Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

AS “QUEIMADAS DO BEM” NO CERRADO BRASILEIRO 

Quem acompanha o blog deve ter percebido que dedicamos as últimas postagens a temas ligadas aos incêndios florestais. O mês de maio marca o início da temporada seca no Cerrado Brasileiro, época em as queimadas se multiplicam no bioma e rendem manchetes em todo o mundo. Em julho tem início o chamado verão amazônico, a época da seca na região, e das já tradicionais notícias sobre a destruição do “pulmão do mundo” pelo fogo. 

Um conceito que foi repetido diversas vezes nessas postagens é o uso controlado do fogo no combate aos incêndios florestais. Por mais que essa ideia assuste os ecologistas de “ar condicionado”, imagem que gosto de usar para falar daqueles que se imaginam defendendo o meio ambiente a partir de suas casas e escritórios confortáveis nas grandes cidades, ela funciona perfeitamente. 

De acordo com a química, o fogo é uma reação que depende de três elementos básicos: combustível, oxigênio e de uma fonte de energia para ativação ou ignição. Esse é o chamado “triangulo do fogo”. Com as queimadas controladas, o material combustível excedente das áreas florestais – galhos, folhas secas, árvores mortas, entre outros materiais, é queimado de forma segura por pessoas especializadas. Reduzindo a quantidade de material combustível nas matas, o risco de grandes incêndios florestais fica reduzido. 

Uma ideia que segue nessa direção e que faz muita gente “especializada” torcer o nariz é a pastagem de animais domésticos dentro de áreas florestadas com o objetivo de reduzir o volume de material combustível. Citamos o exemplo das “cabras-bombeiras” que estão sendo usadas em algumas regiões da Califórnia, nos Estados Unidos, e nas cercanias de Dublin, capital da Irlanda. Os animais comem a vegetação rasteira e arbustiva, deixando os solos das matas “limpos”.

Em 2021, durante uma temporada de fortes queimadas no Pantanal Mato-grossense, algumas autoridades do Governo Federal afirmaram que a criação de gado na região, atividade que foi reduzida devido a restrições ambientais, poderia ter contribuído na prevenção desses incêndios. Essa ideia foi rechaçada há época por muitos “especialistas”. 

Fugindo das discussões entre os diferentes grupos, o fogo faz parte das paisagens naturais de nosso planeta há muitos milhões de anos e muitos os biomas que foram, literalmente, modelados pelas chamas ao longo do tempo. Um grande exemplo aqui no território brasileiro é o Cerrado. 

De acordo com um estudo feito por pesquisadores da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana e da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, “o fogo teve papel importante na formação da flora do cerrado brasileiro“. Segundo os pesquisadores, mudanças climáticas ocorridas há 10 milhões de anos favoreceram a expansão de áreas de savanas em todo o mundo, vegetação que se torna muito inflamável em certas épocas do ano e sujeitas a ação do fogo. 

As novas condições ambientais passaram a favorecer espécies vegetais com uma maior resistência as chamas. São plantas que possuem uma casca bem mais grossa que espécies semelhantes encontradas em outros biomas – essas cascas protegem as plantas durante os incêndios, ou ainda de rápida regeneração. Muitas espécies vegetais, inclusive, passaram a depender das chamas para quebrar a dormência de suas sementes. A flora do Cerrado que conhecemos hoje começou a se formar há cerca de 4 milhões de anos. 

Um exemplo da extrema adaptação das espécies vegetais do Cerrado ao fogo é a Bulbostylis paradoxa, uma erva conhecida popularmente como cabelo-de-índio. Um estudo liderado pela pesquisadora Alexandra Fidelis da UNESP – Universidade Estadual Paulista, e publicado na revista Ecology em 2019, mostrou que essa planta começa a florescer apenas 24 horas depois de ser queimada. 

De acordo com informações do ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o MIF – Manejo Integrado do Fogo, é usado em 37 unidade de conservação federais, especialmente no bioma Cerrado. No total, 15 unidades de conservação nesse bioma usam as queimadas controladas ou proscritas, termo técnico mais utilizado. 

De acordo com o ICMBIO, essa prática vem sendo usada no Cerrado desde 2014, e foi fundamental na redução da incidência de grandes queimadas na Serra Geral no Tocantins, na Serra da Canastra em Minas Gerais, na Chapada dos Guimarães em Mato Grosso e também na Chapada das Mesas no Maranhão. 

Desde 2017, as queimadas proscritas passaram a ser usadas em unidades de conservação com vegetação de savana da região Amazônica. Exemplos são o Parque Nacional do Viruá em Roraima, a Reserva Biológica do Guaporé em Rondônia, e também no Parque Nacional dos Campos Amazônicos, que se estende entre os Estados de Roraima e do Amazonas. 

Mais recentemente, em 2021, as autoridades ambientais passaram a usar de forma experimental as queimadas proscritas no Pantanal Mato-grossense, bioma que sofreu fortemente com as queimadas naquele ano. Segundo o ICMBIO, cerca de 2/3 das espécies vegetais do Pantanal são similares a espécies do Cerrado

A área escolhida para esses testes fica dentro do SESC Pantanal, a maior RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural, do Brasil. Os resultados do uso das queimadas controladas nessa área serão avaliados ainda no final deste ano e, conforme o resultado, o ICMBIO poderá aplicar a técnica no Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, no Estado do Mato Grosso.

O ICMBIO também tem feito convênios com órgão ambientais estaduais visando a popularização dessa técnica. Um exemplo é o Parque Estadual do Juquery, a última área protegida de Cerrado na Região Metropolitana de São Paulo. Para quem não sabe, essa região foi no passado uma grande mancha de Cerrado cercada pela Mata Atlântica. Em 2021, essa área sofreu um grande incêndio florestal. As autoridades ambientais paulistas devem iniciar as queimadas controladas no parque ainda neste ano. 

Áreas de conservação dentro dos Pampas Sulinos e da Caatinga Nordestina, biomas que também ficam sujeitos a ocorrência de grandes incêndios florestais, deverão utilizar a técnicas das queimadas controladas num futuro próximo segundo o ICMBIO. Em áreas florestais da Mata Atlântica e da Amazônia essa técnica não pode ser utilizada

Cenas de incêndio em áreas florestais causam um forte impacto visual nas pessoas, principalmente quando as imagens mostram animais mortos pelo fogo. De acordo com os especialistas, as queimadas controladas são feitas de forma propiciar as rotas de fuga para os animais silvestres. As chamas não seguem numa linha reta, o que dá tempo para os animais terrestres se entocarem e para as aves voarem. É importante lembrar que a fauna do Cerrado é perfeitamente adaptada para essas situações. 

Os próximos meses e as inevitáveis manchetes sobre as queimadas no Cerrado e no Pantanal Mato-grossense vão sinalizar o quanto o uso das queimadas controladas tem sido benéfico para o meio ambiente. Torçamos por bons resultados. 

AS “QUEIMADAS CULTURAIS” DOS ABORÍGENES AUSTRALIANOS 

O povoamento da Austrália é bastante antigo e os especialistas ainda divergem sobre as datas. A corrente mais tradicional fala que a chegada dos primeiros aborígenes ao continente se deu a cerca de 70 mil anos. Novas linhas de pesquisa trabalham com uma data mais recente, entre 40 e 42 mil anos. Existem alguns poucos cientistas que acreditam que essa história deveria retroagir para cerca de 120 mil anos. 

Há um consenso entre a maioria dos cientistas em se afirmar que esses povoadores primitivos pertenceram a uma das primeiras correntes migratórias de Homo Sapiens, a nossa espécie, a sair da África em busca de novas oportunidades de vida. Essas pessoas seguiram através de franjas florestais ao longo das margens do Oceano Índico até atingirem o Sudeste Asiático. Navegando de ilha em ilha, essas populações chegaram na Austrália. 

Quando os primeiros navegadores europeus atingiram o continente australiano ainda no século XVI, encontraram uma enorme população nativa ali estabelecida há milhares de anos. Estimativas da época do início da colonização europeia falam de uma população entre 318 mil e 1 milhão de aborígenes, falantes de cerca de 300 línguas e 600 dialetos, e divididos em inúmeros grupos tribais. 

Como se viu em outros projetos de colonização aqui nas Américas, na África e mesmo no Sul e Sudeste Asiático, os recém chegados impuseram aos nativos suas crenças e seus valores. Tudo o que fazia parte da cultura aborígene foi relegado a um plano muito secundário, sendo que muito cultos religiosos passaram a ser proibidos. 

Uma das tradições multimilenárias dos aborígenes que foi proibida logo no início da colonização inglesa foram as “queimadas culturais“. Os nativos se valiam do fogo para limpar o excesso de matéria combustível em suas matas tais como gravetos, restos de folhas, troncos caídos entre outros. Essas queimadas controladas faziam parte de todo um contexto cerimonial e religioso. 

Segundo as crenças dos aborígenes, a “mata precisa queimar” para preservar a sua saúde. Essa máxima foi recuperada pela pesquisadora Shannon Foster, professora de cultura aborígene da Universidade de Tecnologia de Sydney. Ela se tornou uma guardiã dos conhecimentos do povo d`harawal. Sem contar com escrita, esses conhecimentos tradicionais são passados por via oral de uma geração para outra. A interessante foto que ilustra essa postagem mostra o bisavó e o avó da pesquisadora tomando “lições” com aborígenes na década de 1940.

De acordo com a pesquisadora, a preservação da terra é a parte central da cultura dos aborígenes australianos. Na crença desses povos, é fundamental se pensar no que se pode fazer para retribuir à terra tudo o que ela nos dá. E foi na base da experimentação que esses povos descobriram que as queimadas controladas eram uma ferramenta eficiente para se evitar a ocorrência de grandes incêndios florestais. 

Os nativos ensinam que essas queimadas seguem o ritmo da natureza e ajudam a atrair os animais que esses povos caçam. As cinzas fertilizam os solos e o potássio liberado é essencial para a floração das plantas. Isso melhora o mosaico da vegetação, além de gerar microclimas. 

Os aborígenes acreditam, o que conta inclusive com o aval de alguns pesquisadores, que essas queimadas suaves incentivam as chuvas. A atmosfera aquece até um nível atmosférico onde o calor e o frio provocam a condensação da água, formando assim as chuvas. 

Esse tipo de queimada realizada pelos antigos aborígenes é o que os especialistas chamam de “queimadas frias” (cool burning em inglês). Trata-se de um fogo extremamente controlado com chamas que atingem, no máximo, a altura dos joelhos. A técnica foi criada com o objetivo de queimar as áreas de forma contínua e acompanhando a paisagem. 

É interessante notar que essa antiga prática, abolida pelos colonizadores ainda no final do século XVII, está em perfeita sintonia com uma resolução recente do Governo dos Estados Unidos – a Estratégia de Crise de Incêndios Florestais, conjunto de medidas que prevê tornar as florestas do país mais saudáveis e resistentes a esses eventos ao longo dos próximos 10 anos.  

Um dos mais importantes itens da resolução são os trabalhos de poda da vegetação e corte de árvores mortas, materiais que deverão ser queimados de forma controlada pelas autoridades florestais do país. A ideia é exatamente a mesma das antigas práticas aborígenes – reduzir a quantidade de material combustível nas florestas para evitar a ocorrência de grandes incêndios florestais. 

Os aborígenes australianos não estão sozinhos nisso – a prática da “ecologia do fogo” vem fazendo parte da história de inúmeros povos tradicionais em todo o mundo. Aqui nas Américas, por exemplo, há registros históricos e geológicos de grandes queimadas realizadas por povos indígenas – do Alasca, ao Norte, até a Terra do Fogo, ao Sul do continente. Essas queimadas eram sistemáticas e tinham como objetivo a abertura de campos agrícolas e criação de áreas para caça de animais silvestres. 

Existem abundantes testemunhos de pioneiros da colonização dos Estados Unidos que falam de grandes incêndios florestais provocados propositalmente pelos indígenas do Nordeste norte-americano no início do século XVII. Segundo o que essas testemunhas apuraram diretamente com os índios, a queima da floresta era fundamental para dar espaço aos grandes rebanhos de animais que os nativos caçavam, além de liberar áreas para a agricultura. 

Aqui na Amazônia brasileira encontramos as chamadas “terras pretas de índio”, solos que foram fertilizados artificialmente pelos indígenas para fins agrícolas a centenas, quiçá milhares de anos. A maior parte das terras amazônicas, conforme já apresentamos em postagens aqui no blog, são de baixíssima fertilidade – os indígenas desenvolveram técnicas de queimar restos de vegetação de forma controlada para adubar os solos. Isso criou uma grossa camada de terra preta e de excepcional fertilidade, ainda hoje utilizadas por indígenas e caboclos para a formação de seus roçados. 

Ainda falando dos nossos indígenas não podemos deixar de falar da coivara, uma técnica de plantio agrícola que os colonizadores europeus acabaram absorvendo. A mata é derrubada e os restos florestais são deixados a secar por algumas semanas, quando então o material é incendiado. Além de limpar os solos, as cinzas resultantes da queima fertilizam a área para uso em uma ou duas colheitas. 

Com a Austrália sofrendo sistematicamente com grandes incêndios florestais nas últimas décadas, existem muitos grupos que estão defendendo um retorno a essas antigas práticas culturais e religiosas dos antigos aborígenes. O que durante muito tempo foi considerado paganismo e culto ao demônio pelos antigos líderes religiosos agora está sendo visto como um canal de ligação com a natureza. 

Lembrando que os aborígenes vivem nessas terras há dezenas de milhares de anos e que conseguiram preservar adequadamente o meio ambiente durante esse tempo, não deixa de ser uma ação inteligente buscar absorver alguma coisa de sua cultura ancestral em prol da sofrida natureza da Austrália. 

AS “CABRAS-BOMBEIRAS” DA CALIFÓRNIA, OU AINDA FALANDO DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NOS ESTADOS UNIDOS

No ano passado, em consequência da fortíssima estiagem que atingiu toda a região Central do Brasil, as queimadas na região do Pantanal Mato-grossense foram enormes. Entre as inúmeras análises feitas sobre a origem do problema, houve quem citasse a redução da pecuária na região por causa de restrições ambientais. 

De acordo com esse ponto de vista, os animais comem a vegetação rasteira e arbustiva, reduzindo assim o volume de matéria orgânica combustível que poderia arder em um incêndio florestal. Surgiu na época o conceito do “boi-bombeiro”, uma ideia que foi rechaçada por um sem número de “especialistas”. Aliás, nessas horas, “brotam” especialistas como cogumelos após uma chuva. 

Na nossa última postagem, onde falamos das preocupações do Governo dos Estados Unidos em relação ao início de mais uma temporada de incêndios florestais no país, citamos que existe um plano para reduzir o volume de matéria orgânica combustível nas florestas através de podas e cortes de galhos de árvores. Esse material seria queimado posteriormente de forma controlada. A lógica por trás disso – sem combustível no chão das florestas, os incêndios seriam bem menos agressivos

Uma outra afirmação feita na postagem foi sobre o uso de cabras e bodes soltos nas matas – esses animais comem a vegetação rasteira e também resolvem o problema do excesso de combustível para os incêndios. As “cabras-bombeiras” (e os bodes por extensão) norte-americanas conseguem realizar um trabalho preventivo a incêndios florestais por lá, coisa que os “bois bombeiros” brazucas, de acordo com os nossos especialistas, não conseguiriam fazer por aqui. Vamos entender essa história. 

Cabras e bodes, como nós brasileiros sabemos muito bem, são animais de um apetite insaciável e que conseguem comer praticamente tudo. Os maiores rebanhos desses animais aqui no Brasil estão concentrados na Região Nordeste – particularmente no Semiárido. Esses rebanhos, aliás, são extremamente danosos para o meio ambiente local. 

Em épocas de seca, enquanto bovinos, equinos e muares padecem pela falta de pastagem, as cabras e bodes dão o seu jeito para sobreviver. Esses animais escalam os galhos de árvores em busca das folhas e galhos mais altos. Também conseguem comer plantas espinhosas como as coroas-de-frade, os xique-xiques e outras cactáceas do sertão. Quando todas as fontes de alimentos se esgotam, os animais conseguem cavar o solo em busca de raízes. 

A grande quantidade de cabras e bodes que são criados soltos nos sertões nordestinos vem ajudando a aumentar o problema da desertificação, um fenômeno facilmente observado em várias regiões do Semiárido. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, já alertava sobre esse problema ainda no final do século XIX. 

Foi se valendo justamente dessa capacidade das cabras e bodes de comeram praticamente qualquer tipo de vegetação, que muitos agricultores dos Estados Unidos passaram a soltar esses animais em matas sujeitas aos temidos incêndios florestais anuais daquele país. Aliás, essa é uma ideia que vem sendo usada há muito tempo em diversos países da Europa – a Irlanda é um desses casos

No subúrbio de Howth ao Norte de Dublin, capital do país, o Conselho Local autorizou que um rebanho de 25 cabras passasse a pastar nas colinas próximas, uma região propensa a fortes queimadas. As cabras são de uma antiga raça local, a Old Irish Goat, espécie que tem uma predileção pela vegetação típica dessas colinas. Essa espécie, inclusive, estava ameaçada de extinção – a iniciativa acabou também ajudando a resolver esse problema. 

Um Estado norte-americano onde as “cabras-bombeiras” tem se tornado bastante populares é a California, um dos mais afetados pelos sucessivos incêndios florestais. A fama dos animais cresceu muito após um feito histórico – um rebanho de cabras ajudou a salvar a Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, que fica nas cercanias de Los Angeles, em 2019. 

Em maio daquele ano, quando a intensidade dos incêndios florestais na Califórnia já estava assustando muita gente, os administradores da Biblioteca contataram uma empresa e “contrataram” um rebanho de 500 cabras para consumir a vegetação excedente nas matas ao redor da instituição. 

Em poucos dias os animais concluíram seu trabalho e comeram toda a vegetação rasteira e arbustiva do local. Essa área limpa atuou como uma barreira contra o avanço das chamas que tomaram conta desta floresta logo depois, e criou condições para que os bombeiros conseguissem trabalhar com maior tranquilidade. Ou seja: os animais salvaram a Biblioteca. 

Desde então surgiram inúmeras empresas especializadas na locação de rebanhos de cabras e bodes. Em função do tamanho da área a ser limpa é determinado o número de animais que serão necessários para a “realização do serviço”. Os animais são transportados em caminhões especiais até o local, onde são soltos e iniciam imediatamente a sua missão – comer a maior quantidade possível de vegetação. 

Fazendas e comunidades que usaram os serviços ficaram muito satisfeitas com os resultados. O custo fica muito próximo do que seria dispendido com a contratação de trabalhadores. Aliás, o que se comenta é que os animais trabalham sem reclamar e não geram custos trabalhistas adicionais. 

Os bombeiros também tem elogiado bastante o serviço feito pelas cabras e bodes. Incêndios em matas que foram limpas pelos animais são bem mais fáceis de controlar e os riscos para os bombeiros são bem menores. E a ideia, que até bem pouco tempo atrás era vista como um experimento de empreendedores, já está sendo vista como um ótimo negócio para muitas empresas. 

Além do excelente serviço na limpeza de áreas florestais, esses animais também fornecem carne, leite e derivados, além do couro (o melhor e mais macio é o couro das cabras), produtos que amplificam as possibilidades de ganhos das empresas. Com as mudanças climáticas e com uma redução gradual dos recursos hídricos em todo o Oeste e Meio-Oeste dos Estados Unidos, o negócio das “cabras-bombeiras” deverá prosperar muito nos próximos anos. 

Voltando a falar do caso do Pantanal Mato-grossense. Rebanhos bovinos consomem grandes quantidades de forragem, mas não tem o apetite eclético das cabras e dos bodes. Apesar de menos eficientes na limpeza das matas, esses animais poderiam sim ajudar a minimizar os riscos de grandes incêndios nas matas da região. 

Um outro detalhe importante – muitas fazendas de criação de gado estão estabelecidas na região há mais de 200 anos e o Pantanal continua sendo o bioma mais preservado do país, apesar dos inúmeros problemas ambientais que possui. 

Chega uma hora em que é preciso deixar ideologias de lado e agir com pragmatismo. O que os norte-americanos estão fazendo com as “cabras-bombeiras” é um exemplo disso. 

A TEMPORADA 2022 DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NOS ESTADOS UNIDOS

A temporada das queimadas aqui no Brasil está começando. O mês de maio marca o início do período de seca no Cerrado Brasileiro, que deve se estender até o mês de setembro. Na Amazônia, o verão começa em julho e seguirá até o final do ano. 

Aqui é importante lembrar que esses dois grandes biomas brasileiros apresentam apenas duas estações climáticas bem definidas – o verão, época com clima quente e seco, e o inverno, época das chuvas. A vegetação seca, principalmente em áreas do Cerrado, e as altas temperaturas formam as condições ideais para a ocorrência de grandes queimadas e também para a publicação de grandes manchetes na imprensa internacional falando das queimadas na Floresta Amazônica. 

Hoje, entretanto, vamos falar da temporada de incêndios florestais nos Estados Unidos, que esse ano começou mais cedo. Com o final do inverno e com o tempo seco, já foram registrados mais de 20 mil focos de incêndio em áreas de florestas por todo o país nos primeiros messes de 2022, o que já consumiu cerca de 400 mil hectares de vegetação

As regiões em situação mais crítica estão nos Estados do Meio-Oeste, especialmente no Arkansas, no Colorado e no Novo México, onde a situação é particularmente grave – metade dos 33 condados do Estado já registraram focos de incêndios nas últimas semanas. Na região de Denver, a capital do Colorado, as autoridades estão em alerta máximo. As matas locais estão extremamente secas, com muitos ventos e calor forte e fora de época. Além disso, há mais de uma década que a região é vítima de grandes incêndios florestais nessa época. 

Outro Estado norte-americano que se prepara para uma temporada de fortes incêndios é a Califórnia. Segundo um balanço das autoridades locais, 93% da área do Estado está enfrentando uma seca severa, uma situação que tende a se agravar nos próximos meses. Em 2021, os incêndios destruíram mais de 1 milhão de hectares de florestas na Califórnia, uma área equivalente à do Estado de Connecticut. 

Um sintoma da escassez hídrica na Califórnia pode ser visto nos reservatórios de água – a maior represa de abastecimento do Estado, Shasta, está com apenas 38% da sua capacidade máxima. A média histórica nesse período de seca é de 48%, o que sinaliza que também que haverá problemas para o abastecimento de água da população nos próximos meses

As mudanças climáticas vêm provocando uma redução sistemática das chuvas e das precipitações de neve nos últimos anos em toda a região Oeste e Central dos Estados Unidos. O rio Colorado, que é um dos mais importantes dessas regiões, vem sofrendo com a redução sistemática dos seus caudais, o que se reflete em prejuízos para a agricultura irrigada de diversos Estados. 

A falta de chuvas também está prejudicando o crescimento da vegetação de altitude e a formação do manto de neve nas Montanhas Rochosas. Quando ocorre uma nevasca, a poeira e a vegetação seca estão se misturando com a neve, que fica com um aspecto barrento. Isso prejudica o efeito albedo, que é a reflexão de grande parte da energia da luz solar sol.  

Cores claras, como o branco da neve no alto das montanhas, refletem a maior parte da radiação solar. Numa neve com aspecto barrento, essa reflexão fica prejudicada e a neve acaba absorvendo calor e derrete rapidamente. Sem a camada de neve, as rochas no topo das montanhas acabam absorvendo quantidades cada vez maiores de calor e acelerando cada vez mais o derretimento da neve.  

É sempre importante lembrar que a neve acumulada no alto de cadeias montanhosas costuma derreter gradativamente ao longo do ano e essa água alimenta as nascentes de muitos rios. Muitos dos afluentes do rio Colorado são alimentados a partir de nascentes no alto das Montanhas Rochosas, nascentes essas que estão ficando cada vez mais comprometidas pela falta de neve. 

O Governo dos Estados Unidos já havia divulgado em janeiro um grande plano para o combate aos incêndios florestais nos próximos 10 anos. Esse plano, batizado de Estratégia de Crise de Incêndios Florestais, prevê tornar as florestas mais saudáveis e resistentes a esses eventos. 

Um dos pontos chaves dessa estratégia é a redução do volume de matéria combustível nessas florestas. Galhos e árvores caídas no chão da floresta, vegetação rasteira e árvores velhas, entre outros elementos, são reservas de material combustível a espera de uma pequena chama para entrar em combustão. Reduzir a quantidade desses materiais é fundamental para evitar tais situações. 

Esse controle pode ser feito com a poda sistemática e o corte de árvores, culminando com queimadas controladas desses materiais. Em algumas regiões da Califórnia, citando um exemplo, os fazendeiros conseguem fazer esse controle com o uso de rebanhos de cabras soltas no meio da mata – os vorazes animais comem todos os arbustos e vegetação rasteira, deixando muito pouco combustível para os incêndios. 

Atualmente, o Serviço Florestal dos Estados Unidos realiza esse tipo de ação preventiva em cerca de 800 mil hectares de florestas no Oeste norte-americano. Com a adoção do novo plano, O Serviço Florestal, o Departamento do Interior e outros parceiros estimam limpar cerca de 8 milhões de hectares, além de outros 12 milhões de hectares em parcerias com estados, municípios e empresas privadas nos próximos 10 anos. 

Entre as regiões prioritárias para a implantação desse plano estão o Arizona, Colorado, Califórnia, Oregon e Washington, justamente os Estados que mais vem sofrendo com os grandes incêndios florestais nos últimos anos. 

A questão dos incêndios florestais está ficando tão séria nos Estados Unidos que até a produção agrícola está sendo prejudicado. Muito produtores do Meio-Oeste, onde se concentra a maior parte da produção de grãos do país, já anunciaram que vão adiar o início do plantio do milho e do trigo esse ano por causa do medo desses incêndios. 

Em uma época de escassez de alimentos por causa da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, essa é uma notícia que preocupa muitos governos pelo mundo afora. Isso poderá, inclusive, criar uma pressão sobre áreas florestais remanescentes de outros países produtores de grãos como é o caso do Brasil. 

Seria importante de políticos, artistas, celebridades e famosos internacionais parassem de falar tanto das queimadas e da “destruição” da Floresta Amazônica e que passassem a prestar um pouco mais de atenção em tudo o que está acontecendo no resto do mundo e, particularmente, nas florestas dos Estados Unidos. 

Como sempre repetimos aqui no blog, a preservação da Amazônia é importante, porém, todas as florestas do planeta são fundamentais para a estabilidade do clima mundial. Infelizmente, muita gente acaba esquecendo disso 

ÍNDIA ENFRENTA UMA ONDA DE CALOR EXTREMO, OU FALANDO DO INCÊNDIO EM UM ATERRO SANITÁRIO EM NOVA DÉLHI 

Na série televisiva indiana Jogos Sagrados (Sacred Games), de 2018, uma disputa entre facções criminosas resulta num grande incêndio no aterro sanitário de Mumbai. Um dos grupos controlava esse aterro e faturava milhões de rupias, a moeda local, cobrando uma participação nos ganhos das milhares de pessoas que garimpavam resíduos recicláveis no local.  

Um grupo rival comandado por Ganesh Gaitonde, nome inspirado em um personagem real do submundo local, ateou fogo no aterro buscando reduzir o poder econômico do outro grupo. Segundo a narrativa da produção, o fabuloso incêndio iluminou as paisagens noturnas da cidade de Mumbai por quase uma semana. 

Parte da narrativa da ficção se tornou realidade nos últimos dias: um grande incêndio está devastando um dos aterros sanitários de Nova Délhi, a capital do país. Porém, ao que tudo indica, as chamas foram provocadas por uma forte onda de calor que se abateu sobre o Norte da Índia. Segundo informações dos meteorologistas, as temperaturas locais poderão atingir a marca de 46° C nesta quinta-feira, dia 28 de abril

A maior parte do território da Índia tem um clima Tropical de Monção, que é muito parecido com o da nossa Região Amazônica. São meses com tempo extremamente seco e quente, seguido por uma forte temperada de chuvas. Temperaturas acima dos 40° C não são nenhuma novidade no país. 

O que chama a atenção na notícia é que Nova Délhi fica na faixa Norte do país onde predomina um clima subtropical com estações bem definidas. Os invernos são rigorosos, inclusive com eventuais quedas de neve e muitas ondas de frio vindas da Cordilheira do Himalaia, e os verões são bem quentes, com fortes ondas de calor vindas das regiões desérticas e semiáridas do Rajastão. Nesse momento, a região vive a primavera e uma onda de calor tão intensa é absolutamente anormal. 

Nova Délhi é a segunda maior cidade da Índia, com uma população de cerca de 11 milhões de habitantes, praticamente a mesma da cidade de São Paulo. Porém, quando consideramos a região metropolitana expandida, essa população supera a casa dos 24 milhões de habitantes. E como toda grande metrópole, Nova Délhi é um caldeirão de problemas.  

Comecemos falando da poluição do ar – a cidade tem uma das piores atmosferas do mundo. Aliás, 14 das 15 cidades mais poluídas do mundo estão na Índia. A maior parte dessa poluição vem dos escapamentos da gigantesca frota de veículos da cidade, que vai das dezenas de milhares de riquixás, pequenos veículos de três rodas que funcionam como taxis, até grandes ônibus e caminhões com motores a diesel antigos e altamente poluentes. 

Outra grande fonte de poluição são as usinas termelétricas a carvão responsáveis por parte importante do abastecimento de energia da população. Nos meses de inverno, a cidade costuma ficar escondida sob uma nuvem tóxica de fumaça. De acordo com estudos realizados pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, um indiano médio que vive na região metropolitana de Nova Délhi, e também de outras grandes cidades do país, terá uma expectativa de vida 10,2 anos menor do que uma pessoa que vive em ambientes com uma atmosfera mais saudável. 

Na temporada da Monção, época de fortes chuvas que caem no Sul e Sudeste da Ásia no verão, os problemas são as enchentes e os alagamentos, nada muito diferente que os brasileiros que vivem em grandes e médias cidades conhecem. Nos últimos anos, devido as mudanças climáticas globais, essas chuvas ficaram mais irregulares, com volumes muito acima da média em alguns anos, e de chuvas mais fracas em outros. 

De acordo com estimativas de 2018, a região metropolitana de Nova Délhi produz cerca de 12 mil toneladas de resíduos a cada dia. Para efeito de comparação, a região metropolitana de São Paulo produz cerca de 27 mil toneladas a cada dia. Enquanto os resíduos dos paulistas apresentam uma grande quantidade de embalagens de produtos industrializados e restos de comida, os dos indianos é formado basicamente por resíduos de produtos e objetos absolutamente inservíveis, o que nos dá uma ideia da pobreza extrema no país. 

Apesar de gerar menos da metade dos resíduos que a maior região metropolitana brasileira produz, os serviços de coleta de resíduos de Nova Délhi são bem mais precários – simplesmente se recolhem os materiais descartados nas residências e os que são coletados nas ruas e os jogam em um grande lixão a céu aberto. Os moradores locais costumam chamar esses locais de “Montanhas da Morte”. Um dos maiores “lixões” da região é o de Ghazipur, onde as montanhas de resíduos superam a marca dos 65 metros. 

Uma cena comum nesses locais, e que nós brasileiros conhecemos muito bem, são as centenas de catadores de resíduos que se amontoam ao redor das pilhas de materiais despejadas pelos caminhões de transporte. São homens, mulheres e muitas crianças – famílias inteiras trabalham e, literalmente, moram nesses locais. Muitas chegam a trabalhar 15 horas por dia simplesmente para ganhar o suficiente para comprar alimentos. 

Cercados de materiais inflamáveis e se valendo do uso de pequenas fogueiras para preparar seus alimentos, não são incomuns os incêndios provocados por esses catadores. O problema é que, com uma temperatura ambiente tão alta, esses materiais estão muito secos, o que facilita a propagação das chamas. 

Dezenas de bombeiros estão lutando há três dias na tentativa de conter as chamas, porém sofrem com a dificuldade de acesso e falta de água. Segundo as informações das autoridades locais, esse é o terceiro incêndio em um depósito de resíduos apenas nesse último mês na região, o que mostra a gravidade do problema. 

Os problemas ambientais criados por esse descarte inadequado de resíduos sólidos são enormes. Eles incluem a proliferação de vetores como insetos e ratos, poluição de corpos de água, mal cheiro e liberação de gases tóxicos, entre muitos outros problemas. Com os incêndios, as populações que moram nas áreas circunvizinhas ficam expostas a grandes volumes de fumaça altamente tóxica. 

Há também um problema sócio econômico importante – milhares de pessoas extremamente pobres (e sempre que se fala em Índia trata-se de pobreza absolutamente extrema) perderam a sua única fonte de renda e de acesso a alimentação. Esses pobres pertencem majoritariamente a casta dos Dalits ou dos intocáveis e moram nas ruas da cidade. 

Apesar da Constituição da Índia proibir a divisão da população por castas, rígidos grupos hierárquicos baseados em seu karma (trabalho) e dharma (a palavra hindu para religião), essa prática ainda ocorre no país. Os Dalits formam a casta mais baixa entre os indianos e representam cerca de 15% da população do país. E sempre que uma tragédia como essa ocorre, são essas pessoas as que mais sofrem. 

Normalmente, problemas ambientais e sociais caminham lado a lado. E esse caso em Nova Délhi é um exemplo vivo disso. 

FALANDO EM CETÁCEOS AMEAÇADOS, COMO ESTÃO AS TONINHAS DO LITORAL BRASILEIRO? 

Na nossa última postagem falamos da dramática situação das vaquitas (Phocoena sinus), um pequeno cetáceo que habita as águas do Norte do Golfo da Califórnia, no México. Segundo relatos recentes dos pesquisadores, a população atual desses animais é inferior a 20 espécimes – há quem afirme que restam apenas 6 vaquitas vivendo no habitat

Considerado o cetáceo mais ameaçado do mundo, esses animais ganharam um fio de esperança no último mês de fevereiro – o Governo dos Estados Unidos, se valendo de cláusulas de proteção ambiental integrantes do T-MEC, um acordo comercial assinado entre os Estados Unidos, o Canadá e o México, passou a cobrar uma atitude mais proativa dos mexicanos em relação ao estado crítico das populações de vaquitas. Ainda há um fio de esperança para se tentar salvar a espécie. 

Aproveitando o gancho, vamos falar um pouco das toninhas (Pontoporia blainvillei), uma prima distante das vaquitas que habita um trecho da costa do Brasil. As toninhas são cetáceos com parentesco próximo com os golfinhos e os botos. A espécie também é conhecida como franciscana, boto-amarelo, boto-cachimbo, boto-garrafa, manico e golfinho-do-rio-da-Prata. O animal pode atingir um comprimento máximo de 1,8 metro e um peso entre 36 e 50 kg. 

As toninhas tem um “bico” longo e fino, nadadeiras peitorais curtas e largas, além de uma nadadeira dorsal pequena e triangular. Diferente dos golfinhos e dos botos, que adoram dar saltos e fazer piruetas acrobáticas, as toninhas são tímidas e discretas, subindo à superfície apenas para respirar. Esses animais tem seu habitat numa faixa costeira que vai do Espírito Santo até o rio da Prata, na divisa entre o Uruguai e a Argentina.  

Diferente dos seus primos, cetáceos que habitam as águas do mar aberto, as toninhas preferem as águas costeiras com profundidades entre 30 e 50 metros, uma característica que transformou a espécie numa vítima fácil das redes de pesca. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, perto de 1.500 toninhas morrem todos os anos presas em redes de pesca no Brasil. Como a espécie tem uma taxa de reprodução muito baixa – as fêmeas têm apenas um filhote a cada um ou dois anos, a espécie está classificada como “criticamente em perigo”. É a espécie de cetáceo mais ameaçada do Brasil e, possivelmente, da América do Sul.  

As toninhas costumam viver em grupos familiares entre 2 e 5 indivíduos e, em muitos casos, vivem solitárias. Sua alimentação é constituída por peixes, crustáceos e, principalmente, camarões, o seu “prato predileto”. Há cerca de dois anos, publicamos uma postagem falando das ameaças vividas por uma população de toninhas que vive nas proximidades da foz do rio Doce. 

Além da brutal redução dos estoques de alimentos criada pela acumulação de sedimentos carreados pelas águas do rio depois do fatídico acidente com a barragem de rejeitos de Mariana em 2015, as espécies sobreviventes apresentam altos níveis de contaminação por metais pesados. Ao se alimentarem dessas espécies menores encontradas nessa região, as toninhas passam a sofrer com a bioacumulação de metais pesados.  

Estudos realizados em corpos de toninhas encontradas mortas em redes de pesca ou em praias têm constatado a presença de elevados níveis de substâncias organocloradas, que têm origem em resíduos de pesticidas e fertilizantes carreados pelas chuvas para as calhas dos rios, além de grandes níveis de metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e cobre. 

Isso demonstra como a espécie já é naturalmente sensível a esses poluentes. No caso do rio Doce, onde estudos já demonstraram que os níveis atuais de metais pesados nas águas estão, em alguns casos, até 200 vezes superiores aos níveis observados antes do rompimento da Barragem de Fundão, a situação das toninhas é preocupante.  

Além da redução dos estoques e da contaminação das suas fontes de alimentos, as toninhas também estão sofrendo com a poluição das águas por resíduos sólidos, principalmente plásticos. As análises do conteúdo estomacal de toninhas mortas têm encontrado volumes cada vez maiores de detritos de todos os tipos. 

Com a turbidez das águas devido à presença de grandes quantidades de sedimentos em suspensão, as toninhas podem estar confundindo facilmente pedaços de plásticos com peixes e crustáceos, um problema que tem afetado outras espécies da região da foz do rio Doce, em especial as ameaçadas tartarugas-de-couro.  

Como é bem fácil de observar, os problemas criados pelo grande vazamento de rejeitos de mineração e de lama extrapolam os limites geográficos da bacia hidrográfica do rio Doce e invadem os domínios do Oceano Atlântico. O risco de desaparecimento da população de toninhas da região da foz do rio poderá aumentar ainda mais a quantidade de problemas já enfrentados pelos pescadores da região, que já ressentem de uma grande redução dos estoques pesqueiros.   

Infelizmente, os problemas da espécie não ficam restritos a esse trecho do Norte do Espírito Santo – em toda a área de ocorrência da espécie ao longo do litoral das regiões Sudeste e Sul, as toninhas vem sendo vítimas das redes dos pescadores. O habitat da espécie se mistura com as principais áreas de pesca dessas regiões e os acidentes são comuns.  

Lembramos aqui que, apesar desses animais possuírem um corpo com formas hidrodinâmicas de um peixe, eles são mamíferos e respiram o oxigênio da atmosfera como nós humanos e outros animais terrestres. As toninhas precisam subir periodicamente até a superfície para respirar – se ficam presas nas redes de pesca, elas morrem afogadas, um problema que também afeta as tartarugas marinhas. 

No início de outubro do ano passado, um conjunto de instituições de pesquisa – onde se incluiu a UFPR – Universidade Federal do Paraná, e o IFPR – Instituto Federal do Paraná, organizaram o evento Toninhathon. O principal objetivo foi atrair estudantes, pesquisadores, pescadores, gestores públicos e a sociedade em geral para uma luta conjunta pela preservação dessa e de outras espécies marinhas. 

Com mais de 350 participantes, o encontro buscou compartilhar conhecimentos e buscar soluções conjuntas para a preservação das toninhas. Entre as discussões se destacaram a busca de mecanismo que permitam a redução da captura acidental, o desenvolvimento econômico sustentável, além da comunicação e governança participativa. 

A triste saga das vaquitas mexicanas mostra que as sociedades não podem ficar de braços cruzados vendo uma espécie animal caminhar para a extinção devido a ações humanas. Cada espécie viva é o resultado de processos evolutivos que se desenrolaram por milhões de anos – o desaparecimento de qualquer espécie é uma perda irreparável para toda a vida no planeta. 

Então – salvem as toninhas! 

VAQUITA, A ESPÉCIE DE CETÁCEO MAIS AMEAÇADA DO MUNDO 

A vaquita (Phocoena sinus) é um pequeno cetáceo aparentado com as toninhas-comuns que habita exclusivamente o Norte do Golfo da Califórnia. Com um tamanho médio de 1,4 metro para as fêmeas e 1,35 metro para os machos, as vaquitas são facilmente reconhecíveis pelos anéis escuros ao redor dos olhos, pelas manchas nos lábios e por uma linha entre as barbatanas dorsais e a boca. 

Os animais vivem em águas rasas e turvas com profundidades inferiores a 150 metros. Sua dieta inclui principalmente peixes bentônicos (que vivem junto ao leito marinho), além de crustáceos e lulas. Os biólogos estimam que a expectativa de vida das vaquitas é de 20 anos, com a maturidade sexual atingida entre os 3 e 6 anos. 

Esses animais habitam exclusivamente, desde tempos imemoriais, a região do delta do rio Colorado. Devido aos seríssimos problemas ambientais desse rio, praticamente não há mais água doce na região do delta e a vaquita está em risco de extinção eminente – biólogos calculam que restam menos de vinte animais da espécie, números que colocam a espécie na triste situação de cetáceo mais ameaçada do mundo

A bacia hidrográfica do rio Colorado, conforme já tratamos em outras postagens aqui no blog, é a mais aproveitada do mundo. Suas águas são responsáveis pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos e quase 90% do total das suas águas é desviado para fins de irrigação em 2 milhões de hectares. Essa super exploração das águas praticamente secou a região do delta no Golfo da Califórnia, destruindo o habitat das vaquitas. 

A maior ameaça a esses animais, entretanto, são as atividades humanas. A mais grave e, de longe, a que causa a maior morte de vaquitas são redes dos pescadores ilegais de totoaba (Totoiaba macdonaldi), um peixe marinho de grande valor comercial e também ameaçado de extinção. Os problemas também incluem a acidificação das águas do mar, acidentes e choques com embarcações, além das mudanças climáticas. 

O Governo Mexicano vem sendo pressionado, já há muitos anos, a tomar medidas para a conservação da espécie por grupos ambientalistas. Esses esforços, entretanto, parecem nunca ter logrado maiores êxitos e a população desses animais vem declinando continuamente. 

Recentemente, o nível de cobranças por medidas para se evitar a eminente extinção das vaquitas mudou de patamar – o Governo dos Estados Unidos invocou o tratado comercial T-MEC para forçar o México a “se mexer” e buscar uma solução para mais essa tragédia ambiental. 

Assinado em 2018, entre os Estados Unidos, o Canadá e o México, esse acordo comercial substituiu o NAFTA – Tratado de Livre-Comércio da América do Norte, na sigla em inglês. O novo acordo passou a vigorar em 1 de julho de 2020. Além de estabelecer regras comerciais para a circulação de mercadorias entre esses países, alíquotas de impostos, regras para a contratação de serviços e mão de obra, o acordo inclui importantes cláusulas ambientais

O USTR – Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos, na sigla em inglês, encaminhou um ofício para a Secretaria do Comércio do México solicitando o cumprimento dos compromissos ambientais previstos no T-MEC em relação a proteção das vaquitas. O órgão também cobrou medidas para se coibir a pesca ilegal da totoaba. 

Funcionários do Ministério da Economia do México já responderam essa solicitação, informando que a pasta “vai coordenar os trabalhos entre as diferentes autoridades mexicanas e dos Estados Unidos com o objetivo de apresentar oportunamente os esforços e medidas adotadas para proteger as espécies marinhas nas águas nacionais“. 

Os mecanismos do T-MEC estabelecem um prazo de 30 dias para a consulta entre as partes sobre assuntos relacionados aos acordos comercias, e 75 dias de prazo antes que medidas retaliatórias venham a ser tomadas. A pronta resposta do Governo do México mostra a seriedade da questão. 

O Golfo da Califórnia, também conhecido como Mar de Cortés ou Mar Bermejo, está totalmente inserido dentro do território mexicano e ocupa uma área total de 160 mil km2. O conquistador espanhol Hernán Cortés navegou por suas águas ainda em 1535 após derrotar o Império Asteca e conquistar o México. 

A responsabilidade dos mexicanos nos esforços de conservação das vaquitas é inquestionável, porém os norte-americanos também tem sua cota de culpa. Desde o início do século XX, as águas do rio Colorado vêm sendo desviadas e represadas para uso em sistemas de irrigação dentro do território dos Estados Unidos, práticas que foram reduzindo gradativamente o volume dos caudais que atingem o Golfo da Califórnia. 

O rio Colorado é um dos mais longos rios da América do Norte, com nascentes nas Montanhas Rochosas, no Estado americano do Colorado, e, ao longo dos seus 2.320 quilômetros, banha os Estados de Utah, Arizona, Nevada e Califórnia, entrando a seguir no México, onde encontra a sua foz no Golfo da Califórnia. Várias cidades importantes dos Estados Unidos como Los Angeles, Las Vegas, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson utilizam sistemas de abastecimento que captam água do rio Colorado. 

A primeira grande obra do gênero foi o Canal do Rio Álamo, concluído em 1901, que passou a desviar as águas do rio Colorado na direção do Imperial Valey, no Sul da Califórnia. Em 1942, foi construído um novo canal, o All-American, em substituição ao Canal do rio Álamo. Em 1932, foi iniciada a construção da Represa Hoover, a obra mais impactante de toda a bacia hidrográfica do rio Colorado. 

O trecho final do rio Colorado, já dentro do território do México, acabou sendo transformado em uma sucessão de canais que ficam secos durante a maior parte do ano. Milhares de agricultores da região foram obrigados a migrar para outras regiões do país por causa da falta de água. A fartura de peixes e crustáceos que existia na região deltaica também desapareceu, impactando diretamente no tamanho da população das vaquitas. 

Os riscos de extinção da espécie são altíssimos, porém, com essa pressão econômica vinda dos Estados Unidos, é muito provável que as autoridades ambientais do México passem a agir com seriedade nessa questão. As vaquitas podem ganhar, ao menos, uma sobrevida, quiçá uma chance de escapar da extinção.

Eu sempre gosto de citar o caso do baiji (Lipotes vexillifer), também conhecido como golfinho-lacustre-chinês ou golfinho branco. Relatos antigos falam que os baijis eram encontrados aos milhares ao longo de toda a bacia hidrográfica do Yangtzé. Porém, nenhum indivíduo da espécie foi visto nas águas do rio desde 2006. 

A pesca predatória, a construção de barragens de represas, a navegação intensa e, principalmente, a grande poluição das águas do rio Yangtzé foram as responsáveis pelo irreversível declínio e desaparecimento da espécie. 

Torço para que as vaquitas tenham um destino diferente dos baijis

A GUERRA NA UCRÂNIA E A CRISE ENERGÉTICA QUE SE DESCORTINA NA ALEMANHA

A invasão do território da Ucrânia por tropas da Rússia completou dois meses ontem e ainda não há sinais de uma solução da questão no curto prazo. Entre as desculpas esfarrapadas dos russos para essa intervenção está a proteção de russos étnicos em regiões separatistas no Leste do país. 

Além da destruição de propriedades, de infraestruturas e mortes de civis e militares dentro da Ucrânia, esse conflito trouxe uma série de problemas para muitos países do mundo, especialmente dentro da Europa. Conforme já destacamos em postagens anteriores, o conflito ameaça uma parte importante do fornecimento mundial de alimentos – especialmente o trigo, e também o de combustíveis – destaque aqui para o gás. 

Um dos países em situação delicada na questão dos combustíveis é a Alemanha – 55% do gás natural, 50% do carvão e 30% do petróleo consumidos pelo país vem da Rússia. A situação ganha contornos ainda mais dramáticos quando se analisa o atual cenário energético da Alemanha. 

No final de 2021, em continuidade a uma política de substituição das fontes energéticas poluentes como a queima de carvão e inseguras como a energia nuclear, a Alemanha desativou 3 usinas nucleares. Outras 3 plantas nucleares, as últimas ainda operacionais no país, devem ter suas operações encerradas até o final desse ano. 

Até o ano de 2038, de acordo com o cronograma estabelecido pelo Governo, a queima do carvão mineral para geração de energia elétrica na Alemanha deverá estar totalmente abolida. Fontes de geração de energias renováveis como a eólica e a fotovoltaica, que respondem hoje por 22% e 9%, respectivamente, da matriz energética do país, deverão ampliar substancialmente a sua participação. 

As boas intenções das políticas verdes desenvolvidas ao longo dos últimos anos na Alemanha colocaram o país em uma situação de escassez energética após o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. E as coisas poderão piorar muito caso a Rússia seja impedida ou desista de fornecer combustíveis para o país. 

Sem possuir um “Plano B” na área energética para o curto prazo, muitos políticos alemães já falam abertamente em manter e até em ampliar a geração de energia em centrais termelétricas a carvão, além de adiar por tempo indeterminado o desligamento das últimas centrais nucleares do país – a reativação de usinas desligadas também poderá ser reconsiderada. 

Mesmo que seja aprovada a continuidade da geração nuclear no país, serão necessários entre um ano e meio a dois anos até que as operações se normalizem. Devido ao cronograma de desligamento que estava em andamento, as usinas não possuem estoques de elementos radiativos para alimentar os reatores – será preciso encomendar e esperar a produção desses materiais em empresas altamente especializadas. 

Outro problema será suprir a falta de mão de obra. Muitos dos antigos operadores e técnicos se aposentaram e, devido à falta de perspectivas de mercado de trabalho, muitos cursos na área de energia nuclear foram encerrados nas universidades do país e os jovens optaram por seguir carreira em áreas mais promissoras. 

Ao longo das últimas décadas, os alemães conquistaram uma posição extremamente confortável no campo energético devido aos acordos comerciais com a Rússia, especialmente para o fornecimento de gás natural. O produto era transportado desde os campos de produção na Sibéria até a Alemanha por sistemas de gasodutos que atravessavam o território da Ucrânia. 

Em 2011, entrou em operação o gasoduto Nord Stream, um revolucionário e polemico sistema de tubulações sob do Mar Báltico, que passou a permitir o transporte do gás diretamente da Rússia para a Alemanha. Esse sistema garantia o transporte de 55 bilhões de metros cúbicos de gás por ano. 

Um segundo gasoduto, o Nord Stream 2, que duplicaria o volume de gás transportado para a Alemanha, estava em fase final de construção. A obra foi paralisada após o início das agressões russas na Ucrânia, o que fez acender as luzes de alerta no país. 

Para desespero dos alemães, a Comunidade Europeia passou a impor uma série de embargos econômicos à Rússia e, entre eles, estaria uma provável suspensão das compras de gás, petróleo e carvão. A maior economia da Europa e uma das mais importantes do mundo passou a correr o risco de ficar sem energia elétrica e combustíveis. 

As perspectivas ruins para as empresas e consumidores da Alemanha passou para o campo dramático após o Governo da Rússia anunciar a construção de um novo gasoduto desde a Sibéria até a China passando pela Mongólia. A China, conforme já tratamos em uma postagem aqui no blog, está sofrendo com a falta de combustíveis – em especial o carvão e o gás. A construção desse novo gasoduto seria muito bem-vinda. 

O gás russo que estaria sendo negociado com os chineses seria justamente o gás que hoje está sendo fornecido para a Alemanha e que teria o seu fornecimento suspenso devido aos embargos econômicos da União Europeia. 

A ascensão da Rússia à posição de grande player do mercado mundial de combustíveis foi uma decorrência da complicada situação geopolítica do Oriente Médio. Apesar da abundância de combustíveis fósseis na região, o transporte dos produtos até os mercados na Europa sempre foi problemático devido ao ambiente belicoso entre os países da região. 

Se valendo da relativa tranquilidade dentro de suas fronteiras e de uma aparente harmonia entre seus antigos estados satélites, os russos se lançaram ao desafio de construir gigantescos oleodutos e gasodutos desde a longínqua Sibéria até os países da Europa. Vários desses sistemas atravessam o território da Ucrânia. Países europeus ficaram felizes ao receber um produto mais barato e com uma suposta garantia de fornecimento contínuo. 

Ainda não é possível avaliar quais serão os desdobramentos e as consequências do conflito entre os russos e os ucranianos, ou ainda quanto tempo ele durará. O que podemos afirmar, com algum grau de certeza, é que questões energéticas de países não se resolvem do dia para a noite. 

É preciso desenvolver novos relacionamentos com fornecedores alternativos, negociar contratos e preços, construir infraestruturas para o transporte e armazenamento dos combustíveis, desenvolver uma rede de logística para a distribuição dentro do país, para só então usar os combustíveis nas residências, nas indústrias e também para a geração de energia elétrica. Falamos aqui de prazos entre 5 e 10 anos. 

Adaptando um ditado aqui do meu bairro, os alemães foram pegos de “calças curtas” nessa história e vão pagar muito caro pela pressa que tiveram ao “esverdear” muito rapidamente a produção de energia do país. 

UNESCO RECONHECE DOIS GEOPARQUES NO BRASIL 

No último dia 13 de abril, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura, reconheceu 8 novos geoparques em todo o mundo. A lista inclui os geoparques de Salpausselkä, na Finlândia; de Ries, na Alemanha; de Cefalônia-Ítaca, na Grécia; de Mëllerdall, em Luxemburgo; da Região de Buzău, na Romênia; e o de Platåbergens, na Suécia.  

Dois desses geoparques ficam aqui no Brasil: o da Região do Seridó, no Rio Grande do Norte, e o dos Cânions do Sul, região localizadas entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esses dois novos geoparques reconhecidos pela UNESCO vêm se juntar ao da Chapada do Araripe, localizado na divisa ente os Estados do Ceará, Piauí e Pernambuco. Com esses novos reconhecimentos, a Rede Mundial de Geoparques da UNESCO reúne agora 177 áreas em 46 países 

Geoparques são áreas que reúnem importantes características ambientais, culturais, científicas, paisagísticas, geológicas, arqueológicas, paleontológicas e históricas. Esse selo de reconhecimento internacional vai contribuir para os esforços de conservação e de desenvolvimento sustentável dessas regiões, além de melhorar as condições econômicas das comunidades locais. 

A região do Seridó fica localizada na divisa dos Estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte dentro do bioma Caatinga Nordestina. De acordo com estudos do folclorista e historiador Luís da Câmara Cascudo, uma das prováveis origens do nome Seridó é a expressão dos antigos índios tapuias da região e que faziam referência a um lugar com “pouca folhagem e pouca sombra” – ceri-toh

O Seridó engloba um total de 54 municípios, sendo 28 em território potiguar e 26 em território paraibano. O Geoparque Global do Seridó fica totalmente dentro do território do Rio Grande do Norte, abrangendo áreas dos municípios de Parelhas, Cerro Corá, Carnaúba dos Dantas, Acari e Lagoa Nova. O Parque possui uma área total de 2.800 km². 

Essa região possui aproximadamente 120 mil habitantes, onde se incluem várias comunidades quilombolas. De acordo com a UNESCO, essas comunidades mantêm “viva a memória de seus ancestrais africanos escravizados para preservar sua cultura por meio de práticas tradicionais, museus e centros culturais”. 

A Caatinga é o único bioma ou sistema florestal totalmente brasileiro, com plantas e animais perfeitamente adaptados a um clima sujeito a longos períodos de estiagem. O bioma ocupa uma área com aproximadamente 1 milhão de km² dentro da região conhecida por Semiárido Brasileiro.  

Infelizmente, a Caatinga figura na primeira posição entre os nossos biomas mais ameaçadosmais de 50% de sua área original já foi perdida e a parte restante segue sob forte ameaça. Do ponto de vista ambiental, o reconhecimento internacional desse Geoparque será um estimulo a mais para a preservação desse importantíssimo bioma brasileiro. 

Uma outra faceta importante da região do Seridó são suas paisagens geológicas, que registram mais de 600 milhões de anos da história de nosso planeta. Um exemplo foram as intensas atividades vulcânicas durante as Eras Mesozóica e Cenozóica, que ficaram registradas em grandes derrames de rocha basáltica em toda a região. 

Também é importante citar os aspectos históricos da região, onde se encontram sítios arqueológicos que confirmam o povoamento por populações humanas há mais de 9 mil anos. Existem vários assentamentos onde os antigos habitantes deixaram pinturas rupestres de relevância ímpar para o entendimento da pré-história de nosso país. 

No outro extremo do Brasil, na divisa entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, fica o Geoparque Global Caminhos dos Cânions do Sul. Essa região engloba áreas dos municípios de Cambará do Sul, Jacinto, Machado, Mampituba, Morro Grande, Praia Grande, Timbé do Sul e Torres, onde vive uma população de cerca de 74 mil habitantes. 

A região fica dentro dos domínios do bioma Mata Atlântica, com grandes fragmentos florestais preservados, além de inúmeros rios e quedas d`água. A formação dos cânions foi o resultado da intensa atividade vulcânica em toda a região Centro-Sul do território brasileiro após a fragmentação do Supercontinente de Gondwana e a separação da América do Sul do antigo bloco continental, processo que teve início há mais de 160 milhões de anos. 

As grandes massas de rochas vulcânicas passaram por um longo processo de erosão fluvial, o que resultou na formação de cânions fabulosos como o de Itaimbezinho, Malacara, Fortaleza, Índios, Coroados, Faxinalzinho, Churriado, Montenegro e Leão. 

O cânion mais conhecido e visitado da região é o Itaimbezinho (vide foto), que se estende por cerca de 5,8 km e chega a atingir uma largura de 2 km. As paredes íngremes desse cânion atingem uma altura de até 720 metros e de onde despencam as águas de duas gigantescas cascatas – a adas Andorinhas e a Véu de Noiva. 

O Geoparque Global Caminhos dos Cânions do Sul tem uma área total de 2.830 km². Uma das características das paisagens da região é a presença de elementos da Mata das Araucárias, um subsistema florestal da Mata Atlântica. Essa floresta abriga uma série de espécies ameaçadas do bioma como os papagaios-do-peito-roxo, guaxinim, leão-baio (conhecido como onça-parda em outras regiões do país) e jaguatiricas, além de aves como a gralha-azul. 

Um dos pontos altos da fauna local é a migração das andorinhas e andorinhões nos meses de primavera e verão. Essas aves migram para a região fugindo do inverno no Hemisfério Norte e buscam refúgio nas fendas dos paredões dos cânions da região. 

Outro destaque da região são as chamadas paleotocas, grandes buracos que foram escavados no solo por grandes animais extintos da megafauna sul-americana como tatus-gigantes e preguiças terrícolas. Essas tocas foram usadas por várias tribos indígenas da família Jê, que construíam ali suas casas semissubterrâneas tradicionais. 

O reconhecimento desses geoparques pela UNESCO só vem reforçar a importância dessas áreas para a humanidade e aumentar a responsabilidade de nós brasileiros pela sua conservação. 

VOCÊ SABE O QUE SÃO OS PÁRAMOS ANDINOS?

A região central do Chile vem passando por uma forte seca há mais de uma década. A capital do país, Santiago, que fica nessa região, enfrenta dificuldades cada vez maiores para abastecer os seus mais de 5,6 milhões de habitantes, problemas que não são menores nas cidades vizinhas da região metropolitana. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a origem do problema são as mudanças climáticas – um volume cada vez menor de neve e de chuvas caem sobre o trecho local da Cordilheira dos Andes, principal fonte de água dos rios da região. Outro problema importante é o aumento da influência do clima seca do Deserto do Atacama na região central do Chile. 

No trecho tropical da Cordilheira dos Andes, que corresponde ao trecho que vai da Bolívia até a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, os maiores problemas é a redução acelerada das geleiras no alto das montanhas. Muitas dessas geleiras, inclusive, já desapareceram. 

Para dar uma ideia do tamanho dos problemas – das 10 geleiras que existiam nas montanhas dos Andes na Venezuela até 1952, só restaram 5. No mesmo período, 8 geleiras da Colômbia desapareceram e só restam 6. Mais ao Sul, os problemas são ainda mais evidentes – no Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam entre 42 e 60% de suas massas. As 722 geleiras existentes na Cordillera Blanca no Peru sofreram uma redução de 22,4% desde 1970 e na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas, entre outros derretimentos confirmados. 

Rios que tem suas nascentes formadas a partir do derretimento de geleiras nessas regiões estão tendo os seus caudais gradativamente reduzidos, o que representa uma grande ameaça para o abastecimento de água de centenas de cidades. Até o imponente Lago Titicaca, localizado entre o Peru e a Bolívia, já está sendo afetado pela redução do volume de água dos seus rios tributários. 

Porém, diferentemente do que acontece no trecho austral da Cordilheira dos Andes, a maior parte desse trecho localizado na zona tropical possui um grande trunfo a seu favor – os páramos. Falamos aqui de um tipo de vegetação arbustiva que nasce entre altitudes acima de 3 mil metros e que se estende até o limite de formação da neve ou algo em torno dos 5 mil metros de altitude. 

Esse tipo de vegetação de montanha é encontrado na Cordilheira dos Andes entre o Peru e a divisa entre a Colômbia e a Venezuela, em regiões montanhosas da América Central, da África Oriental e também da Nova Zelândia. Em cada uma dessas regiões os páramos recebem nomes diferentes e formam ecossistemas específicos. Vamos nos concentrar nos páramos andinos. 

Aqui na América do Sul, os páramos estão concentrados na chamada zona neotropical onde encontramos o Peru, o Equador, a Colômbia e a Venezuela. O ecossistema ocupa uma área total de 30 mil km2, sendo que metade dessa área, cerca de 15 mil km2, fica na Colômbia. 

A zona climática onde se encontram os páramos andinos sofre grandes flutuações diárias de temperatura e umidade. As temperaturas oscilam entre valores abaixo de zero até os 30° C, o que provoca um ciclo contínuo de congelamento e descongelamento. Nessas grandes altitudes se encontra uma atmosfera fria e de baixa densidade do ar, características que permitem uma maior dispersão dos raios ultravioletas (luz e calor). 

Os solos nessas regiões apresentam uma grande concentração de matéria orgânica e de cinzas vulcânicas, o que sustenta um conjunto de plantas altamente adaptadas a este meio ambiente hostil. Muitas plantas possuem pelos que ajudam a conservar o calor e folhas duras que evitam a perda de água por evapotranspiração. Essa vegetação é normalmente baixa ou rasteira, uma característica que protege as plantas dos fortes ventos e do frio intenso. 

Os páramos andinos se dividem em três faixa distintas em função da altitude. Entre 4.500 e 4.800 metros de altitude encontramos o superpáramo, formado por espécies vegetais mais resistentes ao frio. Os solos nessa faixa apresentam uma menor fertilidade e uma menor capacidade de retenção de água. Pela dificuldade de acesso, são as áreas melhor preservadas. 

O chamado páramo grama é a faixa de vegetação mais ampla, onde há predominância de gramíneas e pequenos arbustos. Situa-se entre as altitudes de 3.500 e 4.100 metros. Em altitudes mais baixas, entre os 3.000 e 3.500 metros, encontramos o subpáramo, onde se encontram arbustos, gramíneas, ervas e até pequenas árvores espalhadas. 

Essas diferentes vegetações formam o habitat para uma enorme variedade de espécies animais onde se destacam a raposa-colorada (Pseudalopex culpaeus) o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus), único membro da família a viver na América do Sul, e o condor-dos-andes (Vultur gryphus). Também encontramos diversas espécies de roedores, águias, gaivotas, patos, corujas, anfíbios, insetos e répteis como lagartos. 

Uma das características mais interessantes desse tipo de ecossistema é a sua grande capacidade de reter grandes volumes de água das chuvas e do degelo da neve das montanhas. Parte dessa água alimenta aquíferos e nascentes de rios. Em tempos de mudanças climáticas e de ameaças às grandes geleiras das montanhas dos Andes, essas reservas de água são estratégicas. 

Muitas cidades importantes como Bogotá, capital da Colômbia, e Quito, capital do Equador, estão implantando sistemas para o aproveitamento dessa água para o abastecimento das suas populações. Para outras centenas de cidades na região dos Andes Tropicais, ameaçadas pelo desaparecimento de rios com nascentes nas geleiras andinas, as reservas de água dos páramos serão a “salvação da lavoura”. 

Apesar de toda essa importância estratégica, esse ecossistema vem sofrendo com inúmeras pressões ambientais. Muitos agricultores estão se instalando em áreas de páramos e desmatando os solos para formação de campos agrícolas. Em muitos trechos, os problemas decorrem da introdução de rebanhos bovinos. Em outros, já existe uma super exploração das reservas de água. 

Nunca é demais lembrar que os recursos naturais de um ecossistema, por maiores que sejam, são finitos. Usar os recursos dos páramos com responsabilidade e cautela máxima deverá ser a prioridade desses países nos próximos anos. E a razão para isso é elementar – os páramos serão a maior reserva de água ainda disponível nessas regiões.