UMA SERRA “PELADA”

Serra Pelada - Sebastião Salgado

Nesta série de postagens, estamos apresentando diversos cases de mineração ao redor do mundo, mostrando que, qualquer que seja o tamanho da atividade ou o tipo de recurso mineral que é explorado, sempre existem impactos ambientais, especialmente sobre os cursos d’água. Esses impactos podem ser gigantescos quando analisamos o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração, como nos casos de Mariana e de Brumadinho, ou locais, como em casos de cavas de mineração de areia e em olarias. Entre esses extremos, encontramos toda uma gama consequências negativas para o meio ambiente, assim como os mais diferentes impactos na vida de pessoas e de sociedades. 

Na postagem de hoje, vamos começar a falar sobre um dos mais emblemáticos e problemáticos fenômenos da mineração no Brasil: a exploração do ouro em Serra Pelada. É provável que os leitores mais jovens nunca tenham ouvido falar dessa gigantesca cava de exploração no interior do Pará e da verdadeira “febre do ouro” que foi desencadeado nos quatro cantos do país após a divulgação dos primeiros achados minerais, no início da década de 1980. Deixem-me tentar mostrar uma perspectiva geral do que foi Serra Pelada: 

Segundo conta a história oficial (que pode não ser necessariamente a história real) o agricultor Genésio Ferreira da Silva encontrou uma pepita de ouro com 13 kg de peso em suas terras, uma fazenda chamada Três Barras, no final de 1979. Em uma localidade pequena nos confins da Amazônia, onde quase nada de especial acontece, uma notícia como essa acabou correndo de “boca em boca” numa velocidade impressionante. Cerca de cinco semanas depois da descoberta, a fazenda Três Barras já havia sido invadida por cerca de 3 mil pessoas; no primeiro semestre de 1980, já se contavam 5 mil garimpeiros vindos de todo o Brasil, especialmente da Região Nordeste. Não tardou muito para o número de garimpeiros atingir a impressionante marca de 100 mil pessoas no auge das atividades

Entre essa verdadeira massa de aventureiros, temos de destacar a figura de Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Major Curió, um militar que fez “carreira” na chamada Guerrilha do Araguaia, ocasião onde militares do Exército brasileiro combateram militantes radicais de esquerda na década de 1970. Alçado à condição de líder do garimpo de Serra Pelada, o Major Curió passou a ser o representante do Regime Militar em vigor naquela época no controle da situação. Em 1982, o Major Curió foi eleito Deputado Federal e, em 1982, deu nome à cidade que se formou com a mineração em Serra Pelada – Curionópolis. 

Armados de pás, enxadas e picaretas, esse verdadeiro formigueiro humano escavou Serra Pelada entre 1980 e 1992, data em que a mineração a céu aberto foi proibida devido à falta de segurança. O morro com 150 metros de altura que existia no lugar desapareceu e no seu lugar foi deixado um lago com 24 mil m² de superfície e 200 metros de profundidade. Oficialmente, a produção de ouro em Serra Pelada foi próxima de 50 toneladas. O Governo Militar instalou uma agência da Caixa Econômica Federal junto ao garimpo, com o claro objetivo de controlar a produção e compra do ouro. Mesmo assim, muito ouro acabou seguindo por outros caminhos e não há como se ter certeza do volume total das descobertas – diferentes fontes de consulta falam de total entre 100 e 400 toneladas do metal. 

A Vale do Rio Doce, na época uma empresa estatal, era quem tinha os direitos de lavra na Serra Pelada. Após a invasão da área do garimpo por dezenas de milhares de pessoas, as autoridades ponderaram sobre a viabilidade de uma intervenção de reintegração de posse, o que felizmente acabou não acontecendo – imagine-se os riscos de um confronto entre um verdadeiro “exército” de garimpeiros enlouquecidos pela “febre do ouro” e forças regulares do Governo. A Vale do Rio Doce desistiu de Serra Pelada e foi indenizada pelo Governo Federal. 

A fotografia que ilustra esta postagem, de autoria do grande fotógrafo Sebastião Salgado, pode até lhe transmitir uma sensação de confusão. As escavações em Serra Pelada, ao contrário, eram extremamente organizadas, com trabalhadores divididos em funções muito específicas e sincronizadas. O terreno foi inicialmente dividido em “lotes” de 2 x 3 metros, que contavam inclusive com uma “escritura” de posse. Esses lotes foram disputados à força no início da mineração, mas, com a ação firme do Major Curió no controle do garimpo, esses lotes passaram a ser sorteados. Os donos desses lotes, chamados popularmente de “barrancos”, eram os “capitalistas – Serra Pelada chegou a possuir 300 “barrancos”. 

Na estrutura hierárquica do garimpo, a segunda posição era ocupada pelo “meia-praça”, uma espécie de mestre de obras responsável por organizar os trabalhos de escavação nos “barrancos”, recendo uma comissão entre 2 e 5% sobre o volume de ouro encontrado. Respondendo ao “meia-praça” se encontravam o cavador, o apontador, o apurador e o “formiga”. O “formiga”, como o próprio nome diz, era o trabalhador responsável pela escavação do solo até que se encontrasse as rochas. Os sedimentos eram colocados em uma espécie de mochila, com peso de até 35 kg, que era transportada para fora da cava. Essa operação era feita subindo-se pelas escadas improvisadas nas encostas do morro, que recebiam o apelido de “adeus-mamãe”. 

O cavador era o profissional responsável pelo desmonte das rochas, o que era feito a golpes de picareta. Essa é uma das etapas mais importantes da mineração pois as pepitas de ouro ficam escondidas nas rochas. Contam as histórias dos garimpeiros que era comum se encontrar pepitas grandes, do tamanho de um limão galego. Além das pepitas, que eram facilmente identificadas, os sedimentos de rocha continham pequenos fragmento e pó de ouro. Por isso, esses sedimentos eram transportados para as áreas de lavagem. Nesses locais era montada uma calha coberta por mercúrio, onde a terra e os sedimentos escavados eram lavados pelo apurador. O mercúrio se liga ao ouro formando uma liga, que depois é submetida a um processo de aquecimento, onde o mercúrio evapora e só resta o ouro na bateia. 

Aqui vale uma nota: o mercúrio é um metal pesado altamente tóxico para os seres vivos. Os problemas começam durante o aquecimento, quando o apurador respira diretamente o vapor de mercúrio, que vai se acumulando no organismo até desencadear numa série de doenças, especialmente danos graves e irreversíveis no sistema nervoso central. Outro problema é a contaminação ambiental – o vapor de mercúrio se esfria rapidamente e o metal volta ao estado líquido, caindo sobre os solos. Carreadas pelas fortes chuvas da Amazônia, centenas de toneladas de mercúrio passaram a poluir os rios e a contaminar todos os seres vivos aquáticos em cadeia, começando com plantas e criaturas microscópicas, passando por peixes e chegando depois aos seres humanos que comiam peixes capturados nesses rios. 

Ao final de todo esse penoso processo, os ganhos com a venda do ouro, minuciosamente controlados pelo apontador, eram distribuídos entre toda a estrutura hierárquica dos “barrancos”, sendo transformado em uma espécie de moeda corrente, usada desde o pagamento de bebidas e refeições, até os “serviços” prestados por profissionais do sexo. Alguns poucos fizeram verdadeiras fortunas a partir desses ganhos. A grande maioria dos aventureiros de Serra Pelada mal conseguiu sair da miséria. 

A “febre do ouro” passa e a cruel realidade se mostra com toda a sua força… 

“DEZENAS DE PESSOAS SÃO SOTERRADAS POR DESABAMENTO DE MINA NA INDONÉSIA”

INDONESIA-DISASTER

Há exatamente uma semana, um grave desabamento em uma mina ilegal de ouro numa das ilhas do Arquipélago Indonésio soterrou perto de 60 trabalhadores. De acordo com as informações divulgadas, que não foram muito precisas, pelo menos 3 pessoas morreram e 14 foram resgatadas com ferimentos. As autoridades suspeitavam que mais de 40 pessoas ficaram soterradas sob os escombros. 

Leia a integrada da notícia, divulgada pela Agência de Notícias EFE: 

O desabamento de uma mina ilegal de ouro na ilha de Célebes, na Indonésia, na terça-feira 26 deixou dezenas pessoas soterradas, segundo as autoridades locais. Pelo menos três mineiros morreram e outras 14 pessoas foram resgatadas com ferimentos. 

“Quando dezenas de pessoas estavam extraindo ouro naquele local, os postes e tábuas que sustentavam a carga quebraram por causa das condições do solo e do grande número de túneis para mineração”, explicou o porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Desastres (BNPB, sigla em indonésio), Sutopo Purwo Nugroho.

Segundo Nugroho, nesta quarta-feira, 27, as autoridades locais estimam que 43 pessoas ainda estejam soterradas. 

As equipes de resgate seguem trabalhando em uma área íngreme e arborizada junto com outros mineiros e forças de segurança onde muitos dos desaparecidos poderiam continuar vivos sob os escombros. 

A mineração ilegal é um fenômeno comum na Indonésia devido à permissividade das autoridades. Os acidentes ocorrem com frequência por conta da falta de medidas de segurança. 

Notas semelhantes foram divulgadas por outras agências de notícias, porém sem acrescentar maiores detalhes. Para que todos consigam entenderam a real dimensão do problema, que acontece nos quatro cantos do mundo, vamos fazer algumas considerações. 

A falta de fiscalização das autoridades tem uma razão principal: a República Indonésia forma o maior arquipélago oceânico do mundo – são 17.508 ilhas, que se se estendem num grande arco que começa ao largo da península malaia e vai até a metade ocidental da ilha da Nova Guiné. O arquipélago abriga a 5° maior população do mundo – são 250 milhões de habitantes, uma população quase 25% maior que a brasileira

Para conseguir fiscalizar uma quantidade tão grande de ilhas, o Governo indonésio precisaria ter uma gigantesca força naval, além de inúmeros fiscais para realizar o trabalho em terra. Vamos imaginar que fosse possível criar unidades com 10 homens e mulheres, cada uma contando com uma lancha para fazer o deslocamento. Essa força hipotética teria de contar com mais de 175 mil pessoas e 17.508 lanchas para conseguir cobrir todo o território insular da Indonésia. Para efeito de comparação, a Guarda Costeira dos Estados Unidos, simplesmente o país mais rico do mundo, possui cerca de 70 mil servidores, entre civis e militares, 1.761 navios de todos os portes e 187 aeronaves, especialmente helicópteros. A realidade econômica da Indonésia permitiria apenas uma pequena fração dessa força. 

Estudos científicos realizados através de imagens de satélite entre os anos 2000 e 2012, mostraram que a Indonésia perdeu cerca de 60 mil km² de florestas tropicais. Essa área é equivalente ao tamanho da Irlanda. Vale ressaltar que o país assinou uma moratória em 2011, onde assumiu o compromisso de reduzir o desmatamento. As principais razões para esse intenso desmatamento são as crescentes exportações de madeira para países da Ásia, como a China e o Japão, além de outros países do Sudeste Asiático, Austrália e Oceania, e a agricultura.  

As terras devastadas pelas madeireiras passam a abrigar fazendas que se dedicam à produção da palma (Elaeis guineensis), uma planta cujos frutos são ricos em óleo vegetal. Esse óleo, conhecido entre nós como azeite de dende, é uma importante fonte de renda para a Indonésia, gerando um faturamento da ordem de US$ 20 bilhões. Nos últimos anos, o dendê passou a ser considerado uma espécie de “combustível ecológico” e vem sendo transformado em biodiesel por alguns países da região. As populações que vivem da cultura recebem preços baixos pelo produto e a natureza está sendo destruída para a abertura dos campos agrícolas – não sei exatamente onde entra o componente “ecológico” nessa equação. 

Essa combinação nefasta de mineração descontrolada, desmatamentos e abertura de áreas agrícolas, está causando uma verdadeira tragédia ambiental na Indonésia, onde a vida selvagem figura como a maior vítima. O maior exemplo que podemos citar é o virtual risco de extinção dos orangotangos, uma das mais antigas espécies de primatas do nosso mundo, que compartilha cerca de 97% dos seus genes com os seres humanos. O orangotango-de-sumatra (vide foto abaixo), a subespécie encontrada na Indonésia, teve sua população reduzida em 80% nos últimos 75 anos – calcula-se que existam menos de 7 mil indivíduos da espécie vivendo livres na natureza. A se continuar com esse ritmo da destruição do meio ambiente, essa carismática espécie de primata (a outra subespécie, o orangotango-de-borneo, não está em situação melhor) desaparecerá da natureza dentro de poucos anos. 

Orangotango

Notem que uma pequena notícia sobre um acidente de mineração na distante Indonésia, devidamente destrinchada e contextualizada, pode revelar uma gigantesca catástrofe ambiental. 

 

A MINERAÇÃO DO AMIANTO CONTINUA RESPIRANDO POR “APARELHOS”

Amianto

O amianto (vide foto) é uma fibra mineral que teve um largo emprego industrial devido às suas características físicas: resistência a altas temperaturas, flexibilidade, resistência ao ataque de ácidos, isolamento elétrico e acústico, e, principalmente, um baixo custo. Ao longo do século XX, o amianto chegou a ser considerado um “mineral mágico”. Durante décadas, produtos fabricados em cimento amianto (massa com cimento e fibras de amianto) foi destaque na construção civil em materiais como placas, telhas, forros, pisos e caixas d’água.

Com o passar dos anos, estudos começaram a associar a intoxicação por fibras do amianto a uma série de doenças observadas entre trabalhadores da construção civil, mineiros e mecânicos, que tinham contato direto com o mineral. As fibras inaladas ou ingeridas estimulam mutações celulares no organismo, que podem originar tumores cancerígenos nos pulmões e em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano em consequência de doenças causadas pelo amianto e materiais que utilizam o mineral estão proibidos em mais de 50 países. O Brasil, ao contrário, continuava sendo um dos cinco maiores utilizadores e exportadores de produtos com amianto do mundo.

De acordo com informações do INCA – Instituto Nacional do Câncer, as principais doenças relacionadas ao amianto são:

Asbestosecausada pela deposição de fibras de amianto nos alvéolos pulmonares, provocando uma reação inflamatória, fibrose e rigidez, reduzindo a capacidade de realizar a troca gasosa e da capacidade respiratória, levando à incapacidade para o trabalho;

Câncer de pulmão: O câncer de pulmão pode estar associado com outras manifestações mórbidas como asbestose;

Câncer de laringe, do trato digestivo e de ovário: Também estão relacionados à exposição ao amianto;

Mesoteliomaé uma forma rara de tumor maligno, mais comumente atingindo a pleura, membrana serosa que reveste o pulmão, mas também incidindo sobre o peritônio, pericárdio, a túnica vaginal e bolsa escrotal.

Devido a toxicidade deste material, a venda de produtos com amianto na sua composição foi proibida na cidade de São Paulo em 2001 e no Estado de São Paulo em 2007. Em outros 5 estados o amianto também foi proibido: Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No Mato Grosso do Sul, a lei existente foi revogada pelo STF – Supremo Tribunal Federal, que considerou que houve invasão da competência da União.

Finalmente, no dia 29 de novembro de 2017, o STF – Supremo Tribunal Federal, proibiu, através da expressiva votação de 7 votos a favor e 2 contra, a extração, a industrialização, a comercialização e a distribuição do amianto do tipo crisotila, matéria-prima muito utilizada na fabricação de telhas leves e caixas d’água. Em 1995 havia sido aprovada a Lei Federal N° 9.055, diga-se de passagem, com forte lobby da indústria do amianto, que permitia o uso “controlado” da matéria-prima – a decisão do STF declarou que um dos artigos desta lei é inconstitucional e proibiu em definitivo o uso do amianto no Brasil.

A partir daquele momento, em tese, o Brasil se juntaria ao seleto grupo de mais de 60 países que tem legislação que proíbe o processamento, a venda e o uso desta matéria-prima e de qualquer um dos seus produtos. Infelizmente, a coisa ainda não está completamente resolvida – empresas do setor de mineração do amianto querem conseguir autorização para explorar o material para fins de exportação e contam com um forte apoio de deputados goianos e do Governador Ronaldo Caiado. A explicação é simples: a maior mina de amianto do Brasil fica em Minaçu, no Norte de goiás.

Localizada a cerca de 400 km de Goiânia, a cidade de Minaçu tem grande parte da sua economia girando em torno dessa atividade de mineração. Os sindicatos locais se reuniram num movimento para pedir um prazo de 10 anos para a paralização progressiva da atividade, de forma a permitir que a cidade e os trabalhadores se adaptem, economicamente, a uma vida “sem amianto”. A proprietária da mina, a empresa multinacional Sama Minerações, é claro, está se aproveitando do movimento dos trabalhadores na sua luta para continuar explorando as suas jazidas. A empresa estava se valendo de uma liminar, que venceu a poucos dias atrás, que permitia a continuidade da mineração do amianto até a publicação da sentença definitiva pelo STF – Superior Tribunal Federal.

Num esforço conjunto, a Sama, os trabalhadores, os Deputados Estaduais e o próprio Governador, trabalham para conseguir a liberação da extração do amianto para fins de exportação. Apesar da proibição do uso do amianto em mais de 60 países, existem dezenas de nações de menor desenvolvimento econômico que ainda permitem o uso do produto e formam um mercado fabuloso para as exportações brasileiras de amianto. Uma das táticas usadas pelo grupo, bastante conhecida aliás, vem sendo a divulgação de “estudos científicos” que afirmam que não existem provas científicas definitivas sobre os riscos do amianto para a saúde humana.

A Sama Mineração é fortemente criticada em várias partes do mundo por essa postura de defesa do uso do amianto. Uma notícia bastante incômoda para a empresa foi a recente divulgação de uma doação eleitoral em 2014, para o então candidato Ronaldo Caiado, político que atualmente é Governador de Goiás e forte defensor da manutenção das atividades de mineração do amianto no Estado. E uma questão que parecia ter sido resolvida em definitivo, parece que ainda terá novos e emocionantes capítulos.

Existem ainda milhões de caixas d’água e telhas feitas de amianto em uso no Brasil e ainda serão necessários muitos anos para se erradicar, em definitivo, esse mal de nossa sociedade. Milhões de brasileiros continuam expostos aos riscos de saúde criados pelo amianto e não vemos movimentos de Deputados, Governadores e outros políticos interessados em criar condições para a substituição dessas peças por outras, feitas de materiais seguros. Algo, no mínimo, muito suspeito.

A mensagem que fica dessa história é a seguinte: você pode até não tomar veneno, mas não vê mal nenhum em vender veneno para o seu vizinho. Dourar a “pílula” desse veneno é só uma estratégia de tentar ocultar os gravíssimos riscos do amianto para a saúde humana – a nossa e a de outras pessoas pelo mundo afora.

“AS USINAS DE DESSALINIZAÇÃO GERAM SALMOURA SUFICIENTE PARA COBRIR A ESPANHA”

Usina de dessalinização em Hamburgo

Em uma série de postagens anterior, falamos longamente sobre a utilização de processos de dessalinização da água do mar, produzindo-se assim água potável para o abastecimento de populações que vivem em áreas desérticas e semiáridas em todo o mundo. Algumas semanas atrás, o Jornal El País, da Espanha, publicou uma interessante reportagem sobre os problemas criados pelo despejo da salmoura no meio ambiente. Como é um assunto de grande interesse na área dos recursos hídricos, traduzimos e publicamos aqui no blog a íntegra da reportagem:

QUATRO PAÍSES DO GOLFO PRODUZEM METADE DESSA ÁGUA HIPERSALINA QUE DESCARREGAM DIRETAMENTE NO MAR 

Um relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU) estimou o número de usinas de dessalinização no planeta. O trabalho mostra a quantidade de água potável que eles geram e que alivia a sede de milhões de pessoas. Mas também revela os milhões de metros cúbicos (m3) de águas hipersalinas (salmoura) geradas no processo. Embora a maioria das plantas seja encontrada no Ocidente, apenas quatro países do Golfo Pérsico produzem mais da metade da salmoura, que despejam diretamente no mar. 

O estudo parte de uma realidade: 40% da população (mundial) sofre escassez de água. O problema será agravado no futuro por duas tendências crescentes. Por um lado, há o aumento esperado da população e, por outro lado, fatores antropogênicos, como poluição e mudanças climáticas, reduzirão ainda mais a disponibilidade de água de fontes convencionais. Por isso, será necessário procurá-la onde há maior disponibilidade: no mar. 

A revisão dos cientistas da UNU estima que existam 15.906 usinas de dessalinização operacional (o número inclui aquelas em construção). Este número supõe quase triplicar as (usinas) existentes no começo do século. Somadas, elas têm uma capacidade teórica para gerar água potável (o real é impossível calcular) de cerca de 95 milhões de metros cúbicos por dia (m3 / dia), cerca de 34.000 milhões por ano. 70% das plantas estão nos países ricos e 0,1% nos 100 mais pobres. Entre os primeiros, destacam-se os EUA com 10% ou a Espanha com 5,7% (mais da metade das usinas de dessalinização na Europa). Mas a maior concentração está no Golfo Pérsico: a Arábia Saudita, os Emirados Árabes, o Kuwait e o Catar respondem por um terço das instalações

O trabalho, publicado na Science of the Total Environment, também determina os usos que são dados à água dessalinizada, às fontes de origem ou às tecnologias utilizadas para torná-la potável. A maior parte da água (62,3%) é utilizada para consumo humano direto e outro terço para uso industrial, uma vez que muitos processos requerem água com baixa concentração de sais. Quase dois terços da água é obtida do mar e outro quarto da água salobra interna. A tecnologia dominante hoje é a osmose reversa, na qual a água é separada dos sais pelo uso de membranas. Quase 70% da água é obtida desta maneira. As outras principais tecnologias, com um quarto da água produzida, são térmicas, que utilizam processos de evaporação e condensação. 

O maior problema das usinas de dessalinização é, de acordo com este novo trabalho, a salmoura. Até agora, aceitava-se que, em termos globais, a taxa de conversão era próxima de 0,50. Ou seja, para produzir um litro de água potável, outro de salmoura foi gerado. A lógica é simples: se a concentração média de sal na água do mar for 30/35 gramas por litro e você retirar todo o sal, terá outro litro com 60/70 gramas de sal. 

A realidade que revela este estudo é muito diferente. Todos os dias, no mundo, as usinas de dessalinização geram 141,5 milhões de metros cúbicos de salmoura. É 50% mais do que se acreditava. No ano são cerca de 51.700 milhões de m3, o suficiente para cobrir a extensão da Espanha com uma fina camada de água hipersalina. Então, para produzir um litro de água potável, você tem que gerar 1,5 litros de salmoura. A distribuição geográfica da responsabilidade é muito desigual: 55% de toda essa salmoura é produzida na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes, no Kuwait e no Catar.  

No entanto, as plantas desses antigos países desérticos produzem apenas um terço da água. É verdade que os estados petrolíferos precisam de água dessalinizada para cobrir até 100% de suas necessidades, mas esse trabalho também revela sua enorme ineficiência para alcançá-lo. 

“Esses países precisam rever as estratégias para administrar a salmoura”, afirma em um email o diretor assistente do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU e co-autor do estudo, Manzoor Qadir. É urgente criar maiores esforços em investigação “para reduzir o volume de salmoura gerado, por exemplo, aumentando a eficiência do processo de dessalinização” e, por outro lado, “o tratamento e/ou usar a salmoura de uma forma economicamente viável e respeitosa do medo ambiental “, acrescenta. 

Deve-se notar que o artigo menciona dois estudos em que uma revisão exaustiva das técnicas, tecnologias e inovações recentes na gestão de salmoura foi feita; um desses estudos foi feito pelo professor José Morillo, da Universidade de Sevilha. Para Morillo, a chave é transformar a salmoura em uma oportunidade. “Nos 60 gramas de sais por litro, há o cloreto de sódio, mas também o lítio e o magnésio”, lembra ele.  

Tanto o magnésio como o lítio são metais altamente valorizados, especialmente no setor de tecnologia. A equipe deste professor, em colaboração com o professor Alfonso Caballero (Instituto de Ciência dos Materiais de Sevilha) e empresas como a Abengoa, realizou diferentes testes para recuperar minerais. São obras que estão em seus primórdios, mas, para frutificar, transformariam um problema em uma grande oportunidade. 

A margem para melhoria é enorme. Os países do Golfo foram os primeiros a instalar usinas de dessalinização há mais de meio século. Apoiados pelo petróleo barato, optaram por tecnologias térmicas, que utilizam energia para evaporar e condensar a água. Mas hoje eles foram ultrapassados ​​por outros sistemas. De acordo com especialistas do setor, um metro cúbico de água dessalinizada por processos térmicos usa 10 vezes mais energia do que uma planta de dessalinização por osmose inversa na Espanha. Embora a taxa de conversão também envolva a origem de água (do mar têm concentração de sal mais elevada do que em águas salobras) e não apenas a tecnologia, plantas no Médio Oriente têm taxas de conversão que raramente excedem 0,25, a metade do seu equivalente na Europa e até um décimo do valor obtido em algumas das plantas para uso industrial. 

Apesar do estudo não avaliar o impacto ambiental da salmoura, Qadir lembra, como diferentes estudos têm indicado, que “o aumento da salinidade e temperatura, devido a uma descarga da solução salina, pode provocar uma diminuição do teor de oxigénio dissolvido, o que é conhecido como hipóxia”. O grande problema é que, enquanto sistemas de dessalinização não cumprirem as normas rigorosas para reduzir esse “picles” alimentado pela água do mar, a única opção viável neste momento é retornar a água ao mar com o sal extra, com os riscos envolvidos para o meio ambiente. 

“Na Espanha, as espécies mais afetadas são a Posidonia oceanicaNodosa cymodea e Zostera noltii, que são plantas marinhas, algumas delas endêmicas do Mediterrâneo e protegidas”, diz o pesquisador do Instituto de Hidráulica Ambiental da Universidade de CantabriaInigo Losada, não relacionado ao estudo. “Há também algas e moluscos que podem ser afetados. Em geral, embora ela também pode afetar os peixes, eles costumam deixar a área de derramamento quando as condições não são adequadas”, acrescenta. Resta saber se, embora esses efeitos sejam locais, a grande quantidade de dessalinização e salmoura que produzem acabará se tornando um problema global. 

El País 

Reportagem de Miguel Ángel Criado 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS CRIADOS PELAS OLARIAS

Trabalho Infantil nas Olarias

Na última postagem falamos dos problemas ambientais criados pela extração da argila, matéria prima de toda uma gama de produtos da indústria cerâmica, que vão de peças usadas na construção civil até as panelas de barros e artesanatos de todos os tipos. Para detalharmos um pouco melhor todos esses impactos, vamos falar hoje das olarias, tradicionais unidades de produção de tijolos e telhas.

Conforme detalhamos na postagem anterior, a extração de argila causa uma série de problemas ambientais. A argila é formada por sedimentos finíssimos, erodidos de diversos tipos de rochas. Esses sedimentos se acumularam ao longo de milhões de anos em grandes depósitos, encontrados normalmente nas margens de rios, onde formam camadas com diversos metros de espessura.

Um dos primeiros impactos dessa mineração é a supressão da vegetação e a remoção da camada de solo fértil. A extração da argila é realizada normalmente de forma manual, em cavas com profundidades entre 2 e 4 metros. Com as chuvas e com a infiltração de água do lençol freático, essas cavas costumam ficar inundadas rapidamente, forçando a uma abertura sistemática de novas cavas. Essa água acumulada acaba sendo reaproveitada para uso nas olarias.

Sem a proteção da vegetação, os solos ficam expostos aos processos erosivos nas temporadas de chuva. A força das águas arrasta grandes volumes sedimentos para os rios, comprometendo a qualidade das águas e assoreando a calha de rios e riachos. Parte desses sedimentos acabam sendo carreados para o lençol freático, comprometendo a qualidade da água de poços que são usados para o abastecimento das populações – a esmagadora maioria das olarias fica em áreas rurais, onde não existem redes de abastecimento de água.

Tradicionalmente, as olarias são operadas por grupos familiares, que há várias gerações vem se dedicando a essa atividade. Os trabalhos começam com a extração e pré-processamento da argila. A mistura e a hidratação da argila normalmente são feitas em moendas movidas por tração animal, onde os sedimentos são trabalhados até se atingir o ponto ideal para a moldagem. A etapa seguinte é chamada popularmente de “batida do barro”, etapa em que a argila é moldada em formas de tijolos e de telhas. A argila também pode ser extrusada para a formação dos chamados “tijolos baianos” e das manilhas usadas em redes de esgotos. Esse trabalho é, frequentemente, feito pelas mulheres do grupo familiar, muitas vezes acompanhadas dos seus filhos. Esse trabalho infantil (vide foto), que vale lembrar é proibido por lei, tira as crianças da escola e compromete seus futuros.

As peças cerâmicas são colocadas para secar ao sol por alguns dias antes de serem levadas para os fornos, a lenha onde será feita a queima. De acordo com estudo realizado por pesquisadores da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a quantidade de lenha necessária para a queima de 1 milheiro de tijolos varia entre 2,2 e 3,2 m³, o que nos dá uma ideia do impacto ambiental em termos de desmatamento.

Os fornos usados nas olarias são feitos de tijolos, com paredes muito finas e sem uso de nenhum revestimento térmico (tijolos refratários, por exemplo). Essas paredes não conseguem reter o calor e ocorrem grandes perdas de energia térmica ao longo do processo da queima da cerâmica. Os fornos precisam ser alimentados continuamente a fim de se manter a temperatura ideal de queima, que se situa na faixa dos 900° C.

Além de necessitar de volumes substancias de lenha, essa perda de calor torna o ambiente de trabalho altamente insalubre. Os trabalhadores precisam alimentar continuamente os fornos sob altas temperaturas, ficando expostos à inalação de grandes quantidades de fumaça e cinzas, além de ficarem expostos a riscos de queimaduras e de quedas por causa do espaço confinado das áreas de queima de madeira. Um outro risco a que esses trabalhadores ficam expostos são as picadas de animais peçonhentos como aranhas, escorpiões e cobras, que costumam se esconder no meio das pilhas de lenha.

Como acontece com a produção de outros tipos de peças cerâmicas, as olarias também geram expressivos volumes de resíduos. As peças de argila moldadas são moles e podem sofrer distorções quando colocadas para secar ao sol. Se esse problema não for detectado antes da queima, o resultado final serão peças tortas e sem valor comercial. Outra fonte de resíduos são as peças que quebram ou trincam durante a queima. Esses resíduos costumam ser descartados sem maiores cerimonias em algum canto da área da olaria e passam a funcionar como abrigos para os animais peçonhentos que citamos acima.

A extração de lenha para uso nos fornos das pequenas olarias familiares é, normalmente, feita em remanescentes florestais, sem qualquer controle das autoridades ambientais. Nas olarias maiores e mais estruturadas, é mais comum o uso de lenha proveniente de plantações comerciais que realizam o reflorestamento. Em função do progressivo desmatamento, os carregamentos de lenha precisam vir de locais cada vez mais distantes e com custos cada vez mais altos, o que reduz progressivamente a margem de lucro das pequenas olarias, que cada vez mais perdem espaço e competitividade no mercado.

Um outro sério problema dessas olarias é a falta de infraestrutura das moradias. Normalmente, as famílias moram na mesma área onde funcionam as oficinas e convivem com todos os tipos de problemas ligados ao saneamento básico, como falta de água tratada e de sistemas de esgoto sanitário, além da falta de coleta de lixo. Outro problema grave, sobre o qual já falamos, é a exposição constante das pessoas à fumaça resultante da queima da lenha. Essa exposição pode provocar, a longo prazo, inúmeros problemas de saúde, especialmente nas crianças e nos idosos.

Além de toda essa gama de problemas, essas pequenas olarias costumam ser empresas informais, onde os trabalhadores não contam com um registro formal de trabalho e onde não há o recolhimento das obrigações trabalhistas previstas em lei (como o FGTS – Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social, PIS – Programa de Integração Social, entre outros), além de benefícios como plano de saúde. Em casos de acidentes de trabalho, doença ou impossibilidade de continuar trabalhando devido ao avanço da idade, esses trabalhadores viram verdadeiros “órfãos sociais”.

Sustentabilidade, como todos sabemos, é o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental. As pequenas olarias, como não é difícil de se perceber, estão longe disso.

CERÂMICA: UM DOS PRODUTOS INDUSTRIAIS MAIS ANTIGOS DA HUMANIDADE

Ceramista

A produção de peças em cerâmica foi, ao lado da fabricação de ferramentas e utensílios em pedra lascada, uma das primeiras atividades de produção “industrial” da humanidade. A queima acidental da argila nas fogueiras dos caçadores-coletores pré-históricos foi, muito provavelmente, o embrião dessa marcante tecnologia. Não tardou a se iniciarem a produção de vasos, cuias, jarras, panelas, ídolos e imagens religiosas, materiais de construção e mais uma infinidade de outros objetos, modelados conforme a vontade do seu criador e depois queimados em fogueiras. A palavra cerâmica vem do grego “kéramos” e significa, literalmente, “terra queimada.” 

Um antigo ditado nordestino afirma com muita sabedoria: “O primeiro artesão foi Deus que, depois de criar o mundo, pegou o barro e fez Adão.” 

Sem nos perdermos em longas descrições históricas, a produção da cerâmica continua muito viva e presente em muitos objetos e materiais que utilizamos em nosso dia a dia. Um grande exemplo são diversos materiais construtivos como telhas, pisos e tijolos “baianos” usados na construção de nossos lares, que são modelados em argila amolecida em água e depois passam por um processo de queima em forno até que atinjam a forma e a resistência adequada para o uso. Materiais e técnicas semelhantes também produzem os vasos sanitários, as cubas e tampos de uma infinidade de modelos de pias. 

O que talvez você não saiba é que a produção dos diversos tipos de cerâmicas causa grandes problemas ambientais como a contaminação de cursos d’agua, desmatamentos e queima de lenha nos fornos, destruição de áreas agrícolas, alto consumo de energia elétrica e de água, geração de resíduos e rejeitos, riscos de acidentes de trabalho, ocupação informal com longas jornadas de trabalho, entre outros problemas. Como a produção de produtos cerâmicos está espalhada pelos quatro cantos do país, todas essas agressões ambientais são difusas e difíceis de serem percebidas sem maiores esforços. 

O Brasil figura na lista dos maiores produtores de cerâmica do mundo, ao lado de Espanha, Itália e China. Um exemplo da importância dessa atividade no país são os revestimentos cerâmicos, onde se incluem as cerâmicas para piso, parede, fachadas e porcelanatos. O Brasil é o segundo maior produtor mundial, ficando somente atrás da China. De acordo com dados da ANICER – Associação Nacional da Indústria Cerâmica, foram produzidos cerca de 753 milhões de m² de peças (dados de 2010). Existem cerca de 100 indústrias dedicadas a esse segmento, com fábricas em 18 Estados do Brasil. São Paulo e Santa Catarina concentram 80% dessas indústrias

Já o segmento da cerâmica vermelha, formado basicamente por indústrias pequenas e familiares, é formado por aproximadamente 5.500 empresas pulverizadas por todo o território nacional. Juntas, essas empresas produzem cerca de 76 bilhões de peças cerâmicas, principalmente telhas, tijolos, blocos, manilhas e lajotas, na área dos materiais de construção, além de vasos, panelas e vasilhames, imagens sacras e artesanato em geral, materiais vendidos nos mercados regionais

Os diversos tipos de argila, sedimentos muitos finos que formam a matéria prima da cerâmica, são encontrados facilmente em todo o território brasileiro. As argilas são formadas por fragmentos de rochas com partículas com diâmetros inferiores a 4 mícron, encontradas normalmente nas margens dos rios, onde formam os chamados barrancos. Dependendo da origem dos minerais, as argilas apresentam cores diferentes como vermelha (a mais comum), branca, amarela, verde, entre outras. De acordo com dados do Ministério das Minas e Energia, existem aproximadamente 417 minas de argila em operação no Brasil, com uma produção individual entre 1.000 e 20 mil toneladas/mês, sem se considerar a extração feita pelas pequenas empresas familiares e pelos artesãos

Os impactos da produção das cerâmicas começam com a retirada da matéria prima no meio ambiente, o que exige a remoção da vegetação e da camada superficial do solo fértil. A escavação dos solos para a retirada da argila produz alterações significativas na topografia dos terrenos, o que normalmente vai favorecer os processos erosivos e a contaminação e o comprometimento da qualidade dos corpos d’água, assoreamento da calha de rios, além dos impactos diretos na fauna local devido ao barulho e à movimentação de máquinas. A remoção das camadas de solo fértil vai impedir a regeneração da vegetação. 

No processamento da argila, grandes quantidades de energia elétrica são necessárias nos processos de moagem, dosagem e alimentação, controle de umidade, desintegração e laminação, conformação (extrusão das peças e corte) e, por fim, o tratamento térmico (secagem e sinterização). Parte desses processos também demandam grandes quantidades de água. Por fim, as peças precisam passar pelo processo de queima, onde diferentes fontes de energia térmica são utilizadas. A maior parte das indústrias utilizam o gás natural, um combustível fóssil que gera emissões de gases poluentes. Em regiões onde não existe o fornecimento do gás natural, as indústrias utilizam combustíveis derivados do petróleo como o óleo diesel, altamente poluente da atmosfera.  

Em indústrias menores, oficinas familiares e em ateliês artísticos espalhados por todo o Brasil, a queima da cerâmica é feita em fornos a lenha, o que incentiva o desmatamento de áreas florestais. No total, as indústrias de produtos cerâmicos são responsáveis pelo consumo de 3,8% de toda a energia consumida no país, somando-se a energia elétrica e a energia térmica, e por 7,7% do consumo energético industrial. São valores bastante significativos

Por fim e não menos importante, é a grande produção de resíduos. Durante o processo de moldagem e secagem, quando a argila ainda está mole, algumas peças sofrem deformações, problemas que muitas vezes só é detectado após a queima. Outro problema são as peças que sofrem danos como trincas e rachaduras durante a queima. Essas peças não podem ser reaproveitas e são descartadas como resíduos. Caso não haja um descarte adequado, muitas dessas peças passam a acumular a água das chuvas, transformando-se em verdadeiros criadouros de mosquitos como o perigoso Aedes Aegypti. 

Como se nota, não são apenas as grandes indústrias de segmentos como o do petróleo, da metalmecânica e da química, que produzem os grandes impactos ambientais. Aquele vaso de plantas que você comprou ou as telhas da sua casa, podem ter causado um grande estrago ao meio ambiente. 

OS GRAVES PROBLEMAS NO DISTRITO AREEIRO DE SEROPÉDICA-ITAGUAÍ

Extração ilegal de areia em Seropédica

Nas duas últimas postagens, falamos dos problemas criados pela extração de areia e de brita, duas matérias primas essenciais para a indústria da construção civil. Normalmente, as áreas onde esses minerais e sedimentos são extraídos ficam bem próximos dos centros urbanos consumidores. É frequente o abandono das áreas de mineração pelas empresas logo após o esgotamento dos recursos – grandes crateras das antigas cavas de areia e das áreas de extração de pedra inundam e criam todos os tipos de riscos para a população, que costuma usar essas áreas para o lazer, e também para o meio ambiente. 

Para entendermos melhor os impactos dessa mineração no meio ambiente, vamos mostrar um exemplo prático – o caso do Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, um dos maiores do Brasil. 

Seropédica e Itaguaí são dois municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distantes cerca de 60 km do centro da capital do Estado. Até 1995, eles formavam um único município – Itaguaí; o distrito de Seropédica foi então desmembrado, passando a constituir um município independente. Entre esses dois municípios encontramos o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, que ocupa uma área com aproximadamente 50 km², onde operam cerca de 100 empresas mineradoras, que fornecem quase 90% da areia e da brita usada pela construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Até a década de 1960, a economia dessa região tinha como base a agricultura, com destaque especial para a produção de laranjas. Com o crescimento das atividades de mineração, a agricultura foi perdendo relevância e a produção mineral passou a responder pela maior parte das receitas desses municípios. Esse crescimento descontrolado da mineração passou a criar uma série de problemas ambientais, sentidos especialmente nos recursos hídricos. 

O aquífero Piranema ocupa uma área de aproximadamente 180 km² (algumas fontes chegam a falar de 500 km²) entre os municípios de Itaguaí, Queimados, Japeri e Seropédica. Esse aquífero tem capacidade de fornecer até 1,6 m³ de água por segundo e tem como principal área de ocorrência o Distrito Areeiro. De acordo com estudos geológicos, o aquífero Piranema é uma reserva estratégica de água e tem potencial para atender o abastecimento de água de toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro por um mês.  

As cavas de extração de areia ficam inundadas com as águas do aquífero Piranema e assim ficam expostas ao contato com diversos poluentes, entre eles os combustíveis que vazam das bombas de sucção instaladas nas dragas e também pelos diversos rejeitos de mineração. Esses poluentes provocam uma deterioração na qualidade das águas, que são sentidas por moradores de diversos bairros vizinhos, que dependem exclusivamente da água retirada de poços para o abastecimento de suas casas. 

Outro foco de preocupação são os altos riscos de contaminação do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Conforme já tratamos em diversas postagens deste blog, a cidade do Rio de Janeiro sempre sofreu com problemas de escassez de água ao longo de sua história. Essa situação só mudaria em 1905 com a chegada da empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company. Na época, a Capital Federal tinha uma população maior que 800 mil habitantes e já havia uma forte demanda reprimida de eletricidade – experiências anteriores de geração em usinas termelétricas a carvão não foram bem-sucedidas. 

Após obter a concessão para operar no Rio de Janeiro em 1905, a Light iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lajes e da Usina de Fontes, inauguradas em 1908. Até a década de 1950, a Light realizou diversas obras visando aumentar sua capacidade geradora, inaugurando novos reservatórios, usinas e, especialmente, estações de bombeamento que captavam água da bacia do Rio Paraíba do Sul e, após a passagem por diversos grupos geradores de eletricidade, eram lançadas na bacia do Rio Guandu. Graças à todas essas obras de engenharia, a vazão do Rio Guandu passou dos históricos 25 m³/s para até 160 m³/s, passando a responder por 80% do abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro e de grande parte da Baixada Fluminense.  

Apesar de toda a sua importância, a bacia hidrográfica do Rio Guandu não recebeu a atenção necessária para a sua preservação ambiental.  As cidades cresceram sem planejamento e sem contar com sistemas de coleta e tratamento de esgotos – grandes volumes de esgoto in natura passaram a ser despejados diretamente nos rios. Também houve a má gestão da coleta do lixo e resíduos sólidos, com despejo inadequado em lixões a céu aberto e risco de contaminação da água com chorume e lixo. O desmatamento e ocupação irregular de margens, além do carreamento anual de milhares toneladas de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas para as águas completam o quadro de problemas ambientais. Calcula-se que a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba aproximadamente 4 bilhões de litros de esgotos todos os dias. 

O Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí está inserido dentro da bacia hidrográfica do rio Guandu e a intensa retirada de areia e brita acabou se transformando em mais um fator de poluição das águas. As atividades de mineração destroem grandes extensões de matas, expondo os solos a processos erosivos. Quando chega a temporada das chuvas, grandes volumes de sedimentos e rejeitos minerais são arrastados para a calha do rio, degradando ainda mais as já sofridas águas do rio Guandu. 

Além de todos os problemas que seriam considerados normais em atividades de extração de areia e produção de brita, o Distrito Areeiro também convive com um grande número de cavas de areia e minas de extração e produção de britas ilegais. Denúncias de esquemas de corrupção envolvendo autoridades locais e fiscais dos órgãos ambientais são frequentes, porém nunca chegam ao final esperado. 

Enquanto nenhuma providência real é tomada para controlar os problemas ambientais, a destruição corre solta no Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí. E como sempre acontece, a sociedade inteira vai acabar pagando pelo lucro de um pequeno grupo de empresários… 

AS PEDREIRAS ABANDONADAS E SEU USO PARA A CRIAÇÃO DE ESPAÇOS DE LAZER E CULTURA

Pedreira do Dib

Na última postagem tratamos dos problemas criados pela extração de areia nas proximidades das áreas urbanas do país. São centenas e mais centenas de cavas que, depois de esgotadas as reservas de sedimentos, são abandonadas sem que os responsáveis pela mineração realizem qualquer trabalho de recuperação ambiental. Essas cavas abandonadas criam inúmeros problemas ambientais, que vão da destruição de rios e cursos d’água ao afogamento de banhistas que buscam alguns momentos de lazer nos lagos formados pelas chuvas e águas do lençol freático. 

A areia é uma matéria prima essencial para a construção civil, onde é usada na preparação de argamassa para o assentamento de tijolos e blocos, chapisco e reboco de paredes, além de entrar na formulação do concreto. É justamente nessa composição que uma outra matéria prima essencial se faz necessária – a brita, pedras trituradas em medidas adequadas, que combinadas com a areia e o cimento, além do uso de barras de ferro e aço. formam o material estrutural mais usado em nosso país – o concreto armado. Outra aplicação das britas ou pedras britadas é a formação do lastro de ruas, avenidas e rodovias, acima do qual será feita a pavimentação. Também são usadas como base para o assentamento de trilhos de ferrovias, na construção de túneis e barragens, entre outras importantes aplicações. 

As britas são o resultado da fragmentação de rochas duras como o granito, gnaisse, basalto e calcário. Grandes formações dessas rochas são desmontadas por meio de explosões, o que reduz o tamanho das rochas. Para ficar no tamanho e no formato adequado para as diversas aplicações na construção civil, as pedras passam por processos de trituração em máquinas, conhecido como britagem, e também por processos de peneiramento. Ao final dos processos são produzidos o pó de brita e as pedras britadas em tamanhos que vão do 0 ao 4, específicos para diversos tipos de aplicações. 

De acordo com dados da ANEPAC – Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção, o consumo per capita de brita no Brasil corresponde a 1,5 tonelada por habitante a cada ano. Todo esse volume de brita terá como destino a construção de casas e edifícios, além de toda uma gama de obras de infraestrutura. Apesar de toda a sua importância para as nossas sociedades, a exploração e a produção da brita causa uma série de problemas ambientais, muito parecidos com aqueles criados pela exploração da areia. 

As fontes naturais para a exploração de pedras para a produção de brita são os afloramentos rochosos localizadas nas cercanias dos grandes centros urbanos. As empresas produtoras de agregados para a construção sempre buscam locais de fácil acesso para a instalação de suas pedreiras e das unidades de processamento das pedras, buscando assim reduzir os custos de transporte. Na cidade de São Paulo, a famosa Serra da Cantareira abrigou diversas pedreiras, que, por várias décadas, forneceram a brita que ajudou a construir a cidade. Uma dessas pedreiras, desativada há mais de 30 anos, fica localizada no município de Mairiporã e é conhecida como Pedreira do Dib (vide foto). 

Ocupando uma área com mais de 44 mil m², a Pedreira do Dib seguiu um roteiro bastante conhecido por esse tipo de atividade – após décadas de extração e fornecimento de pedras para a construção civil, o local foi subitamente abandonado. As antigas encostas da Serra da Cantareira, que eram cobertas por uma densa vegetação de Mata Atlântica, foram transformadas em áridos paredões de rocha estéril; no centro da área, uma gigantesca cratera com dezenas de metros de profundidade e que acabou transformada em um lago. 

O clima de abandono na Pedreira do Dib começou a mudar quando grupos de escaladores começaram a se aventurar nos paredões, alguns com mais de 100 metros de altura. Atualmente, a Pedreira possui mais de 50 trilhas para escalada, com diferentes graus de dificuldade para alpinistas de todos os níveis. As áreas no entorno da lagoa também atraem inúmeros grupos de visitantes, que passam ali seus momentos de lazer, intercalando banhos na lagoa com a preparação de churrascos. Infraestrutura e segurança, nenhuma.

Outro exemplo de pedreira abandonada, essa dentro do município de São Paulo é a Pedreira do Morro Grande, também conhecida como Anhanguera, localizada na Zona Norte da cidade. O Morro Grande é um pequeno serrote que se desgarrou do macio da Cantareira. Abandonada desde os anos de 1980 após a falência da empresa controladora, essa área foi largada ao “Deus dará” sem que nenhum tipo de recuperação ambiental fosse levado a cabo. Diferente da Pedreira do Dib, há uma remota chance da prefeitura de São Paulo transformar o local em um parque urbano. 

Em todas as regiões do Brasil é comum se encontrar pedreiras e cavas de areia abandonadas, onde profundas lagoas se formaram. As populações que vivem nas proximidades costumam transformar os locais em áreas de lazer improvisadas, onde são comuns os casos de afogamentos. Algumas dessas lagoas, que podem ter profundidades de mais de 40 metros, facilmente podem se transformar em verdadeiras armadilhas para os nadadores. A água parada dessas lagoas também apresenta riscos para a saúde das populações – suas águas podem ser transformadas em criadouros de mosquitos como o perigosa Aedes Aegypti. Muitas vezes, esses locais acabam sendo transformados em áreas de descarte de lixo e de entulhos da construção, problemas que podem levar à contaminação do lençol freático e poluir a água de poços usados pela população.

Felizmente, existem algumas exceções e as áreas abandonadas de algumas pedreiras foram transformadas em áreas de lazer e cultura para as populações. Em Curitiba, temos o exemplo do Parque das Pedreiras, onde a prefeitura da cidade criou o Espaço Cultural Paulo Leminski e a Ópera de Arame. Ainda em Curitiba temos a Universidade Livre do Meio Ambiente. Essa antiga pedreira ficava em uma área isolada da cidade. O projeto de recuperação ambiental implantado na área foi focado na formação de lagos e na integração das instalações da universidade aos diferentes níveis do solo. 

Um outro exemplo, esse bem perto da cidade de São Paulo é o Parque Francisco Rizzo, da cidade de Embu. Na área desta antiga pedreira foram criados viveiros de mudas, um centro de eventos e convenções, um núcleo de educação ambiental, playgrounds, quadras, anfiteatro, além de áreas para a recuperação das matas nativas. Esses exemplos mostram que é possível reutilizar as pedreiras abandonadas com a criação espaços de lazer seguros para a população. Aliás, as próprias empresas que exploraram o local deveriam ser as responsáveis pela criação desses espaços, numa forma de compensação ambiental. 

Fica a proposta.

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OS PROBLEMAS CRIADOS PELA EXTRAÇÃO DA AREIA USADA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Extração Ilegal de areia

O Parque do Ibirapuera é a mais famosa área verde da cidade de São Paulo, apesar de estar muito longe de ser a maior – o Parque Anhanguera, na Zona Norte da cidade, tem 9,5 milhões de m² e ocupa a primeira posição nesse ranking. Com menos de 2 km² de superfície, o Parque do Ibirapuera concentra matas, lagos, museus, planetário e muitas trilhas e pistas para pedestres e ciclistas. A área conhecida como Marquise do Ibirapuera, é um tradicional ponto de encontro de várias “tribos” urbanas. Com mais de 14 milhões de visitantes/ano, o Parque do Ibirapuera é o mais visitado e fotografado da América Latina. 

Esse grande orgulho paulistano surgiu em consequência de um verdadeiro “desastre” ambiental: os antigos terrenos alagadiços do Ibirapuera forneceram, durante décadas, parte da areia usada na construção civil da cidade. Na década de 1950, a Prefeitura da cidade resolveu transformar a região num parque urbano e grandes lagos foram incluídos no projeto, aproveitando assim as grandes crateras que foram deixadas pelas cavas de areia. Outros exemplos de cavas de areia dentro da cidade de São Paulo que puderam ser “reaproveitadas” são a Raia Olímpica da USP – Universidade de São Paulo, na Zona Oeste, e o Parque Cidade de Toronto, na Zona Noroeste. 

Infelizmente, casos onde antigas áreas de extração de areia foram reaproveitadas para outros usos são uma exceção. Normalmente, os chamados “areeiros” exploram os depósitos desse sedimento até o esgotamento, abandonando os solos devastados e as cavas inundadas à sua própria sorte (vide foto), sem realizar nenhum processo de recuperação ambiental, conforme está previsto na legislação ambiental. 

A areia é um tipo de sedimento formado por partículas de rochas degradadas, com tamanho entre 0,06 e 2 mm, encontrado principalmente em margens de rios, áreas alagáveis e em praias. É uma matéria prima essencial para a construção civil, onde é usada para preparação de massa para assentamento de tijolos e blocos, para o chapisco e reboco de paredes, além da preparação do concreto. Somente as chamadas “areias de rios” são recomendadas para uso na construção civil – a areia de praia costuma conter grandes quantidades de carbonato de cálcio, um mineral solúvel em água e que, se usado, vai proporcionar elementos construtivos de baixa resistência; o sal presente na areia de praia também atua como um corrosivo das ferragens usadas na armadura do concreto, reduzindo a sua durabilidade.  

Um exemplo dos problemas criados pelo uso de areia de praia na construção civil foi o desabamento do edifício Palace II, no Rio de Janeiro, em 1998. Entre outros problemas de projeto e de construção, a perícia realizada nos escombros encontrou vestígios de areia de praia em partes do concreto usado na obra. Um primeiro desabamento, ocorrido no dia 22 de fevereiro, destruiu 44 apartamentos, matando 8 pessoas. Cinco dias depois houve um segundo desabamento, onde mais 22 apartamentos foram destruídos. No dia 28 de fevereiro, por razões de segurança, a estrutura remanescente do edifício foi implodida. 

A extração de areia para a construção civil é um problema recorrente em todo o Brasil – todas as cidades precisam dessa matéria prima. O país consome perto de 500 milhões de toneladas de areia a cada ano. Grande parte das cavas é feita de maneira clandestina, sem contar com um projeto de licenciamento ambiental. Um estudo feito pelo Ministério Público de São Paulo em 2014 nos dá uma ideia do tamanho desse problema: 93% das cavas de extração de areia no Vale do Rio Paraíba, região no Leste do Estado, apresentavam irregularidades, especialmente quando aos limites da área de exploração. O Vale do Paraíba fornece a maior parte da areia consumida nas Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas

Os problemas da extração da areia começam com a remoção da mata das margens dos rios, matas essas que funcionam como uma barreira contra a entrada de sedimentos e lixo na calha do rio, protegendo a qualidade das águas. Essa vegetação marginal também tem um importante papel ecológico para as espécies que vivem nas águas dos rios – elas ajudam a formar pequenas lagoas e áreas de remanso, protegidas da correnteza, onde as espécies aquáticas – peixes, anfíbios, répteis e até mesmo aves, se reproduzem. As espécies se valem, conforme sua própria fisiologia, das raízes submersas, das áreas de solo protegidas pela vegetação e dos altos galhos dos arbustos e das árvores.  

A destruição das matas e a escavação das áreas nas margens altera completamente o ciclo de vida destas espécies e, pior, o assoreamento que é provocado na calha do rio, entre outros gravíssimos problemas, soterra as comunidades bênticas ou bentônicas do fundo rio – nestas comunidades vivem plantas, vermes, moluscos e crustáceos de tamanhos variados (a maioria muito pequena e microscópica). Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar (também chamada de cadeia trófica) do rio e sustentam todas as formas de vida superiores – inclusive a dos seres humanos (especialmente os ribeirinhos) que se alimentam com os peixes pescados no rio. 

Outro problema das cavas abandonadas é a formação de lagoas devido ao acúmulo da água das chuvas ou pela drenagem de água do lençol freático. Essas lagoas acabam sendo transformadas em “áreas de lazer” pelas comunidades que vivem nas suas proximidades. Todos os anos, centenas de pessoas, especialmente jovens e adolescentes, morrem afogados ao nadar nessas lagoas, locais que costumam ter dezenas de metros de profundidade. A precariedade ou, simplesmente, a falta de opções de lazer nessas comunidades transforma essas lagoas em atrações irresistíveis nos dias quentes de verão. 

A extração de areia é a atividade de mineração que está mais próxima de todos nós e um ótimo exemplo dos impactos negativos da mineração no meio ambiente. É preciso que as autoridades fiscalizem de perto essas atividades e que exijam o cumprimento da legislação ambiental, especialmente no que tange à recuperação das áreas degradadas após o esgotamento das reservas. Outro ponto a ser trabalhado é a reciclagem da areia a partir do aproveitamento da grande quantidade de entulhos gerados pela construção civil. 

As fontes de água, como vimos, são as grandes vítimas da exploração descontrolada da areia – são inúmeros os rios que já tiveram as suas calhas assoreadas e destruídas devido a extração descontrolada de areia. Sem dispor de fontes de água para o abastecimento das populações, não faz muito sentido se gastar recursos, energia e matérias primas construindo mais casas e prédios nas cidades… 

O POLÊMICO PROJETO DA MINA CARMICHAEL NA AUSTRÁLIA

Grande Barreira de Coral

No início deste mês de fevereiro, a Justiça da Austrália proferiu a sentença final no processo de liberação da Mina Carmichael – por representar grandes riscos ao meio ambiente, o grande e polêmico projeto de mineração de carvão foi proibido, encerrando uma disputa que vinha se desenrolando desde 2015. Em sua sentença, o juiz responsável pelo caso, Sir Brian Preston, ainda escreveu: 

“A construção e operação da mina, e o transporte e a combustão do carvão da mina, resultarão na emissão de gases causadores do efeito estufa, o que contribuirá para mudanças climáticas” 

Em meio a tantos problemas ambientais criados por projetos de mineração em todo o mundo, essa decisão da Justiça australiana pode marcar um ponto de inflexão. Vamos entender o processo: 

Em 2014, as autoridades do Governo Central da Austrália e do Estado de Queensland haviam aprovado a implantação de um grande projeto de mineração de carvão encabeçado pela mineradora indiana Adani. O projeto, batizado de Mina Carmichael, previa a produção de 60 milhões de toneladas de carvão térmico por ano, a construção de uma ferrovia com 189 km, além da ampliação de um porto de carvão em Abbot Point. Havia a expectativa de criação de 10 mil empregos diretos e indiretos. O total de investimentos previstos era de 16,5 bilhões de dólares australianos, o equivalente a 11 bilhões de Euros. Após uma verdadeira chuva de processos movidos por ambientalistas, ONGs e população em geral, a Justiça australiana suspendeu a implantação do projeto. 

O principal argumento contra a instalação da Mina Carmichael eram os eminentes riscos de contaminação do oceano numa região próxima da Grande Barreira de Coral, um dos maiores e mais importantes ecossistemas marinhos do mundo. Outro ponto levantado pelos opositores do projeto são as grandes emissões de gases de efeito estufa liberadas pela queima do carvão e suas consequências ao meio ambiente. Um argumento interessante que foi usado na demanda judicial foram as responsabilidades difusas da Austrália como fornecedora desse carvão mineral, que seria utilizado em diferentes lugares do mundo: o país seria uma espécie de corresponsável por essas emissões de gases poluentes por terceiros. Também pesou na decisão o histórico de problemas ambientais nos projetos de mineração da Adani em outras partes do mundo. 

A Grande Barreira de Coral tem aproximadamente 2 mil km, se estendendo entre o Leste da Austrália e a ilha de Papua-Nova Guiné. Com uma largura que varia de 30 a 740 km, a formação possui o maior agrupamento de corais do mundo – cerca de 400 espécies, distribuídas em cerca de 2.900 recifes, 600 ilhas continentais e 300 atóis de coral. Cerca de 1.500 espécies de peixes, 4 mil variedades de moluscos, entre outras inúmeras espécies marinhas vivem nesse habitat (vide foto), que desde 1981 passou a ser considerada como Patrimônio Mundial da UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. 

Desde a década de 1990, as formações de coral vêm sofrendo um processo de branqueamento, uma anomalia provocada pela perda de pigmentos e de algas associadas aos tecidos dos corais. As razões apontadas como as causadoras desse branqueamento são o aquecimento anormal das águas do oceano e a poluição marítima. Estudos realizados em 2016 pela Universidade James Cook da Austrália, indicaram que cerca de um terço dos corais estavam mortos ou morrendo, colocando a Grande Barreira de Coral na lista dos ecossistemas em maior risco no mundo. Expor uma região que já convive com tal nível de stress às ameaças de poluição com resíduos de carvão mineral seria algo inadmissível, um argumento finalmente aceito pela Justiça da Austrália. 

As atividades mineradoras representam aproximadamente 6% do PIB – Produto Interno Bruto, da Austrália, gerando cerca de 300 mil empregos diretos e indiretos. Os primeiros achados minerais no país ocorreram na década de 1840, quando jazidas de prata e cobre foram descobertas na região Sul. Essas descobertas estimularam a imigração de mineiros e metalurgistas de outras partes do Império Britânico. Estima-se que metade do ouro produzido no mundo na década de 1850 veio de minas da Austrália. Sucessivas descobertas de depósitos de minério de ferro, carvão mineral e chumbo, entre outros minerais, só fizeram aumentar a importância da mineração na “Grande Ilha”. 

Nos dias atuais, a Austrália responde por 35% das exportações mundiais de carvão; é o terceiro maior produtor mundial de minério de ferro, com uma produção anual superior a 350 milhões de toneladas métricas, além de ser a maior produtora de bauxita, matéria prima do alumínio. O país ocupa também a posição de 2° maior produtor de níquel e responde por cerca de 11% da produção mundial de urânio, entre outros importantes minérios e metais. Os principais compradores dos bens minerais australianos são os países do Sudeste Asiático, com destaques para a China, Japão e Coreia do Sul. 

A atual produção de carvão mineral na Austrália está na casa dos 260 milhões de toneladas métricas anuais. Cerca de 85% da energia elétrica gerada no país vem de usinas termelétricas a carvão, o que demonstra a importância desse combustível fóssil para a economia interna do país. Após a decisão judicial do caso das Minas Carmichael ser divulgada, as autoridades do Governo Central da Austrália se apressaram em divulgar nota oficial, esclarecendo que aquela decisão não afetaria o restante da mineração no país, um posicionamento que trouxe algum alívio para os assustados empresários do setor. Em uma entrevista coletiva, um alto funcionário do Governo lamentou a decisão e afirmou, ironicamente, “que o país estava sofrendo uma grande perda e que os investimentos que seriam realizados na Austrália agora serão redirecionados para outros lugares do mundo”

O carvão é um dos mais importantes combustíveis do planeta, com uso intensivo em atividades industriais e em usinas termelétricas – cerca de 40% da energia elétrica usada no mundo é gerada a partir do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas/ano. Projeções econômicas indicam que, dentro de poucos anos, o uso do carvão deverá superar o uso dos combustíveis derivados de petróleo, o que não é uma das melhores notícias para o meio ambiente. 

Abolir totalmente o uso de combustíveis fósseis como o carvão, apesar da justificável pressão de muitos segmentos de nossas sociedades, é algo que só será possível a longo prazo, quando fontes alternativas de energia atinjam melhores patamares tecnológicos e tenham preços mais baixos. Enquanto isso, essa decisão da Justiça da Austrália merece ser comemorada – já que não podemos evitar a continuidade das atividades de mineração como a do carvão, pelo menos é possível evitar que ela seja feita de forma predatória e perigosa nas proximidades de ecossistemas sensíveis como a Grande Barreira de Coral Australiana. 

Essa é uma ideia que precisa ser perseguida por muitos países, especialmente por nós aqui no Brasil.