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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

PESQUISA REVELA QUE 30% DA ÁGUA CONSUMIDA POR COMUNIDADES RURAIS DE GOIÁS ESTÁ CONTAMINADA 

Na nossa última postagem falamos de estudos meteorológicos que confirmam a chegada do fenômeno climático El Niño. Conforme apresentamos, esse fenômeno se caracteriza por um aquecimento anormal das águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico, o que vai provocar alterações no clima de todo o mundo. 

Aqui no Brasil, o El Niño costuma provocar uma redução das chuvas nas Regiões Norte e Nordeste, ao mesmo tempo em faz as chuvas aumentarem na Região Sul. Os produtores rurais dessas regiões temem pelos impactos tanto do excesso quanto da falta de chuvas em suas respectivas produções agrícolas e pecuárias. Só lembrando: cerca de 70% da água disponível em uma região é usada pela agricultura e pecuária. 

As preocupações com esses grandes consumidores de água muitas vezes nos fazem esquecer do pequeno consumo diário necessário para a sobrevivência das populações. De acordo com recomendações da OMS – Organização Mundial da Saúde, cada pessoa tem o direito de ter, pelo menos, 100 litros de água à sua disposição a cada dia. 

Essa água se destina a saciar a sede, cozinhar, tomar banho, eliminar os dejetos sanitários, lavar roupa e limpar a habitação. Em regiões bem desenvolvidas e com uma boa infraestrutura, essa meta é atingida com folga – um exemplo é a cidade de São Paulo, onde a população pode consumir 150 litros de água per capita. Em regiões pobres e de clima árido e/ou semiárido, as populações sobrevivem com apenas uma fração disso – algo entre 5 e 20 litros por dia. 

Um exemplo de como muitas vezes esse consumo individual de água acaba sendo desprezado por governantes e autoridades é o que foi constatado por uma pesquisa do IPTSP/UFG – Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás. Análises feitas em águas subterrâneas e superficiais consumidas por comunidades rurais apresentavam altos índices de contaminação por patógenos. 

Entre os principais contaminantes encontrados estavam os resíduos fecais, ou seja, essas águas receberam lançamentos de esgotos contaminados por fezes humanas ou de animais. Em cerca de 30% das amostras de água contaminada foram encontrados vírus responsáveis pela transmissão de doenças gastrointestinais e diarreias. 

Antes de tudo, é preciso comentar que o foco da equipe de pesquisa eram os patógenos presentes na água. As amostras coletadas, é claro, também apresentaram outros contaminantes como resíduos de feritilizantes e de pesticidas, resíduos de mineração, óleos entre outros. 

Rotavírus, um vírus da família Reoviridae, que é um dos principais agentes causadores de doenças diarreicas agudas e um dos principais causadores de diarreia grave em crianças menores de 5 anos, foi encontrado em 20% dessas amostras. 

Em 9,4% das amostras foram encontrados adenovírus humano, um grupo de vírus que normalmente causam doenças respiratórias, como um resfriado comum, a conjuntivite (uma infecção no olho), crupe, bronquite ou pneumonia. Nas crianças, os adenovírus geralmente causam infecções no trato respiratório e no trato intestinal. 

Em outros 4,4% dessas amostras foram encontrados enterovírus, que são responsáveis por uma grande diversidade de doenças especialmente em crianças – as chamadas viroses. Essas doenças normalmente afetam o trato gastrointestinal, causando sintomas como febre, vômitos e dor de garganta. 

Os pesquisadores coletaram 160 amostras de água em diferentes tipos de fontes: poços rasos escavados (conhecidos como cacimbas em muitas regiões), poços tubulares profundos, nascentes, mananciais superficiais, água de chuva armazenada em cisterna e em caminhões pipa. 

O rotavírus foi encontrado com maior frequência em fontes subterrâneas como os poços rasos. Em amostras coletadas em nascentes, 11,8% apresentaram contaminação por adenovírus humano. Nas amostras coletadas em cisternas foram encontrados adenovírus humano e rotavírus em proporções equivalentes – 15,8%. 

Os pesquisadores ficaram surpresos com a expressiva contaminação de águas em fontes profundas como os poços tubulares. Normalmente, por causa do seu fácil acesso, são as fontes superficiais de água que estão mais susceptíveis à contaminação, especialmente por esgotos. 

Além de todas as preocupações com os mais diferentes tipos de contaminantes encontrados nas fontes de água, que também podem ser bastante prejudiciais à saúde, é extremamente preocupante os riscos diretos desses patógenos para saúde das populações das comunidades rurais de Goiás. A diarreia, por exemplo, é uma doença chamada de “assassina silenciosa de crianças”. 

A diarreia é a segunda maior causa de morte de crianças com menos de 5 anos no mundo – são cerca de 1,5 milhões de mortes a cada ano. No Brasil, morrem em média 3 crianças por dia por causa da doença, sendo que em muitos casos, a doença foi contraída justamente por causa do consumo de água contaminada. 

Uma questão que chama a atenção nesse estudo é o fato do Estado de Goiás estar localizado integralmente dentro dos domínios do Cerrado Brasileiro. Os solos desse bioma são bastante permeáveis, uma característica que facilita a infiltração da água da chuva na direção de aquíferos e lençóis subterrâneos de água

É provável – grifo do blog, que essa permeabilidade esteja facilitando a contaminação das reservas subterrâneas de água por esses vírus. Caso isso se confirme, é provável que em outros Estados inseridos no bioma apresentem problemas bastante semelhantes. 

Normalmente, são as fontes de águas superficiais como riachos, rios, lagos e represas as mais susceptíveis a essas contaminações. Porém, é sempre importante lembrar que todas as fontes de água são importantes – especialmente aquelas que se destinam ao abastecimento de populações humanas. Todo o cuidado com elas é pouco! 

AGORA É OFICIAL: METEOROLOGISTAS CONFIRMAM A CHEGADA DO EL NIÑO

Depois de toda uma série de comunicados cautelosos, o Centro de Previsão Climática da NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, confirmou a formação do fenômeno climático El Niño entre o final do outono e início do inverno. Só para esclarecer – o início oficial do inverno no Hemisfério Sul é dia 21 de junho. 

O El Niño é um fenômeno climático com reflexos em todo o mundo e que se caracteriza por um aquecimento anormal e persistente das águas superficiais do Oceano Pacífico ao longo da Linha do Equador. Em média, as águas nessa faixa do oceano ficam 0,5º C mais quentes por um período entre seis meses e dois anos durante a duração do fenômeno.  

Apesar de parecer pouca coisa, esse aumento das temperaturas nas águas de uma faixa no Oceano Pacífico tem repercussões em todo o mundo. Um exemplo foi o forte El Niño que se formou em 2015, que prejudicou lavouras de cacau, chá e café em toda a Ásia e África. Também provocou uma forte seca no Sudeste Asiático, favorecendo o surgimento de vários incêndios florestais. 

Naquele ano também se observou o inverno mais quente já registrado nos Estados Unidos. Na América do Sul, o surgimento do El Niño pode resultar em períodos de seca na região Centro-Norte e de maior umidade na região Sul, Na Argentina, o fenômeno tende a provocar chuvas mais intensas.   

De acordo com informações do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, órgão vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, a chegada do El Niño aumenta o risco de chuvas na Região Sul do País e de seca nas Regiões Norte e Nordeste. Porém, o órgão esclarece que existem outros fenômenos climáticos que precisam ser levados em consideração. 

No El Niño de 2015, exemplificando melhor, as chuvas no último trimestre do ano na Amazônia diminuíram 50% em relação à média e continuaram abaixo da média durante o primeiro semestre de 2016. De acordo com dados do INMET essa foi a maior redução no nível de chuvas na região desde 2002. 

Na Região Nordeste no mesmo período, o El Niño provocou uma seca extrema e excepcional em todos os Estados da Região, sendo que Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte foram mais fortemente atingidos. 

De acordo com dados da FUNCEME – Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, 75% do território do Ceará apresentou seca extrema ou excepcional. Dos 184 municípios do Estado, 128 decretaram situação de emergência por conta da seca ou da estiagem. O volume de água armazenada nos principais reservatórios do Estado caiu para 8,8%, um dos piores resultados em mais de 20 anos. 

Já na Região Sul, esse período foi marcado por chuvas intensas, o que prejudicou as fases de semeadura e desenvolvimento de lavouras como a soja e o milho. Na região Centro-Oeste, onde a agricultura é uma das principais atividades econômicas, o início da temporada das chuvas atrasou, prejudicando bastante os agricultores, que seguem um rigoroso calendário com as datas de plantio e de colheitas.

É esse o cenário de expectativas e de incertezas que cerca a chegada do El Niño 2023, num país onde as atividades agropecuárias ganharam uma importância ímpar nos últimos anos. Todos devem ter acompanhado nos noticiários a grata surpresa que o crescimento do agronegócio trouxe para o PIB – Produto Interno Bruto, do primeiro semestre de 2023. 

Segundo os números divulgados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o PIB avançou 1,9% no período. Esse resultado foi turbinado pelas atividades agropecuárias, que registraram um crescimento de 21,6% no período, o maior desde 1996. 

A chegada do El Niño poderá jogar “água na fervura desse angu”, ou seja, tanto o excesso de chuvas em algumas regiões quanto a seca em outras poderão comprometer a agricultura e a pecuária, corroendo todos os excepcionais ganhos desses setores no primeiro trimestre de 2023. 

Em espanhol, El Niño significa “o menino”, que nós aqui no canal costumamos chamar de “menino travesso” – ele mal chegou e todos nós já estamos preocupados com as traquinagens e problemas que ele vai causar. Ele, bem por acaso, tem uma irmã – La Niña, cuja ocorrência é alternada com o El Niño e causa tantos problemas climáticos quanto o irmão. 

A todos nós resta esperar para ver qual vai ser o tamanho do estrago desta vez… 

OS GRANDES INCÊNDIOS FLORESTAIS NA SIBÉRIA, OU A TAIGA PEGANDO FOGO 

De acordo com informações da Agência Federal das Florestas da Rússia, o país enfrentava 54 grandes incêndios florestais em 18 regiões – principalmente na Sibéria e no Extremo Oriente, até o dia 8 de maio. Esses incêndios já haviam consumido até então cerca de 9,3 mil km² de matas, deixando ao menos 21 mortos

Essa área é pouca coisa menor que os 11,5 mil km² devastados na Floresta Amazônica em 2022. Considerando que já estamos chegando a meados de junho e que não consegui localizar dados mais atualizados sobre os incêndios na Rússia, é muito provável que uma área bem maior já tenha sido destruída pelo fogo até esse momento. 

A Floresta Amazônica, como imagino que todos a essa altura já saibam, é a maior floresta tropical (o mais correto é usar o termo equatorial) do mundo, ocupando uma área com aproximadamente 5,5 milhões de km² no Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. 

Muita gente nem imagina, mas, a Amazônia está bem longe de ser a maior floresta do mundo ou ainda o “pulmão do mundo”. Esse título cabe, com louvor, à taiga, a floresta boreal do Hemisfério Norte ou, simplesmente, a floresta das coníferas. Essa floresta ocupa uma área de 15 milhões de km², praticamente três vezes o tamanho da Floresta Amazônica. 

A taiga circunda toda uma faixa de terras do planeta no Hemisfério Norte entre os paralelos 40 e 70 graus. A floresta engloba terras na Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Coreia e Norte do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca. As principais espécies vegetais dessa floresta são pinheiros, piceas, bétulas e lariços.    

Ocupando terras remotas e pouco habitadas do “Norte gelado”, a taiga permaneceu praticamente intocada por vários séculos. As grandes agressões ao bioma começaram após a formação da União Soviética, quando a exploração da madeira passou a atender cotas da burocracia soviética. Frentes de trabalhadores, muitos deles presos políticos do regime, eram enviadas para as regiões onde o bioma predominava. Outra frente importante de pressão, essa no lado ocidental, começou no Canadá, país que se transformou em importante produtor de madeira, celulose e papel.  

Devido ao clima extremo das regiões boreais, com longos invernos congelantes, as árvores da taiga têm um ritmo de crescimento muito mais lento do que vemos nas áreas tropicais e equatoriais. Enquanto as árvores da Floresta Amazônica recebem uma forte radiação solar durante praticamente todos os dias do ano, a vegetação da taiga conta com insolação adequada entre 3 e 5 meses ao logo do ano – quanto mais ao Norte, menos dias de forte insolação.   

Diferente das florestas tropicais, onde o grande agente destruidor são os seres humanos, a taiga também está sofrendo um processo de destruição “natural” por causa do aquecimento global (observem o uso das aspas). Com o aumento gradual das temperaturas em toda a área de ocorrência da taiga, suas matas estão ficando cada vez mais susceptíveis ao fogo. 

Assim como ocorre em outros diferentes biomas, o fogo faz parte da ecologia da taiga há milhares de anos. Incêndios iniciados naturalmente consomem restos de galhos e de árvores mortas, ajudando a revitalizar as florestas. Com o aumento das temperaturas globais nas últimas décadas, os cientistas passaram a observar um aumento no volume e na intensidade dos incêndios florestais no bioma. Dados consolidados indicam que a floresta teve cerca de 100 mil km² de vegetação carbonizada apenas em 2019 – principalmente na Rússia, no Alasca (que pertence aos Estados Unidos) e no Canadá. 

E aqui existe um grande problema: florestas localizadas em regiões tropicais e equatoriais recebem grandes quantidades de energia solar e, por isso, conseguem se recuperar rapidamente. Uma grande área da Floresta Amazônica devastada por um incêndio ou pela exploração da madeira consegue se recuperar em uma fração do tempo de uma área equivalente na taiga. 

É importante citar que essa “recuperação” depende de alguns fatores – a presença da floresta ao redor da área destruída é um deles. Árvores e plantas em geral produzem continuamente sementes, brotamento de caules e de folhas, esporos, entre outras estratégias de reprodução, a fim de garantir a sobrevivência das espécies. Encontrando solo fértil, água e luz solar, novas plantas, fungos e árvores vão surgir. 

Outro fator primordial é a conservação da camada de humus fértil sobre os solos. Na Amazônia, conforme já citamos em outras postagens, cerca de 90% dos solos têm baixíssima fertilidade e a vegetação depende dessa camada de humus para sobreviver. Para que essa camada de humus seja preservada, é essencial que uma camada de vegetação rasteira ou mata de capoeira se forme o mais rápido possível, evitando que essa camada fértil seja arrastada pelas águas das chuvas. 

Entre os anos de 2009 e 2010, eu visitei várias áreas nos Estados de Rondônia e do Amazonas que foram devastadas nas décadas de 1970 e 1980, e que depois acabaram sendo abandonadas pelos colonizadores (coisa que aconteceu bastante por lá). A Floresta Amazônica voltou a ocupar essas terras com vigor. 

Um outro problema grave que vem sendo observado em toda a região ocupada pela taiga é o aumento da ocorrência de pragas de insetos destruidores da madeira e das folhas das árvores. Nas regiões de Yukon, no Canadá, e no Estado norte-americano do Alaska, os riscos são representados pelo besouro-do-mato (Dentroctonus rufipennis).  

Na Colúmbia Britânica, no Canadá, a ameaça é o besouro-do-pinheiro-da-montanha (Dendroctonus ponderosae). Em outras áreas do bioma as ameaças atendem por nomes como mosquito-do-lariço, lagarta-dos-pinheiros (Choristoneura fumiferana), entre muitos outros. O ataque dessas pragas pode levar as árvores a uma morte precoce.   

Enquanto o fogo, as pragas e a exploração da madeira na taiga “correm soltos”, é ensurdecedor o silêncio dos defensores da Amazônia como Greta Thunberg (a sua terra natal – a Suécia, é coberta pela taiga), Leonardo di Caprio e Emmanuel Macron, entre muitos outros. 

Só para cutucar toda essa gente – os grandes volumes de carbono liberados pelos incêndios na taiga são tão prejudiciais ao planeta quanto as queimadas e os incêndios na Amazônia… 

SIBÉRIA 40 GRAUS… DE NOVO

Em fevereiro de 2021, publicamos uma postagem aqui no blog comentando sobre a temperatura na cidade siberiana de Verkhoyansk, que atingiu a surpreendente marca de 38º C, um recorde para os padrões locais. Nessa postagem fizemos questão de recordar a música “Rio 40 graus” de Fernando Abreu. 

Se passaram pouco mais de dois anos e os níveis de temperatura na Sibéria, uma das regiões mais frias da Rússia, voltaram a se aproximar dos 40º C, mostrando que o calor veio para ficar na região. 

Uma fortíssima onda de calor está assolando diversas partes da Ásia e a Sibéria não é exceção. Nos últimos dias, a cidade de Jalturovosk viu seus termômetros atingirem a marca de 37,9º C, a temperatura mais alta de sua história. 

E esse não foi um caso isolado. No dia 6 de junho, a temperatura atingiu 39,6º C em Baevo e 38,5º C em Barnaul, ambas cidades localizadas na Sibéria. As temperaturas na região estão de 10º C até 20º C acima da média histórica para a época, que é final de primavera no Hemisfério Norte. 

De acordo com os meteorologistas, essa é a pior onda de calor já enfrentada pela Sibéria, que não está sozinha em meio a todo esse calorão. Algumas regiões da China registraram temperaturas de mais de 45º C, com algumas cidades no Noroeste do país chegando aos 47º C.  

Na Ásia Central, os termômetros atingiram 43º C no Uzbequistão e 41º C no Cazaquistão. No Sudeste Asiático, região que já é considerada quente, as temperaturas bateram recorde: 44º C no Vietnã e 45º C na Tailândia. Em Myanmar os termômetros chegaram a 43,8º C e no Laos a 43,5º C. 

Todas essas temperaturas recordes estão sendo registradas dois meses antes da chegada do auge do verão, que no Hemisfério Norte costuma acontecer nos meses de agosta e setembro. Isto indica que temperaturas ainda mais altas poderão ser registradas daqui para a frente. 

Também é preciso citar aqui que o Canadá está enfrentando uma forte onda de calor que, entre outros problemas, está contribuindo para a ocorrência de grandes incêndios florestais. Mais de 400 áreas do país estão com suas florestas ardendo, o que tem gerado enormes nuvens de fumaça. Além do Canadá, essa fumaça já atingiu grandes áreas do Norte e do Nordeste dos Estados Unidos, além da Groenlândia e a Islândia, podendo chegar até na Noruega. 

Um dos prováveis responsáveis por todo esse calor é o El Niño, fenômeno climático que se caracteriza por um aumento anormal das temperaturas superficiais de uma extensa área do Oceano Pacífico. Os meteorologistas confirmam que existem fortes chances de o fenômeno ocorrer este ano e todas as condições climáticas apontam para a chegada do “menino malvado”, apelido que ganhou aqui do blog

De acordo com informações da OMM – Organização Meteorológica Mundial, uma agência ligada a ONU – Organização das Nações Unidas, existe 60% de possibilidade de que o El Niño se desenvolva até o fim de julho, e cerca de 80% de possibilidade de formação do fenômeno até o mês de setembro. 

Além da expectativa da chegada do El Niño, o mundo já está convivendo com temperaturas recordes nos oceanos. No início do último mês de abril a temperatura média dos oceanos atingiu a marca de 21,1º C, superando o recorde anterior de 21º C estabelecido durante o forte El Niño de 2016. 

Medições sistemáticas da temperatura das águas dos oceanos mostraram uma sequência ininterrupta de 60 dias com recordes sucessivos da temperatura das águas, um sinal claro de que todo o planeta está ficando mais quente. Se alguém ainda tem alguma dúvida sobre o aquecimento global, melhor ir colocando as barbas de molho, de preferência em água bem gelada. 

Até algumas décadas atrás, temperaturas acima dos 40º C eram características dos verões de regiões em áreas tropicais do planeta, citando como exemplo o nosso Rio de Janeiro, e também de algumas áreas desérticas. Imaginar que temperaturas com esses níveis estão se tornando comuns até na Sibéria é sinal de que as coisas não andam nada bem com o nosso planeta. 

Só para constar, a Sibéria é uma vasta região da Rússia que se estende por biomas como a tundra ártica, a taiga – a floresta de coníferas do Norte, além de englobar regiões montanhosas como os Montes Urais, as Montanhas Altai e a cordilheira de Verkhoiansk. A Sibéria ocupa uma área total de mais de 13 milhões de km².

Essa região ficou famosa nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, época em que os prisioneiros políticos do regime comunista eram enviados para os gulags, campos de concentração espalhados por toda a Sibéria. 

Para encerrar, uma curiosidade: a temperatura mais alta já registrada na Terra foi de 56,7º C, no Death Valley, uma área desértica no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Vamos ver por quanto tempo esse recorde ainda vai perdurar… 

O AVANÇO DA FUMAÇA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NO CANADÁ

Uma postagem rápida para falarmos dos problemas que estão sendo criados nos Estados Unidos devido a fumaça vinda dos incêndios florestais no Canadá

Mais de 410 áreas florestais no Canadá estão pegando fogo – em muitos casos as chamas estão completamente sem controle. Além de todos os problemas para as cidades e populações no país, as grandes nuvens de fumaça estão invadindo extensas regiões nos Estados Unidos

A faixa entre o Leste do Estado de Nova York até Indiana a Oeste e os Estados de Carolina do Norte e Carolina do Sul está em alerta por causa da fumaça e das péssimas condições na qualidade do ar. Além de Nova York, cidade que vem enfrentando nos últimos dias as piores leituras de qualidade do ar, os problemas afetam também outras grandes cidades como Filadélfia e Washington. 

Escolas das áreas afetadas foram fechadas e os alunos estão tendo aulas à distância. Diversos eventos esportivos, inclusive corridas de cavalos, foram cancelados e só serão retomados quando as condições atmosféricas melhorarem. 

A fumaça dos incêndios também está sendo levada na direção Leste, atingindo a Groenlândia e a Islândia, com possibilidade de atingir até a Noruega. De acordo com os especialistas, a situação deverá se manter complicada por vários dias. 

A grande preocupação de todos – a temporada dos incêndios florestais na América do Norte está apenas começando e os próximos meses poderão ser bastante complicados. 

INCÊNDIOS FLORESTAIS FORA DE CONTROLE NO CANADÁ 

Incêndios fora de controle estão destruindo imensas áreas florestais. As grossas nuvens de fumaça tóxica estão impactando na qualidade do ar e afetando o dia a dia de milhões de pessoas. As autoridades estão se valendo de todos os recursos disponíveis, porém, em muitas áreas os incêndios estão fora de controle. 

Não, não estamos falando dos grandes incêndios que estão “transformando a Floresta Amazônica em cinzas” e que causam uma comoção sem igual nos quatro cantos do mundo. 

Falamos dos grandes incêndios florestais que estão devastando mais de 410 áreas diferentes no Canadá, muitos deles fora de controle. As densas nuvens de fumaça estão cobrindo extensas áreas do país e avançando com força na direção do Norte e do Nordeste dos Estados Unidos, região onde vivem mais de 65 milhões de pessoas. 

Na madrugada desta quarta-feira, dia 7 de junho, a cidade de Nova York ocupou o nada honroso posto de cidade com o ar mais poluído do mundo (a foto mostra a situação da Ponte do Brooklin, um dos marcos arquitetônicos da cidade). Desta vez a causa não foram os diversos milhões de veículos de sua frota ou a fumaça das chaminés das indústrias localizadas no seu entorno – foi a fumaça gerada pelos grandes incêndios florestais no seu grande vizinho do Norte – o Canadá. 

Justin Trudeau, o Primeiro-ministro do país e um dos grandes especialistas em criticar o Brasil por causa da “destruição” da Amazônia, está sentindo na pele o que é ser a “vidraça”. Em conversa com jornalistas, o líder canadense afirmou que essa será uma temporada de incêndios florestais “especialmente severos”. 

O Governo canadense tem se esforçado em afirmar que são as mudanças climáticas as responsáveis pelo aumento dos incêndios nas florestas do país. Segundo a narrativa, a cada ano que passa novas áreas, que antes estavam livres dos incêndios, estão ficando vulneráveis. 

Entre os anos de 2019 e 2020, quando uma intensa seca afetou grande parte da região Centro-Oeste do Brasil e tornou toda essa região susceptível a grandes queimadas, a questão climática não foi levada em consideração e muitos líderes mundiais – inclusive Trudeau, jogaram toda a culpa nos brasileiros. 

Segundo as narrativas, todas essas queimadas foram propositais, onde o objetivo era a devastação das florestas de Cerrado e áreas da Floresta Amazônica para ampliação das áreas de cultivo e de pastagens.  

É evidente que muita gente aqui no país se aproveitou da situação para fazer exatamente isso, mas a maior parte das queimadas tiverem origem em causas naturais e tiveram seus efeitos amplificados pela forte seca, exatamente como vem ocorrendo há alguns milhões de anos. 

Relembrando as aulas de química: para que um incêndio se inicie são necessários três itens essenciais – o combustível, o oxigênio (comburente) e uma fonte de energia ou de calor. Matas secas possuem grandes quantidades de matéria combustível. A atmosfera das grandes áreas florestais tem oxigênio de sobra. 

A fonte de calor pode ser uma ponta de cigarro acesa arremessada por um motorista imprudente, uma queimada desastrada para limpar um campo agrícola, uma fogueira feita por algum excursionista, ou ainda a combustão espontânea de um monte de palha seca provocada pela incidência da luz solar. 

Quando esses três elementos – o famoso “triângulo do fogo”, se juntam, a combustão vai durar enquanto existir combustível e comburente. Ou seja – a floresta vai arder enquanto existir algum material combustível e oxigênio. O fogo só vai parar quando acabar o combustível ou quando se conseguir resfriar os materiais ou acabar com o oxigênio por meio de esforços de combate ao fogo. 

O fogo é uma das forças da natureza e sua fúria e energia vêm, há milhões de anos, ajudando a modelar as paisagens naturais de nosso planeta. Os incêndios florestais eram provocados por erupções vulcânicas, que lançavam pedras incandescentes a quilômetros de distância em áreas cobertas por matas, onde o fogo poderia se iniciar e destruir grandes volumes de vegetação.  

Também poderiam ter sua origem nos raios que atingiam árvores secas ou ainda pela ação dos raios solares, que teriam o poder de iniciar o fogo incidindo sobre folhas secas. Todos os anos, grandes áreas de savanas na África, de estepes na Ásia e até da Taiga, a grande floresta boreal do Norte, são devastadas pelo fogo a partir dessas causas naturais. 

Um exemplo do poder desses incêndios é o Cerrado, onde a ação do fogo nos últimos 25 milhões de anos forçou as espécies vegetais a evoluírem – algumas plantas se adaptaram tanto às queimadas frequentes que suas sementes dependem do fogo para germinar. Espécies animais que vivem nesses habitats também se adaptaram e desenvolveram suas estratégias de fuga e sobrevivência durante esses grandes eventos catastróficos.   

O Cerrado Brasileiro cobre uma área de 2 milhões de km² nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima e Amazonas (que são chamados de Campos Amazônicos), além de pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. 

As mudanças climáticas em andamento estão alterando as características naturais de muitas áreas, que estão ficando cada vez mais secas e, assim, mais susceptíveis à ação do fogo. É justamente isso que está acontecendo em muitas florestas do Canadá. E, a exemplo do que ocorreu em outros biomas como o Cerrado, essas florestas vão precisar evoluir para conviver com o fogo daqui para a frente. 

É sempre “saudável” recordar que o aquecimento global tem parte considerável de sua origem em ações humanas – causas naturais não podem ser descartadas. O grande marco do início dessas mudanças, como sempre é costume se lembrar, foi a Revolução Industrial iniciada em meados do século XVIII. 

Com o aperfeiçoamento da máquina a vapor e seu uso nas grandes indústrias, quantidades fabulosas de carvão mineral passaram a ser queimadas, liberando volumes crescentes de gases de efeito estufa na atmosfera. Com o passar do tempo, o estrago passou a ser amplificado pelo uso crescente de derivados de petróleo e pela devastação em larga escala de áreas florestais em todo o mundo. 

O Efeito Estufa é um processo natural de nosso planeta. Durante o dia, ou seja, quando parte do planeta fica voltada diretamente para o sol, a atmosfera reflete uma parte da radiação solar de volta para o espaço e parte dessa energia chega até a superfície do planeta. Os chamados gases de Efeito Estufa retêm essa energia térmica, evitando que as temperaturas da superfície baixem demais durante a noite. Isso mantém a temperatura do planeta relativamente estável. 

Com o aumento da concentração de gases poluentes na atmosfera, o até então saudável Efeito Estufa passou a ser fatal para o planeta. As temperaturas passaram a subir em todo o planeta, alterando completamente os ciclos naturais – chuvas, secas, ondas de calor e de frio, correntes marítimas e tudo mais. 

O aumento dos incêndios florestais no Canadá é apenas mais um dos efeitos do aquecimento global, efeitos esses que, desgraçadamente, serão bem difíceis de se controlar daqui para a frente. 

Veja também:

O CANADÁ E SEUS GRANDES INCÊNDIOS FLORESTAIS

O AVANÇO DA FUMAÇA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NO CANADÁ

AS “EXPORTAÇÕES” DE CARROS USADOS PARA A ÁFRICA 

Na última postagem falamos de um complexo problema econômico e social que vem ganhando volume nos últimos anos – as “exportações” de roupas usadas de países ricos para países pobres. As aspas foram usadas porque essa prática esconde a exportação camuflada de resíduos têxteis. 

De acordo com dados referentes a Gana, país africano que ocupa a primeira posição entre os importadores de roupas usadas, pelo menos 40% das peças envolvidas nessas negociações são simplesmente emprestáveis e são descartadas em lixões e aterros sanitários. 

Um problema bastante parecido envolve as “exportações” de carros usados para os países africanos. Do total de veículos do tipo exportados pelos países da Europa, cerca de 40% têm como destino países da África. 

Esses veículos têm uma média de idade entre 16 e 20 anos e em sua grande maioria não atendem pré-requisitos de segurança para que possam circular em cidades e estradas dos países da Europa. Em grande parte dos casos, os veículos exportados têm como objetivo o simples fornecimento de peças (o que é chamado de “canibalização” em muitos países). 

Entre os anos de 2015 e 2020, de acordo com dados do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, os países da União Europeia exportam 4,6 milhões de carros. Esse volume corresponde a 49% de todas as vendas de veículos usados no continente no mesmo período. 

De acordo com números levantados pela ZERO – Associação Sistema Terra Sustentável, uma organização ambientalista de Portugal, os números são ainda maiores. Entre os anos de 2014 e 2018, a Europa teria exportada cerca de 14 milhões de veículos, sendo que metade desse volume teria como destino a África. 

Segundo a organização, 80% dos veículos exportados não atendem os mínimos requisitos de segurança ou de conformidade com as regras de meio ambiente na Europa. Segundo o grupo, esses veículos deveriam ter sido retirados de circulação e encaminhados para o desmantelamento, onde perto de 95% de suas matérias primas poderiam ser reutilizadas. 

Uma vez exportados, esses veículos ou serão mantidos em circulação em condições precárias, o que vai resultar a liberação de enormes volumes de poluentes na atmosfera dos países importadores, ou fornecerão peças que permtirão que outros veículos em péssimas condições voltem a circular. Muito pior – as péssimas condições dos itens de segurança vão colocar milhares de motoristas e ocupantes sob risco de acidentes de trânsito. 

A grande ironia desse processo, segundo os ambientalistas, é que a União Europeia vem criando regras cada vez mais restritivas para a produção e a venda de veículos movidos a base de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que estimula a venda de veículos elétricos. Agora, quanto a “exportar” a poluição desses veículos velhos para outros países, não existem maiores problemas. 

Essa política comercial perversa pode estar por trás do elevado número de mortes nos acidentes de trânsito registrado na África. De acordo com o UNRSF – Fundo de Segurança Rodoviária das Nações Unidas, na sigla em inglês, os países africanos registram 60% das mortes em acidentes rodoviários do mundo, ao mesmo tempo em que a frota de veículos no continente represente apenas 2% da frota mundial. 

Um ponto interessante que vem sendo ressaltado por muitos especialistas é que existem regras diferentes para as exportações de veículos na Europa. A Alemanha, um dos países que mais exportam veículos no continente, utiliza um conjunto de regras extremamente rígidas para os casos em que os veículos têm como destino outros países do bloco europeu. 

No entanto, quando o destino são países fora da União Europeia, como o são os países da África, essas regram não precisam valer. Qualquer tipo de sucata com quatro rodas e que esteja em condições de ser colocada em um navio, usando recursos próprios do seu conjunto motor ou simplesmente “empurradas”, são consideradas “itens válidos para exportação”. 

Felizmente, as coisas parecem começar a mudar. Diversos países europeus como os Países Baixos começam a pressionar o Bloco no sentido da unificação das regras para a exportação de veículos. Por outro lado, países da África começam a propor regras para disciplinar essas atividades. 

Desde 2020, Benin e outros 14 membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental chegaram a um acordo para impor uma idade limite de 10 anos para os veículos usados importados. Também concordam em impor restrições ambientais relativas às emissões de gases poluentes. 

Entretanto, entre as boas intenções e a aplicação prática de todo esse conjunto de regras, existe um enorme abismo. Milhares de verdadeiras sucatas automobilísticas continuam sendo exportados e entupindo as ruas das cidades e as estradas dos países pobres, liberando muita fumaça e colocando em risco a vida de milhares de pessoas. 

Infelizmente, esse é um lado do meio ambiente que muitos “euroambientlistas” de carteirinha não costumam ver quando saem em seus protestos contra a devastação da Floresta Amazônica. 

Os problemas ambientais de nosso mundo são bem maiores e mais complexos do que muitos podem imaginar… 

ROUPAS DESCARTADAS OU DOADAS PELOS PAÍSES RICOS SÃO VENDIDAS EM MERCADOS POPULARES DA ÁFRICA

De algumas décadas para cá, a África virou uma espécie de zona livre para o descarte de todo o tipo de resíduos gerados em países ricos como os Estados Unidos e a Comunidade Europeia. A lista inclui lixo eletrônico, resíduos plásticos, carros usados, roupas, entre muitos outros itens. Na postagem de hoje vamos falar de roupas usadas, que muitas vezes são doadas por organizações humanitárias e que acabam abastecendo mercados e lojas em todo o continente. 

Produtos têxteis se transformaram em um enorme problema ambiental em anos recentes. Segundo um estudo feito pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2019, a produção de roupas no mundo dobrou entre os anos de 2000 e 2014. Esse enorme aumento da produção não significa, necessariamente, que um número maior de pessoas está tendo acesso a roupas de melhor qualidade.  

O que se observa é um aumento do consumo de produtos ligados a moda pelas classes de maior poder aquisitivo nos países mais desenvolvidos, que é seguido por um aumento equivalente no descarte de peças consideradas fora de moda.  Pessoas mais pobres também passaram a ter acesso a roupas “fashion” extremamente baratas.

Surgiram nos últimos anos diversas empresas que produzem e vendem roupas a um baixíssimo custo – especialmente na China. Esses itens acabaram se transformando em descartáveis. Segundo alguns estudos, essas peças são usadas em média 5 vezes, quando então são descartadas, o que inclui tanto a doação para outras pessoas quanto o simples descarte junto com os resíduos domésticos. 

Um exemplo que costumamos citar em nossas postagens é o de alguns modelos de camisetas de algodão “descartáveis” dos Estados Unidos. Essas peças têm um preço inferior ao custo da lavagem em uma lavanderia automática, ou seja, é muito mais barato comprar uma peça nova e jogar a camiseta suja no lixo. Falamos aqui de centenas de milhares de peças a cada ano. 

Esse enorme volume de peças de roupas ainda em ótimas condições de uso acabou por criar um mercado mundial para exportação de roupas usadas. De acordo com informações do Observatório de Complexidade Econômica, esse mercado já fatura cerca de US$ 2 bilhões a cada ano, com tendência de crescimento. Os principais “exportadores” de roupas usadas são os Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, China e Coreia do Sul. 

Como país importador o grande destaque é Gana, um país da África Ocidental com cerca de 30 milhões de habitantes. Na capital do país – Acra, funciona aquele que é considerado o maior mercado de roupas usadas do mundo: Kantamanto. Esse mercado fica no centro de Acra. De acordo com algumas estimativas, esse mercado é abastecido semanalmente com 15 milhões de peças de roupas. 

Pelo tamanho da população de Gana é bem fácil de se deduzir que grande parte desse volume de roupas usadas está abastecendo países vizinhos com Togo, Burkina Faso, Libéria, Serra Leoa, Benin, Guiné e Guiné-Bissau, entre outros. Pequenas confecções, que antes abundavam nesses países pobres, estão desaparecendo diante da “concorrência” predatória das roupas de segunda mão. 

Essas roupas passam por uma triagem inicial, onde aproximadamente 40% vão direto para os inúmeros lixões ao redor das cidades. São roupas extremamente sujas, manchadas e/ou danificadas. Pessoas pobres (para não dizer miseráveis) vasculham esses locais para tentar “garimpar” peças em condições para o seu uso. 

Em muitos casos, lotes de roupas são embalados em sacos plásticos e vendidos como “pacote surpresa” para os clientes. Quem compra sabe que até metade das peças estão sem condições de uso – mesmo assim, as roupas que estão em boas condições são bem mais baratas que outras opções disponíveis no mercado. 

Além das cargas de roupas exportadas com a finalidade explícita de revenda, existem casos de lotes de roupas que foram doados para supostas organizações humanitárias que fazem a doação das peças para países pobres de todo o mundo. Não é nada incomum que essas doações sejam vendidas para comerciantes desses mercados e que acabem abastecendo as lojas de roupas usadas como as do mercado de Kantamanto

Esse mecanismo de doação de roupas usadas para a nobre finalidade de doação para países pobres do mundo é muitas vezes usado como uma “válvula de escape” para se contornar os rígidos mecanismos de descarte de resíduos nos países ricos. Usam-se razões humanitárias para se livrar de itens inservíveis a custos baixíssimos. 

Produtos têxteis são problemáticos para o meio ambiente de diferentes formas. Começando pelas fibras usadas na confecção dos tecidos. O algodão, a fibra natural mais usada para esses fins, é em grande parte produzido em países pobres como Índia, Egito e repúblicas da Ásia Central. As colheitas, em muitos casos, são feitas por pessoas em regimes de trabalho pouco melhor que a escravidão. 

Na outra ponta estão as empresas de confecção. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções.     

Bangladesh é um caso extremo. O custo da mão de obra no país é menor do que na China, o que transformou Bangladesh em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas, de pequenas tecelagens e inúmeras tinturarias. O país é o segundo maior produtor de produtos têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.     

A indústria têxtil, segundo a ONU – Organização das Nações Unidas, é “responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente”. Indústrias dos segmentos têxtil e de produção de calçados respondem por 8% das emissões mundiais de gases de Efeito Estufa. Outro dado dramático – essas indústrias geram um volume de resíduos equivalente a um caminhão de lixo a cada segundo. Esses resíduos vão para aterros (muitos deles clandestinos) ou são queimados.    

Essa nova faceta da indústria da moda – o mercado de venda roupas usadas em países miseráveis, só reforça o quão complexos estão se tornando os problemas ambientais e também mostram o tamanho da responsabilidade dos chamados países ricos na questão. 

A “FLORESTA NUBLADA” DA COSTA RICA ESTÁ PERDENDO SUA NÉVOA 

Quando eu tinha dezessete ou dezoito anos de idade e ainda participava das atividades de um clube de escoteiros, lembro de ter participado de um acampamento na Região do Vale do Ribeira, no Sul do Estado de São Paulo. O local era uma grande fazenda com alojamentos completos em alvenaria. Para quem estava acostumado a acampar com pequenas barracas de lona no meio da mata, aquilo era um hotel 5 estrelas. 

Um detalhe dessa fazenda que nunca esqueci era um grande trecho de floresta de Mata Atlântica aparentemente intocado. O pessoal da fazenda chamava essa mata de Floresta das Begônias. Caminhando por diversas trilhas lá existentes, o visitante ficava encantado com a quantidade de begônias que encontrava. Segundo os donos do lugar, toda aquela vegetação era natural – nada foi plantado por mãos humanas. 

Agora imaginem, se, por alguma causa qualquer, essas plantas desaparecessem sem mais nem menos. Será que poderíamos continuar chamando aquela bela mata de Floresta das Begônias? 

Pois é mais ou menos isso que está acontecendo com a Floresta Nublada de Monteverde na Costa Rica. Suas matas, que até bem pouco tempo atrás, ficavam cobertas por uma densa névoa de nuvens baixas na maior parte do tempo, agora só apresentam alguma névoa de vez em quando. 

A Floresta Nublada fica na província de Puntarenas, a cerca de 140 km da capital da Costa Rica – São José. É uma reserva natural privada localizada a uma altitude de 1.400 metros acima do nível do mar e que ocupa uma área total de 14.200 hectares. Cerca de 100 espécies de mamíferos, 400 de aves e 1.200 espécies de anfíbios vivem nesse habitat. 

De acordo com informações do Centro de Pesquisa de Contaminação Ambiental da Universidade da Costa Rica, a formação do manto de nebulosidade na floresta ocorre quando a umidade do ar está acima dos 90% e as temperaturas estão entre os 14º e os 18º C. 

De acordo com os registros históricos, os dias completamente ensolarados na região da floresta mal chegavam a 30 dias por ano até alguns anos atrás. Atualmente, a média de dias ensolarados está na casa de 130 dias por ano. As temperaturas máximas estão superando os 26º C. 

De acordo com os guias mais velhos, era comum se percorrer as trilhas da mata ouvindo o gotejar da água que escorria das folhas da vegetação. O ar era fresco e as trilhas apresentavam muita umidade e a vegetação rasteira era encharcada de água. Atualmente, a mata está ficando cada vez mais quente e a vegetação seca estala sob os pés dos turistas. 

Como vem ocorrendo em diversas partes do mundo, a região de Puntarenas está ficando cada vez mais quente por causa das mudanças climáticas. Esse aumento das temperaturas está alterando completamente as características físicas da região, fazendo com que a tradicional camada de nuvens baixas diminua de ano para ano. 

Além de comprometer a famosa nebulosidade da floresta, o maior atrativo turístico do local e um charme todo especial que fascinava os visitantes, as mudanças ambientais aceleradas estão impactando a fauna e a flora local. Um exemplo é o que está acontecendo com a grossa camada de musgo verdejante que ocupava os troncos das árvores, uma característica de ambientes com altos níveis de umidade. Esse musgo está ficando cada vez mais seco. 

Entre os animais, as diversas espécies de anfíbios são as mais afetadas. Esses animais se reproduzem e vivem o ciclo inicial de suas vias dentro de ambientes aquáticos. Grande parte das espécies – especialmente as rãs, mesmo depois que passam a viver em terra dependem de uma proximidade com cursos e reservatórios de água. 

Com a elevação das temperaturas e a substancial redução da camada de névoa, antigos solos úmidos se tornaram secos e os cursos d’água tiveram uma grande redução dos seus caudais, problemas que impactam diretamente os anfíbios, além de afetar todas as demais espécies animais.  

Um exemplo desse drama é o sapo-dourado ou de Monteverde (Incilius periglenes), uma espécie nativa da região que foi considerada extinta em 2019, de acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza. 

Por mais insignificante que um sapinho de uma floresta da América Central possa parecer para muita gente, qualquer espécie animal ou vegetal é um triunfo da evolução ao longo de milhares ou até mesmo milhões de anos. Essas espécies surgiram e se desenvolveram dentro de um meio ambiente único e seu desaparecimento vai causar desequilíbrios em toda a cadeia alimentar e na teia da vida local. 

Ao mesmo tempo em que o aumento das temperaturas na Floresta Nebulosa é fatal para muitas espécies da fauna e da flora locais, ele abre uma janela de oportunidades para espécies de outros biomas, que passam a migrar em massa e a ocupar nichos biológicos, o que acaba acelerando ainda mais o processo de extinção de espécies. 

Desgraçadamente, devido ao aumento das temperaturas se tratar de um fenômeno global, será virtualmente impossível conter o desaparecimento da Floresta Nebulosa de Monteverde. O que pode e deve ser feito, o mais rápido possível, será encontrar ambientes similares em outras regiões do país para tentar “transplantar” as espécies ameaçadas, numa tentativa de salvar os animais da extinção. 

Diversos outros biomas em todo o mundo ou já estão enfrentando problemas similares ou enfrentarão dentro em breve. Conforme apresentamos em uma postagem recente, os cientistas já estão percebendo que muitas espécies de insetos que vivem em regiões montanhosas estão mudando para locais mais frescos por causa das mudanças climáticas. 

Aqui é importante lembrar que nosso planeta enfrentou uma infinidade de mudanças em seu clima global e regional ao longo dos seus 4,5 bilhões de anos. Entretanto, todas essas mudanças ocorreram ao longo de grandes intervalos de tempo, o que permitiu que plantas e animais tivessem condições para se adaptar ou migrar gradualmente para outros biomas. 

O que estamos vendo atualmente, como apresentado no caso da Floresta Nebulosa de Monteverde, é que as mudanças climáticas estão ocorrendo dentro de períodos de poucos anos, o que reduz absurdamente as chances de adaptação das espécies animais e vegetais. 

Esse é o grande drama dos nossos dias e, com toda a certeza, assistiremos muitos episódios de tragédias ambientais como essa da Costa Rica ao longo de nossas vidas.

AS PREOCUPAÇÕES MUNDIAIS COM A GRIPE AVIÁRIA 

A mais recente preocupação das autoridades da área de saúde em todo mundo é um surto de gripe aviária do subtipo H5N1. A doença é tipicamente encontrada em aves silvestres, podendo ser transmitida para aves domésticas e para outros animais como mamíferos.

De acordo com informações do Ministério da Agricultura foram registrados 19 casos no Brasil até o dia 1º de junho. Foram 13 casos registrados no Espírito Santo, 5 no Rio de Janeiro e 1 caso no Rio grande do Sul. Não há registros de focos de gripe aviária em granjas voltadas para a produção de aves e ovos para alimentação. 

Em outros países, a situação está bem mais complicada. Desde outubro de 2021, mais de 140 milhões de aves de criações comerciais tiveram de ser abatidas. Somente no Reino Unido, mais de 4 milhões de aves de criações já foram abatidas e há estimativas que indicam que 50 mil aves selvagens já morreram. 

Especialistas temem que o número de aves selvagens mortas nas ilhas britânicas pode ser bem maior – muitas aves podem ter morrido sobre o mar enquanto realizavam suas migrações e as carcaças não chegaram até as praias. 

Desde 1986, as ilhas britânicas já perderam ¼ de suas populações de aves silvestres, especialmente devido à perda de habitas, a sobrepesca e também devido as mudanças climáticas. A morte de aves por causa da gripe aviária só fez por aumentar as preocupações dos especialistas. 

Outra enorme preocupação é o que se chama de “efeito de transbordamento” – outras espécies como lontras, raposas, gatos domésticos e leões-marinhos podem ser contaminadas pelo vírus após capturarem e comerem aves contaminadas com a gripe aviária. 

No Peru, país com cerca de 2.500 km de costa, foram encontrados mais de 3.500 leões-marinhos mortos nas praias nos últimos meses. No Chile, já foram encontrados quase 9 mil animais mortos entre lobos-marinhos, pinguins-de-Humbolt, lontras-marinhas e alguns cetáceos pequenos. Todas essas mortes estão associadas à gripe aviária. 

De acordo com informações do Serviço Nacional de Pesca do Chile, a gripe aviária está presente em 12 das 16 regiões do país. O último caso de contaminação se deu com um huilin, um tipo de lontra que vive na região de Magallanes, no Extremo Sul do país. 

O Chile relatou o primeiro caso de contágio de gripe aviária em humanos no final de março, quando um homem de 53 anos apresentou um quadro de influenza grave. Aqui é importante citar que a transmissão da doença se dá apenas por contato entre pessoas e animais doentes – não existe transmissão de pessoa para pessoa. 

Na Espanha, uma fazenda teve de sacrificar mais de 50 mil visons, um pequeno mamífero da família dos mustelídeos de grande valor comercial por causa de sua pelagem macia, tiveram de ser sacrificados. Esses animais tiveram contato com aves selvagens infectadas. De acordo com as autoridades espanholas, a doença se espalhou em cascata de animal para animal, 

Mudanças nos padrões climáticos podem estar afetando o comportamento das aves e contribuindo para a disseminação do vírus. Os animais estão tendo de ajustar seus ciclos migratórios em busca de novas áreas de alimentação e de reprodução. 

Variações no nível do mar também pode estar afetando as áreas de nidificação tradicionais de muitas espécies e forçando esses animais a buscar outras áreas apropriadas. Em alguns casos, espécies diferentes estão sendo obrigadas a dividir territórios, o que estar levando a uma disseminação mais rápida do vírus. 

Recentemente, o Ministério da Agricultura e Pecuária decretou estado de emergência zoosanitária em todo o país por causa do aumento dos casos de cotaminação em aves silvestres. A portaria, assinada em 22 de maio, tem validade de 180 dias. 

Segundo o Ministério, essa medida tem como principal objetivo evitar que a doença chegue até a produção de aves comerciais. É importante citar que o Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango, o que justifica toda essa preocupação. O Ministério recomenda que a população não recolha aves doentes ou mortas e que acione o serviço veterinário mais próximo com o objetivo de evitar que a doença se espalhe. 

A OMS – Organização Mundial da Saúde, informa que não há registros de contaminação da gripe aviária a partir do consumo de carne de frango ou de ovos preparados.