Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

A DESASTROSA EXPEDIÇÃO DE PEDRO DE URSÚA PELO RIO AMAZONAS EM 1559

Lope de Aguirre

De acordo com o Tratado de Tordesilhas, assinado entre os Reinos de Portugal e de Castela em 1494, a maior parte da Amazônia pertenceria à Espanha. Para a felicidade de todos nós brasileiros, os espanhóis organizaram duas grandes expedições desastrosas na região – a primeira sob o comando de Francisco de Orellana; a segunda sob o comando de Pedro de Ursúa. Lutas internas entre os espanhóis, doenças, ataques de índios, assassinatos e também a força implacável da Floresta Amazônica contra os invasores, levou a Espanha a desistir da posse dessa grande região, que hoje tem mais de 60% de seus domínios dentro do território do Brasil. Vamos entender um pouco dessa segunda expedição: 

A segunda grande expedição espanhola ao Amazonas foi comandada por Pedro de Ursúa (1525-1561), que partiu de Lima em fevereiro de 1559, ainda sonhando encontrar o El Dorado. Esta expedição enfrentou os mesmos problemas da anterior, mas ela fracassou justamente por reveses de outra natureza: traição e assassinato.  

Pedro de Ursúa não se parecia em nada com os brutais conquistadores da época. Era considerado gentil, educado, honrado, perfeito cavalheiro, possuidor de gentileza e caráter, adorado por todos, além de ser jovem. Mas, por outro lado, não tinha a capacidade de ver e entender o verdadeiro caráter das pessoas. Essa falha foi fatal para ele. Sua tropa era formada por homens rudes, mercenários de toda sorte, onde a ganância era a principal marca. Entre esses homens, um se destacava com todas as piores qualidades: Lope de Aguirre 

Aguirre, que era basco, recebeu o apelido de “el lobo”. Os conquistadores espanhóis não depositavam muita confiança nos bascos, grupo que sempre se comportou a parte em relação aos demais grupos formadores da Espanha e parecia não se esforçar muito para todas “las glorias de España”. A língua basca é totalmente incompreensível aos ouvidos castelhanos – um antigo provérbio espanhol dizia: “Quando Deus quis castigar o Demônio, condenou-o a estudar basco durante sete anos.” Porém, a necessidade de homens e armas para levar “al fin y al cabo” a conquista da América, fazia com que os espanhóis fizessem vista grossa aos tipos de caráter dos mais duvidosos.  

A ficha corrida de Lope de Aguirre faria inveja a qualquer meliante de carreira, frequentador das páginas dos jornais e dos programas policiais: primeiro emprego – ladrão de túmulos; foi condenado diversas vezes por fraude; mercenário, lutou em muitas das batalhas pela conquista dos novos territórios; tomou várias cidades a força; foi condenado diversas vezes por crimes de toda ordem. Em uma destas condenações, levou cem chibatadas nas costas; sobre os ferimentos foi colocado sal – Aguirre ficou aleijado para sempre e jurou a todos que se vingaria. Em outra expedição contra índios, acabou também aleijado de uma das mãos. Era um tipo de pessoa que não se deveria ter por perto, mesmo num tempo tão duro como foi o início da conquista das Américas e da Amazônia.  

Uma expedição com um líder fraco e com homens tão terríveis, não poderia obter maiores êxitos. Ao longo de vários meses, motins de toda ordem levaram a uma sucessão de assassinatos, inclusive o de Pedro de Ursúa, morto na noite de ano novo de 1561. Mas do que a fome, os ataques de índios e toda a sorte de problemas que a floresta fosse capaz de produzir, o maior risco para este punhado de aventureiros espanhóis eram os próprios espanhóis – “a expedição não foi de geografia, mas de carnificina”, registrou um cronista da época. A aventura, agora comandada por Aguirre, terminou pouco mais de dois anos depois, com a expedição chegando primeiro ao Atlântico e depois até a Isla Margarida, na Venezuela.  

Há dúvidas históricas com relação ao ponto de chegada, se foi na foz do rio Amazonas ou do rio Orenoco, na Venezuela (há uma ligação natural entre as duas bacias hidrográficas – o Canal de Cassiquiare, que liga o rio Negro ao rio Orenoco); durante muito tempo os rios Amazonas e Negro foram chamados de Marañón. Uma pesquisa histórica detalhada do estudioso peruano Emiliano Jos, publicada em 1923 (e que, bem por acaso, eu tenho uma cópia), confirmou que a expedição seguiu até a foz do rio Amazonas:  

En consecuencia, terminaremos afirmando de acuerdo com todos los cronistas del viaje, y com todos los documentos a él referentes, y com el jefe de la expedicón, y em contra de todos los fantaseadores sobre su trayectoria, que los “marañones” alcanzaron el mar por la boca del Amazonas”.

Segundo as informações disponíveis, tanto a expedição de Francisco de Orellana quanto aquela de Lope de Aguirre, fizeram a descida dos rios da Bacia Amazônica utilizando um tipo de embarcação espanhola conhecida como bergantim. Normalmente, esse tipo de embarcação se assemelhava a uma galé, porém em tamanho menor, com dois mastros e linhas de remos nas laterais. Essas expedições sempre contavam com carpinteiros com experiência em construção naval e com ferramentas, permitindo que se construíssem as embarcações com matéria prima da região quando se fizesse necessário. Segundo os registros das duas expedições que sobreviveram ao tempo, as embarcações foram construídas com o madeiramento das laterais mais elevados que o normal para proteger os ocupantes das flechas e ataques de índios hostis nas margens dos rios.   

Estimativas de peso das embarcações com carga e homens vão de 20 a 30 toneladas. Imaginar uma embarcação desse porte saindo do curso do rio Amazonas, onde navegava a favor da correnteza, e tomando o curso do rio Negro, subindo na força dos remos contra a correnteza em direção ao território da Venezuela é uma história mais difícil de aceitar como verdadeira do que a lenda do El Dorado.  

Sempre que encontravam uma oportunidade, esses homens atracavam as embarcações e se lançavam de assalto às aldeias indígenas menores, que encontravam em abundância ao longo das margens dos rios, buscando assim conseguir alimentos e suprimentos para sua sobrevivência. Foi durante esses embates com os índios que se batizou a região como Amazonas, quando os indígenas de cabelo comprido faziam lembrar as lendárias guerreiras amazonas da antiga mitologia grega, muito conhecida pelos espanhóis. As crônicas das expedições também falam das sereias encontradas nos rios, que de lenda não tinham nada: eram os peixes-boi amazônicos que, curiosos, emergiam ao lado das embarcações para conferir toda aquela movimentação em seus domínios aquáticos.  

Homens ignorantes, gananciosos, famintos e apavorados – fantasia e realidade se confundindo. Estavam preocupados apenas com a sobrevivência e sem qualquer motivação para sonhos de conquista desse território.  A imagem que ilustra essa postagem é do filme “Aguirre, a cólera de Deus“, dirigido por Werner Herzog em 1972 e que nos dá uma ideia da grande loucura que foi essa expedição.

Lope de Aguirre e seus homens, que sonhavam retornar ao Peru para conquistá-lo, participaram de levantes na Isla Margarida e depois no território da Nova Granada (Venezuela). As forças rebeldes acabaram subjugadas; Aguirre foi morto em combate; seu corpo foi recuperado pelos soldados coloniais, levado para a capital, esquartejado e os pedaços pendurados em locais diferentes para servir de exemplo (essa era uma prática comum – você deve lembrar que o mesmo foi feito com Tiradentes aqui no Brasil).  Nos mapas espanhóis, produzidos após a expedição de Pedro de Ursúa e Lope de Aguirre, o rio Amazonas passou a ser chamado de Marañón – em espanhol, a palavra traição é “maraña” e “marañón” significa traidor. Mesmo depois da incorporação de grande parte da Amazônia ao território do Brasil, um dos principais afluentes do rio Amazonas manteve o nome Marañon.  

Depois dessas duas expedições desastrosas através da grande Floresta Amazônica, com o custo de milhares de vidas e de muito dinheiro, as autoridades espanholas desistiram em definitivo de qualquer esforço de colonização da região. Foi a partir dessa decisão que surgiu um personagem que conquistaria a Amazônia para Portugal: Pedro Teixeira. 

Falaremos dessa inacreditável expedição na próxima postagem. 

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A CONQUISTA DO RIO AMAZONAS POR FRANCISCO DE ORELLANA EM 1541

Mapa rio Amazonas

As primeiras expedições espanholas ao Novo Mundo, a partir de 1492, levaram os grandes navios direto para a região do Caribe, onde ilha após ilha, o mapa das novas terras foi sendo desenhado. Hispaniola, Cuba, Jamaica, pequenas e grandes Antilhas, até o desembarque no continente em terras da América Central. A expedição de Vicente Yañez Pinzon, que descobriu a foz do rio Amazonas em 1500, também acabou se dirigindo para a região do Caribe.

Em 1513, Vasco Nuñes de Balboa (1475-1519) descobriu que através de um caminho terrestre não muito extenso no Panamá se chegava ao Oceano Pacífico. Será nas cercanias deste caminho que, quatro séculos mais tarde, será construído o magnífico Canal do Panamá. Esse caminho era infinitamente mais curto que a longa rota para o Oceano Pacífico que seria encontrada por Fernão de Magalhães em 1520, atravessando o estreito que leva seu nome no extremo Sul do continente. Mas a conquista do México e de todos os tesouros do império asteca por Fernando Cortês em 1520, desviou a atenção dos conquistadores desta descoberta.  

Ao longo dos anos posteriores, os espanhóis navegaram a partir do Panamá rumo ao Sul do Oceano Pacífico, ampliando paulatinamente seus domínios. Foi através desta passagem que partiu, em 1533, a expedição de Francisco Pizarro (1476-1541), o grande conquistador do Império Inca – 150 homens que, com muita traição e esperteza, realizaram uma das maiores proezas militares de todos os tempos. Os tesouros de Atahualpa foram tomados pelos espanhóis e Pizarro se transformou no Vice-Rei do Peru. A colonização espanhola nesta parte da Amazônia se concentrou neste pequeno trecho da costa do Oceano Pacífico.  

Em 1545, os espanhóis descobririam acidentalmente as gigantescas minas de prata de Potosi, na Bolívia. A prata de Potosi e o ouro do Peru e do México deixaram os espanhóis extremamente ocupados  por várias décadas. Em terras do Reino de Portugal aqui na América do Sul, foi o plantio da cana e a produção do açúcar a ocupar todas as atenções e esforços dos portugueses. No vácuo entre espanhóis e portugueses, a Amazônia ficou esquecida e desconhecida do mundo. A imagem que ilustra essa postagem apresenta um “mapa” do rio Amazonas do atlas do cartógrafo português Diego Homem, publicado em 1565, que mostra o total desconhecimento que se tinha de toda a Região Amazônica há época.

A concentração de colonizadores espanhóis no Caribe e costas do Oceano Pacífico, e de portugueses na faixa Leste do Brasil, foi extremamente benéfica para a região Amazônica, que ficou isolada, literalmente, por séculos. Se não fosse por esse isolamento, a Amazônia já teria sucumbido há mais tempo ao machado e ao fogo dos colonizadores, a exemplo da maior parte Mata Atlântica. Outro fator determinante a favor da Amazônia foi a grande concentração de florestas e de selvagens. Europeus brancos ocidentais do início da Idade Moderna se julgavam muito acima da natureza – e podendo ficar longe dela, melhor; para o gosto desses homens já haviam suficientes índios e matas nas faixas costeiras do Leste português e ouro e prata no Oeste espanhol – para que arrumar mais problemas? Enquanto nada mais estimulante ou novas riquezas surgissem, esses colonizadores continuariam onde já haviam se estabelecido.  

Legalmente, o Amazonas era espanhol – o Tratado de Tordesilhas assinado entre os Reinos de Portugal e de Castela indicava claramente sua localização na faixa de terras a Oeste daquela linha imaginária que dividiu o Novo Mundo. Pela falta de recursos técnicos na época para a localização geográfica precisa do Meridiano de Tordesilhas, diferentes cartógrafos, portugueses e espanhóis, fizeram as suas projeções nos mapas –em todas essas projeções do Meridiano, a maior parte da Amazônia sempre ficava no lado espanhol.   

A primeira expedição espanhola que se dispôs a se aventurar pelo coração da região Amazônica foi organizada por Francisco de Orellana (1490 – c. 1550). Orellana era espanhol de Trujillo, terra natal da família Pizarro, importante sobrenome na história da conquista da América, clã familiar ao qual ele próprio pertencia. Veio para a América com dezesseis anos. Sua ligação com os Pizarro foi muito importante – muitos destes ocupavam posições chave nos governos locais, especialmente no Panamá.  

Acompanhando o grande conquistador Francisco Pizarro, o jovem Francisco de Orellana, participou dos ataques a Lima, Trujillo e Cuzco. O jovem hidalgo conquistou muita honra e ouro, é claro – nobres espanhóis, na época, vinham para o Novo Mundo para conquistar riquezas. Numa destas batalhas, Francisco de Orellana perdeu um olho, que foi atingido por uma flecha indígena.  

Por volta de 1540, ocioso e dono de muitas posses, Francisco de Orellana ouviu falar de uma expedição que estava sendo organizada por Gonzalo, irmão caçula da família Pizarro. Esta expedição se dirigiria para o centro da Floresta Amazônica, do outro lado da Cordilheira dos Andes. Circulava entre os espanhóis o testemunho de vários índios, onde se descrevia a mítica história de um rei local, que nunca usava roupas: ele se vestia unicamente com ouro em pó. Todas as manhãs ele tinha seu corpo untado com óleo e recoberto com ouro em pó; ele tomava banho todas às noites em um lago para ‘limpar seu corpo’. Essa é a origem da lenda do El Dorado, que aparece em muitos registros da época.  

Os espanhóis encontraram tantas riquezas na América e se deparam com tamanha grandiosidade nos impérios Asteca e Maia, que a ideia de um lago com fundo coberto de ouro em pó dos banhos desse rei fazia sentido e deve ter sido a mais encantadora das histórias do Peru.  

Histórias sobre o El Dorado já circulavam em todos os territórios espanhóis no Novo Mundo há alguns anos e muitos fidalgos tinham planos de encontrá-lo. Em 1529, Diego de Ordáz, militar que participou da conquista do México junto com Fernando Cortês e que realizou expedições exploratórias no Panamá e na Colômbia, solicitou o direito de explorar as terras míticas, que imaginava encontrar-se dentro dos atuais territórios da Colômbia e Venezuela. Sua expedição explorou regiões marginais da Amazônia e descobriu e explorou o rio Orenoco, mas não conseguiu encontrar o lendário El Dorado. Morreu em 1532 no naufrágio de sua nau quando a expedição iniciava o retorno para a Espanha.  

A expedição de Gonzalo Pizarro foi montada com tudo o que fosse necessário para conquistar o El Dorado: mais de duzentos espanhóis, quatro mil índios, milhares de cavalos e suprimentos para meses de viagem. Partiram de Lima em 1541 e, depois de alguns penosos meses de viagem, por entre pântanos, selvas e rios, a grande expedição se limitava a um punhado de homens famintos e desesperados. As doenças, a fome e a hostilidade das tribos indígenas da floresta (que não guardavam semelhança alguma com os civilizados Incas das montanhas e altiplanos dos Andes) destruíram o sonho espanhol. Orellana e Pizarro se desentendem.   

Francisco de Orellana e um pequeno grupo resolvem continuar seguindo os rios da região numa pequena flotilha de canoas, em direção ao Oceano Atlântico, que imaginavam não estar tão distante. Pizarro decidiu voltar para o Peru. Os dois grupos conseguiram atingir seus objetivos: Pizarro retornou a Quito com um grupo de cem homens esfarrapados e atormentados pela fome; Orellana atingiu o Oceano Atlântico depois de nove meses de penosa viagem correnteza abaixo; sua expedição estava reduzida a um grupo com vinte e seis homens. A grande expedição em busca do El Dorado durou dezenove meses, custou milhares de vidas e não encontrou nenhum ouro.  

Orellana ainda conseguiu voltar para a Espanha e tudo fez para conseguir montar uma nova expedição para voltar a explorar o Rio Amazonas, que ele e seu grupo tiveram o privilégio de percorrer pela primeira vez desde próximo da nascente, nos Andes, até a foz no Oceano Atlântico; o alto custo, tanto material quanto em vidas humanas, enterrou momentaneamente o interesse espanhol pela região.  

Anos depois dessa trágica expedição, os espanhóis organizariam uma nova empreitada em busca das riquezas do El Dorado. Essa grandiosa expedição sairia de Lima em 1559, tendo no comando um nobre espanhol – Pedro de Ursúa, e passaria para a história como um sinônimo de traição, que em espanhol é chamada de maraña. Foi justamente essa traição a inspiração para o batismo de um dos principais afluentes do trecho inicial do rio Amazonas – o rio Marañón. 

A “DESPREZADA” FLORESTA AMAZÔNICA E O TRATADO DE TORDESILHAS

Foz do rio Amazonas

Nos últimos dias, têm surgido vozes em todos os cantos do mundo gritando a plenos pulmões que “a Amazônia é nossa”, ou que “a Floresta é o pulmão do mundo”, entre outros mantras nessa mesma linha. A razão de tudo isso são as queimadas de verão, grande parte ligada a desmatamentos para ampliação de campos agrícolas e pastagens. Essas queimadas ocorrem tradicionalmente nos meses de seca e vem se repetindo há pelos menos meio século, desde que começaram os esforços do Governo brasileiro para o povoamento das regiões do Cerrado e da Amazônia.

Por mais incrível que possa parecer hoje, a Região da Floresta Amazônica ficou relegada a um segundo plano nos primeiros 350 anos da história do Brasil e, muito pior: até meados do século XVII, nem Portugal nem Espanha mostravam um maior interesse pela gigantesca floresta no coração da América do Sul. Vamos entender essa história: 

A história das navegações e dos descobrimentos no continente americano estão ligadas diretamente ao Tratado de Tordesilhas, assinado entre os Reinos de Portugal e Castela em 1494 com o aval do Papa Alexandre VI. Esse tratado representou um ajuste da Bula Papal Intercoetera, assinada em 1493, que dividia o mundo entre os portugueses e espanhóis a partir de uma linha imaginária, ou meridiano, localizada a 100 léguas a Oeste da costa das Ilhas de Cabo Verde. O Tratado de Tordesilhas deslocou esse meridiano mais para o Oeste, passando a ficar a 370 léguas das Ilhas de Cabo Verde. Todas as terras descobertas a Oeste do Meridiano de Tordesilhas pertenceriam à Castela e as terras descobertas a Leste pertenceriam a Portugal. 

É importante lembrar que a intensa competição entre Portugal e Espanha para o desenvolvimento da navegação e a conquista de novos territórios estava sendo acompanhado pela cúpula da Igreja Católica há muitas décadas. Em 1454, o Papa Nicolau V havia publicado a Bula Romanus Ponfilex, onde estabelecia as normas para a colonização de novos territórios e, especialmente, a conversão dos pagãos que viessem a ser encontrados nessas terras à fé católica. Essa Bula deu forma jurídica e canônica ao capitalismo comercial que surgiria a partir das navegações dos Ibéricos. 

Um dos principais motivos para a assinatura desses Tratados foram os importantes avanços da tecnologia naval entre os portugueses, que davam grande vantagem para o pequeno Reino Ibérico. Com o acúmulo de conhecimentos sobre correntes marinhas, ventos, meteorologia e técnicas para a construção de naus, os portugueses estavam avançando rapidamente sobre o Oceano Atlântico. Um dos grandes feitos dos Lusos teria sido uma expedição comandada por João Vaz Corte Real que, em 1472, teria chegado na Terra Nova, no Leste do Canadá, e depois teria descoberto a foz do rio Hudson, onde fica a atual cidade de Nova York, e também o rio São Lourenço, na fronteira entre os Estados Unidos e Canadá. Essas descobertas, que teriam ocorrido 20 anos antes da chegada da expedição espanhola liderada por Cristóvão Colombo e foram mantidas em sigilo, davam uma larga vantagem nas conquistas territoriais para Portugal

O primeiro comentário a ser feito trata da localização exata do Meridiano de Tordesilhas. No século XV ainda não existiam instrumentos astronômicos que permitissem a localização precisa de um ponto na superfície terrestre, o que hoje é feito com a sobreposição da Latitude e da Longitude. A Latitude, que é o ângulo entre o plano do Equador e os Pólos Norte e Sul, podia ser determinada com razoável precisão há época com instrumentos como o astrolábio. Já a Longitude, que mede a distância ao longo da Linha do Equador a partir do Meridiano de Greenwich, só viria a ser medida com alguma precisão a partir da invenção do cronômetro naval no século XVIII. 

Na localização mais aceita, o Meridiano de Tordesilhas corta o território brasileiro ao Norte, nas proximidades da cidade de Belém do Pará, e ao Sul, nas proximidades de Florianópolis. Mas existem outras opiniões, mais especificamente de Pedro Nunes (1537), cosmógrafo-mor do Reino de Portugal, João Teixeira Albernaz (1631), considerado o mais prolífico cartógrafo português do século XVII, e de José da Costa Miranda (1688), que para muitos era o “único sujeito do Reyno que sabia fazer cartas para marear nos fins do século XVII”. Na opinião desses cartógrafos, todos ligados à corte portuguesa, o Meridiano de Tordesilhas cruzava o nosso território a Oeste da Ilha do Marajó, ao Norte, e ao Sul, passava nas proximidades da cidade de Campo Grande, capital do Estado do Mato Grosso do Sul. 

Essa interpretação, que aumentava a área do território de Portugal na América do Sul, não era compartilhada por cartógrafos ligados à corte de Castela. De acordo com Planisfério de Cantino, uma carta náutica publicada em 1502 por Alberto Cantino, o Meridiano de Tordesilhas cruzava o nosso território ao Norte, na altura da cidade de Fortaleza, no Ceará, e ao Sul na altura da cidade de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro. De acordo com as crônicas de Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés, de 1545, historiador e escritor espanhol, o Meridiano cruzava ao Norte na altura do Delta do Rio Paranaíba, no Piauí, e ao Sul nas proximidades da cidade do Rio de Janeiro. Observem que em todas essas interpretações, a maior parte ou a totalidade da Floresta Amazônica fica dentro do território da Espanha. 

Outro item em favor de Castela se deu pela descoberta do rio Amazonas pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón em 1500. A expedição de Pinzón partiu da Espanha em dezembro de 1499 com quatro naus, zarpando de Palos de La Fronteira e rumando primeiro para as Ilhas Canárias, seguindo depois na direção da Ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde. No dia 26 de janeiro, essa expedição atingiu um cabo, que recebeu o nome de Santa Maria de la Consolación. De acordo com o historiador brasileiro Adolfo de Varnhagen (1816-1878), esse cabo é a Ponta do Mucuripe, na cidade de Fortaleza, no Ceará. 

Seguindo rumo ao Oeste, a expedição percebeu a certa altura que estava navegando em águas doces e encontrou “uma boca de 15 léguas que saía no mar com grande impacto”. Essa boca era a foz do rio Amazonas (vide foto), e o impacto era um fenômeno que passou a ser conhecido como pororoca. Pinzón batizou o grande rio como Santa Maria de La Mar Dulce. A expedição espanhola chegou a navegar pelas águas do grande rio, onde encontraram uma densa floresta cheia de selvagens. O grande volume de água que chegava na foz fez com que os espanhóis deduzissem que se tratava de uma grande área continental, porém, a expedição não se interessou em fazer maiores descobertas. As naus retornaram ao Oceano Atlântico e seguiram o litoral rumo ao Norte. A descoberta do grande rio se transformou numa mera curiosidade nas páginas do diário de bordo 

No lado português dos territórios recém descobertos no Novo Mundo, descobriu-se que as terras ao longo da faixa litorânea eram de excepcional fertilidade e se prestavam ao cultivo da cana e produção do açúcar, um dos produtos mais valorizados há época. Os portugueses se concentraram nessas áreas e na produção do açúcar por quase três séculos, sem dedicar muita atenção ao resto do seu território. 

Nos territórios de Castela no Novo Mundo, o avanço dos espanhóis permitiu a conquista do Império Asteca no México e o encontro de um fabuloso tesouro na forma de ouro e prata. Anos depois, uma expedição comandada por Francisco Pizarro subjugou o Império Inca no Peru e se apossou de outra gigantesca fortuna constituída de grandes volumes de metais preciosos. Em 1545, os espanhóis descobririam as minas de prata de Potosi, na Bolívia, onde ficariam ocupados pelos próximos 200 anos, sem demonstrar interesse pelas matas e índios da Floresta Amazônica. 

Três expedições exploratórias, duas espanholas e uma luso-brasileiro, mudariam para sempre os rumos de toda a Amazônia. Falaremos dessas expedições a partir da próxima postagem. 

AS IMPRESSIONANTES “TERRAS PRETAS DE ÍNDIO” DA AMAZÔNIA

Terra Preta de Índio

A imprensa internacional tem dedicado grandes espaços nos seus noticiários para falar das queimadas na Amazônia e na transformação da maior floresta equatorial do mundo numa pilha de cinzas. De acordo com muitas dessas publicações, a derrubada e a queima da floresta têm como objetivos garantir a expansão das frentes agrícolas e pecuárias do país. Essa aritmética mágica – quanto mais terra disponíveis maior será a produção agropecuária, não “fecha” quando se fala em solos amazônicos. Os solos locais não são os melhores do mundo para práticas agrícolas e pecuárias.

Os solos naturais da Amazônia são dos tipos arenosos e argilosos, muito pobres em nutrientes – a imponência da vegetação da grande floresta pode até passar uma impressão diferente. O segredo da Amazônia está na grossa camada de húmus formado pelo acúmulo de folhas e árvores caídas, e também pela decomposição dos corpos de animais mortos – ou seja, é a própria floresta que gera os nutrientes que sustentam a floresta, numa espécie de “moto perpétuo”. Se uma grande área da floresta for derrubada para a criação de pastagens ou campos agrícolas, em poucos anos essa camada superficial de nutrientes se esgota e a terra se torna improdutiva. 

Além da necessidade de solos férteis para a prática de uma agricultura sustentável na Amazônia no longo prazo, essa produção depende também de disponibilidade de água e de luz solar incidindo diretamente sobre os solos. Água na Amazônia não costuma ser problema – a região possui a maior rede hidrográfica do mundo e também conta com uma das maiores precipitações anuais do planeta. Já a insolação dos solos, isso é um grande problema – a densa cobertura vegetal, com árvores de grande porte, retém a maior parte da luz solar e só uma pequena parte dessa radiação atinge os solos da Floresta Amazônica. Uma das poucas formas de se resolver esse problema e garantir a adequada insolação dos solos para a prática de uma agricultura de alta produtividade, que garanta o abastecimento de grandes populações, só é possível com a derrubada e queima de grandes extensões da mata, liberando assim a irradiação solar direta.

Para muita gente, a Amazônia, a maior floresta equatorial do mundo, é um dos últimos lugares intocados do planeta e sua preservação é fundamental para o futuro da humanidade. A Floresta Amazônica é sim fundamental para o controle do clima e das chuvas em grande parte do continente americano, uma função que tem grande repercussão no clima global. Porém, para a decepção de muita gente, ela não é uma floresta intocada: há cerca de 4 mil anos atrás, grande parte da floresta estava sendo queimada para a formação de grandes campos agrícolas, que eram necessários para sustentar grandes populações indígenas. E as evidências desse processo de ocupação humana estão por todos os lados, nas chamadas terras pretas de índios

Na década de 1870, exploradores e naturalistas que viajavam por diferentes partes da Amazônia passaram a observar extensas manchas de solo escuro e profundo, de excepcional fertilidade. Com o passar dos anos e com desenvolvimento de novos estudos sobre esses solos escuros, descobriu-se que os teores de carbono nessas áreas eram muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média era de 20 a 30 gramas. Esses solos também se destacavam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. Esses solos não eram naturais, mas sim criados artificialmente por seres humanos e passaram a ser conhecidos como terras pretas de índios

Nos últimos anos, esses solos escuros da Amazônia têm despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica e as mais importantes revistas da área no mundo como a Nature e a Science têm publicado diversos artigos sobre esse assunto. Em 2006, citando um exemplo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), dedicou um simpósio a esse assunto: Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas). Os cientistas querem entender a origem e quais foram os processos usados para a criação de solos de tamanha fertilidade, usados até hoje por comunidades da região para a produção de alimentos. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas terras pretas permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos. Conseguir recriar os mecanismos de criação da terra preta de índio poderá ser uma excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra.

Para que vocês percebam a importância do tema, os pesquisadores calculam que as terras pretas ocupem entre 1% e 10% de toda a área da Floresta Amazônica, o que significa que, pelo menos, uma quantidade equivalente de floresta foi queimada no passado para a liberação dessas áreas para a formação desses solos e a prática da agricultura. Essas terras foram formadas por índios pré-colombianos, ou pré-cabralinos como eu prefiro chamar, que começaram a desenvolver esse trabalho na mesma época em que os primeiros núcleos maias estavam sendo formados na América Central – talvez até haja uma ligação entre esses grupos. Da mesma forma que há mistérios na origem desses índios, também não se sabe o que aconteceu com eles. 

Conforme essas manchas de terra preta foram sendo abandonadas, talvez por causa da migração das populações para outras regiões, a Floresta voltou a crescer e escondeu essas manchas de terra por vários séculos. A Floresta Amazônica possui uma alta capacidade de regeneração, uma característica que passou a ser chamada de autopoiese, a capacidade de seres vivos e ecossistemas de produzirem a si próprios. Isso significa que a Floresta Amazônica pode ter uma parte destruída por alguma força ou evento externo e, mesmo assim, em poucos anos ela consegue recuperar sozinha áreas completamente desmatadas e degradadas.

Existe um senão nessa grande capacidade de regeneração da Floresta: qualquer vestígio arqueológico dessas antigas tribos acabou encoberto pela vegetação, pelas camadas de húmus e por sedimentos carreados pelas chuvas e enchentes nos meses de verão. Não é incomum que pesquisadores encontrem fragmentos de cerâmica e outros vestígios de antigas ocupações humanas a profundidades de 10 metros. Considerando-se que a Amazônia tem mais de 5 milhões de km² de superfície, podemos supor que existe muita coisa a ser descoberta nos próximos anos.

As populações ribeirinhas dos rios da Amazônia herdaram esse grande patrimônio dos povos antigos e são as que mais se beneficiam dessas terras pretas, que são utilizadas para produção das suas culturas de subsistência e também de excedentes de produção para a venda. As margens dos rios concentram as maiores quantidades de manchas de terra preta na Amazônia, onde a grande fertilidade dos solos e a pouca necessidade de preparo para o plantio sempre funcionaram com um atrativo para a fixação dessas populações. 

A Amazônia é realmente fascinante e ainda nos reserva inúmeras surpresas. 

OS INDÍGENAS “QUEIMADORES” DE FLORESTAS

Coivara

Há algumas semanas atrás, uma notícia correu o mundo e se transformou no embrião de toda essa crise sobre as queimadas na Amazônia – a morte do cacique Waiãpi no Amapá. Segundo essa “notícia”, um grupo de garimpeiros invadiu a reserva dos indígenas e matou o cacique com requintes de crueldade. Essa notícia passou a ser divulgada primeiro por políticos locais e depois por políticos a nível federal. Não tardou, essa notícia passou a circular por todo o mundo e chegou a ser comentada por autoridades da ONU – Organização das Nações Unidas, onde o Brasil foi acusado de genocídio contra as populações indígenas. Passada a histeria inicial, investigações feitas pela Polícia Federal, inclusive com a exumação e exames periciais no cadáver, comprovaram que o cacique morreu afogado e, ao que tudo indica, não passou de uma grande “fake news“.

A questão das populações indígenas, não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo, é bastante delicada e, frequentemente, está associada a problemas de devastação de áreas naturais e invasão de terras indígenas. No imaginário popular, o indígena é um exemplo da vida em harmonia com a natureza e de respeito ao meio ambiente. Essa imagem vem em grande parte da literatura, como é o caso do indigenismo brasileiro do século XIX, de textos de filósofos europeus como no mito do “bom selvagem” de Rousseau, e também da famosa Carta do Chefe Seattle.

Para tristeza de muita gente, lamento informar que essa imagem idealizada nem sempre condiz com a realidade histórica – aqui nas Américas há registros históricos e geológicos de grandes queimadas realizadas por povos indígenas – do Alasca, ao Norte, até a Terra do Fogo, ao Sul do continente. Essas queimadas eram sistemáticas e tinham como objetivo a abertura de campos agrícolas e criação de áreas para caça de animais silvestres.

As primeiras notícias sobre o encontro de europeus com populações indígenas nas Américas remontam ao ano 1000, quando a expedição viking de Leif Eriksson chegou as costas da Terra Nova, no Leste do Canadá. Os nórdicos fundaram uma colônia – Vinland, na região conhecida hoje como L’Anse-aux-Medows. Essa colônia sobreviveu até o ano de 1012, quando foi destruída por ataques de indígenas. As ruinas de Vinland foram encontradas por arqueólogos canadenses em 1962 e hoje fazem parte de um parque nacional.

As sucessivas expedições europeias que passaram a vasculhar as terras do Novo Mundo a partir dos últimos anos do século XV, se surpreendiam cada vez mais com a grande quantidade de indígenas que encontravam por todo o continente. Existem diversas fontes históricas que citam números entre 90 e 112,5 milhões de indígenas vivendo em todo o continente americano aos tempos dos descobrimentos. Tzevedan Todorov, um famoso linguista e filósofo búlgaro, trabalha com uma cifra de 70 milhões de habitantes.

Aqui no Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro falava de uma população indígena na casa de 1 milhão de índios – outros historiadores trabalham com números entre 2 e 4,8 milhões de habitantes, vivendo em aldeias que chegavam a abrigar dezenas de milhares de índios. Sustentar populações tão grandes pescando com flechas nos rios ou plantando pequenos roçados de milho e mandioca é algo que beira a utopia. Por questões óbvias de sobrevivência, essas nações indígenas eram obrigadas a se valer das tecnologias disponíveis para aumentar as áreas de produção agrícola e dos campos de caça. Muitos autores chamam isso de “Ecologia do Fogo”, o que nada mais é que a realização de grandes queimadas nas matas.

Ainda não existe um consenso científico sobre a origem das populações indígenas das Américas. As teses mais aceitas falam de grandes ondas migratórias terrestres vindas da Ásia a partir do Estreito de Bering, entre 15 e 20 mil anos atrás. Ondas de imigrantes vindos por mar também podem ter chegado às nossas terras a partir de ilhas do Oceano Pacífico e da África. Existem muitas especulações e poucos dados concretos.

Entre os indígenas, existem várias lendas sobre as suas origens. Uma das mais simpáticas é a dos Hopi, indígenas do Sudoeste dos Estados Unidos – por ordem dos deuses, o texugo e o coelho estenderam uma pele de búfalo sobre o chão e colocaram duas espigas de milho no meio. Esse couro foi enrolado de forma a permitir que o vento circulasse pelo seu interior – o homem e a mulher surgiram dessas espigas de milho. Nas Américas do Norte e Central, o milho foi o alimento mais tradicional das populações indígenas, o que justifica essa simpática lenda da criação dessas populações. Um dos grandes exemplos da  importância da agricultura nativa e da produção do milho é encontrada nos primórdios da colonização americana.

A colonização efetiva dos Estados Unidos começou em 1620, quando desembarcaram os  primeiros colonos que chegaram ao país no lendário navio Mayflower. Sem suprimentos para sobreviver ao inverno, esses primeiros colonos protestantes foram socorridos pelos indígenas locais, que forneceram alimentos – principalmente milho e carne de caça. Esse gesto de boa vontade levou à criação em 1621 do dia de Ação de Graças, Thanksgiving em inglês, o mais importante feriado dos norte-;americanos. Esses colonos observaram que os indígenas tinham enormes plantações em clareiras abertas na mata a partir de grandes queimadas. Conforme a fertilidades dos solos diminuía, os índios se mudavam para outras regiões, onde a mata era incendiada e novos campos agrícolas eram abertos.

Em áreas do interior do continente, os relatos históricos falam de grandes queimadas para a abertura de campos de caça. Nessas áreas, onde surgiam grandes pastagens, gigantescos rebanhos de búfalos ou bisões-americanos (Bison bison) se reproduziam e eram caçados com maior facilidade pelos indígenas de diversas tribos. De acordo com estudos científicos feitos na região das Pradarias, um extenso ecossistema formado por campos limpos na região Central dos Estados Unidos, que lembra muito os Pampas Sul-Americanos, essas áreas foram expandidas artificialmente pelas queimadas dos indígenas ao longo da história.

Na América Central, região que abrigou as grandiosas civilizações Maia, Asteca e Tolteca, grandes trechos da floresta tropical foram queimados para a construção de grandes cidades – algumas delas chegaram a abrigar populações na casa de 1 milhão de habitantes como Tenochtitlan e Copán, e para a formação de campos agrícolas. Quando os primeiros exploradores espanhóis desembarcaram no continente nas primeiras décadas do século XVI, muitas dessas cidades já estavam em ruínas. Uma das hipóteses  científicas para o desparecimento dessas populações foram grandes secas que se abateram sobre a região por causa da degradação ambiental.

Na América do Sul, é claro, essa mesma técnica foi largamente utilizada, tanto por povos de grande desenvolvimento cultural como os Incas das regiões Andinas, quanto por populações nativas de florestas como a Amazônica. Um exemplo dessa herança deixada pelos indígenas brasileiros na agricultura é a coivara (vide foto), o uso do fogo para a preparação dos solos para o plantio de culturas de subsistência. Desde as primeiras décadas da colonização do Brasil, essa técnica foi adotada por todas as populações, de origem europeia, africana e mestiças, e passou a fazer parte dos usos e costumes da população brasileira.

A coivara consiste na derrubada inicial da vegetação arbustiva e arbórea, que é deixada para secar ao sol por algum tempo. Depois de seca, essa vegetação é queimada, onde se faz ao mesmo tempo a limpeza do terreno e uma adubação elementar a partir das cinzas  das madeiras queimadas. Grande parte das queimadas que ocorrem hoje na Amazônia tem origem no uso inadequado da coivara em áreas com vegetação seca por causa do verão amazônico. A coivara foi intensamente utilizada na época do Ciclo do Açúcar, especialmente na Região Nordeste, e contribuiu muito para a devastação de extensas faixas da Mata Atlântica.

Mas foi justamente na região da Floresta Amazônica o local onde grandes queimadas foram feitas pelos indígenas em tempos Pré-Colombianos ou Pré-Cabralinos, com o objetivo de criar grandes campos para o cultivo de alimentos. Os registros “fósseis” dessas grandes queimadas estão por todos os lugares da Amazônia e se apresentam na forma das chamadas “terras pretas de índio“.

Vamos falar disso na nossa próxima postagem.

UM BREVE RESUMO DA HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

Amazônia

Nesses últimos dias, a Floresta Amazônica ganhou uma notoriedade jamais vista na história da humanidade. Fotos e vídeos de focos de incêndio na Floresta começaram a se espalhar pela internet e pelas redes de televisão, surgindo imediatamente clamores como “nossa Amazônia está pegando fogo e tudo vai virar cinzas”, “a maior floresta do mundo está em chamas”, ou ainda “o pulmão do mundo está sendo destruído”. Como bom ambientalista e pessoa extremamente preocupada com o futuro do planeta, acho que todos e quaisquer esforços para preservar o meio ambiente e garantir o futuro das novas gerações são bem vindos. Fora isso, o que tenho visto é muita histeria e falta de informações. 

A maior floresta do planeta, para começo de conversa, não é a Floresta Amazônica – muitos poderão ficar decepcionados com essa informação. Essa posição é ocupada pela Taiga, também chamada de Floresta Boreal ou Floresta de Coníferas. Esse bioma circunda toda uma faixa de terras do planeta no Hemisfério Norte, englobando a Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia e Norte do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca. Somando-se toda a extensão do bioma, chega-se a uma área total de 15 milhões de km² ou três vezes o tamanho da Floresta Amazônica. Se a Floresta Amazônica, como muitos estão dizendo por aí, é o pulmão do mundo e gera 20% do oxigênio do planeta, a Taiga, matematicamente falando, gera outros 60% – quem precisa das algas dos oceanos e dos demais sistemas florestais do mundo para fazer isso

Diferente também do que muita gente por esse mundo afora pode estar pensando, a Amazônia não surgiu do nada nesses últimos poucos dias. A Bacia Amazônica e a Floresta Amazônica são o resultado de um longo processo geológico iniciado há mais de 160 milhões de anos. Estou falando da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana.  

Sem entrarmos em maiores detalhes, a América do Sul, a África, a Índia, a ilha de Madagascar, a Austrália, a Antártida, a Nova Zelândia, a Nova Guiné e a Nova Caledônia, entre outras ilhas menores, formavam, em um passado distante, um único supercontinente conhecido como Gondwana. Há cerca de 160 milhões, o movimento das placas tectônicas, também conhecido como Tectônica Global, começou um processo de fragmentação e movimentação das partes deste supercontinente, formando a configuração atual dos continentes do nosso Planeta Terra. 

O nosso continente, a América do Sul, é formado por uma grande placa tectônica conhecida como Placa Sul-Americana. Para que você entenda o que é uma placa tectônica, peço que imagine uma grande jangada flutuando sobre a água – uma placa tectônica tem um comportamento similar a esta jangada, porém, trata-se de um gigantesco bloco de rocha flutuando sobre o magma, uma camada de rochas derretidas, com temperaturas acima de 1.500 °C, que envolve o núcleo do Planeta. Toda a superfície do Planeta é formada por placas tectônicas – são 15 placas principais e 40 sub-placas menores (as famosas Ilhas Malvinas estão sobre uma sub-placa). Quando teve início o processo de fragmentação e separação de Gondwana, a Placa Sul-Americana começou a se separar lentamente da Placa Africana – a velocidade desta separação é de, aproximadamente, 3 cm a cada ano.  

O avanço da Placa Sul-Americana rumo ao Leste não aconteceu livremente – conforme a América do Sul foi sendo empurrada pelas forças geológicas que a separavam da África, o grande bloco continental foi de encontro às placas tectônicas que estão do outro lado – a Placa de Nazca e a Placa do Pacífico. O choque desses blocos de rochas originou a Cordilheira dos Andes. A Placa Sul-Americana avançou sobre as bordas das Placas de Nazca e do Pacífico, o que provocou a elevação dos terrenos e a formação das montanhas dos Andes. Estudos geológicos indicam que esse evento teve início há cerca de 40 milhões de anos e o soerguimento dos terrenos foi concluído em “apenas” 4 milhões de anos.  

A Cordilheira dos Andes é uma das mais extensas cadeias montanhosas do mundo, se estendendo por quase 8 mil km desde a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente, até o Norte da Colômbia, acompanhando toda a costa ocidental da América do Sul. A altitude média das montanhas é de 3.500 metros acima do nível do mar, com alguns picos chegando próximo dos 7 mil metros, como no caso do Aconcágua, na Argentina, que tem uma altitude de 6.962 metros. A largura média da Cordilheira é de 240 km, com alguns pontos na Bolívia e no Peru com largura de 600 km. 

E o que tudo isso tem a ver com os rios da Bacia Amazônica ou com a Floresta Amazônica?  

Antes do “nascimento” da Cordilheira dos Andes, toda a região Norte da América do Sul era uma extensa planície alagável. Em alguns trechos, as águas do Oceano Atlântico (que era bem menor do que nos dias atuais) invadiam as terras e avançavam pelo continente. Os rios que haviam se formado até então corriam no sentido Leste. Conforme os terrenos da região onde encontramos atualmente a Cordilheira dos Andes começaram a ser soerguidos, ou seja, foram sendo elevados pelo choque entre as Placas tectônicas, houve primeiro uma interrupção no fluxo das águas para o Leste e um lento e gradual refluxo no sentido Oeste.  

Alguns dos principais rios formadores da bacia Amazônica com nascentes nos Andes, surgiram junto com a formação da grande cadeia montanhosa. Muitas das nascentes desses rios têm origem no degelo das neves e geleiras que se formam nas grandes altitudes. Estima-se que o rio Amazonas, ou o curso original daquele que viria a ser este rio, se formou há aproximadamente 16 milhões de anos. Esse rio corria na direção Oeste, desaguando nas águas de um grande lago, que se formou numa depressão no centro da região onde encontramos a Floresta Amazônica hoje. Foram necessários 6 milhões de anos para que as águas desse lago lentamente começassem a fluir no sentido Oeste, quando a grande calha do rio Amazonas foi se consolidando e se transformando no ponto central de drenagem de toda a bacia hidrográfica. Entre 6 e 10 milhões de anos atrás, a formação geológica da Cordilheira dos Andes se estabilizou e, desde então, vem mantendo as mesmas características.  

Todas essas longas e intensas modificações geológicas dos solos de toda essa extensa região foram acompanhadas de mudanças climáticas regionais e mundiais. Grandes massas de nuvens carregadas com grandes volumes de água passaram a se concentrar numa faixa ao longo da linha do Equador e transformaram essa região numa das mais chuvosas do mundo. Plantas das mais diferentes espécies passaram a colonizar os solos da região e a se adaptar a um ciclo de vida que se alterna entre um período de muita chuva e a outro de seca. Uma grande diversidade de animais da antiga fauna de Gondwana também passou a viver na região, com muitas espécies evoluindo e se adaptando para uma vida nesse novo ambiente que estava surgindo. 

Por volta de 3 milhões de anos atrás, foi formado o Istmo do Panamá, uma ponte de terra que uniu as Américas do Sul e do Norte (existem diversos estudos diferentes que datam essa formação entre 6 e 20 milhões de anos). Esse caminho permitiu a migração de uma infinidade de espécies animais e vegetais (lembrando aqui que várias espécies de animais são dispersoras de frutos e sementes) do Hemisfério Norte em direção ao Sul.  

Bem mais recentemente, há cerca de 15 mil anos atrás, grupos humanos fizeram esse mesmo caminho e passaram a colonizar a América do Sul, especialmente a região da Amazônia. Esses povos passaram a basear seu estilo de vida, de alimentação, de colheita extrativista e produção agrícola, religioso e familiar no ciclo das águas e nos ritmos da Floresta Amazônica. Outros povos, que se instalaram nas regiões das montanhas e nos altiplanos andinos, desenvolveram culturas e modos de vidas completamente diferentes.   

Com o processo de colonização das Américas, quando povos da Europa e da África passaram a migrar para nossas terras, aqueles que se dirigiram para a região Amazônica acabaram por absorver os costumes e as tradições dos indígenas da Floresta. Mesmo divididos pelas fronteiras artificiais entre os diferentes países, todos os habitantes da Bacia Amazônica têm estilos de vida e hábitos muito próximos.   

A Amazônia é o resultado de toda uma somatória de processos físicos, geológicos, biológicos, meteorológicos e humanos, entre muitos outros, o que levou à formação da maior floresta equatorial do mundo, que ocupa uma área com mais de 5,5 milhões de km². Esse impressionante ecossistema abriga dezenas de milhares de espécies animais, vegetais, bactérias, fungos, etc, grande parte ainda não descrita pela ciência. A rede hidrográfica local, a Bacia Amazônica, é a maior do mundo e concentra cerca de 20% de toda a água doce do planeta. Somente no trecho brasileiro da Floresta Amazônica vive uma população de mais de 20 milhões de pessoas.  

A complexidade da Amazônia é gigantesca e, nem de longe, poderia ser mostrada em postagens nas redes sociais onde se mostram apenas alguns focos de queimadas. 

A “NOSSA” AMAZÔNIA

Floresta Amazônica

Há muitos anos atrás, quando eu ainda trabalhava no setor eletroeletrônico, era muito comum ser destacado para acompanhar executivos estrangeiros em reuniões por várias cidades do Brasil. Uma coisa que sempre me chamava a atenção em estrangeiros que chegavam no Aeroporto Internacional de Cumbica pela primeira vez era um certo espanto com o tamanho das instalações, talvez um tanto grande para um “aeroporto de selva”.

Outra coisa que saltava aos olhos desses “gringos” era o tamanho da cidade de São Paulo – de Cumbica até a sede da empresa na Vila Olímpia, rodávamos mais de 30 km, em grandes avenidas cercadas por arranha-céus. Eu sempre fiquei com a impressão que estes estrangeiros estavam esperando encontrar aqui um aeroporto com pista de terra e um punhado de cabanas com teto de palha, com onças e animais selvagens correndo soltos pelas ruas.

Certa vez, enquanto fazia esse trajeto com um escocês, fui surpreendido como uma pergunta:

– Aquela mata ali é a Floresta Amazônica? – perguntou em inglês apontando para a Serra da Cantareira, uma grande formação vegetal de Mata Atlântica que domina a paisagem da Zona Norte da cidade de São Paulo.

Um dos casos mais interessantes sobre o desconhecimento desses estrangeiros em relação aos nossos ecossistemas se deu com uma executiva mexicana, que eu teria de acompanhar em reuniões em Belo Horizonte e depois no Rio de Janeiro. O espanto da mulher começou ainda no Aeroporto de Congonhas, quando embarcamos num jato fabricado pela Embraer – a mexicana ficou espantada ao saber que os “indígenas brasileiros”, ou seja – nós todos, tínhamos capacidade tecnológica e intelectual para fabricar um avião de passageiros com aquele nível de sofisticação.

Logo após a decolagem, a mexicana viu um grande corpo d’água e olhando para mim perguntou se “aquele era o rio Amazonas”. Para quem não conhece, o Aeroporto de Congonhas fica na Zona Sul da cidade de São Paulo – conforme o sentido da decolagem, o avião vai sobrevoar em poucos minutos a Represa Billings, o maior corpo d’água da Região Metropolitana de São Paulo. Em resposta à “gringa”, expliquei que aquela era apenas uma represa do sistema de abastecimento da cidade e que o rio Amazonas ficava a mais de 4 mil km de distância. Tive de me segurar para não falar que a Floresta Amazônica estava mais perto do México do que de São Paulo.

Essa rápida passagem por lembranças antigas ilustra bem a situação que estamos vivendo nesses últimos dias – de um dia para o outro surgiram ambientalistas e especialistas em Floresta Amazônica por todos os cantos do mundo, cada um falando mais besteira que o outro sobre as queimadas que, tragicamente, cresceram muito do ano passado para cá, e que estão “transformando a Floresta Amazônica em cinzas”. Vamos usar as próximas postagens para contar um pouco sobre o que é essa tão falada Floresta e tentar mostrar o que realmente está acontecendo por lá.

A Bacia Amazônica ocupa uma área com mais de 7 milhões de km², onde se encontram mais 1.000 afluentes – alguns destes afluentes, como o Negro e o Madeira, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo. O maior desses rios, o Amazonas, é o segundo maior rio do mundo em extensão (algumas fontes afirmam que é o maior), com quase 7 mil km das nascentes até a foz, e é, de longe, o rio com maior fluxo de água do Planeta – calcula-se que um volume entre 12% e 20% de toda a água doce do mundo flua através dos rios e ares (os chamados “rios voadores”) da Bacia Amazônica e, mais cedo ou mais tarde, essa água irá atingir a calha do rio Amazonas.

 A área ocupada pela Floresta Amazônica é de aproximadamente 5,4 milhões de km², ocupando terras na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa – mais de 60% da Floresta se encontra no Brasil. A área total da Floresta Amazônica equivale à mais da metade de todo o território europeu. Calcula-se que mais de 1/3 de todas as espécies do mundo vivam na Amazônia – somente em espécies de peixes, já se conhecem mais de 2.100 espécies diferentes e, a cada dia, se descobrem novas espécies. 

Diferente do que muita gente imagina, essa floresta não é um mar sem fim de árvores de grande porte – a Floresta Amazônica é formada por um mosaico de sistemas florestais, onde se encontram florestas densas, áreas de várzea que se alternam entre a seca e as enchentes, campos amazônicos, manguezais, vegetação de restinga, entre muitos outros. Uma outra característica da Amazônia que muita gente desconhece é o número total de estações do ano – são apenas duas: inverno, a época em que o clima é quente e chuvoso, e o verão, quando o tempo é quente e seco. Esse é um ponto importante, que ajuda a explicar a grande quantidade de incêndios florestais dessas últimas semanas.

Nos meses de verão, as chuvas passam a dominar as paisagens e as águas determinam o ritmo da vida em toda a Floresta. Rios começam a receber grandes volumes de água das chuvas através de toda uma infinidade de pequenos igarapés e os caudais começam a transbordar e a invadir extensas regiões até então secas. Essas águas também se infiltram nos solos e elevam dramaticamente o nível do lençol freático, que praticamente chega à superfície. Na região de Porto Velho, em Rondônia, lembro que o nível do lençol freático chegava a cerca de 10 cm da superfície no pico do verão. Em um dos cemitérios da cidade, citando um exemplo, os sepultamentos feitos nessa época resultavam em, literalmente, mergulhar os caixões dentro da água.

Quando chega a época da seca, o inverno, as águas baixam rapidamente. Na mesma cidade de Porto Velho, isto era facilmente observado no rebaixamento do lençol freático. Apesar de estar localizada dentro da maior bacia hidrográfica do mundo, a população da cidade sofre imensamente com a falta de água no inverno. Pelo menos metade da população depende da água de poços para seu abastecimento, que secam rapidamente ao longo do inverno. Eu visitei várias casas onde poços com mais de 20 metros de profundidade estavam secos. Igarapés antes caudalosos se transformam em filetes de água e o grande rio Madeira chega a baixar 18 ou 20 metros em questão de semanas.

Em meio a toda essa seca, basta uma pequena fagulha para iniciar uma grande queimada em uma mata ou num campo agrícola, o que é justamente o que está acontecendo hoje por toda a Amazônia – queimadas estão ocorrendo por todos os lados, o que acabou provocando uma verdadeira histeria em todo o mundo. Queimadas – acidentais ou provocadas intencionalmente, acontecem todos os anos na Amazônia. É claro que, neste período da seca, muita gente se aproveita do clima para fazer queimadas para a abertura de clareiras na mata, onde iniciarão a formação de pastagens para a criação de gado ou formação de campos agrícolas. A grande maioria dessas queimadas é ilegal e, muitas vezes, ocorrem em áreas públicas, terras indígenas ou em reservas ambientais – aqui, o que falta é fiscalização por parte dos poderes públicos: Municipal, Estadual e Federal.

Porém, muito longe do que muitos tem dito, a maior parte da Floresta Amazônica vai muito bem , obrigado, e está verdejante como sempre esteve. Afirmar, como muitos tem afirmado, que a Floresta está virando cinzas, é o mais completo exagero. O que está faltando mesmo é muita fiscalização e punição dos infratores por parte do lado brasileiro e ajuda séria e responsável de todos aqueles países que realmente estão preocupados em proteger e preservar a Amazônia.

Agora, o que eu acho inaceitável é a conversa de muito estrangeiro falando da “nossa” Amazônia e tentando propor a criação de uma área internacional na região com o objetivo de “proteger a floresta”, algo que atinge em cheio a soberania de todos os países Amazônicos. Nós brasileiros e vizinhos sul americanos temos maturidade suficiente para cuidar de nosso “quintal”, sem depender das boas intenções de antigas metrópoles coloniais, que expropriaram povos e países por todo o mundo.