Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

URUGUAI CRIA UM GRANDE PROGRAMA PARA O PLANTIO DE ÁRVORES

O Pampa, também chamado de Campos Sulinos, é o bioma brasileiro mais rico em biodiversidade de plantas – podem ser encontradas até 57 espécies diferentes a cada metro quadrado de terreno. O bioma ocorre em todo o Extremo Sul do Brasil e avança na direção da Argentina e do Uruguai. 

No Brasil, o Pampa ocupa o segundo lugar na lista de biomas mais devastados, só perdendo para a Mata Atlântica. As grandes ameaças são o intenso pastoreio de rebanhos animais e o avanço da agricultura, especialmente a soja e o arroz. Há várias décadas vem sendo observada a arenização de extensas áreas do bioma, especialmente na região Sudoeste do Rio Grande do Sul, próximo da fronteira com o Uruguai e a Argentina. 

Na Argentina, onde o bioma é conhecido como La Pampa e ocupa cerca de 25% do território do país, os problemas são muito parecidos e os processos de arenização (o termo desertificação não cabe aqui pois o nível de chuvas é bem alto) são preocupantes. Vamos falar hoje dos problemas na Pampa do Uruguai. 

No passado, o Uruguai fez parte do Vice Reino do Rio da Plata, ligado a coroa de Espanha, e depois, entre 1817 e 1828, foi incorporado ao Brasil com o nome de Província Cisplatina. Em 1828, com a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro, o Uruguai passou a ser um Estado independente. 

Fisicamente, o território uruguaio, que possui uma área total de pouco mais de 176 mil km² e tem uma população de 3,3 milhões de habitantes, é praticamente uma continuação da Pampa Sul-rio-grandense e, por extensão, apresenta praticamente os mesmos problemas ambientais. 

Segundo informações da Uruguai 21, agência de promoção de exportações e investimentos do país, as atividades agropecuárias ocupam cerca de 93% do território uruguaio. Na pauta de exportações destacam-se a carne bovina, representando 21% do volume total, celulose (19%), soja (17%), laticínios (8%) e arroz (6%). 

Esse uso intensivo dos solos, é claro, cobra o seu preço: de acordo com informações de pesquisadores da UNCCD – Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, na sigla em inglês, aproximadamente 30% do território do Uruguai apresenta algum tipo de degradação ambiental, onde se destaca a arenização de grandes trechos da Pampa

Em qualquer país do mundo, esse nível de degradação ambiental seria considerado crítico – no Uruguai, onde a produção dos setores agrícola e pecuário forma uma das principais bases da economia do país, trata-se de uma situação trágica. A agropecuária responde por cerca de 10% do PIB – Produto Interno Bruto, do Uruguai e emprega cerca de 12% da população do país (dados de 2010). 

Também existe um problema social importante – a grande maioria das propriedades rurais no Uruguai são pequenas e médias, com gestão familiar. A produção de carne e lã responde por mais de 65% da renda dessas famílias, seguida pela produção de vegetais, responsável por 12% da renda, e da produção leiteira, com participação de 11% na renda. São justamente essas famílias as que mais geram impactos ambientais e também as que mais sofrem com as suas consequências. 

Buscando reduzir o tamanho dos impactos ambientais da agropecuária em seu território, o Uruguai criou, em 2005, o SNAP – Sistema Nacional de Áreas Protegidas, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente local. São 16 áreas sob proteção ambiental, onde se incluem biomas terrestres e marinhos, totalizando cerca de 311 mil hectares. Apesar da iniciativa merecer todos os aplausos, essas áreas correspondem a menos de 2% do território do país

A mais recente iniciativa na área ambiental do Uruguai é chamada de Plantatón, cujo objetivo é a promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres, o combate à perda de biodiversidade e a degradação dos solos, além do combate à desertificação. A primeira ação dessa iniciativa ocorreu em março de 2019, quando 500 árvores nativas foram plantadas na localidade de Artigas, no Norte do país (vide foto). 

Essa iniciativa foi idealizada pela Rede Uruguaia de ONGs Ambientais, com apoio do Ministério da Habitação, Planejamento Territorial e Meio Ambiente, além do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O Plantatón replica experiências já consolidadas em El Salvador e na Colômbia. 

Em El Salvador, citando um exemplo, a iniciativa permitiu o plantio de mais de 17 milhões de árvores em áreas degradadas do país, ajudando na recuperação de solos e na prevenção de inundações. Conforme já tratamos em postagem anteriorEl Salvador é o país mais desmatado da América Central – conforme a fonte consultada, entre 80% e 94% da cobertura vegetal do país já foi devastada. Entre outros problemas, a população de 6 milhões de habitantes sofre cada vez mais com a escassez de água potável. 

As metas do Plantatón são ambiciosas e preveem a recuperação de um total de áreas florestais equivalentes a 5,2% da superfície total do Uruguai. Essa área corresponde a 8 mil km² ou cerca de cinco vezes a área total da cidade de São Paulo. Isso parece muito pouco para um país do tamanho do Brasil, mas para o pequeno Uruguai será uma enorme conquista. 

A iniciativa tem feito grandes esforços para promover uma grande articulação entre o Governo e a iniciativa privada incluindo estudantes, aposentados, militares, empresas públicas e privadas, entre outros. Os principais eixos da iniciativa são: regeneração natural de espaços degradados, plantio de árvores nativas em zonas prioritárias para a conservação e controle de espécies exóticas invasoras que competem e deslocam espécies autóctones. 

Com relação às espécies exóticas, é preciso fazer um destaque: de acordo com dados de 2012, as florestas comerciais de pinus e eucalipto já ocupavam um total de 950 mil hectares no Uruguai. Cerca de um terço dessas florestas comerciais estão sob controle de quatro grandes empresas multinacionais, que formam verdadeiros latifúndios e contam com um enorme poder econômico e político. 

Um dos maiores problemas dessa iniciativa é a altíssima concentração da população do Uruguai em áreas urbanas – 96,1% dos uruguaios vivem nas cidades. Somente na cidade de Montevidéu (ou Montevideo), a capital do país, vivem cerca de 1,3 milhão de pessoas, o que corresponde a um terço da população do Uruguai. Essa urbanização excessiva cria uma série de dificuldades logísticas para o plantio de árvores pelo interior do país. 

Ainda é muito cedo para avaliarmos os impactos ambientais da iniciativa, especialmente os positivos. Porém, já existem indícios animadores: o Uruguai foi o único país das Américas onde a área coberta por matas nativas aumentou nos últimos anos. Esse aumento em termos de área é bem pequeno, mas todos os países das três Américas vem apresentando números negativos ou crescimento zero. 

Isso é uma boa notícia e nos enche de esperança. 

O AVANÇO DA DESERTIFICAÇÃO NA ARGENTINA

Nesses últimos tempos, as notícias que recebemos desde a nossa vizinha Argentina não são as melhores. As estatísticas mais recentes afirmam que perto de metade da população do país vive em situação de pobreza e quase 10% dos argentinos já são considerados indigentes. A situação econômica e social do país, que já não nada boa, piorou muito após a volta dos peronistas ao poder.

Com o início da pandemia da Covid-19 na Argentina as coisas só pioraram e o país está vivendo em meio a uma fuga maciça de empresas e investidores. De acordo com dados oficiais divulgados pelo Governo há dois dias atrás, o PIB -Produto Interno Bruto, da Argentina sofreu um recuo de 9,9% em 2020. Para 2021, as expectativas são de um crescimento modesto da ordem de 1,5%.

A agricultura e a pecuária, atividades econômicas que transformaram a Argentina em um dos países mais ricos do mundo há cem anos atrás, hoje enfrentam um visível declínio. Políticas populistas e intervencionistas do Governo têm desestimulado os produtores. Muitos chegaram, inclusive, a atear fogo em campos de soja em ponto de colheita para evitar o pagamento de novos impostos; muitos pecuaristas mudaram para o vizinho Uruguai. 

Assim como acontece no Brasil e em todo o mundo, a Argentina enfrenta inúmeros problemas ambientais, alguns deles gravíssimos. Um desses problemas extremos é a desertificação, que afeta atualmente mais de 60 milhões de hectares em todo o território do país. Muito pior – a cada ano a desertificação avança cerca de 650 mil hectares. 

A Argentina é um país grande, que ocupa cerca de 2,8 milhões de km². Fazendo a devida conversão, isso corresponde a 280 milhões de hectares, o que significa que mais de 20% do território do país está sendo afetado pela desertificação. Das 24 províncias do país, 18 já vêm enfrentando esse problema

Na nossa última postagem falamos dos Pampas Sulinos do Brasil, um bioma que atravessa fronteiras e ocupa grandes extensões dos territórios da Argentina e do Uruguai. Ao contrário do que muitos podem imaginar, os Pampas ou La Pampa não é o bioma predominante na Argentina – ela ocupa 25% do território e concentra grande parte da produção de grãos e da pecuária do país. Cerca de 75% do território argentino é formado por solos áridos e semiáridos, onde vive aproximadamente 30% da população do país. 

Em tempos geológicos distantes, toda a região hoje ocupada pela Pampa era um grande deserto de areias – esse deserto se entendia por grande parte das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Após o início do longo processo de fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana, teve início um período de intensa atividade vulcânica nessa região, conhecido como Derrame de Trapp

Durante esse evento, enormes volumes de lava vulcânica foram derramados sobre esse solo de areias, formando uma grossa camada de rochas graníticas. Uma das consequências desse processo foi a formação do Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo. Processos erosivos ao longo de milhões de anos cobriram essa camada de rochas graníticas com camadas de solos altamente arenosos e também com uma fina camada de solo fértil. Resumindo de forma muito resumida, essa é a origem dos solos dos Pampas (ou de La Pampa). 

Assim como aconteceu no Extremo Sul do Brasil, essa grande região da Argentina vem concentrando uma intensa atividade agrícola e pecuária ao longo da história do país. Essa superexploração tem exposto esses solos frágeis à ação de processos erosivos das chuvas e dos ventos e, como consequência direta, a perda da camada fina de solo fértil e a exposição de solos altamente arenosos. Grandes manchas de areia passaram a fazer parte das paisagens dos campos cobertos por gramíneas e grandes plantações de grãos. 

Em outras partes da Argentina, os processos de desertificação estão ligados diretamente aos desmatamentos. É bastante provável que você já tenha lido ou visto muitos vídeos mostrando os desmatamentos e as queimadas na Amazônia brasileira. Pois saiba que esses problemas, apesar de ocuparem raríssimos espaços nos meios de comunicação, são muito mais graves na Argentina do que no Brasil. 

Até o final do século XIX, perto de 100 milhões de hectares do território da Argentina eram cobertos por matas nativas. Talvez você não saiba, mas a nossa famosa Mata Atlântica avançava na direção do interior do continente e chegava até a região Nordeste da Argentina. Pois bem – 70% dessas matas nativas e de outras por todo o país já foram devastadas e transformadas em campos agrícolas para a produção de soja, algodão e cana-de-açúcar, ou em pastagens para o gado. 

Na região da Patagônia, ao Sul, um “grande deserto frio e com água”, os grandes impactos ambientais são provocados pelos imensos rebanhos, especialmente de ovinos. Nos terrenos altos ao largo da Cordilheira dos Andes, conhecidos como puna, o problema são os grandes desmatamentos para exploração de madeira e lenha. 

As consequências diretas desses intensos desmatamentos são a erosão de solos férteis pelas chuvas e pelos ventos, a exposição de camadas de solos altamente arenosos, a formação de grandes voçorocas ou ravinas, a arenização de campos, o assoreamento de corpos d’água, entre outros graves problemas ambientais. Para um país que ocupa perto de 80% do seu território com atividades agrícolas, pastoris e agroflorestais, essas perdas são desastrosas. 

O Governo Central da Argentina e os Governos das diversas províncias vêm desenvolvendo uma série de programas para o combate ao avanço da desertificação, todos, porém, extremamente tímidos diante da magnitude do problema. Como resultado, milhares de famílias são obrigadas a abandonar suas terras devastadas pelo avanço da desertificação e migram para as grandes cidades em busca de melhores alternativas de vida. 

Uma característica muito própria da Argentina é a alta concentração da população na Província de Buenos Aires – cerca de 40% da população do país vive na Província, especialmente na grande conurbação ao redor da cidade de Buenos Aires. De acordo com os dados do último censo demográfico do país, 96,4% dessa população vive em áreas urbanas. A migração de mais gente vinda dessas áreas rurais degradadas só tem aumentado o já enorme conjunto de problemas dessas cidades. 

A cidade de Buenos Aires surgiu a partir de um pequeno assentamento fundado nas margens do rio da Prata por Pedro de Mendoza em 1536 – Puerto Real de Nuestra Señora Santa María del Buen Aire. Os espanhóis precisavam povoar e proteger essa região que permitia o acesso através do Rio Paraná e seus afluentes ao interior do território, especialmente às minas de prata na região do Potosi, na atual Bolívia. Só como curiosidade, o nome Argentina deriva de argentum, palavra em latim para prata, riqueza explorada por mais de três séculos pelos espanhóis. 

O povoamento do território argentino se deu a partir desse núcleo pioneiro em Buenos Aires e de outro, mais ao Norte, na região de Santa Fé. Desde aqueles tempos, a criação de gado e de cavalos em La Pampa já era de extrema importância para o então Vice-Reino espanhol de La Plata. Na década de 1830, o naturalista inglês Charles Darwin passou um longo período na Argentina durante a sua lendária expedição ao redor do mundo no navio Beagle.  

Em seus escritos, Darwin registrou o quanto ficou impressionado com o tamanho dos grandes rebanhos de gado e de cavalos que encontrou no país – eram formados por dezenas de milhares de cabeças de animais e se espalhavam pela Pampa e também pela Patagônia. 

A partir da década de 1870, a Argentina foi transformada em uma grande produtora e exportadora de grãos, especialmente o trigo, o que ao lado da carne se tornou a grande riqueza do país. Entre os anos de 1890 e 1930, a Argentina foi um dos países mais ricos do mundo graças as suas exportações agropecuárias. Aliás, em 1896, a Argentina possuía o maior PIB – Produto Interno Bruto, per capita do mundo. De lá para cá, desgraçadamente, as coisas desandaram muito. 

Com a intensa desertificação que se observa em grande parte do país, o que já está muito ruim hoje poderá ficar muito pior… 

A ARENIZAÇÃO NOS PAMPAS SULINOS

Os Pampas ou Campos Sulinos formam o segundo menor bioma do Brasil, só sendo maior que o Pantanal Mato-Grossense. O bioma se concentra no Estado do Rio Grande do Sul e ocupa uma área equivalente a 2% do território brasileiro. Os Pampas se estendem além das nossas fronteiras e ocupam importantes áreas no Uruguai e na Argentina. 

Apesar de pequeno, o bioma Pampa possui uma biodiversidade total maior que a da Amazônia, a da Mata Atlântica, a do Cerrado e a da Caatinga. De acordo com estudos de pesquisadores da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cada metro quadrado do bioma abriga até 57 espécies diferentes de plantas. No Cerrado, bioma que ocupa o segundo lugar em biodiversidade, são encontradas 35 espécies vegetais a cada metro quadrado. 

Apesar sua grande importância ambiental, os Pampas ocupam o primeiro lugar na lista dos biomas mais ameaçados do Brasil. De acordo com dados de monitoramento ambiental do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de 2018, o bioma já perdeu 52,7% de sua vegetação nativa. As paisagens que num passado não tão distante eram cobertas por gramíneas, hoje intercalam campos de arroz e de soja, além de florestas comerciais de eucalipto e pinus. 

A pecuária extensiva, que por cerca de trezentos anos foi dominante na região, teve suas origens nas antigas Missões Jesuíticas no Oeste do Rio Grande do Sul. De acordo com os termos pactuados entre as Coroas de Portugal e de Espanha no Tratado de Tordesilhas em 1494, todo o Extremo Sul do Brasil era território espanhol. Religiosos espanhóis da Ordem dos Jesuítas passaram a criar missões, também chamadas de reduções jesuíticas, ao longo das margens dos rios Paraná e Negro a partir do ano de 1600. Essas missões visavam a conversão dos índios guaranis ao cristianismo. 

Apesar de se encontrarem dentro do território da Espanha, essas missões eram frequentemente atacadas por bandeirantes paulistas que buscavam indígenas para escravizar. Em muitos desses ataques, as reduções acabavam sendo destruídas e o gado bovino que era criado pelos religiosos fugia para os campos e se tornava selvagem. A partir da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso em 1777, quando as fronteiras entre os territórios de Portugal e Espanha foram repactuadas, os Jesuítas foram expulsos da região e as últimas reduções remanescentes foram destruídas. O filme A Missão, de 1986, mostra com maestria esse momento histórico.

Todo esse gado bovino que fugiu das reduções se espalhou pelos Pampas e formou grandes rebanhos selvagens. A partir do povoamento do Extremo Sul a partir do século XVIII, a pecuária foi transformada em uma das mais importantes atividades econômicas da região. Esse quadro se manteria até as últimas décadas do século XIX, quando o Rio Grande do Sul passou a receber grandes contingentes de imigrantes europeus, especialmente italianos e alemães, e a agricultura passou a ganhar espaço. 

Um marco na agricultura regional se deu a partir da década de 1920, quando a soja passou a ser plantada na região de Santa Rosa. Originária da China, a soja se adaptou bem ao clima temperado local e pouco a pouco foi ocupando espaço nos antigos domínios da Mata Atlântica da faixa Norte do Rio Grande do Sul, onde se destaca a região da Mata das Araucárias, e também nas áreas dos Pampas. Outro grão que passou a ocupar importantes espaços no Estado foi o arroz, que encontrou um ambiente ideal nas áreas úmidas dos banhados

A pujança das atividades agrícolas e pecuárias no Rio Grande do Sul começou a mostrar os seus impactos ambientais já na década de 1960, quando passaram a ser observadas grandes manchas de areia em solos de municípios do Sudoeste gaúcho próximos da fronteira com o Uruguai e Argentina. Essas manchas de areia eram praticamente despidas de vegetação e passaram a sofrer fortemente com processos erosivos nos períodos de chuva. Inicialmente, esses processos foram classificados como desertificação. 

No final da década de 1980, pesquisadores gaúchos alteraram a denominação para arenização, afirmando que os grandes volumes de chuvas que caem sobre a região tornam inadequado o uso do termo desertificação. Esses processos atingem hoje um total de 10 municípios gaúchos: Alegrete, Cacequi, Itaqui, Maçambara, Manoel Viana, Quaraí, Rosário do Sul, São Borja, São Francisco de Assis e Unistalda. 

Além da destruição dos campos, essa arenização vem afetando importantes cursos d’água da região. As fortes enxurradas nos períodos das chuvas carreiam grandes volumes de areia para a calha dos rios, um problema que se reflete cada vez mais em problemas para o abastecimento de cidades e também na captação da água por sistemas de irrigação de lavouras agrícolas. Em muitas áreas, o problema não para de crescer. 

Essas regiões apresentam como característica dominante uma fina camada de solo fértil sobre uma camada espessa de solos extremamente arenosos, assentadas sobre os granitos da formação Botucatu. Com a superexploração dos solos pela pecuária e, em décadas mais recentes, pela produção de grãos, essa fina camada de solo fértil acabou sendo destruída pela erosão e a camada de solo arenoso foi exposta. 

Esses solos, que são extremamente frágeis, passaram a apresentar grandes voçorocas ou fendas, chamadas de ravinas no Sul. Além da erosão causada pelas chuvas, esses solos arenosos também são erodidos pelos ventos, que espalham as areias por grandes extensões de campos, aumentando assim as áreas em processo de arenização. 

Uma estratégia que foi usada como uma tentativa de conter o crescimento desse fenômeno foi cercar as áreas com plantações de eucaliptos e pinus. Apesar do relativo sucesso dessa medida, a produção dessas madeiras na região esbarra na grande distância em relação às fábricas que utilizam essa matéria prima, o que implica em grandes custos de logística para o transporte. 

Muitos pesquisadores afirmam que a arenização dos Pampas pode surgir independentemente do tipo de uso que se dá aos solos, porém, são unanimes em afirmar que a pecuária e a agricultura intensificam esse processo. Existem diversos estudos em andamento buscando entender a dinâmica da arenização e as melhores alternativas para combater os seus efeitos. 

De acordo com os números mais recentes, as áreas em processo de arenização no Sudoeste do Rio Grande do Sul somam mais de 130 mil hectares. Parte dessas áreas ainda são cobertas com algum tipo de vegetação, mas, pelo menos, 20 mil hectares são totalmente descobertos, ou seja, despidos de qualquer tipo de vegetação

O problema, que por si só já é gravíssimo, fica ainda mais crítico quando se constata que o bioma Pampa é o segundo mais devastado do Brasil, só ficando atrás da Mata Atlântica. Ou seja – ainda vamos ouvir falar bastante da arenização dos Pampas Sulinos. 

OS NÚMEROS IMPRESSIONANTES DA DESERTIFICAÇÃO NO PIAUÍ

São Paulo é a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. De acordo com os últimos censos demográficos, a Pauliceia Desvairada, alcunha criada pelo escritor Mário de Andrade, ou, simplesmente, Sampa para os paulistanos, tem uma população de 12,3 milhões de habitantes, que se espalham por uma área total de 1,5 mil km². 

Comecei a postagem falando da minha cidade não por bairrismo, mas para usar seu tamanho colossal como uma referência para o tamanho das áreas já tomadas pela desertificação no Piauí – esses processos já devastaram uma área equivalente a cinco vezes a área da cidade de São Paulo no Estado. A desertificação atinge 7,8 mil km² em 15 municípios piauienses, sendo considerada a maior área de solos degradados do país. E, muito pior, continua crescendo.

Esses números foram levantados por diversas pesquisas realizadas pela UFPI – Universidade Federal do Piauí, desde 2012. Os municípios afetados se concentram em uma extensa faixa no Sudeste do Estado, região que fica dentro dos domínios do Semiárido Nordestino. 

De acordo com diversos pesquisadores, esses solos foram desmatados para a implantação de campos agrícolas e formação de pastagem para o gado. Os solos dessas regiões eram naturalmente suscetíveis a processos erosivos e houve uma grande perda da camada de solo fértil, que foi arrastada pelas chuvas. Restaram no local apenas solos inertes e sem capacidade ou com baixíssima capacidade para sustentar vida vegetal e, consequentemente, vida animal. 

Além da reduzida quantidade de cobertura vegetal, as paisagens dessas regiões são tomadas por grandes voçorocas (vide foto), que nada mais são que longas crateras abertas pelas fortes enxurradas nas temporadas das chuvas. Algumas voçorocas tem mais de 2 km de extensão e até 30 metros de profundidade. 

Assim como vem acontecendo em toda a região do Semiárido Nordestino desde os primeiros tempos da colonização do Brasil, o pastoreio de gados – onde se incluem bovinos, equinos, muares, ovelhas e, especialmente, as cabras e os bodes, está na raiz de muitos casos de desertificação. Lembrando o que já comentamos em inúmeras postagens, surgiram conflitos entre os criadores de gados e os plantadores de cana de açúcar entre os séculos XVI e XVII, o que resultou na expulsão das boiadas e demais rebanhos animais do litoral nordestino

Sem outras opções, os criadores buscaram refúgio nos sertões nordestinos. Grandes extensões dos antigos caatingais foram queimados para ampliação das áreas de pastagens. As gramíneas que cresceram nessas áreas passaram as ser consumidas na forma de superpastoreio, ou seja, quando há um consumo de vegetação maior do que a capacidade de crescimento das plantas. 

Destaco aqui os impactos ambientais criados pelas cabras e os bodes. Esses animais são verdadeiras “máquinas” consumidoras de alimentos, comendo qualquer coisa que apareça em seus caminhos. Nos períodos de seca, esses animais conseguem subir nas árvores, onde comem folhas, brotos e galhos. Esgotados esses estoques, os animais cavam os solos e comem as raízes remanescentes das plantas. 

Uma citação que sempre costumo relembrar quando falo das cabras e bodes dos sertões nordestinos nos foi legada pelo botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil. Estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, Loefgren atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos de caprinos soltos na região: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

Milhares de famílias de agricultores do Piauí sofrem com a degradação de suas terras, onde praticamente nada mais cresce nos solos desertificados. Em muitos casos, os agrônomos afirmam que os solos atingidos são irrecuperáveis. Em outros ainda há esperança e os solos ainda são passíveis de medidas corretivas, onde o uso de técnicas adequadas permite a recuperação gradual da fertilidade. O grande problema é que isso leva tempo e se gasta muito dinheiro.

Apesar da grande fertilidade original dos solos dessa região, o uso inadequado do recurso pelos agricultores levou à intensa degradação. De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produtividade agrícola dessa região já era muito baixa – cerca de 20 sacas de milho por hectare. Para efeito de comparação, existem fazendas na região que utilizam maquinários agrícolas modernos e fertilizantes, além de um manejo adequado dos solos, obtendo uma produtividade de 120 sacas de milho por hectare

Os pequenos produtores dessa região do Piauí, especialmente aqueles da chamada agricultura familiar, costumam se valer das coivaras, a antiga técnica agrícola herdada dos indígenas, onde o fogo é usado para preparar os solos para as colheitas. A rala vegetação de capoeira é queimada para a liberação das áreas para a plantação e as cinzas resultantes fertilizam os solos. O uso dessa técnica rudimentar enfraquece os solos ao longo do tempo e novas áreas de mata nativa precisam ser desmatadas para manter a produção. Os rebanhos animais completam o rastro de destruição deixado pelo fogo e pelas lavouras. 

Além dos impressionantes estragos nos solos, existem danos menos visíveis no subsolo – sem a presença da vegetação, as águas das chuvas não conseguem se infiltrar nos solos para reabastecer os lençóis subterrâneos de água e aquíferos, o que por fim vai acabar matando as nascentes de água na região. De acordo com os dados disponíveis, os índices pluviométricos anuais da região são da ordem de 1.200 mm, o que é um volume bastante razoável para uma região semiárida. 

São essas chuvas as responsáveis pelo carreamento de grandes volumes de solos férteis e também pela formação das grandes voçorocas em toda a região. Muito pior: além dos graves problemas regionais, as águas dessas chuvas carreiam todo esse volume de sedimentos para a bacia hidrográfica do rio Parnaíba, a maior e mais importante do Piauí, amplificando o volume dos problemas ambientais. 

Sem conseguir continuar produzindo em suas terras, muitos agricultores e suas famílias acabam se mudando para as periferias das grandes cidades, onde vão tentar ganhar a vida e o “pão de cada dia” em subempregos dos mais diferentes tipos. Essa é uma realidade que assombra populações impactadas pela desertificação em todo o mundo. 

Conforme comentamos na postagem anterior, os processos para a formação dos solos férteis demandam muito tempo – falamos aqui de milhares ou até mesmo de milhões de anos. Bastam apenas alguns poucos anos de uso inadequados desses solos para todo esse primoroso trabalho da natureza se perder… 

São fatos lamentáveis que, infelizmente, vem acontecendo com uma frequência cada vez maior em todo o mundo. 

OS SOLOS E A DESERTIFICAÇÃO

A desertificação e a perda de solos aráveis são dois dos maiores problemas ambientais de nossos dias. De acordo com a ONU – Organização das Nações Unidas, cerca de 120 mil km² de solos são perdidos todos os anos por causa da desertificação. De acordo com as estimativas da ONU, isso representa um prejuízo de US$ 1,3 bilhão a cada dia em perdas na produção agrícola, na criação de animais por falta de pastagens, na indústria, no turismo, na habitação humana, entre outros.

Essa perda anual de terras é equivalente a três vezes a área total do Estado do Rio de Janeiro ou, para sermos mais drásticos, representará uma perda total equivalente ao território do Brasil em cerca de 70 anos. As terras usadas pela agropecuária no Brasil correspondem a menos de 10% do nosso território e, somente em produção de grãos, geram safras da ordem de 260 milhões de toneladas a cada ano – isso nos dá uma noção global dos custos da desertificação para a humanidade.

Mas, afinal de contas, o que são solos aráveis?

Cerca de 70% da superfície do Planeta Terra é, ironicamente, coberta pelas águas dos oceanos. As chamadas terras firmes ou secas são, em sua maior parte, cobertas por grandes desertos, formações rochosas e gelo, muito gelo. Cerca de 13,1% das terras continentais são formadas por solos aráveis, ou seja, adequados para a agricultura – porém, apenas 4,71% suportam culturas agrícolas permanentes. Essas terras alimentam cerca de 7,8 bilhões de pessoas em todo o mundo.

Solos aráveis ou agricultáveis são o resultado de um longo conjunto de processos físicos, químicos e biológicos. Podemos definir solo como uma camada fina sobre uma camada rochosa, sendo constituído por diversos tipos de minerais. Esses minerais se formaram a partir dos intemperismos, que são as alterações físicas e químicas a que as rochas foram expostas desde a sua origem na superfície da terra. Os principais compostos do solo são minerais como a areia e a argila, que garantem as características estruturais do solo, a matéria orgânica, responsável pela fertilidade, a água, elemento responsável pela dissolução dos nutrientes e o ar. 

Uma forma bastante didática para que todos vocês entendam o processo de formação de solos é imaginar um vulcão em erupção. Isso não é tão difícil assim: nesse exato momento, o vulcão Kilauea, nas ilhas norte-americanas do Hawai está ativo e expelindo grandes quantidades de lava diariamente. O vulcão Etna, no Sul da Itália, também está em atividade. A lava vulcânica nada mais é que rocha em estado líquido. A lava escorre por força da gravidade e vai se acumulando sobre os solos já existentes ou corre na direção do mar, formando “novos” solos. Se você fizer uma pesquisa na internet, poderá encontrar imagens fantásticas mostrando as ondas de lava incandescente do Kilauea e do Etna escorrendo e se solidificando.

Quando as lavas esfriam o que resta é uma paisagem árida e completamente sem vida, uma vez que nenhuma forma orgânica consegue sobreviver às altíssimas temperaturas das rochas incandescentes. Quando as condições ambientais se normalizam, a superfície das rochas passa a ser colonizada por líquens. Os líquens são organismos simbióticos, formados por um fungo associado a uma alga verde ou azul, com grande capacidade de sobrevivência em locais inóspitos. Os líquens gradativamente começam a ocupar esse novo ambiente e, pouco a pouco, começam a criar uma finíssima cada de material orgânico sobre a superfície rochosa. 

As rochas sofrem desgastes por intemperismo – as alterações da temperatura provocam expansão e contração das camadas superficiais, provocado trincas e desfolhamentos de finas placas de rocha. Com a exposição às chuvas e ao vento, essas camadas de rocha vão se fragmentando e se juntando aos pequenos depósitos de matéria orgânica criados pelas colônias de líquens. Conforme essa camada de solo fértil vai aumentando, sementes de outras plantas que chegam arrastadas pelos ventos conseguem germinar e há uma aceleração no processo de formação de matéria orgânica e de solos férteis.

Esse é um processo lento e gradativo chamado de gênese dos solos. Ele é o responsável pela formação das terras férteis dos solos das florestas, matas e outras formações vegetais, que hoje estão sendo usadas pela agricultura. Cada centímetro na espessura desses solos levou séculos para se consolidar, mas basta uma chuva forte sobre um solo desnudo para que todo esse trabalho acabe sendo arrastado pelas águas. Um exemplo: as famosas “terras roxas” encontradas na Região Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil surgiram a partir de grandes erupções vulcânicas que se encerraram há mais de 27 milhões de anos atrás.

Existem cinco fatores principais para a formação dos solos: o clima, onde temos a radiação solar, a pluviosidade e a pressão atmosférica; os organismos vivos que se desenvolverão e criarão camadas de matéria orgânica; o relevo; o material de origem, que está associado aos tipos de rocha que formam a superfície da região e serão determinantes para o tipo de solo que será formado e, não menos importante, o tempo – muito tempo. Regiões de clima quente e de alta pluviosidade, como os Trópicos, tendem a formar camadas de solo em menor tempo do que regiões mais frias ou de baixa umidade. Quanto maior a quantidade de água, mais completo e rápido é o processo de intemperismo – aqui está o segredo de grandes florestas como a Amazônica e a Mata Atlântica. 

Um ponto fundamental e que não pode faltar nessa exposição é a capacidade que os solos têm de reter e regular os fluxos de água, garantindo assim o fornecimento de água para todas as formas vivas, animais e vegetais, e controlando a quantidade e a velocidade que os excedentes de água das chuvas vão chegar aos cursos d’água. Essa é uma capacidade que é desenvolvida ao longo do desenvolvimento dos solos e da vegetação de uma floresta, atingindo um ponto de equilíbrio – a súbita remoção da cobertura vegetal, para criação de um campo agrícola por exemplo, pode romper rapidamente esse frágil equilíbrio e grandes volumes de solo passarão a ser carreados pelas águas das chuvas.

A desertificação dos solos representa uma quebra no equilíbrio desses fatores. Normalmente, o processo começa com a perda da matéria orgânica e, consequentemente, com a diminuição da capacidade de retenção de água. A destruição da cobertura vegetal de uma região, lembrando aqui o exemplo dos desmatamentos na região do Sahel na África, se refletirá na perda gradativa de matéria orgânica e no ressecamento dos solos. O que restará serão os fragmentos inertes de rochas, basicamente areia, sem capacidade e/ou com uma baixa capacidade de sustentar vida vegetal e animal. No caso do Sahel, os desmatamentos seculares da vegetação de estepe está possibilitando a expansão do Deserto do Saara.

Processos de desertificação, com diferentes graus de intensidade, são encontrados em todos os continentes. Aqui no Brasil existentes casos graves na Região Nordeste, principalmente no Estado de Alagoas, e também na região dos Pampas no Rio Grande do Sul. No caso alagoano, a origem do problema está associada diretamente à destruição da antiga cobertura de Mata Atlântica no Estado. Já no Rio Grande do Sul, o problema vem sendo desencadeado pelo intenso pastoreio de animais em áreas de campos, onde os solos férteis eram muito finos e arenosos – sem a cobertura das gramíneas, os solos passaram a ser erodidos pelos ventos e pelas chuvas.

Quando uma determinada região perde a sua capacidade de produção de alimentos, as populações que ali vivem são obrigadas a migrar em busca de novas áreas para viver e trabalhar. Isso significa que regiões cobertas por florestas ou por remanescentes florestais serão devastadas para a formação de novos campos agrícolas e pastagens para os animais. Sem os devidos cuidados, essas “novas” áreas agricultáveis apresentarão os mesmos sinais de desertificação e de perda de fertilidade dos solos, além de perdas importantes por erosão. Em um planeta com recursos naturais cada vez mais limitados, esse é um problema gravíssimo, que vem se somar a uma série de outros problemas já existentes.

A agricultura e a pecuária são essenciais para a vida humana, porém, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a produção e a conservação dos solos. Só para lembrar – a Terra é finita e as atividades humanas ao longo dos séculos já nos custaram grandes volumes de solos férteis. É preciso cuidar muito bem do pouco que restou… 

PS: 22 de março é o Dia Mundial da Água

AINDA FALANDO DA GRANDE MURALHA VERDE DO SAHEL

Na última postagem fizemos uma rápida apresentação do Projeto da Grande Muralha Verde do Sahel, na África. O Sahel é uma grande área de transição climática entre os terrenos áridos do Deserto do Saara e as terras férteis das Savanas africanas, Esse território se estende ao Sul do Saara desde o litoral do Oceano Atlântico, a Oeste, até as margens do Mar Vermelho, a Leste, numa extensão total de 8 mil km e com uma largura entre 500 e 700 km.

As terras do Sahel eram originalmente cobertas por uma vegetação de estepe, formada por muitas espécies de árvores e arbustos adaptados aos solos e ao clima da região. Essa vegetação formava uma barreira natural contra os fortes ventos vindo do Deserto do Saara, evitando que grandes volumes de areia fossem lançados sobre as Savanas. Com o crescimento das populações e com a necessidade de criação de áreas para a agricultura e também de madeira para a construção civil e como combustível, principalmente para se cozinhar, grandes trechos da vegetação nativa do Sahel foram destruídos.

A consequência mais direta desses desmatamentos foi um avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul – alguns estudos indicam que o Saara cresceu cerca de 10% entre 1922 e 2020. O Projeto da Grande Muralha Verde surgiu com o claro objetivo de recompor uma parte importante dessa cobertura vegetal, impedindo assim o avanço dos processos de desertificação do Sahel.

A proposta inicial da Grande Muralha Verde era a formação de uma linha de vegetação contínua, com uma largura de 15 km e uma extensão total de 7.775 km desde o Senegal, na costa do Oceano Atlântico, até a Etiópia. Essa faixa de vegetação atravessaria 11 países e, inicialmente, 20 nações se comprometeram a apoiar o projeto. A meta inicial era chegar até o ano de 2030 com 100 milhões de hectares de solos recuperados e, pelo menos, 10 milhões de empregos criados. Analisando apenas esses números, é possível se ter uma ideia da complexidade e do grande número de obstáculos a serem vencidos.

Os números mais recentes indicam que apenas 15% das metas iniciais foram atingidas. Entre outros problemas, existem grandes regiões ao longo do Sahel que não estão sob controle dos Governos dos países, mas sim na mão de grupos guerrilheiros, que ditam as regras locais e decidem o que pode ou não ser feito em seus territórios. Outro problema é que muitas regiões são desabitadas e não haveria ninguém para cuidar das mudas plantadas. Não menos importantes foram os desvios de verbas – a corrupção faz parte da cultura política da África.

Segundo informações da ONU – Organização das Nações Unidas, que está envolvida no projeto, a Grande Muralha Verde está sendo muito bem sucedida em algumas regiões e nada bem em outras. Na Etiópia, por exemplo, perto de 15 milhões de hectares em processo de desertificação já foram recuperados através do plantio de árvores desde 2007. Na Nigéria, os trabalhos já ajudaram na recuperação de 5 milhões de hectares. No Senegal, 11 milhões de árvores já foram plantadas e cerca de 25 mil hectares de solos já foram recuperados.

As iniciativas não ficam restritas apenas ao plano dos Governos federais dos países. Cerca de 120 municípios de Burkina Faso, Mali e Níger fizeram a sua “lição de casa” e plantaram suas “pequenas muralhas verdes”. Esse esforços locais resultaram na recuperação de mais de 2.500 hectares de terras. Isso pode parecer pouca coisa, mas, para milhares de famílias que dispõem apenas de um pequeno lote para produzir seu próprio alimento, isso é muito. Manter as populações em suas terras e garantir que elas possam produzir seus alimentos é parte vital do projeto.

Cada família beneficiada pelo Projeto da Grande Muralha Verde e que consegue se manter vivendo em sua própria terra é uma família a menos que vai ser forçada a migrar para os centros urbanos em busca de uma vida melhor. O êxodo rural é um problema seríssimo em toda a África, não só por causa da desertificação de solos e das secas persistentes em muitas regiões, mas também por causa de conflitos armados em todo o continente.

Existem inúmeros exemplos de países que possuem um Governo oficial (nem sempre eleito democraticamente) e inúmeros líderes tribais ou ligados a alguma guerrilha, que controlam grande áreas do território do país. Indefesa em meio a todas essas forças, a população civil precisa fugir e buscar novos locais para recomeçar a vida.

A iniciativa da Grande Muralha Verde não vai conseguir solucionar todos os problemas dessa extensa região da África, mas, ao menos, poderá garantir um futuro melhor para muita gente. Além dos esforços para conter o avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul, os Governos dos países atravessados pelo Sahel também precisam fazer investimento em sistemas de armazenamento e distribuição de água, em irrigação, na construção de estradas para facilitar o escoamento da produção, isso sem falar nos investimentos básicos em saúde e educação.

Infelizmente, não são todos os Governantes que estão preocupados com o bem estar e com a saúde do seu povo. Há notícias de desvios de verbas que seriam destinadas aos trabalhos de formação da Muralha Verde – dinheiro que está sendo doado por organismos internacionais, países e organizações não governamentais, mas que não está chegando onde deveria chegar.

De acordo com o relato de Dennis Garrity, diretor do ICRAF – Centro Agroflorestal Mundial, na sigla em inglês, houve uma proposta muito semelhante à da Grande Muralha Verde no início da década de 1970. Vários líderes africanos ficaram entusiasmados com a ideia e receberam verbas de organismos internacionais para plantar as árvores. O dinheiro, é claro, sumiu e ninguém viu as árvores. Não seria nada improvável que o mesmo acontece com alguns dos trechos do atual projeto.

Qualquer semelhança com fatos similares aqui em nosso país não é mera coincidência.

A GRANDE MURALHA VERDE DO SAHEL

Ao longo de diversas postagens anteriores falamos dos grandes impactos que a epidemia da Covid-19 está provocando na produção agrícola em todo o mundo. Com as restrições à circulação de pessoas em vários países, faltou mão de obra para realizar muitas colheitas, que acabaram se perdendo. Em muitos lugares, onde a mão de obra era formada majoritariamente por imigrantes temporários, a situação ficou ainda mais complicada – muitos desses trabalhadores retornaram para seus países de origem e só irão voltar quando as coisas se normalizarem. 

Explorando as diversas facetas que o problema adquiriu em todo o mundo, acabamos entrando num tema importante: o derretimento do permafrost em países como a Rússia, o Canadá e a Groenlândia. Esses são solos que, por causa do frio extremo, sempre estiveram congelados. Com o aumento das temperaturas em várias regiões do planeta, grandes trechos do permafrost estão derretendo e abrindo novas opções para a agricultura. 

O aumento das temperaturas nas zonas polares é uma consequência direta do aquecimento global, um fenômeno climático criado pela poluição da atmosfera com os chamados gases de efeito estufa, por queimadas em florestas e plantações, entre outras atividades humanas. Na postagem de hoje vamos comentar sobre um outro lado das mudanças climáticas – a desertificação. 

Você, com toda a certeza, já ouviu falar do Deserto do Saara. Trata-se do maior deserto do mundo, que cobre uma área total de mais de 9,2 milhões de km², uma superfície 10% maior que todo o território brasileiro, que tem 8,5 milhões de km². O Saara se estende por todo o Norte da África, englobando um total de 12 países: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul e Tunísia. A população somada de todos estes países está próxima dos 290 milhões de habitantes, porém na região do Saara vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. 

Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. Muitos especialistas afirmam que o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico.  

Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e desembarcasse no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do Saara. 

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu há menos tempo, cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer, as áreas de savana se ampliaram e depois as grandes extensões cobertas com areia passaram a dominar as paisagens.

A maior parte dessas grandes mudanças ambientais ocorreu ao longo de vários séculos, entrando a seguir em uma relativa estabilidade. Além da formação do grande Deserto do Saara, esse conjunto de mudanças criou uma extensa faixa de transição ao Sul – o Sahel. Com uma largura entre 500 e 700 km, o Sahel se estende do litoral do Oceano Atlântico, a Oeste, até o Mar Vermelho a Leste. Essa grande faixa de transição climática atravessa trechos da Gâmbia, Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Argélia, Níger, Nigéria, Camarões, Chade, Sudão, Sudão do Sul e Eritréia.

O Sahel sempre funcionou como uma barreira entre os terrenos áridos do Saara e as terras férteis da Savana africana. Os solos do Sahel eram cobertos por uma vegetação diversificada de estepe (vide foto), que funcionava como uma barreira natural contra os fortes ventos vindos do Saara, evitando que grandes volumes de areia chegassem até as Savanas. Estou usando verbos no passado por que grande parte dessa vegetação foi destruída ao longo do tempo, tanto para a abertura de áreas para a agricultura quanto para exploração da madeira. E sem essa barreira natural, as areias do Deserto do Saara começaram a se expandir para o Sul.

O Deserto do Saara cresceu cerca de 10% entre 1920 e 2020, ocupando principalmente áreas do Sahel. Essa expansão do Saara corresponde a uma área de 554 mil km², o que indica um avanço de mais de 7,6 mil km² por ano. A desertificação é, infelizmente, um problema global. De acordo com a ONU – Organização das Nações Unidas, perto de 120 mil km² de solos são perdidos a cada ano para a desertificação. Nas palavras de Ibrahim Thiaw, secretário-executivo da UNCCD – Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, na sigla em inglês, “a desertificação se espalha mais como um câncer do que como uma onda ou um incêndio na floresta” .

Diferentemente de outras regiões do mundo onde o problema da desertificação segue sem qualquer controle, na região do Sahel houve a decisão da União Africana de implementar um projeto conjunto para retardar ou até mesmo reverter o avanço do Deserto do Saara. Falo aqui da criação do Projeto da Grande Muralha Verde do Sahel em 2007. Com apoio da UNCCD, os países da região do Sahel iniciaram o plantio maciço de árvores, criando o que seria a maior estrutura viva do mundo. Aproximadamente US$ 8 bilhões já foram investidos. O principal objetivo da Muralha Verde é recuperar as grandes extensões da vegetação de estepe que foi perdida para os desmatamentos.

Entre as espécies de árvores que estão sendo plantadas destacam-se a acácia, o mogno, o nim e o baobá, todas adaptadas aos solos e ao clima do Sahel. O grande destaque dessa lista é o baobá, uma árvore que possui um tronco grosso e bulboso, que tem uma grande capacidade para armazenar água. Essa espécie pode viver até 2 mil anos. O baobá produz um fruto de casca marrom, de gosto cítrico e azedo, muito rico em vitamina C, cálcio, magnésio, potássio e ferro.

As características do fruto do baobá chamaram a atenção de empresas dos setores de alimentação da Europa, que passaram a importar a polpa desidratada, que está sendo usada na preparação de sorvetes, sucos e outros alimentos. Essa iniciativa já criou um mercado anual de US$ 3,5 bilhões, que poderá chegar aos US$ 5 bilhões em cinco anos. As populações locais passaram a enxergar as árvores como uma fonte de renda e tudo farão para preservá-las. Muitas dessas empresas estão fazendo doações de milhares de mudas de árvores, criando assim uma sinergia importante com as populações locais.

O ambicioso projeto da Grande Muralha Verde está muito longe de atingir os 8 mil km planejados, mas os resultados já obtidos são animadores. Só o fato de vários países africanos se unirem com um objetivo comum já foi um grande avanço. Vamos torcer pelo bom andamento desse fantástico e importantíssimo projeto. Assim como acontece aqui em nossas terras, é muito comum que grandes projetos em países africanos comecem e parem, com os recursos simplesmente desaparecendo no ar…

GROENLÂNDIA: UM FUTURO GRANDE CELEIRO AGRÍCOLA?

A Groenlândia possui um território com cerca de 2,1 milhões de km², sendo considerada a maior ilha do mundo. De uma forma geral, os mapas apresentam a ilha com um território imenso, maior inclusive que o Brasil. Essa é uma distorção provocada pela técnica usada na confecção desses mapas – a projeção de Mercator. Na realidade, a Groenlândia tem uma área equivalente à da Arábia Saudita. 

A ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país do qual depende financeiramente. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo. O nome da ilha é de origem nórdica e foi dados pelos antigos navegadores vikings que lá aportaram por volta do ano 900 da nossa era. Em dinamarquês, o nome da ilha é Grønland, o que significa, literalmente, “terra verde”. 

De acordo com os registros históricos testemunhais do período entre os anos 900 e 1300 d.C., o Sul da Groenlândia apresentava um clima bem mais ameno que os dias das atuais. A região era coberta por árvores e plantas herbáceas, permitindo a agricultura e a criação de gado. Gradativamente as temperaturas começaram a se reduzir e, no século XVII a pequena população local teve de abandonar a Groenlândia por causa do frio extremo. Esse é um período conhecido como a Pequena Idade do Gelo, quando toda a Europa sofreu com as baixas temperaturas. 

Os primeiros registros de ocupação humana na Groenlândia são datados em aproximadamente 4.500 anos atrás. Eram povos nômades que viviam da caça e da pesca. Ao longo dos milênios, diferentes grupos nômades ocuparam a ilha, alguns com mais sucesso que os outros. Cerca de 90% dos habitantes atuais da Groenlândia são inuits, grupo indígena que vive nas regiões árticas da América do Norte e que nós costumamos chamar de esquimós. A população total da Groenlândia é de apenas 56 mil habitantes, espalhados por algumas pequenas cidades costeiras. 

A economia da Groenlândia é quase que totalmente dependente do mar – a pesca e o processamento de pescados e frutos do mar são as principais atividades econômicas da ilha. A maior parte dos grandes barcos de pesca e as fábricas são de propriedade de cidadãos dinamarqueses, restando aos groenlandeses apenas os trabalhos braçais, pesados e sujos. Essa é uma situação que provoca uma enorme revolta entre os locais, com muitos sonhando com uma eventual independência da Dinamarca. 

A grande riqueza natural da Groenlândia, entretanto, está escondida nos seu subsolo – são imensas reservas de gás natural e petróleo, além de grandes jazidas de minério de ferro, zinco, molibdênio e ouro, entre muitos outros minerais de grande valor comercial. A grande dificuldade está no acesso a esses recursos minerais – além do clima inóspito, grande parte do território da Groenlândia é coberto por uma grossa camada de gelo, que varia entre 1,5 e 3 km de espessura. 

Assim como vem acontecendo em países como a Rússia e o Canadá, onde os efeitos do aquecimento global são bem visíveis, a Groenlândia também está “derretendo”. Um exemplo do que está acontecendo na ilha pode ser visto em estudo publicado na prestigiada revista científica Nature no final de 2020, que mostra o rápido derretimento das três maiores geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, KangerlussuqHelheim

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuaq Helheim, essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo (vide foto). 

Uma outra evidência clara da diminuição do gelo na Groenlândia é a redução dramática da população de cachorros na ilha. Durante milhares de anos, os diferentes povos nativos locais utilizaram seus fortes e valorosos cachorros para puxar seus trenos pelos difíceis terrenos da Groenlândia. Os cães da principal raça local, um parente próximo dos nossos conhecidos huskies, eram considerados essenciais à vida.  

Um exemplo da decadência canina na Groenlândia: até 1994, a cidade de Ilulissat tinha cerca de 4,6 mil habitantes e mais de 8 mil cachorros – de lá para cá, a população canina despencou e atualmente não passa de 2 mil animais. Os locais dizem que os cachorros são cada vez menos necessários, uma vez que há cada vez menos neve e gelo na região, sendo cada vez mais fácil circular com automóveis. 

A contínua de gelo na Groenlândia tem revelado com uma clareza cada vez maior uma antiga fauna e flora diversificada que ocupava toda a ilha há menos de 1 milhão de anos atrás, o que em termos geológicos é bem pouco tempo. Desde a década de 1960, pesquisadores já vinham encontrando vestígios desse antigo meio ambiente groenlandês. A grossa camada de gelo que se formou ao longo de várias eras glaciais preservou restos de árvores, plantas e insetos como mariposas, aranhas e pulgas, datados entre 450 mil e 800 mil anos atrás. 

As evidências indicam que, durante esse período, a Groenlândia era coberta por florestas boreais parecidas com a taiga e as temperaturas se situavam entre os 10° C nos meses de verão e os 17° C negativos durante o inverno, níveis muito mais confortáveis do que aqueles encontrados atualmente em muitas regiões da Escandinávia e da Rússia. Estudos anteriores indicavam que essas condições climáticas eram anteriores a 2,4 milhões de anos atrás. Com as mudanças no clima do mundo que estamos assistindo, não será nada difícil que uma fauna e uma flora, bem similares a antiga, voltem a ocupar os solos da Groenlândia. 

E mais: não será nada impossível que nossos filhos e netos visitem grandes plantações de grãos na Groenlândia num futuro não muito distante. Conforme já comentamos em postagem anterior, pesquisadores russos estão desenvolvendo sementes de soja adaptadas para as duras condições climáticas de regiões do Norte do país, onde os solos de permafrost estão derretendo e as temperaturas estão subindo. Se está dando certo na Sibéria, por que não daria numa Groenlândia “derretida”? 

Acontecendo isso, a Groenlândia fará jus de verdade ao seu nome – uma “terra verde”, e a vida no resto do planeta será bem mais complicada que nos dias de hoje.

A AGRICULTURA DA ÍNDIA EM TEMPOS DE COVID-19

No último dia 28 de fevereiro, um foguete indiano lançado a partir do Shar – Satish Dhawan Space Centre, em Sriharikota na Índia, colocou em órbita o Amazônia 1, primeiro satélite de observação da Terra totalmente projetado, construído, integrado, testado e operado no Brasil. O lançamento perfeito mostrou toda a capacidade tecnológica da Índia, uma país que até poucas décadas atrás era sinônimo de pobreza e fome. 

Com uma área total correspondente a apenas 30% do território brasileiro, a Índia abriga a segunda maior população do nosso planeta – são 1,3 bilhão de habitantes espalhados em pouco mais de 3,28 milhões de km². As projeções indicam que, em 2050, o país terá 1,69 bilhão de habitantes e será, disparado, o mais populoso do mundo

Sustentar tanta gente não é tarefa das mais fáceis e, já há várias décadas, sucessivos Governos indianos tem feito importantes investimentos para a segurança alimentar do seu povo. A Índia é o maior produtor mundial de pulses, grãos secos de leguminosas, onde se incluem grão-de-bico, ervilhas, lentilhas, feijão vermelho, feijão Urd, entre outros. A produção anual supera a marca das 19 milhões de toneladas, um pouco abaixo do consumo, que se encontra na casa das 22 milhões de toneladas. 

O país é o segundo maior produtor mundial de arroz, um dos alimentos mais importantes na dieta da sua população. Também é um grande produtor de cana-de-açúcar, amendoim, algodão, soja, legumes e frutas. Em 1950, a produção de grãos era de cerca de 50 milhões de toneladas – em 2020, a produção superou a marca das 295 milhões de toneladas. Para efeito de comparação, a produção brasileira em 2020 ficou próxima das 260 milhões de toneladas. 

O país tem uma posição de destaque na produção de carnes, sendo um dos maiores exportadores mundiais de carne bovina – isso apesar de bois e vacas serem considerados animais sagrados para grande parte da população da Índia. Internamente, as carnes de aves são as mais consumidas, 46% do total, seguido por carnes de búfalos (23%), cabras (13%), suínos (5,5%) e gado bovinos (5%). 

Apesar dos enormes avanços da produção agrícola nas últimas décadas, o número de pessoas subnutridas no país ainda é alarmante. De acordo com dados do Business Monitor International, publicadas em 2017, o número de subnutridos no país era de 213 milhões de pessoas no período 2010-2012, aproximadamente o tamanho da população do Brasil. No período 1993-1995, a situação era ainda pior – existiam 262 milhões de subnutridos na Índia, ou cerca de 1/5 da população. Os números mais recentes informam que o total de subnutridos está na casa dos 194 milhões de indianos

A segurança alimentar e a produção de alimentos estão entre as prioridades do Governo indiano, qualquer que seja o partido que esteja no poder. Nos últimos anos, o Governo do Primeiro Ministro Narendra Damodardas Modi vem se esforçando para modernizar a pequena agricultura e a produção familiar. Cerca de metade da população do país trabalha em atividades agrícolas, grande parte justamente nesses dois segmentos. A agropecuária responde por cerca de 14% do PIB da Índia. 

Essas atividades são fundamentais para um país onde perto de 68% da sua grande população vive em áreas rurais. Ao longo dos anos foram criadas inúmeras linhas de créditos e subsídios para as atividades rurais, incluindo preços reduzidos para a compra de sementes, fertilizantes e outros insumos, contas de água e luz com valores reduzidos, compra da produção garantida a valores de mercado, entre muitas outras “benesses” populistas. 

Entre outros problemas, essa política de fortes subsídios estagnou a produção de diversas culturas, como por exemplo a produção de pulses, que não apresenta qualquer crescimento há quase 10 anos. De acordo com os estudos feitos pelo Governo, essas políticas de subsídios provocam uma acomodação nos pequenos produtores – como eles sabem antecipadamente o quanto vão ganhar com a próxima safra, não fazem qualquer esforço para aumentar a produtividade ou para diversificar as suas culturas

A agenda do Governo inclui a eliminação de diversos subsídios, uma perspectiva que está incomodando importantes grupos e associações de produtores. Diversas manifestações desses opositores vêm ocorrendo por toda a Índia, muitas delas inclusive, terminando em violentos confrontos com as forças policiais. No final de janeiro, uma grande manifestação de agricultores em Nova Déli bloqueou principais ruas da capital com tratores (vide foto) e terminou com um manifestante morto e cerca de 80 policiais feridos. 

Além do clima tenso entre produtores agrícolas e Governo, as atividades rurais da Índia também vêm sofrendo os impactos da pandemia da Covid-19. Em 25 de março de 2020, o Governo decretou um grande isolamento social com vistas a conter o crescimento da doença. Com uma população tão grande e com uma grande parte dos seus cidadãos vivendo em condições sanitárias das mais precárias, o Governo da Índia temia uma grande mortalidade por causa da doença.  

Os números mais recentes indicam que 11,3 milhões de indianos tiveram a doença e cerca de 160 mil pessoas morreram. Apesar de trágicos, esses números são, em termos relativos, muito menos graves do que o de países com populações bem menores como os Estados Unidos e o Brasil, onde a Covid-19 já fez mais de 535 mil e 290 mil vítimas, respectivamente. 

A pressão popular, principalmente das populações mais pobres, acabou forçando o Governo a liberar algumas atividades, em especial nas áreas da agropecuária. Segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, mais de 92% dos trabalhadores da Índia são informais e dependem dos ganhos do dia a dia para comprar os alimentos que consomem. Muitos desses trabalhadores precisam fazer longas caminhadas até os locais de trabalho – há relatos de pessoas que percorrem até 100 km a pé todos os dias

Apesar da liberação dos trabalhos no campo, os serviços de transporte, distribuição e venda dos alimentos pelos país continuaram parcialmente paralisados, criando toda uma série de problemas de escassez de muitos produtos. Alimentos como a carne de frango tiveram uma forte alta nos pontos de venda nas cidades devido à baixa oferta – muitos produtores, sem condições de escoar a sua produção, tiveram de reduzir os seus preços de venda, em alguns casos em até 6 vezes, para conseguir vender alguma coisa. 

A exemplo de outros países, o Governo da Índia criou uma série de ajudas econômicas para as populações mais pobres do país, que vão da distribuição de cestas básicas ao pagamento de auxílios emergenciais. O grande problema é que essas populações vivem em pequenos vilarejos isolados e a imensa maioria dessas pessoas não possui uma conta bancária – aliás, são poucos os que já entraram em uma agência bancária na vida. 

Em curtos espaços de tempo, essas populações mais pobres conseguem se manter contando com a solidariedade de parentes e vizinhos. O problema é que, com o passar do tempo, todos vão ficando sem recursos para se manterem e as tensões sociais, que já são enormes na Índia, podem se agravar muito. 

Todos esperamos pela chegada de tempos melhores. 

EM TEMPOS DE COVID-19, O CANADÁ BUSCA DESESPERADAMENTE POR MÃO DE OBRA PARA A SUA AGRICULTURA

Com uma área total próxima dos 10 milhões de km², o Canadá é o segundo maior país do mundo em extensão territorial, só ficando atrás da gigantesca Rússia. Grande parte do país se encontra dentro do Círculo Polar Ártico, onde o clima inóspito e os solos congelados (permafrost) sempre representaram um enorme desafio para a colonização. 

Uma extensa faixa de terras ao Sul – especialmente no Centro-Oeste do país, apresenta um clima temperado e excelentes solos, onde se pratica uma agricultura moderna e de altíssima produtividade. Em 2018, saíram dessa região mais de 20 milhões de toneladas de colza, uma semente rica em óleo; 32 milhões de toneladas de milho; 7 milhões de toneladas de soja; 14 milhões de toneladas de milho; 8,3 milhões de toneladas de cevada; 5,7 milhões de toneladas e batata, entre inúmeras outras culturas. A região também é uma grande produtora de carnes, principalmente de bovinos. 

Além de já contar com todo esse potencial, o Canadá é um dos países do mundo que mais poderá se beneficiar com o aquecimento global. Extensas áreas da tundra canadense vêm apresentando um aumento gradual das temperaturas e os solos de permafrost estão derretendo. Essa grande tragédia ambiental, que assusta o mundo todo, poderá se reverter em novas áreas para a produção agrícola e pecuária no Canadá. 

Os números grandiosos da agricultura escondem um enorme problema do país – apesar do extenso território e do enorme potencial de suas terras, faltam braços e pernas para movimentar a produção. A população total do Canadá é menor do que a do Estado de São Paulo – são apenas 38 milhões de habitantes. Além de pequena, grande parte dessa população – como aliás acontece em todos os países ricos, se recusa a fazer trabalhos manuais e pesados. A grande fonte de mão de obra para a agricultura do Canadá são os imigrantes, principalmente os temporários. 

Até o complicado ano de 2020, quando o mundo foi completamente tomado pela pandemia da Covid-19, dezenas de milhares de trabalhadores temporários, vindos principalmente da América Central e das ilhas do Mar do Caribe, se dirigiam ao Canadá todos os anos para trabalhar na agricultura e na pecuária. Ao longo dos meses mais quentes do ano, esses trabalhadores realizavam a preparação dos solos, o plantio, a colheita e a distribuição de uma infinidade de produtos agrícolas. Quando o rigoroso inverno canadense começava a mostrar suas “garras”, esses trabalhadores voltavam para seus quentes e acolhedores países de origem. 

De acordo com informações da agência de notícias Bloomberg, em maio de 2020 já estavam faltando mais de 60 mil trabalhadores estrangeiros na agricultura do Canadá. Assustados com as notícias sobre os índices de mortalidade da Covid-19, muitos dos habituais trabalhadores temporários optaram por ficar em seus países de origem junto com as suas famílias. De lá para cá, com as notícias de novas ondas de contaminação da doença, as coisas só pioraram. 

A falta de mão de obra vem sendo sentida principalmente em regiões produtoras de frutas e hortaliças da Colúmbia Britânica e nas vinícolas de Niágara, onde os trabalhos de colheitas são feitos manualmente e demandam muita gente. Nos setores de produção de grãos, onde a colheita é mecanizada, os problemas são bem menores, porém, existem enormes dificuldades nas áreas de estocagem e transporte dos grãos. 

A questão é tão séria para a economia do Canadá que até o Primeiro Ministro Justin Trudeau precisou se envolver e anunciou uma série de medidas para estimular a vinda de trabalhadores temporários para o país. Entre as medidas anunciadas foram incluídas facilidades para a entrada no país, renovação automática para os vistos de trabalho e também a liberação de dezenas de milhões de dólares canadenses para cobrir os custos com a quarentena obrigatória dos imigrantes. E, mesmo assim, continuou faltando gente disposta a ir trabalhar no Canadá. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, a pandemia da Covid-19 teve impactos importantes na produção agropecuária de países em todo o mundo, especialmente nos países onde os trabalhos mais pesados são feitos por imigrantes. As sucessivas campanhas do tipo “fique em casa” e os números de mortes pela doença divulgados diariamente assustaram os trabalhadores. Na Europa, por exemplo, milhares de trabalhadores voltaram para seus países de origem, principalmente no Leste do continente, e se refugiaram junto com seus familiares. 

A situação se tornou tão complexa que a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, está temendo a chegada de uma grande onda de fome em muitos países do mundo. Segundo a FAO, 130 milhões de pessoas poderão ser levadas para a pobreza e se somarão aos mais de 690 milhões que já não tem o que comer regularmente. A esse grupo se somam outros 3 bilhões de pessoas em todo o mundo que não ganham o suficiente para manter uma alimentação adequada. Serão consequências muito mais graves que as da epidemia da Covid-19. 

O Brasil, que nas últimas décadas vem se transformando num dos grandes produtores de alimentos do mundo, tem se beneficiado muito dessa redução da produção agrícola mundial. A produção de muitos grãos segue em alta e as exportações não param de crescer. Entretanto, se essa situação persistir por muito tempo, esses bons ventos vão parar de soprar e vai começar a faltar dinheiro no mundo para pagar pelas importações desses alimentos. 

O gigantesco mercado consumidor da China, que tem mais de 1,4 bilhão de bocas para alimentar e muito dinheiro em caixa, ainda está pressionando o mercado internacional, comprando volumes cada vez maiores de grãos e carnes. A grande questão é – até quando essa situação vai se sustentar. 

Tradicionalmente, o mês de maio marca o início do plantio em países de clima temperado do Hemisfério Norte como o Canadá. Com a chegada da primavera e o degelo, os solos estão com bons níveis de umidade e prontos para serem trabalhados e semeados. As árvores já recuperaram suas folhagens e estão cobertas de flores – em breve, toda uma infinidade de frutos vai estar crescendo por todos os lados.  

A dúvida que fica – esse ano vai haver mão de obra suficiente para trabalhar nos campos do Canadá ou culturas inteiras vão se perder ou terras deixarão de serem semeadas por falta de mãos para os trabalhos no campo? E nos outros países do mundo? Até quando vão durar os estoques de grãos? 

Depois de milhares de anos de muita fome e de grandes dificuldades para a produção agrícola, a humanidade imaginava ter superado tudo isso ao ter atingido um alto grau de mecanização e de alta tecnologia para a produção agrícola. Apesar de ainda persistir em muitas regiões, a fome vinha sendo reduzida gradativamente em todo o mundo. De repente, um vírus aparece e consegue abalar todas as cadeias produtivas nos campos do mundo. 

Isso é um sinal claro que ainda temos muito a aprender com a natureza.