A POLÊMICA APLICAÇÃO DE AGROTÓXICOS POR AVIÕES AGRÍCOLAS

Aviação Agrícola

No início de maio de 2013, o piloto de um avião agrícola que estava realizando a pulverização de lavouras de milho na região de Rio Verde, no Estado de Goiás, cometeu um erro operacional gravíssimo – ele acabou despejando um grande volume de inseticidas agrícola sobre uma escola do Assentamento Pontal dos Buritis, nas margens da Rodovia GO-174. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros local, haviam 122 alunos no local no momento do acidente – 37 pessoas foram intoxicadas, sendo que 8 eram professores e funcionários da escola e 29 eram alunos, com idades entre 6 e 14. Felizmente, não houve nenhuma morte. 

Longe de ser um caso isolado, esse acidente mostra os riscos que a pulverização de agrotóxicos com o uso de aviões tem levado às populações que moram nas proximidades dos grandes campos agrícolas brasileiros. Além dos riscos de um erro semelhante ao que foi cometido pelo piloto de Rio Verde, estudos demonstram que os ventos podem carregar resíduos de agrotóxicos lançados por aeronaves a distâncias de até 30 km. Se considerarmos que grande parte do território brasileiro está ocupada por imensos campos agrícolas, os riscos para as populações de inúmeras cidades interioranas são muito grandes. 

De acordo com informações do SINDAG – Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, o país possuía uma frota de 2.115 em 2017. Esses números colocam o Brasil na segunda colocação entre os países com maior frota de aeronaves agrícolas, onde se incluem aviões e helicópteros. Entre os Estados, Mato Grosso aparece na primeira posição 464 aeronaves registradas, seguido pelo Rio Grande do Sul com 427 aeronaves e de São Paulo com 312 aeronaves. O uso cada vez maior de aeronaves agrícolas em nosso país se deve ao modelo de agronegócios adotado no Brasil, onde campos agrícolas cada vez maiores estão sendo usados para a produção de grãos em larga escala. Para aplicar agrotóxicos em áreas cada vez maiores, o uso de aeronaves se mostra altamente eficiente. 

Para que todos tenham uma noção exata do tamanho dessa frota, ela corresponde a 68% da frota nacional de aeronaves, onde se incluem também todas as aeronaves comerciais e militares. Outro detalhe importante é que 60% dos aviões utilizados nas operações de aplicação de agrotóxicos são de produção nacional. Esses números mostram o tamanho dos interesses econômicos que estão por trás da atividade e também o poder do lobby político que se desenrola nos bastidores do poder. A atividade gera inúmeros postos de trabalho, onde se incluem pilotos, mecânicos, operadores de voô, fabricantes de peças de reposição, óleos e combustíveis – é um mercado multimilionário.

A aplicação de agrotóxicos por aviões gera uma dispersão descontrolada de resíduos de agrotóxicos, que vem aumentar ainda mais os problemas já conhecidos, onde solos, fontes de água e trabalhadores rurais estão sendo cada vez mais expostos ao contato com esses resíduos tóxicos. Os ventos podem carregar grandes quantidades dos produtos químicos a longas distâncias, atingindo cidades e vilas, terras indígenas e, particularmente, os poucos fragmentos florestais de matas nativas remanescentes. No mundo inteiro, conforme comentamos em postagem anterior, calcula-se entre 200 e 300 mil as mortes anuais de seres humanos devido a problemas associados à contaminação por agrotóxicos. A questão da pulverização aérea desses produtos é tão grave que, em muitos países da Europa e no Canadá, essas operações já foram proibidas. 

Aqui no Brasil, existem vários parlamentares que trabalham no sentido de proibir ou regulamentar, da melhor maneira possível, esse tipo de atividade. Em 2012, citando um exemplo, um projeto apresentado na Assembleia Legislativa do Paraná acabou sendo arquivado por ser considerado inconstitucional. Um novo projeto foi apresentado por um deputado do Estado e está aguardando a apreciação da Assembleia local. Em minha opinião, as chances desse projeto prosperar, tanto a nível estadual quanto federal, são mínimas – a força do agronegócio é imensa e existem bancadas inteiras de deputados e senadores com fortes ligações com esse setor econômico. Só para lembrar, o setor de agronegócios responde por quase 25% do PIB – Produto Interno Bruto, brasileiro e a produção rural nas últimas décadas é um dos poucos setores da economia que vem crescendo consistentemente no país

Uma das grandes questões levantadas por essa discussão, e que merece a nossa reflexão, é saber quem é o verdadeiro culpado: o uso de aviões, a periculosidade dos produtos químicos, a diluição ou as quantidades de agrotóxicos que são aplicadas? Para muitos analistas, mesmo que se proíba o uso das aeronaves agrícolas, o problema da dispersão dos resíduos de agrotóxicos vai continuar devido aos usos e formulações erradas, onde concentrações excessivas dos produtos são aplicadas nas culturas. 

Espremida entre os diversos interesses econômicos, políticos e sociais, a questão ambiental é transformada numa espécie de refém do problema. São muitas as vozes que gritam em uníssono sobre a importância do agronegócio e de todas as receitas geradas pelas exportações de commodities agrícolas. Enquanto isso, populações são expostas direta e indiretamente a grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos que, conforme já comentamos em postagem anterior, vão se acumulando no organismo das pessoas e, com o passar do tempo, poderão culminar com o desenvolvimento de inúmeras doenças, muitas delas fatais. 

Em resumo: se ficar, o agrotóxico te pega; se correr, as nuvens de resíduos de produtos químicos arrastadas pelos ventos te comem… 

Um detalhe importante – os grandes produtores rurais e suas famílias, normalmente, moram nas grandes metrópoles, bem longe das problemáticas áreas rurais. 

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