UMA TÍPICA TARDE DE VERÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO

As fortes chuvas desse verão estão causando grandes prejuízos por grande parte do Brasil. Em diversas postagens publicadas aqui no blog ao longo das duas últimas semanas mostramos parte do drama vivido por muita gente. 

Aqui na minha cidade, São Paulo, essa época do ano também costuma ser problemática. A cidade cresceu demais, derrubando matas, canalizando córregos, avançando sobre as encostas de morros e, especialmente, ocupando as antigas várzeas dos grandes rios

A principal característica dos verões paulistanos são as tempestades do final da tarde. Ontem e hoje enfrentei sérios problemas no trabalho – os temporais desabaram um pouco antes da hora (normalmente essa chuva começa a cair por volta das 16h30), prejudicando a conclusão de algumas obras civis de acabamento. 

Saindo do trabalho de volta para casa, árvores caídas por todos os lados, ruas com pontos de alagamento, semáforos apagados e trânsito sendo desviado – haja paciência! Para os mais desafortunados, que moram ao lado dos inúmeros córregos da cidade, muita água invadindo as casas. Em muitos lugares, esses problemas vêm se arrastando desde o final do século XIX e uma solução definitiva ainda não apareceu. 

Uma história “verídica verdadeira” que eu sempre recordo nesses momentos é a das senhoras da alta sociedade paulistana durante os fatídicos anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Essas abastadas senhoras costumavam se reunir as tardes para tomar chá e para tricotar blusas de lã para “os pobres soldados franceses entrincheirados nos campos de batalha“. 

Pessoalmente, eu acho até elogiável toda essa dedicação. Minha crítica – aqui mesmo na nossa cidade, muitas famílias das áreas baixas ao largo dos rios Tietê e Tamanduateí já sofriam com as constantes enchentes, sem contar com a boa vontade dessas senhoras na doação de alguns agasalhos. 

São Paulo tem algumas particularidades geográficas, a começar pela sua localização. A cidade é cortada pelo Trópico de Capricórnio, que passa ao lado do Pico do Jaraguá, um dos cartões postais da metrópole. Esse Trópico marca o limite entre a região com o chamado Clima Tropical de Altitude e o Subtropical, predominante na Região Sul do país. 

Para completar, a região da Baixada Santista no litoral paulista e a pouco mais de 60 km do centro da cidade, tem o clima Tropical Atlântico. O encontro dessas três zonas climáticas torna o clima de São Paulo bastante peculiar. Não é incomum experimentarmos as quatro estações do ano no mesmo dia. 

No verão, a cidade experimenta dias muito quentes (na última terça-feira, dia 18, os termômetros de São Paulo atingiram a marca de 33.4° C, a temperatura mais alta desse ano) e finais de tarde com grandes massas de nuvens carregadas desde o “vizinho” Oceano Atlântico. Essa combinação costuma resultar em fortes temporais de final de tarde. 

O município de São Paulo ocupa uma área de 1.521 km², sendo que a maior parte desse território se encontra ocupado por construções, com grandes áreas de solos impermeabilizadas por concreto e asfalto. O quadro fica ainda mais caótico quando verificamos a forte conurbação – junção de cidades, em toda a Região Metropolitana. Cidades vizinhas como Osasco, Guarulhos, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, entre muitas outras, formam uma única mancha urbana com São Paulo. 

Essa grande massa de concreto e asfalto gera um fenômeno conhecido como Ilha Urbana de Calor. O centro de São Paulo chega a apresentar temperaturas entre 5 e 7° C acima de áreas periféricas ainda cobertas por vegetação como a Serra da Cantareira, na Zona Norte, e Parelheiros, no Extremo Sul da Cidade. Essa massa de calor funciona como uma espécie de “imã”, atraindo as massas de nuvens de chuva. 

A grande quantidade de solos impermeáveis na mancha urbana da cidade agrava um outro problema – o grande volume de água despejado sobre a cidade não consegue penetrar no solo (o que também é agravado pela falta de vegetação em muitas regiões). Correndo sobre a superfície dos solos, essa água chega com grande velocidade aos rios e córregos, que enchem e transbordam. 

O Planalto de Piratininga, que foi escolhido para a fundação de uma escola e uma capela pelos padres Jesuítas criando o embrião que criou a cidade de São Paulo, era uma grande mancha de vegetação de Cerrado cercada por Mata Atlântica e pela Mata das Araucárias. Nessas terras abundavam rios e córregos – fontes antigas citam até 2.000 cursos de água na região. 

Grandes áreas do Planalto de Piratininga eram formadas por várzeas, terras baixas ao largo dos rios que alagavam durante o verão por causa das chuvas. Aliás, o nome indígena Piratininga significa “peixe seco” – essas áreas alagadas eram tomadas por peixes, que ficavam presos nas poças de água com o fim da temporada de chuvas. Os indígenas coletavam e comiam os peixes que restavam nas poças secas. 

Pois bem – com o vigoroso crescimento que a cidade passou a viver já nas últimas décadas do século XIX, essas importantes áreas de várzea passaram a ser aterradas e ocupadas por construções. Sem espaço extra para acomodar o excesso de águas das chuvas de verão, as ruas da cidade passaram a sofrer com os alagamentos. 

A situação de São Paulo se complicou ainda mais com a canalização maciça de córregos para a construção das chamadas avenidas de fundo de vale. Muitas avenidas importantes e famosas da cidade estão localizadas sobre o antigo leito de córregos e rios. Exemplos: Avenidas Pacaembu, Anhaia Melo. dos Bandeirantes, Cupecê, Vale do Anhangabaú, entre muitas outras. 

Muitos rios e córregos escaparam dessa canalização, mas acabaram com suas margens comprimidas por causa da construção de avenidas. Esses são os casos da Marginal Tiete e da Avenida do Estado, essa última construída as margens do rio Tamanduateí. 

Sempre que chegam os meses de verão com suas fortes chuvas, todas essas verdadeiras barbeiragens feitas ao longo da história da cidade vêm à tona – literalmente. Enchentes, trânsito complicado, famílias desabrigadas, desmoronamentos de encostas, entre muitos outros. 

Corrigir tudo isso vai custar uma verdadeira fortuna e, entra prefeito sai prefeito, só obras paliativas são realizadas. Enquanto isso, milhões de pessoas vão continuar sofrendo com as enchentes e seus problemas… 

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