AS AMEAÇAS ÀS POPULAÇÕES DE TRUTAS NOS RIOS DO CANADÁ

Truta-arco-íris

O discreto Canadá é o maior país da América do Norte e o segundo maior país do mundo em superfície, superado apenas pelo gigantesco território da Rússia. O país tem uma área total com quase 10 milhões de km², cerca de 1,5 milhão de km² maior que o Brasil. É um dos países com a maior disponibilidade de águas doces superficiais, apresentando cerca de 7% do total disponível no mundo. 

As paisagens canadenses são muito particulares e combinam grandes cadeias de montanhas, florestas, pradarias, planícies, tundra e campos de gelo, além do país possuir o maior litoral do mundo, com mais de 200 mil km de extensão. A água é um dos elementos dominantes das paisagens canadenses – 8,6% da superfície do país é formada por corpos d’água e nenhum outro país tem tantos lagos como o Canadá. Os canadenses tem uma relação muito próxima com a água, podendo até serem comparados com as populações da Amazônia – a vida junto às águas faz parte da identidade cultural dos canadenses. 

A pesca esportiva, especialmente de trutas, é uma das atividades mais populares no país, sendo praticada por centenas de milhares de pessoas. Uma das técnicas mais divertidas é a chamada fly fishing, ou pesca com mosca, onde se usa uma isca que imita um inseto e que é lançada e puxada rapidamente na água. O período de reprodução das trutas ocorre entre o outono e o inverno, época em que os peixes realizam uma migração em rios com forte correnteza, rumo as suas zonas de desova e fazem a festa de uma legião de pescadores e de ursos, animais que se aglomeram nos rios para capturar o maior número possível de peixes. 

A alegria de pescadores e ursos, infelizmente, pode estar com os dias contados – mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global já são bastante visíveis no Canadá e o futuro das trutas em rios canadenses pode estar seriamente ameaçado. Vamos entender o que está acontecendo: 

As trutas são peixes de escamas, com corpo comprimido e alongado, encontradas originalmente em rios de águas frias do Hemisfério Norte. As espécies mais comuns são a truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss), encontrada em rios da costa do Oceano Pacífico, entre o Alaska e a Califórnia, e a truta-marrom (Salmo trutta), que ocorre em rios da Europa e da Ásia. A truta-arco-íris (vide foto) tem um comprimento entre 30 e 45 cm, podendo pesar até 2 kg – recentemente, um pescador norte-americano capturou um espécime com mais de 21 kg de peso, batendo o recorde mundial da maior truta já pescada.  

A truta-arco-íris passou a ser criada em cativeiro em pelo menos 45 países, sendo introduzida de propósito ou acidentalmente em diversos rios de montanha nesses países. No Brasil, as trutas-arco-íris podem ser encontradas em rios da Serra da Mantiqueira, entre os Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, além de rios das regiões serranas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A introdução dessa espécie exótica em rios brasileiros, é claro, causou uma série de impactos nos ecossistemas locais. 

Uma das características mais marcantes das trutas é a sua dependência de águas cristalinas, puras e muito oxigenadas, típicas de regiões montanhosas, sem as quais as diversas espécies não conseguem sobreviver. As trutas também são muito sensíveis à presença de poluentes e resíduos de agrotóxicos e fertilizantes nas águas. Os apreciadoras da truta alegam que, graças a todo esse conjunto de características, a carne do peixe é uma das mais saudáveis para o consumo humano. 

No Canadá, um dos efeitos do aquecimento global pode ser visto no aumento da temperatura das águas dos rios, que tradicionalmente sempre foram muito frias, cristalinas e altamente oxigenas. Esse aumento na temperatura está provocando um aumento na quantidade de algas nas águas, o que, entre outras coisas, resulta numa diminuição nas taxas de oxigênio dissolvido. Em seu processo de fotossíntese, as algas absorvem oxigênio, competindo diretamente com os peixes. Quando morrem, as algas servem como alimento para inúmeras espécies de bactérias aquáticas, muitas delas aeróbicas (que respiram ar), levando a uma redução ainda maior nos volumes de oxigênio dissolvido na água. 

Com o empobrecimento da oxigenação das águas, as exigentes trutas apresentam uma forte redução no seu metabolismo e ficam sem energia para enfrentar a força das correntezas na sua jornada rumo às cabeceiras dos rios e dois locais usados para a desova e reprodução da espécie. Com seu ciclo reprodutivo interrompido, as populações de trutas-arco-íris estão entrando em declínio, correndo risco de extinção em algumas regiões onde o aquecimento das águas está mais acelerado.

O aumento das temperaturas no Canadá também produz reflexos negativos nas fontes de água que formam grande parte dos rios – o derretimento de geleiras de suas montanhas. Com parte considerável do seu território dentro de latitudes polares, o Canadá apresenta invernos rigorosos, com grande precipitação de neve. Com a chegada da primavera, essa grossa camada de neve derrete, alimentando uma complexa rede de rios e lagos com água fresca. Em regiões montanhosas, essa neve se condensa na forma de geleiras permanentes, que derretem lentamente em altitudes mais baixas e alimentam continuamente diversos rios. Alguns estudos científicos projetam um aumento de até 8° C na temperatura do Norte do Canadá, o que poderá resultar no derretimento de 20% das geleiras existentes. 

Na região das Montanhas Rochosas, no Oeste do Canadá, a situação é mais preocupante – as projeções indicam que as geleiras dessas montanhas poderão perder até 70% de sua massa de gelo até o final deste século. Uma das geleiras mais ameaçadas é a Columbia Icefield, na Colúmbia Britânica, o maior glaciar montanhoso do mundo. O Glaciar Athabasca, um dos principais braços do Columbia Icefield, é uma das maiores atrações turísticas da região e um exemplo da redução das geleiras no país. Atualmente, o Athabasca ocupa uma área com aproximadamente 6 km², com uma capa de gelo com uma altura entre 90 e 300 metros. Nos últimos 125 anos, a geleira recuou mais de 1,5 km e perdeu mais da metade do seu volume. Atualmente, a geleira vem apresentando um recuo anual entre 2 e 3 metros. O degelo continuo dessa geleira alimenta uma infinidade de rios que descem das montanhas e formam os habitats ideias para a sobrevivência das trutas. 

Recentemente, uma geleira na Ilha Baffin, a 5° maior ilha do mundo e localizada no Norte do Canadá, derreteu e deu uma pequena amostra dos efeitos do aquecimento global. Estudos realizados nos afloramentos rochosos expostos pelo degelo mostraram que a geleira sobreviveu ali por cerca de 40 mil anos. Uma das conclusões dos estudos no local indicam que a região está passando pelas temperaturas mais altas dos últimos 115 mil anos. Os rios alimentados por essa geleira, simplesmente, desapareceram

Mas, nem sempre, o derretimento de uma geleira acontece de forma lenta e gradual – em abril de 2017, nós publicamos uma postagem aqui no blog, onde falamos do derretimento brusco de uma geleira no Norte do Canadá e do desaparecimento do rio Slims, um processo que durou apenas 4 dias – toda a biodiversidade das águas desapareceu instantaneamente. Um dos braços do Glaciar Kaskawulsh, que alimentava o rio Slims, desapareceu e toda a água resultante do derretimento passou a correr na direção de uma outra bacia hidrográfica, a do rio AlsekEsse processo irá se repetir inúmeras vezes nos próximos anos e dezenas de rios canadenses irão desaparecer de uma hora para outra, exterminando os habitats de inúmeras espécies, incluindo-se nessa lista as agitadas trutas-arco-íris. 

Na gíria antiga do meu bairro, quando alguém falava “é truta”, isso queria dizer que se tratava de uma mentira – com o passar do tempo, a expressão foi ganhando outros significados. Nesse caso, infelizmente, trata-se da mais pura verdade – as trutas dos rios canadenses poderão desaparecer dentro de poucas décadas. 

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One Comment

  1. […] Trutas e salmões são espécies de peixes que pertencem a uma mesma grande família e são comuns nessas regiões. Uma característica comum nessas espécies são as impressionantes migrações que realizam rumo às cabeceiras dos rios na época da reprodução, onde são obrigados a lutar contra as fortes correntezas e quedas d’água. Animais como ursos, lobos, aves e também seres humanos, adaptaram seus ciclos de vida às migrações desses peixes, que representam um período de fartura de alimentos e de acúmulo de reservas de energia para os difíceis tempos do inverno (vide foto). A prática da pesca esportiva dessas espécies surgiu como uma consequência dessa convivência entre presas e predadores. […]

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