A CRISE NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO OESTE CATARINENSE, OU OS PORCOS CONTRA ATACAM

porcos

Quem leu minhas publicações nos últimos dois meses pode ter ficado com a sensação que os problemas de abastecimento de água e lançamento de esgotos sanitários é uma questão meramente urbana – ao contrário: as atividades rurais em agricultura e pecuária consomem 70% da água disponível e, consequentemente, geram grandes agressões ambientais. Vamos começar analisando um caso envolvendo a suinocultura na região oeste do Estado de Santa Catarina.

A suinocultura é considerada pelos órgãos ambientais como uma das maiores geradoras de dejetos por unidade de área ocupada, produzindo em média de 5% a 8% em relação ao peso vivo dos animais. Considerando-se urina, fezes e limpeza dos viveiros, cada porco gera pouco mais de 10 litros de esgotos por dia. O Estado de Santa Catarina, maior produtor de suínos do Brasil com 30% do rebanho nacional, tem mais de 4,7 milhões de animais produzindo quase 50 milhões de litros de esgotos por dia. Considerando-se que as cidades brasileiras nunca demonstraram grandes preocupações com a implantação de sistemas de coleta e de tratamento de esgotos, seria difícil imaginar que produtores rurais tivessem esse tipo de preocupação – grande parte desses dejetos acaba sendo lançada em cursos d’água in natura e também infiltra no solo, contaminando as águas subterrâneas do lençol freático.

Os dejetos de suínos possuem altas concentrações de nitrato, fósforo e de potássio, além de grandes quantidades de bactérias e vermes. Um litro de dejeto suíno sem tratamento polui dez vezes mais que a mesma quantidade de esgoto doméstico. Os gases emitidos pela suinocultura também geram desconforto aos humanos por possuírem grandes concentração de gás metano (CH4), que é considerado vinte vezes mais agressor na atmosfera que o gás carbônico. Há séculos, criadores de porcos e moradores das cidades em todo o mundo se confrontam por causa do mal cheiro e dos dejetos dos animais; porém, os prazeres do consumo da carne suína e dos diversos tipos de frios e embutidos acabou por criar uma relativa tolerância e sempre se encontrou uma forma de convívio relativamente próximo desses animais.

A criação de suínos sempre foi uma atividade tradicional na região com base na produção familiar. A partir da década de 1940 foi iniciada a produção em escala industrial, levando ao aumento progressivo de produtores especializados. Até a década de 1970 a produção não era considerada um problema ambiental e as propriedades tinham capacidade de “controlar” os volumes de dejetos gerados na produção. Essa falta de preocupação persistiu até o ano 2000, quando o nível de produção de suínos atingiu um nível crítico, comprometendo o abastecimento de água de 5,5 milhões de habitantes das cidades da região, chegando perto do colapso – a maioria das fontes de água estava contaminada por dejetos dos suínos. Além dos problemas localizados na região do oeste Catarinense, essa poluição tinha potencial para atingir outros 15 milhões de habitantes de regiões vizinhas – rios e lençóis subterrâneos estão interligados ao Aquífero Guarani, manancial subterrâneo que se estende por 1,2 milhão de km² em áreas do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. As águas estratégicas deste aquífero são utilizadas pelas populações de centenas de cidades.

Análises laboratoriais feitas em amostras coletadas em corpos d’água e poços da região demonstravam o tamanho da contaminação: 84% das fontes e pequenos mananciais da área em estudo estavam contaminados por coliformes fecais; na cidade de Chapecó por exemplo, foi verificado que pelo menos 97% dos poços rasos estavam contaminados por coliformes totais e quase 70% por coliformes fecais. Nos poços profundos (artesianos e semiartesianos) a contaminação por coliformes fecais era de até 30%. O grupo de bactérias denominado coliformes tem origem no intestino de animais mamíferos, inclusive o homem, .e são eliminadas junto com as fezes; são consideradas os principais indicadores de contaminação das águas.

No próximo post vamos continuar nesse assunto, detalhando um pouco mais os problemas e mostrando quais as soluções que precisaram ser implementadas para começar a resolver essa grave crise no abastecimento de água local.

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