Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

A EXPLORAÇÃO DE COLTAN E OUTROS MINERAIS RAROS E OS RISCOS DE EXTINÇÃO DOS GORILAS-DE-GRAUER DO CONGO

Gorila de Grauer 2

A simpática “figura” que ilustra a postagem de hoje é um gorila-de-Grauer, a maior subespécie de gorilas e maior primata do planeta, com alguns exemplares atingindo um peso de 180 kg. Chamado por muitos de “gorila esquecido”, esse animal é encontrado em pequenos bandos vivendo escondido nas florestas do Leste do Congo. 

A pergunta que, imagino, deve estar passando na cabeça de muitos dos leitores – o que um gorila tem a ver com o tema que vem sendo comentado nessa série de postagens, onde estamos falando de lixo eletrônico e exploração de minerais raros como o coltan? 

Conforme já comentamos, 75% das reservas mundiais de coltan, um mineral raro e fundamental para a fabricação de importantes componentes eletrônicos, estão localizadas na República Democrática do Congo. Devastado por uma guerra civil que se desenrola há vários anos e que já matou mais de 6 milhões de pessoas, o Congo é um país caótico, dominado por senhores da guerra, líderes tribais funcionários públicos e militares corruptos. Essa mineração, como não poderia deixar de ser, é altamente predatória e dominada pelos diferentes grupos que mandam no país. 

As populações que moram nas áreas rurais e que se dedicam à agricultura e a pecuária são frequentemente expulsas de suas terras pelos grupos mineradores, que rapidamente transformam os terrenos em um mar sem fim de crateras. Trabalhadores em regime de escravidão e semiescravidão, muitas vezes observados sob a mira de armas, vasculham a terra em busca de minerais como coltan, diamantes e ouro. Essa é uma rotina que toma conta do Congo há várias décadas. 

As populações expulsas de suas terras ancestrais saem em busca de outros lugares para viver e as áreas cobertas por florestas acabam se transformando em refúgios para um recomeço da vida. Clareiras são abertas para a formação de roçados rudimentares para uma agricultura de subsistência, muitas vezes utilizando o fogo para finalizar a limpeza dos terrenos, numa técnica muito semelhante à coivara dos indígenas brasileiros. Esse é um movimento silencioso que está devastando grandes extensões da floresta equatorial do Congo.  

É esse avanço contra as florestas que tem encurralado grupos de gorilas-de-Grauer em pequenos fragmentos florestais, o que torna os animais presas fáceis para os caçadores. O consumo de carne de macacos, chimpanzés e gorilas é tradicional entre as populações de muitas regiões da África e um animal de grande porte como esses gorilas é uma presa disputada. A caça é feita por um lado pelos mineradores, que dada as condições degradantes de trabalho se valem da caça predatória para sobreviver e por outro pelos agricultores, que de uma hora para outra foram forçados a abandonar uma vida estruturada em suas terras e partir em busca de outras formas para se sobreviver.  

O discreto gorila-de-Grauer (Gorilla beringei Graueri) é uma das espécies de primatas menos estudadas da África. De acordo com dados da WCS – Sociedade de Conservação da Vida Selgavem, na sigla em inglês, e da Fauna & Fora International, a população estimada dessa espécie caiu de 17 mil indivíduos em 1995 para cerca de 3.800 animais nos dias atuais. Como existem poucos gorilas-de-Grauer em zoológicos e unidades de conservação, o risco de desaparecimento da espécie é muito grande

Gorila de Grauer

Essa espécie de gorila foi descrita pela primeira vez pelo zoólogo austríaco Rudolf  Grauer na virada do século XX. Esses animais são muito parecidos com os gorilas-da-montanha (Gorilla gorilla beringei), e por muito tempo foram considerados como uma única espécie. Grauer observou que essa subespécie tinha os membros mais longos, pelos mais curtos e preferem viver em habitats com altitudes mais baixas, entre 60 e 290 metros acima do nível do mar. O pesquisador também observou que os gorilas-de-Grauer tem um apetite mais voraz que os gorilas-da-montanha. 

Os gorilas são caçados por populações humanas desde os tempos imemoriais da pré-história. Essa pressão ecológica forçou os animais a buscar os recantos mais profundos das florestas e das montanhas para sobreviver, o que manteve suas populações em relativa segurança e possibilitou que os bandos mantivessem números confortáveis de indivíduos. A partir da chegada dos primeiros exploradores europeus e do encontro desses com os dos gorilas, passou a existir uma poderosa “indústria” para a caça e captura desses animais para exposição em zoológicos e circos de todo o mundo.

Como sempre acontece com espécies silvestres caçadas e colocadas em cativeiro para venda como animais de estimação e de exibição, para cada exemplar de gorila que chegava vivo na Europa e Estados Unidos, entre outros destinos, pelo menos dez animais caçados morriam no caminho vítimas de ferimentos, doenças, fome e maus tratos.

Uma outra fonte de pressão para caça desses animais surgiu em função de uma moda absurda da venda de mãos e pés de gorilas mumificadas, que eram usadas em muitos casos como cinzeiros. As cabeças dos gorilas foram transformadas também em um souvenir disputado por caçadores e turistas que visitavam a África. Uma das maiores defensoras dos gorilas, mais especificamente dos gorilas-das-montanhas, foi a primatóloga norte-americana Dian Fossey (1932-1985), que inclusive foi assassinada por caçadores de gorilas em Ruanda. A história da polêmica Dian Fossey e de sua luta na defesa dos gorilas foi transformada em um filme em 1988 – Gorillas in the Misty ou A Montanha dos Gorilas. 

Além de sofrerem com a destruição dos seus habitats e com a caça predatória, os gorilas-de-Grauer poderão enfrentar novos problemas, desta vez vindos dos Estados Unidos. A legislação norte-americana cria alguns embaraços para as empresas do país que compram minerais de áreas de conflito, como é o caso da República Democrática do Congo. A Lei dos Minerais de Conflito foi aprovada em 2010 com apoio bipartidário no Congresso dos Estados Unidos. Essa Lei exige que as empresas divulguem as compras de minerais feitas nas chamadas zonas de conflito, algo que torna as empresas expostas ao crivo da opinião pública e alvo dos grupos de direitos humanos e ambientalistas. 

Está em tramitação um memorando presidencial que poderá alterar essa política por um prazo de 2 anos – caso esse documento venha a ser aprovado e assinado pelo Presidente Donald Trump, ouro, estanho, tântalo, coltan e tungstênio originários da bacia hidrográfica do rio Congo poderão ser comprados livremente por empresas americanas. Com a abertura desse gigantesco mercado, a mineração no Congo, que já não segue regra nenhuma, ganhará ainda mais fôlego e colocará em um patamar de risco ainda maior as florestas equatoriais do país e suas espécies, incluindo-se na lista os gorilas-de-Grauer.  

Ou seja, para tornar os smartphones, tablets, computadores e outros produtos eletrônicos produzidos por empresas norte-americanas mais baratos e competitivos, uma legislação que ajuda a proteger as florestas e animais selvagens do Congo poderá ser alterada. E como consequência, teremos a geração de mais lixo eletrônico, que inclusive poderá ser exportado no futuro para países africanos, e o risco de desaparecimento de espécies animais fascinantes como os gorilas-de-Grauer

Muito triste. 

A DESTRUIÇÃO DA FLORESTA DO CONGO

Agricultura de subisistência no Congo

Muito se fala da destruição da Floresta Amazônica.

Meses atrás, durante a tradicional época das queimadas na região, começaram a circular imagens e vídeos nas redes socias e nos telejornais de todo o mundo, mostrando que “o pulmão do mundo” estava sendo transformado em cinzas. Diversas celebridades e autoridades internacionais assumiram uma posição de defesa da Amazônia e começaram a dar “pitacos” sobre algo que não conheciam corretamente. Na época publicamos uma longa série de postagens falando sobre esse tema e mostrando a realidade da Amazônia e de sua população. Essas postagens foram depois compiladas no formado de livro – A NOSSA AMAZÔNIA

A Floresta do Congo, uma gigantesca selva equatorial africana, ocupa uma área total de mais de 2 milhões de km², o que equivale a quase metade da área do trecho brasileiro da Floresta Amazônica. Se incluirmos na conta alguns sistemas florestais de transição como savanas e florestas secundárias, a área total dessa Floresta aumentará para 3 milhões de km². A Floresta do Congo se espalha entre a República Democrática do Congo, República do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Camarões e República Centro-Africana. Se a Amazônia é considerada o “pulmão do mundo”, a Floresta do Congo seria uma espécie de segundo pulmão mundial. 

Floresta do Congo

Especialistas afirmam que a Floresta do Congo abriga um total de 10 mil espécies de plantas, sendo que 30% são exclusivas do bioma. Também é o habitat de uma infinidade de espécies de animais da fauna carismática (espécies que representam ecossistemas) como elefantes, girafas, chimpanzés e gorilas, entre muitas outras (vide foto). Espalhados nessa extensa área vive um total de 75 milhões de pessoas pertencentes a, pelo menos, 150 etnias diferentes

Apesar de todos esses números grandiosos, é provável que muitos dos leitores jamais tenha ouvido falar desta floresta e dos seus inúmeros problemas, onde se incluem os desmatamentos para a abertura de cavas para exploração de minerais raros como o coltan, para exploração de madeira para exportação e também para a formação de pequenos campos agrícolas para os refugiados da mineração. Ao contrário do que se vê em relação à Floresta Amazônica, as selvas africanas estão desaparecendo ante um silêncio ensurdecedor. 

Para que todos tenham uma ideia da devastação ambiental que se desenrola no continente africano, o Greenpeace, uma grande organização ambientalista internacional, realizou uma investigação e descobriu que 2,6 milhões de hectares de matas ao redor da Floresta do Congo foram transformados em áreas de cultivo da palma do dendê, principalmente na Libéria, em Serra Leoa e na República do Congo. Como as terras na África são muito baratas e os Governos não costumam impor nenhuma restrição ambiental, é inevitável o avanço dessas plantações na direção da grande Floresta do Congo.

Uma das grandes fontes de problemas desse grande ecossistema é a mineração descontrolada, especialmente de coltan, um mineral com grande demanda pela indústria eletroeletrônica. Sem maiores controles pelas autoridades dos países, principalmente na República Democrática do Congo, detentora de 75% das reservas mundiais desse minério, a mineração ameaça a sobrevivência da Floresta. Essas ameaças têm várias frentes. 

Conforme já comentamos em postagem anterior, a mineração no Congo é controlada por uma infinidade de grupos militares e paramilitares, que travam uma longa guerra civil há várias décadas. Esse conflito já matou perto de 6 milhões de pessoas, sendo que aproximadamente 4 milhões dessas mortes estão ligadas a disputas pelo controle de áreas de mineração. Entre os envolvidos estão políticos e funcionários públicos, militares das forças governamentais, líderes tribais, entre muitos outros. Essa grande fragmentação do poder no país torna a situação caótica e expõe os moradores de várias regiões a uma vida de terror. 

Habitantes das vilas e pequenas cidades são forçados a trabalhar nas cavas de mineração, muitas vezes numa condição de escravidão ou de semiescravidão. Frequentemente, os trabalhos são feitos sob a mira de fuzis de seguranças e militares. Ao final das exaustivas jornadas de trabalhos, esses mineradores ainda passam por uma rigorosa revista e, nos casos em que existem suspeitas de desvios de pedras e minerais valiosos, há cruéis castigos físicos e detenções. 

Os problemas não param por aí – o avanço das frentes de mineração expulsa milhares de famílias de suas terras ancestrais, sem qualquer espaço para negociação ou pagamento de indenizações. A abertura de novas cavas de mineração transforma os solos numa sucessão de crateras, o que impedirá qualquer possibilidade de retorno dos antigos proprietários e uso futuro dessas terras para agrícultura ou pecuária. 

As famílias expulsas, que muitas vezes são classificadas como “refugiados da mineração” partem para outras localidades em busca de alternativas para um recomeço de vida. É justamente aqui que as áreas cobertas por florestas surgem como uma alternativa – são abertas clareiras no meio da mata, onde a finalização dos trabalhos é feita com o uso do fogo, numa técnica que lembra muito a coivara dos indígenas brasileiros

Nos terrenos recém desmatados são formadas pequenas culturas de subsistência, o que garantirá a sobrevivência dessas famílias por um curto período de tempo. Assim como acontece com os solos da Amazônia, os solos da Floresta do Congo têm uma baixa produtividade e, sem a proteção da cobertura vegetal, perdem rapidamente a fertiidade. Depois de 2 ou 3 anos de uso, esses solos ficam completamente improdutivos, o que leva as populações a uma migração constante em busca de novas áreas para viver e trabalhar. Esses movimentos migratórios levam a uma destruição contínua de novos trechos de matas.  

Diferente da Floresta Amazônica, onde os desmatamentos e as queimadas destroem grandes áreas contínuas de terras que podem ser identificadas por imagens de satélites, a destruição da Floresta do Congo é feita lentamente em pequenas áreas e com ferramentas manuais. Esse avanço contínuo está transformando a Floresta do Congo, especialmente no Leste do país, em uma sucessão de fragmentos florestais isolados. A coleta de lenha para cozinhar (especialmente num raio de 5 km ao redor das vilas) e o corte de árvores para processamento da madeira também causam grandes impactos. 

Além da destruição da cobertura florestal e de todos os problemas ambientais que isso gera, esses refugiados se valem da caça de animais silvestres para complementar a sua alimentação, abatendo inclusive espécies animais raras e em forte risco de extinção. Essa também é uma rotina entre os mineradores, que normalmente recebem quantidades de alimentos insuficientes de seus “patrões”. Uma das espécies mais ameaçadas é o gorila-de-Grauer, a maior espécie de primata do mundo e sobre a qual falaremos na próxima postagem. 

Grandes empresas europeias estão entre as maiores compradoras de coltan e de outros minerais raros do Congo para a produção de componentes eletroeletrônicos. Essas grandes empresas se encontram em países como Holanda, França, Alemanha, Suécia, Finlândia, Inglaterra e Itália, entre outras nações. Talvez, o silêncio mundial em relação à destruição da Floresta do Congo esteja ligado à cumplicidade dessas empresas e dos Governos de seus países com a mineração ilegal. 

Cuidar e se preocupar com a Floresta Amazônica é fundamental, mas não podemos nos esquecer da destruição da floresta equatorial africana, da sangrenta guerra civil e da mineração descontrolada, que criam uma cruel e silenciosa realidade na República Democrática do Congo. 

A DEVASTADORA EXPLORAÇÃO DE COLTAN NA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO

Mineração de coltan

Vamos pegar uma carona no tema que tratamos nas últimas postagens, o lixo eletrônico, e destrinchar um outro lado dessa indústria – a exploração de minerais raros para uso na fabricação dos componentes eletrônicos. Um desses minerais é o coltan, uma mistura de dois outros minerais – a columbita e a tantalita. Da columbita se obtém o nióbio e da tantalita se extrai o tântalo. Esses dois minerais são essenciais para a produção de componentes eletrônicos fundamentais para a funcionamento de smartphones, notebooks, tablets, computadores, televisores, videogames, filmadoras, máquinas fotográficas, entre muitos outros produtos.

Para que você tenha uma ideia da importância do coltan: um levantamento recente mostrou que cerca de 88 mil empresas da União Europeia utilizavam componentes eletrônicos fabricados a partir do coltan. E, se por qualquer problema de fornecimento, o coltan não chegar nas empresas que dependem dessa matéria prima, as consequências serão graves. Um exemplo disso foi o que ocorreu no início dos anos 2000, quando o esperado lançamento do videogame Playstation 2 foi adiado por vários meses devido à falta de coltan no mercado mundial. Em resumo: mesmo não conhecendo o coltan, você não consegue viver um único dia sem ele. 

A República Democrática do Congo, uma ex-colônia da Bélgica no centro do continente africano, detém 75% das reservas mundiais desse mineral. Há várias décadas, o país está sendo assolado por uma intensa guerra civil, onde, de acordo com a ONU – Organização das Nações Unidas, mais de 6 milhões de pessoas já morreram, sendo que 4 milhões dessas mortes estão ligadas diretamente à disputas pelo controle de áreas de mineração, incluindo-se aqui as reservas de coltan

A República Democrática do Congo foi alçada à condição de país independente em 1960. É o segundo maior país da África, com aproximadamente 2,35 milhões de km² e 75 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 200 grupos étnicos. Apesar da grande riqueza mineral dos solos e com abundância de recursos naturais e energéticos, o Congo figura entre os países do mundo com as mais altas taxas de mortalidade infantil e materna, desnutrição, falta de acesso da população aos serviços de saúde, educação e segurança, além de apresentar as mais precárias infraestruturas de saneamento básico.  

Um exemplo do caos congolês pode ser visto em Bandulu, uma região da província de Kivu no Leste do país, onde se encontram algumas das mais importantes reservas minerais do Congo. A mineração de coltan é feita de forma completamente desordenada e sob um clima de absoluta violência. Existem perto de 5 mil lavras na região, que nada mais são do que imensos buracos no chão, onde homens, mulheres e crianças, muitas vezes trabalhando na condição de escravos ou semi-escravos, cavam o chão em busca de coltan (vide foto), chamado de “ouro azul”, além de buscar também ouro, diamantes, cobre, urânio, tungstênio e estanho. O trabalho dessa população é, constantemente, realizado sob a mira dos fuzis dos seguranças.  

Ao final de cada jornada de trabalho, os “mineiros” são impiedosamente revistados na busca de desvios de minérios. Caso algum dos trabalhadores seja considerado suspeito de ter engolido alguma pepita de ouro ou uma pedra de diamante, uma forma clássica de “roubar” bens preciosos, ele será conduzido para uma cela, onde permanecerá em jejum por vários dias. Todas as suas fezes serão vasculhadas na busca de qualquer quantidade de mineral que ele eventualmente tenha engolido. Caso não se encontre nenhum vestígio de minerais desviados, o preso será libertado e depois reconduzido para os trabalhos de mineração. A depender da situação e do “mau humor” dos seguranças, o pobre suspeito poderá ser simplesmente estripado e ter suas entranhas vasculhadas. 

Por trás dessa estrutura caótica e violenta de mineração, encontram-se funcionários públicos corruptos, militares de todas as patentes, milicianos e combatentes dos mais diferentes grupos étnicos e, também, os chamados “senhores da guerra”. Os ganhos obtidos com a venda dos minerais, especialmente de coltan, alimentam as contas bancárias de pessoas gananciosas e, muito pior, financiam a guerra civil no Congo. Parte importante dos recursos financeiros é usada para a compra de armas e equipamentos militares, usados pelos muitos grupos que disputam o controle das mais diferentes regiões do país, especialmente as províncias minerais.  

As exportações de ouro feitas pela República Democrática do Congo nos dão uma ideia do caos da mineração no país. De acordo com estudos realizados pela ONU, 98% dessas exportações vieram de fontes ilegais. A situação da mineração no país é tão surreal que, em 2017, dois especialistas da ONU, que foram enviados ao Congo para investigar as violações dos direitos humanos nas atividades das minas, foram detidos e executados por supostos rebeldes.  

A bacia hidrográfica do rio Congo, a maior do continente africano, sofre intensamente com os despejos de rejeitos minerais resultantes de todas essas atividades. As águas contaminadas com os mais diferentes tipos de metais pesados se misturam com os resíduos sólidos e esgotos despejados pelos aglomerados humanos, comprometendo a qualidade da água usada no abastecimento das populações que vivem a jusante do rio. O rio Congo tem uma extensão total de 4.700 km e é o principal manancial de abastecimento do país.  

Os impactos ambientais da mineração também atingem em cheio antigas áreas agricultáveis, onde a população vivia da produção de subsistência.  O avanço ilegal e descontrolado das cavas expulsa, diariamente, milhares de famílias de suas terras, criando uma verdadeira onda de refugiados da mineração, algo que só faz agravar o clima de convulsão social criado pela guerra civil. Esgotados os recursos minerais de uma região, restarão apenas solos desnudos e inférteis, imprestáveis para a agricultura e pecuária. A ganância da mineração arrastará os mineradores para outras terras e matas, onde outras populações acabarão sendo expulsas, num ciclo de terror e de destruição interminável. 

A mineração, conforme tratamos em uma série de postagens anterior, é uma das maiores causadoras de tragédias ambientais no mundo, especialmente no que diz respeito à destruição e contaminação das fontes de abastecimento de água. Duas grandes tragédias ambientais recentes ocorridas aqui no Brasil são a mais cabal prova disso: falo do rompimento das barragens de rejeitos de mineração em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, em 2019, ambas no Estado de Minas Gerais, a grande província mineral do Brasil.

É bastante provável que você já tenha ouvido falar dos “diamantes de sangue”, pedras preciosas que tem sua origem em conflitos sanguinários em algumas regiões da África e da Ásia. Saiba que existem também os “minerais de sangue”, uma lista de elementos químicos e minerais obtidos com grande sacrifício humano e muito derramamento de sangue, onde o coltan tem uma posição de destaque. Esses elementos químicos e minerais, obtidos com tanto sacrifício, são fundamentais para o funcionamento do seu smartphone e/ou computador. São esses mesmos produtos que, depois de usados por algum tempo, serão impiedosamente descartados e transformados em lixo eletrônico. 

Minerais como o coltan extraído na República Democrática do Congo, já vêm manchados de sangue desde as suas cavas de mineração e, desgraçadamente, terão seu ciclo de vida terminado causando ainda mais drama na vida das pessoas. A recuperação dos minerais raros presentes nesses produtos está causando uma série de doenças e males em populações pobres de todo o mundo e, em especial, em países do continente africano.

AS EXPORTAÇÕES ILEGAIS DE LIXO ELETRÔNICO E OS RISCOS DE DOENÇAS, OU AINDA FALANDO DE GANA

Criança em lixão de Gana

Na última postagem falamos rapidamente dos problemas ambientais que estão sendo enfrentados pelas populações de grandes cidades de Gana, país do Oeste da África. A principal fonte desses problemas são as importações legais e ilegais de resíduos sólidos – mais especificamente de produtos eletrônicos de segunda mão, um aforismo para lixo eletrônico. Gana acabou sendo transformada em um dos maiores cemitérios de lixo eletrônico do mundo e sua população está sofrendo os efeitos da contaminação pelos mais diferentes metais pesados e elementos tóxicos presentes nesses resíduos.

Nações ricas como Estados Unidos, Canadá, Austrália e países da Europa, descobriram uma forma de se desfazer dos imensos volumes de equipamentos eletrônicos como telefones celulares, computadores, notebooks, tablets e toda uma gama de outros produtos descartados pela população: a exportação para países pobres. A fim de contornar entraves burocráticos, essas exportações se referem a “equipamentos eletrônicos seminovos para revenda”. Chegando nos países de destino na África, subcontinente indiano, Sudeste Asiático e China, entre outros, os produtos são desmontados para o reaproveitamento de metais valiosos. 

Aqui é importante citar que em 1989, foi assinada a Convenção da Basíleia, onde foi estabelecido o controle de movimentos transfronteiriços de resíduos perigosos e seu depósito. Esta Convenção proibe, entre outras, as exportações de lixo eletrônico para outros países, algo que, na prática, acaba acontecendo graças ao uso de um número sem fim de artimanhas, como é o caso da identificação dos resíduos como “produtos eletrônicos seminovos”. Outra forma de descaminho muito utilizada é o puro e simples contrabando de resíduos por grandes organizações criminosas internacionais.

Componentes eletrônicos utilizam uma série de metais nobres de alto valor, onde se incluem ouro, prata, platina, cobre, estanho, níquel, cromo e zinco, entre muitos outros. Também são encontrados alguns metais e substâncias químicas altamente nocivas à saúde humana como mercúrio, arsênico, chumbo e cádmio. O manuseio inadequado das peças com ferramentas rudimentares e o uso do fogo para separar plásticos de metais expõem as populações ao contato, principalmente por inalação, com essas substâncias, o que pode desencadear uma série de grandes problemas de saúde. 

Vejam uma lista com os principais danos causados por algumas dessas substâncias e metais: 

Chumbo – Um metal altamente tóxico que causa danos no sistema nervoso central e no sangue. Quando em baixas concentrações, o chumbo age nos sistemas nervoso, renal e hepático, provocando intoxicações crônicas. Níveis elevados de chumbo causam vômito, diarreia, convulsão, podendo levar a vítima ao coma e a morte. O chumbo é usado na fabricação placas de circuito impresso e, principalmente, em baterias; 

Mercúrio – Metal que se apresenta na forma líquida e que é responsável por danos cerebrais e no fígado. Uma das mais famosas contaminações por mercúrio aconteceu na cidade de Minamata, no Japão, na década de 1950. Resíduos de mercúrio liberados no mar por uma indústria local contaminaram peixes, moluscos e crustáceos, afetando posteriormente os moradores que consumiram essas carnes. Os médicos passaram a observar o surgimento de casos graves de doenças neurológicas, conhecidas posteriormente como Síndrome de Minamata. O mercúrio é usado na fabricação de componentes para computadores, monitores de vídeo e televisores de tela plana; 

Cádmio – Causa danos nos rins, ossos e pulmões. É usado na produção de peças de computadores, monitores de vídeo antigos (com tubo de vidro) e em baterias de notebooks

Arsênico – Causa doenças de pele, além de causar problemas no sistema nervoso central e câncer no pulmão. É usado na fabricação de componentes de telefones celulares; 

Berílio – Metal que causa câncer no pulmão. Usado na fabricação de diversos componentes de computadores e celulares; 

Retardante de chamas (BRT) – Produto químico usado na composição de peças plásticas com o objetivo de prevenir incêndios. O BRT causa desordens hormonais, nervosas e no sistema reprodutor; 

PVC – Plástico usado principalmente no isolamento de fios e cabos elétricos. A fumaça liberada pela queima do PVC é altamente tóxica e causa inúmeros problemas respiratórios. 

Como fica fácil de notar, a exposição contínua a todos esses elementos e substâncias poderá desencadear em uma série de doenças, muitas das quais se manifestarão no longo prazo. Devido aos baixos rendimentos dessas atividades, os chamados “recicladores” trabalham em jornadas longas, de 10 a 12 horas por dia, o que só aumenta os riscos. Vivendo em países pobres como Gana, esses trabalhadores não tem acesso a bons sistemas de saúde pública e de seguridade social. Pessoas acometidas por doenças graves, muitas delas degenerativas, dependerão exclusivamente do cuidado de familiares, amigos e vizinhos. 

Um dado preocupante – os volumes de lixo eletrônico não param de crescer. Uma estimativa feita por analistas de mercado indica que uma pessoa nascida no ano de 2003 e que tenha uma expectativa de vida de 80 anos, vai gerar cerca de oito toneladas de lixo eletrônico ao longo de sua vida. Os sistemas de descarte e reaproveitamento de todo esse volume de resíduos precisa ser repensado e reestruturado rapidamente. 

Também deve ser objeto de discussão as razões que levam uma pessoa a se desfazer de uma grande quantidade de produtos ao longo de sua vida. Num passado nem tão distante, as pessoas adquiriam produtos elétricos e eletrônicos que eram usados por toda a vida. Eu lembro perfeitamente de um liquidificador que minha mãe tinha em casa e que era usado diariamente na preparação de sucos e molhos para a família. Esse eletrodoméstico acompanhou nossa vida por mais de 30 anos e os únicos problemas que ocorriam eram resolvidos com a troca das escovas (chamadas popularmente de carvões) do motor. Os liquidificadores “modernos” não duram mais de 5 anos. 

Estudos recentes indicam que, pelo menos, metade dos aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos são descartados ainda em perfeito estado de funcionamento. Esse comportamento é fruto da chamada “obsolescência programada”, um cuidadoso trabalho de marketing realizado pelos fabricantes que tem por objetivo deixar os produtos “fora de moda” rapidamente. Um telefone celular lançado no ano passado estará completamente obsoleto em seis meses ou um ano – os novos lançamentos terão inúmeros novos recursos e um design diferente. O consumidor é induzido a se desfazer do modelo atual, que ainda funciona perfeitamente, e levado a adquirir o mais recente lançamento. 

Um exemplo do que as grandes empresas fazem: uma das maiores fabricantes de telefones celulares do mundo, a Apple, foi condenada recentemente a pagar uma multa de até US$ 500 milhões por causa de alterações ilegais no software dos modelos mais antigos de seus telefones celulares iPhones. Essas mudanças nos programas tornavam os iPhones mais lentos e induziam os consumidores a comprar um telefone mais novo e mais rápido. Com essa “jogada”, a fabricante induziu milhares (quiçá milhões) de consumidores a se desfazer de seus celulares lentos. O detalhe é que um iPhone novo custa muito caro e um modêlo antigo lento tem um valor de revenda baixíssimo, o que levou muita gente a jogar os aparelhos “velhos” no lixo.

Dentro desse ciclo infinito de vendas de novos produtos eletrônicos e de descarte de quantidades cada vez maiores de produtos antigos e obsoletos, os consumidores dos países ricos continuam se divertindo e curtindo as mais novas tecnologias de comunicação digital, enquanto pessoas pobres de Gana e outros países miseráveis continuam sacrificando seu bem estar e até suas vidas na reciclagem de metais valiosos. 

Finalizando, recomendo a todos que assistam ao filme “A HISTÓRIA DAS COISAS” (é só clicar nesse link), para refletir um pouco mais sobre a loucura desse nosso mundo de produção e consumo. 

GANA: UM DOS MAIORES CEMITÉRIOS DE LIXO ELETRÔNICO DO MUNDO

Lixão em Gana

Com o desenvolvimento e a popularização da eletrônica digital a partir do final da década de 1970, um número cada vez maior de produtos eletrônicos passou a fazer parte da vida de pessoas em todo o mundo. Um dos grandes destaques dessa época foram os primeiros microcomputadores pessoais. Num rápido exercício de memória posso citar o Commodore 64, o Altair e o fantástico Apple II, um microcomputador com o qual trabalhei no início da década de 1980. Também não posso esquecer de citar os consoles de jogos eletrônicos, calculadoras, palm tops e agendas eletrônicas, além de uma montanha de quinquilharias eletrônicas que surgiam a toda hora. 

Anos mais tarde, com a introdução da telefonia celular, esse mercado, literalmente, pegou fogo. A cada mês surgiam novas tecnologias e aparelhos celulares cada vez menores, transformando os antigos “tijolos” em sucata. Esses celulares demandavam baterias recarregáveis, carregadores, kits para uso em veículos, entre outros “acessórios”. Atualmente, são produzidos mais de 2 bilhões de aparelhos celulares no mundo por ano e calcula-se que, desde 1994, já foram produzidos mais de 15 bilhões de aparelhos. Mais cedo ou mais, tudo isso vai virar lixo eletrônico

Estimativas falam de uma produção anual de lixo eletrônico no mundo entre 50 e 100 milhões de toneladas. Dados da OIT – Organização Internacional do Trabalho, mostram que o volume de lixo eletrônico cresce sem parar nos países em desenvolvimento. A fonte desse crescimento não se deve necessariamente ao uso de equipamentos eletroeletrônicos pelas populações desses países, mas na exportação ilegal de lixo eletrônico dos países ricos para países pobres como Gana, Nigéria, Índia e China. Mais de 80% do lixo eletrônico das nações ricas é enviado ilegalmente para outros países, sob a rubrica de equipamentos eletroeletrônicos de segunda mão

Cerca de 70% dos produtos eletrônicos descartados no mundo eram exportados para a China, que terceirizava os trabalhos de reciclagem em países pobres da região como o Camboja e o Vietnã. Uma alteração na legislação chinesa em 2018 passou a limitar e, em alguns casos, proibir essas importações e outros países da África, subcontinente indiano e sudeste Asiático passaram a absorver novas fatias desse mercado. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, 64 milhões de pessoas no mundo sobrevivem exclusivamente da reciclagem de materiais, onde se incluem as perigosas atividades de reciclagem do lixo eletrônico

Um país que há várias décadas assumiu uma posição de “destaque” na reciclagem de produtos eletrônicos é Gana, no Oeste da África. Com cerca de 238 mil km² de superfície e com uma população na casa dos 28 milhões de habitantes, Gana ocupa uma posição mediana entre as economias da África. Cerca de metade do PIB – Produto Interno Bruto, é gerado pela agricultura, com destaques para o cacau (onde se usa e se abusa da mão de obra infantil), abacaxi, café e bananas. Também são importantes as atividades extrativistas, especialmente a mineração do ouro, manganês e bauxita, e a extração e beneficiamento de madeiras para exportação. Apesar de não entrar na lista dos países mais pobres do mundo, cerca de 25% da população de Gana vive abaixo do limite da pobreza

A reciclagem de materiais, como acontece nas grandes cidades dos chamados “países em desenvolvimento”, começou como uma alternativa de sobrevivência para as populações pobres de grandes cidades como Accra, a capital do país, e Axante. Em depósitos nas periferias dessas cidades começaram a surgir unidades de reciclagem de peças de carros, caminhões e eletrodomésticos. Com o passar do tempo, essas populações começaram a receber propostas de empresas de reciclagem de países ricos para a venda de equipamentos eletrônicos “seminovos”, que poderiam ser revendidos para a população local e ou reciclados. Com a conivência de autoridades do Governo, essas importações se transformaram em uma grande indústria no país. 

Cerca de 215 mil toneladas de aparelhos eletrônicos seminovos provenientes dos Estados Unidos e dos países da Europa são exportadas para reciclagem em Gana a cada ano. Números oficiais falam de valores na casa das 50 mil toneladas/ano. Existem grandes redes de contrabandistas especializados no transporte e comercialização ilegal desses produtos para países pobres de todo o mundo, o que pode explicar as diferenças nos valores exportados. Esses grupos trabalham com a nobre missão de “reciclar o lixo eletrônico dos países ricos”, despejando esses resíduos em nações miseráveis do mundo. 

Equipamentos eletrônicos utilizam grandes quantidades de metais valiosos como cobre, estanho, níquel, prata e ouro. Utilizando-se tecnologias adequadas, grande parte desses metais pode ser recuperado e revendido. Um exemplo interessante que podemos citar são as Medalhas que serão distribuídas na Olimpíada de Tóquio dentro de poucos meses e que serão produzidas a partir de metais recuperados de sucatas eletrônicas. Serão produzidas mais de 5 mil medalhas, entre Olímpicas e Paralímpicas, onde se estima um consumo de 10 kg de ouro, 1.700 kg de prata e, para as medalhas de bronze, cerca de 1.000 kg de cobre e 50 kg de zinco

Os pobres ganenses, infelizmente, estão muito distantes do patamar tecnológico de reciclagem dos japoneses, dispondo apenas de ferramentas rudimentares como chaves de fenda, alicates, marretas e fogo para separar os metais dos plásticos. Além de todos os riscos de acidentes associados às mais precárias condições de trabalho, esses trabalhadores ficam expostos à fumaça tóxica resultante da queima dos fios, cabos e componentes, que além dos resíduos dos plásticos e borrachas queimados, exalam vapores de metais como mercúrio, chumbo, alumínio, prata e cobre, metais tóxicos para o organismo humano que, quando inalados nestas condições, são responsáveis pelo desenvolvimento de inúmeras doenças. 

Menino em um lixão em Gana

Uma região onde a “reciclagem” de produtos eletrônicos é feita em larga escala é Agbogbloshie, uma região que concentra inúmeras favelas em Accra. De acordo com informações do Governo local, mais de 80 mil pessoas vivem nessas favelas e cerca da metade desse contingente tira o seu sustento diário da reciclagem de resíduos eletrônicos. Estudos feitos em ovos produzidos por galinhas criadas nessas favelas encontraram concentrações de dioxinas até 220 vezes acima dos limites máximos permitidos, o que demonstra a gravidade da situação. Dioxinas são moléculas altamente tóxicas que se formam a partir da combinação de substâncias durante a queima de produtos químicos e plásticos. 

Além da gravíssima poluição do ar (vide foto), que afeta diretamente a saúde dos moradores das favelas e bairros mais próximos, os resíduos que sobram são descartados em lixões improvisados, contaminando o solo e as águas. Entre esses resíduos destacam-se quatro das substâncias mais tóxicas conhecidas pela humanidade: o mercúrio, o chumbo, o cádmio e o arsênico. Como a base econômica do país é a agricultura, os problemas ambientais provocados pelos resíduos eletroeletrônicos se espalham em cadeia por todas as direções – toda a população acaba sofrendo, direta ou indiretamente. Já os lucros obtidos com a revenda dos metais recuperados, esses ficam nas mãos de uma seleta elite ganense. 

Gana é o exemplo perfeito de como uma única atividade econômica mal planejada e executada nas condições mais precárias pode inviabilizar o meio ambiente de todo um país, causando sérios problemas e riscos para a saúde de sua população. 

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS E SEUS IMPACTOS EM BANGLADESH

Dhaka

Ao longo das últimas postagens apresentamos um quadro bastante preocupante da situação ambiental na pequena e superpovoada República Popular de Bangladesh, um enclave muçulmano na região Nordeste da Índia, que primeiro fez parte do Paquistão e depois, em 1971, conseguiu a sua independência. Bangladesh é um dos países mais pobres e miseráveis do mundo que, para manter a sua população de mais de 170 milhões de habitantes, sedia algumas das “indústrias” mais degradantes da humanidade. 

A situação geopolítica do país resulta num custo de mão de obra inferior ao da China, onde a exploração dos trabalhadores ultrapassa limites da dignidade humana. Graças aos seus baixos custos, Bangladesh se transformou no segundo maior produtor mundial de têxteis e sedia também algumas das maiores empresas de desmonte naval da Ásia. Por fim, o país se transformou no destino de gigantescos volumes de resíduos plásticos gerados por países ricos, que são exportados para reciclagem no país – uma parte considerável desses resíduos, que não pode ser reaproveitada, acaba se transformando em lixo e se juntando a outros milhões de toneladas de resíduos abandonados em lixões a céu aberto por todo o país. 

Mas não são só as ações antrópicas locais as fontes dos inúmeros problemas ambientais vividos por Bangladesh – os efeitos de mudanças no clima global, essas criadas por toda a humanidade, podem ser vistas facilmente nas terras baixas do país, em especial aquelas que estão ligadas à elevação do nível do mar e ao aumento das enchentes. Vamos entender isso. 

Entre todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas que estão ocorrendo na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica. Essas mudanças também têm levado a formação de grandes tempestades e ciclones devastadores. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos essas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016.  

Um perceptível aumento no nível das águas do Oceano Índico é uma grande ameaça também. Um dos países em situação mais preocupante nesse momento são as Ilhas Maldivas, uma república formada por 1.196 pequenas ilhas, agrupadas em 26 atóis e onde vivem 330 mil pessoas. Essas ilhas se estendem numa faixa de águas próximas do Sudoeste da Índia e têm como principais fontes de renda a pesca e o turismo. A altitude média dessas ilhas é de apenas 1,5 metro acima do nível do mar – o ponto mais alto de uma das ilhas é de 2,3 metros. A capital do país, Malé, onde vivem 100 mil pessoas, tem uma altitude média de 0,9 metros acima do nível do mar. Dentro de poucos anos, as Ilhas Maldivas poderão, simplesmente, ser encobertas pelas águas do Oceano Índico. 

A situação de Bangladesh não é muito mais confortável – cerca de 90% das terras do país tem uma altitude máxima de 10 metros em relação ao nível do mar. Para piorar, o território bangladês (eu uso esse neologismo em substituição ao oficial e horrível bangladeshiano) recebe todas as águas do trecho final de duas grandes bacias hidrográficas – dos rios Ganges e Brahmaputra. Durante o período das Chuvas da Monção, metade do território de Bangladesh já fica inundado; com o aumento do nível das águas do Golfo de Bengala, há uma tendência de crescimento das terras inundáveis. 

De acordo com estudos realizados pela Diretoria de Gestão de Mudança Climática e Risco de Desastres do Banco Asiático de Desenvolvimento, um eventual “aumento do nível do mar poderia inundar periodicamente 14% da superfície de Dhaka, e as zonas mais próximas a Sundarbans terão pior sorte”. Os estudos também mostram que uma área de 47 mil km² próxima da costa do país ficará sujeita aos impactos de fortes tempestades, ciclones e aumento da salinidade. Nessa região vive cerca de 40 milhões de pessoas ou o equivalente a 25% de toda a população de Bangladesh

Em termos econômicos, essas mudanças no padrão climático serão simplesmente catastróficas. A produção do arroz, o produto mais importante da agricultura local, sofreria perdas ente 17% e 28%. A agricultura responde por 20% do PIB – Produto Interno Bruto, de Bangladesh e ocupa 48% da mão de obra. Outros dois importantes setores da economia do país, a indústria do desmonte naval e a têxtil, também serão fortemente impactadas. Dhaka (vide foto), a maior e mais importante cidade de Bangladesh, que sedia milhares de pequenas oficinas de corte e costura, já sofre imensamente com o drama das enchentes – basta uma chuva de meia hora para inundar toda a cidade. Já os estaleiros espalhados ao longo da costa, esses ficariam simplesmente inviabilizados. 

Ainda existem más notícias – os modelos matemáticos criados pelos especialistas do Banco Asiático de Desenvolvimento indicam que um aumento na temperatura global de 2° C poderá levar Bangladesh a perder 8,8% do PIB até o ano de 2100. Até o ano de 2030, estão sendo estimados gastos anuais da ordem de US$ 89 milhões apenas para adaptar o país a resistir aos primeiros impactos ambientais. A partir do ano de 2050, esses investimentos precisarão ser quadruplicados e serão necessários investimentos anuais de US$ 369 milhões em obras para o combate dos efeitos das mudanças climáticas. Em um país onde a renda per capita é pouco superior a US$ 400.00, isso é muito dinheiro. 

Para todos aqueles que imaginam que esses dados são profecias de capadócio de um ambientalista radical: recentemente, uma ilha do Golfo de Bengala com posse disputada pela Índia e por Bangladesh, a Ilha New Moore ou Ilha de Talpati na língua bengali, simplesmente foi encoberta pelas águas do mar. Essa ilha desabitada tinha aproximadamente 10 km² e apresentava uma altitude média de 2 metros acima do nível do mar. Ao longo de 10 anos foi possível observar uma redução sistemática no tamanho da ilha até o seu completo desaparecimento sob as águas. 

A transferência de populações de uma área sujeita ao avanço do nível do mar é uma possibilidade e poderá ser uma opção para os 330 mil moradores das Ilhas Maldivas, que poderão ser repatriados para alguma área continental. Agora, no caso de Bangladesh, onde o problema afetará dezenas de milhões de pessoas, se esbarra em inúmeros problemas econômicos e políticos. 

O aumento regional das temperaturas do Oceano Índico também tem seus impactos no aumento da temperatura dos ventos que sopram na direção da área continental, especialmente nas geleiras que cobrem os picos da Montanhas Himalaias. As nascentes dos maiores rios da Ásia, como o rio Ganges e o Brahmaputra, dependem do degelo desses glaciares. Estudos indicam que essa grande massa de gelo está diminuindo e que, dentro de poucas décadas, muitos desses rios estarão ameaçados. Ou seja, ao mesmo tempo em que a água do mar poderá avançar para dentro do território de Bangladesh, as águas doces que descem das Himalaias poderão diminuir.

Como é que pode dormir sabendo que as águas do mar poderão bater na porta da sua casa durante a noite ou que os rios poderão secar? 

AS EXPORTAÇÕES DE RESÍDUOS PLÁSTICOS PARA BANGLADESH, OU OS CONHECIDOS PROBLEMAS COM RESÍDUOS SÓLIDOS

Reciclagem de plástico em Dhaka

A produção de resíduos sólidos em larga escala é um dos maiores problemas ambientais de nossas cidades. Com a urbanização e o deslocamento de centenas de milhões de pessoas das áreas rurais para as áreas urbanas, o dia a dia das relações de consumo mudaram completamente. Cada vez mais, o acesso a produtos e alimentos industrializados é uma dura realidade na vida dessas pessoas, tanto por razões puramente logísticas quanto de estratégia comercial e de marketing por parte dos fabricantes. Em cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro, a produção per capita de resíduos é de aproximadamente 1 kg, principalmente resíduos plásticos de todos os tipos. 

Em grandes cidades de países pobres, os números da geração per capita de resíduos são bem mais modestos devido aos poucos recursos financeiros das populações. Existe, porém, um agravante, que pedindo desculpas pela redundância, está ficando cada vez mais grave – países pobres têm se especializado na importação de lixo originário de nações ricas da Europa, Estados Unidos, Canadá, austrália e Japão, com o objetivo de realizar a reciclagem e posterior venda dos materiais para indústrias. Esse é o caso de Bangladesh. 

Qualquer visitante que chegar hoje em Dhaka, a capital do país, ou em qualquer outra cidade de maior porte de Bangladesh, vai ficar assustado com as montanhas de resíduos que vai encontrar nas ruas e margens de córregos e rios. Como não é incomum em outras nações miseráveis pelo mundo a fora, Bangladesh simplesmente não tem recursos para realizar uma coleta digamos “satisfatória” dos resíduos gerados em suas cidades. Os Governos locais fazem o que podem para recolher a maior quantidade possível desses resíduos, que, no máximo, serão transportados para descarte em um lixão a céu aberto. 

Além dessas dificuldades, precisamos levar em conta também os impactos gerados pelas “indústrias de baixo custo” do país. Em postagens anteriores já falamos das complicadas e impactantes indústrias têxteis e da desmonte naval, que causam inúmeros problemas sociais e ambientais. Um outro exemplo que podemos incluir na lista é a indústria do couro.  

A cidade de Hazaribagh é a que possui a maior quantidade de curtumes de Bangladesh. Os problemas já começam com a chegada das peças dos matadouros – o couro está repleto de restos de carne e gordura, normalmente já em início de putrefação. Esses resíduos precisam ser raspados, num trabalho bastante nauseante, o que gera uma grande quantidade de resíduos, normalmente jogados diretamente na água dos rios. 

Nas etapas seguintes, o couro passa por diversos banhos com produtos químicos para mumificação, amaciamento e coloração. Os produtos usados nessas etapas possuem metais pesados em sua composição como sais de cromo, mercúrio, cádmio e arsênico. Por fim, todos os efluentes contaminados são despejados nos cursos d’água sem nenhum tipo de tratamento. Cálculos oficias do Governo de Bangladesh falam de despejos de 22 mil litros de resíduos tóxicos a cada dia em Hazaribagh. O rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, sofre com problemas semelhantes. Detalhe – o rio que recebe esses despejos, o Buriganga, é o principal manancial de abastecimento dos 15 milhões de habitantes de Dhaka. 

Nada, porém, pode ser comparado aos problemas criados pelos resíduos plásticos no país. A produção mundial de plásticos, como imagino ser do conhecimento de muitos dos leitores, é da ordem de 100 milhões de toneladas a cada ano. O descarte inadequado e a falta de reciclagem desse material são alguns dos problemas mais graves do planeta na atualidade. Calcula-se que um volume entre 8 e 13 milhões de toneladas de plásticos acabem chegando aos oceanos, o que tem causado enormes dificuldades para as criaturas marinhas. 

Já há algum tempo, países altamente industrializados passaram a se valer das “exportações” de resíduos plásticos para a reciclagem em países pobres da África, subcontinente indiano e Sudeste Asiático. De acordo com reportagem do jornal The Guardian, os Estados Unidos exportam em média 68 mil contêineres com resíduos plásticos a cada ano. Até 2018, a China era a maior receptora e recicladora dos resíduos plásticos norte-americanos. Uma mudança na legislação do país, entretanto, passou a proibir esse tipo de comércio. A paupérrima Bangladesh viu nisso uma oportunidade de “negócio” e passou a absorver também uma parte dos resíduos plásticos dos Estados Unidos. 

Recicladora de plásticos em Dhaka

As “recicladoras de resíduos plásticos”, que na realidade são casebres miseráveis onde moram famílias de bangladeses, costumam ficar nas margens de córregos e rios, o que facilita a chegada de barcaças carregadas com os resíduos. Após o exaustivo trabalho de desembarque dos pesados fardos com resíduos plásticos, o que normalmente é feito por homens, entram em cena as mãos delicadas de mulheres e crianças, que vão selecionar e separar os mais diferentes tipos de plásticos, indo desde peças grandes e fáceis de manipular até pequenos fragmentos que só as mãos de crianças muito pequenas conseguem segurar (vide foto no alto). Os resíduos classificados são embalados separados e cuidadosamente. 

Enquanto eu escrevia esse texto, eu tive a curiosidade de buscar na internet empresas que revendem esses materiais. Encontrei, entre outros, um vistoso anúncio do Alibaba, um dos maiores sites de venda do mundo, com o título de “plásticos reciclados de Bangladesh”, onde aparecia o preço por tonelada e os volumes mínimos de venda. Pelo destaque, me pareceu que os resíduos originários desse país gozam de boa reputação no mercado internacional. 

Um dos produtos de destaque da “indústria da reciclagem” de Bangladesh são os flocos de garrafas Pet – o país exportou em 2018 cerca de 20 mil toneladas desse resíduo, produzidos em mais de “três mil fábricas espalhadas pelo país asiático”. Os negócios renderam US$ 15 milhões e, segundo os empresários do setor, a taxa de crescimento nas vendas é de 20% ao ano

Além de problemas elementares como o uso de mão de obra infantil, jornadas excessivas de trabalho em ambientes insalubres, contaminação por produtos químicos presentes nos resíduos (em embalagens de defensivos agrícolas por exemplo), contaminação ambiental do ar, água e solos, entre muitos outros, essa “indústria” é uma verdadeira fonte de problemas para a população de Bangladesh.  

De acordo com informações apuradas pelo The Guardian, entre 20% e 70% dos resíduos  plásticos “exportados” pelos Estados Unidos estão contaminados com restos de comida e outros produtos. Durante a seleção nas “fábricas” de Bangladesh, esses resíduos acabam sendo rejeitados e vão virar lixo no país. Ou seja – além de todo o volume de resíduos sólidos de todos os tipos produzidos pela população do país, imensos volumes de lixo estrangeiro serão somados, poluindo ainda mais as águas e terras de Bangladesh. 

Viver em Bangladesh é, cada vez mais, um martírio.