AEROPONIA: UMA REVOLUÇÃO NA AGRICULTURA

Aeroponia

Quem é um pouco mais velho talvez se lembre de uma série de ficção científica chamada Battlestar Galactica, lançada em 1978. A série tinha como enredo central a fuga de um grupo humano que sobreviveu à destruição do seu planeta natal pelos Cylôns. Esses humanos se amontoaram em centenas de naves espaciais, capitaneadas pela astronave de combate Galactica, e saíram pelo espaço sideral em busca do planeta Terra. Entre as astronaves da frota, existiam algumas naves agrícolas, que conseguiam produzir alimentos para toda essa população sem a necessidade de terra fértil. O que naquela época era algo inimaginável, pouco a pouco está se transformando numa realidade: estou falando da aeroponia

A aeroponia é uma nova técnica agrícola, onde as plantas são mantidas suspensas e as raízes, que ficam dentro de uma caixa escura, recebem uma aspersão de água e nutrientes, sem a necessidade de qualquer quantidade de solo agrícola para manter as plantas vivas. A exposição das raízes ao contato direto com o ar (vide foto) permite que as plantas se mantenham altamente oxigenadas e, com isto, alcancem uma produtividade várias vezes maior. Existe uma outra técnica bastante conhecida de cultivo sem o uso do solo, a hidroponia, que se difere da aeroponia por manter as raízes das plantas na água. Atualmente, a principal aplicação da técnica da aeroponia é a produção de mini tubérculos como a batata-semente. 

Essa informação poderá não dizer muita coisa a você, mas para os produtores rurais de batatas ela soa como verdadeira música aos ouvidos: a batata-semente é um dos itens mais onerosos na produção do tubérculo, chegando a representar um custo entre 20 e 40% do preço final do produto. Esse alto custo de produção se reflete no preço de venda das batatas ao consumidor final, que tem como resultado um baixo consumo do alimento pelas populações mais pobres do mundo, quando comparado aos países ricos. Enquanto o consumo per capita anual de batatas na América do Norte e na Europa é, respectivamente, de 57,9 e 96,1 kg, na África e na América Latina esse consumo cai para 14,2 e 23,6 kg/ano, respectivamente.  

Originária das regiões Andinas da América do Sul, a batata foi introduzida na Inglaterra no século XVI – ironicamente, a planta sul americana ganhou o mundo com o nome de batata inglesa. A planta se adaptou perfeitamente aos climas e aos solos de diferentes países e, superando gradativamente um certo preconceito das elites e da nobreza que não gostavam da sua aparência, a batata foi se tornando popular e foi o alimento que mais contribuiu no combate da fome das populações pobres do continente europeu. A partir da Europa, a produção e o consumo das batatas se espalhou por todo o mundo.

Um exemplo da importância das batatas pode ser visto na Irlanda, onde há séculos ela é considerada como um alimento básico da população. Entre os anos de 1845 e 1849, uma praga agrícola assolou as plantações de batata do país, reduzindo fortemente a produção. Como resultado houve um período de fome e doenças, forçando milhões de irlandeses a imigrar para outros países. Estima-se que um milhão de pessoas morreram de fome na Irlanda naquela crise. Esse período caótico da história do país ficou conhecido como “A Grande Fome” ou Na Gorta Mór, em irlandês. Em 2002, foi inaugurado um memorial na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, o Irish Hunger Memorial, para relembrar as vítimas dessa tragédia humana

De acordo com a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a batata é o terceiro alimento mais consumido do mundo, superado apenas pelo arroz e pelo trigo – a produção do milho é superior à da batata, porém o grão tem outros usos além da alimentação humana, como a produção de rações para animais e combustíveis como o etanol. Pelo seu alto valor nutricional e grande produtividade por área plantada, a FAO quer incentivar o plantio de batatas nos países pobres, ajudando assim a combater os bolsões de fome crônica em regiões pobres do mundo. E a aeroponia vem de encontro a este ambicioso projeto. 

Na aeroponia, a produção das plantas é feita em uma caixa, que funciona como uma estufa. As plantas são presas a partir da base do caule, com as folhas acima da tampa da caixa, de maneira que possam captar a luz solar; as raízes ficam dentro da caixa, expostas ao ar numa total escuridão. Um sistema de jatos em spray pulveriza as raízes com uma solução aquosa que contém todos os nutrientes que a planta necessita. O tempo de duração dessa nebulização varia entre 15 e 60 segundos, sendo repetida várias vezes ao dia, dependendo do tipo de cultura e do clima da região. Esse sistema de nebulização é acionado por motores elétricos, com o controle feito através de computadores. Para realizar a colheita das batatas-sementes, é aberta uma cortina lateral, permitindo assim o acesso às raízes. Os trabalhadores responsáveis pela colheita dos tubérculos trabalham confortavelmente sentados em cadeiras. Somente as batatas-semente que estão no tamanho certo são colhidos – os demais são deixadas presas às raízes e só serão colhidos no momento certo. 

Apesar dos custos de implantação desse sistema serem altos, a alta produtividade é compensadora – no solo, uma planta consegue produzir, no máximo, 10 tubérculos, enquanto no sistema de aeroponia essa produção poderá chegar a 50 tubérculos (na média, a produtividade é 3 vezes maior). Também devem ser consideradas a grande economia em fertilizantes, defensivos agrícolas e água – alguns experimentos demonstraram que é possível uma economia de 98% no consumo de água, algo fundamental nesses nossos tempos. Essa alta produtividade, associada a um eficiente controle da qualidade das batatas-sementes produzidas, poderá significar em custos mais baixos para os produtores e, consequentemente, em preços mais acessíveis para os consumidores finais. Todos sairão ganhando. 

Em um futuro próximo, com um desenvolvimento maior dessa tecnologia, talvez seja possível realizar todo o ciclo de produção das batatas e de outros alimentos através do sistema de aeroponia. Quem sabe, num futuro não muito distante, astronaves agrícolas girando na órbita de nosso planeta, produzirão todos os alimentos que a humanidade necessitará, preservando assim os recursos naturais remanescentes da Terra. 

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