AS SOMBRAS QUE RONDAM O SISTEMA CANTAREIRA

Represa do Atibainha

No início de 2014, as populações das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram surpreendidas com uma notícia alarmante: o nível do Sistema Cantareira, maior conjunto de mananciais de abastecimento dessas regiões e sobre o qual a imensa maioria da população nunca tinha ouvido falar antes, estava com um nível inferior a 30%, isso no auge do período de chuvas. Considerando-se o nível de consumo de água da população na época e o volume armazenado nas represas, chegou-se à conclusão que não haveria água suficiente para atender a todos até a chegada do próximo período das chuvas. 

A região Sudeste enfrentava naquele momento a maior seca da sua história e o volume de chuvas nas cabeceiras das nascentes dos rios formadores do Sistema Cantareira estavam com níveis muito abaixo das médias históricas. Responsável pelo abastecimento de aproximadamente 60% da população, o Sistema Cantareira corria o risco de secar antes da chegada do final do ano. Estava armada a maior crise hídrica já vivida na região. 

Mas a falta de chuvas foi apenas uma das peças desse intrincado quebra-cabeças: a falta de mecanismos de gestão e a incompetência política deram uma grande contribuição para essa crise. Duas grandes represas da Região Metropolitana estavam praticamente cheias, mas isoladas do resto do sistema de abastecimento regional, e não podiam socorrer a população. Essas represas eram a Guarapiranga, localizada na Zona Sul do município de São Paulo, e a represa Billings, um manancial com uma capacidade de armazenamento de água maior que todas as represas do Sistema Cantareira juntas e localizado entre o município de São Paulo e a região do ABCD (iniciais dos municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema). 

Sem dispor de fontes alternativas de abastecimento, as populações dessas Regiões Metropolitanas tiveram de suportar uma redução forçada do volume de água fornecido (que as autoridades recusaram admitir se tratar de um racionamento), enquanto assistiam um esforço colossal da companhia local de águas para realizar obras civis que permitissem a interligação das diversas represas do sistema de abastecimento regional. Foram meses tensos, que deixaram inúmeros traumas na população. A maior crítica contra as autoridades estaduais e diretores da empresa local de águas, é o fato de não terem sido foram emitidos comunicados antecipados alertando sobre a gravidade da situação. Aqui vale lembrar que 2014 foi um ano eleitoral e, ao que tudo indica, candidatos à reeleição tudo fizeram para esconder a gravidade da situação. 

Passados mais de quatro anos desde a crise hídrica, os paulistas receberam com reservas a informação da entrada do Sistema Cantareira em “estado de alerta” – desde o início de agosto, o nível do Sistema está abaixo dos 40%. Com os muitos traumas deixados na população desde aquela época, muitos moradores da Grande São Paulo e da Região Metropolitana de Campinas se assustam com a possibilidade, mesmo que longínqua, de uma nova crise no abastecimento de água. 

Autoridades do Governo do Estado e da Sabesp, a empresa estadual de saneamento básico, garantem que as atuais reservas de água do Sistema Cantareira são suficientes para o abastecimento da população até o final de 2019. Também informaram que uma série de obras foram concluídas, aumentando a segurança hídrica do Sistema: 

  1. Antes da crise hídrica de 2014, o consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo era de 71 mil litros de água por segundo (fevereiro de 2013). Cinco anos depois da crise hídrica, o consumo caiu para 62 mil litros – em julho último, esse consumo caiu ainda mais e está em 60 mil litros de água por segundo. A população mudou muitos dos seus hábitos de consumo e a água tem sido utilizada com uma maior consciência ambiental. De acordo com informações da Sabesp, desde o início de 2018, os volumes de água retirados do Cantareira estão de 16 a 28% abaixo do limite estabelecido para a Grande São Paulo, o que significa uma economia média de recursos hídricos de 25%
  2. Foi inaugurada a interligação entre o Sistema Cantareira e a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, com possibilidade de transferência de 5 mil litros de água por segundo; 
  3. Um novo sistema produtor, o São Lourenço, foi inaugurado e pode fornecer 6,4 mil litros de água por segundo ao sistema de abastecimento metropolitano. 

Uma outra mudança importante foi a repactuação da partilha dos recursos hídricos do Sistema Cantareira – a Grande São Paulo pode receber até 33 mil litros de água por segundo. Caso o nível do Sistema esteja abaixo de 60%, essa captação cai para 31 mil litros por segundo; com o volume abaixo de 40%, a captação cai para 27 mil litros por segundo; abaixo de 30%, a captação vai a 23 mil litros e abaixo de 20%, a captação cai para 15,5 mil litros. A nova partilha também estabelece que a região de Campinas receberá um volume de 10 mil litros de água por segundo no período seco. 

Apesar de todas as garantias dadas pelas autoridades locais, tem muita gente desconfiada nessas duas importantes Regiões do Estado de São Paulo. Para essas pessoas, as sombras da crise hídrica de 2014 ainda não se dissiparam completamente. Nem mesmo a chegada do período das chuvas nesse começo de primavera fará essas pessoas mudarem de opinião.

Como diz um velho ditado: cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça…

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