OS VÍRUS, AS CÉLULAS E O MECANISMO DE TRANSMISSÃO DA FEBRE AMARELA

Vacina Febre Amarela

Os vírus são as menores formas de vida conhecidas, porém estão entre as “criaturas” mais mortais do nosso planeta. Um exemplo devastador da periculosidade dos vírus se deu logo após a chegada dos primeiros conquistadores europeus ao continente americano. Muito mais do que a pólvora dos canhões e o aço das espadas, os europeus, sem saber, possuíam verdadeiros arsenais de armas biológicas em seus corpos: os vírus da varíola, da gripe, da tuberculose, da sífilis, entre outros. Em contato com populações que viviam isoladas a vários milênios no continente, esses vírus provocaram epidemias devastadoras que, em alguns casos documentados, foram responsáveis pela morte de até 80% dos moradores de algumas tribos dos povos nativos.

Durante milhares de anos, os sábios e cientistas desenvolveram inúmeras explicações sobre a origem de algumas doenças e pestes que surgiam do nada e que matavam milhares de pessoas após sua passagem por cidades e vilas. Falavam de desequilíbrios dos “humores” do próprio corpo, de miasmas (emanações de gases), entre outras especulações. Foi somente em meados do século XIX que o cientista Louis Pasteur propôs a Teoria Microbiana das Doenças. Pasteur imaginava que todas as doenças tinham origem em alguma forma de vida diminuta, que invadia o organismo humano e se multiplicava sem controle. Posteriormente, com o desenvolvimento de microscópios óticos, com capacidade de ampliação cada vez mais altas, foi possível analisar o sangue e as secreções dos doentes e encontrar diversos micro-organismos causadores de doenças, comprovando-se assim as suspeitas de Louis Pasteur. Com o tempo, foi comprovada a existência das bactérias e dos vírus – inclusive, o primeiro vírus humano a ser isolado foi o da febre amarela em 1928. A visualização dos vírus só se tornaria possível a partir da segunda metade do século XX, logo após a invenção dos microscópios de varredura eletrônica com altíssima capacidade de ampliação.

Nestes tempos de surtos múltiplos de febre amarela, os vírus voltaram com toda força para a mídia, que muitas vezes não consegue explicar para a população adequadamente o que são e como é que eles infectam as pessoas. Apesar de não ser um especialista na área, vou tentar explicar um pouco melhor esta questão:

Vírus são formas de “vida” extremamente simples e de dimensões microscópicas, que só conseguem sobreviver parasitando células de outros organismos. Diferente das células, que são organismos vivos autônomos, os vírus não possuem organelas (ou ribossomos) e não possuem a capacidade de gerar a sua própria energia metabólica – eles dependem da energia de uma célula viva para sobreviver e, especialmente, das organelas celulares para se multiplicar. Quando um vírus infecta um ser vivo de qualquer espécie (indo desde uma bactéria até uma baleia azul), eles passarão imediatamente a invadir as células deste hospedeiro e, se utilizando de toda a “infraestrutura” celular deste ser, iniciarão o processo de reprodução, conhecido como replicação viral – é esse processo que pode provocar as doenças. O vírus causador da febre amarela, que é o nosso exemplo, tem predileção por alguns tipos de células do organismo humano, especialmente as células do fígado. Como este vírus tem uma altíssima capacidade de reprodução, um único vírus que conseguir “invadir” o organismo poderá gerar milhares de novos vírus em poucas horas; a pessoa infectada poderá desenvolver uma hepatite gravíssima em pouco tempo e morrer em questão de dias.

O vírus da varíola, doença dizimou grande parte dos indígenas brasileiros durante a colonização do país, é um exemplo de letalidade. Este vírus é comumente encontrado em vacas e bois, animais que os povos da Europa vêm criando a milhares de anos. A partir do contato frequente com estes animais, os europeus desenvolveram mecanismos de defesa e raramente desenvolviam a doença. Quando ocorreram os primeiros contatos entre portugueses e nativos brasileiros, surgiram os primeiros surtos de varíola ou de “bexigas”, nome dado à doença na época. O antropólogo Darcy Ribeiro deixou registrado em vários dos seus livros que a doença matava entre 50 e 60% dos moradores das aldeias infectadas. A febre amarela está muito longe disto, mas em alguns poucos casos ela pode ser fatal, o que justifica toda a paranoia que tomou conta de nosso país nos últimos meses.

O vírus da febre amarela surgiu nas florestas da África em algum momento de um passado muito distante e “escolheu” algumas espécies de mosquitos hematófagos (ou seja, que se alimentam de sangue em algum momento de seu ciclo de vida) como hospedeiros. A transmissão do vírus para macacos e humanos ocorre durante as picadas das fêmeas dos mosquitos (os machos não picam) na busca do sangue, fonte de proteína essencial para o desenvolvimento dos seus ovos. Uma vez no organismo do novo hospedeiro, o vírus passa a se multiplicar, podendo levar ao desenvolvimento da doença. 

A febre amarela chegou às Américas junto com os primeiros escravos trazidos desde África, com o vírus ativo no organismo de doentes, ou ainda como hospedeiro em mosquitos que pegaram “carona” nos navios negreiros (foi assim que o famoso Aedes aegypti chegou as nossas terras). Em terras americanas, o vírus passou a ser transmitido para pessoas e macacos locais através das picadas dos recém-chegados mosquitos africanos ou através de mosquitos autóctones, que passaram a picar os africanos portadores do vírus.

De uma forma natural, o vírus encontrou um nicho ecológico com condições ideais para a sua sobrevivência no organismo de algumas espécies de mosquitos silvestres, especialmente dos gêneros Haemagogus e Sabethescom, com hábitos de picar macacos para sugar sangue. Assim como no caso do vírus da varíola, a longa convivência dos macacos com os mosquitos silvestres hospedeiros do vírus da febre amarela levou ao desenvolvimento de mecanismos de defesa nestes animais, que raramente desenvolvem a doença. Em vários momentos de nossa história, esse mecanismo de equilíbrio ambiental foi quebrado e ocorreram epidemias de febre amarela em muitas cidades – na maior parte do tempo, a circulação do vírus ficou restrita entre populações de macacos e mosquitos silvestres em áreas florestais.

Os diversos surtos de febre amarela que estão surgindo em diversas regiões do Brasil são resultantes da quebra desse equilíbrio ambiental. O crescimento desordenado de cidades na direção de matas, a circulação de macacos dentro de áreas urbanas, a proximidade de populações com regiões onde vivem mosquitos de espécies silvestres, o contato de mosquitos urbanos com macacos infectados com o vírus, entre outras causas, colocou pessoas em contato com o vírus da febre amarela e, assim, passamos a conviver com casos da doença. O caminho possível para reequilibrar as coisas num curto prazo é a vacinação em massa da população contra a doença (vide foto), providência que já está sendo tomada pelas autoridades da melhor maneira possível. Aliás, é importante lembrar que o Brasil possui uma excelente reputação internacional na realização de campanhas de vacinação em massa. A vacina, que é formada por vírus ou partes de vírus da doença enfraquecidos, provoca o desenvolvimento de mecanismos de defesa no organismo das populações, reduzindo ao máximo a possiblidade do desenvolvimento da doença mesmo após a inoculação de vírus ativos nos seus organismos.

Após o controle destes perigosos surtos da doença, que espero acontecer dentro de poucos meses, apesar da histeria de muitos órgãos e profissionais da imprensa, precisaremos repensar seriamente sobre os muitos desequilíbrios ambientais provocados pelo crescimento de nossas cidades e reparar o que for possível. Mosquitos silvestres hospedeiros do vírus, macacos e matas vão continuar em seus devidos lugares, vivendo como sempre viveram.

A humanidade sobreviveu à peste negra, a febre Espanhola e a muitas outras epidemias muito mais graves que a febre amarela. Precisamos agora de muita calma, sabedoria, informações corretas e, talvez, boas doses de canja de galinha.

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