A POLÊMICA APLICAÇÃO DE AGROTÓXICOS POR AVIÕES AGRÍCOLAS

Aviação Agrícola

No início de maio de 2013, o piloto de um avião agrícola que estava realizando a pulverização de lavouras de milho na região de Rio Verde, no Estado de Goiás, cometeu um erro operacional gravíssimo – ele acabou despejando um grande volume de inseticidas agrícola sobre uma escola do Assentamento Pontal dos Buritis, nas margens da Rodovia GO-174. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros local, haviam 122 alunos no local no momento do acidente – 37 pessoas foram intoxicadas, sendo que 8 eram professores e funcionários da escola e 29 eram alunos, com idades entre 6 e 14. Felizmente, não houve nenhuma morte. 

Longe de ser um caso isolado, esse acidente mostra os riscos que a pulverização de agrotóxicos com o uso de aviões tem levado às populações que moram nas proximidades dos grandes campos agrícolas brasileiros. Além dos riscos de um erro semelhante ao que foi cometido pelo piloto de Rio Verde, estudos demonstram que os ventos podem carregar resíduos de agrotóxicos lançados por aeronaves a distâncias de até 30 km. Se considerarmos que grande parte do território brasileiro está ocupada por imensos campos agrícolas, os riscos para as populações de inúmeras cidades interioranas são muito grandes. 

De acordo com informações do SINDAG – Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, o país possuía uma frota de 2.115 em 2017. Esses números colocam o Brasil na segunda colocação entre os países com maior frota de aeronaves agrícolas, onde se incluem aviões e helicópteros. Entre os Estados, Mato Grosso aparece na primeira posição 464 aeronaves registradas, seguido pelo Rio Grande do Sul com 427 aeronaves e de São Paulo com 312 aeronaves. O uso cada vez maior de aeronaves agrícolas em nosso país se deve ao modelo de agronegócios adotado no Brasil, onde campos agrícolas cada vez maiores estão sendo usados para a produção de grãos em larga escala. Para aplicar agrotóxicos em áreas cada vez maiores, o uso de aeronaves se mostra altamente eficiente. 

Para que todos tenham uma noção exata do tamanho dessa frota, ela corresponde a 68% da frota nacional de aeronaves, onde se incluem também todas as aeronaves comerciais e militares. Outro detalhe importante é que 60% dos aviões utilizados nas operações de aplicação de agrotóxicos são de produção nacional. Esses números mostram o tamanho dos interesses econômicos que estão por trás da atividade e também o poder do lobby político que se desenrola nos bastidores do poder. A atividade gera inúmeros postos de trabalho, onde se incluem pilotos, mecânicos, operadores de voô, fabricantes de peças de reposição, óleos e combustíveis – é um mercado multimilionário.

A aplicação de agrotóxicos por aviões gera uma dispersão descontrolada de resíduos de agrotóxicos, que vem aumentar ainda mais os problemas já conhecidos, onde solos, fontes de água e trabalhadores rurais estão sendo cada vez mais expostos ao contato com esses resíduos tóxicos. Os ventos podem carregar grandes quantidades dos produtos químicos a longas distâncias, atingindo cidades e vilas, terras indígenas e, particularmente, os poucos fragmentos florestais de matas nativas remanescentes. No mundo inteiro, conforme comentamos em postagem anterior, calcula-se entre 200 e 300 mil as mortes anuais de seres humanos devido a problemas associados à contaminação por agrotóxicos. A questão da pulverização aérea desses produtos é tão grave que, em muitos países da Europa e no Canadá, essas operações já foram proibidas. 

Aqui no Brasil, existem vários parlamentares que trabalham no sentido de proibir ou regulamentar, da melhor maneira possível, esse tipo de atividade. Em 2012, citando um exemplo, um projeto apresentado na Assembleia Legislativa do Paraná acabou sendo arquivado por ser considerado inconstitucional. Um novo projeto foi apresentado por um deputado do Estado e está aguardando a apreciação da Assembleia local. Em minha opinião, as chances desse projeto prosperar, tanto a nível estadual quanto federal, são mínimas – a força do agronegócio é imensa e existem bancadas inteiras de deputados e senadores com fortes ligações com esse setor econômico. Só para lembrar, o setor de agronegócios responde por quase 25% do PIB – Produto Interno Bruto, brasileiro e a produção rural nas últimas décadas é um dos poucos setores da economia que vem crescendo consistentemente no país

Uma das grandes questões levantadas por essa discussão, e que merece a nossa reflexão, é saber quem é o verdadeiro culpado: o uso de aviões, a periculosidade dos produtos químicos, a diluição ou as quantidades de agrotóxicos que são aplicadas? Para muitos analistas, mesmo que se proíba o uso das aeronaves agrícolas, o problema da dispersão dos resíduos de agrotóxicos vai continuar devido aos usos e formulações erradas, onde concentrações excessivas dos produtos são aplicadas nas culturas. 

Espremida entre os diversos interesses econômicos, políticos e sociais, a questão ambiental é transformada numa espécie de refém do problema. São muitas as vozes que gritam em uníssono sobre a importância do agronegócio e de todas as receitas geradas pelas exportações de commodities agrícolas. Enquanto isso, populações são expostas direta e indiretamente a grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos que, conforme já comentamos em postagem anterior, vão se acumulando no organismo das pessoas e, com o passar do tempo, poderão culminar com o desenvolvimento de inúmeras doenças, muitas delas fatais. 

Em resumo: se ficar, o agrotóxico te pega; se correr, as nuvens de resíduos de produtos químicos arrastadas pelos ventos te comem… 

Um detalhe importante – os grandes produtores rurais e suas famílias, normalmente, moram nas grandes metrópoles, bem longe das problemáticas áreas rurais. 

OS TRABALHADORES RURAIS E OS AGROTÓXICOS

EPIs na agricultura

O uso excessivo de agrotóxicos de todos os tipos é um dos mais graves problemas ambientais vividos pelo país nas últimas décadas. Diferentemente dos grandes desmatamentos, dos vazamentos de barragens de rejeitos de mineração e de outras tragédias ambientais que são mostradas quase que diariamente pelos meios de comunicação, a contaminação de solos e águas com resíduos de agrotóxicos é um problema silencioso e invisível, que não chama facilmente a atenção das populações e, especialmente, das autoridades. Nas últimas postagens apresentamos alguns dados relativos a essa grande catástrofe ecológica. 

Agrotóxico é uma designação genérica de todo o conjunto de produtos químicos utilizados pela agricultura, onde se incluem defensivos, pesticidas, praguicidas, biocidas, agroquímicos e produtos fitofarmacêuticos ou fitossanitários. Essas substâncias químicas são utilizadas, basicamente, para matar formas de vida animal ou vegetal que são prejudiciais à saúde pública ou às culturas agrícolas. Incluem-se na lista os insetos, ácaros, moluscos, roedores, fungos, ervas daninhas e bactérias, entre outras. Os fabricantes e vendedores desses produtos não costumam informar nos rótulos e folhetos comerciais que esses agrotóxicos também matam pessoas. 

De acordo com algumas estimativas de organismos internacionais da área do trabalho, entre 200 mil e 300 mil pessoas morrem a cada ano vítimas, direta ou indiretamente, da contaminação por agrotóxicos. Esse é um número bastante difícil de se aferir uma vez que os respectivos atestados de óbito de cada uma dessas vítimas não trarão no campo “causa da morte” a expressão envenenamento por agrotóxicos. A causa mortis será algum tipo de câncer, infecção generalizada, falência múltipla de órgãos, pneumonia, entre outras doenças fatais. Os produtos químicos usados na produção dos agrotóxicos, a exemplo do benzeno, vão se acumulando no corpo das pessoas que têm contato frequente com esses venenos, tais como os trabalhadores rurais e as pessoas que vivem próximas das áreas de lavouras onde os agrotóxicos são aplicados, e ao longo do tempo acabam provocando inúmeras doenças. 

Dados do Ministério da Saúde, correspondentes a um período de 7 anos – de 2008 a 2014, indicaram um total de 34.147 notificações de centros médicos de todo o país referentes a pacientes intoxicados pelo uso de agrotóxicos; pelo menos, 2 mil mortes ligadas a esses casos foram confirmadas no período. Apesar de ser um número bastante expressivo e dramático, os dados parecem estar subnotificados – o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, absorvendo cerca de 19% de toda a produção desses produtos químicos. Se consideramos que todo esse volume de agrotóxicos foi manipulado e aplicado por trabalhadores de todo o país, as 5 mil notificações/ano de casos de contaminação nos parece muito insignificante. De acordo com a OMS – Organização Mundial da Saúde, para cada 1 caso notificado, outros 50 são “esquecidos”

Entre os principais problemas que levam à contaminação de trabalhadores rurais com resíduos de agrotóxicos está a manipulação incorreta dos produtos durante a diluição, os erros nas dosagens de produtos químicos necessários para as aplicações e, especialmente, a falta de uso de EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, especialmente luvas, botas e respirador/máscara, além de roupas impermeáveis. Na maior parte dos casos, esses trabalhadores não têm a exata noção dos riscos à sua saúde e não recebem ou não têm acesso a orientações com profissionais especializados. Muitos desses profissionais acreditam que estão aplicando “remédios de plantas” e não manipulando venenos. 

Mas o problema é bem mais sério do que aparenta ser – muitos dos EPIs disponibilizados para uso pelos trabalhadores rurais são tecnicamente inadequados para os usos em trabalhos na agricultura. Devido à baixa demanda, quando comparado com outras áreas como a indústria e a construção civil, as empresas fabricantes não fazem investimentos mais pesados em pesquisa e desenvolvimento de equipamentos específicos para uso na agricultura. É comum que se façam simples adaptações das peças usadas, por exemplo, na construção civil, para uso na agricultura. Graças a essas verdadeiras “artimanhas”, esses EPIs, mais ou menos improvisados, acabam expondo os trabalhadores ainda mais aos contaminantes. 

O uso dos equipamentos de segurança, entre outros procedimentos, foi definido pela Norma Regulamentadora 15 do Ministério do Trabalho (mais conhecida como NR-15), onde foram definidas as atividades profissionais ou operações insalubres, que expõem o trabalhador a danos à sua saúde, estabelecendo inclusive o pagamento de adicionais por insalubridade. A finalidade dos EPIs é, basicamente, a de proteger a integridade física dos trabalhadores contra uma série de riscos laborais: frio, calor, radiação, gases tóxicos, agentes químicos e biológicos, poeiras e vibrações, entre outros. Os EPIs utilizados nas atividades rurais muitas vezes não cumprem essa função, especialmente no que se refere à proteção contra agentes químicos. Citando um único exemplo – o trabalhador rural deveria usar uma roupa impermeável ao fazer a aplicação dos agrotóxicos nas lavouras (vide foto).  

Bem, imagine agora que a temperatura ambiente está na casa dos 40° C, algo muito comum nas regiões de Cerrado no Brasil Central, e que este trabalhador deverá usar um traje que, por falta de uma correta adaptação para o uso, fará com que a temperatura do seu corpo ultrapasse, em muito, a zona de conforto – o resultado é que esse trabalhador, simplesmente, vai se recusar a usar esse traje impermeável e fará a aplicação dos produtos químicos com roupas comuns, bem mais confortáveis. É esse o drama desses EPIs – são muito desconfortáveis e pouco práticos para as atividades no campo. E os trabalhadores se recusam a usar muitos desses equipamentos. 

Numa improvável visita de fiscais do Ministério do Trabalho a uma dessas propriedades rurais, se viverá uma situação de absoluta hipocrisia: os fazendeiros alegarão que compraram e distribuíram os EPIs a todos os seus empregados  (um fato bastante provável) e os trabalhadores rurais irão afirmar que, justamente naquele dia, o calor estava muito intenso e que, por causa disso, eles deixaram de usar esses equipamentos de segurança. Já os produtos químicos dos agrotóxicos, esses não dormem em serviço e farão a sua parte, contaminando um pouco mais os organismos desses trabalhadores. 

A situação é muito grave! 

CALANGO LENGO – UMA VISÃO ADOCICADA DO DRAMA DA SECA

A seca é um fenômeno natural que, periodicamente, assola extensas áreas do Semiárido Nordestino. Essa definição altamente racional, que por diversas vezes usamos em postagens publicadas aqui no blog, esconde todo o drama humano que se desenrola nessas situações extremas.

Para mostrar esse outro lado da seca, apresentamos uma animação brasileira, lançada em 2008, que trata da questão da seca de uma forma lúdica: CALANGO LENGO – MORTE E VIDA SEM VER ÁGUA. Dirigida por Fernando Miller, a animação participou de inúmeros festivais de cinema e foi indicada a vários prêmios. Apesar de todo esse sucesso no meio cinematográfico, Calango Lengo padece do mesmo mal que assola todas as produções de cinema de curta metragem – a falta de espaços comerciais para exibição. É por isso que pouca gente já assistiu essa animação.

Calango Lengo representa o espírito inquebrantável do sertanejo, que luta com todas as suas forças contra as secas e contra as dificuldades. Apoiado em sua fé, ele luta para continuar vivendo dos frutos de sua terra, na esperança que dias melhores ainda virão. Uma ótima ferramenta para os educadores ambientais e também para que você reflita sobre o tema.

Uma boa diversão e bom aprendizado a todos!

Clique aqui para ter maiores informações sobre o vídeo ou para ter acesso ao link da animação no Youtube.

A CONTAMINAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA POR AGROTÓXICOS

Agrotóxicos e água

O uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras brasileiras é um problema bastante grave, sobre o qual começamos a tratar na postagem anterior. Apesar de não ser o maior produtor agrícola do mundo, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos – 19% de toda a produção desses produtos químicos tem como destino as lavouras brasileiras. Entre outros inúmeros problemas, esse uso indiscriminado traz sérias consequências para o meio ambiente. E um dos maiores males é a contaminação de lençóis de água e aquíferos subterrâneos e de fontes de água superficiais

De acordo com um estudo do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, publicado em 2011, os resíduos de agrotóxicos são a segunda principal fonte de contaminação das águas do Brasil, ficando atrás apenas dos esgotos sanitários. Como quase nenhum avanço nessa área ocorreu nos últimos anos, é bem provável que a situação atual em 2018 seja até pior. De acordo com o estudo, os resíduos de agrotóxicos respondem por mais de 6% das contaminações das águas, ficando à frente dos despejos industriais e das contaminações geradas por atividades mineradoras

De acordo com especialistas em medicina, a maioria dos agrotóxicos são produzidos a partir de derivados de benzeno, uma substância tóxica altamente prejudicial à saúde e bastante associada ao desenvolvimento de casos de câncer. Segundo reportagem que tratou desse assunto, com informações da doutora Silvia Brandalise, médica do Centro Boldrini de Campinas, instituição especializada no tratamento do câncer infantil, e professora de Ciências Médicas da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas,  “os derivados de benzeno têm como ação importante a quebra de cromátides, que são elementos que compõem o cromossoma. Uma exposição aos derivados de benzeno ou à radiação, você consegue fazer uma mutação. Sendo assim, o câncer e outras doenças, que são mutações sucessivas, vão acontecendo na célula cronicamente exposta a esses produtos.” 

Conforme já comentamos em postagem anterior, as atividades agrícolas são as maiores utilizadoras de água do mundo, sendo responsáveis por mais de 70% do consumo. Os resíduos de agrotóxicos que ficaram acumulados nas plantas e nos solos acabam sendo carreados pela água usada na irrigação ou pelas chuvas na direção dos corpos d’água da região – parte desses resíduos acabam infiltrando nos solos e atingem as reservas subterrâneas de água. Diferentemente de outros contaminantes como esgotos domésticos, efluentes industriais e resíduos de mineração, que alteram as características e a cor das águas, os resíduos de agrotóxicos são “invisíveis” a olho nu – moradores das margens dos rios coletarão e utilizarão a água sem consciência dos riscos que estão correndo (excluam-se os casos onde as altas concentrações de produtos químicos deixarão a água com um cheiro forte). 

Além da contaminação direta da água, os resíduos de agrotóxicos afetam toda a biota aquática. A depender do tipo de produto químico, plantas, bactérias, invertebrados e pequenos peixes sofrerão as consequências da contaminação, que poderão, inclusive, levar grande parte das populações à morte. Há uma outra consequência bem mais séria – essas plantas e pequenos animais estão na base da cadeia alimentar dos rios e lagos, o que fatalmente levará à contaminação de peixes maiores. Esses poderão não ter maiores problemas com a ingestão dessas substâncias, que ficarão armazenadas nos tecidos adiposos. Caso esse peixe venha a ser pescado e consumido, esses produtos químicos acabarão sendo absorvidos e acumulados no corpo dos seres humanos, o que poderá resultar em intoxicações e envenenamentos, ou ainda, poderão desencadear uma série de doenças no longo prazo. 

A contaminação de reservas subterrâneas de água também é um problema gravíssimo. Conforme já comentamos em postagem anterior, as águas subterrâneas são fundamentais para o abastecimento de populações rurais e urbanas, que nem sempre podem contar com a disponibilidade de águas superficiais para o abastecimento. Na agricultura, essas águas são importantes para a irrigação, especialmente nos períodos da seca. Expostos sistematicamente à infiltração de água com resíduos de agrotóxicos, os aquíferos e lençóis subterrâneos de água vão apresentando níveis de contaminação cada vez mais altos. E como nem sempre as águas retiradas do subsolo passam por testes de laboratório para averiguar a sua qualidade e potabilidade, pessoas, animais e plantas podem estar sendo expostos a altos níveis de contaminantes químicos. 

Segundo algumas estimativas, apenas 1% dos agrotóxicos aplicados nas lavouras atingem o seu objetivo, que são ervas daninhas, insetos predadores, fungos, invertebrados e outras pragas prejudiciais – os 99% restantes acabam transformados em resíduos tóxicos. Esse é um dado assustador – as atividades humanas que envolvem a aplicação de agrotóxicos nas lavouras são, na verdade, operações de envenenamento do meio ambiente, com seríssimas consequências para os corpos d’água. 

É preciso se repensar tudo isso. 

AGRICULTURA E AGROTÓXICOS: DOIS LADOS DE UMA MESMA MOEDA

Produtos alternativos para diminuir defensivos agricolas Jorge Kanomata

Ao longo de dezenas de postagens desta série, exploramos diversos lados dos muitos conflitos entre a agricultura e o meio ambiente: destruição de matas, consumo excessivo e desperdício de água, extinção de flora e fauna, destruição de solos, assoreamento e entulhamento de canais de rios, entre outros problemas. Existe um conjunto de problemas importantes que foram deixados de lado e que passaremos a comentar agora: o uso intensivo de agrotóxicos e seus efeitos no meio ambiente. 

O termo agrotóxico é uma designação genérica de todo um conjunto de produtos químicos utilizados pela agricultura, onde se incluem defensivos, pesticidas, praguicidas, biocidas, agroquímicos e produtos fitofarmacêuticos ou fitossanitários. Essas substâncias químicas são utilizadas para impedir a ação ou matar formas de vida animal ou vegetal que são prejudiciais à saúde pública ou às culturas agrícolas. Incluem-se na lista os insetos, ácaros, moluscos, roedores, fungos, ervas daninhas e bactérias, entre outras. Fertilizantes e produtos químicos usados para estimular o crescimento ou o comportamento reprodutivo de animais não entram nessa lista. 

Dentro da moderna agricultura, os agrotóxicos têm um papel importante no combate das diversas pragas animais e vegetais que atacam as culturas, garantindo assim os altos níveis de produtividade. O uso dos agrotóxicos, porém, causa diversos efeitos colaterais em outras formas de vida, que nada tem a ver com as lavouras, e também causam a contaminação de solos e águas, além de colocarem a saúde dos trabalhadores rurais e de populações que vivem nas proximidades das lavouras em risco. 

Para que vocês tenham ideia do volume e dos impactos do uso de agrotóxicos pela agricultura, vou citar alguns dados levantados por um estudo realizado pela Universidade Federal de Uberlândia. Os pesquisadores escolheram uma área de Cerrado com 11.500 hectares nas proximidades da cidade de Iarí de Minas, no Estado de Minas Gerais, onde realizaram diversos estudos e medições dos volumes e tipos de agrotóxicos utilizados pelos produtores rurais. O acompanhamento da produção agrícola nessa área de estudos se deu entre outubro de 1997 e abril de 1998, período em que se produzem as culturas de verão, e entre maio e setembro de 1998, época das chamadas culturas de inverno. 

O mapeamento inicial demonstrou que, entre todos os usos, os principais eram a produção de culturas anuais, responsáveis por cerca de 42% da ocupação dos solos da região, especialmente com lavouras de soja, feijão, milho, algodão e batatas; 37% eram ocupadas por áreas de produção de pinus; 2% por plantações de café e 2% por pastagens. As áreas de mata nativa, onde se encontram remanescentes de vegetação de Cerrado correspondiam a pouco mais de 5% da área em estudo. Os agricultores da região empregam modernas técnicas agrícolas, com uso de maquinários sofisticados, sistemas de irrigação com pivô central, além de amplo uso de agrotóxicos. Todo esse aparato técnico permite a produção de até 5 safras a cada 2 anos

Os estudos constataram um uso bastante expressivo de agrotóxicos no período: foram utilizadas aproximadamente 77,5 toneladas de produtos químicos, sendo que 49% do volume total foram herbicidas, 39% fungicidas e 12% inseticidas. Foram identificados 18 tipos de fungicidas, 24 tipos de herbicidas e 19 tipos de inseticidas. Fazendo uma conta rápida, chegamos ao uso de 6,7 kg de agrotóxicos para cada hectare da região

Com o uso intensivo da irrigação, os solos tornam-se muito úmidos, uma condição que favorece o aparecimento de fungos, moluscos e outras doenças nocivas para as culturas. As ervas daninhas também se aproveitam da umidade e dos nutrientes dos fertilizantes aplicados nas culturas, encontrando nichos onde há incidência de luz solar para se desenvolver. Essa situação leva os agricultores ao uso crescente de diversos tipos de biocidas, com destaque para os fungicidas, os moluscidas (para o combate das lesmas), os herbicidas e os inseticidas.

Esse verdadeiro coquetel de produtos químicos atua eficazmente no combate dessas pragas, porém, ocorrem diversos danos colaterais –  resíduos dos produtos químicos acabam penetrando na estrutura das plantas cultivadas e poderão contaminar os consumidores finais dos grãos, frutos, folhagens, tubérculos e outras culturas produzidas quando consumidas in natura ou processadas; os resíduos dos agrotóxicos também podem contaminar e se acumular nos solos; com as chuvas, parte desses resíduos acabam carreados ou percolados na direção dos corpos d’água, afetando diversas formas de vidas aquáticas. 

Devido à alta toxicidade e aos riscos ao meio ambiente, a venda e o uso de grande parte desses agrotóxicos requer o acompanhamento de técnicos especializados em agronomia e outras ciências agrárias, existindo, inclusive, normas para o descarte das embalagens dos produtos. Existem, porém, diversas falhas nos processos e alguns produtos, de origem ilegal, acabam sendo usados clandestinamente. Um outro gravíssimo problema se observa na aplicação desses agrotóxicos, onde agricultores fazem a diluição sem respeitar as quantidades indicadas pelos fabricantes e realizam a aplicação sem que se observem corretamente as regras e normas de segurança (vide foto). Esses usos incorretos e os abusos estão na origem de grande parte dos problemas ambientais nas áreas de agricultura intensiva do país.

Continuaremos neste assunto em nossa próxima postagem. 

AEROPONIA: UMA REVOLUÇÃO NA AGRICULTURA

Aeroponia

Quem é um pouco mais velho talvez se lembre de uma série de ficção científica chamada Battlestar Galactica, lançada em 1978. A série tinha como enredo central a fuga de um grupo humano que sobreviveu à destruição do seu planeta natal pelos Cylôns. Esses humanos se amontoaram em centenas de naves espaciais, capitaneadas pela astronave de combate Galactica, e saíram pelo espaço sideral em busca do planeta Terra. Entre as astronaves da frota, existiam algumas naves agrícolas, que conseguiam produzir alimentos para toda essa população sem a necessidade de terra fértil. O que naquela época era algo inimaginável, pouco a pouco está se transformando numa realidade: estou falando da aeroponia

A aeroponia é uma nova técnica agrícola, onde as plantas são mantidas suspensas e as raízes, que ficam dentro de uma caixa escura, recebem uma aspersão de água e nutrientes, sem a necessidade de qualquer quantidade de solo agrícola para manter as plantas vivas. A exposição das raízes ao contato direto com o ar (vide foto) permite que as plantas se mantenham altamente oxigenadas e, com isto, alcancem uma produtividade várias vezes maior. Existe uma outra técnica bastante conhecida de cultivo sem o uso do solo, a hidroponia, que se difere da aeroponia por manter as raízes das plantas na água. Atualmente, a principal aplicação da técnica da aeroponia é a produção de mini tubérculos como a batata-semente. 

Essa informação poderá não dizer muita coisa a você, mas para os produtores rurais de batatas ela soa como verdadeira música aos ouvidos: a batata-semente é um dos itens mais onerosos na produção do tubérculo, chegando a representar um custo entre 20 e 40% do preço final do produto. Esse alto custo de produção se reflete no preço de venda das batatas ao consumidor final, que tem como resultado um baixo consumo do alimento pelas populações mais pobres do mundo, quando comparado aos países ricos. Enquanto o consumo per capita anual de batatas na América do Norte e na Europa é, respectivamente, de 57,9 e 96,1 kg, na África e na América Latina esse consumo cai para 14,2 e 23,6 kg/ano, respectivamente.  

Originária das regiões Andinas da América do Sul, a batata foi introduzida na Inglaterra no século XVI – ironicamente, a planta sul americana ganhou o mundo com o nome de batata inglesa. A planta se adaptou perfeitamente aos climas e aos solos de diferentes países e, superando gradativamente um certo preconceito das elites e da nobreza que não gostavam da sua aparência, a batata foi se tornando popular e foi o alimento que mais contribuiu no combate da fome das populações pobres do continente europeu. A partir da Europa, a produção e o consumo das batatas se espalhou por todo o mundo.

Um exemplo da importância das batatas pode ser visto na Irlanda, onde há séculos ela é considerada como um alimento básico da população. Entre os anos de 1845 e 1849, uma praga agrícola assolou as plantações de batata do país, reduzindo fortemente a produção. Como resultado houve um período de fome e doenças, forçando milhões de irlandeses a imigrar para outros países. Estima-se que um milhão de pessoas morreram de fome na Irlanda naquela crise. Esse período caótico da história do país ficou conhecido como “A Grande Fome” ou Na Gorta Mór, em irlandês. Em 2002, foi inaugurado um memorial na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, o Irish Hunger Memorial, para relembrar as vítimas dessa tragédia humana

De acordo com a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a batata é o terceiro alimento mais consumido do mundo, superado apenas pelo arroz e pelo trigo – a produção do milho é superior à da batata, porém o grão tem outros usos além da alimentação humana, como a produção de rações para animais e combustíveis como o etanol. Pelo seu alto valor nutricional e grande produtividade por área plantada, a FAO quer incentivar o plantio de batatas nos países pobres, ajudando assim a combater os bolsões de fome crônica em regiões pobres do mundo. E a aeroponia vem de encontro a este ambicioso projeto. 

Na aeroponia, a produção das plantas é feita em uma caixa, que funciona como uma estufa. As plantas são presas a partir da base do caule, com as folhas acima da tampa da caixa, de maneira que possam captar a luz solar; as raízes ficam dentro da caixa, expostas ao ar numa total escuridão. Um sistema de jatos em spray pulveriza as raízes com uma solução aquosa que contém todos os nutrientes que a planta necessita. O tempo de duração dessa nebulização varia entre 15 e 60 segundos, sendo repetida várias vezes ao dia, dependendo do tipo de cultura e do clima da região. Esse sistema de nebulização é acionado por motores elétricos, com o controle feito através de computadores. Para realizar a colheita das batatas-sementes, é aberta uma cortina lateral, permitindo assim o acesso às raízes. Os trabalhadores responsáveis pela colheita dos tubérculos trabalham confortavelmente sentados em cadeiras. Somente as batatas-semente que estão no tamanho certo são colhidos – os demais são deixadas presas às raízes e só serão colhidos no momento certo. 

Apesar dos custos de implantação desse sistema serem altos, a alta produtividade é compensadora – no solo, uma planta consegue produzir, no máximo, 10 tubérculos, enquanto no sistema de aeroponia essa produção poderá chegar a 50 tubérculos (na média, a produtividade é 3 vezes maior). Também devem ser consideradas a grande economia em fertilizantes, defensivos agrícolas e água – alguns experimentos demonstraram que é possível uma economia de 98% no consumo de água, algo fundamental nesses nossos tempos. Essa alta produtividade, associada a um eficiente controle da qualidade das batatas-sementes produzidas, poderá significar em custos mais baixos para os produtores e, consequentemente, em preços mais acessíveis para os consumidores finais. Todos sairão ganhando. 

Em um futuro próximo, com um desenvolvimento maior dessa tecnologia, talvez seja possível realizar todo o ciclo de produção das batatas e de outros alimentos através do sistema de aeroponia. Quem sabe, num futuro não muito distante, astronaves agrícolas girando na órbita de nosso planeta, produzirão todos os alimentos que a humanidade necessitará, preservando assim os recursos naturais remanescentes da Terra. 

A POLUIÇÃO DA REPRESA BILLINGS: UMA QUESTÃO RECORRENTE

Represa Billings

Nas últimas postagens falamos bastante dos problemas ambientais enfrentados pelas regiões brasileiras cobertas pela vegetação de Cerrado. A causa principal destes problemas é o avanço das fronteiras agrícolas que, a partir do melhoramento genético e da adaptação de cultivares para os solos e climas do bioma, cada vez substituem áreas de vegetação nativa por gigantescas plantações, especialmente de soja. Vamos dar uma pequena parada nesse tema – gostaria de falar sobre um outro assunto preocupante: a poluição da Represa Billings, na Região Metropolitana de São Paulo. 

A Represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande, Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé, Cocaia e outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocupa uma área inundada de aproximadamente 172 km² e tem capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água. A represa se espalha por áreas dos municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio  Grande da Serra.  

O rápido crescimento da cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX, tanto em termos de população quanto no número de indústrias instaladas, criou uma fortíssima demanda por energia elétrica. As pequenas usinas hidrelétricas instaladas em munícipios de entorno da cidade não estavam conseguindo atender a essa demanda e seria necessária a construção de uma unidade geradora de grande porte. Em 1920, a empresa canadense Light & Power Company conseguiu a concessão para a construção da Represa Billings e da Usina Henry Borden no município de Cubatão, região da Baixada Santista. As águas da represa, situadas em uma altitude de aproximadamente 800 metros acima do nível do mar, seriam lançadas por grandes tubulações na direção das turbinas geradoras, aproveitando-se assim do forte desnível e da força da gravidade para gerar muita eletricidade. 

Apesar da Represa Billings ter sido construída com a finalidade de gerar energia elétrica, o decreto presidencial que autorizou a sua construção deixou muito claro que o manancial deveria ser preservado a fim de atender também as necessidades de consumo da população da Região Metropolitana de São Paulo. Infelizmente, as autoridades responsáveis, de todos os níveis, não cuidaram dessa preservação e a represa Billings é hoje um corpo d’água altamente comprometido pela poluição, especialmente por causa do lançamento de grandes quantidades de esgotos domésticos

Durante várias décadas, as margens da Billings funcionaram com uma espécie de praia para as populações das diversas cidades próximas. Clubes náuticos, chácaras de lazer e clubes de pesca ocupavam grandes extensões de suas margens. Vários trechos foram transformados em áreas de banho. Esse verdadeiro paraíso ecológico ficou praticamente intacto até o final da década de 1950, quando teve início a instalação das indústrias automobilísticas, especialmente na chamada região do ABCD Paulista, sigla que identifica os municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema. A forte demanda por mão de obra levou a uma migração maciça de trabalhadores para a região do ABCD.  

Esse forte crescimento populacional criou uma forte demanda por habitações populares – grandes áreas de mata nas margens da Represa Billings acabaram sendo transformadas em loteamentos (a maioria irregulares) e bastaram poucos anos para serem transformados num mar sem fim de casas (vide foto). Como é de praxe nas grandes cidades brasileiros, as águas da represa Billings foram transformadas no corpo receptor da maior parte dos esgotos gerados por essa grande população que ali se instalou. Para que você tenha uma ideia do tamanho do problema, calcula-se que aproximadamente 1 milhão de pessoas vivam nas áreas de entorno da Represa Billings atualmente, grande parte em bairros com condições de infraestrutura das mais precárias. Para piorar a situação, cerca de 2 milhões de pessoas em diversos municípios da Região Metropolitana de São Paulo dependem das águas da represa para o abastecimento de suas casas – ou seja, os esgotos da população poluem as águas que serão usadas no abastecimento dessa mesma população – um ciclo vicioso dos mais insanos.

A poluição da Billings é um gravíssimo problema ambiental e já foi tema de diversas postagens aqui no blog. Na semana passada, passando por uma rodovia que atravessa a represa, eu fiquei simplesmente assustado com o grau de poluição das águas – o reservatório está com as águas totalmente verdes (resultado da multiplicação de microalgas que se nutrem dos resíduos orgânicos dos esgotos), um processo que é chamado de eutrofização. Esse processo, que ocorre a muitos anos na represa, normalmente era visto apenas em alguns braços, especialmente em regiões com maior despejo de águas poluídas com esgotos – a visão de grande parte da represa com águas completamente verdes foi uma trágica novidade. 

O período final do inverno e começo da primavera, que aqui na nossa região é uma época de poucas chuvas, ajuda a explicar em parte o grau de deterioração das águas da Represa Billings. Entretanto, é preciso cobrar das autoridades maiores providências para a solução deste problema. A Região Metropolitana de São Paulo tem hoje uma população superior aos 16 milhões de habitantes, que precisam contar com fontes confiáveis para o abastecimento de água. Na recente seca de 2015, quando o Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana, literalmente secou, foram as águas de um dos braços da represa Billings que, após a realização de obras emergenciais, forneceram água extra para reforçar o combalido sistema de abastecimento local. O grande volume de água armazenada na  Represa Billings é uma reserva fundamental e estratégica para toda a grande população da Região Metropolitana e, na minha opinião, não é mais possível que se tolere tamanho grau de degradação ambiental e descaso. 

Enquanto populações de muitas regiões do Brasil e do mundo lutam para ter alguns poucos litros diários de água, nós transformamos a magnífica Represa Billings em um  repulsivo depósito de esgotos. Que vergonha…  

SÃO PAULO: TERRA DA GAROA E DO CERRADO

Parque Trianon

Na última postagem falamos do Cerrado Paulista, um bioma que já ocupou uma área equivalente a 14% da superfície do Estado de São Paulo e que hoje está limitado a uma área total equivalente a 1% dessa superfície, distribuídos em milhares de fragmentos  de vegetação isolados. O bioma é praticamente desconhecido pela população paulista pois, grande parte dessas cobertura vegetal, foi destruída pelo avanço da cafeicultura rumo ao Oeste do Estado ainda no século XIX. Muito provavelmente, essa destruição do Cerrado Paulista nesse passado distante levou junto inúmeras nascentes de água e rios, cuja existência nem chegou a ser catalogada pela ciência.

Na postagem de hoje, vamos falar sobre uma curiosidade: de acordo com os resultados de uma pesquisa recente, os famosos campos do Planalto de Piratininga, local onde foi fundada a cidade de São Paulo em 1554 e sobre os quais nós paulistanos e muitos de vocês já tinham ouvido falar nos tempos do ensino fundamental, eram na verdade grandes manchas de campos de Cerrado. Isso quer dizer que foi a maior cidade brasileira quem inaugurou o processo de destruição do bioma. Depois de atravessarem a densa cobertura da Mata Atlântica na Serra do Mar, os primeiros exploradores que chegaram ao Planalto de Piratininga encontraram extensas regiões de campos abertos, com uma farta disponibilidade de cursos d’água e muita caça – nessas áreas de campos existiam diversas aldeias indígenas, que exploravam e viviam dos fabulosos recursos naturais que a terra lhes oferecia.

O estudo em questão foi elaborado pelo botânico Ricardo Cardim, que se baseou em antigos documentos e cartas dos primeiros moradores da antiga Vila de São Paulo de Piratininga, onde eram feitas descrições detalhadas da paisagem local. Esses textos falavam de campos abertos, com vegetação rala e outras características que, claramente, se referiam a uma área coberta por vegetação típica de Cerrado. O crescimento desenfreado da cidade, especialmente ao longo do século XX, destruiu a maior parte da antiga cobertura vegetal da região, ficando assim bastante difícil se determinar exatamente quais eram e onde se localizavam cada tipo de cobertura vegetal.

A “reconstrução” virtual das antigas paisagens paulistanas feitas por esse estudo permitiu a elaboração de um mapa com a localização dos diferentes biomas dentro da mancha urbana da cidade – um artista plástico usou essas informações para criar ilustrações com a vegetação de cada uma das regiões. O antigo Planalto de Piratininga era uma área única – a região era o ponto de encontro da Mata Atlântica, do Cerrado e de um trecho da Mata das Araucárias; já as áreas de várzea do Planalto, especialmente as do rio Tietê, apresentavam uma vegetação e uma fauna similar a do Pantanal Mato-grossense.

Uma das características locais que pode ajudar a explicar essa verdadeira miscelânea de sistemas florestais é o clima local – a cidade de São Paulo é cortada pelo Trópico de Capricórnio, que marca o limite entre as áreas tropicais e sub-tropicais do planeta. A região onde fica a cidade de São Paulo está na transição entre os climas Tropical de Altitude e Sub-Tropical, sofrendo ainda uma forte influência do clima Tropical Atlântico – apesar da altitude superior aos 800 metros, a cidade está a apenas 70 km do Oceano Atlântico. Quem mora na cidade de São Paulo e na Região Metropolitana está acostumado a viver as quatro estações do ano em um único dia. A garoa, uma chuva rápida com finíssimas gotas d’água, era um fenômeno climático diário criado por esse clima tão particular da cidade e que acabou perpetuada na memória coletiva como um dos símbolos de São Paulo.

Bairros localizados em áreas planas da cidade como a Barra Funda, Santana, Bairro do Limão, Casa Verde, Pari, Brás, Belém, Vila Prudente, Itaim Bibi, Butantã, Ibirapuera, Moema, Brooklin e Santo Amaro, entre outras, eram cobertos por campos de Cerrado. No bairro de Pinheiros havia uma grande concentração de Araucárias – daí a origem do nome do bairro. As florestas de Mata Atlântica se concentravam nos terrenos mais altos e nas áreas de serra. O maciço onde se encontra a famosa Avenida Paulista, coração financeiro da cidade, era coberto por vegetação de Mata Atlântica. O Parque Trianon (vide foto), localizado em frente ao MASP – Museu de Arte de São Paulo, preserva até hoje um fragmento sobrevivente da Mata Atlântica.

Uma característica importante das terras do Planalto de Piratininga, que vem de encontro a esse estudo, era a grande quantidade de nascentes e cursos d’água que existiam na região – conforme já comentamos em postagens anteriores, as áreas de Cerrado são chamadas de “berço das águas”. Os solos do bioma absorvem grandes volumes de água nos períodos das chuvas, água essa que vai jorrar pelas nascentes durante todo o ano. De acordo com informações históricas, existiam entre 300 e 2 mil cursos d’água somente na área do município de São Paulo – a diferença nos números se deve às fontes consultadas. Grande parte desses córregos e riachos desapareceram durante o processo de crescimento da cidade – a fim de se liberar novas áreas para construções, os cursos d’água eram canalizados, aterrados e esquecidos. De quando em vez, durante a realização de obras, se redescobrem alguns desses cursos d’água.

Nas últimas postagens, temos falado sistematicamente dos problemas ambientais que estão devastando as áreas do bioma Cerrado. A agricultura ocupa o topo da lista dos agressores e seu avanço está comprometendo nascentes e cursos d’água, fora e fauna, além de populações, que já sofrem problemas no abastecimento de água em alguns períodos do ano. Essas áreas de Cerrado com seus problemas parecem ficar muito distantes de nós e de nossas grandes cidades. É extremamente didático saber que, em séculos passados, parte considerável das terras onde se localiza hoje São Paulo, a maior cidade do país, já foram coberto por vegetação típica do Bioma Cerrado – e tudo que restou desse sistema florestal são relatos antigos de cronistas e escritores, que colocaram no papel as suas impressões das paisagens que enxergavam.

Tanto a garoa quanto o Cerrado desapareceram para sempre das paisagens da cidade de São Paulo – que isso nos sirva de alerta sobre a fragilidade da natureza.

 

O CERRADO PAULISTA: JÁ OUVIU FALAR?

Pequi

Sempre que se fala em Cerrado, é normal pensarmos em regiões do Centro-Oeste do país, em Minas Gerais, alguma coisa da Bahia e de Tocantins. Regiões do bioma no Maranhão e no Piauí, só bem recentemente começaram a ser divulgadas pelos meios de comunicação. Agora, uma pergunta: você sabia que existem regiões de Cerrado no Estado de São Paulo? 

O bioma Cerrado ocupava, originalmente, uma área correspondente a 14% do Estado de São Paulo – hoje em dia, restaram apenas fragmentos do Cerrado no Estado (são mais de 8.300 fragmentos), áreas que ocupam aproximadamente 1% da superfície paulista. Como se o altíssimo grau de devastação do bioma não bastasse, apenas 18% dessas áreas restantes são protegidas em 32 unidades de conservação e de reserva legal. O bioma é tão desconhecido entre a população do Estado de São Paulo que, caso você aponte para uma área com a vegetação típica de Cerrado para um paulista, e perguntar que tipo de bioma é aquele, o máximo que ouvirá de resposta é “mato” – ou seja, para a população em geral, o Cerrado é um tipo de vegetação sem a menor importância. 

Esse comportamento dos paulistas em relação ao Cerrado tem raízes históricas. Até meados do século XIX, São Paulo era uma província pobre e isolada, com a capital no alto da Serra do Mar, longe do litoral, e com uma população bastante rarefeita. Isso começou a mudar com a chegada do café à região do Vale do Rio Paraíba, no extremo Leste do Estado. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a rápida degradação dos solos da região tornou efêmeras as riquezas locais – cidades que surgiram no rastro do café, rapidamente se transformaram em “Cidades Mortas”, numa referência ao livro publicado por Monteiro Lobato falando da região. 

Com a grande valorização do café nos mercados internacionais da época, não demorou muito até que os grandes produtores descobrissem as férteis terras roxas do Oeste do Estado de São Paulo. Rapidamente, grandes trechos das matas passaram a ser derrubados para a formação de imensos cafezais e nada mais seria como era dantes. Comparado aos solos de terra roxa, as áreas de Cerrado com seus solos ácidos e pouco férteis se transformaram em uma espécie de “segunda divisão” para os produtores rurais e passaram a ser transformadas em áreas para a pastagem de gado ou para o plantio de culturas pouco exigentes em relação à qualidade de solos. 

Muito provavelmente, vem daí esse relativo desprezo ou desconhecimento dos paulistas em relação ao Cerrado. Populações de outros Estados, que sempre viveram e dependeram do bioma para sobreviver, como aquelas da região Centro-Oeste do país, tem um comportamento completamente diferente. Um exemplo é a utilização de toda uma gama de frutas típicas do Cerrado na sua alimentação – o pequi (vide foto) é um exemplo. Muito utilizado em culinárias como a do Estado de Goiás, o pequi está presente em diversos pratos salgados, bolos e doces. O pequizeiro é até encontrado no Estado de São Paulo, mas seus frutos apodrecem no pé porque a população nunca se habituou ao consumo desse e de outros frutos do Cerrado paulista. 

Pesquisadores de universidades e institutos paulistas correm contra o tempo e contra as distâncias para estudar toda essa infinidade de “ilhas de Cerrado”, com objetivo de conhecer e preservar um pouco do que restou do bioma no Estado de São Paulo. A rápida destruição de extensas regiões de Cerrado, especialmente por causa do avanço das fronteiras agrícolas, por todo o Brasil, poderá repetir o destino que o bioma teve em terras paulistas e acabar transformado em um sem fim de pequenas ilhas de vegetação nativa, cercadas por culturas de grãos por todos os lados. 

Como paulista, torço para que nada do que aconteceu com o Cerrado por aqui aconteça em outras regiões do Brasil.

A EROSÃO E A COMPACTAÇÃO DE SOLOS EM REGIÕES DO CERRADO

Vossoroca no Cerrado

O Cerrado é, atualmente, um dos biomas mais ameaçados do Brasil. Considerados improdutivos durante muito tempo, os solos do Cerrado, de uma hora para outra, se transformaram nos principais produtores de grãos do país. É claro que não houve nenhum milagre nesse processo – no final de década de 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu variedades de soja adaptadas ao clima e aos solos do Cerrado, o que abriu inúmeras possibilidades para a expansão das frentes agrícola por todo o bioma, que ocupa uma área total com aproximadamente 20% do território do Brasil. Pesquisando em postagens anteriores, você poderá encontrar informações bastante detalhadas desse processo.

Algumas projeções indicam que perto de 50% da área original do Cerrado já cedeu lugar para campos agrícolas – em algumas regiões, como no Estado de Minas Gerais, o grau de devastação do Cerrado já ultrapassa os 60%. Essa perda intensa de vegetação nativa está se refletindo na diminuição e até em ameaças de extinção de inúmeras espécies animais e vegetais. Outro problema, esse gravíssimo, se vê nitidamente na redução dos caudais de inúmeras bacias hidrográficas importantes como a dos rios Tocantins e Araguaia e do São Francisco. A vegetação nativa do Cerrado possui raízes desproporcionalmente longas, uma característica que contribui para a infiltração das águas das chuvas nos solos, recarregando assim aquíferos e lençóis subterrâneos, cujas águas são fundamentais na alimentação de nascentes de inúmeros cursos d’água.

A somatória de todos esses problemas e agressões ambientais tem um lado que é muito pouco explorado pelos meios de comunicação – esse avanço violento e rápido contra a vegetação do Cerrado já está criando imensos problemas de perda de solos por processos erosivos e também de compactação de muitas áreas. Em tempos onde a quebra sucessiva de recordes na produção de grãos, notadamente da soja, uma das commodities agrícolas de maior sucesso em nossa pauta de exportações, não é muito conveniente que as populações fiquem sabendo que a “galinha dos ovos de ouro da agricultura” está perdendo penas.

Os solos aráveis, conforme já apresentamos em postagens anteriores, são o resultado de um longo processo geológico, onde as rochas sofrem fragmentação e desgaste devido à ação do sol, das chuvas, do gelo e dos ventos, entre outros elementos. Os fragmentos de rocha se acumulam em partes baixas do terreno e com o crescimento de pequenas plantas, especialmente dos líquens, tem início um processo de acúmulo de restos de matéria orgânica. É a combinação dessas partículas de rocha, matéria orgânica, água e ar que vai permitir a formação do que chamamos de solo arável. Esse processo é extremamente lento – falamos aqui de centenas de milhares ou de milhões de anos.

Porém, caso a cobertura vegetal de uma determinada região seja retirada para a formação de campos agrícolas ou para exploração de madeira, os solos passam a ficar expostos às intempéries, as chuvas no caso do Brasil, e todo esse trabalho da natureza pode ser perdido em poucos anos. Tamanho o volume e a velocidade da destruição do Cerrado, são muitas as regiões do bioma que estão apresentando grandes problemas de perdas de solos, algumas já apresentando gigantescas vossorocas (vide foto). Os sedimentos carreados pelas chuvas estão assoreando e contaminando inúmeros rios e nascentes destas regiões.

Uma pesquisa realizada por um doutorando do CENA – Centro de Energia Nuclear na Agricultura da ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, indicou uma forma bastante interessante para analisar as perdas de solo, de acordo com os diferentes tipos de manejo: um caminho que abre inúmeras possibilidades para a correta gestão de áreas agrícolas.

O pesquisador Robson Clayton Jacques Arthur percebeu que, ao analisar as quantidades de Césio-137 presentes no solo, era possível determinar o volume de perdas ou de danos nos solos. O Césio-137 é um elemento químico radioativo liberado em testes e detonações de armas nucleares. Nas décadas de 1950 e 1960, as grandes potencias mundiais realizaram inúmeros desses testes, liberando grandes quantidades de Césio-137 na atmosfera. Os ventos se encarregaram de espalhar o elemento por toda a superfície do planeta e as chuvas levaram o elemento a ser depositado sobre os solos – ou seja, o Césio-137 está presente em solos de todo o mundo e medindo-se sistematicamente as quantidades do elemento em uma determinada área, é possível determinar o volume de perdas e de danos no solo.

Na pesquisa realizada foram colhidas amostras de solos em diferentes profundidades – 20, 40 e 60 cm, em intervalos de 3 anos, As áreas de onde foram retiradas essas amostras se dividiam em áreas de pastagens, de plantio convencional e de plantio direto. O acompanhamento dos níveis do Césio-137 nas amostras indicou claramente que as áreas de pastagens e aquelas usadas para o plantio convencional eram as que mais apresentaram variações, indicando que são essas as áreas mais propensas a erosão e perda de solos, além de problemas de compactação dos solos. Solos compactados, entre outros problemas, não permitem a infiltração da água das chuvas, problema que causa perda na produtividade agrícola.

Uma descoberta importante da pesquisa e que poderá ajudar na conservação e na gestão de áreas agrícolas é que o uso do plantio direto minimiza as perdas e a compactação dos solos. No plantio direto, toda a palha e resíduos de plantas produzidos no momento da colheita são depositados sobre o solo – o plantio é feito logo após a colheita e esses resíduos vão proteger os solos das intempéries até que as plantas cresçam. Uma ideia simples, que demonstra que, mesmo funcionando como o grande celeiro do país, os solos do Cerrado, se bem utilizados e protegidos, poderão produzir muito e com baixas perdas,  menor compactação, entre outros problemas.

Ou seja – quando a agricultura usa técnicas racionais e cuida bem dos solos, a natureza e o meio ambiente agradecem.