ROUPAS DESCARTADAS OU DOADAS PELOS PAÍSES RICOS SÃO VENDIDAS EM MERCADOS POPULARES DA ÁFRICA

De algumas décadas para cá, a África virou uma espécie de zona livre para o descarte de todo o tipo de resíduos gerados em países ricos como os Estados Unidos e a Comunidade Europeia. A lista inclui lixo eletrônico, resíduos plásticos, carros usados, roupas, entre muitos outros itens. Na postagem de hoje vamos falar de roupas usadas, que muitas vezes são doadas por organizações humanitárias e que acabam abastecendo mercados e lojas em todo o continente. 

Produtos têxteis se transformaram em um enorme problema ambiental em anos recentes. Segundo um estudo feito pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2019, a produção de roupas no mundo dobrou entre os anos de 2000 e 2014. Esse enorme aumento da produção não significa, necessariamente, que um número maior de pessoas está tendo acesso a roupas de melhor qualidade.  

O que se observa é um aumento do consumo de produtos ligados a moda pelas classes de maior poder aquisitivo nos países mais desenvolvidos, que é seguido por um aumento equivalente no descarte de peças consideradas fora de moda.  Pessoas mais pobres também passaram a ter acesso a roupas “fashion” extremamente baratas.

Surgiram nos últimos anos diversas empresas que produzem e vendem roupas a um baixíssimo custo – especialmente na China. Esses itens acabaram se transformando em descartáveis. Segundo alguns estudos, essas peças são usadas em média 5 vezes, quando então são descartadas, o que inclui tanto a doação para outras pessoas quanto o simples descarte junto com os resíduos domésticos. 

Um exemplo que costumamos citar em nossas postagens é o de alguns modelos de camisetas de algodão “descartáveis” dos Estados Unidos. Essas peças têm um preço inferior ao custo da lavagem em uma lavanderia automática, ou seja, é muito mais barato comprar uma peça nova e jogar a camiseta suja no lixo. Falamos aqui de centenas de milhares de peças a cada ano. 

Esse enorme volume de peças de roupas ainda em ótimas condições de uso acabou por criar um mercado mundial para exportação de roupas usadas. De acordo com informações do Observatório de Complexidade Econômica, esse mercado já fatura cerca de US$ 2 bilhões a cada ano, com tendência de crescimento. Os principais “exportadores” de roupas usadas são os Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, China e Coreia do Sul. 

Como país importador o grande destaque é Gana, um país da África Ocidental com cerca de 30 milhões de habitantes. Na capital do país – Acra, funciona aquele que é considerado o maior mercado de roupas usadas do mundo: Kantamanto. Esse mercado fica no centro de Acra. De acordo com algumas estimativas, esse mercado é abastecido semanalmente com 15 milhões de peças de roupas. 

Pelo tamanho da população de Gana é bem fácil de se deduzir que grande parte desse volume de roupas usadas está abastecendo países vizinhos com Togo, Burkina Faso, Libéria, Serra Leoa, Benin, Guiné e Guiné-Bissau, entre outros. Pequenas confecções, que antes abundavam nesses países pobres, estão desaparecendo diante da “concorrência” predatória das roupas de segunda mão. 

Essas roupas passam por uma triagem inicial, onde aproximadamente 40% vão direto para os inúmeros lixões ao redor das cidades. São roupas extremamente sujas, manchadas e/ou danificadas. Pessoas pobres (para não dizer miseráveis) vasculham esses locais para tentar “garimpar” peças em condições para o seu uso. 

Em muitos casos, lotes de roupas são embalados em sacos plásticos e vendidos como “pacote surpresa” para os clientes. Quem compra sabe que até metade das peças estão sem condições de uso – mesmo assim, as roupas que estão em boas condições são bem mais baratas que outras opções disponíveis no mercado. 

Além das cargas de roupas exportadas com a finalidade explícita de revenda, existem casos de lotes de roupas que foram doados para supostas organizações humanitárias que fazem a doação das peças para países pobres de todo o mundo. Não é nada incomum que essas doações sejam vendidas para comerciantes desses mercados e que acabem abastecendo as lojas de roupas usadas como as do mercado de Kantamanto

Esse mecanismo de doação de roupas usadas para a nobre finalidade de doação para países pobres do mundo é muitas vezes usado como uma “válvula de escape” para se contornar os rígidos mecanismos de descarte de resíduos nos países ricos. Usam-se razões humanitárias para se livrar de itens inservíveis a custos baixíssimos. 

Produtos têxteis são problemáticos para o meio ambiente de diferentes formas. Começando pelas fibras usadas na confecção dos tecidos. O algodão, a fibra natural mais usada para esses fins, é em grande parte produzido em países pobres como Índia, Egito e repúblicas da Ásia Central. As colheitas, em muitos casos, são feitas por pessoas em regimes de trabalho pouco melhor que a escravidão. 

Na outra ponta estão as empresas de confecção. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções.     

Bangladesh é um caso extremo. O custo da mão de obra no país é menor do que na China, o que transformou Bangladesh em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas, de pequenas tecelagens e inúmeras tinturarias. O país é o segundo maior produtor de produtos têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.     

A indústria têxtil, segundo a ONU – Organização das Nações Unidas, é “responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente”. Indústrias dos segmentos têxtil e de produção de calçados respondem por 8% das emissões mundiais de gases de Efeito Estufa. Outro dado dramático – essas indústrias geram um volume de resíduos equivalente a um caminhão de lixo a cada segundo. Esses resíduos vão para aterros (muitos deles clandestinos) ou são queimados.    

Essa nova faceta da indústria da moda – o mercado de venda roupas usadas em países miseráveis, só reforça o quão complexos estão se tornando os problemas ambientais e também mostram o tamanho da responsabilidade dos chamados países ricos na questão. 

One Comment

Deixe um comentário