A EXTRAÇÃO DE AREIA NAS ÁGUAS E MARGENS DO RIO PARAÍBA DO SUL E OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE CIDADES

A areia é um dos materiais de construção mais antigos usados pela humanidade. Misturada nas proporções corretas com materiais como a cal, as cinzas vulcânicas e, em tempos mais modernos, com cimento Portland, a areia pode ser transformada numa argamassa fluída e resistente, ideal para o assentamento de tijolos e pedras.  

Uma dessas argamassas antigas é o extraordinário opus caementicium, também conhecido como cimento romano, uma argamassa feita a partir da mistura de areia com cinzas vulcânicas. Um exemplo da resistência dessa técnica construtiva é o famoso Coliseu de Roma. Inaugurado no ano 79 da Era Cristã e construído em grande parte com tijolos e concreto romano, o Coliseu se encontra com a estrutura em ótimo estado de conservação até hoje – os revestimentos e acabamentos em pedra foram retirados e usados em outras construções, principalmente em igrejas. 

Conhecida no meio da construção civil como agregado fino, a areia é o resultado da desagregação natural de rochas como os granitos e os gnaisses, possuindo um diâmetro máximo de grão de 5 mm. Quando a areia é combinada com pedras britadas (agregados grossos) e cimento, chegamos ao concreto. O concreto armado, que combina o concreto com uma armação de ferro ou aço, é um dos melhores materiais estruturais para a construção de casas, edifícios, pontes, pisos de rodovias e outras estruturas de nossas cidades.  

A areia também é um importante componente da massa do asfalto usado na pavimentação de ruas, avenidas e rodovias. Entra ainda na composição de materiais construtivos como blocos, peças pré-moldadas, tubulações de esgotos, argamassas para o revestimento de paredes e assentamento de cerâmicas, entre outros usos. Areias com alto teor de sílica formam a matéria prima principal para a fabricação do vidro. A areia também é essencial nos processos de moldagem de peças em metal fundido, entre muitos outros usos. Em resumo – é um material barato, abundante na natureza e essencial para o nosso dia a dia. 

O consumo anual de areia no Brasil supera a casa de 300 milhões de toneladas. Somente na Região Metropolitana de São Paulo, esse consumo é de 70 milhões de toneladas ao ano. Durante muito tempo, a calha e as várzeas de rios como o Tietê, Tamanduateí, Pinheiros e de muitos ribeirões foram as principais fontes para extração da areia usada nas construções das cidades da Região Metropolitana.

Vestígios dessa época na cidade de São Paulo são a Raia Olímpica da USP – Universidade de São Paulo, os lagos do Parque do Ibirapuera e o Parque Cidade de Toronto. Todas essas instalações surgiram em locais tomados pelas crateras deixadas pela extração da areia. 

Com o crescimento das cidades da Região Metropolitana de São Paulo e a ocupação das áreas de várzeas, o rio Paraíba do Sul foi transformado na principal fonte para extração da areia usada na construção civil local. Nos Estados do Rio de Janeiro e na faixa Sudeste de Minas Gerais, o rio Paraíba do Sul também foi transformado em grande fornecedor de areia para obras civis em inúmeras cidades.  

A extração inadequada de areia para a construção civil é um problema recorrente em todo o Brasil. Grande parte das cavas é feita de maneira clandestina e sem contar com um projeto de licenciamento ambiental. Um estudo feito pelo Ministério Público de São Paulo em 2014 nos dá uma ideia do tamanho desse problema: 93% das cavas de extração de areia no Vale do Rio Paraíba na região Leste do Estado apresentavam irregularidades, especialmente quando aos limites da área de exploração.  

Os problemas associados à areia começam com a remoção das matas ciliares nas margens dos rios. Essas matas funcionam como uma barreira contra a entrada de sedimentos e lixo na calha do rio, garantindo a qualidade das águas. Essa vegetação marginal também tem um importante papel ecológico para as espécies que vivem nas águas e margens dos rios – elas ajudam a formar pequenas lagoas e áreas de remanso com muita vegetação, protegidas da correnteza e onde as espécies aquáticas/semi aquáticas – peixes, anfíbios, répteis, mamíferos e até mesmo aves, se reproduzem.

A destruição das matas e a escavação das áreas nas margens altera completamente o ciclo de vida destas espécies e, pior, o assoreamento que é provocado na calha do rio, entre outros gravíssimos problemas, soterra as comunidades bênticas ou bentônicas do fundo rio. Nessas comunidades vivem plantas, vermes, moluscos e crustáceos de tamanhos variados (a maioria muito pequena e microscópica). Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar (também chamada de cadeia trófica) dos rios e sustentam todas as formas de vida superiores – inclusive a dos seres humanos (especialmente os ribeirinhos) que se alimentam com os peixes capturados nos rios.  

Outro problema são as cavas abandonadas, onde se formam lagoas devido ao acúmulo da água das chuvas ou pela drenagem de água do lençol freático. Essas lagoas acabam sendo transformadas em “áreas de lazer” pelas comunidades que vivem nas suas proximidades. Todos os anos, centenas de pessoas, especialmente jovens e adolescentes, morrem afogados ao nadar nessas lagoas, locais que costumam ter dezenas de metros de profundidade. A precariedade ou, simplesmente, a falta de opções de lazer nessas comunidades transforma essas lagoas em atrações irresistíveis nos dias quentes de verão.  

Dentro do Estado de São Paulo, os maiores problemas criados pela exploração de areia na calha e nas margens do rio Paraíba do Sul estão localizados nos municípios de Santa Branca, Jacareí e São José dos Campos. Pela proximidade das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, esses municípios foram transformados na principal fonte da areia usada na construção civil.  

As antigas matas que cercavam a calha do rio desapareceram há muito tempo e no seu lugar ficaram centenas de lagoas que se formaram nas crateras deixadas pelas antigas cavas (vide foto). Nesses locais se repetiu uma antiga lógica desse mercado – quando o recurso se esgota ou sua extração fica inviável, os areeiros simplesmente desaparecem e os problemas ambientais são deixados para trás

Nos trechos fluminense e mineiro do rio Paraíba do Sul todos esses problemas se repetem. O maior foco de degradação, entretanto, é encontrado no rio Guandu, o principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e que recebe águas transpostas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul.  

O grande centro produtor aqui é o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí (vide foto abaixo), distante cerca de 60 km do centro da cidade do Rio de Janeiro. As cavas de extração de areia se concentram em uma área de 50 km² na divisa desses dois municípios. Existem cerca de 100 empresas mineradoras (muitas ilegais) operando nessa área e juntas fornecem aproximadamente 90% da areia usada na Região Metropolitana – os 10% restantes saem das margens e da calha do rio Paraíba do Sul

Além de todo o “pacote” de problemas ambientais habituais da atividade, a extração de areia cria um enorme risco para o abastecimento de água das populações. Cerca de 14 milhões de pessoas dependem das águas do rio Paraíba do Sul para seu abastecimento – o Estado mais dependente dessas águas é o Rio de Janeiro. Só para lembrar: perto de 80% da água consumida pela população da cidade do Rio de Janeiro e de grande parte das cidades da Baixada Fluminense vem do rio Guandu e, por tabela, do rio Paraíba do Sul.

Além de toda a poluição criada pelo lançamento de esgotos domésticos e industriais, de metais pesados vindo de depósitos de rejeitos de mineração, e de muito lixo lançado nas águas do rio Paraíba do Sul, toda essa gente está sujeita a receber águas saturadas com resíduos minerais em suspensão gerados pela extração de areia. 

É simplesmente um abuso. 

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