Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

CHUVAS FORTES ATINGEM O SUL DA CALIFÓRNIA

Em uma raríssima ocorrência meteorológica, a tempestade tropical Kay trouxe muito vento e fortes chuvas para o Sul do Estado norte-americano da Califórnia, região que vem convivendo com uma forte seca há mais de duas décadas. As chuvas também atingiram a região Oeste do Arizona, Estado vizinho. 

A tempestade tropical Kay se formou sobre o Mar do Caribe no início do mês de setembro, evoluindo depois para um furacão da classe 2. De acordo com informações do Servico Nacional de Meteorologia do México, Kay provocou chuvas torrenciais nas regiões de Nayarit, Jalisco, Colima, Michoacán, Puebla e Oaxaca. Após enfraquecer para um furacão classe 1, Kay se deslocou para a região da Baja Califórnia, na costa Oeste do México, onde passou a ser classificada como uma tempestade tropical. 

Mesmo enfraquecida, a tempestade Kay ainda provocou fortes ventos e influenciou a formação de fortes chuvas numa faixa mais ao norte. As únicas vezes em que uma tempestade tropical provocou efeitos semelhantes na região foram em 1939, quando uma tempestade atingiu Long Beach, e em 1976, quando a tempestade tropical Kathleen, trouxe chuvas recordes de 400 mm para a Califórnia. 

O serviço local de meteorologia chegou a registrar ventos com rajadas de até 170 km/h em terrenos mais altos do sul da Califórnia, como foi o caso de Cuyamaca Peak a leste da cidade de San Diego. Esses ventos derrubaram muitas árvores, postes e linhas de transmissão de energia elétrica. 

As autoridades estaduais temiam a formação de fortes enxurradas de água e lama, o que felizmente foi bastante limitado. Depois de anos sucessivos de seca e ainda com a ocorrência de inúmeros incêndios florestais, os solos de grande parte da região estão muito ressecados, característica que dificuldade a absorção de água e favorece a formação de caudais superficiais. 

Apesar de todos os transtornos que sempre provocam, as fortes chuvas dos últimos dias ajudaram a conter vários incêndios florestais que estão ocorrendo no Sul da Califórnia. Um desses casos foi o do Fairview, um incêndio que já consumiu cerca de 14 mil hectares de matas. De acordo com os bombeiros, as chuvas e a grande umidade ajudaram a conter 43% do incêndio. 

Em um comunicado à imprensa, o Cal Fire – Departamento de Florestas e Proteção contra Incêndios da Califórnia, afirmou que “a atividade do fogo foi bastante reduzida devido à umidade da tempestade tropical Kay”. Aqui vale lembrar que o Estado da Califórnia vem enfrentando sucessivas ondas de incêndios florestais nos últimos anos. 

De acordo com balanço feito pelas autoridades do Estado no início do verão, 93% do território da Califórnia enfrenta uma condição de seca severa, situação que favorece muito a formação de grandes incêndios florestais. Em 2021, os incêndios destruíram mais de 1 milhão de hectares de florestas na Califórnia, uma área equivalente à do Estado de Connecticut. 

A mesma situação se repete em todo o Meio-Oeste dos Estados Unidos, especialmente no Arkansas, Colorado e Novo México, Estado onde a situação é particularmente grave – metade dos 33 condados já sofrearam com incêndios florestais desde o início do verão. 

Além dos riscos às florestas, essa seca está afetando fortemente o abastecimento de cidades e a produção agrícola em muitas regiões do país. Importantes rios como o Colorado estão apresentando baixos e preocupantes níveis. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as águas o rio Colorado são vitais para Estados como Utah, Arizona, Nevada e Califórnia. Cerca de 40 milhões de pessoas em sete Estados norte-americanos são abastecidas com águas captadas no rio Colorado e transportadas através de canais e sistemas de transposição. Essas águas também são usadas para a irrigação de 2 milhões de hectares de plantações. 

Importantes cidades da Região Sudoeste dos Estados Unidos são abastecidas com as águas do rio Colorado. Exemplos são Los Angeles, Las Vegas, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson. É importante citar que, à exceção de Las Vegas, todas essas cidades ficam bem longe do leiro do rio Colorado. 

Um exemplo da importância das águas do rio Colorado para a agricultura é o Imperial Valley, uma extensa área de produção no Sul da Califórnia. Essa região é considerada a maior produtora de culturas de inverno dos Estados Unidos e também a maior consumidora de água da Califórnia. 

Mudanças climáticas regionais estão ameaçando o rio Colorado. Essas mudanças incluem desde a redução do volume de chuvas na região da bacia hidrográfica até a redução da precipitação de neve das Montanhas Rochosas, formação que abriga importantes nascentes de rios tributários do Colorado. Essas mesmas mudanças climáticas estão afetando fortemente a Califórnia. 

Existe um receio entre meteorologistas e cientistas que essas mudanças climáticas venham a tornar frequentes a ocorrência de tempestades tropicais na Califórnia ou até mesmo levar a formação de furacões como o que acontece atualmente na região do Mar do Caribe. 

As mudanças climáticas vão nos trazer muitas mudanças e surpresas nos próximos anos. Quem viver, verá…

PARIS: UMA CIDADE A LUZ DE VELAS? 

O título da postagem, só para esclarecer, é uma brincadeira com uma das referências mais conhecidas da capital da França – a “Cidade Luz”. 

De acordo com o historiador francês Jacques Le Goff, Paris se transformou na maior cidade da Europa por volta do ano 1.300, quando atingiu a marca dos 200 mil habitantes. Desde então, a cidade passou a atrair, entre muitos outros migrantes, artistas, filósofos, escritores, pensadores, e cientistas das mais diferentes áreas. 

Essa concentração de artistas e de intelectuais transformou a cidade numa fonte de novas ideias e de ideais. A Revolução Francesa no final do século XVIII, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, pode ser citada como um exemplo da importância de Paris. Um movimento intelectual que surgiu a seguir foi o Iluminismo, o que levou Paris a ser chamada de “La Villle-Lumière” ou a “Cidade Luz”. 

A partir da década de 1880, com o início da instalação de sistemas de iluminação pública com lâmpadas elétricas em toda Paris, essa ideia foi ainda mais reforçada. Monumentos, museus, prédios públicos, pontes e igrejas da cidade passaram a receber sistemas de iluminação cada vez mais sofisticados, o que acabou dando uma nova dimensão à beleza da cidade. 

A Torre Eiffel, um dos maiores ícones de Paris, foi inaugurada nessa época, mais especificamente em 31 de março de 1889. O monumento, cujo projeto foi criado pelo engenheiro Gustave Eiffel, serviria como porta de entrada para a Exposição Universal de 1889, evento que comemorou o centenário da Revolução Francesa. 

A polêmica estrutura, que a princípio seria temporária, acabou ganhando uma enorme importância após a popularização do rádio – a imponente torre, com mais de 300 metros de altura, se mostraria excepcional para a instalação das antenas de rádio da cidade. Com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, as transmissões de sinais de rádio a partir da Torre Eiffel se tornaram estratégicas para os militares. 

De símbolo de mal gosto para as elites parisienses do final do século XIX a condição de um dos monumentos mais conhecidos do mundo, a Torre Eiffel é atualmente um dos locais mais visitados da França. A Torre conta hoje com um sistema de iluminação com cerca de 20 mil lâmpadas, que revelam todo o seu esplendor nas noites da cidade. 

A crise energética que ameaça a França e a maioria dos países da Europa Ocidental acaba de chegar na Torre Eiffel – o Governo anunciou uma série de medidas para a economia de energia elétrica. Uma dessas medidas reduzirá o tempo de iluminação diária da Torre Eiffel em mais de uma hora

A partir de hoje, o sistema de iluminação passará a ser desligado por volta das 23h45 ao invés de 1 hora da madrugada. De acordo com informações do próprio Governo francês, o sistema de iluminação representa apenas 4% do consumo total de energia elétrica da Torre Eiffel, porém, essa medida tem um caráter simbólico, lembrando que é dever de todos economiza energia elétrica. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, toda a Europa Ocidental está sofrendo com os impactos da redução do fornecimento de gás natural pela Rússia. A estratégia dos russos, que não deixa de ser uma grande chantagem, é forçar os países europeus a retirar e/ou minimizar toda uma série de embargos econômicos impostos a Rússia por causa da invasão da Ucrânia. 

Nas últimas décadas, com o avanço dos chamados partidos verdes por todo o continente europeu, foram criadas inúmeras políticas de incentivo ao uso do gás natural em alternativa ao poluente carvão mineral. Entre esses usos destacam-se aplicações em indústrias e a geração de energia elétrica. Enquanto o gás russo era abundante e barato, essas políticas funcionaram muito bem, obrigado… 

Com a gradual redução dos volumes de gás natural para os países europeus, o fantasma da falta de energia, que muitos não viviam desde o final da Segunda Guerra Mundial, começou a assombrar muita gente. Um exemplo desse colapso é o que vive a Alemanha atualmente – metade do gás usado no país vinha da Rússia. 

Além dos problemas com o fornecimento de gás, grande parte da Europa também está convivendo com uma seca devastadora. Importantes rios estão com níveis muito baixos, um problema que afeta tanto o abastecimento de populações quanto a navegação fluvial e a geração de energia em usinas hidrelétricas. 

No caso da França, a seca está criando dificuldades para o funcionamento pleno do seu parque de centrais nucleares, que são responsáveis por cerca de 70% de toda a energia elétrica consumida no país. Essas usinas utilizam água para o resfriamento dos seus equipamentos – com os baixos níveis de muitos rios, a descarga dessa água quente é limitada sob risco de afetar a flora e a fauna aquática. 

O drama que já está sendo vivido por muito europeus poderá ficar ainda maior com a chegada do inverno, época em que existe um aumento das necessidades energéticas por causa do uso de sistemas de aquecimento residencial ou de calefação. Aqui entram a energia elétrica, o gás natural, a lenha e também o carvão mineral. 

O Governo da França vem conclamando o povo francês para “momentos de sacrifício” já há várias semanas. Essa decisão sobre a redução do período de iluminação da Torre Eiffel deve ser vista como mais uma “ferramenta didática” deste processo. 

Desgraçadamente, não existem melhores alternativas para os parisienses no curto prazo e muitos outros monumentos também poderão ficar às escuras por algum tempo. Por via das dúvidas, será bom fazer algum estoque de velas para os casos de emergência… 

O DESAPARECIMENTO GRADUAL DO LAGO NEUSIEDL, NA FRONTEIRA ENTRE A ÁUSTRIA E A HUNGRIA, ESTÁ PREOCUPANDO MUITA GENTE 

O Lago Neusiedl sempre foi considerado como uma espécie de praia para muitos austríacos e húngaros. Vivendo em países sem fachada oceânica, os povos desses países precisam se valer de lagos e rios para “curtir uma praia”. Com o forte calor e com a seca extrema que está assolando a grande parte da Europa nos últimos meses, esse importante lago está secando aceleradamente

Com cerca de 315 km2 de área máxima de espelho d`água, sendo 240 km2 dentro do território da Áustria e 75 km2 na Hungria, o Lago Neusiedl foi elevado à categoria de Patrimônio Mundial pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, o que também inclui o Parque Nacional Fertő-Hanság, no lado húngaro do lago, e o Parque Neusiedl, no lado austríaco. 

Esse conjunto natural forma uma importante zona de descanso e alimentação para numerosas espécies de aves migratórias em rotas da Europa para a África. Muitas dessas espécies de aves estão em perigo de extinção. Essa característica transformou o Lago Neusiedl e arredores num importante centro turístico, especialmente para os observadores de aves. 

Do ponto de vista geográfico, o Lago Neusiedl é o ponto final de uma bacia hidrográfica endorreica, ou seja, que não corre na direção do mar. Nesse tipo de bacia hidrográfica, a água de rios e córregos se acumula em uma depressão no terreno e se perde através da evaporação. O nível do corpo d`água é mantido constante devido ao aporte sistemático de caudais. 

Com o forte calor e com a falta de chuvas em toda a região da bacia hidrográfica, o lago vem perdendo volumes substanciais de água sem que haja reposição, o que explica o desaparecimento visível do lago. Outra característica do lago que ajuda a explicar a forte evaporação é a sua pouca profundidade. 

A profundidade média do lago é de apenas 1 metro, com profundidades máximas da ordem de 1,8 metro. Esse tipo de configuração facilita o aquecimento e a evaporação da água. A maior parte da área onde se encontrava o espelho d`água está tomada por uma grossa camada de lama (vide foto) – a depender da continuidade do calor e da seca, essa lama vai secar e começar a rachar dentro de poucas semanas. 

De acordo com informações históricas, esse lago já secou em diferentes momentos ao longo dos últimos séculos pelas mesmas razões climáticas. A última vez que ele havia secado completamente foi no início do século XX. Com a volta das chuvas ou, na pior das hipóteses, com o derretimento da neve após o inverno, a tendência é que o Lago Neusiedl volte a encher. 

O desaparecimento de lagos, desgraçadamente, está virando uma notícia frequente nos meios de comunicação. O uso abusivo de água em sistemas de irrigação agrícola é uma das principais causas desse tipo de problema. Exemplos que já mostramos em diferentes postagens aqui do blog são o Mar de Aral, na Ásia Central, o Mar Morto no Oriente Médio, o Lago Chade no Centro-Norte da África. Esses três lagos, não por coincidência, são do tipo endorreico.  

O caso mais famoso é o do Mar de Aral que fica entre o Cazaquistão e o Uzbequistão. Até o início do século XX, o Mar de Aral era o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km². Essa área corresponde a 165 vezes a tamanho da Baía da Guanabara

A destruição do Mar de Aral está diretamente associada a super exploração das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria pelas repúblicas da Ásia Central da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Os planejadores do governo central em Moscou queriam transformar a região num celeiro agrícola da URSS. 

Para atingir essa meta foram construídos milhares de quilômetros de canais de transporte de água e de irrigação, que passaram a desviar a maior parte dos caudais que antes seguiam na direção do Mar de Aral. Sem receber novos aportes de água, o lago quase desapareceu e hoje se limita a 10% da sua área original. 

Os casos do Mar Morto e do Lago Chade são idênticos. Localizados em regiões semiáridas e desérticas com baixa disponibilidade de água, esses lagos passaram a sustentar um sem número de projetos de agricultura irrigada. Com a redução dos aportes de água e com as perdas por evaporação, o resultado não poderia ser outro: a área dos respectivos espelhos d`água diminuem ano após ano. 

Uma outra “categoria” de lagos em processo de encolhimento/desaparecimento está ligado ao desaparecimento de geleiras em altas montanhas devido ao aquecimento global. O caso mais notório é o do Lago Titicaca, localizado na divisa entre o Peru e a Bolívia. 

O Lago Titicaca é considerado o maior da América do Sul, ocupando uma área de aproximadamente 8,5 mil km2 e fica localizado numa região árida do altiplano a cerca de 3.800 metros acima do nível do mar. O lago é alimentado por dezenas de rios com nascentes formadas a partir do derretimento de geleiras na Cordilheira dos Andes. 

Na margem nordeste do Lago, em território boliviano, fica a Cordilheira Real, onde se localizam algumas das montanhas mais altas dos Andes.  No lado peruano, são cerca de 20 rios tributários, com nascentes em 91 glaciares nos Andes do Peru. Todas essas geleiras estão ameaçadas pelo aquecimento global. 

De acordo com moradores da região, a margem do lago já retrocedeu mais de 50 metros em alguns pontos e o nível baixou 1 metro nos últimos anos. Especialistas locais afirmam que, de acordo com medições sistemáticas, o problema é bem mais sério que isto e que o nível do Lago Titicaca vem diminuindo sistematicamente desde 1986. 

A queda no nível do Lago Titicaca foi uma das principais causas do desaparecimento do Lago Poopó, um lago menor localizado ao Sul e que era alimentado pelo escoamento do excesso de águas. Esse lago tinha cerca de 2.500 km2 de área e secou completamente em 2017. 

A situação do Lago Deusiedl ainda não chegou ao nível da devastação dos outros lagos citados, mas é sempre bom ficar com as “barbas de molho”. Em tempos de aquecimento global, a perda de qualquer corpo d`água precisa ser profundamente lamentada. 

BRASIL BATE NOVO RECORDE NA PRODUÇÃO DE GRÃOS 

A CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, divulgou o relatório final da safra 2021/2022. Os agricultores brasileiros deverão colher um total de 271,2 milhões de toneladas de grãos, um crescimento de 5,6% em relação à safra anterior ou 14,5 milhões de toneladas a mais

Essa é uma excelente notícia em um momento de incertezas da produção agrícola mundial. Grandes produtores do Hemisfério Norte como os Estados Unidos, a China e países da União Europeia estão enfrentando riscos de quebra de produção de muitas culturas por causa do forte calor e da seca. 

De acordo com o relatório detalhado da CONAB, a área total plantada foi estimada em 74,3 milhões de hectares, o que corresponde a um crescimento de 6% ou 4,2 milhões de hectares em relação ao período 2020/2021. 

As culturas que apresentaram os maiores crescimentos em área plantada foram a soja, com crescimento de 6% ou 4,2 milhões de hectares; o milho, com 8,2% de crescimento ou 1,64 milhão de hectares; o trigo, com crescimento de 10,6% ou 290 mil hectares, e o algodão, que teve um crescimento de 16,8% ou 229,8 mil hectares. 

O milho foi o grande destaque da safra 2021/2022 – as estimativas da CONAB projetam uma produção total de 113,3 milhões de toneladas, um crescimento de 30,1% em relação a última safra. Esse resultado é surpreendente uma vez que a primeira safra do milho na Região Sul foi fortemente prejudicada pela seca no final de 2021. 

A seca também prejudicou a produção da soja, que sofreu uma redução de 9,9% no volume total de produção e ficou em 125 milhões de toneladas. O fenômeno climático La Niña provocou uma drástica redução do volume de chuvas nos Estados da Região Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul no final de 2021, levando a uma redução da produtividade do grão. 

Outra cultura de extrema importância na mesa dos brasileiros que sofreu fortes impactos com a seca foi o arroz, que tem uma das suas principais áreas de produção no Sul do país. A área plantada sofreu uma redução de 3,6% e a produção foi 8,4% menor, atingindo a marca de 781 mil toneladas. 

Falar de arroz nos leva, obrigatoriamente a falar do nosso bom e velho feijão. A cultura também sofreu com a seca em algumas regiões, porém, houve um aumento da produtividade em outras. A safra deverá atingir a marca de 2,99 milhões de toneladas, com um crescimento de 3,6% apesar da redução da área plantada de 2,4%. 

A produção do trigo, uma das poucas culturas de grãos em que o Brasil não tem autossuficiência, também foi recorde – a CONAB estima uma produção de 9,36 mil toneladas, o que corresponde a um crescimento de 22% em relação à safra anterior. 

O consumo de trigo no Brasil corresponde a aproximadamente 13 milhões de toneladas anuais, o que significa que, mesmo com um excepcional aumento da produção, ainda dependemos das importações de trigo. 

Lembro aqui que a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu variedades de trigo especialmente adaptadas às condições do Cerrado e, dentro de poucos anos, nosso país deixará de ser importador e passará a ser exportador de trigo. 

Merece destaque também a produção do algodão que atingiu a marca de 2,5 milhões de toneladas de fibra têxtil e de 6,2 milhões de toneladas de caroços de algodão, importante fonte de óleo. Apesar da seca em várias regiões do país ter prejudicado a fase inicial da cultura, o tempo seco foi extremamente benéfico para a colheita do algodão, tendo contribuído fortemente para o aumento de 8,3% na produção. 

Além desses grãos mais famosos e de presença mais frequente em nosso dia a dia, o Brasil também produz uma infinidade de culturas bem menos famosas. Nessa lista se incluem o gergelim, o girassol, a mamona, o sorgo, a aveia, a canola, o centeio e a cevada, entre outras, que tornam o Brasil um verdadeiro celeiro mundial. 

É sempre importante comentar que até bem poucas décadas atrás – falo aqui dos anos de 1970, nosso país dependia da importação de alimentos, inclusive grãos fundamentais para a dieta da população como o arroz e o feijão.  

Em menos de 50 anos passamos da condição de importador de alimentos para a quarta posição mundial dos maiores produtores mundiais de grãos. No caso da soja, o Brasil já é o maior produtor mundial, uma posição que foi conquistada a partir do domínio da ciência e da tecnologia agrícola. 

Ainda na década de 1970, a EMBRAPA desenvolveu diversas variedades de grãos – destaque para a soja, especialmente adaptados aos solos ácidos e pouco férteis do Cerrado Brasileiro. Combinando técnicas para a correção dos solos do Cerrado – destaque aqui para a calagem, essas novas variedades de grãos permitiram que o país desse um verdadeiro salto na produção agrícola. 

O Cerrado ocupa uma área de mais de 2 milhões de km2, o que corresponde a quase ¼ do território brasileiro. Suas terras sempre foram desprezadas e pouco valorizadas por causa da baixa fertilidade. Até meados do século XX, essas terras apresentavam uma densidade populacional baixíssima, uma condição que passou a mudar pouco a pouco ao longo das últimas décadas. 

De terra desvalorizada a celeiro agrícola do país, o Cerrado assumiu papel de destaque no Brasil. Essa importância precisa ser seguida cada vez mais de responsabilidade ambiental, combinando desenvolvimento econômico com preservação ambiental. É sempre importante destacar que as principais bacias hidrográficas brasileiras têm suas nascentes no Cerrado Brasileiro

Esses mesmos cuidados ambientais também devem envolver os biomas Mata Atlântica, Caatinga e Pampas Sulinos, explorados e devastados pela agricultura e pecuário ao longo de nossa história. Muito de sua riqueza natural já foi perdida e todos os esforços para a sua recuperação devem ser priorizados. 

Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pampas Sulinos ainda possuem um amplo potencial para expansão da nossa agricultura e pecuária, o que nos permite “poupar” a Amazônia e o Pantanal Mato-grossense para as futuras gerações.  

Em todos esses biomas existem grandes áreas que já foram desmatadas e que estão sendo subutilizadas e/ou estão abandonadas. Segundo muitos especialistas, nosso país tem potencial para dobrar a sua produção agrícola usando essas terras sem precisar destruir e desmatar novas áreas de florestas. Isso seria excelente para nós brasileiros e para o resto do mundo. 

A CRISE DA AGROPECUÁRIA ARGENTINA

Estamos vivendo um período complicado da história da humanidade. Existem sinais por todos os lados que indicam que o mundo inteiro vai enfrentar uma profunda recessão econômica. Ondas de calor e seca em todo o Hemisfério Norte estão ameaçando o abastecimento de populações, a produção agropecuária, os transportes fluviais e a geração de energia elétrica. 

O conflito regional entre a Rússia e a Ucrânia está tendo fortes consequências em grande parte do mundo. Os dois países são grandes produtores agrícolas e o conflito ameaça parte do abastecimento mundial de grãos. Nessa equação também entram os fertilizantes produzidos na Rússia e que estão sob embargo internacional. 

Também precisamos falar da crise energética, que tem como um dos pivôs o fornecimento de gás natural da Rússia para grande parte da Europa. Parte considerável da geração de energia elétrica dos países europeus utiliza gás natural vindo da Rússia, fonte que literalmente “secou” nos últimos dias. 

Momentos de crise para muitos sempre significam possibilidades de ganhos para uns poucos. E falando especificamente da produção de alimentos, o Brasil está se dando bem. Com a valorização de grãos como a soja, o milho, o açúcar e o café, os produtores brasileiros estão vendo a possibilidade de bons lucros. 

O país também está se dando bem nas exportações de proteína animal, especialmente a carne suína e de aves. Quem se preparou e tem excedentes de alimentos para vender nesse momento em que o mercado está comprando, está se dando muito bem. 

Uma situação paradoxal é a que está se passando na nossa vizinha Argentina. O país, que desde das últimas décadas do século XIX, sempre foi um grande exportados de grãos e de carnes, entrou numa espiral de desmonte da sua importante agropecuária

Em primeiro lugar, precisamos falar que a Argentina vem enfrentando problemas com a falta de chuvas e/ou chuvas abaixo da média, com baixos níveis em muitos rios importantes. Essa situação se repete há cerca de 3 anos. Há pouco mais de um ano, inclusive, publicamos uma postagem aqui no blog falando da seca no trecho argentino do rio Paraná e dos transtornos para o escoamento da safra agrícola por via fluvial. 

A seca não é um problema exclusivo dos nossos “hermanos” – Estados brasileiro da Região Sul, que ficam nas mesmas latitudes da Pampa Argentina, a grande área de produção agropecuária do país, também vem enfrentando problemas semelhantes. 

Os argentinos, desgraçadamente, conseguiram piorar o tamanho dos problemas desses setores. Vivendo uma profunda crise econômica e social, o Governo do país aumentou as alíquotas de impostos de vários produtos agrícolas ainda em 2020. A soja, o farelo e o óleo de soja, três dos principais produtos agrícolas o país, tiveram as alíquotas aumentadas de 30 para 33%, o que desestimula os produtores. 

Uma outra medida desastrosa foi a imposição de limites para a exportação de carne, com muitos tipos de cortes tendo a sua exportação proibida. Segundo o Governo, essa medida tinha como objetivo garantir o abastecimento do mercado interno, o que acabou não acontecendo. Esse tipo de medida, como nos ensinou a nossa própria história, acaba gerando desabastecimento no médio e longo prazo. 

Quem é um pouco mais velho deve se lembrar dos malfadados planos econômicos criados durante o Governo do Presidente José Sarney. Em março de 1986, o Governo lançou o Plano Cruzado, um conjunto de medidas econômicas concebidas para controlar a inflação galopante que atormentava os brasileiros na época. 

Entre outras medidas, o Plano Cruzado criou um tabelamento de preços. Bastaram poucas semanas para muitos produtos desaparecerem das prateleiras dos supermercados – especialmente os alimentos. Sugiram os “fiscais do Sarney” que, entre outras atividades, vasculhavam as fazendas em busca dos bois em pé. Preços congelados desestimulam os produtores, que simplesmente preferem encerrar ou reduzir a sua produção. 

Os problemas argentinos ganharam um “fôlego extra” com a crise dos fertilizantes desencadeada pelo conflito entre a Rússia a Ucrânia. Os preços destes insumos no mercado internacional aumentou muito em dólar, o que atingiu em cheio um país que está tendo enormes dificuldades com a sua balança de pagamentos. 

A agropecuária responde por metade das exportações da Argentina, em especial com produtos como o trigo, a soja e as carnes. A seca, o aumento dos impostos e as cotas para o volume de exportações de carne funcionaram com uma espécie de “tiro no pé”, reduzindo o volume de exportações e, consequentemente, de receitas externas que entram no país. 

Para piorar o cenário, o Banco Central da Argentina utiliza uma política de câmbio bastante complicada, com diferentes cotações para o dólar para diferentes setores econômicos. Os exportadores são remunerados com uma cotação do dólar menor, porém são obrigados a pagar por fertilizantes e insumos agrícolas com um dólar mais caro. Ou seja – é uma conta que não fecha e desestimula os produtores, que produzem menos a cada ano que passa. 

Um exemplo é a produção de trigo, que caiu cerca de 6% em relação as últimas safras. A Argentina sempre foi uma grande produtora e exportadora de trigo. Desde o início do conflito na Ucrânia a seis meses, o preço do trigo no mercado internacional sofreu uma alta de 29%. Ou seja, nossos “hermanos” poderiam estar ganhando um ótimo dinheiro com a exportações de trigo, dinheiro que seria muito bem-vindo num momento de forte crise econômica no país. 

Infelizmente, medidas populistas adotadas pelos últimos Governos do país têm arrastado a Argentina cada vez mais para a lama. A inflação está nas alturas e cerca de 40% da população vive em condição de pobreza extrema. E o país que já foi um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, cada vez mais sofre diante do espectro da fome, da pobreza e das incertezas para o futuro. 

E nem dá para jogar toda a culpa na conta das mudanças climáticas globais…

UMA SECA HISTÓRICA NA CHINA 

As postagens publicadas aqui no blog nas últimas semanas falaram muito dos problemas climáticos nos Estados Unidos e na Europa. Essas grandes regiões estão sofrendo com fortes ondas de calor e com secas intensas. Rios estão apresentando níveis extremamente baixos, com riscos para o abastecimento de populações, irrigação de lavouras, dessedentação de animais, além de provocar imensos problemas para as áreas de geração de energia elétrica e transportes fluviais. 

Esses problemas, entretanto, estão afetando todo o Hemisfério Norte e precisamos incluir na conta de regiões afetadas a China, o país que possui a maior população do mundo e ocupa a segunda posição na economia mundial. O país está enfrentando uma seca fortíssima, que além de causar inúmeros impactos locais tem potencial para afetar fortemente a economia mundial. Extensas áreas do país estão sem receber chuvas há vários meses e importantes rios estão apresentando níveis extremamente baixos.

O quadro que melhor define a seca no país é o Yangtzé, o maior e mais importante rio da China. Com nascentes nas montanhas do Tibete e foz no Mar da China, onde forma um imponente delta, o Yangtzé percorre um caminho com 6.300 km pelo país no sentido Leste-Oeste.  O rio atravessa 16 províncias chinesas e abastece 600 milhões de pessoas – estimativas indicam que 45% do PIB – Produto Interno Bruto, da China depende direta ou indiretamente do rio Yangtzé. 

O rio Yangtzé é o berço da civilização chinesa há milhares de anos. Fornecendo água para o abastecimento de populações e para a irrigação de plantações, para o transporte de pessoas e de mercadorias por toda uma imensa região do grande país, trabalho para pescadores, artesãos, barqueiros e tantos outros, o Yangtzé pulsa como uma verdadeira artéria ligada ao coração da China.   

A bacia hidrográfica do rio Yangtzé abriga centenas de cidades importantes do país, onde se concentram milhares de indústrias de todas as áreas. Toda essa rede de cidades e de empresas depende da navegação fluvial para o transporte de pessoas e mercadorias. O volume de cargas transportadas nessa hidrovia é superior a 2,5 bilhões de toneladas por ano, o que nos dá uma ideia dos impactos da seca. 

Outro aspecto relevante do rio Yangtzé e de seus afluentes é o grande potencial de geração de energia elétrica. Um exemplo é Três Gargantas, a maior usina hidrelétrica do mundo, que tem uma potência estimada em 22,5 milhões de MW. A bacia hidrográfica do rio abriga diversas outras usinas hidrelétricas de grande porte. 

A província de Sichuan no Sudoeste do país é um exemplo da atual crise energética desencadeada pela seca. Perto de 80% da energia elétrica consumida na província de mais de 80 milhões de habitantes vem de centrais hidrelétricas instaladas no rio Yangtzé. Industrias locais estão convivendo com apagões e muitas grandes empresas estão paralisando a sua produção. 

Ao longo das últimas décadas, a China foi transformada na “fábrica do mundo”. Uma parte considerável dos produtos e bens de consumo comercializados em todo o mundo saem das fábricas do país. Empresas de todo o mundo também dependem de peças e componentes fabricados na China. Ou seja – a paralização ou redução da produção nas fábricas do país terá reflexos diretos na economia mundial, 

Outro ponto crítico é a ameaça a produção de alimentos no país. Com uma população da ordem de 1,4 bilhão de habitantes, a China precisa produzir e importar quantidades fabulosas de alimentos para sustentar sua gigantesca população. A demanda chinesa por alimentos, inclusive, vem pressionando os preços internacionais das commodities há muitos anos. 

A China é o maior produtor mundial de alimentos. O país se destaca como um grande produtor de arroz, seu principal alimento, além de milho, soja, cevada, carne suína, peixes, frutas e legumes. Apesar disso, o país depende de grandes importações para garantir a segurança alimentar de sua população – o Brasil se destaca como grande exportador de alimentos para a China. 

A seca que assola parte da China representa uma séria ameaça para a produção agropecuária do país, um problema que criará impactos em todo o mundo. Um eventual aumento da demanda das importações de gêneros alimentícios pelo país provocará, inevitavelmente, um aumento dos preços internacionais que já estão sendo pressionados pela seca em outros grandes países produtores e também pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia. 

Uma postagem publicada aqui no blog dias atrás resume o problema. A USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na sigla em inglês, reviu para baixo as expectativas da safra de milho do país, que é o maior produtor mundial do grão, indicando que haverá uma redução de 4,2% em relação as previsões feitas há apenas duas semanas.   

Além de ser um importante alimento para os seres humanos, in natura ou como ingrediente de uma infinidade de produtos, o milho também é usado para a produção de óleos vegetais comestíveis e combustíveis, além de ser um ingrediente fundamental para a produção de rações para animais. Ou seja – qualquer quebra de safra gera reflexos em toda a cadeia produtiva. 

Outro grande produtor de milho que está tendo dificuldades para a produção é a Argentina. Além de problemas climáticos, o país está passando por grandes problemas políticos e econômicos. Sem contar com recursos, o Governo da Argentina tem sobretaxado as exportações da commodity, uma medida que desestimula a produção. 

Esses dois exemplos ligados ao milho ilustram toda uma série de problemas mundiais na área de produção de alimentos. Essa grande seca na China tem potencial para agravar ainda mais a situação, elevando os preços no mercado internacional e ameaçando a segurança alimentar de milhões de pessoas. 

Os problemas que o mundo todo está enfrentando por causa das mudanças climáticas cada vez mais nos lembram o quão frágil e limitado é esse nosso pequeno planeta azul chamado Terra.  

MUDANÇAS CLIMÁTICAS PODERÃO ELEVAR AS TEMPERATURAS DO ORIENTE MÉDIO E DO MEDITERRÂNEO ORIENTAL EM 5° C

As chamadas Eras Glaciais, Glaciações ou Eras do Gelo são períodos marcados por uma redução natural das temperaturas em todo o planeta. Essas eras são marcadas por um grande avanço das camadas de gelo das áreas polares. A última dessas eras teve início há cerca de 21 mil anos e terminou há aproximadamente 11,5 mil anos. Esse evento mudou radicalmente o clima de muitas regiões.

Uma dessas regiões foi o Sul do Mar Mediterrâneo, englobando todo o Norte da África e o Oriente Médio, região de nosso planeta que apresentava um clima bem diferente ao final dessa última Era Glacial. Essa região apresentava temperaturas bem mais amenas que as atuais, sendo coberta com grandes extensões de florestas. 

Esse era o caso do Saara, atualmente o maior deserto do mundo com área total de 9,5 milhões de km2. Essa região era coberta por florestas e áreas de savanas, onde corriam grandes e caudalosos rios. Toda a grande fauna e diversificada fauna africana – de elefantes a hipopótamos, de macacos a girafas, habitava essa região. 

Entre 5 e 8 mil anos atrás, nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e no Oriente Médio. As florestas foram retrocedendo lentamente e as áreas de savana e de estepes foram crescendo. As áreas semiáridas e desérticas também foram aumentando gradativamente. 

Um exemplo literário que nos dá uma ideia do que foram essas mudanças climáticas no Oriente Médio pode ser encontrado na Epopeia de Gilgamesh, uma das mais antigas sagas escritas da humanidade. A saga conta a história do mítico rei deus Gilgamesh da cidade de Uruk, no Sul da Mesopotâmia, que era dois terços deus e um terço humano. Esse rei teria vivido por volta do ano 2.650 a.C. 

A fim de destruir o feroz gigante Humbada que vivia na floresta de cedros e ameaçava seu povo, Gilgamesh e seu servo Enkidu se armaram com pesados e potentes machados, além de espadas afiadas. Eles se dirigiram então para essa floresta, que pela narrativa não ficava muito longe de Uruk. Essa floresta se estendia por “dez mil léguas em todos os sentidos”. 

É difícil saber até onde o antigo poema utiliza paisagens reais ou não, mas as áreas cobertas com florestas de cedros na região estão restritas atualmente a algumas áreas montanhosas no Líbano, na Síria e na Turquia. Com um clima mais amenos no passado, não seria difícil que essas árvores tivessem uma área de ocorrência que chegasse até a Mesopotâmia – atual Iraque, região que atualmente, está coberta por estepes, terrenos semiáridos e desertos. 

O clima do Oriente Médio, que já mudou bastante nos últimos milhares de anos, poderá ficar ainda mais complicado. Estudos feitos pelo Instituto Max Planck de Química e do Centro de Pesquisa do Clima e Atmosfera do Instituto Chipre sugerem que o Oriente Médio e o Mediterrâneo Oriental poderão sofrer um aumento de temperaturas de 5° C ou mais até o final do século

De acordo com o relatório dos pesquisadores, essa região está passando por um aumento de temperaturas quase duas vezes mais rápido que a média global. As mudanças no clima dos países da região poderão ser devastadoras para seus milhões de habitantes. É possível afirmar que mudanças climáticas dessa magnitude poderão deixar grande parte da região inabitável.

Esse aumento das temperaturas provocará uma redução no volume de chuvas – que em grande parte do Oriente Médio já não é lá essas coisas. Isso afetará fortemente a segurança hídrica e alimentar das populações. Existe ainda uma série de problemas que serão desencadeados pelo aumento do nível do mar e alagamento de regiões costeiras. 

Um dos maiores riscos que poderá ser desencadeado pelo avanço do nível do mar é a salinização dos solos férteis de muitos vales e também a infiltração da água marinha nos aquíferos costeiros, reservas de água doce que hoje são fundamentais para o abastecimento de inúmeras cidades. 

Um relatório completo com os dados desse estudo está sendo preparado para uma apresentação na COP27 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. O encontro acontecerá em novembro no Egito. 

Só para exemplificar como as atuais condições climáticas do Oriente Médio já são complicadas nos dias de hoje, vou citar o exemplo de Israel. Quase 2/3 do território do país é formado por regiões semiáridas e desérticas. Metade da área restante é formada por solos rochosos. 

O maior e mais importante rio de Israel é o lendário Jordão. Esse rio tem 190 km de extensão, com nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense; a foz do rio Jordão fica no Mar Morto ao Sul. Apesar de toda a sua fama, o rio Jordão poderia ser comparado a um riachão brasileiro – sua profundidade máxima é de 5,5 metros e a maior largura 18 metros. 

As chuvas no país são escassas e mal distribuídas. No Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais.  Para efeito de comparação, a precipitação média no nosso Semiárido Nordestino está entre 200 mm e 400 mm. Literalmente, é preciso fazer milagres para conseguir sobreviver nessas condições climáticas – e olhem que o clima de Israel não é um dos piores do Oriente Médio. 

Agora, tentem imaginar um lugar com condições climáticas tão complicadas ficando ainda pior. É justamente esse o futuro não muito distante do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Médio. Populações e governos da região vão precisar correr muito para se preparar para esses novos e complicados tempos.

RÚSSIA SUSPENDE O FORNECIMENTO DE GÁS NATURAL PARA A EUROPA 

As temperaturas que já andam altas na Europa subiram mais alguns graus: a Rússia suspendeu o fornecimento de gás natural para o continente europeu por tempo indeterminado.  

A empresa estatal russa Gazprom, que já havia reduzido o volume de gás enviado para a Europa alegando operações de manutenção em seus gasodutos, anunciou que está suspendendo todas as operações no gasoduto Nord Stream. Esse gasoduto forma o principal sistema de transporte de gás para o continente – os russos alegam que detectaram problemas em uma estação de compressão. 

Apesar de todas as explicações sobre eventuais problemas técnicos nos sistemas de gasodutos, a verdade é que o Governo da Rússia está retaliando as nações europeias por causa dos sucessivos embargos econômicos criados após a invasão da Ucrânia por tropas russas. Também se suspeita que essa medida extrema está associada a uma proposta de países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos para colocar um teto de preços para o petróleo russo. 

As consequências desse embargo foram imediatas – o custo de geração da energia elétrica em megawatt (MWh), que até a última sexta-feira, dia 2 de setembro, era de 214,60 euros saltou quase 33% e atingiu a marca de 284 euros na cotação de hoje. A depender do desenrolar da situação, esses preços poderão subir ainda mais. 

A notícia também afetou a cotação do euro, que perdeu valor diante do dólar norte-americano. A moeda europeia perdeu 0,61% do seu valor, valendo agora US$ 0,9932 – a mínima do dia chegou a US$ 0,9881. A situação faz aumentar os riscos de uma recessão na Europa, especialmente pelo temor da escassez de gás durante o inverno. 

A Alemanha, um dos países europeus mais dependentes das importações de gás da Rússia, está estudando um pacote de medidas econômicas avaliado em 65 bilhões de euros para tentar conter a alta dos preços da energia para os consumidores locais. Vale lembrar que metade do gás consumido no país, seja para geração de energia elétrica, aquecimento doméstico ou para fins industriais, vem da Rússia. 

O avanço dos chamados partidos políticos verdes em muitos países da Europa nas últimas décadas levou a um aumento gradativo do uso de gás natural para a geração de energia elétrica, com uma redução cada vez maior do uso de fontes de energia fóssil mais poluentes como o carvão mineral. Essas “políticas verdes” ajudaram a consolidar essa dependência do gás natural da Rússia em grande parte da Europa. 

De acordo com informações que haviam sido divulgadas anteriormente pela Gazprom, a paralização das operações nos sistemas de gasodutos se estenderia até o dia 2 de setembro. Entre outros serviços se incluía uma manutenção de uma central de compressão de gás no Norte da Alemanha. 

Na última sexta-feira, entretanto, a Gazprom não retomou as operações do gasoduto Nord Stream, informando apenas que ainda existem problemas técnicos a serem solucionados. Um comunicado foi enviado para a direção da empresa alemã Siemens Energy AG, fabricante das turbinas usadas nos sistemas dos gasodutos, informando que foi detectado um vazamento de óleo nesses equipamentos. 

Em resposta, a Siemens emitiu um comunicado afirmando que problemas desse tipo não justificam o fechamento do gasoduto e a interrupção do fornecimento de gás para a Alemanha. Segundo os alemães, esses vazamentos podem ser selados e as operações poderiam continuar normalmente. Foi criado um verdadeiro impasse. 

Conforme destacamos em uma postagem anterior, a Europa está vivendo uma “tempestade perfeita”. O continente está sofrendo com fortes ondas de calor e seca forte em muitas regiões, problemas que estão prejudicando a produção agrícola e pecuária, o transporte de mercadorias por vias fluviais e o abastecimento de populações em muitas cidades. 

Na França, os baixos níveis dos rios estão afetando também a geração de energia elétrica nas centrais nucleares. Esse tipo de geração gera grandes quantidades de calor e é necessário o uso da água para resfriar os equipamentos. Com os baixos níveis dos rios, os volumes de água quente que podem ser despejados têm de ser reduzidos a fim de não prejudicar a flora e a fauna aquáticas. 

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia também está afetando profundamente a economia da Europa. Além da questão do gás natural, combustível essencial para a geração de energia elétrica, aquecimento doméstico e as mais diferentes aplicações industriais, os países europeus perderam duas importantes fontes de produção e exportação de alimentos. 

A Ucrânia sempre foi um grande celeiro de alimentos, especialmente nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O país é um grande produtor de grãos – principalmente trigo, milho e cevada, de óleo de girassol e de legumes e hortaliças. A Rússia também tem uma produção respeitável. Vale destacar que a Rússia também uma importante produtora e exportadora de fertilizantes. 

Um exemplo que já citamos diversas vezes aqui nas nossas postagens – Ucrânia e Rússia respondem por cerca de 1/3 de toda a produção mundial de trigo, uma commodity essencial nas mesas dos europeus. Sem poder contar com essa fonte de suprimento complementar à sua produção, os países da Europeu estão sofrendo com a escassez e o aumento dos preços de todos os produtos que usam trigo. 

A questão energética, entretanto, é a que causa as maiores preocupações no curto prazo. A partir do mês de novembro, as temperaturas na Europa começam a cair devido a chegada do inverno e a população precisa contar com sistemas de aquecimento em suas residências, sejam eles elétricos, a gás, a carvão ou a óleo combustível – todas essas fontes de energia sofreram pesados aumentos nos seus preços. 

A situação é muito preocupante, para não dizer dramática. 

FRANÇA ALERTA PARA UM POSSÍVEL RACIONAMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA, OU “O GATO SUBIU NO TELHADO” 

Muitos dos leitores devem conhecer a anedota do gato que subiu no telhado. Conta-se que um cidadão informou bruscamente seu vizinho sobre a morte do seu gato – o animal caiu de um telhado e morreu. Recuperado do susto, esse homem passou a dar “dicas” ao vizinho sobre como dar notícias ruins, ou seja, ele deveria contar a história passo a passo “preparando o terreno” – e o fato do gato subir no telhado seria apenas o início do trágico desfecho da notícia. 

O Governo da França parece estar seguindo à risca os ensinamentos dessa técnica de dar más notícias para a sua população. Durante a sua participação em um evento no MEDEF – Movimento das Empresas da França, no último dia 29 de agosto, a primeira-ministra Élisabeth Borne alertou que o país deve se preparar para um racionamento de energia elétrica

A premier, inclusive, pediu que os empresários que preparem planos de moderação, uma vez que as empresas serão as primeiras a sentirem o impacto de um racionamento, tanto de energia elétrica quanto de gás. “Se cada um não fizer sua parte, pode haver interrupções repentinas na distribuição de gás, com graves consequências econômicas e sociais” complementou a primeira-ministra. 

Dias antes, o presidente do país, Emmanuel Macron, alertou os franceses sobre “eventuais sacrifícios” diante de um cenário de fim de abundância, especialmente com a proximidade da chegada do inverno. Segundo Macron, o país está entrando em uma nova fase marcada por mudanças climáticas e pelas consequências do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. 

Qualquer ouvinte/leitor um pouco melhor informado vai entender que esses políticos estão afirmando que “o gato francês está subindo no telhado” e que uma enxurrada de más notícias vai chegar em muito pouco tempo. Vamos lembrar algumas delas: 

Toda a Europa está vivendo um profunda e preocupante crise energética, problema que aumentará muito dentro de poucos meses com a chegada do inverno. O continente criou uma forte dependência do gás natural da Rússia, produto que está chegando com volumes cada menores devido aos impasses criados após a agressão dos russos aos ucranianos. 

Desde a década de 1950, quando o Leste Europeu vivia sob o julgo da “cortina de ferro” da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que sistemas de transporte e distribuição de gás natural vindo de campos da Rússia começaram a se espalhar pelos países da Europa. Um dos casos mais emblemáticos é o da antiga Alemanha Oriental – a dependência desse combustível passou também para o lado ocidental do país após a reunificação em 1990. 

O gás natural passou a ser utilizado em centrais termelétricas, transformadas nas principais fontes de energia elétrica em muitos países. Contando como uma fonte energética bem mais limpa, esses países passaram a desativar gradativamente suas antigas e poluentes centrais termelétricas a carvão.  

Além de inúmeras aplicações industriais, o gás natural também é um combustível essencial para o aquecimento residencial. Para a maioria de nós brasileiros, acostumados a um clima bem mais ameno e com invernos pouco rigorosos (a exceção da nossa Região Sul), esse tópico parece ser irrelevante. Porém, para os habitantes de países onde a temperatura despenca para valores negativos nos meses de inverno, esse aquecimento é uma questão de sobrevivência. 

A França, ao contrário dos seus vizinhos, optou por priorizar a geração de energia elétrica a partir de centrais nucleares – cerca de 70% da energia consumida no país vem dessas fontes. O país possui 19 plantas nucleares em operação e planos para construir outras mais. 

O forte calor e a seca que estão assolando a Europa nos últimos meses, passou a ameaçar a geração de energia por fontes nucleares na França. Falando de forma bastante resumida, centrais nucleares geram grandes volumes de calor a partir da fissão de combustíveis radioativos – esse calor é usado para formar o vapor que gera eletricidade em turbinas. 

O excesso de calor dessas usinas precisa de grandes volumes de água para seu resfriamento. É aqui que surgem os problemas – como grandes e importantes rios da França estão com baixíssimos níveis, a quantidade de água quente que pode ser eliminada pelas usinas nucleares teve de ser reduzida a fim de não prejudicar a flora e a fauna aquáticas. Segundo as notícias, metades das plantas nucleares da França foram obrigadas a reduzir a sua geração de energia. 

A seca também está criando uma enormidade de problemas para a agricultura, a pecuária e o abastecimento de populações em toda a França. As atividades agropecuárias são de enorme importância no país, que um dos maiores produtores de alimentos no continente. Com escassez de água, a produtividade das fazendas cai, com reflexos diretos no preço dos alimentos. 

Essa questão está sendo agrava pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, dois grandes celeiros agrícolas da Europa. Ou seja – haverá falta de alimentos por causa da queda de produtividade nos campos franceses e também pelas dificuldades de importação a partir dos países do Leste Europeu. 

É interessante observar que os discursos desses líderes políticos estão incluindo as mudanças climáticas. Tanto a seca atual quanto o conflito entre a Rússia e a Ucrânia tem data marcada para acabar – a história ensinou que tais tragédias naturais e humanas sempre chegam a um fim, deixando um rastro de destruição em seu caminho. 

A inclusão das mudanças climáticas nos discursos, entretanto, tem o objetivo de alertar para problemas muito mais longos e de difícil solução. Basicamente, o Governo francês está falando que a vida da população nunca mais será como era antes. 

Seria bem mais honesto falar que o gato subiu no alto da Torre Eiffel e não sabe como descer… 

UMA VIOLENTA CHUVA DE GRANIZO NA ESPANHA

Uma notícia que merece um destaque:

Na última terça-feira, dia 30 de agosto, a região catalã de La Bisbal d`Emporda, no Nordeste da Espanha, enfrentou um fenômeno climático extremo – uma chuva de granizo com pedras de gelo gigantes. Uma criança de 20 meses morreu ao ser atingida na cabeça e pelo menos 50 pessoas ficaram feridas, principalmente com hematomas e fraturas. 

A precipitação com pedras de gelo com até 10 cm de diâmetro (vide foto) pegou a população e os turistas da região de surpresa, obrigando todos a uma busca frenética por locais abrigados. De acordo com autoridades locais, essa foi a queda de granizo mais intensa dos últimos 20 anos na região. 

A queda de granizo ou saraivada é uma das formas de precipitação mais violentas da natureza, especialmente quando as pedras de gelo são grandes como nesse caso. O granizo é um fenômeno bastante comum em regiões equatoriais, onde as altas temperaturas facilitam a formação de nuvens densas como a cúmulo-nimbo ou cumulunimbus, em latim. 

Esse tipo de nuvem tem um grande desenvolvimento vertical, podendo atingir uma altura de mais de 15 km. Essa formação é gerada pela ação de ventos convectivos ascendentes, que carregam grandes massas de umidade para a alta atmosfera. Essas nuvens costumam ter um formato que lembra uma bigorna e costumam se formar nos meses mais quentes do ano. 

Essas nuvens podem se formar isoladamente, em um conjunto de multicélulas ou ainda na forma de uma super célula, tipo normalmente associado a eventos meteorológicos extremos como grandes tempestades, precipitação de granizo ou neve, além de tornados

A formação do granizo se deve ao contato do vapor de água com as baixas temperaturas nas partes mais altas das nuvens cúmulo-nimbo. Normalmente, os granizos costumam ter um diâmetro entre 0,5 e 5 cm, tamanhos suficientes para fazer um bom estrago – eu já tive um carro bastante danificado por essas pedras de gelo. 

A ocorrência de precipitações de granizo com pedras gigantes é bem mais rara. Em 2010, citando um exemplo, houve um evento desse tipo nos Estados Unidos onde foi encontrada uma pedra de gelo com 20 cm de diâmetro. Também ocorreram quedas de granizos gigantes em Bangladesh, em 1986, e na Argentina, em 2018. Em 1985, a região Leste do Estado de Minas Gerais foi atingida por uma fortíssima queda de granizo. 

Além de danos em veículos, esse tipo de precipitação costuma trazer grandes prejuízos para as lavouras, especialmente para as hortaliças e árvores frutíferas. Dentro de áreas urbanas, a queda de granizo costuma resultar em danos em telhados, toldos e vidraças, além de prejudicar a circulação de veículos pelas ruas e avenidas.  

Em 1995, eu testemunhei uma verdadeira tempestade de granizo na região da Avenida Paulista, na cidade de São Paulo – as ruas ficaram completamente cobertas de gelo, com acúmulo de mais de 50 cm nas ruas mais baixas. Aliás, foi essa precipitação que danificou bastante a lataria do meu carro. 

A Espanha, país onde ocorreu essa violenta queda de granizo gigante, fica fora da zona equatorial, o que torna o evento bastante excepcional. Porém, conforme já tratamos em postagens anteriores, a Europa está sofrendo com as altas temperaturas nesse verão, com situações em que se chegou a ultrapassar a impressionante marca dos 45 C. 

Dentro de um quadro climático bastante semelhante ao das regiões tropicais, não é de se estranhar que tenha ocorrido a formação de nuvens densas do tipo cúmulo-nimbo, com formação e precipitação de pedras de gelo gigantes. 

A questão incômoda que deve estar tirando o sono de muita gente – esse foi um evento climático aleatório que surgiu bem ao acaso ou será que as mudanças climáticas que estão afetando grande parte do continente europeu vão tornar eventos desse tipo frequentes? 

Questão difícil essa…