons volumes de água em seus leitos e garantem condições ideais para a navegação das barcaças de carga; já na época da seca, muitos dos nossos rios apresentam uma queda vertiginosa no nível de água e apresentam bancos de areia e/ou formações rochosas do fundo do seu leito, obstáculos que criam risco ou impedem a navegação. A construção de represas para regularização do volume de águas em períodos de seca ou de barragens com eclusas, são alguns dos mecanismos que permitem garantir a navegação nos rios pela maior parte do ano. 

Mas esses não os únicos problemas para a navegação hidroviária aqui no Brasil: o uso dos rios para a geração de eletricidade é outra fonte importante de conflitos. Muitos rios e trechos de rios só se tornaram ideais para a navegação por longos trechos após a construção de barragens de usinas hidrelétricas. O rio Tietê, no Estado de São Paulo, é um desses casos. No passado, a calha do rio possuía inúmeros trechos com fortes correntezas, afloramentos rochosos e quedas d’água, o que dificultou muito, mas não impediu, que o rio se transformasse na principal via de acesso aos sertões profundos do Brasil no passado. 

Ao longo das últimas décadas, foram construídas várias usinas hidrelétricas ao longo do rio Tietê, empreendimentos que garantiram o fornecimento contínuo de eletricidade para o Estado de São Paulo. Como uma espécie de “efeito colateral”, as barragens dessas usinas hidrelétricas “acalmaram” a fúria de vários trechos do rio. Um exemplo foi o alagamento do Salto do Avanhandava, que desde os tempos dos primeiros bandeirantes paulistas era considerado o maior obstáculo para a navegação no rio Tietê. Depois do enchimento da represa, o trecho de águas rápidas e traiçoeiras acabou transformado em um espelho de águas tranquilas. 

A Hidrovia Tietê-Paraná foi o resultado de um projeto iniciado há cinquenta anos atrás, quando a primeira eclusa do rio Tietê foi construída em Bariri em 1968. Eclusas são dispositivos que permitem que as embarcações de passageiros ou de carga superem obstáculos físicos como as barragens de represas, trechos com corredeiras ou quedas de água, funcionando como um elevador que sobe e desce. Ao longo da hidrovia Tietê-Paraná existem 10 eclusas, sendo 6 no rio Tietê, nas barragens de Barra Bonita (vide foto), Bariri, Ibitinga, Promissão e Nova Avanhandava, e 4 eclusas no rio Paraná, nas barragens de Três Irmãos, Jupiá e Porto Primavera. As eclusas, porém, não fazem milagres – as represas precisam apresentar um nível de água mínimo para permitir a passagem das embarcações pelas eclusas e pelos muitos canais de navegação. 

Como as barragens de usinas hidrelétricas de outras regiões do Brasil estão com volumes de água extremamente baixos, a geração de energia elétrica em outras regiões precisou ser aumentada, a fim de atender a demanda do país. Por essa razão, as usinas do rio Tietê vêm trabalhando a plena carga. Com essa maior geração de energia elétrica, há uma necessidade maior de água e o nível das barragens paulistas do rio Tietê passaram a cair muito ao longo desse ano, o que colocou a navegação na hidrovia em sinal “amarelo”. Nos últimos meses, várias empresas que operam com o transporte de cargas na hidrovia Tietê-Paraná optaram por reduzir o calado das barcaças (medida que indica a profundidade máxima do fundo da embarcação em relação à linha d’água) de 3,0 para 2,8 metros, como uma medida de segurança para evitar o encalhe de embarcações. 

Durante a crise hídrica que assolou grande parte do Estado de São Paulo nos anos de 2014 e 2015, o nível do rio Tietê atingiu níveis extremamente baixos e as operações na hidrovia foram interditadas por 20 meses, só voltando a funcionar completamente em 2016Essa paralisação da hidrovia Tietê-Paraná causou um prejuízo estimado de R$ 1 bilhão às empresas de navegação e provocou o fechamento de 1.600 postos de trabalho. Esse é um trauma que assola até hoje os operadores de carga, que torcem como ninguém para uma boa temporada de chuvas. 

As chuvas já estão voltando a cair em toda a região Centro-Sul do país nesse começo de primavera e todos torçamos juntos para que venha com grandes volumes. 

O RIO PARAÍBA DO SUL E O ABASTECIMENTO DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO, OU A VELHA DISPUTA PELA ÁGUA

Represa do Jaguari

O rio Paraíba do Sul não tem a grandiosidade do rio Amazonas, nem a capacidade de integração nacional do rio São Francisco. É um rio bastante discreto, sendo formado pela junção das águas de pequenos rios com nascentes nas montanhas da Serra do Mar, no Estado de São Paulo. Em tempos geológicos distantes, ele era um dos muitos afluentes formadores do Tietê. Graças ao afundamento de um grande bloco de rochas por forças tectônicas, o que resultou na atual configuração física do Vale do Paraíba, o rio  mudou o seu curso para o Norte e depois para o Leste, passando a correr na direção do Rio de Janeiro, onde se tornou o mais importante curso d’água do Estado. No seu caminho em direção ao Oceano Atlântico, o rio delimita grande parte da divisa entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. 

Apesar de ser considerado o 5° rio mais poluído do Brasil, o Paraíba do Sul é o responsável pelo abastecimento de inúmeras cidades e de uma população superior a 16 milhões de habitantes, especialmente no Estado do Rio de Janeiro. Um grande sistema construído para a transposição de parte das águas do rio Paraíba do Sul para fins de geração de energia elétrica no Rio de Janeiro, acabou resolvendo um grande problema de abastecimento da grande Região Metropolitana do Estado. São essas águas, que chegam na região da Baixada Fluminense através do rio Guandu, que respondem por 85% das necessidades de consumo de cariocas e fluminenses. As águas do rio Paraíba do Sul se tornaram imprescindíveis (e insubstituíveis) para a população do Estado do Rio de Janeiro. 

Existem quatro grandes reservatórios que armazenam e regularizam a vazão das águas do rio Paraíba do Sul. Um desses reservatórios é a represa da Usina Hidrelétrica do Funil, em Itatiaia no Estado do Rio de Janeiro, que recebe as águas do rio Paraíba do Sul através de um sistema de reversão das águas do rio Piraí. No último mês de setembro, a represa do Funil viu seu nível diminuir em 10%, passando de um volume de 37,9% para cerca de 28,4%. Dentro das médias históricas, o nível da represa deveria estar próximo dos 50%

Os outros três reservatórios do rio Paraíba do Sul ficam dentro do Estado de São Paulo – são as represas de Paraibuna, Santa Branca e Jaguari. Observando-se os níveis de armazenamento de água desses reservatórios, percebemos que a margem de segurança do sistema de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro não está muito confortável. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, chamada por muitos de “a caixa d’água do Vale do Paraíba”, hoje (21/10/2018) está com menos de 22% da sua capacidade de armazenamento. A represa do Jaguari (vide foto), também utilizada para a geração de energia elétrica, somente entre os meses de julho e agosto, teve seu nível reduzido de 47,34% para 35,70% – no mesmo período, a represa de Santa Branca perdeu cerca de 15% do seu volume armazenado

Essa situação crítica, que poderia ser colocada dentro de uma relativa normalidade para o período das secas, tem um componente explosivo, que está acirrando o ânimo de muita gente: no último mês de março, foi iniciada a polêmica transposição de águas entre as represas Jaguari e Atibainha. Após a violenta crise hídrica dos anos de 2014/2015, que colocou o Sistema Cantareira no volume morto e que obrigou as populações das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas a um fortíssimo “racionamento de água disfarçado”, as autoridades Estaduais entenderam que era preciso aumentar a segurança hídrica do Sistema. O Governo do Estado de São Paulo, através dos seus órgãos de água e energia, e a Sabesp, empresa estadual de saneamento, levaram adiante o projeto de construção de um sistema de transposição que permite a transferência de águas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, retirada da represa do Jaguari, para o rio Atibainha, formador da represa homônima no Sistema Cantareira. 

A obra, que foi concluída em janeiro de 2018, permite a transferência de até 8.500 litros de água por segundo na direção do Sistema Cantareira e de até 12.200 litros por segundo no sentido inverso. Uma das premissas do projeto é que, a depender dos volumes de água armazenados nas duas represas, a água excedente será transferida para a outra represa em caso de situação crítica. No mês de maio foi iniciada a transferência de água pela Sabesp no sentido Jaguari-Atibainha, fazendo-se valer a quota de água do rio Paraíba do Sul a que o Estado de São Paulo tem direito e que foi autorizada na outorga do sistema. 

Tudo funcionava bem até que, cerca de 20 dias após o início do bombeamento, o nível da represa Jaguari baixou cerca de quatro metros e muita gente começou a jogar a culpa dessa brusca redução no bombeamento de águas para a represa do Atibainha. Em sua defesa, a Sabesp, empresa que opera o sistema de bombeamento, alegou que o volume retirado da represa do Jaguari não seria suficiente para provocar uma queda de nível tão grande e disse que a geração de energia elétrica usa uma média de 40 mil litros de água por segundo. Outros órgãos públicos como o ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Pulo e a CESP – Centrais Elétricas do Estado de São Paulo, responsável pela operação das usinas hidrelétricas do rio Paraíba do Sul, tiraram o corpo fora e disseram que não tem nada a ver com esse problema. 

Com a queda brusca nos níveis de água nessas represas e com a grande dependência do Estado do Rio de Janeiro em relação as águas do rio Paraíba do Sul, essa briga, que por enquanto envolve apenas as represas de Jaguari e do Atibainha, tem combustível para reacender a velha disputa regional por essas águas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Relembrando, essa disputa já havia sido apaziguada por decisão do STF – Superior Tribunal Federal em 2015. 

Torçamos todos por uma boa temporada de chuvas no Vale do Paraíba e por solução amigável para esse novo conflito. 

EL NIÑO E LA NIÑA: “LOS CHICOS MALOS” (AS CRIANÇAS MALVADAS)

Inundação no Metrô

A chegada da primavera na Região Centro-Sul do Brasil marca o início da esperada estação das chuvas, um período fundamental para todas as populações. Nas áreas rurais, onde as atividades agropecuárias são a base da economia, as chuvas são fundamentais para a época do plantio de uma nova safra. Nas cidades, que dependem das águas das chuvas para recompor os estoques dos reservatórios e fontes de abastecimento, esse período de águas é sempre bem-vindo, apesar dos muitos transtornos provocados pelas enchentes e alagamentos. Para a vida silvestre, a temporada de chuvas é uma fase de renascimento da vida. 

Apesar da previsibilidade da chegada das chuvas com o início da primavera, as populações sempre observaram que ocorriam variações nos volumes de chuvas – em alguns anos, as chuvas caíam em excesso; já em outros, as chuvas rarearam e extensas áreas sofriam muito com a seca. Foi somente em décadas recentes, após intensos estudos climáticos e meteorológicos em todo o planeta, que parte do mecanismo que provoca essa variação nos padrões das chuvas começou a ser desvendado: os pesquisadores perceberam um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico em alguns anos; em outros anos, o que se observou foi um resfriamento anormal dessas águas. Esses fenômenos foram batizados de El Niño (o menino) e La Niña (a menina). 

Nos anos em que o fenômeno El Niño é detectado nas águas do Oceano Pacífico, são registradas uma série de alterações climáticas em todo o mundo. Em 2015, o surgimento de um forte El Niño prejudicou lavouras de cacau, chá e café em toda a Ásia e África. Também provocou uma forte seca no Sudeste Asiático, favorecendo o surgimento de vários incêndios florestais. Naquele ano também se observou o inverno mais quente já registrado nos Estados Unidos. Na América do Sul, o surgimento do El Niño pode resultar em períodos de seca na região Centro-Norte e de maior umidade na região Sul, Na Argentina, o fenômeno tende a provocar chuvas mais intensas. 

Quando o fenômeno La Niña é observado no Oceano Pacífico, as águas superficiais de uma extensa região apresentam uma redução média entre 2 e 3° C na sua temperatura. Nesses anos de ocorrência de La Niña, costuma se observar, entre os meses de dezembro e fevereiro, um aumento das chuvas na região Nordeste e temperaturas abaixo do normal na região Sudeste. O fenômeno também provoca um aumento do frio na costa Oeste dos Estados Unidos e no Japão, além de aumento das chuvas na costa Oeste da Ásia. 

Entre os meses de junho e agosto, a presença de La Niña costuma produzir um inverno mais seco nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Também pode interferir na temperatura da costa Oeste da América do Sul, reduzindo as temperaturas. Na região do Caribe, La Niña provoca uma redução na temperatura e um aumento das chuvas. No Leste da Austrália e no Leste da Ásia se observa um aumento das temperaturas. 

A ocorrência do fenômeno La Niña varia muito. Sua frequência ocorre em intervalos de 2 a 7 anos, com uma duração de 9 a 12 meses – em alguns casos, pode ter uma duração de até 2 anos. O El Niño têm uma frequência tão irregular quanto a da La Niña, ocorrendo também em intervalos de 2 a 7 anos, porém, com uma duração de 10 a 18 meses. 

No seu último relatório divulgado, a NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, na sigla em inglês, órgão do Governo dos Estados Unidos, elevou de 70 para 75% as chances de ocorrência de um El Niño nos próximos meses. Em seus estudos e análises dos padrões climáticos, a NOAA utiliza um sofisticado conjunto de satélites meteorológicos e também de sensores instalados em bóias espalhadas por oceanos e estações meteorológicas em diferentes pontos dos continentes de todo o mundo. Os dados observados são processados em supercomputadores, que geram modelos matemáticos com as projeções climáticas para todo o mundo. Até o início deste ano, a NOAA trabalhava com uma expectativa neutra para a ocorrência do fenômeno El Niño, porém, com o passar dos meses, os dados disponíveis passaram a indicar a ocorrência de um fenômeno “fraco” no período 2018/2019. 

Apesar dessa “fraca” intensidade, o fenômeno poderá causar uma série de alterações no clima de diferentes partes do mundo. Aqui no Brasil, a provável chegada dos efeitos do El Niño coincidirá com a época do início do plantio de importantes culturas como a soja, milho, arroz e feijão. A possibilidade de ocorrências de chuvas acima da média, que costumam estar associadas ao El Niño, poderá criar sérios problemas para os agricultores. No período entre 2015 e 2016, um forte El Niño causou vários transtornos climáticos em diferentes regiões do Brasil, entre eles uma intensificação da seca que já assolava o Semiárido Nordestino, estiagem prolongada em regiões de Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal, além de fortes chuvas e inundações na região Sul. 

Nesse começo de primavera, já estamos observando a ocorrência de fortes chuvas em várias regiões do Sul e Sudeste. Exemplos foram as intensas chuvas que causaram grandes inundações no Rio Grande do Sul e as fortes tempestades que já caíram na Região Metropolitana de São Paulo. Inclusive, no dia de ontem (17/10/2018), a Zona Sul da cidade de São Paulo sofreu fortemente com as chuvas. Além dos transtornos de sempre como enchentes, alagamentos localizados (que sempre ocorrem nos mesmos lugares e não há qualquer providência do poder público em eliminá-los), quedas de árvores e falta de energia elétrica, duas estações recém inauguradas da Linha Lilás do Metrô paulistano tiveram suas plataformas “inundadas” (vide foto), algo inédito na história desse sistema de transportes. Além das prováveis falhas no projeto e execução dessas estações do Metrô, o incidente mostra como os efeitos de mudanças nos padrões climáticos podem ser danosos para muita gente.

Como as consequências do humor muito particular dessas duas “crianças” são bem imprevisíveis, nós precisamos ficar de olho em tudo o que acontece, na expectativa que os estragos sejam bem menores do que em anos anteriores e que resultem também em  algumas notícias positivas para muitas regiões. 

REPRESA GUARAPIRANGA: UMA PEQUENA NOTÁVEL, OU A “PRAIA DOS PAULISTANOS POBRES”

Guarapiranga

Na última postagem falamos da situação trágica em que se encontra a represa Billings, o maior manancial da Região Metropolitana de São Paulo. De represa criada para a geração de energia elétrica na década de 1930 até a situação atual, quando se parece mais com uma grande fossa a céu aberto, foi um longo caminho, que até agora não encontrou seu “final feliz”. 

É impossível falar dos problemas da represa Billings sem ao menos citar a Guarapiranga, represa vizinha, separada apenas por um espinhaço de pequenos morros. Apesar da história das duas represas ter origens diferentes, as duas compartilham dos mesmos problemas: ocupação de áreas de mananciais por loteamentos irregulares, produção e despejo de grandes quantidades de esgotos in natura nas suas águas pelos muitos bairros clandestinos, carreamento de lixo e de entulhos despejados nas margens de córregos ou da própria represa, entre outros problemas. 

A Guarapiranga, chamada originalmente de represa de Santo Amaro, é um espelho d’água pequeno, com pouco mais de 26 km², encravada totalmente na Zona Sul da Cidade de São Paulo. Ela teve as suas obras principais concluídas em 1908 e foi concebida para regularizar a vazão do rio Tietê, cujas águas estavam sendo utilizadas desde o final do século XIX para acionar as turbinas da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba. A Usina enfrentava problemas com as vazões irregulares do Rio Tietê, que alternava cheias nos períodos de chuva e baixíssimas vazões nos períodos de seca. Com a construção da represa Guarapiranga, a água das chuvas de verão era acumulada e, quando chegava o período da seca, as comportas eram abertas e a água seguia primeiro pelo rio Pinheiros, atingindo depois o canal do rio Tietê. 

A escolha pela região de Santo Amaro deveu-se ao relevo dos acentuados contra fortes da Serra do Mar, com grande precipitação de chuvas e garantia de boa vazão nos rios da região, especialmente nos cursos do Guarapiranga, nome de origem tupi que significa “guará vermelho”, Embu-Guaçu e Embu-Mirim, nomes também de origem tupi que significam “cobra grande” e “cobra pequena”, respectivamente. Santo Amaro era, na época, uma pequena cidade fortemente rural, o que barateou imensamente os custos de desapropriação das chácaras na região de formação da represa. 

Com o crescimento da cidade de São Paulo e a necessidade de ampliar o estoque de água para o abastecimento urbano, a partir de 1928 a represa Guarapiranga foi promovida a manancial para o abastecimento de água potável. Apesar dessa promoção, a região de entorno da represa não recebeu nenhuma atenção especial das autoridades no sentido da preservação das áreas verdes e das nascentes dos rios e córregos que alimentam o reservatório. Nenhuma legislação ou política de ocupação racional dessa região de mananciais foi definida e/ou implantada pela municipalidade ou Governo estadual.

Com a Região Metropolitana de São Paulo passando por um forte crescimento industrial a partir da década de 1940, milhares de imigrantes passaram a buscar na cidade emprego e uma melhor perspectiva de vida. Começou então um processo de “fabricação em massa de loteamentos populares”. Grandes áreas verdes que existiam por toda a cidade passaram a ter sua vegetação derrubada e lotes e ruas eram demarcados. Na Zona Sul de São Paulo, a cobiça dos loteadores (muitos desses trabalhando de forma clandestina), não tardou a chegar nas áreas de mananciais nas regiões de entorno da represa Guarapiranga. Esses loteamentos tiveram início na década de 1950 e, acreditem ou não, continuam ocorrendo até hoje. 

As autoridades calculam que uma população superior a 800 mil pessoas viva atualmente nas áreas dos mananciais formadores da represa Guarapiranga. Considerando-se a população que ocupa as áreas de entorno e de mananciais da represa Billings, esse número vai atingir a marca de 1,6 milhão de pessoas. Calcula-se que 40% das moradias nessas regiões são irregulares, o que significa que são bairros com infraestrutura das mais precárias, especialmente no que diz respeito a rede coletora de esgotos. A legislação brasileira proíbe o gasto de dinheiro público na realização de obras em áreas com situação fundiária irregular, especialmente quando se tratam de invasões de terrenos de particulares.  

Para resolver seus problemas mais imediatos, os moradores se reúnem e fazem eles mesmos redes de esgotos improvisadas, que vão acabar lançando efluentes nos córregos e rios que alimentam a represa. De acordo com dados das Prefeituras da região, existem aproximadamente 444 loteamentos irregulares nas regiões de mananciais das represas Billings e Guarapiranga. Somente nos últimos 5 anos, foram registradas mais de 75 invasões de áreas na região, agregando mais 10 mil habitantes a já grande população local. A densidade habitacional na região é calculada em 500 habitantes por km². Na cidade de Nova York, para efeito de comparação, a população máxima admitida nas áreas de mananciais dos reservatórios é de 19 habitantes por km²

Mesmo sofrendo com os grandes volumes de esgotos in natura e de lixo que chegam até as suas águas (fortes tempestades caíram hoje na região de Santo Amaro e uma grande parte do lixo jogado nas ruas e terrenos da região acabarão sendo carreados para a represa), a Guarapiranga fornece 20% da água usada no abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo – são 4 milhões de pessoas que dependem das suas águas. Durante a crise hídrica que fez secar o Sistema Cantareira entre 2014 e 2015, a represa Guarapiranga, heroicamente, passou a responder pelo fornecimento de até 50% da água usada no abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo – apesar dos seus valorosos serviços, muito pouco foi feito depois disso para melhorar a situação ambiental da represa. 

Assim como acontece na Billings, a chegada das chuvas representa um período de alívio para a represa Guarapiranga. Os grandes volumes de água que chegam ao espelho d’água ajudam na recuperação do seu nível e contribuem para a melhoria da qualidade das suas águas, diluindo o volume de esgotos. Isso é muito bom – com o verão chegando, a Guarapiranga acabará transformada em uma “praia para os pobres”, recebendo diariamente até 10 mil banhistas

Enquanto dias melhores não chegam, pelo menos o banho refrescante e o bronzeamento dessa gente nas águas e margens da Guarapiranga estão garantidos. 

VER TAMBÉM – ESPECIAL: REPRESA GUARAPIRANGA

A REPRESA BILLINGS E A CHEGADA DAS CHUVAS

Prainha Represa Billings

Com o final do ano se aproximando e com o início do período das chuvas na região Centro-Sul do Brasil, agricultores e produtores rurais têm seu ânimo redobrado, na esperança de fartura de águas para o início do plantio; nas cidades, as populações se preocupam com o enchimento das represas e outros reservatórios de água, que garantirão o abastecimento nos meses vindouros. Para a vida natural, o período marca o reinício do ciclo da vida. Existe, porém, uma região, onde a chegada das chuvas tem um significado completamente diferente: falo das áreas de entorno da represa Billings, na Região Metropolitana de São Paulo, onde a chegada das chuvas é providencial para ajudar na diluição da grande quantidade de esgotos acumulados nas águas da represa

A represa Billings é o maior reservatório de águas da Região Metropolitana de São Paulo, com uma área de drenagem com aproximadamente 560 km² e uma superfície máxima de espelho d’água de 173 km². O reservatório ocupa áreas dos municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com uma capacidade total de armazenamento superior a 1 bilhão de metros cúbicos de água, maior que a soma de todas as represas que formam o Sistema Cantareira.  

Apesar de todo esse tamanho, somente uma parte das águas da represa Billings pode ser aproveitada para o abastecimento da população – um dos braços da represa foi isolado por meio de uma barragem e ainda mantém águas limpas e isentas de poluentes. A maior parte das suas águas está altamente comprometida pela presença de esgotos. Há pouco menos de duas semanas, eu visitei uma das margens da represa e fiquei assustado com o verde intenso das águas, um sinal claro da presença de grandes volumes de algas verdes nutridas pela alta concentração de esgotos. 

Concebida inicialmente como reservatório para geração de energia elétrica, a represa Billings ganhou outras características de uso com o passar do tempo. Uma das mais importantes foi a de pólo de turismo e lazer, com a utilização das margens como balneário, de suas águas para a prática de esportes náuticos, além de ser um ótimo local para a pesca artesanal. A crescente população das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, em especial da região do chamado ABCD Paulista (iniciais dos municípios de Santo, André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), transformaram a represa em uma espécie de “praia” longe da praia (vide foto).

A região sofreu forte crescimento industrial no final da década de 1950, graças à implantação do parque automobilístico brasileiro. A especulação imobiliária que se seguiu ao boom das indústrias, encontrou nas matas ao redor da represa Billings as áreas ideais para a criação e a venda de lotes populares, grande parte irregulares. Novos bairros surgiam a cada dia, sem qualquer preocupação com a implantação de uma infraestrutura urbana adequada – as águas da represa foram transformadas em receptores dos esgotos domésticos de uma população cada vez maior.  

Com o crescimento desordenado de toda a Região Metropolitana de São Paulo e o aumento da carga de poluição na bacia hidrográfica do rio Tietê, os problemas de poluição na represa Billings só fizeram aumentar. O sistema de transposição de águas do rio Tietê para a Billings, que foi durante décadas uma alternativa para manter o nível da represa e garantir uma boa geração de energia elétrica na Usina Henry Borden em Cubatão, passou a representar um seríssimo problema ambiental – grande parte da carga de esgotos despejados no rio Tietê acabava sendo transferida para as águas da represa Billings

Os problemas ambientais na Billings foram transformados em bandeira para inúmeros movimentos ambientalistas e sociais, que passaram a lutar pela recuperação e preservação do manancial. Em 1992, com a promulgação da nova Constituição Paulista, foi suspensa o bombeamento e a transferência de águas da bacia do rio Tietê para a represa Billings, exceto em situações de emergência. O que na época parecia ser um ponto de inflexão na direção de uma melhoria na qualidade das águas da represa, não tardou a se mostrar inócuo. Os lançamentos de esgotos in natura de centenas de milhares de residências, nas áreas das margens e dentro da bacia hidrográfica da Billings, não pararam de aumentar. Para piorar a situação, a geração na Usina Hidrelétrica Henry Borden foi dramaticamente reduzida. Com essa nova configuração, como um “sistema praticamente fechado”, a renovação das águas armazenadas ficou muito lenta, transformando a represa, literalmente, em uma grande fossa a céu aberto. 

A chegada da temporada das chuvas traz sempre um pouco de alívio para o corpo d’água – com grandes volumes de águas pluviais chegando na represa, há uma diluição maior do volume de esgotos e toda a biota – incluindo-se plantas, animais e moradores das áreas de entorno da Billings, conseguem respirar um pouco melhor (estou falando tanto no sentido figurativo, quanto no ato de respirar, propriamente dito). Esse alívio momentâneo nas condições da represa irá perdurar enquanto as chuvas caírem. 

Enquanto as autoridades dos diversos níveis de Governo não conseguirem unir forças para resolver, em definitivo, o problema do lançamento de esgotos na represa Billings, restará sempre a alternativa de se torcer muito por uma longa e forte temporada de chuvas. 

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AS SOMBRAS QUE RONDAM O SISTEMA CANTAREIRA

Represa do Atibainha

No início de 2014, as populações das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram surpreendidas com uma notícia alarmante: o nível do Sistema Cantareira, maior conjunto de mananciais de abastecimento dessas regiões e sobre o qual a imensa maioria da população nunca tinha ouvido falar antes, estava com um nível inferior a 30%, isso no auge do período de chuvas. Considerando-se o nível de consumo de água da população na época e o volume armazenado nas represas, chegou-se à conclusão que não haveria água suficiente para atender a todos até a chegada do próximo período das chuvas. 

A região Sudeste enfrentava naquele momento a maior seca da sua história e o volume de chuvas nas cabeceiras das nascentes dos rios formadores do Sistema Cantareira estavam com níveis muito abaixo das médias históricas. Responsável pelo abastecimento de aproximadamente 60% da população, o Sistema Cantareira corria o risco de secar antes da chegada do final do ano. Estava armada a maior crise hídrica já vivida na região. 

Mas a falta de chuvas foi apenas uma das peças desse intrincado quebra-cabeças: a falta de mecanismos de gestão e a incompetência política deram uma grande contribuição para essa crise. Duas grandes represas da Região Metropolitana estavam praticamente cheias, mas isoladas do resto do sistema de abastecimento regional, e não podiam socorrer a população. Essas represas eram a Guarapiranga, localizada na Zona Sul do município de São Paulo, e a represa Billings, um manancial com uma capacidade de armazenamento de água maior que todas as represas do Sistema Cantareira juntas e localizado entre o município de São Paulo e a região do ABCD (iniciais dos municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema). 

Sem dispor de fontes alternativas de abastecimento, as populações dessas Regiões Metropolitanas tiveram de suportar uma redução forçada do volume de água fornecido (que as autoridades recusaram admitir se tratar de um racionamento), enquanto assistiam um esforço colossal da companhia local de águas para realizar obras civis que permitissem a interligação das diversas represas do sistema de abastecimento regional. Foram meses tensos, que deixaram inúmeros traumas na população. A maior crítica contra as autoridades estaduais e diretores da empresa local de águas, é o fato de não terem sido foram emitidos comunicados antecipados alertando sobre a gravidade da situação. Aqui vale lembrar que 2014 foi um ano eleitoral e, ao que tudo indica, candidatos à reeleição tudo fizeram para esconder a gravidade da situação. 

Passados mais de quatro anos desde a crise hídrica, os paulistas receberam com reservas a informação da entrada do Sistema Cantareira em “estado de alerta” – desde o início de agosto, o nível do Sistema está abaixo dos 40%. Com os muitos traumas deixados na população desde aquela época, muitos moradores da Grande São Paulo e da Região Metropolitana de Campinas se assustam com a possibilidade, mesmo que longínqua, de uma nova crise no abastecimento de água. 

Autoridades do Governo do Estado e da Sabesp, a empresa estadual de saneamento básico, garantem que as atuais reservas de água do Sistema Cantareira são suficientes para o abastecimento da população até o final de 2019. Também informaram que uma série de obras foram concluídas, aumentando a segurança hídrica do Sistema: 

  1. Antes da crise hídrica de 2014, o consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo era de 71 mil litros de água por segundo (fevereiro de 2013). Cinco anos depois da crise hídrica, o consumo caiu para 62 mil litros – em julho último, esse consumo caiu ainda mais e está em 60 mil litros de água por segundo. A população mudou muitos dos seus hábitos de consumo e a água tem sido utilizada com uma maior consciência ambiental. De acordo com informações da Sabesp, desde o início de 2018, os volumes de água retirados do Cantareira estão de 16 a 28% abaixo do limite estabelecido para a Grande São Paulo, o que significa uma economia média de recursos hídricos de 25%
  2. Foi inaugurada a interligação entre o Sistema Cantareira e a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, com possibilidade de transferência de 5 mil litros de água por segundo; 
  3. Um novo sistema produtor, o São Lourenço, foi inaugurado e pode fornecer 6,4 mil litros de água por segundo ao sistema de abastecimento metropolitano. 

Uma outra mudança importante foi a repactuação da partilha dos recursos hídricos do Sistema Cantareira – a Grande São Paulo pode receber até 33 mil litros de água por segundo. Caso o nível do Sistema esteja abaixo de 60%, essa captação cai para 31 mil litros por segundo; com o volume abaixo de 40%, a captação cai para 27 mil litros por segundo; abaixo de 30%, a captação vai a 23 mil litros e abaixo de 20%, a captação cai para 15,5 mil litros. A nova partilha também estabelece que a região de Campinas receberá um volume de 10 mil litros de água por segundo no período seco. 

Apesar de todas as garantias dadas pelas autoridades locais, tem muita gente desconfiada nessas duas importantes Regiões do Estado de São Paulo. Para essas pessoas, as sombras da crise hídrica de 2014 ainda não se dissiparam completamente. Nem mesmo a chegada do período das chuvas nesse começo de primavera fará essas pessoas mudarem de opinião.

Como diz um velho ditado: cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça…

A CHEGADA DA PRIMAVERA E A VOLTA DAS CHUVAS NA REGIÃO CENTRO-SUL DO BRASIL

Chuvas de Primavera

Ao longo de várias semanas falamos dos conflitos entre a agricultura e as florestas, enfatizando o grande consumo de água pelas plantações. Também falamos dos problemas de perda de solos férteis, do uso intensivo de agrotóxicos e da contaminação das fontes de água por resíduos químicos – são problemas que, aparentemente, parecem distantes, mas que afetam igualmente todos os seres vivo. Com a chegada da primavera e com a volta das chuvas em importantes áreas da região Centro-Sul do país, é hora de mudarmos um pouco o nosso enfoque e voltarmos a falar dos já conhecidos problemas de enchentes e de secas localizadas. 

O território brasileiro se estende ao longo de diferentes latitudes, com as terras do extremo Norte localizadas além da Linha do Equador e com a faixa do extremo Sul bem abaixo do Trópico de Capricórnio. Diferentes zonas climáticas, como não poderia ser diferente, ocorrem em cada uma dessas regiões, indo do clima Equatorial na região coberta pela Floresta Amazônica até o clima temperado na região Subtropical dos Pampas Sulinos. O regime de chuvas em cada uma dessas zonas climáticas segue a sua própria dinâmica. 

A chamada Região Centro-Sul do Brasil compreende uma zona geoeconômica do país que inclui as regiões Sul e a maior parte da região Sudeste, com exceção do Norte do Estado de Minas Gerais, e também os Estados de Mato Grosso do Sul e Goiás, o Sul dos Estados de Tocantins e do Mato Grosso, além do Distrito Federal. Essa grande região compreende uma área total de 2,2 milhões de km², o que corresponde a cerca de 25% do território brasileiro. Você pode nunca ter prestado atenção, mas os blocos com a previsão do tempo nos telejornais sempre citam a Região Centro-Sul em seus boletins climáticos. 

Essa grande região brasileira pode ser dividida em três áreas climáticas diferentes: nos estados da região Sul e em parte do Estado de São Paulo, o clima é Subtropical; nas regiões serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o padrão climático é o chamado Tropical de Altitude; no restante da Região Centro-Sul, o clima predominante é o Tropical. Apesar de toda essa variação climática, há um ponto comum em toda essa região: as estações do ano – primavera, verão, outono e inverno, são bem definidas e o período das chuvas vai do mês de setembro até março, com uma maior intensidade nos meses de dezembro e janeiro. Na maior parte do restante do Brasil, o ano pode ser dividido em duas estações distintas – o verão, com meses quentes e secos, e o inverno, com meses quentes e chuvosos. A intensidade das chuvas varia muito de uma região para outra, sendo mais intensas entre março e julho. 

A região geoeconômica Centro-Sul concentra a maior parte da população brasileira, o que inclui as maiores cidades do país: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A chegada do período das chuvas é sempre comemorada por essas populações, que dependem dessa água para alimentar rios e represas que geram energia elétrica e abastecem as cidades. A região também concentra uma parte considerável do agronegócio brasileiro, que depende como nenhum outro da água das chuvas para irrigar lavouras e dessedentar os grandes rebanhos animais. 

Depois de vários séculos de estabilidade desde os primeiros anos da colonização do país, o clima da Região Centro-Sul vem apresentando comportamentos bastante anormais nas últimas décadas, fato que preocupa muitos especialistas. Muitas regiões, nitidamente, estão com um clima diferente de décadas atrás. Cito o caso da Região Metropolitana de São Paulo – os invernos há cinquenta anos atrás eram extremamente frios, com temperaturas que chegavam bem próximas de zero graus. Lembro bem das minhas camisas de flanela e da minha mãe ou avó gritando para não esquecer de pôr uma blusa para sair na rua. Nesses últimos anos, as temperaturas do inverno são um convite para ir até as praias da Baixada Santista. 

As chuvas também têm apresentado variações na duração das suas temporadas e elas não têm caído de forma equilibrada em todas as regiões. Alguns lugares muitas vezes sofrem com o excesso de chuva, enquanto outros, relativamente próximos, continuam sofrendo com a seca. Isso gera enormes preocupações. Entre 2014 e 2015, a Região Metropolitana de São Paulo passou por uma intensa crise hídrica, com importantes reservatórios dos diversos sistemas de abastecimento, literalmente, secando. O Sistema Cantareira, o maior conjunto de represas de armazenamento de água para o abastecimento regional, entrou no chamado Volume Morto – a água ficou abaixo do nível de captação, sendo necessárias inúmeras obras emergenciais e a adoção de medidas para economia de água por toda a população. 

A partir da próxima postagem vamos passar a acompanhar as consequências da chegada do período de chuvas nas cidades e áreas rurais, conferindo também os problemas com as típicas enchentes e também comemorar as boas notícias que chegam junto com as águas. 

 

PS: Postagem nº 600

ALGUNS NÚMEROS E FATOS IMPRESSIONANTES SOBRE OS AGROTÓXICOS

Alerta Agrotóxicos

De acordo com informações do SINDIVEG – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, entidade que reúne as empresas do setor de agroquímicos, o faturamento total dessas empresas em 2017 foi de US$ 8,9 bilhões, uma redução de 7% em relação ao ano anterior. Considerando-se a cotação do dólar (11/10/2018) – R$ 3,75, estamos falando de um faturamento de aproximadamente R$ 33,4 bilhões, ou, 0,5% do valor do PIB – Produto Interno Bruto, brasileiro, que em 2017 fechou em R$ 6,6 trilhões

Esmiuçando um pouco esse número, descobrimos que 35% do total das receitas vem da produção e venda de herbicidas, 28% dos fungicidas e 27% dos inseticidas. A cultura da soja é, de longe, a maior consumidora desses produtos, respondendo por 52% das vendas, seguida pelos setores da cana-de-açúcar (12%), milho (10%), algodão (7%) e café (3%) – juntas, essas cinco culturas consomem um volume equivalente a 84% de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil. Em termos de volume de agrotóxicos, o consumo total desse grupo de culturas é de 850 mil toneladas a cada ano,  com uma aplicação de cerca de 12 litros de produtos químicos tóxicos em cada hectare cultivado. No total, o consumo de agrotóxicos no Brasil está próximo de 1 milhão de toneladas ou 1 bilhão de litros a cada ano, volume que coloca o nosso país na posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo.

Entre os Estados consumidores, Mato Grosso aparece na primeira posição, respondendo por 21% de todos os agrotóxicos consumidos no país. Nas últimas décadas, o Estado se consolidou como maior produtor brasileiro de grãos e líder nacional na exportação de commodities agrícolas. Na segunda posição vem o Estado de São Paulo, com 15% das vendas, e o Rio Grande do Sul, com 12% dos negócios. Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul aparecem na sequência da lista dos maiores consumidores de agrotóxicos do país

Tantos números e tanto dinheiro escondem muitos problemas: 

De acordo com informações do Greenpeace Brasil, uma das mais importantes Organizações Não Governamentais de defesa do meio ambiente no mundo, mais de 20% dos agrotóxicos utilizados no Brasil utilizam substâncias ilegais, que aumentam, em muito, os riscos à saúde das populações e ao meio ambiente. Um exemplo é o acefato, substância que segundo a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, causa problemas no sistema endócrino humano – essa substância já teve seu uso proibido em toda a Europa.  

Greenpeace alerta que o uso dessas substâncias químicas, limitará cada vez mais os volumes de exportações de grãos e de carne para a União Europeia e para países como China, Estados Unidos e Índia, onde o uso desses produtos já é proibido. Dos cerca de 500 tipos diferentes de agrotóxicos autorizados para venda no Brasil, cerca de 30% são proibidos na Europa

O problema, infelizmente, vai além do uso de substâncias já proibidas em outros países – a legislação brasileira para este setor é extremamente permissiva e admite o uso de agrotóxicos em concentrações muitos superiores àquelas permitidas em outros países. E, como resultado direto, observamos em nossos produtos agrícolas, nos solos dos nossos campos e também nas fontes de água, um aumento progressivo no volume de resíduos tóxicos. 

Nessa lista, apresentamos alguns dos agrotóxicos mais usados no Brasil. O número apresentado ao lado mostra a quantidade de vezes a mais que a concentração de resíduos dessas substâncias em água potável é permitida aqui no país quando comparada com as normas da Europa: 

2,4-D (herbicida) – 300 vezes mais 

Clorpirifós (inseticida/acaricida) – 300 vezes mais 

Diuron (herbicida) – 900 vezes mais 

Mancozebe (fungicida/acaricida) – 1.800 vezes mais 

Tebuconazol (fungicida) – 1.800 vezes mais 

Glifosato (herbicida) – 5.000 vezes mais 

A contaminação das fontes de água com resíduos de agrotóxicos é, atualmente, um dos mais graves problemas ambientais de nosso país. A disponibilidade de água para o abastecimento de inúmeras cidades de todo o Brasil é cada vez menor – rios e importantes fontes de água já sofrem em demasia com a poluição por esgotos e resíduos sólidos. A baixa qualidade da água bruta (água antes do tratamento) é ainda mais agravada pela visível redução dos caudais (volume de água) de muitos rios importantes. E como se isso tudo já não fosse problemático demais, passamos a verificar um crescimento substancial no volume de resíduos de agrotóxicos nessas águas nas últimas décadas. Há ainda um outro seríssimo agravante – grande parte das ETAs – Estações de Tratamento de Água, não está preparada para eliminar esses resíduos tóxicos durante os processos de tratamento.

Com essa absoluta falta de limites, estamos assistimos a uma verdadeira invasão de resíduos de agrotóxicos em tudo o que comemos e bebemos, indo dos grãos às frutas, das verduras aos legumes, da carne ao leite e da água até as bebidas industrializadas. De acordo com projeções da Fundação Oswaldo Cruz, um dos mais respeitados centros de pesquisas médicas do Brasil, entre os anos de 2007 e 2014, mais de 1 milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos, sendo que um quinto dessas vítimas eram crianças e adolescentes

Tanto os fatos quanto os números são absolutamente intoleráveis em uma sociedade dita civilizada. 

OS AGROTÓXICOS QUE VOCÊ PÕE NA SUA MESA

Salada

Você que tem acompanhado as postagens sobre os diversos problemas que são causados pelo uso excessivo de agrotóxicos em nosso país, já deve ter se perguntado sobre os riscos que esses produtos podem trazer aos alimentos que consumimos em nosso dia a dia. Vamos explorar esse tema na postagem de hoje. 

A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, através do seu Programa de Análise dos Resíduos Tóxicos de Alimentos, realiza sistematicamente exames laboratoriais em amostras de alimentos, onde são feitos testes e medições em busca de resíduos de agrotóxicos. Os testes também procuram detectar a presença de agrotóxicos não autorizados – como se já não bastassem os problemas relativos ao uso de produtos químicos de fabricação nacional e autorizados pelos órgãos de fiscalização do Brasil, existem grandes problemas com o uso de produtos proibidos e que são contrabandeados desde países vizinhos. 

Num dos mais recentes levantamentos da ANVISA, aproximadamente 2.500 amostras de 18 tipos de alimentos foram analisadas. Veja a lista dos 10 alimentos que apresentaram os maiores níveis de contaminação – os valores percentuais indicam o total de alimentos com níveis de resíduos de agrotóxicos acima dos valores permitidos dentro de cada lote analisado: 

  1. Pimentão: 91,8%
  2. Morangos: 63,4% 
  3. Pepino: 57,4% 
  4. Alface: 54,2% 
  5. Cenoura: 49,6% 
  6. Abacaxi: 32,8% 
  7. Beterraba: 32,6% 
  8. Couve: 31,9% 
  9. Mamão: 30,4% 
  10. Tomate: 16,3% 

Um dos vegetais analisados, as batatas, produto que figura na lista dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros, felizmente, ficou na última posição na lista pesquisada – nenhum dos lotes examinados apresentou vestígios de agrotóxicos. 

Os níveis de contaminantes encontrados nessa pequena amostra de alimentos consumidos diariamente pela população assustam, ao mesmo tempo que não causam surpresa a ninguém. Conforme já comentamos anteriormente, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, mesmo não sendo o maior produtor agrícola do planeta. Cerca de 1 milhão de toneladas de agrotóxicos são aplicados anualmente em plantações de Norte a Sul do país – fazendo uma divisão simples desse volume total de produtos químicos pela nossa população, que hoje está na casa dos 208 milhões de habitantes, chegaremos ao uso de quase 5 litros de agrotóxicos para cada um dos brasileiros: é justamente uma parte desse volume de químicos tóxicos que está chegando na sua mesa, através dos alimentos que você consome com a sua família

O desenvolvimento e a utilização dos diversos tipos de agrotóxicos, especialmente ao longo do século XX, foi fundamental para o controle de diversas pragas agrícolas, que destruíam uma parte considerável das colheitas de frutas, verduras, legumes e grãos. Todo esse esforço foi fundamental para o aumento da disponibilidade de alimentos a preços cada vez menores, o que ajudou a reduzir a fome e a desnutrição em todo o mundo. O problema que vem sendo observado nas últimas décadas é que o consumo de agrotóxicos, especialmente aqui no Brasil, vem crescendo a taxas muito maiores que os volumes de alimentos produzidos.  

Para que vocês tenham uma ideia desse crescimento: desde 2008, a importação de produtos químicos usados na produção de agrotóxicos no país teve um aumento de 400%; já o volume de agrotóxicos importados, prontos para o consumo, teve um aumento de 700% no mesmo período. E olhem que esses números não incluem os agrotóxicos contrabandeados de países vizinhos, de forma a burlar os controles da fiscalização (a compra e a aplicação de agrotóxicos depende da apresentação de uma “receita”, emitida por um profissional licenciado em agronomia/agricultura). 

Uma das razões desse uso abusivo de agrotóxicos aqui no Brasil está na nossa legislação: um estudo recente demonstrou que as nossas leis permitem um nível de contaminação dos corpos d’água com níveis de agrotóxicos num nível 5 mil vezes superior ao que é permitido em países da Europa. No caso de grãos como o feijão e a soja, os limites de contaminantes tolerados pela legislação brasileira são, respectivamente, 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa. Não é à toa que todos nós, brasileiros, estamos sendo envenenados um pouco a cada dia com alguns dos produtos químicos mais venenosos já criados ao longo da história. 

Uma das formas de se reduzir os níveis dos resíduos de agrotóxicos presentes nesses alimentos é submetê-los a uma ótima higienização, lavando-os com muita água corrente. Estudos indicam que folhagens como alface, rúcula e agrião, devidamente lavados e deixados em repouso numa solução de hipoclorito de sódio, podem ter os resíduos tóxicos reduzidos em até 90%. Muitas frutas e legumes, sem qualquer exagero, podem ter suas cascas lavadas com detergente e uma esponja de espuma antes de serem cortados e preparados, uma providência que ajudará muito na redução dos resíduos tóxicos. Muitos consumidores têm assumido posições mais radicais e só se alimentam com produtos orgânicos, que apesar de mais caros, apresentam riscos de contaminação muito menores (há sempre o risco da presença de resíduos tóxicos carregados pelos ventos ou pela água usada na irrigação – risco zero é muito difícil de se atingir).

A se persistir a atual situação, não tardará muito a termos de escolher entre morrer de fome ou sermos envenenados lentamente pelos agrotóxicos. 

OS CONFLITOS ENTRE A SOJA E AS UVAS NA REGIÃO DA CAMPANHA GAÚCHA: UM CASO PRÁTICO

Vinhos da Campanha Gaúcha

A contaminação do meio ambiente, especialmente das fontes de água, por resíduos de agrotóxicos é, atualmente, um dos maiores problemas ambientais de nosso país. Conforme apresentamos nas postagens anteriores, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo – anualmente, quase 1 milhão de toneladas (1 bilhão de litros) de produtos químicos altamente tóxicos são aplicados em lavouras por todo o Brasil. Fazendo uma conta rápida, são 5 litros de agrotóxicos lançados no meio ambiente para cada um dos brasileiros. É muita coisa. 

Vamos mudar um pouco a temática dos nossos textos – ao invés de falarmos mais uma vez dos riscos e dos problemas criados por esse imenso volume de venenos agrícolas ao meio ambiente, vamos mostrar os prejuízos econômicos que alguns produtores rurais estão sofrendo por causa de resíduos de agrotóxicos que chegam às suas propriedades, arrastados pelos ventos. Estamos nos referindo aos produtores de uva da região da Campanha Gaúcha, no Estado do Rio Grande do Sul

Regiões de clima temperado, com invernos frios e verões quentes são as mais adequadas para o cultivo da uva. Existem duas faixas climáticas no mundo onde se encontram condições excepcionais para a produção de bons vinhos – essas regiões produtoras são conhecidas como os Paralelos do Vinho. No Hemisfério Norte, essa faixa fica localizada entre os paralelos 30 e 40° Norte e incorpora algumas das mais tradicionais regiões produtoras de vinho do mundo na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. No Hemisfério Sul, essa faixa climática fica entre os paralelos 30 e 40° Sul e compreende áreas da Argentina, Uruguai, Chile, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. A região da Campanha Gaúcha, no extremo Sul do Brasil, é uma importante representante brasileira na região dos Paralelos do Vinho desde a década de 1980

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a Campanha Gaúcha é a região vinícola mais quente e com o menor volume de chuvas do Brasil, contando com uma área de vinhedos com aproximadamente 1.560 hectares (dados de 2015). A região está distribuída em 12 municípios gaúchos, com destaque para Santana do Livramento, Bagé, Candiota, Dom Pedrito e Quaraí. As principais variedades de uvas cultivadas na região para vinhos tintos são a Cabernet Sauvingnon, Tannat, Pinot Noir, Merlot e Cabernet Franc, além das variedades específicas para vinhos brancos Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling Itálico.

A relativa “tranquilidade” dos produtores de uva da região da Campanha já não é mais a mesma de anos atrás – as plantações locais vêm sofrendo problemas de contaminação de resíduos tóxicos de outras culturas vizinhas. Muitos produtores de uva da região reclamam que suas culturas estão sendo contaminadas por resíduos de agrotóxicos de plantações de soja próximas. Resíduos de um herbicida utilizado para eliminar as ervas daninhas antes do plantio da soja, o 2,4-D, estão sendo arrastados pelos ventos na direção dos vinhedos e estão provocando uma redução de até 70% na produção de uvas.  

O 2,4-D é o segundo agrotóxico mais vendido no Brasil e, de acordo com os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização – ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, IBAMA – Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis, e Ministério da Agricultura, o uso do produto é seguro. A soja é um dos grãos mais produzidos no país e o Rio Grande do Sul, conforme apresentamos em postagem anterior, foi o berço da cultura no país e hoje ocupa a terceira posição entre os Estados produtores, respondendo por cerca de 16% de toda a soja produzida no Brasil. A cultura do grão é tão disseminada no Estado que, conforme apresentamos na postagem anterior, a segunda maior frota de aeronaves agrícolas em operação no país está localizada no Rio Grande do Sul e tem na cultura o seu grande mercado comercial. 

Com tantos campos de soja e com grandes volumes de agrotóxicos sendo despejados nessas plantações, começou a acontecer o inevitável: resíduos de agrotóxicos lançados nas plantações de soja estão sendo espalhados pelos ventos (estudos mostram que os ventos podem espalhar esses resíduos por distâncias de até 30 km), e começaram a chegar aos vinhedos da região da Campanha. O produto químico, que é “inofensivo” para a soja, é fatal para os vinhedos e vem provocando uma redução na produtividade entre 30 e 70%, conforme a proximidade das plantações em relação as regiões cultivadas com soja. Análises químicas feitas nos resíduos encontrados nessas plantações não deixaram qualquer dúvida – o produto químico é mesmo o 2,4-D. 

A uva é a principal matéria prima das indústrias vinícolas locais e o processamento das frutas em toda a cadeia produtiva do vinho agrega valor e cria uma infinidade de empregos altamente especializados, além de gerar importantes receitas tributárias para os municípios dessa região do Rio Grande do Sul. Uma quebra na produção de uvas nessa ordem de grandeza pode, literalmente, inviabilizar toda a produção vinícola da Campanha Gaúcha. E não são apenas as vinícolas que sofrem prejuízos: toda a cadeia produtiva será comprometida, o que inclui a produção de garrafas, rótulos, embalagens, máquinas e equipamentos, serviços de manutenção e vendas de peças de reposição, além de atividades nas áreas comercial e de transportes, entre outras. 

A grande discussão que se desenrola hoje na região da Campanha Gaúcha é quem vai pagar o prejuízo. As grandes indústrias de agrotóxicos já lavaram as mãos e afirmaram que a responsabilidade pelo problema é dos produtores rurais, que não seguiram as recomendações técnicas para aplicação dos produtos. Alguns produtores de soja até fizeram um mea culpa, afirmando que vão mudar os procedimentos de aplicação dos agrotóxicos, evitando o uso de aeronaves agrícolas em plantações muito próximas da região da Campanha Gaúcha. Também prometem evitar a aplicação dos agrotóxicos por métodos mais tradicionais em dias de muito vento. Até agora, nenhum dos grupos envolvidos colocou a mão no bolso e indenizou os produtores de uva pelos prejuízos já sofridos – a chance de isso acontecer, falando de forma muito realística, é bastante remota. 

Como os populares costumam falar, os produtores de uva da Campanha Gaúcha acabaram com um grande “mico” nas suas mãos…