Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS MISTERIOSAS “TERRAS PRETAS DE ÍNDIO”

Um dos maiores temores dos “defensores” europeus da Floresta Amazônica é o avanço das plantações de soja e dos rebanhos bovinos em direção à grande floresta sul americana. Muitos acham que, dentro de poucos anos, a região será transformada em um mar sem fim de campos de soja e de pastagens para animais. 

Lamento informar a todas essas pessoas tão bem “intencionadas” que é bastante difícil ver algo semelhante acontecer. E falo isso sem querer afirmar que todos os brasileiros e os cidadãos de outras nações amazônicas estão 100% preocupados com a preservação do bioma, mas sim por que a maioria dos solos da região é de baixíssima fertilidade e inadequados para a agricultura e pecuária. 

De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da Região Amazônica apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que apenas 8% são de elevada fertilidade. O estudo também informa que existem perto de 20 milhões de hectares de terras abandonadas na Amazônia brasileira que foram originalmente desmatadas e transformadas em pastagem para o gado.  

Até cerca de 160 milhões de anos atrás, quando a América do Sul ainda formava parte do Supercontinente de Gondwana, a região onde se encontra a Floresta Amazônica era um grande deserto de areias móveis. Com a fragmentação de Gondwana e o início do processo de separação dos continentes (pesquise sobre Deriva Continental), a região foi se transformando gradativamente ora em um mar raso ora em uma grande planície frequentemente invadida pelas águas do mar. 

O destino da Amazônia começou a mudar há cerca de 40 milhões de anos atrás quando o choque das duas grandes placas tectônicas da região, a Placa Sul-americana e a Placa de Nazca, iniciou o processo de soerguimento dos terrenos que formariam a Cordilheira dos Andes. Esse fabuloso processo geológico conformou os limites da Bacia Amazônica e criou as condições para a formação da Floresta Amazônica. 

Naqueles primeiros tempos, a vegetação dependia quase que exclusivamente dos nutrientes minerais que eram carreados pelas águas desde os terrenos altos dos Andes. Com o passar do tempo, a própria floresta começou a reciclar os seus nutrientes, formando uma grossa camada de húmus sobre os solos. Troncos caídos, galhos, folhas, frutos, carcaças de animais – tudo que cai sobre os solos da Floresta Amazônica é rapidamente transformando em nutrientes para a própria floresta. 

Quando uma área é desmatada, essa camada de húmus acaba ficando exposta aos elementos – a chuva por exemplo, e se perde rapidamente. A experiência de inúmeros pioneiros na colonização da Amazônia deixou isso muito claro – em poucos anos, as terras desmatadas apresentaram uma redução brutal na fertilidade e não se conseguia boas colheitas. Até mesmo as gramíneas para a pastagem de animais ficaram escassas e muitos colonos acabaram abandonando as suas terras. 

Em meio a tantos problemas de baixa fertilidade dos solos, surgem notícias de manchas de terra preta e de alta fertilidade espalhadas por todos os lados da floresta. As primeiras descobertas desse tipo especial de terras datam da década de 1870, quando exploradores e naturalistas passaram a observar a existência desses solos intrigantes. Estudos posteriores demonstraram que esses solos foram criados artificialmente por antigas populações da Amazônia e eles passaram a ser conhecidos como “terra preta de índio”. 

De acordo com algumas hipóteses formuladas a partir de achados arqueológicos, a Floresta Amazônica abrigava grandes populações há cerca de 4 mil anos atrás. Para sustentar tanta gente, era necessário melhorar as condições de fertilidade dos solos. Grandes extensões de matas foram derrubadas e queimadas para a formação de grandes clareiras onde se criaram campos agrícolas. Os solos passaram por um processo ainda não totalmente conhecido de fertilização artificial. 

Estudos feitos em laboratório com amostras desses solos encontraram altos teores de carbono, muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média fica entre 20 e 30 gramas. Esses solos também se destacam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas terras pretas de índio permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos. Os pesquisadores calculam que algo entre 1% e 10% dos solos da Amazônia sejam constituídos por esses solos artificiais. 

Nos últimos anos, esses solos escuros da Amazônia têm despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica e as mais importantes revistas da área no mundo como a Nature e a Science têm publicado diversos artigos sobre esse assunto. Em 2006, citando um exemplo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), dedicou um simpósio a esse assunto: Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas).

Essas antigas populações desapareceram sem deixar rastros ou maiores informações sobre o processo usado para criar esses solos artificiais. Os novos grupos indígenas que chegaram na região encontraram essas terras pretas já “prontas para o uso”. Ribeirinhos que têm a sorte de morar perto dessas áreas conseguem uma ótima produção de subsistência. Conseguir recriar os mecanismos de formação dessas terras poderá ser uma excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra. 

Um exemplo prático da importância dos solos escuros da Amazônia na vida cotidiana das populações indígenas foi observado por Morgan Schimidt, um pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, que estudou as terras pretas no território dos índios Kuikuro no Alto Xingu, no Estado de Mato Grosso. O pesquisador observou que os Kuikuro constroem as suas aldeias em áreas próximas dessas manchas de solo escuro, que podem estar até 20 km de distância. As terras são utilizadas para a prática agrícola, especialmente na produção do milho.  

O pesquisador também observou que os índios, nas suas atividades diárias, continuam produzindo terra preta: os índios cavam valas no solo para usar no descarte de resíduos de alimentos, cinzas, ossos, restos de peixes e de caças, conchas, folhas de palmeiras, serragem e restos de madeira, dejetos humanos e outros detritos. Esse composto, que muitas é incendiado, é a base para a formação das terras pretas. 

Desvendar os segredos da criação das “terras pretas de índio” e usar esses conhecimentos para recuperar grandes extensões de solos já degradados da Amazônia pode ser uma das grandes alternativas para o desenvolvimento sustentável da região. O cacau por exemplo, uma planta nativa da região e que precisa da sombra das grandes árvores para se desenvolver, poderá ser plantado nesses solos recuperados, produzindo suas sementes de forma totalmente orgânica e sustentável. 

A Floresta Amazônica ainda guarda muitos mistérios e ainda temos muito o que aprender com ela. Uma certeza, entretanto, já temos – suas possibilidades para a geração de riqueza e renda para o nosso país são quase que ilimitadas. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS CACAUEIROS DA FLORESTA AMAZÔNICA

Quando os exploradores espanhóis iniciaram sua saga de conquista da América Central nas primeiras décadas do século XVI, eles foram tomados de grande surpresa ao encontrar imponentes civilizações locais como os astecas, que em vários aspectos estavam em um patamar superior ao de seu reino ibérico. 

Eram grandes cidades com arquitetura sofisticada, ruas perfeitamente projetadas, grandes edifícios públicos, além de majestosas pirâmides e templos. Essas civilizações tinham uma escrita própria, profundos conhecimentos de matemática, astronomia e ciências naturais. Para choque dos fanáticos católicos espanhóis, esses povos praticavam uma religião profana, onde os sacrifícios humanos eram parte importante dos rituais, o que moralmente justificaria a guerra de conquista e o massacre de milhões de nativos num futuro próximo. 

Antes desse desfecho trágico, os conquistadores teriam tempo para conhecer uma bebida amarga e considerada sagrada pelas civilizações pré-colombianas, conhecida como chocola’j, chokola’j ou xocolātl. Essa bebida era obtida a partir da maceração das nozes de um fruto local, o kabkajatl, e era de consumo exclusivo da nobreza. Os espanhóis hispanizaram a palavra para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar. A partir daí ganhou novas formas de preparo e conquistou o mundo com o nome de chocolate. 

O cacau (Theobroma cacao) é uma planta nativa das regiões tropicais das Américas, encontrada desde a região da Floresta Amazônica até as florestas tropicais do Sul do México. O cacaueiro se desenvolve sob as copas sombreadas das florestas, onde a árvore pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. 

Uma região brasileira onde a cultura do cacau se transformou em um grande sucesso foi o Sul do Estado da Bahia, onde as primeiras mudas de cacaueiro desembarcaram no início do século XVIII. Essa região foi durante muito tempo território dos ferozes índios botocudos, o que poupou uma extensa faixa da Mata Atlântica da destruição diante do avanço dos canaviais. Sob a sombra das grandes árvores nativas da região, os cacaueiros prosperaram muito. 

A fabulosa Floresta Amazônica, com seu clima quente, grande fartura de água e densa cobertura florestal, além de ser o bioma original da cultura, apresenta todas as condições para se transformar no maior centro de produção de cacau do mundo. Na região de Altamira, no Pará, essa produção cresce a olhas vistos em pequenas e médias propriedades. Conhecida como Rota do Cacau, a região engloba também os municípios de Medicilândia, Vitória do Xingu, Pacajá, Senador José Porfírio, Brasil Novo e Uruará. Juntos, esses municípios respondem por 90% da produção de cacau do Pará, o segundo maior produtor brasileiro. 

Ao contrário da primeira impressão que todos costumamos ter, os solos amazônicos são pobres e de baixa fertilidade. De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da região apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que em apenas 8% são de elevada fertilidade. Essa porcentagem parece pequena, mas, dada a imensidão da Floresta Amazônica, isso corresponde a totalidade da área agrícola em uso no Brasil

Os solos da região da Rota do Cacau se enquadram dentro dessa pequena minoria de solos férteis e são formados por terras roxas. Essa região começou a ser ocupada a partir do final da década de 1970, época em que Rodovia Transamazônica rasgou a região e criou as melhores expectativas de uma vida melhor para milhares de agricultores sem-terra de todo o país. Muitos desses pequenos agricultores tiveram seu primeiro contato com os cacaueiros nessa época. 

De acordo com informações da CEPLAC – Comissão Executiva do Plano Lavoura Cacaueira do Ministério da Agricultura, essa região concentra cerca de 12 mil produtores, o que corresponde a mais da metade do total de produtores do Pará. As plantações se espalham por uma área com aproximadamente 175 mil hectares e com uma produção de 900 kg de fruto por hectare. No município de Medicilândia alguns produtores conseguem atingir a impressionante marca de 2,5 toneladas por hectare. Para efeito de comparação, o Sul da Bahia tem cerca de 480 mil hectares de área plantada, com uma produção média de 300 kg por hectare. 

Apesar do imenso potencial econômico da cultura e sua grande capacidade de contribuir para a preservação da Floresta Amazônica, os produtores da Rota do Cacau enfrentam enormes dificuldades no seu dia a dia. A logística para o transporte da produção é uma das principais. A promessa da construção de uma grande rodovia para a integração de toda a Amazônia ao restante do país ficou em grande parte dentro do campo das boas intenções. 

Grande parte da Rodovia Transamazônica não passa de um rasgo contínuo no meio da floresta, onde o piso de terra batida é ponteado por precárias pontes de madeira. Para se chegar na região cacaueira é necessário atravessar o rio Xingu através de balsa, um procedimento que pode levar até 3 horas devido à grande fila de carros, ônibus e caminhões que se acumulam nas duas margens. O serviço de travessias é suspenso a noite. 

Na temporada das intensas chuvas do inverno amazônico, grande parte da Rodovia fica intransitável, com sucessivos atoleiros e poças de água. Calcula-se que mais de 90% das populações que foram assentadas em lotes rurais e agrovilas logo após a inauguração da Transamazônica abandonaram suas terras e migraram para as médias e grandes cidades da região Norte. 

Os produtores também enfrentam uma série de entraves criados pela legislação ambiental ao tentar aumentar as suas áreas de produção. Apesar de depender da sombra das grandes árvores para se desenvolver, o plantio dos cacaueiros depende da remoção de árvores menores a fim de liberar espaço. No bioma Amazônia, os produtores podem desflorestar uma área de no máximo 20% das suas propriedades para a criação de terras agrícolas ou pastagens. Por se tratar de uma espécie amazônica e de baixíssimo impacto ambiental, o plantio do cacau deveria ter regras ambientais próprias e mais adequadas à cultura. 

Outra grande fonte de problemas para os produtores locais é de ordem trabalhista, especialmente na questão ligado aos contratos com os meeiros. Formado basicamente por núcleos de produção familiares, onde pais e filhos cuidam da produção, é muito comum na Região Norte a cessão de áreas de produção com meeiros, trabalhadores que recebem metade da produção obtida em uma determinada área. Esses contratos são normalmente verbais e baseados na confiança, uma prática que foge totalmente das práticas defendidas pelo Ministério do Trabalho. 

Também são importantes as questões fundiárias. Grande parte dos produtores está assentada na região há mais de 40 anos e ainda não possui a documentação de posse definitiva da terra. Sem esses títulos, não têm acesso a financiamentos e outros incentivos dados pelos bancos oficias, o que limita a modernização e o incremento da produção. 

Existem cerca de 20 milhões de hectares de terras abandonadas em toda a Amazônia, grande parte concentrada no Estado do Pará. Essas terras foram desmatadas e transformadas em pastagens para a criação de gado ainda nos primeiros tempos da colonização da região. Devido aos problemas de baixa fertilidade dos solos da Amazônia já citados, que dependem quase que exclusivamente do húmus criado pela própria floresta para se manter a sua fertilidade, essas pastagens se degradaram em poucos anos e foram abandonadas. 

Seria uma excelente alternativa ambiental o desenvolvimento de grandes projetos de reflorestamento dessas áreas e de implantação de polos sustentáveis de produção de cacau. Isso aliaria a produção sustentável e orgânica de cacau com a preservação da Floresta Amazônica – algo que soaria como música para os ouvidos de milhões de estrangeiros preocupados com a saúde do planeta Terra. 

Uma dica final: a maior região produtora de cacau do mundo fica no Oeste da África, na chamada Costa do Ouro, se espalhando por países como Gana, Costa do Marfim, Nigéria e Camarões. Entre outros inúmeros problemas, a produção local do cacau é famosa por utilizar largamente mão de obra infantil e escrava. Grandes empresas de alimentos internacionais sofrem grande pressão dos seus consumidores para não comprar cacau dessa região. Isso demonstra o potencial de produção de cacau sustentável na Amazônia! 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: O AÇAÍ E O PALMITO DO AÇAIZEIRO

Há bem pouco tempo atrás, assistindo uma série de comédia norte-americana num canal de streaming, fiquei surpreso com uma cena: dentro de uma suposta base militar da força espacial americana nos confins do Estado do Colorado, alguns militares seguem até um quiosque de lanches para tomar açaí. 

Como eu estava assistindo o filme com dublagem em português, eu fiz questão de voltar a imagem para ouvir o diálogo no áudio original em inglês – e não é que os “gringos” estavam falando de açaí mesmo! Um dos atores, identificado nos diálogos como um caipira do Alabama, pronunciava “eçaí”. Em sequência, a imagem mostrava duas mulheres da base se deliciando e elogiando o sabor da iguaria – a cor escura da massa não deixava qualquer dúvida em se tratar do típico fruto amazônico. 

Não muito tempo depois, desta vez vasculhando aleatoriamente um canal de divulgação de vídeos, encontrei a postagem de um alemão que estava dando dicas de onde comprar açaí nos supermercados de Munique e também de como servir à “moda dos brasileiros”. 

Esse sucesso do açaí para além das fronteiras da Região Amazônica também pode ser facilmente confirmado em cidades por todo o Brasil, onde têm se tornado cada vez mais comum a presença de lanchonetes que servem o produto. Até uns vinte anos atrás eram raros os lugares onde se podia apreciar o sabor surpreendente do açaí fora de cidades como Belém, Porto Velho e Manaus. 

De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção de açaí em 2016 foi da ordem de 215 mil toneladas; em 2000, esse volume havia sido de 121 mil toneladas. O Estado do Pará, maior produtor brasileiro de açaí, exportou cerca de 2,3 milhões de toneladas em 2018 para países como Estados Unidos, União Europeia e Japão – os norte-americanos, aliás, consomem 40% das exportações de açaí do Pará. Para efeito de comparação, o pequeno Estado de Israel, com um território de parcos 20 mil km², dos quais 60% são desertos e terrenos semiáridos, exporta 1,5 milhão de toneladas de frutas por ano. Nós temos espaço de sobra para aumentar a nossa produção e ampliar drasticamente os volumes de exportação. 

O açaí (Euterpe oleracea) é o fruto de uma palmeira muito comum em toda a Região Amazônica, a palmeira-açaí ou açaizeiro. A planta costuma se desenvolver nas áreas de várzea, um ambiente dos mais comuns na grande floresta equatorial. Os frutos maduros caem diretamente nos rios ou são arrastados pelas chuvas, mecanismo que garante a dispersão das sementes e a colonização de novas áreas com as plantas. As palmeiras crescem em moitas, onde se desenvolvem de 3 a 25 troncos com diâmetro médio de 14 cm e altura de mais de 12 metros. 

Estudos científicos indicam que o açaí é um dos frutos mais ricos e nutritivos da Amazônia. É fonte de minerais como o manganês, bromo, cobre e cromo, além de vitamina E, sendo considerado tão energético quanto o leite. Além de sua extensa distribuição pela Amazônia brasileira, especialmente nos Estados do Pará, Amapá, Maranhão, Amazonas e Acre, a palmeira-açaí também é encontrada na Venezuela, Equador, Colômbia e nas Guianas. 

Existem evidências arqueológicas que indicam o consumo do açaí por populações indígenas da Amazônia há milhares de anos. Esse hábito foi absorvido pelas populações ribeirinhas que se assentaram na região com a colonização do Brasil, transformando o açaí num dos mais importantes alimentos da Região Norte. 

No preparo tradicional dos ribeirinhos, os frutos maduros são despolpados manualmente depois de ficar por um período de molho em água. A polpa é misturada com água até formar um suco grosso conhecido como vinho de açaí. Entre as populações da Amazônia essa polpa é consumida normalmente misturada com farinha de mandioca ou tapioca. Também é comum o preparo de um pirão com farinha, usado como acompanhamento de peixes e camarões. Mais recentemente, o açaí passou a ser consumido na região em forma de suco batido com açúcar. 

Muitos ribeirinhos sobrevivem colhendo e transportando açaí para venda em mercados nas grandes cidades da Amazônia. Certa feita, eu acompanhei a chegada de dezenas de pequenas embarcações carregadas com açaí no famoso mercado Ver-o-Peso em Belém. Os ribeirinhos desembarcavam grandes balaios com os frutos. No local existem dezenas de quiosques que preparam o açaí para o consumo no local e muitos outros que vendem o fruto in natura para se levar para casa. 

Os coletores de açaí nas áreas de matas e várzeas usam uma antiga técnica indígena para escalar as palmeiras e cortar os grandes cachos com os frutos – a peconha. Trata-se de uma pequena corda feita com fibras vegetais trançadas, que é presa aos pés para facilitar a subida pelos troncos. Usualmente, os frutos são removidos dos cachos e colocados em grandes cestos feitos com fibras vegetais, facilitando assim o embarque e transporte nas canoas. Algumas vezes, os frutos são carregadas em cachos até os mercados. 

Além do fruto, a palmeira-açaí também produz um palmito de excelente qualidade, que vem fazendo muito sucesso em todo o Brasil e em muitos países do mundo. Diferente do palmito extraído da palmeira-jussara (Euterpe edulis Mart.), muito comum no bioma Mata Atlântica e onde é preciso matar a planta para a extração da iguaria, o açaizeiro permite o corte de um ou mais troncos sem prejudicar a planta. Novos troncos voltarão a brotar depois de algum tempo. 

Além dessa produção altamente sustentável e ambientalmente correta dos frutos e do palmito, o açaizeiro também tem outros diversos usos para as populações da floresta – suas folhas são usadas para a cobertura de casas. As fibras do tronco são usadas na fabricação de chapéus, esteiras e cestas. A madeira dos troncos é usada na construção de casas e pontes. Os cachos secos são usados como vassouras ou podem ser transformados em adubo orgânico. Além disso, a fumaça da queima desses cachos funciona com um bom repelente de insetos. 

Juntos, o açaí e o palmito do açaizeiro formam uma excelente dupla de “garotos-propaganda” do uso sustentável dos recursos naturais da Floresta Amazônica. É preciso estimular e apoiar cada vez mais as populações tradicionais e as empresas locais que processam e exportam esses produtos para todo o Brasil e o mundo, mostrando assim o valor real que nós brasileiros damos à Floresta Amazônica

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS EMBATES ENTRE A AGRICULTURA “TRADICIONAL” E A FLORESTA

A “invenção” da agricultura foi um dos maiores feitos da humanidade. O renomado escritor, pensador e futurólogo norte-americano Alvin Toffler (1928-2016) chamou esse grande evento, ocorrido entre 12 mil e 10 mil anos atrás, de “Primeira Onda”. Para que todos tenham uma ideia da intensidade e dos impactos provocados pela agricultura na humanidade, a “Segunda Onda”, denominação que foi dada à Revolução Industrial, só se desenrolaria a partir de meados do século XVIII. 

Até o início da produção de alimentos em grande escala nos campos agrícolas, a humanidade vivia num nomadismo interminável, buscando o alimento de cada dia muitas vezes sob risco de vida e sem qualquer certeza de encontrá-lo no dia seguinte. Foi então que, pouco a pouco, populações foram percebendo que era possível cultivar a terra e produzir os preciosos alimentos.  

Ao que tudo indica, essa “invenção” foi fruto do trabalho coletivo de inúmeras gerações de homens e mulheres de regiões como a Mesopotâmia, na Ásia Central, dos Vales dos rios Indus e Ganges, no Subcontinente Indiano, além de grandes rios da China e do Sudeste Asiático. Ao redor dessas áreas de produção agrícola surgiram os primeiros assentamentos humanos permanentes e as primeiras atividades pastoris. 

Há uma característica comum em todos esses locais onde a prática agrícola surgiu e que é fundamental para entendermos a questão da sustentabilidade ambiental na Amazônia – essas eram terras alagáveis, cobertas predominantemente por vegetação arbustiva e com poucas árvores. Sem me prender muito a detalhes, as práticas agrícolas tradicionais dependem de solos livres de árvores e expostos a uma forte luz solar, ou, falando de um jeito mais direto, a agricultura é uma destruidora de florestas

Um sítio histórico importante onde percebemos claramente um dos primeiros grandes embates entre florestas e agricultura foi o antigo Egito, um dos grandes celeiros do mundo antigo. A exemplo das grandes várzeas entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, o rio Nilo sofria grandes enchentes anuais, que cobriam e fertilizavam grandes extensões de terras ao largo das margens. Quando as águas baixavam, os solos se encontravam cobertos por uma densa camada de sedimentos nutritivos e humus, que passavam a ser trabalhados imediatamente por um grande “exército” de homens e mulheres. 

Na região do Delta do Nilo junto ao Mar Mediterrâneo, porém, havia um grande complicador. Nessas férteis terras entre os inúmeros canais do rio Nilo, os solos estavam cobertos por uma densa floresta com aproximadamente 30 mil km², um grave empecilho para a agricultura. O que fazer então? Muito simples – derrubam-se as árvores, cujas madeiras tinham um bom uso na construção civil e na produção de móveis, carroças e embarcações, liberando assim as terras para a implantação de grandes campos agricultáveis. 

Problemas semelhantes foram surgindo em terras da África, da Europa e da Ásia, onde a expansão das práticas agrícolas se deparou com extensas áreas cobertas por florestas. Foi aí que a força dos machados e o poder do fogo se tornaram os grandes aliados dos primitivos agricultores. Todas essas práticas passaram a ser vistas como normais, essenciais e justificáveis para o avanço da humanidade. 

Dando um enorme salto na história e no tempo, veremos exatamente essas mesmas práticas ao longo da colonização do nosso país. O mais importante produto colonial produzido no Brasil durante quase três séculos foi o açúcar. As melhores terras para o cultivo da cana naqueles tempos eram os “gordos” solos de massapê da faixa litorânea do Nordeste, entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. 

Cobertos originalmente pelos densos sistemas florestais da Mata Atlântica, esses solos foram sistematicamente desmatados e transformados em campos agrícolas para o plantio da cana. A indústria colonial também precisava de energia para transformar as caldas doces em açúcar, o que era conseguido a partir da queima de grandes volumes de lenha – para se produzir um quilograma de açúcar, perto de vinte quilogramas de lenha precisavam arder nas fornalhas dos engenhos. 

A indústria açucareira praticamente dizimou a Mata Atlântica nesse trecho no litoral nordestino. Novas culturas agrícolas desembarcariam em terras brasileiros ao longo do tempo, levando essa destruição das matas cada vez mais rumo ao Sul e ao interior do território brasileiro. Falo aqui do café, do milho, do feijão, das laranjas, da soja e de muitas outras culturas agrícolas que necessitavam de solos livres das incômodas e inúteis árvores. Mais de 80% do bioma Mata Atlântica já desapareceu diante do avanço da agricultura e da pecuária

A mesma lógica de devastação de biomas naturais para a implantação de áreas agrícolas e de pastagens para a criação de gado seria seguida em diferentes momentos na Caatinga Nordestina, nos Pampas Sulinos e no extenso Cerrado Brasileiro. Falando apenas em destruição de cobertura florestal original, esses biomas já perderam, respectivamente, 60%, 54% e 50%

Chegamos agora na Amazônia, uma espécie de “fronteira final” para a agricultura. Milhares de agricultores de outras regiões do Brasil, especialmente do Sul, foram estimulados a migrar para a Região Norte nas décadas de 1960 a 1980, sob a promessa de cessão de grandes extensões de terra para trabalhar. Criados dentro do tradicional sistema de produção agropecuária com liberação de terras mediante a derrubada das matas, esses trabalhadores começaram o processo de destruição da Floresta Amazônica. 

Porém, diferentemente do que vinha acontecendo há talvez 12 mil anos, a humanidade não aceita mais esse processo e, provavelmente por termos a última grande floresta praticamente intacta do mundo, passamos a sofrer enormes pressões internacionais em defesa da Amazônia. Por mais hipócrita que essas pressões sejam, afinal de contas quem nos critica já devastou as suas florestas há muito tempo, essa é a nova regra do jogo mundial e vamos precisar “jogar” de acordo. 

Me apropriando de palavras do grande antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), não faz o menor sentido devastarmos a maior e mais rica floresta equatorial do mundo, a Amazônia, para plantar soja, um grão que é usado majoritariamente para produzir ração para engorda de porcos em países como a China e a Alemanha, ou para produzir carnes para norte-americanos transformarem em hamburgueres. Precisamos reciclar as nossas ideias e mudar os nossos paradigmas de produção agropecuária. 

E como fazer isso? 

Existem inúmeros “produtos amazônicos” de grande valor comercial e forte apelo ecológico, que podem gerar muito trabalho e renda para as populações locais e empresas processadoras (talvez até mais do que a agricultura e pecuária tradicionais), sem que seja necessária a destruição da maravilhosa Floresta Amazônica. Esses “produtos” carregam em seu DNA um fortíssimo apelo de Marketing: são bons, ecologicamente corretos, socialmente justos (esse é um ponto que ainda precisa ser melhor trabalhado) e quem consome está ajudando a preservar a Floresta Amazônica. Muita gente no exterior vai “comprar” essa ideia e consumir esses produtos.

Na próxima postagem vamos falar de dois deliciosos produtos tipicamente amazônicos, que estão conquistando cada vez mais espaços nos mercados nacional e mundial – o açaí e o palmito do açaizeiro. Até lá! 

FALANDO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA

Estamos começando um novo ano e vamos torcer para que ele seja, pelo menos, um pouco melhor do que foi 2020. O trágico ano que passou vai ficar marcado para sempre na história e na nossa memória pela pandemia mundial da Covid-19. Aparentemente surgido na China, o coronavírus se espalhou rapidamente pelos quatro cantos do mundo e, literalmente, fez a humanidade parar. 

Entre inúmeros desdobramentos, a pandemia criou o “fique em casa”, o uso generalizado do álcool gel e de máscaras, suspensão de aulas em todos os níveis do ensino, fechamento de comércios e de indústrias, uma corrida desenfreada de pesquisadores e cientistas na busca por vacinas, entre muitas outros. A epidemia também criou algumas narrativas folclóricas”. Uma delas, que vem sendo divulgada por muitos meios de comunicação internacionais, afirma que a próxima pandemia surgirá no Brasil por causa dos desmatamentos da Amazônia. 

Conforme já tratamos em uma extensa série de postagens anteriores, existem grandes problemas na Floresta Amazônica como os desmatamentos, as queimadas, a extração ilegal de madeiras, os garimpos clandestinos, entre muitos outros. São problemas que se agravaram muito nos últimos sessenta anos a partir de ações governamentais para a abertura de estradas ligando o restante do Brasil à Região Norte e aos diversos programas de estímulo à ocupação e colonização da até então deserta Amazônia brasileira. Foram tempos de grandes slogans: “uma terra sem homens, para homens sem-terra”, “Brasil – ame-o ou deixe-o” e “esse é um país que vai prá frente…” 

Aqui é importante lembrar que problemas muito parecidos aconteceram e continuam acontecendo em outros Países Amazônicos como Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Colômbia. Trechos da grande floresta equatorial nesses países também foram derrubados e queimados, liberando terras para a agricultura, pecuária e mineração, para implantação de cidades e de obras de infraestrutura, entre outras ocupações. Todavia, a opinião pública de muitos países desenvolvidos só vê os brasileiros como os grandes vilões da natureza. 

Felizmente, esse avanço alucinado contra a Floresta Amazônica brasileira arrefeceu muito nos últimos anos e a situação entrou numa fase de “relativa” estabilidade ou de crescimento muito mais lento. É preciso ressaltar que o custo ambiental dessa “saga Amazônica” até agora já foi altíssimo. Porém, precisamos ver o lado positivo da situação – algo entre 85% e 87% da nossa grande floresta continua preservado e o nosso foco daqui para a frente deve ser a manutenção desse grande patrimônio natural

A destruição das florestas tropicais, ao contrário do que muita gente pensa, não acontece somente na Amazônia. Alguns exemplos: cerca de 90% das florestas do Sul do México desapareceram nas últimas décadas. Em El Salvador, a perda está entre 80 e 95% da cobertura florestal conforme a fonte consultada. No Haiti restam apenas 5% das densas florestas de um passado não tão distante. Em Madagascar, mais de 85% da floresta tropical já desapareceu e na Indonésia, uma área de florestas tropicais equivalente ao território da Irlanda foi destruída em apenas 12 anos. A lista de países onde ocorrem grandes agressões às florestas tropicais é enorme.

Mas os problemas de destruição de florestas não param por aí – citemos como exemplo a taiga ou floresta boreal, a maior floresta do mundo, onde se vem batendo recordes de queimadas e de desmatamentos ano após ano. Esse grande sistema florestal se estende ao redor do globo terrestre por uma faixa contínua do Hemisfério Norte entre os paralelos 40 e 70. Isso incluiu terras da Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Coreia do Norte e do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca.  

A taiga ocupa uma área total de 15 milhões de km², sendo praticamente 3 vezes maior que a Floresta Amazônica. As principais espécies dessa floresta são pinheiros, piceas, bétulas e lariços. No último verão, cerca de 100 mil km² da taiga na região da Sibéria – Rússia, foram destruídos por incêndios florestais. Isso corresponde a 10 vezes o tamanho das áreas de “florestas queimadas” na Amazônia. Os desmatamentos para exploração da madeira, principalmente na Rússia e no Canadá, também são enormes

Um outro ponto importante – segundo levantamento feito pela renomada revista científica Nature e publicado em junho de 2020, os desmatamentos em remanescentes florestais em países da União Europeia aumentaram 69% em 2018. Segundo informações da publicação, esses desmatamentos estão ligados diretamente à exploração das madeiras. Na França, um dos países que mais fortemente acusam o Brasil da devastação na Amazônia, os desmatamentos cresceram cerca de 30%. Em Portugal, esse crescimento foi de 56%. Também é preciso lembrar que países europeus como a França e a Alemanha estão entre os maiores compradores de madeiras extraídas e exportadas ilegalmente da Amazônia. E ninguém fala nada!

Minha pergunta: qual foi a última vez que qualquer um de vocês viu grupos ecológicos protestando contra a destruição acelerada da taiga ou desses desmatamentos na União Europeia? Melhor ainda – o presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a ameaçar a poderosa Rússia de Vladimir Putin por causa dessa destruição florestal como fez com o Brasil? Ou a primeira ministra da Alemanha, Angela Merkel, falou alguma coisa sobre a derrubada dessas florestas em seus parceiros França e Portugal?

Deixando toda essa hipocrisia ambiental de lado, vamos dedicar algumas postagens a propostas econômicas ecologicamente sustentáveis para a grande Floresta Amazônica. Essa região abriga uma população de quase 25 milhões de brasileiros, gente essa que precisa de trabalho e renda. Muito além das tradicionais atividades econômicas predatórias como a exploração das madeiras e do garimpo, existem inúmeros produtos locais como frutos, castanhas e peixes que podem gerar riqueza e renda sem destruir a floresta. 

Continuamos na próxima postagem. Até lá!

AS CIANOBACTÉRIAS E A MORTE DOS ELEFANTES NO DELTA DO RIO OKAVANGO

Uma publicação rápida em complemento a postagem anterior

As cianobactérias, também conhecidas como algas azuis e algas verde-azuladas, formam um grupo de bactérias que obtém a sua energia através da fotossíntese. Esses organismos podem ser encontrados em águas doces e salgadas, e também em solos. Algumas variedades dessas bactérias produzem neurotoxinas que podem ser fatais para animais que consumam a água onde elas vivem. Essa pode ter sido a origem do problema que matou os elefantes no Delta do rio Okavango na África. 

A questão começa a ficar extremamente grave quando procuramos entender as causas mais prováveis do aumento das colônias de cianobactérias nas águas do rio Okavango – a presença de grandes quantidades de resíduos de fertilizantes carreados a partir de plantações ao longo de suas margens, além de grandes quantidades de efluentes orgânicos, ou esgotos, em suas águas

Essas substâncias servem como alimentos para as bactérias. Com o forte calor, as bactérias passam a se reproduzir continuamente e formam grandes massas flutuantes sobre as águas (vide foto). Com o aumento das populações de bactérias, há um grande aumento na produção de toxinas, abrindo caminho para tragédias como o envenenamento das águas. 

O rio Okavango nasce numa região montanhosa no Leste de Angola e atravessa extensas áreas de clima semiárido, entrando a seguir na região desértica do Deserto do Kalahari, que se estende entre Angola, Namíbia, África do Sul e Botsuana. O rio é a principal fonte de água da região, sustentando um sem número de plantações e fazendas de criação de gado ao longo de suas margens. São justamente essas atividades humanas as responsáveis pela poluição das águas do importante rio Okavango

E por que precisamos nos preocupar com isso? 

Rios poluídos com grandes quantidades de esgotos e resíduos de fertilizantes são cada vez mais comuns em todo o Brasil e no mundo. Com os já perceptíveis aumentos da temperatura do planeta decorrentes do Aquecimento Global, as chances de eventos de superprodução de colônias de cianobactérias aumentam consideravelmente e há grandes chances de contaminação de populações humanas que consomem as águas desses rios. 

Citando um exemplo – no início de 2020, cerca de 1,5 milhão de fluminenses e cariocas passaram a perceber que a água que estava chegando em suas casas apresentava uma aparência turva e um cheiro ruim. De acordo com os laudos técnicos apresentados pela CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, a origem do problema era a geosmina, um composto orgânico volátil que é produzido por alguns tipos de cianobactérias e que, felizmente, não é tóxico. 

O principal manancial da região e responsável pelo fornecimento de 85% da água usada no abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de parte da Baixada Fluminense é o rio Guandu, considerado o 15° rio mais poluído do Brasil. O problema persistiu por vários dias até que foram feitas modificações no sistema de tratamento, inclusive com o aumento dos volumes de produtos químicos usados nos processos de purificação e filtragem da água. 

Agora imaginem o estrago que teria sido feito se as colônias de cianobactérias do rio Guandu fossem do mesmo tipo daquelas do rio Okavango e que produzissem as mesmas neurotoxinas que, aparentemente, foram responsáveis pela morte dos elefantes da região do Delta. Pensou nisso? 

Se essas substâncias matam animais que podem chegar a um peso de 6 toneladas, imaginem o potencial de destruição que teriam sobre uma população humana, onde a grande maioria dos indivíduos tem menos de 100 kg de peso… 

É uma questão preocupante! 

“DESVENDANDO O MISTÉRIO DA MORTE DE 330 ELEFANTES NO DELTA DO OKAVANGO, EM BOTSUANA”

O Delta do rio Okavango, em Botsuana, já foi tema de diversas postagens aqui no blog. Trata-se de uma planície alagável com mais de 20 mil km², uma área maior que o Estado de Sergipe. O rio Okavango percorre mais de 1.600 km desde suas nascentes em Angola, atravessando grande parte do Deserto do Kalahari, marcando a fronteira desse país com a Namíbia, até finalmente entrar no território de Botsuana

Diferente da maioria dos grandes rios que correm de encontro ao mar, o Okavango segue para o interior do continente africano e forma o que é chamado na geografia de bacia hidrográfica endorreica, onde a água se perde por evaporação. Um exemplo desse tipo de bacia hidrográfica é a do rio Jordão, no Oriente Médio, e que forma o Mar Morto; outro exemplo são os rios Amu Daria e Syr Daria, na Ásia Central, que formam o Mar de Aral. Aqui na América do Sul o grande exemplo é o Lago Titicaca, entre a Bolívia e o Peru. 

A riqueza e a abundância de águas transformaram o Delta do rio Okavango em um paraíso da vida animal e vegetal na África Austral. Essa riqueza, porém, há muito está ameaçada. Vejam essa matéria publicada pela Conexão Planeta

“O mistério começou em março, quando os primeiros elefantes foram encontrados mortos no vasto Delta de Okavango, no interior de Botsuana, na África, por conservacionistas que sobrevoavam a região de Serong. 

Ao todo, morreram cerca de 330 animais. As investigações foram cercadas de polêmica como contamos aqui, em julho. Primeiro, suspeitou-se de caçadores, que poderiam ter envenenado a água disponível para extrair as presas dos animais, mas logo essa ideia foi descartada. Ninguém se aproximou deles e as presas continuaram intactas. 

Os pesquisadores alertaram para a morosidade com que o governo encaminhou o assunto, mas não havia mais nada a fazer do que aguardar os resultados dos exames. E eles começaram a ser divulgados no final de julho, ainda com algumas outras hipóteses. Falamos disso em agosto. 

 Até que, no final de setembro, após meses de investigações e testes realizados em laboratórios de vários países – Estados Unidos, África do Sul, Zimbábue e Canadá – o Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais informou que os elefantes consumiram água contaminada por ‘uma eflorescência tóxica de cianobactérias‘, o que provocou distúrbios neurológicos. 

Como contamos em julho, ‘alguns elefantes ainda vagavam pela região, aparentando fraqueza, letargia e cansaço, além de sinais de desorientação e dificuldades para caminhar’. 

A água contaminada estava em reservatórios sazonais na região. Os elefantes pararam de morrer quando esses reservatórios secaram completamente. 

Mais mistério 

Mas ainda há um mistério rondando o caso. Em coletiva de imprensa, em Gaborone, Cyril Taolo, diretor interino desse departamento, contou que nenhuma outra espécie que vive na região foi contaminada. Nem as hienas e os abutres, que se alimentaram dos elefantes, apresentaram sinais da doença. 

Mmadi Reuben, veterinário-chefe do mesmo departamento, destacou: ‘Ainda temos muitas questões a serem respondidas: por que apenas os elefantes, e por que apenas naquela área? Há uma série de hipóteses que ainda estamos investigando’. 

O governo declarou que as pesquisas sobre a bactéria mortal continuam, e garantiu que será instituído um plano de monitoramento de reservatórios de água sazonais de forma a rastrear possíveis incidentes como esse no futuro e evitar mortes. 

Bactérias e aquecimento global 

Também conhecidas como algas azuis, as cianobactérias são organismos microscópicos muito comuns na água, que também podem ser encontrados no solo. Algumas produzem neurotoxinas, mas nem todas são tóxicas. 

Contudo, cientistas alertam que estão cada vez mais frequentes as variedades de cianobactérias perigosas para os seres humanos e os animais. Isto se deve às mudanças climáticas, que aumentam as temperaturas do planeta

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, na África Austral (também conhecida como África Meridional, que fica no sul do continente é banhada pelo Oceano Índico na costa oriental e pelo Atlântico na costa ocidental), as temperaturas têm subido duas vezes mais que a média global. 

As águas mais quentes favorecem o fenômeno da eflorescência tóxica, que invadiu as águas do Delta de Okavango.

Foto: National Park Rescue/Facebook 

Texto: Mônica Nunes 

CHEGOU O VERÃO E, COM ELE, AS FORTES CHUVAS DE VERÃO

O início oficial do verão ocorreu nesta segunda-feira, dia 21 de dezembro. A data é marcada pelo Solstício de Verão, um evento astronômico onde o hemisfério Sul está inclinado cerca de 23,5° na direção do sol. Essa inclinação chegou ao seu auge às 07h02. Extraoficialmente, já estávamos sentindo há um bom tempo o calor e as fortes chuvas de verão. 

Aqui é fundamental fazer um esclarecimento – um país de dimensões continentais como o Brasil não tem um único padrão climático. A temporada de verão que falamos aqui é válida para a chamada Região Centro-Sul do país, que engloba os Estados da Região Sul, a maior parte da Região Sudeste (exceto o Norte de Minas Gerais, além de partes de Goiás e do Mato Grosso do Sul. Na maior parte do território brasileiro, o clima é dividido em apenas dois períodos – o verão, com tempo quente e seco, e o inverno, a temporada das chuvas. 

Algumas amostras do que a estação reserva para Região Centro-Sul para os próximos meses: 

Na madrugada do último dia 17, um forte temporal causou uma enorme destruição e deixou, ao menos, 13 mortos na região do Alto Vale do rio Itajaí, em Santa Catarina. A cidade mais fortemente atingida foi Presidente Getúlio (vide foto). O temporal também causou muitos estragos em Ibitirama e Rio do Sul. 

Na tarde do dia 18, foi a vez da cidade de João Monlevade, em Minas Gerais, a ser surpreendida por uma forte tempestade de verão. As principais avenidas da cidade foram rapidamente tomadas por fortes enxurradas, que arrastaram carros, caçambas de entulho e tudo o mais que encontraram em seu caminho. Felizmente, não houve nenhuma vítima fatal. 

Muito mais do que uma demonstração de força da natureza, essas enchentes são consequências de ações humanas – desmatamentos, mineração desenfreada, práticas agrícolas equivocadas, assoreamento de rios e canais, crescimento desordenado das cidades, geração e descarte incorreto de resíduos sólidos, destruição de áreas de várzeas e de matas ciliares, entre outras. Sem encontrar seus antigos espaços no meio ambiente, as águas invadem as cidades e arrastam tudo o que encontram pela frente. 

É muito difícil reverter os grandes estragos que já fizemos na natureza, mas existem algumas formas de amenizar o potencial destruidor dessas chuvas de verão. Falo aqui de reflorestamento de áreas críticas, criação de espaços artificiais como os piscinões e outras áreas de contenção para o excesso de água das chuvas, limpeza e manutenção periódica de bocas de lobo e de outros sistemas de drenagem urbana, entre muitas ações preventivas. 

Infelizmente, entra verão e sai verão, e as coisas continuam como estão – vivemos todos em um grande palco que está pronto para a concretização de tragédias há muito anunciadas. Ao que tudo indica, parece que nos próximos meses vamos ter de noticiar, mais uma vez, as novas tragédias que virão. Desta vez, muitas prefeituras irão afirmar que não realizaram os serviços preventivos por causa da epidemia da Covid-19 (sempre há uma desculpa). 

O início do verão também costuma marcar o fim das publicações aqui no blog no ano. Com a chegada das festas de fim de ano, todos precisamos dar uma parada para descansar e pensar em todos os problemas que ficaram para trás. E nesse ano complicado de 2020, acho todos tivemos problemas em demasia. 

Meus melhores desejos de ótimas festas a todos e minhas esperanças de um 2021 um pouquinho melhor do que esse trágico ano que se finda. 

Abraços! 

OS PROCESSOS DE DESERTIFICAÇÃO EM ALAGOAS

Falando de uma forma bem simples, solo é uma camada fina composta por diversos tipos de minerais granulados que recobre uma camada rochosa. Entre os principais compostos do solo estão fragmentos minerais como a areia, o silte e a argila, que garantem as suas características estruturais. Esses sedimentos são o resultado de milhões de anos de processos de intemperismo em rochas – radiação solar, chuva, vento e gelo, processos erosivos que transformaram a superfície das rochas em pequenos sedimentos. 

Para que esses sedimentos inertes se transformem em solo fértil é preciso incorporar a eles matéria orgânica, a principal responsável pela fertilidade, a água, elemento que garante a dissolução dos nutrientes, e o ar. É essa combinação de elementos que garante aos solos a capacidade de sustentar vida vegetal e, consequentemente, a vida animal. O tempo gasto para transformar uma região rochosa em uma floresta com solos férteis é contado em milhões de anos. Siga esse link para ter uma descrição mais detalhada. 

Conforme já comentamos em uma postagem anterior, o trecho nordestino da Mata Atlântica foi o responsável pela formação de uma faixa de solos férteis com largura entre 60 e 80 km ao longo da costa. Nas palavras de grandes intelectuais como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Josué de Castro e Capistrano de Abreu, esses solos eram formados por “uma terra escura e gorda”, conhecida por todos como massapê. 

A fecundidade dos solos de massapê chamou a atenção dos europeus desde a chegada da expedição descobridora de Pedro Álvares Cabral. O escrivão-mor da esquadra, Pero Vaz de Caminha, escreve a El-Rei de Portugal: “A terra é em tal maneira dadivosa que em se querendo aproveitar dar-se-á nela tudo”. E dentro do projeto colonial de Portugal, esses solos se prestariam à produção de grandes quantidades de cana, para abastecer os mercados mundiais com açúcar de ótima qualidade

O resultado desse processo todos conhecemos bem – o trecho nordestino da Mata Atlântica foi, literalmente, riscado do mapa em pouco mais de dois séculos, levando junto inúmeras espécies animais e vegetais, rios e a fértil camada dos solos de massapê. A densa floresta tropical que chegava até a linha da areia das praias foi substituída por coqueirais – lembro aqui que o coco é originário do Sudeste Asiático. 

A destruição da cobertura vegetal de uma região pode resultar em consequências devastadores ao meio ambiente – uma delas é o início de processos de desertificação. A pequena Alagoas é uma campeã nacional nessa categoria. Aproximadamente 27% da superfície do Estado está sofrendo com processos acelerados de desertificação

Alagoas tem uma área total de 27,5 mil km² e, de acordo com informações da UNIFAL – Universidade Federal de Alagoas, cerca de metade desse território ou 14,5 mil km² era coberto originalmente pelos diferentes subsistemas florestais da Mata Atlântica. Atualmente, restam perto de 800 km² do bioma no Estado. 

Além da devastação das matas da faixa litorânea para a abertura de campos agrícolas, a vegetação do Semiárido Nordestino, que pode ser dividida a grosso modo em Agreste, Caatinga e Alto Sertão, foi impactada pela expansão da pecuária. Grandes trechos da vegetação desses biomas, principalmente os caatingais, foram queimados pelos criadores para formação de áreas de pastagens para os animais. A destruição dessa vegetação teve papel fundamental nos processos de desertificação em andamento hoje no Estado. 

Há um detalhe relevante aqui: além de rebanhos bovinos, os criadores também introduziram nos sertões animais como cavalos, burros, ovelhas e, principalmente, cabras e bodes. Diferente dessas outras espécies, os caprinos comem qualquer coisa disponível, inclusive as folhas espinhosas de cactáceas e as raízes das plantas. Em épocas de seca, quando se esgotam as forrações, os espertos caprinos cavam os solos em busca de raízes de plantas. Também escalam árvores com extrema facilidade, alcançando as folhas mais altas e inacessíveis para as demais criações. 

O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

A vegetação do Semiárido Nordestino também sofreu grandes derrubadas de árvores para o aproveitamento da madeira, utilizada principalmente para a fabricação de móveis e usos na construção civil na forma de portas, janelas e estruturas para telhados, além de mourões para cercas de arame farpado. As matas do sertão nordestino também forneceram grandes quantidades de dormentes para as ferrovias da região – para cada quilômetro de trilhos assentados, foram utilizados dormentes feitos com a madeira de até 500 árvores. 

Como resultado desse somatório de agressões ambientais, grandes trechos do Semiárido Nordestino caminham rapidamente para a desertificação. As estimativas apontam para um total de 230 mil km² de áreas em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso.  

No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões dos Vales dos rios Jequitinhonha e Mucuri. Esse é um problema que não se limita apenas a regiões semiáridas – vários municípios do Rio Grande do Sul, citando um exemplo, sofrem com o mesmo problema. 

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação em diferentes estágios. Os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia.  

Além da perda da fertilidade, os solos ressequidos praticamente não permitem a infiltração da água das chuvas, o que dificulta a recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos que alimentam os rios dessas regiões, sendo que muitos desses corpos d’água são intermitentes. 

Ao contrário do que muitos podem imaginar, a precipitação média anual de chuvas na Região do Semiárido Nordestino está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano. 

O grande fantasma da desertificação e que tira o sono de muita gente é que mesmo contando com água, um elemento fundamental para a prática agrícola, esses solos não produzem praticamente nada, nem mesmo ervas para alimentação de animais. Existem muitos experimentos sendo realizados em diferentes partes do mundo que mostram que é possível reverter os processos de desertificação em suas fases iniciais.  

Essa remediação, entretanto, tem altos custos, que crescem exponencialmente conforme a área desertificada aumenta de tamanho. Alagoas, para quem não sabe, é um dos Estados mais pobres do Brasil e onde falta dinheiro para tudo – sozinho, o Estado pode fazer muito pouca coisa para combater a desertificação dessas regiões. 

O melhor jeito de se combater a desertificação é evitar que o processo tenha início ou que seja remediado ainda nos primeiros estágios.  

OS GRAVES PROBLEMAS DA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO: DA SALINIZAÇÃO DAS ÁGUAS AO AVANÇO DO MAR

Regiões estuarinas e deltaicas em todo o mundo estão passando por graves problemas ambientais. Um dos casos mais graves é o que se passa na região do delta do rio Colorado no Golfo da Califórnia, onde praticamente não existe mais água doce.  

O rio Colorado é um dos rios mais longos da América do Norte, com nascentes nas Montanhas Rochosas, no Estado americano do Colorado, e, ao longo dos seus 2.320 quilômetros, banha os Estados de Utah, Arizona, Nevada e Califórnia, entrando a seguir no México, onde encontra a sua foz no Golfo da Califórnia.  

Suas águas respondem pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos e quase 90% do total dos seus caudais são desviados para fins de irrigação em 2 milhões de hectares. Sem as águas doces do rio, um pequeno cetáceo que vivia nas águas salobras do delta – a vaquita (Phocoena sinus), está praticamente extinto devido a perda do habitat. 

Outra região importantíssima que está seriamente ameaçada é o Delta do rio Mekong, no Sudeste Asiático. O delta do rio ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², praticamente a soma dos territórios dos Estados de Sergipe e Alagoas, possuindo aproximadamente 4 mil ilhas e 3.200 km de canais. Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. Uma das principais culturas agrícolas da região é o arroz. 

Com a construção de diversas represas de usinas hidrelétricas a montante do seu curso, os caudais do rio Mekong estão sendo reduzidos a grande velocidade e toda a região do seu delta está sofrendo com o avanço das águas do oceano e a salinização de águas e terras. Problemas semelhantes estão ocorrendo nos estuários e deltas de rios como o Ganges, Nilo, Reno, Danúbio, entre muitos outros. 

Conforme comentamos na postagem anterior, o rio São Francisco vem apresentando uma redução progressiva dos seus caudais ao longo das últimas décadas. Entre as causas desse grave problema está a acelerada destruição de vegetação nativa do Cerrado, o que reduz a contribuição de afluentes da bacia hidrográfica, e também a construção de sucessivas barragens de usinas hidrelétricas ao longo da calha do rio. 

Com a redução dos caudais do rio São Francisco, a intrusão de águas do Oceano Atlântico na sua calha é cada vez maior e seus efeitos já podem ser sentidos a dezenas de quilômetros da foz. Diversas cidades e pequenos povoados da região que captavam as águas do rio para o abastecimento de suas populações estão sofrendo com os altos níveis de salinização das águas

A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 grama por litro – já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro. As águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 grama/litro e abaixo de 30 gramas/litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do Rio São Francisco em trechos próximos da foz

Um exemplo de localidade que está sofrendo com o abastecimento de água para sua população é Potengy um distrito do município de Piaçabuçu em Alagoas. A água servida aos moradores está ficando cada vez mais salobra e inadequada ao consumo humano. Para piorar a situação, a salinidade das águas do rio São Francisco está afetando os aquíferos locais e inviabilizando o uso da água de poços. Muitos moradores precisam se deslocar por até 7 km até uma cacimba (uma espécie de poço aberto no solo) para conseguir água de boa qualidade. 

Agentes de saúde da comunidade passaram a observar um aumento dos casos de hipertensão arterial entre os moradores de Potengy, um problema que pode estar associado ao consumo excessivo de sal. Uma pesquisa feita pelos próprios agentes de saúde indicou que 36% dos moradores do vilarejo estavam com hipertensão e o consumo de água com altos níveis de sal é a causa mais provável dessa verdadeira “epidemia” de hipertensão. Esse problema está se tornando comum em toda a região do baixo curso do rio São Francisco. 

Outro problema preocupante na região são os impactos do uso de água com altos níveis de salinidade na irrigação de culturas agrícolas, especialmente em campos de produção de arroz. A presença do sal em grandes quantidades na água utilizada na irrigação mata as plantas e, a longo prazo, pode comprometer a fertilidade dos solos, impossibilitando a produção do arroz e de outras culturas irrigadas. Em Piaçabuçu, município alagoano na foz do Rio São Francisco, o plantio de arroz já está comprometido. 

Na mesma Piaçabuçu, um outro problema resume os problemas na foz do rio São Francisco – o crescimento de um pequeno deserto de areias móveis. Aos tempos do início da colonização, toda a orla marítima de Piaçabuçu era coberta por matas. Com a devastação das matas ao longo dos séculos, dunas móveis de areia começaram a avançar a partir da orla da praia na direção do interior do município. Atualmente, Piaçabuçu já possui uma área de dunas, algumas com mais de 30 metros de altura, com mais de 50 km². Para deleite dos turistas, o pequeno deserto de areias continua avançando. 

O enfraquecimento do rio São Francisco também está resultando num forte avanço do mar contra a costa na região da sua foz. O povoado de Cabeço, que pertencia ao município de Brejo Grande, e que ficava ao lado da foz foi, literalmente, varrido do mapa pelo avanço do mar. Até 1997, Cabeço tinha aproximadamente 200 moradores, a maioria pescadores, contando com perto de 50 casas, uma igreja e uma escola.  

Nessa época, havia um farol marítimo nas proximidades do povoado, instalado num ponto distante 2 km do oceano. Com o enfrequecimento do rio São Francisco e com as alterações nos sistemas de correntes marinhas, as ondas passaram a avançar contra a linha da costa onde ficava o povoado, destruindo sistematicamente todas as construções. Só restou o antigo farol que, mesmo inclinado, continua a resistir bravamente ante o avanço do mar. Este farol agora está dentro do mar (vide foto). 

Um outro sintoma do forte avanço das águas marítimas na calha do rio São Francisco é a presença cada vez mais frequente de tubarões nas águas do rio, a distâncias cada vez maiores da foz. Os tubarões da espécie cabeça-chata (Carcharhinus leucas) lideram as ocorrências de avistamento e captura no Baixo São Francisco. Os cabeças-chatas são uma das espécies de tubarões que mais se envolvem em ataques a pessoas em todo o mundo. A espécie é muito comum em águas tropicais e, por esta razão, é frequentemente avistada nas águas do litoral da Região Nordeste. 

Uma característica dos tubarões cabeça-chata é a sua capacidade de sobreviver por longos períodos em águas salobras e doces. Há relatos de espécimes que foram capturados no rio Amazonas, nas proximidades de Manaus, cidade que fica a mais de 1.500 km das águas do Oceano Atlântico. Com a redução dos caudais do São Francisco e com o avanço das águas salinas para o interior da calha do rio, os tubarões cabeça-chata passaram a se sentir praticamente em casa e podem representar um grande risco para as populações ribeirinhas do rio. 

Em síntese, é isso – a foz do rio São Francisco está sofrendo com problemas vindos de todos os lados.