“DEZENAS DE PESSOAS SÃO SOTERRADAS POR DESABAMENTO DE MINA NA INDONÉSIA”

INDONESIA-DISASTER

Há exatamente uma semana, um grave desabamento em uma mina ilegal de ouro numa das ilhas do Arquipélago Indonésio soterrou perto de 60 trabalhadores. De acordo com as informações divulgadas, que não foram muito precisas, pelo menos 3 pessoas morreram e 14 foram resgatadas com ferimentos. As autoridades suspeitavam que mais de 40 pessoas ficaram soterradas sob os escombros. 

Leia a integrada da notícia, divulgada pela Agência de Notícias EFE: 

O desabamento de uma mina ilegal de ouro na ilha de Célebes, na Indonésia, na terça-feira 26 deixou dezenas pessoas soterradas, segundo as autoridades locais. Pelo menos três mineiros morreram e outras 14 pessoas foram resgatadas com ferimentos. 

“Quando dezenas de pessoas estavam extraindo ouro naquele local, os postes e tábuas que sustentavam a carga quebraram por causa das condições do solo e do grande número de túneis para mineração”, explicou o porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Desastres (BNPB, sigla em indonésio), Sutopo Purwo Nugroho.

Segundo Nugroho, nesta quarta-feira, 27, as autoridades locais estimam que 43 pessoas ainda estejam soterradas. 

As equipes de resgate seguem trabalhando em uma área íngreme e arborizada junto com outros mineiros e forças de segurança onde muitos dos desaparecidos poderiam continuar vivos sob os escombros. 

A mineração ilegal é um fenômeno comum na Indonésia devido à permissividade das autoridades. Os acidentes ocorrem com frequência por conta da falta de medidas de segurança. 

Notas semelhantes foram divulgadas por outras agências de notícias, porém sem acrescentar maiores detalhes. Para que todos consigam entenderam a real dimensão do problema, que acontece nos quatro cantos do mundo, vamos fazer algumas considerações. 

A falta de fiscalização das autoridades tem uma razão principal: a República Indonésia forma o maior arquipélago oceânico do mundo – são 17.508 ilhas, que se se estendem num grande arco que começa ao largo da península malaia e vai até a metade ocidental da ilha da Nova Guiné. O arquipélago abriga a 5° maior população do mundo – são 250 milhões de habitantes, uma população quase 25% maior que a brasileira

Para conseguir fiscalizar uma quantidade tão grande de ilhas, o Governo indonésio precisaria ter uma gigantesca força naval, além de inúmeros fiscais para realizar o trabalho em terra. Vamos imaginar que fosse possível criar unidades com 10 homens e mulheres, cada uma contando com uma lancha para fazer o deslocamento. Essa força hipotética teria de contar com mais de 175 mil pessoas e 17.508 lanchas para conseguir cobrir todo o território insular da Indonésia. Para efeito de comparação, a Guarda Costeira dos Estados Unidos, simplesmente o país mais rico do mundo, possui cerca de 70 mil servidores, entre civis e militares, 1.761 navios de todos os portes e 187 aeronaves, especialmente helicópteros. A realidade econômica da Indonésia permitiria apenas uma pequena fração dessa força. 

Estudos científicos realizados através de imagens de satélite entre os anos 2000 e 2012, mostraram que a Indonésia perdeu cerca de 60 mil km² de florestas tropicais. Essa área é equivalente ao tamanho da Irlanda. Vale ressaltar que o país assinou uma moratória em 2011, onde assumiu o compromisso de reduzir o desmatamento. As principais razões para esse intenso desmatamento são as crescentes exportações de madeira para países da Ásia, como a China e o Japão, além de outros países do Sudeste Asiático, Austrália e Oceania, e a agricultura.  

As terras devastadas pelas madeireiras passam a abrigar fazendas que se dedicam à produção da palma (Elaeis guineensis), uma planta cujos frutos são ricos em óleo vegetal. Esse óleo, conhecido entre nós como azeite de dende, é uma importante fonte de renda para a Indonésia, gerando um faturamento da ordem de US$ 20 bilhões. Nos últimos anos, o dendê passou a ser considerado uma espécie de “combustível ecológico” e vem sendo transformado em biodiesel por alguns países da região. As populações que vivem da cultura recebem preços baixos pelo produto e a natureza está sendo destruída para a abertura dos campos agrícolas – não sei exatamente onde entra o componente “ecológico” nessa equação. 

Essa combinação nefasta de mineração descontrolada, desmatamentos e abertura de áreas agrícolas, está causando uma verdadeira tragédia ambiental na Indonésia, onde a vida selvagem figura como a maior vítima. O maior exemplo que podemos citar é o virtual risco de extinção dos orangotangos, uma das mais antigas espécies de primatas do nosso mundo, que compartilha cerca de 97% dos seus genes com os seres humanos. O orangotango-de-sumatra (vide foto abaixo), a subespécie encontrada na Indonésia, teve sua população reduzida em 80% nos últimos 75 anos – calcula-se que existam menos de 7 mil indivíduos da espécie vivendo livres na natureza. A se continuar com esse ritmo da destruição do meio ambiente, essa carismática espécie de primata (a outra subespécie, o orangotango-de-borneo, não está em situação melhor) desaparecerá da natureza dentro de poucos anos. 

Orangotango

Notem que uma pequena notícia sobre um acidente de mineração na distante Indonésia, devidamente destrinchada e contextualizada, pode revelar uma gigantesca catástrofe ambiental. 

 

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