RIOS PIRACICABA E SOROCABA: DOIS EXEMPLOS DO MAL USO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO ESTADO DE SÃO PAULO

Nas últimas postagens falamos do maltratado Tietê, o maior e mais importante rio do Estado de São Paulo, e de dois dos seus maiores tributários na Região Metropolitana: os rios Pinheiros e Tamanduateí. Esses rios vêm sofrendo com um intenso processo de poluição das águas e de destruição de margens e várzeas desde meados do século XIX, quando a cidade de São Paulo e seu entorno começaram a crescer de maneira vertiginosa. 

Além da intensa contaminação das águas, o que impede seu uso para o abastecimento, a má gestão desses recursos está na base de um dos maiores problemas da região – as fortes enchentes nos períodos das chuvas. Ao longo de várias décadas, sucessivos Governos locais canalizaram córregos, aterraram várzeas e estrangularam o leito dos corpos d’água da região. Sem espaço para se acomodar, as águas pluviais tomam conta das ruas e avenidas da grande área metropolitana, transtornando a vida de milhões de pessoas. 

Os problemas dos rios da Mata Atlântica no Estado de São Paulo vão muito além da região de entorno da capital – mais de 60% do território paulista fica dentro dos antigos domínios do bioma e existem inúmeros outros exemplos de má gestão deste importante recurso. Vamos exemplificar a situação falando dos rios Piracicaba e Sorocaba, importantes afluentes do rio Tietê. 

O rio Piracicaba, com toda a certeza, é o mais conhecido dos dois. Existem inúmeras “modas de viola”, como nós caipiras paulistas chamamos, que contam histórias e “causos” desse rio. Uma dessas modas é “Rio de Lágrimas”, composta em 1970, com letra de Lourival dos Santos e melodia de Tião Carreiro e Piraci. A letra diz que “o rio de Piracicaba vai botar água prá fora, quando chegar as águas dos olhos de alguém que chora”. Porém, ao contrário do que diz a letra da música, o rio Piracicaba sofre cada vez mais com as temporadas de seca e com os baixos níveis das suas águas. 

No último mês de junho, a vazão média do rio estava 70% abaixo da média histórica – apresentava uma vazão de 27 m³ por segundo, quando o valor típico para essa época seria de 91 m³ por segundo. De acordo com informações do Consórcio PCJ, que reúne os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, a região da bacia hidrográfica do rio Piracicaba enfrentou a maior seca dos últimos 130 anos, com chuvas 38% abaixo da média histórica. 

O Piracicaba é um importante rio do interior do Estado de São Paulo, formado a partir da junção dos rios Atibaia e Jaguari no município de Americana e considerado o mais volumoso afluente do rio Tietê, onde desagua nas proximidades de Barra Bonita, após um curso total de 115 quilômetros.

De origem tupi, Piracicaba significa “lugar onde os peixes param” ou ainda “degraus para os peixes”, numa referência aos degraus de basalto que cobrem uma parte do leito do rio e que dificultam a subida dos peixes na época da piracema. As águas do rio Piracicaba são responsáveis pelo abastecimento dos mais de 3 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Campinas e também de parte da Região Metropolitana de São Paulo

Por ser um grande afluente do rio Tietê, o Piracicaba foi uma importante rota de navegação fluvial na região a partir do século XVIII. Em meados do século XIX, quando a região se transformou num polo de cafeicultura e de produção de cana de açúcar (ainda hoje, a região produz as melhores cachaças do Estado de São Paulo), o rio passou a ser utilizado para a navegação em pequenos vapores. A cultura do café, fundamental para o desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo, teve início na região do Vale do Rio Paraíba do Sul, no Leste do Estado, a partir de meados do século XIX.  

Devido ao mal uso dos solos do Vale do Paraíba, que se esgotaram em menos de 25 anos, os cafeicultores rapidamente rumaram na direção do chamado Oeste Paulista, que nesta época era a região de Campinas, Piracicaba, Limeira, São Carlos e arredores. Os férteis solos de terra roxa e a disponibilidade de grandes cursos d’água foram fundamentais para o sucesso da cafeicultura e o desenvolvimento e povoação da região. A consolidação econômica da região se deu com a construção das primeiras ferrovias, que passaram a possibilitar o escoamento de grandes volumes de café pelo Porto de Santos. 

Com o crescimento das cidades da região, particularmente de Campinas, a maior cidade do interior do Estado de São Paulo, e também do forte crescimento industrial e agrícola, as águas do Piracicaba passaram a receber volumes crescentes de esgotos domésticos e industriais, além de grandes volumes de resíduos de fertilizantes e de pesticidas. A partir da década de 1980, o rio Piracicaba passou ser incluído, infelizmente, na lista dos mais contaminados do país.

A superexploração das águas, especialmente para a irrigação das grandes plantações de cana de açúcar, também levou a uma redução no volume das águas do rio, expondo grandes trechos do seu fundo rochoso, uma paisagem que, infelizmente, se tornou cada vez mais frequente. 

Essa redução constante na vazão do rio traz uma consequência ambiental grave – os níveis de poluição das águas chegam a níveis até três vezes acima do normal. Isso é bem fácil de explicar – como os lançamentos de poluentes de todos os tipos nas águas do rio Piracicaba se mantém constantes, a redução dos caudais resulta numa maior concentração de poluentes por volume de água. Além da forte poluição, o Piracicaba também apresenta grandes volumes de lixo e resíduos jogados em suas águas. 

O rio Sorocaba é o maior afluente da margem esquerda do rio Tietê, onde tem sua foz no município de Laranjal Paulista. O rio tem suas nascentes na Região Metropolitana de São Paulo dentro do território dos municípios de Ibiúna, Cotia, Vargem Grande Paulista e São Roque. A partir dessas cabeceiras, o rio Sorocaba segue por um curso de mais de 220 km até desaguar no rio Tietê. Uma das mais importantes cidades atravessadas pelo rio é a homônima Sorocaba, uma das mais importantes do interior paulista. 

A maior parte das florestas que cercavam o rio e seus inúmeros afluentes foram dizimadas ao longo dos tempos, o que teve como resultado uma grande diminuição dos seus caudais. Praticamente toda a bacia hidrográfica do rio Sorocaba está tomada por cidades, fazendas e indústrias. Toda essa falta de cuidado com o rio resultou em dois problemas graves: uma forte poluição das suas águas e uma grande incidência de enchentes ao longo do seu curso. 

A maior enchente de todos os tempos na região ocorreu em janeiro de 1929, quando grande parte da cidade de Sorocaba ficou, literalmente, embaixo d’água (vide foto). O implacável avanço dos cafezais por toda a bacia hidrográfica do rio Sorocaba destruiu a maior parte das matas nativas, alterando completamente a capacidade dos solos na retenção dos excedentes das águas das chuvas – o resultado foi a grande tragédia. Uma matéria de um jornal há época dizia: 

“Por tudo o que descrevemos, bem pode avaliar o público que a situação é bastante delicada. Urgem providências que deverão partir da prefeitura, ora em mãos do sr. João Machado de Araújo. Tais providências, que, temos para nós, serão dadas, convém sejam breves, visto que o momento não é para protelações. Não será demais fornecer a prefeitura gratuitamente gêneros alimentícios às famílias que, ao desamparo, se acham desprovidas de recursos, e bem assim leite às crianças, que sabemos serem em grande número.” 

As enchentes continuam sendo um grande problema para muitas das cidades cortadas pelo rio Sorocaba, mas o problema da poluição das águas já foi em grande parte controlado. Desde a década de 1980, as autoridades do Estado e dos municípios têm feito grandes esforços para controlar as fontes de poluição em indústrias e através de investimentos na coleta e no tratamento dos esgotos. A qualidade das águas do rio Sorocaba já é considerada mediana e tem tudo para melhorar muito mais. 

Esses dois rios paulistas são uma amostra da nossa falta de cuidado com um patrimônio natural tão importante que recebemos – a água, um bem cada vez mais escasso no Estado de São Paulo. 

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