Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

APÓS FORTE RESSACA, JACARÉS APARECEM NA PRAIA DO RECREIO, NO RIO DE JANEIRO

Jacarés na Praia do Recreio

Há poucos dias atrás, publicamos uma postagem falando dos graves problemas vividos pelos jacarés-do-papo-amarelo da região do Complexo Lagunar de Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com cerca de 280 km², o complexo é formado pelas Lagoas da Tijuca, Camorim, Jacarepaguá, e Marapendi. Essa região tem apresentado um forte crescimento imobiliário nos últimos anos e possui uma população de mais de 400 mil habitantes. Centenas de condomínios e prédios residenciais foram construídos na região, confinando os grandes bandos de jacarés que habitavam as lagoas a espaços cada vez mais restritos. Especialistas calculam que, apenas no Complexo Lagunar de Jacarepaguá, vivam perto de 4 mil animais. Uma curiosidade – a palavra Jacarepaguá vem do tupi-guarani e significa, literalmente, “enseada ou lugar dos jacarés”.

Pois bem: a situação de alguns desses animais conseguiu ficar um pouquinho pior. Uma forte ressaca, que foi sentida em uma grande extensão do litoral da Região Sudeste, atingiu a orla da cidade do Rio de Janeiro, forçando a interdição de várias pistas de avenidas ao largo das praias para a retirada de areia. Na região do Recreio dos Bandeirantes, além de muita areia nas avenidas, os moradores também passaram a encontrar inúmeros jacarés andando nas areias e calçadões da praia (vide foto). A violenta ressaca atingiu o Canal de Sernambetiba, que liga as lagoas ao oceano, e arrastou grandes ilhas de gigogas (Eichhornia), um gênero de plantas flutuantes abundante nas lagoas e no canal, e muitos jacarés-do-papo-amarelo na direção da praia.

A Polícia Ambiental e Bombeiros Militares de diversos grupamentos da cidade foram acionados e passaram grande parte dessa segunda-feira, dia 8 de julho, “caçando” jacarés nas praias do bairro. Os animais capturados foram levados de volta para as lagoas e soltos no seu habitat natural. Felizmente, nenhum incidente entre os jacarés e os frequentadores da orla litorânea foi registrado.

Os jacarés-do-papo-amarelo (Caiman latirostris) são encontrados nas bacias hidrográficas dos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e São Francisco, além de ser encontrados em ecossistemas costeiros como manguezais, estuários de rios e regiões lagunares como é o caso da Barra da Tijuca. Em média, os jacarés dessa espécie têm cerca de 2,5 metros de comprimento, mas já foram encontrados espécimes com até 3,5 metros e com um peso da casa dos 90 kg. Raramente, os jacarés atacam seres humanos, exceto nos casos em que o animal se sinta acuado e tente se defender.

Encontrar um animal silvestre desse porte e periculosidade solto no calçadão da praia durante uma caminhada não é um dos melhores programas para os cariocas. Apesar da notícia curiosa, é uma situação preocupante, que, infelizmente, poderá se repetir inúmeras vezes nesse trecho da orla da cidade.

 

A POMÁCEA, O GAVIÃO-CARAMUJEIRO E A DESTRUIÇÃO DOS BIOMAS

Gavião-caramujeiro

Na nossa última postagem falamos dos impactos da poluição do rio Cubatão sobre os guarás-vermelhos (Eudocimus ruber). Essa ave apresenta uma vistosa plumagem num tom de vermelho vivo, o que faz a espécie se destacar na paisagem. A cor das penas se deve a dieta dos guarás, constituída por moluscos e crustáceos ricos em betacaroteno, um pigmento natural rico em vitamina A e que possui uma cor vermelha intensa. No rio Cubatão, a poluição das águas exterminou muitas populações da fauna aquática e os guarás perderam a sua fonte principal de alimentos, passando a apresentar somente penas na cor branca. Conforme a poluição no rio Cubatão foi sendo reduzida e as águas e manguezais voltaram a ser recolonizados pela sua fauna original, os guarás recuperaram a sua dieta rica em betacaroteno e as penas vermelhas voltaram a aparecer. 

Na natureza, porém, não são todas as espécies que tem uma segunda chance nas suas vidas ou que podem sobreviver com uma dieta alternativa. O gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), também conhecido como gavião-de-uruá e gavião-pescador, é um exemplo de animal com dieta altamente especializada e que não se pode dar ao luxo de consumir outros tipos de alimentos. A ave é o que se chama na biologia de malacófago, espécies de carnívoros especializados, cuja dieta é predominantemente à base de moluscos.  

O nome científico da espécie – Rostrhamus, já é uma indicação dessa especialização. O nome vem da junção das palavras em latim rostrum – bico, e hamus – gancho, o que significa, literalmente, gavião com gancho no bico. Essa adaptação evolutiva no bico da ave é perfeita para extrair a carne dos caramujos do interior da concha – a ave segura o caramujo com um dos pés e introduz o bico na concha, puxando o corpo do molusco para fora. Existem três subespécies de gavião-caramujeiro, que ocupam um extenso território que vai das áreas pantanosas do Sul dos Estados Unidos ao Norte da Argentina. No Brasil, a espécie é encontrada em todos os biomas. 

Essa alimentação especializada representa uma vantagem competitiva para os gaviões, que não precisam brigar com outras espécies pela captura dos caramujos. Por outro lado, depender exclusivamente de uma única espécie da fauna como fonte de alimentação se apresenta como um grande risco – caso qualquer impacto ambiental venha afetar os caramujos, reduzindo as suas populações, os gaviões ficam, literalmente, sem ter o que comer. É justamente isso o que está acontecendo em vários biomas brasileiros, deixando os gaviões-caramujeiros privados da sua fonte de alimentos. Um bioma onde isso está acontecendo com uma velocidade assustadora são os Banhados dos Pampas Sulinos. 

Os Banhados são ecossistemas típicos do Extremo Sul do Brasil, ricos em vida e que podem ser comparados aos bancos de corais dos oceanos. Funcionando como uma espécie de “esponja natural”, as áreas de Banhados acumulam grandes volumes de água nos períodos de chuva, auxiliando inclusive no controle das cheias dos rios; nos períodos de seca, fornecem água para as lagoas, garantido a sobrevivência de um sem número de espécies animais e vegetais. Os solos úmidos dos Banhados são ricos em matéria orgânica, resultante da decomposição dos juncos e gramíneas – essa excepcional fertilidade dos solos tornou essas áreas em alvo para a expansão das fronteiras agrícolas. 

As algas estão na base da cadeia alimentar das áreas de Banhado. Estes vegetais se nutrem a partir da filtragem das partículas em suspensão na água, desempenhado um papel de filtro biológico do ecossistema. Diversas espécies de moluscos se alimentam destas algas e, por sua vez, servem de alimento para diversas espécies de peixes – aves locais e migratórias buscam alimento e abrigo nos Banhados, assim como toda uma cadeia de animais como capivaras, lontras, ratões-do-banhado e jacarés-do-papo-amarelo. Toda uma frágil teia de vida e de inter-relações entre espécies animais e vegetais sobrevive nos Banhados. 

Um exemplo da fragilidade do equilíbrio ambiental desses ecossistemas pode ser visto numa espécie de caramujo encontrado nos Banhados – a pomácea. Esse caramujo é uma importante fonte de alimento para diversas espécies de aves, sobretudo ao gavião-caramujeiro, espécie que, no Extremo Sul, se alimenta exclusivamente desta “iguaria”. A drenagem dos banhados para a implantação de culturas de grãos, especialmente o arroz, ou o carreamento de grandes volumes de resíduos de defensivos agrícolas, pode levar à extinção de grandes colônias deste caramujo – a maioria das aves perderá um dos seus alimentos: o gavião-caramujeiro, entretanto, perderá a sua única e exclusiva fonte de comida. 

Os gaviões-caramujeiros não estão sozinhos no drama da destruição sistemática dos Banhados, o que mostra a importância do bioma para diversas comunidades de animais. Essas áreas abrigam uma série de aves migratórias, que utilizam estes ecossistemas como áreas de descanso, alimentação e até como territórios de nidificação. Uma dessas espécies de ave é o cisne-do-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus)que tem seu território distribuído desde a Terra do Fogo, no extremo Sul da América do Sul até áreas na região Sudeste do Brasil. Esse extenso território inclui, além do nosso país, regiões da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Ilhas Malvinas.  

Diversos Banhados dos Pampas Gaúchos ficam no caminho das rotas migratórias dos cisnes. Uma outra espécie, a coscoroba (Coscoroba coscoroba), também chamada de cisne-coscoroba e capororoca, é uma ave migratória com território indo desde a Patagônia, no sul da Argentina e do Chile, até as regiões Sul do Brasil e Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul. Estas aves utilizam áreas de Banhados do Extremo Sul para descanso, alimentação e nidificação ao longo de suas migrações. O comportamento instintivo destas aves é o resultado de milhares de anos de adaptação ao meio ambiente e, quando um dos seus habitats é destruído ou modificado, estes animais não conseguem mudar seus hábitos rapidamente – grupos inteiros de animais podem morrer de fome ou simplesmente não conseguir se reproduzir, colocando a espécie sob pressão e ameaça de extinção. 

As áreas de Banhado também têm importância ímpar para os rios gaúchos. Conforme já comentamos em postagens anteriores, elas atuam na regulação dos níveis de água tanto nos períodos de cheias quanto de secas. Também são fundamentais para a manutenção da biodiversidade das espécies animais que vivem nos rios, incluindo-se peixes, crustáceos, mamíferos, aves e répteis, que têm nos banhados importantes áreas de alimentação e reprodução. Uma função crítica desempenhada pela vegetação dos banhados é a retenção e a depuração de sedimentos e despejos que correm na direção da calha dos rios, auxiliando na manutenção da qualidade das águas. 

Nos Banhados também se encontram nascentes que contribuem com substanciais volumes de água, recurso importante nos períodos de seca. Diversos rios em todo o Estado do Rio Grande do Sul têm sofrido fortes impactos devido a esta sistemática e contínua destruição dos banhados, onde destacamos os problemas dos rios CaíGravataí e dos Sinos, corpos d’água que, infelizmente, integram a lista dos dez rios mais poluídos do Brasil. 

Dentro da complexidade de relações entre as diversas formas de vida de um ecossistema, o desparecimento de uma única espécie tem potencial para levar junto outras tantas espécies. Se os gaviões-caramujeiros desaparecem dos Pampas, várias outras espécies, desgraçadamente, desaparecerão também. 

PS: 3° Aniversário de Água, Vida & Cia. Obrigado a todos os leitores!

OS GUARÁS-VERMELHOS E O RIO CUBATÃO

Guará-vermelho

Uma forma bastante “didática” para entender os impactos da poluição das águas de um rio sobre uma espécie animal é acompanhar a saga dos guarás-vermelhos do rio Cubatão, na região da Baixada Santista, Estado de São Paulo. Durante décadas, a intensa poluição desse rio fez os vistosos guarás “desaparecerem” do mapa. Em anos recentes, após um intenso projeto governamental para o controle das fontes de poluição em Cubatão, os guarás-vermelhos, milagrosamente, reaparecem. Deixem-me explicar: 

A história da poluição em Cubatão remonta à década de 1950, quando o município foi escolhido para sediar a Refinaria Arthur Bernardes da Petrobras. Localizado a apenas 12 km do Porto de Santos, a 47 km da cidade de São Paulo, servido por rodovias e ferrovias e ao lado da Usina Hidrelétrica Henry Borden, o município oferecia todas as condições para sediar um importante pólo petroquímico. No início da década de 1970, Cubatão já havia se transformado no maior pólo industrial do país, sediando empresas dos setores petroquímico, químico e de fertilizantes, além de possuir uma grande empresa siderúrgica, a Cosipa – Companhia Siderúrgica Paulista. 

Sem entrarmos em maiores detalhes, é bastante fácil perceber que estas indústrias lidam com matérias primas e produtos altamente poluentes e foram implantadas na região de Cubatão numa época em que não existiam maiores preocupações com a poluição do ar, da água e dos solos. Aqueles eram tempos do desenvolvimento a qualquer custo, cujo ápice foi a era do chamado “Milagre Econômico Brasileiro” no início da década de 1970. Não tardou muito para a região passar a ser conhecida como o “Vale da Morte”. Alguns dados ambientais do município à época: 

  • As empresas do Pólo Industrial de Cubatão lançavam na atmosfera aproximadamente 40 toneladas/dia de gases tóxicos e material particulado; 
  • Despejo clandestino de centenas de toneladas de rejeitos e resíduos industriais de todos os tipos, incluindo-se na lista o perigoso Pó da China, um desinfetante, fungicida, inseticida, bactericida e moluscocida sintético e altamente tóxico para os seres humanos e para o meio ambiente, banido do mercado na década de 1980. 
  • Despejos de efluentes industriais dos mais diversos tipos e origens nas águas, combinado com os esgotos domésticos da população, águas pluviais ácidas e águas subterrâneas contaminadas pelos aterros de resíduos químicos. O rio Cubatão, o principal curso d’água do município, era o principal destino de toda essa carga poluidora e, consequentemente, era um retrato da devastação ambiental regional. 

O rio Cubatão é formado pela junção das águas de vários rios na vertente da Serra do Mar, com destaque para os rios Pilões, das Pedras, Perequê e Capivari. O rio atravessa todo o município de Cubatão e se abre num extenso delta ao chegar na região do estuário de Santos, onde forma uma grande região de importantes manguezais. Somente para relembrar a importância histórica e econômica desta região, a primeira cidade fundada no Brasil foi São Vicente em 1532 e, na cidade vizinha – Santos, funciona o maior e mais importante porto do Brasil. Esses manguezais, durante séculos, garantiram o fornecimento de pescados e frutos do mar para a população de toda a região, até que a intensa poluição inviabilizasse as atividades pesqueiras e de coleta nestes manguezais.  

As águas do rio Cubatão são captadas na base da Serra do Mar e sempre foram uma importante fonte de abastecimento de água da população da região. A Sabesp – Companhia de Abastecimento de São Paulo abastece 1 milhão de habitantes, em 5 cidades da região com águas captadas na bacia hidrográfica do rio Cubatão, demonstrando a importância regional do rio e a preocupação com os danos provocados pela intensa poluição de suas águas. 

Uma das primeiras fontes de poluição observadas no rio Cubatão foram as águas que desciam da represa Billings em direção da Usina Henry Borden, que apresentavam sinais de contaminação por esgotos, transpostos a partir das águas do já poluído rio Tietê a partir de 1950. Na mesma época, após a construção da Refinaria Arthur Bernardes e de todas as indústrias associadas instaladas no Polo Industrial de Cubatão, o rio passou a receber cargas de poluentes em volumes crescentes. Dados da Cetesb – Companhia Ambiental de São Paulo, mostram que até julho de 1984 eram despejadas 64 toneladas/dia de poluentes no rio Cubatão, sem contar os volumes de poluentes carreados para o canal do rio pelas águas pluviais e percolados a partir das águas subterrâneas. 

O município de Cubatão passou por um intenso e dramático programa de despoluição a partir do ano de 1984, capitaneado pelas autoridades do Governo do Estado de São Paulo, pelas indústrias e sociedade civil. Foram criados diversos programas para o controle da poluição do ar, do solo e das águas, além de programas para o reflorestamento e contenção das encostas da Serra do Mar, construção de conjuntos habitacionais para a transferência de moradores das áreas de risco, investimentos em saúde, educação e saneamento básico. Os resultados de todos estes esforços gradativamente passaram a ser vistos na qualidade do ar e das águas, que melhoraram a olhos vistos. 

Dados da Cetesb, referentes ao ano de 2010, mostram que as águas do rio Cubatão tiveram uma redução de 93,8% no nível de poluentes, sendo 93% de redução da DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio, 90% de redução na carga de resíduos sólidos, 97% de redução no lançamento de metais pesados, 80% nos fenóis e 96% nos fluoretos. A totalidade das fontes geradoras de poluentes nas indústrias é controlada e monitorada em tempo real, porém ainda existem fontes de poluição difusa, especialmente percolações originadas nos muitos aterros de resíduos (frequentemente, novas áreas de aterros clandestinos são descobertas na região). O combate a este tipo de poluição depende a remoção dos volumes de solo contaminados, que precisam ser transportados para uma usina onde receberão um tratamento térmico – esse processo é lento, caro e vários Estados proíbem a entrada destes resíduos em suas fronteiras (a fumaça gerada no processo de queima pode liberar dioxinas, compostos químicos altamente tóxicos). 

Uma das consequências mais marcantes observadas ao longo do processo de despoluição do município de Cubatão pode ser observada no uso racional da água – 96% da água doce utilizada pelas indústrias passou a ser recirculada – a água passa por processos de tratamento por decantação, floculação e filtragem antes de ser reutilizada nos processos industriais. Com isso, há uma substancial redução na necessidade de captação de água na bacia hidrográfica e também no descarte de efluentes líquidos – tudo isso contribuiu para a preservação e recuperação ambiental do rio Cubatão. 

Os guarás vermelhos (Eudocimus ruber), espécie de ave que também é conhecida como íbis-escarlateguará-rubro e guará-pitanga, que sempre habitou a região e que havia desaparecido, voltou a habitar as margens do rio Cubatão. A cor vermelha de suas penas tem origem em substâncias químicas encontradas nos moluscos que compõem a sua dieta – ao longo dos anos de poluição intensa, estes moluscos desaparecem dos manguezais e os pobres guarás passaram a apresentar uma plumagem branca e sem graça. Com a melhoria da qualidade das águas, os guarás voltaram a exibir sua vistosa plumagem vermelha, num sinal de tempos cada vez melhores em Cubatão, apesar dos muitos problemas que ainda persistem. 

Ou seja, os guarás-vermelhos voltaram sem nunca ter ido a lugar nenhum. 

PIRARUCU, O BACALHAU “GENÉRICO” DA AMAZÔNIA

Pirarucu

Nas postagens anteriores, apresentamos vários exemplos de espécies da fauna aquática e semi-aquática brasileira que tiveram suas vidas altamente comprometidas pela degradação de rios e lagos e que, em muitos casos, estão correndo sérios riscos de extinção. Entre as espécies citadas falamos, entre outras, de capivaras, dourados, pituspiabanhas. A degradação da qualidade das águas e o represamento dos cursos d’água estão entre as principais causas desses processos. Uma outra fonte de problemas é a superexploração de um recurso natural. Um exemplo histórico que podemos usar é o caso do pirarucu dos rios da Amazônia. 

O pirarucu (Arapaima gigas), também conhecido como arapaima ou peixe pirosca, é o maior peixe de escamas dos rios brasileiros e um dos maiores do mundo, podendo atingir até 3,5 metros de comprimento e um peso de até 250 kg. O animal é um grande predador onívoro dos rios da Bacia Amazônica, se alimentando de peixes, caramujos, crustáceos, anfíbios, cágados e cobras, entre outros, de uma enorme lista de presas. Quando jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos que vivem livres nas águas dos rios, passando depois a comer pequenos peixes. O peixe pode viver até 18 anos. 

A espécie possui uma grande cabeça achatada, com mandíbulas salientes e um grande corpo cilíndrico. Uma das características físicas mais interessantes do pirarucu é o fato da espécie possuir dois sistemas respiratórios. Como ocorre com a imensa maioria dos peixes, o pirarucu possui um sistema de brânquias para respiração aquática – esse órgão consegue extrair o oxigênio dissolvido na água. Também possui uma bexiga natatória modificada, que funciona como um pulmão e que permite que o pirarucu também realize a respiração aérea, uma característica chamada na biologia de “respiração acessória”. Esse mecanismo de respiração extra é fundamental nos períodos da seca, quando os rios Amazônicos tem seus níveis dramaticamente reduzidos e um peixe com as proporções do pirarucu ficam sujeitos a riscos de encalhe ou aprisionamento em poças d’água. 

No seu dia a dia, os pirarucus sobem frequentemente até a superfície para respirar ar fresco, uma característica de comportamento que expõe os peixes aos arpões, flechas e redes de pescadores, ribeirinhos e indígenas. Desde longa data, a carne do pirarucu está no topo da preferência das populações da Amazônia. Certa feita, visitando o famoso mercado do Ver-o-peso, na cidade de Belém do Pará, primeiro fiquei impressionado com a visão dos balconistas colocando um imenso exemplar de pirarucu em um dos balcões; depois, fiquei surpreso com a velocidade que o peixe foi cortado em inúmeras postas e vendido a diversos clientes da peixaria Uma senhora comentou que não era sempre que pirarucus chegavam ao mercado e que era preciso aproveitar a ocasião. 

Uma forma comum de se encontrar pirarucus a venda na região Amazônica é em “mantas” salgadas, similares ao bacalhau. Aliás, o pirarucu é conhecido como o “bacalhau da Amazônia”. Ao contrário do que muitos podem imaginar, a alcunha não se deve ao formato das peças de peixe salgadas, mas sim a uma grande “esperteza” de padres Jesuítas que, durante décadas a fio em tempos antigos, processavam os pirarucus em suas fazendas espalhadas por toda a Floresta Amazônica e exportavam os peixes para Portugal, onde as peças eram vendidas ao público como um “legítimo” bacalhau. Aqui vale esclarecer que não existe uma espécie de peixe com o nome de bacalhau, mas sim várias espécies de peixes oceânicos, especialmente da família Gadidae, que são limpos, cortados da mesma forma, salgados e vendidos com o nome genérico de bacalhau. 

Os Jesuítas começaram a chegar à região Amazônica nas primeiras décadas do século XVII, quando acompanhavam as guarnições militares de Portugal, enviadas para construir fortificações para assegurar as possessões do Reino na América do Sul. Assim que se instalavam em uma determinada região, os religiosos rapidamente iniciavam os trabalhos de catequese, que nada mais eram que esforços para “civilizar” e converter os indígenas à religião católica. 

No início das atividades dos Jesuítas na Amazônia, havia um número bastante pequeno de aldeamentos de índios reduzidos (expressão usada para indicar os índios transferidos para um aldeamento), no trecho de costa entre o Maranhão e o Pará. Em 1751, eram 63 aldeias somente na região Amazônica, de um total de 80 aldeamentos que existiam na Colônia. Deste total, 66 eram dos Jesuítas e as 14 restantes estavam distribuídas entre frades das Mercês, Capuchinhos, Santo Antônio e Franciscanos. 

Com o passar do tempo, a maior parte das missões dos Jesuítas acabou transformada em meros centros comerciais, dos quais a Companhia de Jesus auferia o melhor dos lucros e sobre os quais exercia grande domínio e soberania. As grandes fazendas, que foi no que se transformaram as missões, passaram a ser grandes produtoras de gêneros exportáveis de toda a ordem como açúcar, frutas, peixes salgados – principalmente o pirarucu, tartarugas e madeiras. Precisamos destacar aqui as chamadas “drogas do sertão”, uma série de condimentos “genéricos” com características similares às famosas “especiarias do Oriente”, que eram vendidas a peso e preço de ouro na Europa. Aqui se incluem pimentas, açafrão, curry e outros temperos, além de cravo e canela, produtos que eram vitais em uma época quando não existiam equipamentos para a refrigeração e conservação das carnes

Um outro produto que fazia parte das exportações das fazendas dos Jesuítas era a gordura de peixe-boi, um produto muito valorizado na época e utilizado na iluminação pública. A gordura de baleia era o produto mais utilizado para esse fim, mas o Brasil nunca foi um dos grandes produtores. Os baleeiros ingleses se instalaram nas Ilhas Falkland (as famosas Malvinas da Argentina) já no século XVII e abatiam a maioria das baleias no Sul do Oceano Atlântico antes que elas atingissem o litoral brasileiro. 

Os indígenas, que eram hábeis remadores em suas canoas e mais hábeis ainda no uso do arco e das flechas, realizavam grandes expedições nos rios da Amazônia e capturavam grandes quantidades de pirarucus, que eram pré-processados e salgados ainda em campo. Já nas fazendas, os peixes eram cortados em formatos parecidos com o dos bacalhaus “verdadeiros”. As peças recebiam mais uma salga e depois eram armazenados em barricas de madeira, que era a embalagem mais adequada para o transporte desse tipo de produto na época. Em poucos anos, os Jesuítas se transformaram nos maiores exportadores da região, totalmente isentos do pagamento de impostos, em prejuízo aos demais colonizadores da província. 

Essa verdadeira indústria exportadora somente terminou quando da expulsão dos Jesuítas de todos os territórios portugueses em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello (1699-1782), estadista e diplomata, ainda hoje, uma das figuras mais controversas e carismáticas da história de Portugal. Todos os bens dos Jesuítas foram confiscados, entre eles cerca de 150 mil cabeças de gado, centenas de imóveis por todo o país, 26 engenhos de açúcar e, pelo menos, 30 engenhocas de cana produtoras de cachaça

Devido à falta de qualquer estudo anterior, é praticamente impossível se determinar qual foi o impacto dessa intensa pesca de pirarucus em toda a Bacia Amazônica ao longo dos séculos XVII e XVIII. Pelos relatos históricos que chegaram aos nossos dias, podemos supor que a espécie era muito abundante nos rios da região. Com o fim das atividades comerciais dos Jesuítas, houve uma grande redução na captura da espécie, mas a pesca e a comercialização nunca cessaram. Atualmente o pirarucu é uma espécie altamente vulnerável e ameaçada de extinção em vários rios da Amazônia. A situação só não é mais crítica por que, nos últimos anos, surgiram vários projetos para a conservação, criação em cativeiro e de pesca sustentável da espécie

Como se nota, a ganância e a superexploração de uma única espécie, nesse caso o pirarucu, pode ser tão devastadora ao meio ambiente e à biodiversidade como a poluição das águas e a construção de barragens de usinas hidrelétricas. 

AS CAPIVARAS DO RIO CAPIBARIBE

Capivaras do rio Capibaribe

Os topônimos de origem indígena estão presentes em nosso dia a dia em nomes de ruas, acidentes geográficos, cidades e, especialmente, nos nomes de muitos rios. No meu caso, onde escrevo diariamente falando dos rios e das suas áreas de entorno, esses topônimos muitas vezes fornecem pistas interessantes para entendermos a história ambiental de toda uma região.

Citando um rápido exemplo: minha cidade, São Paulo, foi fundada entre dois rios – o Tamanduateí e o Anhangabaú. O Tamanduateí era um rio muito piscoso e de águas límpidas, que eram usadas para o abastecimento da população. Nos períodos das chuvas, esse rio enchia e ocupava toda a região da várzea. Quando as águas baixavam, muitos peixes ficavam presos nas poças remanescentes, onde morriam após a água secar. Os índios que viviam na região coletavam esses peixes e chamavam essa área de várzea de Piratininga – “lugar onde se encontra o peixe seco”. Muitos desses peixes mortos eram comidos por formigas, o que atraía inúmeros tamanduás – o rio passou a ser conhecido como Tamanduateí ou “o rio dos tamanduás”. Já o rio Anhangabaú, palavra que significa “água dos maus espíritos”, era um lugar considerado mal-assombrado pelos índios e passou a ser usado pela população para o descarte do lixo, resíduos e esgotos da Vila de São Paulo de Piratininga.

Na cidade do Recife, capital do Estado de Pernambuco, a referência geográfica mais importante é o rio Capibaribe, palavra composta que provém da junção dos termos em tupi kapiwara, y peKapi’wara, ou “comedor de capim” é o nome que os indígenas davam às capivaras. A palavra “y”, presente em uma infinidade de topônimos brasileiros, significa rio. Já a palavra “pe” é um advérbio de lugar. Capibaribe significa, literalmente, “o rio das capivaras”. Qualquer um que navegar pelas águas do rio Capibaribe atualmente, vai encontrar um corpo d’água altamente impactado pelo crescimento da cidade, margens urbanizadas e aterradas, águas muito poluídas, pouquíssimos remanescentes dos antigos e extensos manguezais e, com muita sorte, até poderá avistar uma ou outra capivara solitária teimando em sobreviver.

A triste sina das capivaras, que também é estendida a toda a fauna aquática ou semi-aquática que habitava a calha do Capibaribe – peixes, crustáceos, répteis, mamíferos e aves, está ligada diretamente à herança (no pior sentido da palavra) deixada pela cultura da cana-de-açúcar dos tempos coloniais, quando a cidade do Recife era o centro político e econômico da atividade açucareira do Brasil Colônia.

Quando os primeiros exploradores portugueses desembarcaram nas costas brasileiras em abril de 1500, toda a faixa litorânea entre o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul era coberta por uma densa floresta, que chamamos hoje de Mata Atlântica. Nas Regiões Sul e Sudeste, a Mata Atlântica avançava para o interior do continente, com alguns trechos chegando até o Paraguai e a Argentina. Na Região Nordeste, a Mata Atlântica ocupava uma faixa ao longo da costa, que tinha uma largura que variava entre 60 e 80 km. Os diferentes ecossistemas, que se formaram ao longo de todo um mosaico de sistemas florestais tropicais e subtropicais, concentravam uma das mais ricas biodiversidades do mundo.

A indústria da cana-de-açúcar na região Nordeste ocupou uma faixa de terra ao longo do litoral que ia do Estado do Rio Grande do Norte até o Sul da Bahia, na altura da cidade de Porto Seguro, nos antigos domínios da mata Atlântica. Os limites dessa faixa foram delimitados ao Norte pelos domínios da vegetação de babaçu e terras arenosas do Rio Grande do Norte e pelos ferozes índios aimorés do Sul da Bahia e Espírito Santo, que resistiram heroicamente e por um longo período ao avanço colonial. Zona de solo rico e profundo, com terrenos de decomposição e de sedimentação, com relativa abundância de chuvas, essa faixa de terra se espremia entre o mar e as serras da zona agreste, se alargando nas zonas de várzeas e brejos.

Agricultura e florestas são duas forças que não se combinam muito – tratamos disso em uma série de postagens anterior. A partir da década de 1530, quando teve início a colonização efetiva do Brasil e chegaram as primeiras mudas de cana-de-açúcar, começou um intenso processo de supressão da cobertura florestal para a formação de campos agricultáveis. Na região Nordeste, os profundos e férteis solos de massapê, garantiram excepcionais safras de cana e impulsionaram um sem número de engenhos produtores de açúcar, especialmente no trecho entre a foz do rio São Francisco, na divisa dos atuais Estados de Alagoas e Sergipe, e a Ilha de Itamaracá, em Pernambuco.

Esse paraíso tropical da agricultura colonial tinha, porém, um pequenino problema: as fortes chuvas “lavavam” os solos desnudos dos campos agrícolas, arrastando grandes volumes dos solos de massapê na direção das calhas dos rios e do oceano. Bastavam umas poucas colheitas de cana-de-açúcar para as terras perderem completamente a sua fertilidade. Isso, na época, não era um grande problema – existiam “infinitas” matas sobre os ricos solos de massapê, o que levou a uma contínua derrubada da floresta para a expansão das plantações de cana-de-açúcar.

Além da necessidade de espaço para as plantações, a indústria canavieira também tinha grandes necessidades de energia térmica para a produção do açúcar. A conta era relativamente simples – para produzir 1 kg de açúcar, os engenhos precisavam queimar cerca de 20 kg de lenha, o que implicava na necessidade de se derrubar cada vez maiores áreas de floresta. O resultado de todo esse conjunto de agressões ambientais ao longo de quase cinco séculos da indústria canavieira no Nordeste brasileiro foi a aniquilação quase total da Mata Atlântica local, o que, de quebra, levou junto vários rios da região.

A degradação que vemos atualmente nas águas da região nada mais é do que um reflexo de todo esse ambiente histórico e socioeconômico. No rio Capibaribe, a situação foi agravada pelo forte crescimento das populações urbanas, onde as agressões ambientais geradas pelas atividades agrícolas foram reforçadas com os lançamentos de esgotos e resíduos de todos os tipos, construção de aterros sobre antigas áreas de mangues para permitir o crescimento das cidades, ocupação de encostas de morros com supressão de fragmentos florestais remanescentes e caça predatória de animais. As capivaras aqui são um destaque: populações ribeirinhas afirmam que a carne do animal tem o mesmo sabor da carne de porco, com a vantagem de ser menos gordurosa.

Diferente de outros rios altamente poluídos como o Tietê e o Pinheiros, na cidade de São Paulo, onde as populações de capivaras voltaram a recolonizar as margens e a prosperar, no rio Capibaribe isso não acontece. Em São Paulo, apesar da intensa poluição dos rios, existem áreas naturais razoavelmente preservadas ao longo das calhas dos rios, que dão suporte à vida dos animais. Em Pernambuco, isso não acontece – as poucas capivaras remanescentes no rio Capibaribe se viram “ilhadas” em meio a mancha urbana, os canaviais e o Oceano Atlântico. A adaptação de um velho ditado popular resume bem a situação dos animais: se ficar, a poluição das águas pega; se correr, a população ribeirinha come.

Na esteira do desaparecimento das capivaras do rio Capibaribe, também se foram os peixes-boi, muitos jacarés-do-papo-amarelo, diversas espécies de peixes, guarás e outras aves, além de uma infinidade de outros animais que habitavam as matas e manguezais que existiam na região e que são encontrados numa frequência cada vez menor. Até os importantíssimos caranguejos dos manguezais, uma das fontes de proteína mais tradicionais das populações pobres dos mucambos (ou mocambos) e das áreas ribeirinhas, está cada vez mais raro. O Capibaribe é atualmente o 7° rio mais poluído do Brasil. 

Chegou-se a um ponto tal onde, ou se muda o nome do rio Capibaribe, ou se realizam trabalhos sérios para a recuperação ambiental do rio e de sua importante bacia hidrográfica.

CADÊ O PITU QUE ESTAVA AQUI?

Pitu

Muita gente que ler o título dessa postagem vai achar que estou falando de uma marca de cachaça muito popular em algumas partes da Região Nordeste. A conhecida cachaça Pitu é fabricada em Vitória de Santo Antão, uma cidade no Estado de Pernambuco. Na minha primeira viagem ao Nordeste, por volta de 1990, reparei muitas pessoas bebendo essa cachaça na beira da praia, sob um sol escaldante. Conversando com o dono de uma barraca, descobri que os populares faziam isso por causa do baixo custo da bebida – uma garrafa de cerveja equivalia a umas quatro garrafas de Pitu. 

O pitu sobre o qual vamos tratar é o Macrobrachium carcinusque também é conhecido popularmente como lagosta-de-água-doce, lagosta-de-São-Fidelix, ou ainda como lagosta-do-São-Francisco, entre outros nomes. A palavra pitu é de origem tupi e significa “casca escura”. Trata-se na verdade do maior camarão de água doce nativo do Brasil, que pode chegar até um comprimento de 50 cm e a um peso de 300 gramas. Os petiscos a base de pitu já foram muito populares nas praias do Nordeste, mas, infelizmente, estão ficando cada vez mais raros. E isto não acontece por falta de apreciadores da iguaria – o crustáceo é cada vez mais raro nas águas dos rios. 

A primeira citação aos pitus é encontrada na famosa carta de Pero Vaz de Caminha, o escrivão oficial da frota de Pedro Alvares Cabral, escrita ao Rei de Portugal e relatando o descobrimento do Brasil. Caminha ficou admirado com o tamanho desses camarões e citou no seu texto: “alguns índios foram buscar mariscos e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho”

Os pitus são encontrados em ambientes de águas doces e salobras das regiões de estuário de pequenos a grandes rios da costa do Oceano Atlântico, desde a Flórida, no Sul dos Estados Unidos, passando por toda a América Central e Antilhas, Colômbia, Venezuela e Guianas. No Brasil, os pitus ocorrem do Amapá a Rio Grande do Sul. Os animais tem uma preferência por locais com águas correntes, com fundos rochosos e/ou arenosos e localizadas a altitudes inferiores a 200 metros em relação ao nível do mar

O crustáceo tem corpo liso e grandes garras, especialmente pronunciadas nos machos da espécie. Os adultos tem uma casca com coloração marrom escura, onde se encontram manchas com cores mais claras. Os pitus apresentam um grande disformismo sexual, apresentando machos bem maiores que as fêmeas. A espécie possui uma altíssima taxa de fertilidade e fecundidade, com fêmeas produzindo entre 100 mil e 250 mil ovos. As larvas procuram ambientes com águas salobras, onde procuram locais com raízes de plantas e pedras para se esconder, fugindo dos seus inúmeros predadores. Conforme os pitus vão atingindo a idade adulta, eles passam a buscar ambientes de água doce. 

De hábitos noturnos, o pitu é um predador agressivo, que se alimenta de pequenos peixes e crustáceos, inclusive de outros camarões. O animal também come algas e restos de animais mortos. Durante o dia, os pitus se escondem em brechas entre pedras, tocas no fundo arenoso ou em meio a vegetação, um comportamento que acaba sendo usado pelos pescadores na sua captura. Uma das formas mais comuns de captura dos crustáceos são as armadilhas artesanais feitas com fibras de folha de coqueiros e taquaras, com uma única abertura e onde é colocada uma isca. O pitu entra na armadilha e não consegue sair. 

O pitu sempre esteve presente na dieta de populações ribeirinhas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Entre as formais mais tradicionais de preparo destacam-se o preparo no alho e óleo, cozidos em água e sal, em moquecas e as famosas “pituzadas”, onde o crustáceo é acompanhado de arroz, salada e pirão. Em muitos trechos do litoral, infelizmente, a preparação desses pratos está ficando cada vez menos frequente devido ao desaparecimento dos pitus. 

A destruição de áreas de manguezais, um dos habitats da espécie, está entre as causas do desaparecimento dos pitus. Os manguezais são verdadeiras maternidades para uma infinidade de espécies de peixes, crustáceos, vermes e aves, que encontram segurança em meio ao seu complexo e intrincado sistemas de raízes aéreas. É em ambientes desse tipo que as larvas do pitu se abrigam até conseguir atingir um tamanho que lhes possibilite viver em áreas mais abertas e onde estarão sujeitas ao ataque de predadores. Ironicamente, grandes trechos de áreas de manguezais do Nordeste estão sendo destruídos para a construção de tanques para a criação em cativeiro do camarão gigante da Malásia (Macrobrachium rosembergii). 

A degradação da qualidade das águas e a redução dos caudais dos rios em virtude da construção de represas de usinas hidrelétricas ou devido à destruição de áreas florestais também tem contribuído para o desaparecimento da espécie. Na faixa do litoral do Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte, onde a Mata Atlântica foi praticamente devastada e os rios estão altamente degradados, os pitus simplesmente desapareceram. A captura excessiva também contribuiu para o desparecimento dos pitus em várias regiões. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens, a faixa litorânea da Região Nordeste foi intensamente explorada ao longo dos primeiros séculos de nossa colonização para o plantio da cana e a produção do valioso açúcar, um dos mais valorizados produtos da nossa época colonial. A consequência mais dramática dessa intensa atividade econômica foi a destruição de todo o trecho nordestino da Mata Atlântica e das águas de muitos dos seus rios. Nas palavras do sociólogo, historiador e ensaísta brasileiro Gilberto Freire (1900-1987), no livro “Nordeste”, as águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos: 

“O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.” 

Em décadas mais recentes, foi o crescimento da população urbana em toda a Região a grande vilã da destruição das águas. O crescimento dessas cidades não foi acompanhado de obras de infraestrutura, especialmente para a coleta e o tratamento dos esgotos. Os rios da região se tornaram verdadeiras valas de esgotos a céu aberto. Exemplos desse descaso são os rios Capibaribe e Ipojuca, que fazem parte da lista dos 10 rios mais poluídos do Brasil

A situação da espécie, que está ameaçada de extinção em várias regiões, levou as autoridades ambientais a proibirem a captura e a comercialização dos pitus, medida que, infelizmente, não tem sido muito eficaz – os crustáceos continuam sendo capturados e consumidos pela população. O IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, estabeleceu uma multa de R$ 5 mil para cada exemplar da espécie encontrado com pescadores e em restaurantes. Anos atrás, um restaurante na região da foz do rio São Francisco foi multado em R$ 240 mil pelo fato da fiscalização do IBAMA ter encontrado 24 pitus na geladeira do estabelecimento, o que comprova as dificuldades para a preservação da espécie. 

Caso medidas mais efetivas para a preservação do pitu não sejam tomadas em extensas áreas do litoral brasileiro, as novas gerações só terão a chance de ver um exemplar da espécie estampado no rótulo de uma garrafa de cachaça… 

A INVASÃO DO MEXILHÃO DOURADO

Mexilhã-dourado

As comunidades aquáticas dos nossos rios – peixes, crustáceos, vermes, anfíbios, répteis, mamíferos e aves aquáticas, além de plantas de inúmeras espécies, vem sofrendo agressões ambientais por todos os lados. São problemas ligados ao despejo de esgotos domésticos e industriais, ao lançamento de lixo e todos os tipos de resíduos, aos desmatamentos de matas ciliares e fragmentos florestais, com o açoreamento e entulhamento dos canais, com a contaminação por resíduos de agrotóxicos e fertilizantes, por causa da mineração, entre muitas outras agressões. Existe uma outra “linha de frente” dessas agressões que acaba não sendo muito comentada – a invasão dos ecossistemas locais por espécies exóticas. A invasão de muitos dos nossos rios pelo mexilhão-dourado é, atualmente, a principal ameaça “externa” enfrentada pelos nossos rios, lagos e represas. 

O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é um molusco bivalve de água doce nativo de regiões da China e do Sudeste Asiático. Esse molusco pertence à família Mytilidae, que é a mesma família dos mexilhões marinhos. Sua concha tem o formato de uma gota, sendo formada por duas laterais chamadas de valves (por isso a denominação bivalve). No ápice dessa concha existem filamentos proteicos (bissos), que permitem ao mexilhão-dourado se alojar sobre os mais diferentes tipos de superfícies como rochas, madeiras, caules de plantas aquáticas, placas de aço de embarcações, carapaças de animais, entre outras superfícies. 

A concha do mexilhão-dourado mede cerca de 4,5 cm de comprimento e possui, normalmente, uma coloração amarelo-dourada. A espécie é classificada como um animal filtrador, se alimentando de plâncton (plantas e animais microscópicos que vivem nas águas) – cada molusco filtra até 350 ml de água a cada hora. As colônias de mexilhões-dourados chegam a concentrar 120 mil animais por metro quadrado, sendo 2/3 dessa população constituída por fêmeas e 1/3 por machos, que em regiões quentes se reproduzem continuamente. Os moluscos atingem a maturidade sexual quando atingem um tamanho a partir de 5,5 mm e liberam seus gametas diretamente na água, onde é feita a fertilização. As larvas (veliger) são levadas pela correnteza ou por vetores até locais mais distantes, onde formarão novas colônias

Dentro do seu ambiente original, onde se encontram grandes bacias hidrográficas como a do rio Mekong, o mexilhão-dourado possui uma série de predadores naturais, que mantém sua população em constante equilíbrio. O problema da espécie em outros ecossistemas pelo mundo afora começou quando larvas do molusco pegaram carona na água de lastro usada por navios cargueiros de passagem pelo Sudeste Asiático e pela China. Esses navios possuem uma série de tanques ao longo de sua estrutura, os chamados tanques de lastro, que são usados para equilibrar as cargas, que apresentam variações de peso ao longo da embarcação. Esse equilíbrio é feito através do enchimento desses tanques com água do mar ou de rios. O grande problema ambiental criado por esses procedimentos é que espécies aquáticas da região acabam sendo sugadas junto com a água e assim são transportadas para regiões diferentes ao redor do mundo. 

Quando esses cargueiros chegam aos portos de destino, que normalmente têm uma profundidade muito limitada, eles descarregam essa água de lastro, liberando assim espécies animais exóticas em novos ambientes. E foi justamente isso o que aconteceu com o mexilhão-dourado, que foi detectado pela primeira vez na América do Sul em 1991, na Praia de Bagliardi, localizada no rio da Prata na Argentina. Durante vários anos, o molusco ficou restrito na região do estuário do rio da Prata e parecia que não criaria maiores problemas ambientais. A partir de 1995, o molusco começou a migrar rapidamente para o Norte, atingindo as bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai. 

As primeiras notícias da invasão do mexilhão-dourado em águas de rios brasileiros datam de 1998, quando colônias da espécie foram identificadas, quase que simultaneamente, no rio Paraná em Mato Grosso do Sul, e na região do Complexo Lagunar Guaíba/Lagoa dos Patos. Estudos científicos sugerem que, a partir de 1995, a espécie atingiu uma velocidade de expansão de cerca de 240 km a cada ano. O principal vetor desse preocupante avanço do mexilhão-dourado são as embarcações de transporte de cargas usadas na hidrovia Paraná-Paraguai, além de navios de cabotagem que realizam o transporte de cargas entre o Sul do Brasil e os portos de Montevideo, no Uruguai, e Buenos Aires, na Argentina, ambos localizados no rio da Prata. 

Atualmente, há registros de colônias de mexilhão-dourado nas Regiões Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste. Os limites mais ao Norte dessa invasão da espécie exótica estão hoje na região de Cáceres, no Pantanal do Mato Grosso, e no sul do Estado de Minas Gerais. Além dessas regiões, já foram identificados três focos na bacia hidrográfica do rio São Francisco, na região do Lago de Sobradinho, onde se supõe que larvas do mexilhão-dourado chegaram junto com alevinos de peixes destinados a projetos de piscicultura e, muito provavelmente, com origem na bacia hidrográfica do rio Paraná. É apenas uma questão de tempo até que o mexilhão-dourado invada a Bacia Amazônica e se espalhe por toda a Região Norte do Brasil e países vizinhos. 

A velocidade e a facilidade dessa expansão da espécie em uma extensa região da América do Sul têm uma resposta biológica bem simples – o mexilhão-dourado praticamente não possui predadores naturais no continente. Espécimes do molusco grudam no casco das embarcações e assim são transportados a longas distâncias. A correnteza dos rios, por sua vez, transporta as larvas para os rincões e meandros mais distantes dos rios, formando assim novas colônias. Sem preocupações com predadores naturais, a população da espécie cresce sem qualquer controle, se apropriando dos recursos naturais que seriam consumidos por outras espécies nativas dos habitats. 

Um exemplo dos prejuízos causados pelo mexilhão-dourado pode ser visto nas inúmeras usinas hidrelétricas instaladas nas calhas dos rios infestados pela espécie. Os moluscos invadem as tubulações, formando colônias nas paredes internas e tubulações, prejudicando assim o funcionamento de diversos sistemas. Essas colônias também se formam nas pás dos rotores dos geradores, implicando na paralização frequente das operações de geração de energia elétrica para limpeza das peças, o que é feito com fortes jatos de areia. Estudos feitos por técnicos da Usina Hidrelétrica de Itaipu identificaram uma incrível densidade de mais de 140 mil mexilhões-dourados por metro quadrado em algumas unidades do empreendimento

Na biota das águas, os impactos provocados pela espécie invasora são ainda maiores. Na região do Complexo Lagunar Guaíba/Lagoa dos Patos, os mexilhões-dourados estão destruindo grandes extensões de juncais e de plantas aquáticas, prejudicando assim inúmeras espécies de peixes, crustáceos e aves que usam esses locais para reprodução. Os mexilhões-dourados se prendem ao caule das plantas, que acabam enfraquecendo e se partem com a força dos ventos. Essas vegetações tem um papel similar ao dos manguezais, abrigando larvas de crustáceos e alevinos de peixes, que encontram ali proteção contra os seus predadores. Sem a proteção dessas áreas, várias espécies do Complexo Lagunar estão assistindo uma forte redução das suas populações. 

Os juncais também são usados por diversas espécies de aves, algumas migratórias, para nidificar. Longe das margens, aves e ovos estão relativamente bem protegidas de uma série de predadores terrestres. A proximidade das águas também garantia um fácil acesso aos estoques de alimentos. Com a destruição dessa vegetação, estas aves também tem sua sobrevivência ameaçada. 

E tudo isso é apenas o começo – ainda não se completaram 30 anos da chegada do mexilhão-dourado na América do Sul e ninguém sabe ainda o que o futuro nos reserva.