OS CONFLITOS ENTRE A SOJA E AS UVAS NA REGIÃO DA CAMPANHA GAÚCHA: UM CASO PRÁTICO

Vinhos da Campanha Gaúcha

A contaminação do meio ambiente, especialmente das fontes de água, por resíduos de agrotóxicos é, atualmente, um dos maiores problemas ambientais de nosso país. Conforme apresentamos nas postagens anteriores, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo – anualmente, quase 1 milhão de toneladas (1 bilhão de litros) de produtos químicos altamente tóxicos são aplicados em lavouras por todo o Brasil. Fazendo uma conta rápida, são 5 litros de agrotóxicos lançados no meio ambiente para cada um dos brasileiros. É muita coisa. 

Vamos mudar um pouco a temática dos nossos textos – ao invés de falarmos mais uma vez dos riscos e dos problemas criados por esse imenso volume de venenos agrícolas ao meio ambiente, vamos mostrar os prejuízos econômicos que alguns produtores rurais estão sofrendo por causa de resíduos de agrotóxicos que chegam às suas propriedades, arrastados pelos ventos. Estamos nos referindo aos produtores de uva da região da Campanha Gaúcha, no Estado do Rio Grande do Sul

Regiões de clima temperado, com invernos frios e verões quentes são as mais adequadas para o cultivo da uva. Existem duas faixas climáticas no mundo onde se encontram condições excepcionais para a produção de bons vinhos – essas regiões produtoras são conhecidas como os Paralelos do Vinho. No Hemisfério Norte, essa faixa fica localizada entre os paralelos 30 e 40° Norte e incorpora algumas das mais tradicionais regiões produtoras de vinho do mundo na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. No Hemisfério Sul, essa faixa climática fica entre os paralelos 30 e 40° Sul e compreende áreas da Argentina, Uruguai, Chile, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. A região da Campanha Gaúcha, no extremo Sul do Brasil, é uma importante representante brasileira na região dos Paralelos do Vinho desde a década de 1980

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a Campanha Gaúcha é a região vinícola mais quente e com o menor volume de chuvas do Brasil, contando com uma área de vinhedos com aproximadamente 1.560 hectares (dados de 2015). A região está distribuída em 12 municípios gaúchos, com destaque para Santana do Livramento, Bagé, Candiota, Dom Pedrito e Quaraí. As principais variedades de uvas cultivadas na região para vinhos tintos são a Cabernet Sauvingnon, Tannat, Pinot Noir, Merlot e Cabernet Franc, além das variedades específicas para vinhos brancos Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling Itálico.

A relativa “tranquilidade” dos produtores de uva da região da Campanha já não é mais a mesma de anos atrás – as plantações locais vêm sofrendo problemas de contaminação de resíduos tóxicos de outras culturas vizinhas. Muitos produtores de uva da região reclamam que suas culturas estão sendo contaminadas por resíduos de agrotóxicos de plantações de soja próximas. Resíduos de um herbicida utilizado para eliminar as ervas daninhas antes do plantio da soja, o 2,4-D, estão sendo arrastados pelos ventos na direção dos vinhedos e estão provocando uma redução de até 70% na produção de uvas.  

O 2,4-D é o segundo agrotóxico mais vendido no Brasil e, de acordo com os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização – ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, IBAMA – Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis, e Ministério da Agricultura, o uso do produto é seguro. A soja é um dos grãos mais produzidos no país e o Rio Grande do Sul, conforme apresentamos em postagem anterior, foi o berço da cultura no país e hoje ocupa a terceira posição entre os Estados produtores, respondendo por cerca de 16% de toda a soja produzida no Brasil. A cultura do grão é tão disseminada no Estado que, conforme apresentamos na postagem anterior, a segunda maior frota de aeronaves agrícolas em operação no país está localizada no Rio Grande do Sul e tem na cultura o seu grande mercado comercial. 

Com tantos campos de soja e com grandes volumes de agrotóxicos sendo despejados nessas plantações, começou a acontecer o inevitável: resíduos de agrotóxicos lançados nas plantações de soja estão sendo espalhados pelos ventos (estudos mostram que os ventos podem espalhar esses resíduos por distâncias de até 30 km), e começaram a chegar aos vinhedos da região da Campanha. O produto químico, que é “inofensivo” para a soja, é fatal para os vinhedos e vem provocando uma redução na produtividade entre 30 e 70%, conforme a proximidade das plantações em relação as regiões cultivadas com soja. Análises químicas feitas nos resíduos encontrados nessas plantações não deixaram qualquer dúvida – o produto químico é mesmo o 2,4-D. 

A uva é a principal matéria prima das indústrias vinícolas locais e o processamento das frutas em toda a cadeia produtiva do vinho agrega valor e cria uma infinidade de empregos altamente especializados, além de gerar importantes receitas tributárias para os municípios dessa região do Rio Grande do Sul. Uma quebra na produção de uvas nessa ordem de grandeza pode, literalmente, inviabilizar toda a produção vinícola da Campanha Gaúcha. E não são apenas as vinícolas que sofrem prejuízos: toda a cadeia produtiva será comprometida, o que inclui a produção de garrafas, rótulos, embalagens, máquinas e equipamentos, serviços de manutenção e vendas de peças de reposição, além de atividades nas áreas comercial e de transportes, entre outras. 

A grande discussão que se desenrola hoje na região da Campanha Gaúcha é quem vai pagar o prejuízo. As grandes indústrias de agrotóxicos já lavaram as mãos e afirmaram que a responsabilidade pelo problema é dos produtores rurais, que não seguiram as recomendações técnicas para aplicação dos produtos. Alguns produtores de soja até fizeram um mea culpa, afirmando que vão mudar os procedimentos de aplicação dos agrotóxicos, evitando o uso de aeronaves agrícolas em plantações muito próximas da região da Campanha Gaúcha. Também prometem evitar a aplicação dos agrotóxicos por métodos mais tradicionais em dias de muito vento. Até agora, nenhum dos grupos envolvidos colocou a mão no bolso e indenizou os produtores de uva pelos prejuízos já sofridos – a chance de isso acontecer, falando de forma muito realística, é bastante remota. 

Como os populares costumam falar, os produtores de uva da Campanha Gaúcha acabaram com um grande “mico” nas suas mãos… 

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