A CAÓTICA EXPLORAÇÃO DO GRANITO VERDE EM UBATUBA

Granito Verde Ubatuba

Ubatuba é um município no litoral Norte de São Paulo que faz divisa com Parati, no Estado do Rio de Janeiro. Com uma população na casa dos 89 mil habitantes e com uma área de mais de 700 mil km², Ubatuba tem 83% de seu território localizado dentro do Parque Estadual da Serra do Mar. Para muita gente, grupo no qual me incluo, Ubatuba tem as praias mais bonitas do litoral paulista. 

A preservação e o cuidado com o meio ambiente que se vê em Ubatuba em nossos dias, esconde um período caótico vivido no município entre o início da década de 1960 e o final dos anos de 1980, quando foi descoberta, acidentalmente, uma raríssima variedade de pedra ornamental – o granito verde de Ubatuba. Vamos contar rapidamente esta história, que mostra que, mesmo na exploração das inocentes rochas ornamentais, existem grandes impactos ambientais: 

Dizem que, entre 1961 e 1962, um fazendeiro de Ubatuba resolveu transformar suas terras em um loteamento. Para realizar a divisão dos lotes e o arruamento da área, esse fazendeiro contratou uma construtora da cidade. Na busca de uma fonte de cascalho para realizar seus trabalhos, a construtora resolveu partir para uma solução caseira – no fundo da fazenda, já no sopé da Serra do Mar, se avistavam grandes blocos rochosos que, aparentemente, poderiam fornecer os agregados para a obra. A construtora abriu uma estrada de serviço até o local e amostras das rochas foram coletadas. Para se certificar da qualidade do material, a construtora solicitou uma análise junto ao IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo. 

Para surpresa geral, o IPT não só atestou a qualidade das rochas para uso como agregado, como alertou que seria um desperdício de dinheiro fazer isso – as amostras de rochas recolhidas eram de um raro granito verde escuro, que até então só era encontrado em uma jazida na Costa do Marfim, na África. 

Antes de prosseguir, deixem-me relembrar uma informação que ajuda a explicar a coincidência da existência do granito verde no Brasil e na África – até aproximadamente 160 milhões de anos atrás, a América do Sul, a Antártida, a África, Madagáscar, a Índia, a Austrália, a Nova Caledônia, Papua-Nova Guiné e algumas ilhas menores, formavam um único super continente – Gondwana. Devido à movimentação das placas tectônicas (pesquise “tectônica global”), esse supercontinente começou a se fragmentar e seus “pedaços” seguiram em diferentes direções e formaram novos territórios e continentes. A costa brasileira já esteve ligada à África, o que explica a existência do mesmo mineral nos dois lados do Oceânico Atlântico.   

Em função dessa inesperada descoberta, ao invés de se instalar uma unidade de britagem de pedras no local e avançar com o projeto de criação de um loteamento na área, o fazendeiro montou a primeira pedreira de granito verde de Ubatuba. Rapidamente, a exploração do granito verde se transformou em uma das atividades econômicas mais importantes do município, com blocos da pedra sendo vendidos em todo o Brasil e também exportados para vários países através do Porto de Santos. Estimativas do DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral (atualmente chamado de ANM – Agência Nacional de Mineração), indicam que, em 1985, as exportações de granito verde de Ubatuba respondiam por 11% das exportações de pedras ornamentais do Brasil

Naqueles tempos idos, ainda não havia sido criado o Parque Estadual da Serra do Mar, apesar da maior parte dos terrenos das encostas já serem terras públicas. Sem muita fiscalização, não demorou muito a surgirem pedreiras clandestinas por todos os lados – documentos oficiais falam de perto de 60 pedreiras nestas condições no início da década de 1980. Essas pedreiras desmatavam, desmontavam imensos paredões rochosos, muitas vezes usando dinamite, abriam estradas e tudo mais o que se fizesse necessário para atingir os locais onde se encontravam os blocos de granito verde, sem que houvesse qualquer controle ou fiscalização das autoridades. 

As formações desse granito são blocos de rocha compacta de forma arredondada, conhecidos popularmente como matacões. Esses blocos tem um volume médio entre 300 e 400 m³, podendo ser encontrados enterrados e semi enterrados. Esses blocos possuem uma superfície rugosa e muito ondulada, de cor verde escura, de muito fácil identificação. Para qualquer aventureiro que quisesse entrar no negócio das pedras ornamentais e que tivesse disposição para entrar na mata, o caminho estava, literalmente, aberto. 

Em meados da década de 1980, a produção anual de granito verde foi estimada em 13 mil m³, o que equivaleria a retirada de cerca de 2.600 blocos com volume médio bruto de 5 m³. Essa intensa exploração mineral, feita da forma mais predatória possível, causou enormes impactos ambientais nas encostas da Serra do Mar na região. Com a remoção de grandes trechos de vegetação, seguido pelo desmonte e remoção de grandes blocos de rochas, as já instáveis encostas ficaram totalmente desprotegidas. Nas fortes temporadas de chuva de verão na região, aconteceram vários deslizamentos de encostadas, com várias vítimas fatais e enormes prejuízos para o município de Ubatuba. Por causa desses e de outros problemas, a extração do granito verde em Ubatuba foi proibida no final da década de 1980. 

Para sorte das empresas do segmento de pedras ornamentais e dos consumidores, em 1972 havia sido descoberta uma jazida de granito com características geológicas semelhantes à do granito verde de Ubatuba. Esse mineral, que foi batizado como granito verde-Labrador, foi descoberto em Alto Mutum Preto, um distrito da cidade de Baixo Guandu, no Espírito Santo. Esse granito verde “genérico” é atualmente o único material similar ao granito verde de Ubatuba a venda no mercado (vide foto). Apesar de ter recebido seu próprio nome de batismo, essa nova pedra ornamental continua sendo chamada de granito verde de Ubatuba. 

Mesmo após a criação do Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Picinguaba (trecho do Parque em Ubatuba) em 1979 e de todos os esforços para a proibição da exploração do granito verde ao longo da década de 1980, de vez em quando temos notícias do desmantelamento de quadrilhas pegas em flagrante retirando ilegalmente blocos de granitos no interior da área protegida.  

Muita gente não consegue resistir à ideia de valiosos blocos de pedra jogados no meio da Mata Atlântica – em troca de dinheiro fácil, pensam eles, “que se dane o meio ambiente”. 

 

RIO TUBARÃO: UM CASO PRÁTICO DE POLUIÇÃO POR RESÍDUOS DA MINERAÇÃO DO CARVÃO

Rio Tubarão

Na última postagem, falamos rapidamente dos problemas criados pela mineração do carvão em regiões do Sul do Brasil. A maior parte desses problemas estão ligados a acidificação e contaminação das águas em depósitos de rejeitos de mineração – para cada tonelada de minerais brutos retirados das minas, são gerados 600 kg de rejeitos e 1,5 m³ de efluentes ácidos. Drenagens originadas nos depósitos de rejeitos atingem os rios, deixando a água com pH (potencial hidrogeniônico) muito baixo (as águas ficam ácidas), o que prejudica todas as formas de vida aquática e compromete o abastecimento de populações. 

Para não ficarmos só na “teoria”, vamos mostrar um caso prático: o rio Tubarão. 

O rio Tubarão nasce nas encostas da Serra Geral Catarinense, num trecho conhecido como Serra do Rio do Rastro. Os principais afluentes são os rios Braço do Norte e Capivari. O rio percorre cerca de 120 km, atravessando 20 municípios, até desembocar na Lagoa de Santo Antônio, no litoral de Santa Catarina, nas proximidades da cidade de Laguna. As áreas de nascentes desses três rios drenam extensas áreas de mineração e também de depósitos de rejeitos, onde sofrem constante contaminação com drenagens ácidas. 

Os problemas com a qualidade das águas do rio Tubarão são bem antigos. De acordo com informações da Tubarão Saneamento, empresa responsável pelo abastecimento de água nas cidades de Tubarão e Capivari de Baixo, que juntas somam 125 mil habitantes, o processo de tratamento das águas do rio Tubarão é cerca de 15% mais caro do que em outros rios. Devido a acidez da água e da grande presença de metais pesados, a concessionária precisa realizar a adição de cloro na água antes de iniciar o processo de tratamento. Esse custo extra, é claro, é pago pelos consumidores, fato que causa enormes descontentamentos da população em relação às empresas mineradoras

A mineração do carvão não é a única responsável pela contaminação das águas da bacia hidrográfica do rio Tubarão. Existem os lançamentos de esgotos in natura por inúmeras cidades, carreamento de resíduos de agrotóxicos e de fertilizantes de grandes áreas agrícolas, problemas criados por empresas cerâmicas e por olarias, além de um problema típico do Estado de Santa Catarina – os efluentes gerados em fazendas de criação e engorda de suínos. Como se tudo isso ainda fosse pouca coisa, grandes quantidades de lixo e de todo o tipo de resíduos sólidos gerados nas cidades, acabam chegando até a calha dos rios e transformando a bacia hidrográfica do rio Tubarão numa séria candidata a entrar na lista das mais poluídas do Brasil. 

O que já estava ruim, conseguiu ficar pior – no final do mês de novembro de 2014, um problema numa barragem de rejeitos da Mina Bonito I, da empresa Carbonífera Catarinense, provocou o vazamento de uma grande quantidade de água contaminada com rejeitos finos de carvão. Esse vazamento atingiu primeiro o rio Rocinha, chegando depois ao rio Tubarão. A foto que ilustra esta postagem mostra as águas do manancial completamente negras logo após o vazamento. Dados da época indicam que a mancha negra de poluição se estendeu por mais de 80 km

Os trabalhos para a contenção do vazamento e conserto da barragem levaram perto de 10 dias, o que dá uma ideia do tamanho do vazamento, que foi considerado de grande porte pela Procuradoria do Estado de Santa Catarina. O grau de contaminação que tomou conta das águas do rio Tubarão foi tamanho que provocou a mortandade de peixes e de outros animais aquáticos como anfíbios e répteis, além do grande potencial de ameaça à saúde humana. Pescadores locais afirmam que os peixes despareceram do trecho superior do rio Tubarão por um longo tempo. 

O abastecimento de várias cidades da bacia hidrográfica precisou ser suspenso em vários momentos e chegou a ficar ameaçado, uma vez que não sabia na época o tamanho e a extensão dos danos na barragem de rejeitos. Por mais incrível que pareça, o órgão federal responsável pela fiscalização das atividades de mineração, o DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral (transformado depois em ANM – Agência Nacional de Mineração) sequer chegou a emitir uma única multa contra a mineradora. 

A FATMA – Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina, fez uma série de análises no local e constatou impactos ambientais nas margens e nas águas dos rios Rocinha e Tubarão. Foi aplicada uma multa de R$ 900 mil e também foi embargada a operação da Mina Bonito I. A mineradora assinou um TAC – Termo de Ajuste de Conduta com o órgão ambiental e voltou a operar 2 meses depois. Como a mineradora assumiu o compromisso de recuperar uma área de 2.500 m² na margem esquerda do rio, o valor da multa foi reduzido para apenas R$ 90 mil, uma medida prevista no Código Ambiental de Santa Catarina. 

O Ministério Público Federal de Santa Catarina moveu um processo contra a mineradora e, após o julgamento pelos órgãos da Justiça, foi estipulado um acordo, com a previsão de multas para a empresa, no valor de R$ 504 mil, e para os funcionários envolvidos em falhas de operação, no valor de R$ 28 mil, além de impor uma série de medidas de compensação ambiental. O pagamento dessas multas foi dividido em inúmeras parcelas. Passados vários anos desde o vazamento, geólogos alertam que grandes quantidades de resíduos finos de carvão permanecem misturados com os sedimentos do fundo do rio. Pode-se afirmar que, para a mineradora, a tragédia ambiental custou muito pouco. 

Notem que existem semelhanças com o caso do rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Mariana, ocorrida um ano depois, e com outros grandes “acidentes” ambientais que acontecem frequentemente em nosso país – grandes danos ao meio ambiente são feitos em um curtíssimo espaço de tempo, mas a punição aos responsáveis não chega nunca. Multas aplicadas pelos órgãos ambientais nunca são pagas e, quando muito, são reduzidas a frações dos valores originais. E as populações, como sempre, ficam entregues ao “Deus dará”. 

O caso do rio Tubarão é um entre muitos rios que sofrem problemas devido a sua proximidade com áreas de mineração do carvão, tanto aqui no Brasil como em outras regiões pelo mundo afora. Populações inteiras convivem diariamente com a possibilidade real de ver suas fontes de abastecimento contaminadas a qualquer momento – as autoridades responsáveis pela fiscalização, essas parecem estar olhando sempre para o outro lado. 

A geração de energia proporcionada pela queima do carvão parece ter muito mais valor do que a água, algo bastante difícil de entender. 

OS PROBLEMAS CRIADOS PELA MINERAÇÃO DE CARVÃO NO SUL DO BRASIL

Rejeitos minerais do carvão

O carvão é um dos mais importantes combustíveis do planeta, com uso intenso em atividades industriais e em usinas termelétricas – cerca de 40% da energia elétrica usada no mundo é gerada a partir da queima do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas. Conforme comentamos em postagens anteriores, a mineração causa enormes problemas ambientais, especialmente a contaminação dos recursos hídricos. 

O carvão mineral é uma rocha sedimentar sólida que foi formada ao longo de milhões de anos a partir do acúmulo e soterramento de matéria orgânica de origem vegetal. Essa matéria orgânica sofreu um processo de carbonificação, onde o hidrogênio e o oxigênio foram expulsos, favorecendo a concentração do carbono, o principal constituinte do carvão. Conforme o grau de concentração do carbono, o minério recebe nomes diferentes: a turfa tem 60% de carbono; o linhito tem 70%; a hulha ou carvão betuminoso tem concentrações de carbono entre 80 e 85% e, finalmente, o antracito, onde a concentração do carbono é superior a 90%. 

As indústrias metalúrgicas e siderúrgicas são as principais usuárias do carvão mineral, onde a queima desse combustível possibilita a fundição e a laminação dos mais diversos tipos de metais, uma matéria prima essencial para os mais diferentes segmentos da economia. O Brasil, apesar de possuir algumas das mais importantes reservas de minerais metálicos do mundo, concentradas especialmente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte, tem suas principais reservas de carvão mineral na Região Sul. Graças a essa “particularidade”, o carvão de origem vegetal, obtido a partir do desmatamento de grandes áreas florestais, foi usado intensamente em vários processos nessas industrias, especialmente na produção do ferro gusa. 

A Região Sul do Brasil concentra as maiores reservas de carvão mineral do Brasil. Essas reservas são calculadas em cerca de 28 bilhões de toneladas no Rio Grande do Sul, 3,4 bilhões de toneladas em Santa Catarina e de 100 milhões de toneladas no Paraná. O carvão mineral é dividido em dois tipos – carvão energético, usado principalmente em usinas termelétricas, e carvão metalúrgico, usado nas indústrias metalúrgicas e siderúrgicos, além do uso na fabricação de produtos carboquímicos. A produção brasileira de carvão mineral atende metade da demanda, sendo necessária a importação do produto de países como Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Canadá. 

A exploração do carvão mineral da Região Sul, especialmente no Estado de Santa Catarina, ganhou impulso no início da década de 1940, quando foi iniciada a construção da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, interior do Estado do Rio de Janeiro. A CSN foi a primeira grande usina siderúrgica a ser construída no país (antes dela, praticamente todo o aço usado no país era importado) e foi fundamental para o processo de industrialização do Brasil, especialmente na introdução da indústria automobilística no final da década de 1950. 

Apesar de ser um produto estratégico e fundamental nessa etapa da nossa história, o carvão mineral brasileiro é considerado um produto de qualidade inferior, com poder de queima mais baixo do que o produto encontrado em outras regiões do mundo. Além disso, ele apresenta elevados teores de enxofre (2 a 4%) e de cinzas (40% a 60%). Sob fortes protestos dos produtores nacionais, em 1990 foi liberada a importação de carvão metalúrgico – o carvão energético continua sendo explorado no país. 

Um dos grandes problemas da mineração do carvão mineral é a grande quantidade de resíduos minerais gerados – para cada tonelada de minério bruto extraída, são gerados cerca de 600 kg de resíduos sólidos, divididos entre rejeitos finos e grossos, e aproximadamente 1,5 m³ de efluentes ácidos. Para que todos tenham uma ideia do volume desses rejeitos, no Distrito Carbonífero do Sul de Santa Catarina foram geradas aproximadamente 4 milhões de toneladas de rejeitos apenas no ano 2000. 

Esses resíduos minerais sofrem infiltração e geram drenagens ácidas por causa da oxidação de minerais sulfetados (especialmente a pirita). Ao atingir rios e outros corpos d’água, essas drenagens reduzem o pH (potencial hidrogeniônico) da água e também propicia a dissolução de uma enormidade de metais, prejudicando a qualidade da água e comprometendo seus usos (vide foto). No Distrito Carbonífero de Santa Catarina, a bacia hidrográfica do rio Ararangá é uma das mais comprometidas pela mineração do carvão. Essa região concentra 75% das lavras subterrâneas e das usinas de beneficiamento e 83,3% das usinas de beneficiamento/lavagem de carvão.  

Um dos rios da bacia hidrográfica, o rio Sangão, é cercado de áreas alagadas onde se cultiva arroz e trigo – em situações de fortes chuvas, essas áreas ficam sujeitas ao transbordamento do rio e a contaminação dos solos com resíduos minerais. Outro grave problema associado a este rio são os problemas criados para o abastecimento das populações que vivem em assentamentos urbanos ao longo de suas margens. A situação é tão grave que em algumas residências ocorrem surgências, que são afloramentos de águas provenientes de antigas minas alagadas. 

A situação caótica criada pelos enormes passivos ambientais acumulados ao longo de décadas de mineração do carvão na Região Sul tem criado fortes embates entre as mineradoras e as comunidades, forçando os Governos Locais e Federal a criarem medidas que minimizem os danos ambientais. O foco principal das medidas mitigadoras são justamente os grandes depósitos de rejeitos minerais, que precisam receber barragens adequadas e cobertura, de forma a evitar a infiltração da água das chuvas e a formação dos efluentes ácidos que contaminam os rios. 

Outro ponto que tem merecido especial atenção são os grandes volumes de água usados nos processos de beneficiamento do carvão. Essa água costuma ser reprocessada e reutilizada, porém sempre há riscos de vazamentos para o meio ambiente. São necessárias melhorias nos processos de gestão e a modernização dos sistemas de tratamento das águas que serão descartadas no meio ambiente. 

No lado das mineradoras, a chiadeira é total. As empresas ainda reclamam dos prejuízos que o setor vem sofrendo por causa da importação do carvão (liberada em 1990) e também da redução da demanda do produto provocada pela recessão econômica vivida pelo país nos últimos anos. Os altos custos destas medidas mitigadoras estão no centro das discussões e as empresas, é claro, esperam receber algum tipo de incentivo fiscal por parte dos Governos. 

No meio desse embate, os recursos hídricos continuam sofrendo com a contaminação provocada pelos rejeitos da mineração do carvão. 

O MERCÚRIO NOS SOLOS DA FLORESTA AMAZÔNICA

Chuva na Amazônia

Nas últimas postagens publicadas aqui no blog, falamos bastante dos problemas criados pelos despejos e emissões de mercúrio no meio ambiente. Além das emissões feitas por indústrias, incineração de lixo, pela queima do carvão e de outros combustíveis fósseis, além de outras fontes difusas, o garimpo do ouro é um dos grande vilões deste problema global. O mercúrio é usado pelos garimpeiros para separar os fragmentos de ouro dos sedimentos – o mercúrio se liga ao ouro, formando uma amálgama. 

Quando a amálgama é queimada pelos garimpeiros com um maçarico, o mercúrio evapora rapidamente e entre 65 e 83% desse vapor é lançado na atmosfera e espalhado pelos ventos; entre 2 e 7% do mercúrio permanece ligado ao ouro, só sendo eliminado no processo de purificação do metal em fornos de altas temperaturas; o restante do mercúrio volta ao estado líquido, caindo sobre solos e águas na forma de micro gotículas, sendo essa a principal fonte de contaminação da água dos rios com o metal – porém, ela não é a única. Vamos entender: 

Entre os anos de 1972 e 1984, o consumo de mercúrio no Brasil permaneceu estável, na casa de 160 toneladas anuais. A partir desse ano, o consumo começou a crescer e em 1989 atingiu a marca de 340 toneladas, coincidindo com o crescimento da mineração e da produção de ouro em Serra Pelada. Estimativas indicam que, nos últimos anos, a produção anual de ouro no país tem se situado entre 80 e 100 toneladas, o que implica num consumo total de mercúrio entre 100 e 260 toneladas. Considerando que a maior parte do mercúrio evaporado fica na atmosfera, falamos de um volume anual de emissões no Brasil entre 65 e 216 toneladas nesses últimos anosEm termos globais, as estimativas ficam entre 2 mil e 6 mil toneladas de mercúrio lançadas na atmosfera a cada ano.

Por definição, o mercúrio é um elemento natural que não pode ser criado ou destruído. O volume de mercúrio que existe na natureza é o mesmo desde a formação do nosso planeta – esse volume é transferido, de diferentes formas, de um ecossistema para o outro. O volume de mercúrio que é lançado na atmosfera, seguido essa linha de raciocínio, tem de ir para algum lugar – ele é disperso, transportado e transformado na atmosfera, sendo depois depositado nos mais diferentes ecossistemas. Um dos principais processos naturais que removem o mercúrio e seus derivados da atmosfera é a deposição úmida, ou seja, sua combinação com a água que forma a chuva, a neve, o granizo e o orvalho, elementos que se precipitam na direção dos solos e das águas. 

A Amazônia é maior floresta equatorial do mundo e, graças à sua posição geográfica e a toda uma combinação de correntes de ventos, recebe volumes de chuvas extraordinários todos os anos, com precipitações médias anuais entre 1.500 e 1.700 mm (vide foto). E, junto com toda essa chuva, grandes volumes de mercúrio presentes na atmosfera retornam para a superfície e se acumulam nos solos da Floresta Amazônica. Com o avanço dos desmatamentos em toda a Amazônia nas últimas décadas, esses solos contaminados ficam expostos à ação das chuvas e quantidades significativas de mercúrio passam a ser carreados na direção da imensa rede de rios da Bacia Amazônica. 

A Região Amazônica brasileira permaneceu praticamente isolada do restante do país até meados do século XIX, quando foram introduzidas no país e nos grandes rios, especialmente da Bacia Amazônica, as primeiras embarcações movidas a vapor. O regime de ventos e de correntes marinhas do Atlântico tornava a ligação por via marítima entre a faixa Leste do Brasil e a Amazônia bastante difícil para as embarcações a vela – era mais fácil uma nau sair de Portugal e fazer o percurso até Belém do Pará e voltar, do que a mesma nau sair do Rio de Janeiro e chegar até Belém. Esse isolamento foi altamente benéfico para a preserva da Floresta Amazônica, que permaneceu praticamente intacta até as primeiras décadas do século XX. 

A partir de meados do século XX, com a implementação de várias políticas governamentais de integração e colonização da Região Amazônica, teve início um intenso processo de abertura de rodovias para a interligação das Regiões Centro-Oeste e Norte ao restante do país. Nessa nova fase da história do Brasil, grandes contingentes de migrantes de regiões densamente povoadas ou carentes, passaram a chegar às terras virgens do interior com o objetivo de criar novas frentes agrícolas e pecuárias. A descoberta de grandes reservas de ouro, como a de Serra Pelada, também deram enormes contribuições para chegada de grandes contingentes de migrantes para a região – muitos desses aventureiros acabaram por desistir do garimpo e se voltaram para a produção agropecuária. Assim começaram os grandes desmatamentos da Amazônia. 

De acordo com dados do INPE – Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais, cerca de 550 mil km² da Floresta Amazônica brasileira já foram devastados desde então, o que equivale a cerca de 13,7% da mata. Desse total, cerca de 200 mim km² acabaram sendo abandonados pelos colonizadores devido ao rápido esgotamento da fertilidade dos solos. A Floresta Amazônica é responsável por fertilizar seus solos com uma grossa camada de húmus, criada a partir da decomposição de folhas, galhos e troncos de árvores mortas. Sem a proteção da mata, essa camada fértil é rapidamente “lavada” pelas fortes chuvas da região. Qualquer traço de mercúrio que esteja depositado nessas camadas superficiais de solo, também acaba sendo arrastado pelas águas das chuvas diretamente para a calha dos rios e igarapés. 

Além do problema dos solos pobres em nutrientes, o excesso de chuvas também é um limitador para uma agropecuária sustentável. De acordo com um estudo feito no ano 2000 pelo IMAZON – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, 83% da região Amazônica recebe chuvas em excesso, o que prejudica essas atividades. Apesar desse alerta, os desmatamentos na região avançam cada vez mais, expondo cada vez mais maiores áreas de solo aos efeitos da chuva e, consequentemente, maiores volumes de mercúrio são arrastados na direção dos corpos d’água a cada ano. 

Essa é uma área de estudos relativamente nova e ainda não existe um volume de dados grande o bastante para que se determine, cientificamente, o tamanho e a extensão geográfica do problema. O que se pode afirmar, com certeza, é que mesmo eliminando todos os garimpos de ouro da Amazônia e parando de se usar o mercúrio nessas atividades, o volume de mercúrio presente nos solos da região ainda deverá causar sérias preocupações por muitas e muitas décadas. 

Por hora, conter os desmatamentos na Floresta Amazônia parece ser uma ótima ideia para se controlar a dispersão desse mercúrio dos solos para a água dos rios. 

OS CANDIRUS DO RIO MADEIRA, OU AINDA FALANDO DO MERCÚRIO NOS RIOS

Garimpo no rio Madeira

Entre os anos de 2009 e 2010, trabalhei naquela que seria a maior obra de saneamento básico do Brasil. O tempo verbal usado na frase tem sua razão de ser – seria, mas não foi. A obra, que prometia construir redes coletoras e estações de tratamento de esgotos por toda a cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, mal conseguiu sair do papel. Brigas entre diferentes grupos políticos da região resultaram na paralisação total das obras e bloqueio das verbas do projeto por ordem do TCU – Tribunal de Contas da União. Dos 1.200 km de redes coletoras de esgotos previstas, só conseguimos instalar, e a muito custo, apenas parcos 32 km. Uma grande oportunidade perdida pela cidade. 

Pois bem – logo que desembarquei em Porto Velho pela primeira vez, comecei a ouvir falar dos temidos candirus (Vandelia cirrhosa), uma espécie de peixe carnívoro comum nos rios Madeira e Amazonas. Esse peixe, também chamado de peixe-vampiro, tem o formato de uma agulha e é conhecido por penetrar nas guelras de peixes maiores, onde passa a se alimentar do sangue do hospedeiro. Devido a essas suas características alimentares, os candirus podem atacar banhistas “desprevenidos” (ou seja, que estão nadando nus), penetrando na uretra, vagina e ânus – o peixe só pode ser retirado desses locais através de cirurgia. Por medo dos candirus, as populações ribeirinhas evitam nadar nas águas do rio Madeira. 

Nas últimas décadas, as águas do rio Madeira ganharam um novo e perigoso “componente”, que chegou para dividir espaço com os implacáveis candirus: o mercúrio dos garimpos. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, o mercúrio é um metal altamente tóxico para os seres vivos e é usado em grandes quantidades nos garimpos, onde tem a função de separar o ouro dos sedimentos. Os fragmentos de ouro se ligam ao mercúrio formando uma amálgama. Essa amálgama é depois submetida a altas temperaturas com o uso de maçaricos, fazendo o mercúrio evaporar e deixando apenas o ouro. Essa técnica de separação do ouro foi usada intensamente nas Américas entre os anos de 1540 e 1900, onde se estima um consumo de 200 mil toneladas de mercúrio nas colônias espanholas e de 60 mil toneladas na América do Norte, entre os século XVIII e XIX

Ao longo do século XX, o uso do mercúrio na mineração do ouro entrou em franca decadência, especialmente pela introdução da técnica de cianetação para a separação do metal. Com as sucessivas descobertas de ouro na região Amazônica a partir da década de 1970, o uso do mercúrio, que é uma técnica barata e muito eficiente, voltou a ser usada em larga escala. Os principais usos do mercúrio na região estão em garimpos no Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela e na Guiana, onde se estima o uso de cerca de 200 toneladas anuais. 

A mineração de ouro no alto rio Madeira começou em meados da década de 1970, quando cavas manuais passaram a ser instaladas nas margens do rio no trecho entre Porto Velho e a Vila de Abunã. Na década de 1980, o Ministério das Minas e Energia regulamentou a criação da Reserva Garimpeira do Rio Madeira nessa região, que passaria a ocupar a segunda posição entre as maiores produtoras de ouro da Região Amazônia brasileira. 

Em meados da década de 1980, o trecho do rio Madeira entre Porto Velho e Guajará Mirim, cidade brasileira que fica na divisa com a Bolívia, concentrava cerca de 800 dragas e 700 balsas dedicadas a exploração do ouro (vide foto).  A atividade garimpeira atingiu na época uma produção anual de aproximadamente 9 toneladas de ouro, com uma estimativa de emissão de 12 toneladas de mercúrio. Entre os anos de 1979 e 1990, estima-se que aproximadamente 87 toneladas de mercúrio foram usadas nos garimpos da região, sendo que 65% desse total foi lançado na atmosfera na forma de vapor e o restante acabou sendo lançado nos solos das margens e nas águas do rio Madeira. No final de década de 1990, com o esgotamento das reservas auríferas nessa região, a mineração e o uso de mercúrio caiu substancialmente. 

O mercúrio, conforme comentamos em postagem anterior, é absorvido inicialmente por micro algas, insetos, invertebrados e pequenos crustáceos que vivem nas águas dos rios, espécies que formam a base da cadeia alimentar. Essas criaturas são predadas por criaturas maiores, criando-se assim o ciclo de acumulação do mercúrio nos seres vivos. Estudos laboratoriais realizados por biólogos com espécies coletadas nos rios Madeira e Tapajós mostraram que 70% das espécies de peixes carnívoros da Bacia Amazônica, como o tucunaré e o pintado, têm concentrações de mercúrio acima de 500 nanogramas por grama; em algumas espécies, o valor acumulado chegou a 4.700 nanogramas por grama.  

Entre as espécies de peixes detritivos (que comem resíduos e dejetos), como o corimbá e o curimatã, a concentração cai para 20% destes níveis. O consumo de peixes representa a principal fonte de proteína animal na alimentação das populações ribeirinhas, que assim ficam expostas à contaminação cumulativa e sistemática do mercúrio. 

A mesma equipe de pesquisadores realizou testes com fios de cabelo e com leite materno, coletados em um grupo de 200 moradores de uma comunidade do Lago do Puruzinho, na região de Humaitá, município do Estado do Amazonas próximo da divisa com Rondônia, e que é cortado pelo rio Madeira. Os níveis de mercúrio encontrados nas amostras se situou entre 6 e 16 nanogramas, um nível de contaminação suficiente para causar danos ao sistema nervoso central, perda de sensibilidade nas extremidades do corpo, constrição do campo visual, além de causar déficit de aprendizado. Em uma das amostras coletadas, o nível de mercúrio chegou a 30 nanogramas por grama.  

Esses níveis de contaminação por mercúrio não são considerados alarmantes pelos especialistas, mas requerem atenção e monitoramento – como a população local mantém o consumo de peixes capturados no rio Madeira, esses níveis podem continuar aumentando, colocando em risco especialmente as mulheres grávidas, onde existe o risco de danos ao feto, e os adolescentes. O monitoramento sistemático do rio Madeira, feito pela UNIR – Universidade Federal de Rondônia em parceria com a Santo Antônio Energia, indica que os níveis de mercúrio vem sendo reduzido sistematicamente, se encontrando bem abaixo dos limites estabelecidos pelo CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, que se situa em 0,0002 miligramas de mercúrio por litro de água.  

Apesar dessa boa notícia, é preciso lembrar que grandes volumes de mercúrio permanecem acumulados nos sedimentos do rio e não se sabe exatamente quais os riscos ambientais que isso pode representar no longo prazo 

A mineração do ouro não é a única fonte de contaminação das águas dos rios da Amazônia com mercúrio – os desmatamentos e a exposição dos solos às chuvas também dão sua contribuição neste processo. Falaremos disso na próxima postagem. 

A MINERAÇÃO DO OURO E O MERCÚRIO

Queima da amálgama

Serra Pelada, conforme comentamos em nossa última postagem, foi o maior garimpo de ouro a céu aberto do mundo entre 1980 e 1992, chegando a abrigar cerca de 100 trabalhadores no seu auge. Este verdadeiro “fenômeno” da mineração começou em 1979, quando um agricultor da região encontrou uma pepita de ouro com 13 kg de peso. A notícia rapidamente se espalhou por todos os cantos do país e, em poucos meses, a fazenda onde foi feita a primeira descoberta foi invadida por milhares de aventureiros contaminados pela “febre do ouro”.  

Até o fechamento da cava em 1992, por razões de segurança, os dados governamentais registraram que cerca de 50 toneladas de ouro saíram dos barrancos de Serra Pelada. Segundo outras fontes, que consideram também o ouro que foi desviado por outros “caminhos”, o volume de ouro total produzido no garimpo se situa entre 100 e 400 toneladas. Retirar toda essa riqueza dos solos da Amazônia teve custos ambientais e sociais altíssimos. Vamos começar falando dos problemas ambientais e de um dos mais terríveis legados da mineração: o mercúrio. 

O ouro é um dos metais mais raros e mais preciosos que existem em nosso planeta. Assim como ocorre com outros metais, o ouro é normalmente encontrado misturado com outros minerais, sendo necessária a realização de diversos processos para a sua separação. Nos garimpos, o ouro pode ser encontrado na forma de pepitas ou, na maior parte dos casos, é encontrado misturado com rochas e sedimentos. Nesses casos, os garimpeiros usam o mercúrio para separar o ouro das principais impurezas. O mercúrio, que é um metal em estado líquido, é misturado com os sedimentos e se liga os fragmentos de ouro, formando uma amálgama. Essa amálgama depois é exposta ao calor de um maçarico, que evapora o mercúrio e deixa apenas o ouro. É aqui que os problemas ambientais começam. 

De acordo com estudos recentes, para se produzir 1 kg de ouro nos garimpos é necessário, na média, o uso de 1,32 kg de mercúrio – estimativas anteriores falavam de quantidades entre 2 e 4 kg de mercúrio. Considerando-se a estimativa oficial de produção de ouro em Serra Pelada – 50 toneladas, chegamos rapidamente a conclusão que 66 toneladas de mercúrio foram usadas pelos garimpeiros. Porém, como já falamos, grandes volumes de ouro fugiram dos controles oficiais e o volume de mercúrio usado em Serra Pelada pode se situar entre 132 e 528 toneladas

Quando a amálgama é queimada pelos garimpeiros (vide foto), o mercúrio evapora rapidamente e entre 65 e 83% desse vapor é lançado na atmosfera e espalhado pelos ventos; entre 2 e 7% do mercúrio permanece ligado ao ouro, só sendo eliminado no processo de purificação do metal em fornos de altas temperaturas; o restante do mercúrio volta ao estado líquido, caindo sobre solos e águas na forma de micro gotículas. Uma parcela pequena, mas mortal desse mercúrio é inalada pelo garimpeiro que executa a queima da amálgama. Esse mercúrio se acumula no organismo humano e pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que compromentem os sistemas sensoriais e motores. 

Segundo alguns estudos ambientais, a concentração de mercúrio na atmosfera aumentou 3 vezes nos últimos 100 anos. Os principais responsáveis por esse aumento são as emissões de indústrias de todos os segmentos, que usam o mercúrio e/ou materiais que contém o metal em seus processos de produção e as erupções vulcânicas, além de uma razoável contribuição dos garimpos. Um estudo feito em toda a Amazônia para se determinar a distribuição do mercúrio no meio ambiente, encontrou resultados problemáticos – testes feitos com os cabelos de moradores do Alto Rio Negro, uma região onde não existem garimpos, encontrou concentrações de mercúrio 7 vezes maiores do que as encontradas em moradores de regiões ao longo dos rios Madeira e Tapajós, onde existem grandes concentrações de garimpos. Isso demonstra a perigosa propagação do mercúrio através da atmosfera e dos ventos

Os corpos d’água – represas, lagos, riachos e rios, são os principais receptores do mercúrio que “decanta” da atmosfera. O ciclo de contaminação do mercúrio se dá em cadeia e começa com a absorção por micro algas, insetos, vermes e pequenos moluscos, que formam as comunidades bênticas ou bentônicas dos corpos d’água. Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar e sustentam peixes, crustáceos, anfíbios e répteis menores, que por sua vez serão predados por espécies maiores. O mercúrio acompanha todo o ciclo da cadeia alimentar, passando de um organismo para outro, se acumulando em quantidades cada vez maiores ao longo do tempo. O mercúrio presente no organismo de peixes fatalmente contaminará qualquer ser humano que consuma suas carnes. 

Todo o mercúrio utilizado no Brasil é importado, especialmente do México, Estados Unidos, Canadá e alguns países da Europa. A evolução do consumo de mercúrio ao longo das últimas décadas nos dá uma ideia dos impactos provocados pela mineração do ouro – entre 1972 e 1984, o consumo de mercúrio no Brasil permaneceu estável, na casa de 160 toneladas anuais. A partir desse ano, o consumo começou a crescer e em 1989 atingiu a marca de 340 toneladas. Esse crescimento abrupto no consumo do mercúrio coincide com o crescimento da mineração e da produção de ouro em Serra Pelada.  

Mesmo com o fim do garimpo em larga escala em Serra Pelada (o garimpo foi mecanizado e produz cerca de 2 toneladas de ouro por ano), o consumo de mercúrio por garimpos de todo o Brasil continua alto. Estimativas indicam que, nos últimos anos, a produção anual de ouro no país tem se situado entre 80 e 100 toneladas, o que implica num consumo total de mercúrio entre 100 e 260 toneladas. Uma das consequências mais evidentes do alto consumo deste metal tóxico são os altos índices de contaminação da água dos rios, especialmente na região amazônica. Milhares de garimpeiros, que lidam diariamente com a separação do ouro, estão se expondo a uma contaminação cumulativa que, com toda a certeza, vai lhes provocar uma série de doenças fatais. Finalmente, o mercúrio da atmosfera está contaminado pessoas que nunca colocaram os pés em um garimpo. 

Para encerrar, as reservas de ouro estimadas na Região Amazônica são de, pelo menos, 25 mil toneladas, o que equivale a cerca de US$ 300 bilhões. Num dos anos em que a produção de ouro na região bateu recorde – 1988, se alcançou a impressionante cifra de 216 toneladas e os ganhos foram de US$ 3 bilhões, valor equivalente a 3 vezes os ganhos com a exploração de minério de ferro em Carajás. Com esses números, é de se esperar um número cada vez maior de garimpeiros, legais e ilegais, se aventurando na região e liberando quantidades cada vez maiores de mercúrio no meio ambiente. 

Projeções nem um pouco saudáveis ou animadoras para a natureza. 

UMA SERRA “PELADA”

Serra Pelada - Sebastião Salgado

Nesta série de postagens, estamos apresentando diversos cases de mineração ao redor do mundo, mostrando que, qualquer que seja o tamanho da atividade ou o tipo de recurso mineral que é explorado, sempre existem impactos ambientais, especialmente sobre os cursos d’água. Esses impactos podem ser gigantescos quando analisamos o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração, como nos casos de Mariana e de Brumadinho, ou locais, como em casos de cavas de mineração de areia e em olarias. Entre esses extremos, encontramos toda uma gama consequências negativas para o meio ambiente, assim como os mais diferentes impactos na vida de pessoas e de sociedades. 

Na postagem de hoje, vamos começar a falar sobre um dos mais emblemáticos e problemáticos fenômenos da mineração no Brasil: a exploração do ouro em Serra Pelada. É provável que os leitores mais jovens nunca tenham ouvido falar dessa gigantesca cava de exploração no interior do Pará e da verdadeira “febre do ouro” que foi desencadeado nos quatro cantos do país após a divulgação dos primeiros achados minerais, no início da década de 1980. Deixem-me tentar mostrar uma perspectiva geral do que foi Serra Pelada: 

Segundo conta a história oficial (que pode não ser necessariamente a história real) o agricultor Genésio Ferreira da Silva encontrou uma pepita de ouro com 13 kg de peso em suas terras, uma fazenda chamada Três Barras, no final de 1979. Em uma localidade pequena nos confins da Amazônia, onde quase nada de especial acontece, uma notícia como essa acabou correndo de “boca em boca” numa velocidade impressionante. Cerca de cinco semanas depois da descoberta, a fazenda Três Barras já havia sido invadida por cerca de 3 mil pessoas; no primeiro semestre de 1980, já se contavam 5 mil garimpeiros vindos de todo o Brasil, especialmente da Região Nordeste. Não tardou muito para o número de garimpeiros atingir a impressionante marca de 100 mil pessoas no auge das atividades

Entre essa verdadeira massa de aventureiros, temos de destacar a figura de Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Major Curió, um militar que fez “carreira” na chamada Guerrilha do Araguaia, ocasião onde militares do Exército brasileiro combateram militantes radicais de esquerda na década de 1970. Alçado à condição de líder do garimpo de Serra Pelada, o Major Curió passou a ser o representante do Regime Militar em vigor naquela época no controle da situação. Em 1982, o Major Curió foi eleito Deputado Federal e, em 1982, deu nome à cidade que se formou com a mineração em Serra Pelada – Curionópolis. 

Armados de pás, enxadas e picaretas, esse verdadeiro formigueiro humano escavou Serra Pelada entre 1980 e 1992, data em que a mineração a céu aberto foi proibida devido à falta de segurança. O morro com 150 metros de altura que existia no lugar desapareceu e no seu lugar foi deixado um lago com 24 mil m² de superfície e 200 metros de profundidade. Oficialmente, a produção de ouro em Serra Pelada foi próxima de 50 toneladas. O Governo Militar instalou uma agência da Caixa Econômica Federal junto ao garimpo, com o claro objetivo de controlar a produção e compra do ouro. Mesmo assim, muito ouro acabou seguindo por outros caminhos e não há como se ter certeza do volume total das descobertas – diferentes fontes de consulta falam de total entre 100 e 400 toneladas do metal. 

A Vale do Rio Doce, na época uma empresa estatal, era quem tinha os direitos de lavra na Serra Pelada. Após a invasão da área do garimpo por dezenas de milhares de pessoas, as autoridades ponderaram sobre a viabilidade de uma intervenção de reintegração de posse, o que felizmente acabou não acontecendo – imagine-se os riscos de um confronto entre um verdadeiro “exército” de garimpeiros enlouquecidos pela “febre do ouro” e forças regulares do Governo. A Vale do Rio Doce desistiu de Serra Pelada e foi indenizada pelo Governo Federal. 

A fotografia que ilustra esta postagem, de autoria do grande fotógrafo Sebastião Salgado, pode até lhe transmitir uma sensação de confusão. As escavações em Serra Pelada, ao contrário, eram extremamente organizadas, com trabalhadores divididos em funções muito específicas e sincronizadas. O terreno foi inicialmente dividido em “lotes” de 2 x 3 metros, que contavam inclusive com uma “escritura” de posse. Esses lotes foram disputados à força no início da mineração, mas, com a ação firme do Major Curió no controle do garimpo, esses lotes passaram a ser sorteados. Os donos desses lotes, chamados popularmente de “barrancos”, eram os “capitalistas – Serra Pelada chegou a possuir 300 “barrancos”. 

Na estrutura hierárquica do garimpo, a segunda posição era ocupada pelo “meia-praça”, uma espécie de mestre de obras responsável por organizar os trabalhos de escavação nos “barrancos”, recendo uma comissão entre 2 e 5% sobre o volume de ouro encontrado. Respondendo ao “meia-praça” se encontravam o cavador, o apontador, o apurador e o “formiga”. O “formiga”, como o próprio nome diz, era o trabalhador responsável pela escavação do solo até que se encontrasse as rochas. Os sedimentos eram colocados em uma espécie de mochila, com peso de até 35 kg, que era transportada para fora da cava. Essa operação era feita subindo-se pelas escadas improvisadas nas encostas do morro, que recebiam o apelido de “adeus-mamãe”. 

O cavador era o profissional responsável pelo desmonte das rochas, o que era feito a golpes de picareta. Essa é uma das etapas mais importantes da mineração pois as pepitas de ouro ficam escondidas nas rochas. Contam as histórias dos garimpeiros que era comum se encontrar pepitas grandes, do tamanho de um limão galego. Além das pepitas, que eram facilmente identificadas, os sedimentos de rocha continham pequenos fragmento e pó de ouro. Por isso, esses sedimentos eram transportados para as áreas de lavagem. Nesses locais era montada uma calha coberta por mercúrio, onde a terra e os sedimentos escavados eram lavados pelo apurador. O mercúrio se liga ao ouro formando uma liga, que depois é submetida a um processo de aquecimento, onde o mercúrio evapora e só resta o ouro na bateia. 

Aqui vale uma nota: o mercúrio é um metal pesado altamente tóxico para os seres vivos. Os problemas começam durante o aquecimento, quando o apurador respira diretamente o vapor de mercúrio, que vai se acumulando no organismo até desencadear numa série de doenças, especialmente danos graves e irreversíveis no sistema nervoso central. Outro problema é a contaminação ambiental – o vapor de mercúrio se esfria rapidamente e o metal volta ao estado líquido, caindo sobre os solos. Carreadas pelas fortes chuvas da Amazônia, centenas de toneladas de mercúrio passaram a poluir os rios e a contaminar todos os seres vivos aquáticos em cadeia, começando com plantas e criaturas microscópicas, passando por peixes e chegando depois aos seres humanos que comiam peixes capturados nesses rios. 

Ao final de todo esse penoso processo, os ganhos com a venda do ouro, minuciosamente controlados pelo apontador, eram distribuídos entre toda a estrutura hierárquica dos “barrancos”, sendo transformado em uma espécie de moeda corrente, usada desde o pagamento de bebidas e refeições, até os “serviços” prestados por profissionais do sexo. Alguns poucos fizeram verdadeiras fortunas a partir desses ganhos. A grande maioria dos aventureiros de Serra Pelada mal conseguiu sair da miséria. 

A “febre do ouro” passa e a cruel realidade se mostra com toda a sua força… 

“DEZENAS DE PESSOAS SÃO SOTERRADAS POR DESABAMENTO DE MINA NA INDONÉSIA”

INDONESIA-DISASTER

Há exatamente uma semana, um grave desabamento em uma mina ilegal de ouro numa das ilhas do Arquipélago Indonésio soterrou perto de 60 trabalhadores. De acordo com as informações divulgadas, que não foram muito precisas, pelo menos 3 pessoas morreram e 14 foram resgatadas com ferimentos. As autoridades suspeitavam que mais de 40 pessoas ficaram soterradas sob os escombros. 

Leia a integrada da notícia, divulgada pela Agência de Notícias EFE: 

O desabamento de uma mina ilegal de ouro na ilha de Célebes, na Indonésia, na terça-feira 26 deixou dezenas pessoas soterradas, segundo as autoridades locais. Pelo menos três mineiros morreram e outras 14 pessoas foram resgatadas com ferimentos. 

“Quando dezenas de pessoas estavam extraindo ouro naquele local, os postes e tábuas que sustentavam a carga quebraram por causa das condições do solo e do grande número de túneis para mineração”, explicou o porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Desastres (BNPB, sigla em indonésio), Sutopo Purwo Nugroho.

Segundo Nugroho, nesta quarta-feira, 27, as autoridades locais estimam que 43 pessoas ainda estejam soterradas. 

As equipes de resgate seguem trabalhando em uma área íngreme e arborizada junto com outros mineiros e forças de segurança onde muitos dos desaparecidos poderiam continuar vivos sob os escombros. 

A mineração ilegal é um fenômeno comum na Indonésia devido à permissividade das autoridades. Os acidentes ocorrem com frequência por conta da falta de medidas de segurança. 

Notas semelhantes foram divulgadas por outras agências de notícias, porém sem acrescentar maiores detalhes. Para que todos consigam entenderam a real dimensão do problema, que acontece nos quatro cantos do mundo, vamos fazer algumas considerações. 

A falta de fiscalização das autoridades tem uma razão principal: a República Indonésia forma o maior arquipélago oceânico do mundo – são 17.508 ilhas, que se se estendem num grande arco que começa ao largo da península malaia e vai até a metade ocidental da ilha da Nova Guiné. O arquipélago abriga a 5° maior população do mundo – são 250 milhões de habitantes, uma população quase 25% maior que a brasileira

Para conseguir fiscalizar uma quantidade tão grande de ilhas, o Governo indonésio precisaria ter uma gigantesca força naval, além de inúmeros fiscais para realizar o trabalho em terra. Vamos imaginar que fosse possível criar unidades com 10 homens e mulheres, cada uma contando com uma lancha para fazer o deslocamento. Essa força hipotética teria de contar com mais de 175 mil pessoas e 17.508 lanchas para conseguir cobrir todo o território insular da Indonésia. Para efeito de comparação, a Guarda Costeira dos Estados Unidos, simplesmente o país mais rico do mundo, possui cerca de 70 mil servidores, entre civis e militares, 1.761 navios de todos os portes e 187 aeronaves, especialmente helicópteros. A realidade econômica da Indonésia permitiria apenas uma pequena fração dessa força. 

Estudos científicos realizados através de imagens de satélite entre os anos 2000 e 2012, mostraram que a Indonésia perdeu cerca de 60 mil km² de florestas tropicais. Essa área é equivalente ao tamanho da Irlanda. Vale ressaltar que o país assinou uma moratória em 2011, onde assumiu o compromisso de reduzir o desmatamento. As principais razões para esse intenso desmatamento são as crescentes exportações de madeira para países da Ásia, como a China e o Japão, além de outros países do Sudeste Asiático, Austrália e Oceania, e a agricultura.  

As terras devastadas pelas madeireiras passam a abrigar fazendas que se dedicam à produção da palma (Elaeis guineensis), uma planta cujos frutos são ricos em óleo vegetal. Esse óleo, conhecido entre nós como azeite de dende, é uma importante fonte de renda para a Indonésia, gerando um faturamento da ordem de US$ 20 bilhões. Nos últimos anos, o dendê passou a ser considerado uma espécie de “combustível ecológico” e vem sendo transformado em biodiesel por alguns países da região. As populações que vivem da cultura recebem preços baixos pelo produto e a natureza está sendo destruída para a abertura dos campos agrícolas – não sei exatamente onde entra o componente “ecológico” nessa equação. 

Essa combinação nefasta de mineração descontrolada, desmatamentos e abertura de áreas agrícolas, está causando uma verdadeira tragédia ambiental na Indonésia, onde a vida selvagem figura como a maior vítima. O maior exemplo que podemos citar é o virtual risco de extinção dos orangotangos, uma das mais antigas espécies de primatas do nosso mundo, que compartilha cerca de 97% dos seus genes com os seres humanos. O orangotango-de-sumatra (vide foto abaixo), a subespécie encontrada na Indonésia, teve sua população reduzida em 80% nos últimos 75 anos – calcula-se que existam menos de 7 mil indivíduos da espécie vivendo livres na natureza. A se continuar com esse ritmo da destruição do meio ambiente, essa carismática espécie de primata (a outra subespécie, o orangotango-de-borneo, não está em situação melhor) desaparecerá da natureza dentro de poucos anos. 

Orangotango

Notem que uma pequena notícia sobre um acidente de mineração na distante Indonésia, devidamente destrinchada e contextualizada, pode revelar uma gigantesca catástrofe ambiental. 

 

A MINERAÇÃO DO AMIANTO CONTINUA RESPIRANDO POR “APARELHOS”

Amianto

O amianto (vide foto) é uma fibra mineral que teve um largo emprego industrial devido às suas características físicas: resistência a altas temperaturas, flexibilidade, resistência ao ataque de ácidos, isolamento elétrico e acústico, e, principalmente, um baixo custo. Ao longo do século XX, o amianto chegou a ser considerado um “mineral mágico”. Durante décadas, produtos fabricados em cimento amianto (massa com cimento e fibras de amianto) foi destaque na construção civil em materiais como placas, telhas, forros, pisos e caixas d’água.

Com o passar dos anos, estudos começaram a associar a intoxicação por fibras do amianto a uma série de doenças observadas entre trabalhadores da construção civil, mineiros e mecânicos, que tinham contato direto com o mineral. As fibras inaladas ou ingeridas estimulam mutações celulares no organismo, que podem originar tumores cancerígenos nos pulmões e em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano em consequência de doenças causadas pelo amianto e materiais que utilizam o mineral estão proibidos em mais de 50 países. O Brasil, ao contrário, continuava sendo um dos cinco maiores utilizadores e exportadores de produtos com amianto do mundo.

De acordo com informações do INCA – Instituto Nacional do Câncer, as principais doenças relacionadas ao amianto são:

Asbestosecausada pela deposição de fibras de amianto nos alvéolos pulmonares, provocando uma reação inflamatória, fibrose e rigidez, reduzindo a capacidade de realizar a troca gasosa e da capacidade respiratória, levando à incapacidade para o trabalho;

Câncer de pulmão: O câncer de pulmão pode estar associado com outras manifestações mórbidas como asbestose;

Câncer de laringe, do trato digestivo e de ovário: Também estão relacionados à exposição ao amianto;

Mesoteliomaé uma forma rara de tumor maligno, mais comumente atingindo a pleura, membrana serosa que reveste o pulmão, mas também incidindo sobre o peritônio, pericárdio, a túnica vaginal e bolsa escrotal.

Devido a toxicidade deste material, a venda de produtos com amianto na sua composição foi proibida na cidade de São Paulo em 2001 e no Estado de São Paulo em 2007. Em outros 5 estados o amianto também foi proibido: Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No Mato Grosso do Sul, a lei existente foi revogada pelo STF – Supremo Tribunal Federal, que considerou que houve invasão da competência da União.

Finalmente, no dia 29 de novembro de 2017, o STF – Supremo Tribunal Federal, proibiu, através da expressiva votação de 7 votos a favor e 2 contra, a extração, a industrialização, a comercialização e a distribuição do amianto do tipo crisotila, matéria-prima muito utilizada na fabricação de telhas leves e caixas d’água. Em 1995 havia sido aprovada a Lei Federal N° 9.055, diga-se de passagem, com forte lobby da indústria do amianto, que permitia o uso “controlado” da matéria-prima – a decisão do STF declarou que um dos artigos desta lei é inconstitucional e proibiu em definitivo o uso do amianto no Brasil.

A partir daquele momento, em tese, o Brasil se juntaria ao seleto grupo de mais de 60 países que tem legislação que proíbe o processamento, a venda e o uso desta matéria-prima e de qualquer um dos seus produtos. Infelizmente, a coisa ainda não está completamente resolvida – empresas do setor de mineração do amianto querem conseguir autorização para explorar o material para fins de exportação e contam com um forte apoio de deputados goianos e do Governador Ronaldo Caiado. A explicação é simples: a maior mina de amianto do Brasil fica em Minaçu, no Norte de goiás.

Localizada a cerca de 400 km de Goiânia, a cidade de Minaçu tem grande parte da sua economia girando em torno dessa atividade de mineração. Os sindicatos locais se reuniram num movimento para pedir um prazo de 10 anos para a paralização progressiva da atividade, de forma a permitir que a cidade e os trabalhadores se adaptem, economicamente, a uma vida “sem amianto”. A proprietária da mina, a empresa multinacional Sama Minerações, é claro, está se aproveitando do movimento dos trabalhadores na sua luta para continuar explorando as suas jazidas. A empresa estava se valendo de uma liminar, que venceu a poucos dias atrás, que permitia a continuidade da mineração do amianto até a publicação da sentença definitiva pelo STF – Superior Tribunal Federal.

Num esforço conjunto, a Sama, os trabalhadores, os Deputados Estaduais e o próprio Governador, trabalham para conseguir a liberação da extração do amianto para fins de exportação. Apesar da proibição do uso do amianto em mais de 60 países, existem dezenas de nações de menor desenvolvimento econômico que ainda permitem o uso do produto e formam um mercado fabuloso para as exportações brasileiras de amianto. Uma das táticas usadas pelo grupo, bastante conhecida aliás, vem sendo a divulgação de “estudos científicos” que afirmam que não existem provas científicas definitivas sobre os riscos do amianto para a saúde humana.

A Sama Mineração é fortemente criticada em várias partes do mundo por essa postura de defesa do uso do amianto. Uma notícia bastante incômoda para a empresa foi a recente divulgação de uma doação eleitoral em 2014, para o então candidato Ronaldo Caiado, político que atualmente é Governador de Goiás e forte defensor da manutenção das atividades de mineração do amianto no Estado. E uma questão que parecia ter sido resolvida em definitivo, parece que ainda terá novos e emocionantes capítulos.

Existem ainda milhões de caixas d’água e telhas feitas de amianto em uso no Brasil e ainda serão necessários muitos anos para se erradicar, em definitivo, esse mal de nossa sociedade. Milhões de brasileiros continuam expostos aos riscos de saúde criados pelo amianto e não vemos movimentos de Deputados, Governadores e outros políticos interessados em criar condições para a substituição dessas peças por outras, feitas de materiais seguros. Algo, no mínimo, muito suspeito.

A mensagem que fica dessa história é a seguinte: você pode até não tomar veneno, mas não vê mal nenhum em vender veneno para o seu vizinho. Dourar a “pílula” desse veneno é só uma estratégia de tentar ocultar os gravíssimos riscos do amianto para a saúde humana – a nossa e a de outras pessoas pelo mundo afora.

“AS USINAS DE DESSALINIZAÇÃO GERAM SALMOURA SUFICIENTE PARA COBRIR A ESPANHA”

Usina de dessalinização em Hamburgo

Em uma série de postagens anterior, falamos longamente sobre a utilização de processos de dessalinização da água do mar, produzindo-se assim água potável para o abastecimento de populações que vivem em áreas desérticas e semiáridas em todo o mundo. Algumas semanas atrás, o Jornal El País, da Espanha, publicou uma interessante reportagem sobre os problemas criados pelo despejo da salmoura no meio ambiente. Como é um assunto de grande interesse na área dos recursos hídricos, traduzimos e publicamos aqui no blog a íntegra da reportagem:

QUATRO PAÍSES DO GOLFO PRODUZEM METADE DESSA ÁGUA HIPERSALINA QUE DESCARREGAM DIRETAMENTE NO MAR 

Um relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU) estimou o número de usinas de dessalinização no planeta. O trabalho mostra a quantidade de água potável que eles geram e que alivia a sede de milhões de pessoas. Mas também revela os milhões de metros cúbicos (m3) de águas hipersalinas (salmoura) geradas no processo. Embora a maioria das plantas seja encontrada no Ocidente, apenas quatro países do Golfo Pérsico produzem mais da metade da salmoura, que despejam diretamente no mar. 

O estudo parte de uma realidade: 40% da população (mundial) sofre escassez de água. O problema será agravado no futuro por duas tendências crescentes. Por um lado, há o aumento esperado da população e, por outro lado, fatores antropogênicos, como poluição e mudanças climáticas, reduzirão ainda mais a disponibilidade de água de fontes convencionais. Por isso, será necessário procurá-la onde há maior disponibilidade: no mar. 

A revisão dos cientistas da UNU estima que existam 15.906 usinas de dessalinização operacional (o número inclui aquelas em construção). Este número supõe quase triplicar as (usinas) existentes no começo do século. Somadas, elas têm uma capacidade teórica para gerar água potável (o real é impossível calcular) de cerca de 95 milhões de metros cúbicos por dia (m3 / dia), cerca de 34.000 milhões por ano. 70% das plantas estão nos países ricos e 0,1% nos 100 mais pobres. Entre os primeiros, destacam-se os EUA com 10% ou a Espanha com 5,7% (mais da metade das usinas de dessalinização na Europa). Mas a maior concentração está no Golfo Pérsico: a Arábia Saudita, os Emirados Árabes, o Kuwait e o Catar respondem por um terço das instalações

O trabalho, publicado na Science of the Total Environment, também determina os usos que são dados à água dessalinizada, às fontes de origem ou às tecnologias utilizadas para torná-la potável. A maior parte da água (62,3%) é utilizada para consumo humano direto e outro terço para uso industrial, uma vez que muitos processos requerem água com baixa concentração de sais. Quase dois terços da água é obtida do mar e outro quarto da água salobra interna. A tecnologia dominante hoje é a osmose reversa, na qual a água é separada dos sais pelo uso de membranas. Quase 70% da água é obtida desta maneira. As outras principais tecnologias, com um quarto da água produzida, são térmicas, que utilizam processos de evaporação e condensação. 

O maior problema das usinas de dessalinização é, de acordo com este novo trabalho, a salmoura. Até agora, aceitava-se que, em termos globais, a taxa de conversão era próxima de 0,50. Ou seja, para produzir um litro de água potável, outro de salmoura foi gerado. A lógica é simples: se a concentração média de sal na água do mar for 30/35 gramas por litro e você retirar todo o sal, terá outro litro com 60/70 gramas de sal. 

A realidade que revela este estudo é muito diferente. Todos os dias, no mundo, as usinas de dessalinização geram 141,5 milhões de metros cúbicos de salmoura. É 50% mais do que se acreditava. No ano são cerca de 51.700 milhões de m3, o suficiente para cobrir a extensão da Espanha com uma fina camada de água hipersalina. Então, para produzir um litro de água potável, você tem que gerar 1,5 litros de salmoura. A distribuição geográfica da responsabilidade é muito desigual: 55% de toda essa salmoura é produzida na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes, no Kuwait e no Catar.  

No entanto, as plantas desses antigos países desérticos produzem apenas um terço da água. É verdade que os estados petrolíferos precisam de água dessalinizada para cobrir até 100% de suas necessidades, mas esse trabalho também revela sua enorme ineficiência para alcançá-lo. 

“Esses países precisam rever as estratégias para administrar a salmoura”, afirma em um email o diretor assistente do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU e co-autor do estudo, Manzoor Qadir. É urgente criar maiores esforços em investigação “para reduzir o volume de salmoura gerado, por exemplo, aumentando a eficiência do processo de dessalinização” e, por outro lado, “o tratamento e/ou usar a salmoura de uma forma economicamente viável e respeitosa do medo ambiental “, acrescenta. 

Deve-se notar que o artigo menciona dois estudos em que uma revisão exaustiva das técnicas, tecnologias e inovações recentes na gestão de salmoura foi feita; um desses estudos foi feito pelo professor José Morillo, da Universidade de Sevilha. Para Morillo, a chave é transformar a salmoura em uma oportunidade. “Nos 60 gramas de sais por litro, há o cloreto de sódio, mas também o lítio e o magnésio”, lembra ele.  

Tanto o magnésio como o lítio são metais altamente valorizados, especialmente no setor de tecnologia. A equipe deste professor, em colaboração com o professor Alfonso Caballero (Instituto de Ciência dos Materiais de Sevilha) e empresas como a Abengoa, realizou diferentes testes para recuperar minerais. São obras que estão em seus primórdios, mas, para frutificar, transformariam um problema em uma grande oportunidade. 

A margem para melhoria é enorme. Os países do Golfo foram os primeiros a instalar usinas de dessalinização há mais de meio século. Apoiados pelo petróleo barato, optaram por tecnologias térmicas, que utilizam energia para evaporar e condensar a água. Mas hoje eles foram ultrapassados ​​por outros sistemas. De acordo com especialistas do setor, um metro cúbico de água dessalinizada por processos térmicos usa 10 vezes mais energia do que uma planta de dessalinização por osmose inversa na Espanha. Embora a taxa de conversão também envolva a origem de água (do mar têm concentração de sal mais elevada do que em águas salobras) e não apenas a tecnologia, plantas no Médio Oriente têm taxas de conversão que raramente excedem 0,25, a metade do seu equivalente na Europa e até um décimo do valor obtido em algumas das plantas para uso industrial. 

Apesar do estudo não avaliar o impacto ambiental da salmoura, Qadir lembra, como diferentes estudos têm indicado, que “o aumento da salinidade e temperatura, devido a uma descarga da solução salina, pode provocar uma diminuição do teor de oxigénio dissolvido, o que é conhecido como hipóxia”. O grande problema é que, enquanto sistemas de dessalinização não cumprirem as normas rigorosas para reduzir esse “picles” alimentado pela água do mar, a única opção viável neste momento é retornar a água ao mar com o sal extra, com os riscos envolvidos para o meio ambiente. 

“Na Espanha, as espécies mais afetadas são a Posidonia oceanicaNodosa cymodea e Zostera noltii, que são plantas marinhas, algumas delas endêmicas do Mediterrâneo e protegidas”, diz o pesquisador do Instituto de Hidráulica Ambiental da Universidade de CantabriaInigo Losada, não relacionado ao estudo. “Há também algas e moluscos que podem ser afetados. Em geral, embora ela também pode afetar os peixes, eles costumam deixar a área de derramamento quando as condições não são adequadas”, acrescenta. Resta saber se, embora esses efeitos sejam locais, a grande quantidade de dessalinização e salmoura que produzem acabará se tornando um problema global. 

El País 

Reportagem de Miguel Ángel Criado