Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

AS CHUVAS, A OCUPAÇÃO DESORDENADA E OS RISCOS DE DESLIZAMENTOS DE ENCOSTAS NAS ÁREAS URBANAS

Ocupação de encostas

Os problemas vividos nas cidades durante o período das chuvas de verão costumam ser agravados pelos deslizamentos de encostas, que muitas vezes terminam com o soterramento e morte de pessoas. Nas recentes chuvas e enchentes que assolaram os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a maior parte das vítimas fatais foi atingida por deslizamentos de terra e desmoronamento de construções em encostas de morros. 

Desde a “invenção” da agricultura entre 10 e 12 mil anos atrás, as cidades começaram a surgir nas regiões com vocação agrícola. Um dos principais pré-requisitos para a formação de um centro urbano era a proximidade com fontes perenes de água. Um exemplo dessa dependência de fontes “confiáveis” de água potável pode ser encontrado na civilização do Vale do Indo, entre a Índia e o Paquistão, que floresceu entre os anos de 3.300 e 1.300 a.C. Uma das mais impressionantes cidades dessa civilização foi Molenjodaro, que começou a usar sistemas canalizados de água potável e de esgotos sanitários no ano 3.200 a.C. Em meados do segundo milênio a.C, mudanças climáticas regionais mudaram o curso do rio Indo e essa civilização, simplesmente, desapareceu – sem fontes de água, não é possível a existência de cidades

No processo de ocupação e de colonização do Brasil, essa busca por fontes de água para sustentar as populações das cidades fica muito clara. Todo arraial, vila ou cidade fundada em nosso território ficava próximo de um riacho, rio ou lago com águas perenes. Durante o processo de crescimento desses núcleos urbanos, os moradores passaram a buscar terrenos em solos com boa topografia e com os melhores acessos às fontes de água. As áreas de encostas de morros e os terrenos baixos das áreas de várzea, considerados ruins para abrigar novas construções, sempre foram evitados. Por essa razão, os terrenos nessas regiões sempre foram muito desvalorizados

Na nossa cultura popular, morar em morro é coisa de gente pobre – a formação das favelas nos morros do Rio de Janeiro pelos escravos libertos no final do século XIX é um grande exemplo disso. A forte migração de populações rurais para os centros urbanos iniciada nas últimas décadas do século XIX, aliada à falta de políticas públicas na área de habitação popular, transformou as encostas dos morros numa alternativa para as construções populares e também para as famosas “habitações sub normais”, mais conhecidas como favelas. De acordo com estudos realizados em 2010 pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 8 milhões de pessoas viviam em áreas com risco potencial de enchentes e deslizamentos em 872 municípios brasileiros.

A ocupação irregular das encostas dos morros implica em dois problemas fundamentais associados às águas pluviais: 

  • A cobertura vegetal das encostas, que atuava na retenção e redução da velocidade de descida de grandes volumes de chuvas, é removida para dar espaço para a construção das moradias; 
  • A construção das moradias, normalmente com grande adensamento, impermeabiliza o solo, aumentando a quantidade de águas superficiais que descem os morros em dias de chuvas. 

Essas intervenções provocam aumentos nos volumes naturais de águas pluviais que chegam aos canais de drenagem, contribuindo em muito para a formação de pontos vulneráveis a enchentes. Há também um terceiro problema, muito mais grave, que nem sempre é fácil de se perceber – a combinação da remoção da cobertura, onde as raízes das plantas tem grande importância na estabilização e fixação dos terrenos, aliada ao corte do talude para a construção das moradias, provoca uma total desestabilização das encostas dos morros. Em temporadas de chuvas fortes, a água transforma os solos em lama instável, o que pode terminar com a ocorrência de grandes deslizamentos e com o soterramento de casas e moradores.  

A título de exemplo, vou relembrar duas tragédias ocorridas na cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro: em 2010, as fortes chuvas provocaram o escorregamento da encosta do Morro do Bumba, no bairro Vistoso Jardim, causando a morte de 46 pessoas. Em novembro de 2018, um outro grande deslizamento de terra no Morro da Boa Esperança, próximo da famosa Praia de Piratininga, derrubou e soterrou diversas casas, deixando um saldo de 15 mortos. Se qualquer um de vocês fizer uma pesquisa na internet, encontrará facilmente dezenas de casos semelhantes por todo o Brasil. 

Um dos casos mais dramáticos já ocorridos no país e que merece um grande destaque foram os gravíssimos escorregamentos de encostas na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro em 2011. Essa tragédia, que tem um lugar de destaque entre todos os grandes desastres naturais já ocorridos no Brasil, deixou um rastro de destruição por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro, com especial ênfase às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim, além de ter provocado reflexos na cidade de Areal, na região Centro-Sul do Estado. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, foram registradas 916 mortes e perto de 345 desaparecidos nessa tragédia

A topografia da Região Serrana, com cidades espremidas em pequenos vales cercados por morros contribuiu muito para a ocupação gradativa das encostas nessa Região, que em muitos casos fugiu ao tradicional estereótipo de pessoas pobres ocupando os morros. A falta de fiscalização e até mesmo a famosa “vista grossa” das Prefeituras deu o toque final para o que podemos chamas de tragédias anunciadas. 

Foram registradas 428 mortes em Nova Friburgo, 382 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, 4 em São José do Vale do Rio Preto e 1 morte em Bom Jardim. Os números de pessoas desaparecidas na tragédia também são impressionantes: foram 45 em Petrópolis, 180 em Teresópolis, 85 em Nova Friburgo e 2 em Sumidouro. Outras 32 pessoas que moravam em pequenos distritos da Região também engrossam as estatísticas de desaparecidas. Os dados da Defesa Civil registraram que aproximadamente 35 mil pessoas ficaram desabrigadas em toda a Região Serrana. Passados 9 anos desde aqueles terríveis dias, muitos dos desaparecidos ainda não foram localizados e ainda podem ser vistos vestígios da destruição. 

As encostas de morros costumam abrigar os remanescentes da cobertura vegetal original das regiões ocupadas pelas cidades e possuem grande importância ambiental tanto para a regulação do clima quanto para a absorção e retenção de grandes volumes de águas pluviais. Além de contribuir imensamente na formação de pontos de enchentes nas partes baixas das cidades, a ocupação irregular das encostas representa um altíssimo risco para as populações. As cidades devem redobrar os esforços para preservar e até mesmo recuperar a cobertura vegetal das encostas, criando programas de moradia popular que inibam a ocupação e que também possibilitem a retirada dessas populações das áreas de risco. 

Morros são complicados pela sua própria natureza: ou é fogo morro acima ou é água morro abaixo – não temos controle em nenhuma dessas situações. 

A CIDADE DO RECIFE E SUAS ENCHENTES HISTÓRICAS

Enchente de 1975 no Recife

Nas postagens anteriores falamos um pouco da urbanização descontrolada como uma das principais causas das enchentes de verão. Cidades possuem grandes áreas de seus solos cobertas por uma grossa camada de concreto e de asfalto, intervenções que limitam a infiltração de parte da água das chuvas e contribuem para a formação de grandes correntezas superficiais e enchentes. Intervenções em áreas de várzea e em margens de córregos e riachos para a construção das famosas avenidas de fundo de vale também dão importantes contribuições para a ocorrência de enchentes e alagamentos. Também não é nada desprezível o impacto da redução das áreas com cobertura florestal nesses eventos. 

Entre as grandes cidades brasileiras que, frequentemente, são assoladas por grandes catástrofes nos meses de verão destacamos Recife, a capital do Estado de Pernambuco. O primeiro registro histórico de uma enchente no Capibaribe data do ano de 1632, pouco tempo depois da invasão holandesa e a consolidação da Suickerland, a terra do açúcar descrita em uma postagem anterior. Registros da época informam que as chuvas foram muito fortes, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.  

Anos mais tarde, em 1638, o Conde Maurício de Nassau (1604-1679) autoriza a construção da primeira barragem do Rio Capibaribe – o Dique dos Afogados, com o objetivo de proteger a cidade do Recife das constantes enchentes. Há registros históricos de uma infinidade de enchentes na cidade: 1824, 1842, 1854, 1862, 1869, 1914, 1920, 1960, 1966, 1970, 1977, 2004 e 2005 – a lista é muito maior e estou apenas citando alguns casos. Entre os dias 17 e 18 de julho de 1975, a cidade do Recife viveu a maior catástrofe natural da sua história: o transbordamento do rio Capibaribe atingiu 31 bairros e alagou 80% da superfície da cidade (vide foto) – 350 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e, tragicamente, 104 pessoas morreram. As fortes enchentes também atingiram outros 25 municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe

As raízes das enchentes na cidade do Recife estão ligadas diretamente aos tempos coloniais, quando praticamente toda a economia do país girava em torno da produção e exportação do açúcar. Naqueles tempos, a Capitania de Pernambuco e regiões vizinhas concentravam a maior produção de açúcar da Colônia e a cidade do Recife era o grande centro econômico do Nordeste açucareiro. Um relatório do ano de 1620 das Autoridades Coloniais mostram a importância econômica da região: 

“…nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500 mil arrobas de açúcar (equivalente a 7,5 milhões de toneladas), que bastaria para carregar todos os anos 130 a 140 naus.” O relatório prossegue informando a área ocupada com o cultivo da cana-de-açúcar: “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km).” 

Essa produção toda era possível graças aos “gordos solos de massapê”, conforme a descrição do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973). Ricos em nutrientes e matéria orgânica, os solos argilosos do litoral do Nordeste foram formados ao longo de milhares de anos graças a densa vegetação nativa de Mata Atlântica – a floresta se alimentava dos solos e gerava continuamente uma grossa camada de plantas e folhas mortas, que por sua vez eram recicladas pelos solos, realimentando a própria floresta. Vejam essas citações do grande historiador Capistrano de Abreu (1853-1927):

Os engenhos estavam todos na mata, o que se explica pela maior fertilidade dos terrenos bem vestidos, e pela abundância de lenha, necessária às fornalhas em um labor que às vezes durava, dia e noite, oito e nove meses…

A cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, consumindo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual sua cultura tira toda a vida.” 

A Mata Atlântica era um riquíssimo bioma composto por diferentes sistemas florestais, que cobria uma área equivalente a 1,3 milhão de km² ou 15% do território brasileiro, acompanhando a costa desde o Norte do Rio Grande do Sul até o Sul do Estado do Ceará, com alguns trechos entrando continente adentro e atingindo áreas da Argentina e do Paraguai. A referência à floresta foi feita com o verbo em tempo passado (era) porque restam apenas 7% da cobertura da mata original. Quase dois terços da atual população brasileira vivem em áreas que eram, originalmente, cobertas pela Mata Atlântica – o crescimento das cidades, a mineração, o extrativismo, a agricultura e a pecuária foram os responsáveis pela destruição gradativa desta floresta.  

O trecho da Mata Atlântica destruído com maior voracidade e velocidade foi justamente o trecho da costa da Região Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte – essa destruição, feita a ferro e a fogo, se deu justamente para a implantação dos grandes canaviais do período Colonial. No Estado de Pernambuco, que já no século XVII era considerado um dos maiores produtores mundiais de açúcar, a velocidade desta destruição foi incomparável. Apenas no primeiro século da produção açucareira em Pernambuco, uma área de florestas entre 18 mil e 21 mil km² foi devastada para a implantação de canaviais – essa área é equivalente ao território total do Estado de Sergipe. 

Esse avanço voraz contra as matas pernambucanas, é claro, teve um alto preço: os férteis solos de massapê se perderam rapidamente após a contínua derrubada da cobertura vegetal protetora. As chuvas sistematicamente arrastavam grandes quantidades de solo na direção dos muitos rios da região, destruindo ao mesmo tempo a fertilidade das plantações e os canais dos rios, muitos dos quais praticamente desapareceram em meio ao intenso assoreamento sofrido.  

Inúmeras espécies de animais como veados, antas, capivaras, cotias, gambás, macacos e incontáveis espécies de aves e pássaros desapareceram, empobrecendo de forma irreversível a biodiversidade das matas e destruindo a fonte de proteína consumida pelas populações mais pobres e pelos escravos, que caçavam vários destes animais para comer. Também desapareceram inúmeras espécies de vegetais, entre essas inúmeras variedades de frutas altamente nutritivas, além de muitas espécies de peixes dos rios. A fome de açúcar do mundo foi saciada a partir da fome dos trabalhadores locais dos engenhos e canaviais nordestinos. 

Aqui chegamos ao ponto central: sem a proteção da cobertura vegetal, que absorve parte da água das chuvas e permite a infiltração de grandes volumes de água no solo, toda a região da bacia hidrográfica do rio Capibaribe passou a receber volumes de água cada vez maiores a cada novo período de chuvas. No trecho final da bacia hidrográfica, que atravessa diversas cidades na Região Metropolitana do Recife, esse grande volume de água simplesmente extrapola os limites da calha do rio Capibaribe e avança ferozmente contra ruas, avenidas, casas, prédios públicos e todo e qualquer pedaço de terra seca que encontre pela frente. 

À fúria dessas águas que correm dos terrenos mais altos a montante no interior de Pernambuco, se juntam as águas que caíram sobre a própria área Metropolitana. Sem grandes áreas com cobertura vegetal e com solos altamente impermeáveis, as águas pluviais simplesmente correm por força da gravidade buscando os terrenos mais baixos, formando assim as cenas de caos que, repetidamente, assistimos nos noticiários e que são vividas ano após ano pela população local. 

Em resumo – enchentes urbanas não são fenômenos naturais; elas são o resultado de décadas de esforços das populações humanas na destruição dos meios naturais. E a cidade do Recife está aí para provar isso.

RIO TAMANDUATEÍ EM SÃO PAULO E RIBEIRÃO ARRUDAS EM BELO HORIZONTE: A TRÁGICA HISTÓRIA DE DOIS IMPORTANTES RIOS URBANOS

Ribeirão Arrudas

Uma das grandes inovações urbanísticas implantadas em grandes e médias cidades brasileiras ao longo do século XX foi a construção, em larga escala, das chamadas “avenidas de fundo de vale”. Esse tipo de obra começou a ganhar espaço na cidade de São Paulo a partir de 1927 – o então Prefeito da Cidade, João Pires do Rio, havia reunido um grupo de urbanistas e engenheiros com o objetivo de formular alternativas para a infraestrutura da cidade. Essa equipe de profissionais, que tinha entre seus membros o ilustre engenheiro Francisco Prestes Maia, apresentou suas conclusões na forma da Teoria dos Fundos de Vale

A principal premissa dessa Teoria era o uso dos terrenos alagadiços e desvalorizados das áreas ribeirinhas dos córregos e rios da cidade para a construção de toda uma rede de avenidas e vias radiais e perimetrais que orientariam e estruturariam o crescimento da cidade de São Paulo ao longo das décadas futuras. De quebra, a realização dessas obras permitiria a eliminação de diversas favelas, cortiços e habitações de baixa qualidade que foram tomando esses terrenos e “enfeiavam” a modernista e pujante Pauliceia

Em 1938, o Engenheiro Prestes Maia foi indicado Prefeito da Cidade de São Paulo e, até o final da sua administração em 1945, realizou cerca de 4 mil km lineares de canalizações e retificações de cursos de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, construindo diversas avenidas de fundo de vale nos locais “urbanizados”. Os diferentes Prefeitos que o seguiram na administração da cidade continuaram a seguir essa Teoria, que acabou sendo transformada no que eu chamo de “Teoria dos Fundo$ de Vale” (o uso do cifrão na grafia se deve ao uso dessas obras para o desvio de verbas públicas, onde um dos grandes exemplos é a Avenida das Águas Espraiadas). Diversas outras cidades brasileiras acabaram sendo influenciadas por essa “moda urbanística”, criando assim todas as bases para muitas das grandes enchentes que nós estamos assistindo atualmente. 

Para mostrar o verdadeiro desastre ambiental criado por muitas dessas obras, gostaria de exemplificar com dois casos práticos: a construção da Avenida do Estado na cidade de São Paulo, a partir da canalização do rio Tamanduateí, e de diversos trechos de importantes avenidas de Belo Horizonte, a partir da canalização do Ribeirão Arrudas. 

Conforme já apresentado em postagens anteriores, o Planalto de Piratininga apresentava aos primeiros tempos da colonização uma grande mancha do bioma Cerrado ao largo de uma complexa rede de córregos, riachos e ribeirões. Conforme a fonte de pesquisa, o número de copos d’água na região vai de 300 a 1.200. O Planalto também apresentava vegetação de Mata Atlântica e da Mata das Araucárias. A palavra Piratininga é de origem tupi e significa, literalmente, “lugar onde se encontra o peixe seco”. Na época das chuvas, as grandes áreas de várzea enchiam para acomodar o excesso de água; quando esse período terminava, as áreas de várzea começavam a secar e grandes cardumes de peixes ficavam presos nas poças de água, que por fim secavam. Bastava aos índios sair recolhendo os peixes já secos. 

O principal rio da região era o Anhembi, antigo nome do rio Tietê. Seu principal afluente é o rio Tamanduateí, que em tupi signicava algo como “o rio dos tamanduás”. Além dos índios, os peixes secos atraiam as formigas, que por sua vez atraíam os tamanduás, o que acabou dando origem ao nome do rio – simples assim. O rio Tamanduateí nasce no município de Mauá, passando por Santo André e depois entra na cidade de São Paulo, onde segue até sua foz no rio Tietê nas proximidades da Estação Rodoviária e do Parque de Exposições Anhembi. O seu percurso total é de cerca de 35 km. 

Até meados do século XIX, o rio Tamanduateí era o principal manancial de abastecimento da cidade de São Paulo. Com o crescimento da cidade e com o aumento da poluição, foi criado o Sistema Cantareira Velho. O Tamanduateí tinha um curso bastante sinuoso e formava grandes áreas de várzea, como era o caso da antiga Várzea do Carmo. Sucessivas obras de retificação e inúmeros aterros aprisionaram o rio numa calha apertada, retilínea e demasiadamente pequena para suportar os grandes volumes de águas pluviais dos verões paulistanos. Estavam dadas as condições para o rio se transformar numa importante fonte de enchentes

A partir da década de 1950, com o acelerado crescimento da cidade e de sua frota de automóveis, foi iniciado o asfaltamento da Avenida do Estado, criando uma via marginal ao largo do rio Tamanduateí, que ao longo de diferentes administrações passou a ligar a Marginal Tietê ao Município de Santo André. Com a implantação do parque automobilístico na chamada Região do ABC (sigla para Santo André, São Bernardo e São Caetano), a importância da Avenida do Estado aumentou progressivamente, levando a uma intensa urbanização dos bairros ao longo do seu trajeto. A população cresceu exponencialmente na região, grandes áreas de mata foram suprimidas e os solos passaram por um intenso processo de impermeabilização. O resultado – a Avenida do Estado apresenta alguns dos maiores e mais “tradicionais” pontos de alagamento nos verões da cidade de São Paulo. 

O outro “personagem” dessa postagem é o Ribeirão Arrudas. Esse Ribeirão tem nascentes na Serra do Rola Moça e atravessa toda a cidade de Belo Horizonte até desaguar no rio das Velhas, no município de Sabará. Ao longo do seu curso de cerca de 40 km, o Ribeirão Arrudas recebe contribuições de uma infinidade de córregos: Jatobá, Barreiro, Bonsucesso, Cercadinho, Piteiras, Leitão, Acaba Mundo, Serra, Taquaril, Navio-Baleia, Santa Terezinha, Ferrugem, Tijuco e Pastinho, entre muitos outros, o que o transforma em um dos principais canais de drenagem de águas pluviais da capital mineira.  

Como sempre aconteceu na história da maioria das cidades brasileiras, o Ribeirão Arrudas, desde os primeiros anos da fundação de Belo Horizonte, passou a funcionar como um grande coletor e dispersor de esgotos da cidade: as casas e edifícios foram sendo construídos e as manilhas de esgotos foram instaladas sob as ruas e avenidas, com as saídas de efluentes voltadas para a calha do Ribeirão. Assim como aconteceu com o paulistano rio Tamanduateí, o forte crescimento urbano de Belo Horizonte estrangulou as margens do Arrudas para permitir a construção de grandes avenidas de fundo de vale, entre elas trechos importantes da Avenida do Contorno e da Avenida Andradas. Somando-se isso à destruição de áreas verdes e a impermeabilização dos solos temos as catastróficas enchentes que se repetem a cada verão (vide foto). 

Mesmo separadas por uma distância de mais de 600 km, as semelhanças entre as obras de canalizações e de construção das avenidas de fundo de vale ao longo do rio Tamanduateí e Ribeirão Arrudas impressionam – as violentas enchentes e o caos generalizado que se instalam ao longo de suas margens nos sucessivos verões também tem magnitudes semelhantes. São Paulo e Belo Horizonte pagam um alto preço por causa do crescimento urbano desordenado, destruição e ocupação de áreas de várzea e vales, além da intensa destruição da cobertura vegetal e impermeabilização de grandes extensões dos solos urbanos. 

Infelizmente, essas duas grandes cidades brasileiras não estão sozinhas nessa trágica sina. 

ARITMÉTICA AMBIENTAL BÁSICA: CRESCIMENTO URBANO + IMPERMEABILIZAÇÃO DE SOLOS – COBERTURA VEGETAL = ENCHENTES

Cidade de São Paulo

As violentas enchentes provocadas por fortes chuvas em áreas urbanas de todo mundo estão se tornando cada vez mais frequentes. Aqui no Brasil, todos nós acompanhamos, literalmente, há séculos esse problema em cidades como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, entre muitas outras. Em cidades importantes do mundo como Paris, Florença, Londres, Tóquio e Los Angeles, que contam com eficientes sistemas de drenagem de águas pluviais, o problema vez ou outra tem ressurgido com força. Existem diversas razões para isso estar acontecendo. Vamos começar falando da impermeabilização dos solos destas cidades. 

Diferentemente da vida das populações das áreas rurais, onde a fonte principal de trabalho e renda são as atividades agropecuárias e onde os solos são a “matéria prima” de praticamente todos os produtos, nas áreas urbanas os solos são uma espécie de “cenário” da vida. A economia das cidades se baseia principalmente no comércio, na prestação de serviços de todos os tipos e em atividades industriais. A exceção dos jardins, parques e praças instalados nas vias públicas urbanas, além dos canteiros de muitos edifícios e de pequenas hortas localizadas nas casas de alguns moradores, os solos urbanos costumam ser impermeabilizados com uma grossa camada de asfalto nas vias de tráfego e de concreto nos passeios públicos e áreas internas de casas e edifícios. 

A construção de casas, edifícios, galpões de todos os tipos e de prédios públicos, também contribui fortemente para a formação de áreas impermeáveis nos solos. Se qualquer um de vocês analisar o código de obras de um munícipio, vai perceber facilmente que a legislação permite, com restrições é claro, a ocupação da maior parte da área dos terrenos com construções. 

Se por um lado as atividades humanas ocupam e impermeabilizam quantidades cada vez maiores dos solos das áreas urbanas, esse avanço se dá sobre áreas naturais que eram cobertas por vegetação. Essa distorção do meio ambiente natural altera completamente as relações entre as águas das chuvas e os solos, onde parte importante das águas pluviais são absorvidas pelos terrenos com a ajuda da vegetação e apenas uma parte dessas águas corre na direção dos canais naturais de drenagem – córregos, riachos, rios e lagos. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as paisagens que vemos ao nosso redor são o resultado de um processo de “construção natural” que se desenrolou ao longo de milhões de anos. Dentro desses processos se inclui a tectônica global, responsável pela movimentação dos continentes, soerguimento e rebaixamento de solos, entre outros eventos. Também precisamos falar dos diferentes processos de erosão produzidos pelas chuvas, pelo gelo e pelos ventos. Nessa construção também se inclui a força hidráulica dos rios, que, alimentados pelas águas das chuvas, abrem canais nos solos e carregam milhões de toneladas de sedimentos a cada ano, redesenhando assim mapas de regiões inteiras – exemplo disso é o grande Arquipélago de Marajó, formado ao longo das áreas pela poderosa Bacia Amazônica

Vou citar como exemplo a minha cidade – São Paulo (vide foto). A cidade está localizada no Planalto de Piratininga, a uma altitude média de 850 metros acima do nível do mar, a pouco mais de 50 km do litoral do Oceano Atlântico e inserida nos domínios da Serra do Mar. A história geológica dos solos paulistanos é bem interessante e remonta ao tempo da fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana, iniciada há cerca de 160 milhões de anos atrás. A Serra do Mar fazia parte de uma grande cadeia montanhosa com cerca de 800 km de comprimento e 300 km de largura, localizada no centro de Gondwana. Conforme a América do Sul foi se separando e se afastando da África, a movimentação dos solos foi fragmentando essa cadeia montanhosa e surgiram as formações rochosas que deram origem às Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Mar, do Espinhaço e de Maracaju. 

As forças tectônicas resultantes da separação dos continentes também produziram um forte soerguimento dos terrenos – alguns trechos da Serra do Mar chegaram a possuir altitudes superiores a 7 mil metros, muito parecidas com a Cordilheira dos Andes. Milhões de anos de erosão por chuvas, ventos e gelo moldaram as paisagens do Planalto de Piratininga, formando uma grande bacia sedimentar ao longo do curso do rio Tietê e seus muitos afluentes (são mais de 300 cursos d’água na região – algumas fontes chegam a citar 1.200 pequenos afluentes). O cenário é completado pelas elevações do maciço da Avenida Paulista, pela Serra da Cantareira e Pico do Jaraguá, entre outras. 

Uma característica marcante da região do Planalto de Piratininga eram as grandes áreas de várzeas, que enchiam há época das chuvas, absorvendo assim todo os excedentes de águas pluviais. Grande parte da vegetação que cobria o Planalto de Piratininga era formada por manchas de Cerrado, existindo também grandes áreas cobertas por Vegetação de Mata Atlântica e de Mata das Araucárias (o paulistano bairro de Pinheiros recebeu esse nome por causa das araucárias). Essa vegetação absorvia diretamente uma parte das águas das chuvas e suas raízes facilitavam a absorção de grandes volumes de água pelos solos. Apenas uma parte da água das chuvas chegava aos corpos d’água. 

Todo esse grande sistema ambiental, que funcionava em perfeita harmonia, foi completamente alterado com o crescimento da cidade e de toda a Região Metropolitana de São Paulo. Rios e córregos tiveram seus cursos retificados e alterados, sendo que grande parte foi canalizada para a construção das famosas “avenidas de fundo de vale”. Grandes áreas de várzea foram aterradas a fim de se criar terrenos para especulação imobiliária, como ocorreu com a antiga região da Várzea do Carmo. As matas foram sendo gradativamente derrubadas para a expansão da mancha urbana, que só na cidade de São Paulo ocupa uma área de 1.200 km².  

Acima de tudo, centenas de milhares de quilômetros quadrados de solos das cidades do Planalto de Piratinga passaram a receber, ano após ano, revestimentos de asfalto, concreto, cerâmica, pedras, entre outros tipos de acabamento, formando imensas áreas completamente impermeáveis para as águas das chuvas, que passaram a correr diretamente para canais de drenagem naturais e artificiais não dimensionados para absorver volumes cada vez maiores de águas pluviais. Como resultado de tudo isso, as enchentes se repetem a cada verão e com intensidades cada vez maiores. 

Guardadas as devidas particularidades do relevo, solo e vegetação, esse é o mesmo processo que se desenvolveu na maioria das grandes e médias cidades brasileiras, que atualmente convivem com grandes enchentes nas épocas de chuvas. A impermeabilização de grande parte dos solos de todas essas cidades está na raiz de grande parte da questão das enchentes

Como eu sempre costumo repetir – essa é uma conta que não fecha. Com solos altamente impermeabilizados e com cada vez menos terrenos cobertos por vegetação nas cidades, as enchentes continuarão a ser uma espécie de assombração, que a cada novo verão voltará para nos aterrorizar! 

AS CHUVAS E AS ENCHENTES NOSSAS DE CADA VERÃO

Chuvas de verão

Nas postagens anteriores comentamos sobre as trágicas enchentes que assolaram e ainda estão assolando diversas regiões do Brasil, especialmente nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Diferentemente do que pode parecer à primeira vista, essas enchentes violentas não estão associadas apenas a fenômenos naturais como as fortes chuvas – muito do que estamos assistindo está diretamente associado a ações humanas ao longo de nossa história. Os grandes desmatamentos que realizamos aqui em nosso país são uma das principais causas das enchentes, mas não as únicas. 

Como esse é um assunto bastante relevante, vamos publicar uma sequência de postagens falando de chuvas, enchentes e todos os problemas que são criados em nossas vidas quando chega o verão (ou o inverno, conforme a região) e sua forte temporada de chuvas. 

Comecemos falando de água. 

Orbitando há bilhões de anos ao redor do sol, nosso planeta gradativamente foi adquirindo as características geofísicas e climáticas que hoje vemos com tanta naturalidade. 

A massa rochosa e quente, muito quente, de tempos imemoriais da formação do planeta Terra esfriou pouco a pouco, permitindo que a água carregada desde as profundezas do espaço sideral (provavelmente trazida na forma de gelo em cometas e meteoros que por aqui caíram) se acumulasse ao redor do planeta, inicialmente na forma de uma densa camada de vapor. 

Eras posteriores testemunharam o resfriamento gradativo e ainda maior do nosso planeta, o que permitiu que essa massa de vapor passasse para o estado de água líquida, caindo volumosamente na forma de chuva sobre o solo. Essa água acumulou sobre a face da Terra formando os primeiros oceanos e corpos de água sobre o leito da superfície rochosa. 

A poderosa energia do sol manteve o núcleo metálico da Terra em estado liquefeito, com intensa atividade geotérmica, modelando cada vez mais intensamente a superfície do planeta e consolidando cada vez mais os espaços dos oceanos e continentes. O forte campo magnético terrestre produzido pela energia do núcleo metálico do planeta permitiu a retenção dos gases formadores da atmosfera ao redor do planeta. A força do sol combinada com a atmosfera modelou o clima – as chuvas, o gelo, as marés e os ventos esculpiram o relevo, abrindo o caminho para a explosão da vida em todos os cantos da Terra. 

O lento passar do tempo e toda uma combinação elementos criaram um planeta azul, com dois terços de sua superfície coberta água. Terra, planeta água… 

Apesar de ser um dos elementos mais abundantes do planeta, a água existente é essencialmente a salgada ou dos mares, imprópria para o consumo humano e da esmagadora maioria das plantas e animais. Apenas 2,5% da água existente na Terra é doce ou potável

É a energia do calor do sol que provoca a evaporação da água dos oceanos, produzindo a água doce e potável tão essencial para a manutenção da vida. Essa água doce é distribuída por todo o planeta como vapor presente na atmosfera, na forma de gelo e, especialmente, na forma de chuvas. 

O volume de água que evapora dos oceanos a cada ano não é nada desprezível – ele é calculado em 383 mil km³ (conforme a fonte pesquisada, esse valor poderá variar). Isso equivale a uma camada de 1,06 metro de água de todos os oceanos do mundo a cada ano. Cerca de 75% dessa água evaporado se precipita na forma de chuvas diretamente sobre os oceanos. Os 25% restantes se precipitam sobre os continentes principalmente na forma de chuva, neve e granizo, que são as fontes primárias da nossa água potável.

O ciclo e a distribuição das chuvas são fundamentais na geografia física, humana e econômica. A formação e distribuição dos diferentes ambientes da superfície do planeta estão diretamente ligadas aos volumes e à frequência das chuvas, com reflexos diretos nas populações de plantas e animais, incluindo aí o homem. 

A formação dos assentamentos humanos ao redor do mundo se deu em função da disponibilidade das fontes de água. No Brasil, como não poderia ser diferente, foram os grandes rios os indutores do povoamento do território e os grandes patrocinadores da fundação das vilas e cidades em suas margens.  

País essencialmente tropical e equatorial, o Brasil tem nas chuvas sua principal fonte de recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos de água, formadores primários de todos os riachos, rios e demais corpos de água de superfície. A exceção de alguns rios da bacia amazônica, com nascentes formadas por águas de degelo nas montanhas dos Andes, é desprezível o volume desse tipo de água em nosso país. Somos um país de águas pluviais. 

Dependemos das chuvas para a manutenção de nossas florestas e demais sistemas naturais – muita chuva na Floresta Amazônica e pouca água na região da Caatinga Nordestina. Na agricultora, nossa dependência das águas das chuvas é total, seja na forma direta por precipitação seja de forma indireta por irrigação da água de rios e reservatórios ou de fontes subterrâneas.  

O abastecimento de nossas cidades e indústrias está baseado na ideia de ciclos regulares de chuva para recarga de aquíferos, fontes e reservatórios – até a dispersão de muito do nosso lixo e dos dejetos não tratados dos esgotos são dependentes da frequência das águas pluviais que correm na direção dos rios e tudo arrastam. 

A naturalidade e a previsibilidade das chuvas em nosso país pressupõem que haja em nossa infraestrutura geral um mínimo de adequação e preparo para a convivência com grandes períodos de precipitação intensa e suas consequências naturais como as enchentes, os desmoronamentos, bloqueios de ferrovias e de rodovias, entre outros problemas. 

Porém, todos nós sabemos que essa convivência com as águas pluviais não é assim tão natural. A cada ano as enchentes (e também as secas) se repetem, com todos os problemas associados, e nossas cidades e infraestrutura geral se mostram insuficientemente preparadas. Improvisam-se as soluções e se fazem promessas de futuras obras… 

Sistemas de drenagem de águas pluviais tem a função de escoar os grandes volumes das precipitações na direção de canais de drenagem, rios e outros corpos de água, no maior volume e no menor tempo possível. Conforme a declividade do terreno, parte da lâmina de água de chuva formada sobre o solo adquire grande velocidade de descida, formando corredeiras violentas e com grande potencial de danos a vegetação, formações naturais do solo e construções como casas, edifícios, ruas, rodovias, ferrovias etc. Em meio aos danos materiais, as águas pluviais podem causar enormes prejuízos nas populações afetadas por enchentes, incluindo-se aí os riscos à vida humana. 

Ao longo de muitos milênios, os sistemas naturais foram se adaptando aos inevitáveis e periódicos ciclos de chuvas: canaletas naturais de escoamento foram escavadas por erosão nas faces de serras e montanhas, leitos de córregos e rios criaram áreas de várzeas para absorver o excedente de águas das cheias dos rios, pedras e gargantas em rios montanhosos foram moldadas para reter e reduzir a velocidade dos excedentes de água, os diferentes tipos de vegetação se adaptaram para armazenar parte da água da chuva e suas raízes foram adaptadas para forte fixação no solo e evitar o arrastro com a enxurrada. O próprio solo desenvolveu diferentes tipos de permeabilidade, absorvendo volumes consideráveis de água de chuva (dependendo do tipo de solo, mais da metade da água de uma chuva pode ser absorvida) e assim reduzindo os volumes de água que correm desesperadamente a procura das partes baixas dos terrenos – são sistemas em equilíbrio. 

Os diferentes tipos de intervenção humana nos meios naturais interferem com esse delicado equilíbrio natural, produzindo distorções na dinâmica das águas pluviais. O nome mais utilizado para definir estas distorções é enchente

Continuamos na nossa próxima postagem.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS DESMATAMENTOS NO ESPÍRITO SANTO, OU AINDA FALANDO DAS FORTES CHUVAS DE JANEIRO

Cafezais no Espírito Santo

As chuvas desse mês de janeiro também deixaram um enorme rastro de destruição e de mortes no Espírito Santo – mais de 12 mil pessoas foram diretamente atingidas em 27 municípios do Estado desde o último dia 17. De acordo com as informações oficiais são 10.573 desalojados e 1.898 desabrigados – 10 pessoas morreram, incluindo 2 crianças. A região mais fortemente atingida foi o Sul do Estado

Assim como aconteceu no Estado de Minas Gerais, o Espírito Santo também passou por um intenso processo de desmatamento. De acordo com informações do Atlas dos Ecossistemas do Espírito Santo, edição de 2008, quando a Vila do Espírito Santo, atual cidade de Vila Velha, foi fundada em 1535, cerca de 87% do território capixaba era coberto por florestas de Mata Atlântica. Nos dias atuais, as estimativas falam de uma cobertura vegetal remanescente de apenas 8%. Conforme comentamos na postagem anterior, os desmatamentos são uma das principais causas das enchentes e de todas as tragédias associadas. 

Diferente do que aconteceu em outros Estados da faixa costeira do Brasil, o Espírito Santo teve uma história bastante singular e uma ocupação territorial bastante tardia. Uma das razões para isso foi a presença dos perigosos índios aimorés, mais conhecidos como botocudos, numa faixa de terras entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo. Outro fator que merece destaque foi a política de “Areas Prohibidas” da Coroa Portuguesa, que tinha o objetivo de dificultar o acesso de aventureiros ao território das Minas Gerais durante o Ciclo do Ouro. Vamos entender essas histórias: 

A colonização do Brasil teve início na década de 1530, quando foi iniciado o processo de povoamento da costa e implantação das grandes plantações de cana-de-açúcar e dos engenhos para a produção do valioso açúcar, instalações que sempre eram complementadas com uma casa-grande para o usineiro e sua família e uma ou várias senzalas para os escravos. Os principais pólos de produção do açúcar há época se concentravam na faixa litorânea do Nordeste, entre a Bahia e a Paraíba, no Norte fluminense e no litoral de São Paulo

No sul da Bahia e no Espírito Santo foram criadas 3 Capitanias Hereditárias com o objetivo de desenvolver atividades açucareiras. Eram elas as Capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Esses empreendimentos não vingaram devido aos constantes ataques dos índios botocudos, que além de muito ferozes, eram antropófagos. Esses índios eram nômades e eram estimados em 30 mil indivíduos há época. 

Pero de Magalhães Gândavo, historiador e cronista português que preparou em 1576 um dos primeiros relatórios oficiais sobre nosso país – Tratado da terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos de Brasil, descreveu assim os aimorés: 

“Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra.” 

Existem inúmeros relatos, principalmente de religiosos, descrevendo os ataques dos índios aymorés a vilas e engenhos, onde matavam a maioria dos colonizadores e destruíam todas as construções. Incapazes de conter a fúria dos aymorés, as Autoridades Coloniais optaram por deixar um grande “vazio” no mapa do litoral entre a região de Ilhéus, na Bahia, e a Vila do Espírito Santo.  

Em 1693, quando foram feitas as primeiras descobertas de ouro na região das Minas Geraes por bandeirantes paulistas, a notícia se espalhou por toda a colônia rapidamente. Milhares de aventureiros abandonaram seus trabalhos na indústria açucareira e se embrenharam nos sertões em busca do ouro. O rio Doce, que nasce na Serra da Mantiqueira e tem afluentes com nascentes próximas à região de Ouro Preto, um dos principais centros auríferos do período, e foz no litoral capixaba nas proximidades da cidade de Linhares, tinha grande potencial para se transformar numa das mais importantes vias de penetração ao interior do território e escoamento da produção de ouro – não o foi por causa da maciça presença de índios aymorés nas suas margens. O rio São Francisco e a Estrada Real, também chamada de Caminho do Ouro, que vai de Minas Gerais até o Estado do Rio de Janeiro, se tornaram as únicas opções viáveis. 

Apesar da presença dos aymorés no Espírito Santo funcionar como um inibidor para a entrada de aventureiros nas áreas de mineração das Minas Geraes, a Coroa Portuguesa foi além e publicou um decreto limitando o povoamento, as construções e as expedições a uma faixa de 3 léguas (15 km) do litoral. Essa combinação de índios ferozes e acesso controlado ao território, garantiu a perfeita conservação das florestas capixabas até meados do século XIX. 

Por volta de 1850, as primeiras mudas de café chegaram ao Espírito Santo vindas de terras fluminenses. Diferentemente de outros produtos agrícolas, o café é uma planta que apresenta uma série de restrições físicas para o seu cultivo, bastante diferente da cana-de-açúcar ou do algodão, produtos de grande destaque na época. Os limites de temperatura ideais para o cultivo da planta oscilam entre 5 e 33º C. É uma planta muito sensível tanto a geadas quanto ao excesso de calor e insolação. Requer ainda chuvas regulares e bem distribuídas e é muito exigente em relação à qualidade do solo. É uma planta de cultivo permanente, cujo início da produção exige um período entre 4 e 5 anos a partir do plantio das mudas. 

Com o início da produção em larga escala do café para atender à crescente demanda na Europa e Estados Unidos, as matas capixabas começaram a ser derrubadas e grande parte do território foi transformado num imenso cafezal (vide foto). Grandes quantidades de imigrantes, principalmente alemães e italianos, começaram a desembarcar no Estado, iniciando um lento e gradual processo de ocupação de todo o Espírito Santo. Para que todos tenham ideia da lentidão desse processo, estima-se que em 1880, apenas 15% do território capixaba era habitado

Com o avanço dos cafezais e das fazendas, os temidos aymorés, que ainda resistiam ao largo do rio Doce, foram perdendo, não sem muita luta, seus territórios. Além de fazendeiros e colonos fortemente armados, outras tribos indígenas mais “amigáveis” com os brancos também participaram dessa luta. Também precisamos destacar a figura dos bugreiros, caçadores profissionais de índios que ganhavam por “cabeça” abatida e eram contratados por autoridades da Província e por grandes fazendeiros. 

A expansão da cultura do café durou até 1929, época em que teve início a Grande Depressão nos Estados Unidos. Milhões de sacas de café produzidas no Brasil. repentinamente perderam mercado, levando inúmeros produtores e exportadores à falência. A economia do Espírito Santo foi fortemente abalada nessa ocasião. Só em décadas bem recentes é que a cafeicultura se recuperou no Estado, que atualmente é o maior produtor de café conilon do Brasil. Com a crise do café, as matas remanescentes no Estado puderam “respirar” aliviadas por cerca de duas décadas. 

Com a construção da cidade de Brasília, a nova Capital Federal, a partir de 1956, o Espírito Santo se tornou o maior fornecedor de madeira de construção para as suas obras. Para se ter uma ideia do grau de devastação florestal no período, apenas no Norte do Estado existiam perto de 1.500 serrarias em operação. No trecho entre Vitória e Linhares existiam cerca de 120 serrarias produzindo pranchões de madeira e dormentes para ferrovias nessa mesma época. Dados oficias indicam que, em 1959, cerca de 25% da mão de obra capixaba trabalhava na indústria madeireira. O que ainda existia de floresta em pé, foi derrubado nessa época

O resultado de toda essa destruição da cobertura vegetal no Espírito Santo é o que estamos vendo nos noticiários: grandes alagamentos e inundações, desmoronamentos de encostas e gente morrendo. 

OS DESMATAMENTOS EM MINAS GERAIS E AS ENCHENTES

Meninos carvoeiros

As fortes chuvas de verão continuam castigando o Estado de Minas Gerais. De acordo com a última atualização da Defesa Civil, já são 55 mortes diretamente relacionadas com as chuvas, enchentes e desmoronamentos de encostas (dados de 21/01/2020). Conforme meu comentário na última postagem, existem várias razões para as chuvas produzirem consequências tão trágicas: impermeabilização dos solos das cidades, ocupação de áreas de várzeas e de encostas de morros, obstrução dos canais naturais de drenagem por obras mal projetadas e, principalmente, os desmatamentos. Não por acaso, o Estado de Minas Gerais é um campeão nessa modalidade. 

De acordo com dados divulgados no Atlas da Mata Atlântica, publicação da Fundação SOS Mata Atlântica, divulgado no final de maio de 2019. Minas Gerais apareceu pela sexta vez como o Estado que mais desmata o bioma. Foram destruídos 3.379 hectares da vegetação de Mata Atlântica entre os anos de 2017 e 2018. Em edições anteriores do Atlas, o Estado liderou esse ranking por cinco anos seguidos

A SEMAD – Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, respondeu em nota que “Minas é o estado com a maior área de Mata Atlântica do país e que a taxa de desmatamento ficou quase a mesma, passando de 3,1 mil hectares para 3,3 mil”. A Secretaria também informou que “tem tomado medidas para coibir os desmatamentos ligados à produção de carvão para uso na siderurgia, afirmando ainda que 99% do carvão vegetal usado para essa finalidade vem de florestas plantadas”. 

Para que todos entendam a situação atual da cobertura vegetal em Minas Gerais, precisamos lembrar rapidamente como foi a história da colonização no Estado e o perfil das atividades econômicas nos últimos três séculos: 

Nos primeiro 200 anos da colonização de nosso país, toda a economia colonial estava baseada no plantio da cana e na produção do açúcar para exportação. Naquela época, o açúcar valia tanto quanto ouro e era vendido em boticas de toda a Europa em pacotinhos com algumas gramas (lembra a forma como algumas drogas são vendidas atualmente). A ingestão do produto era indicado para problemas digestivos e também na forma de colírio paro o tratamento de infecções oculares. Com o tempo, o açúcar assumiu seu papel na culinária e se transformou em um produto de alto luxo. Citando um exemplo: quando mulheres das famílias nobres e ricas dos muitos reinos se casavam, era chique presenteá-las com um pacotinho com açúcar. 

Essa estrutura econômica foi abalada nos últimos anos do século XVII com as notícias de descobrimentos de ouro por bandeirantes paulistas em Minas Gerais em 1693. Para que todos tenham ideia do impacto dessas descobertas, em pouco mais de 60 anos 2/3 da população da colônia abandonou as plantações de cana e os engenhos do litoral açucareiro e migrou para as terras das Minas Gerais para se aventurar no garimpo do ouro

A prospecção começou nos rios, onde os aventureiros buscavam o “ouro de aluvião”. Esgotados esses recursos, os garimpeiros passaram a vasculhar os barrancos dos rios, as várzeas, córregos, riachos e morros. Pode-se afirmar que “nenhuma pedra deixou de ser revirada” nessa busca frenética pelo ouro. Esgotadas todas as possibilidades de mineração superficial, teve início a exploração subterrânea com a escavação das minas. 

Como consequência natural, abriram-se clareiras nas matas para a construção dos primeiros povoados e plantações de culturas rudimentares de milho e mandioca para a subsistência das populações. Num segundo momento, foi a necessidade de produção de carvão para o uso nos fornos de fundição de ouro que levou ao corte sistemático de madeira nas matas. Essa verdadeira ““febre do ouro” só terminou no final do século XVIII, quando se esgotaram as reservas do minério no Estado. 

A partir do século XIX, com a consolidação de Minas Gerais como um dos grandes produtores nacionais de ferro e aço de todos os tipos, o avanço do desmatamento aumentou exponencialmente – na falta de carvão mineral para queima nos altos-fornos das produtoras do ferro-gusa (estágio de produção inicial do ferro e do aço), foi o carvão de origem vegetal produzido nas pequenas carvoarias familiares que dizimou a Zona da Mata mineira. Aqui vale lembrar que o território brasileiro é pobre em reservas de carvão mineral – as poucas reservas que o país dispõe se encontram em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. 

Além da intensa devastação ambiental, essas carvoarias faziam e ainda fazem uso de mão de obra infantil (vide foto), o que só aumenta a gravidade do crime ambiental. Estima-se que 90% da Mata Atlântica no Estado de Minas Gerais desapareceu, grande parte “queimada” nos fornos das carvoarias e altos-fornos das siderúrgicas. Outro tipo de vegetação tipicamente mineira que sofreu forte devastação foram as veredas, cenário de muitos contos do magnífico Guimarães Rosa.

A mineração também é uma atividade que causa enormes estragos ao meio ambiente. Além da retirada da cobertura vegetal para a abertura das cavas das minas, as atividades desse setor geram enormes montanhas de rejeitos minerais. Recentemente, todos acompanharam os desastres provocados pelo rompimento de barragens de contenção desses rejeitos em Mariana e, a exato um ano, em Brumadinho. Um outro problema criado pela mineração é a sedimentação e o açoreamento de rios, o que, entre outras consequências, contribui para as enchentes. 

Em décadas mais recentes, a principal responsável pelos desmatamentos foi a ocupação das áreas do Cerrado mineiro pela agricultura. No início da década de 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu sementes de soja e de milho adaptadas às características dos solos ácidos do Cerrado. Com isso, terras que eram consideradas pouco produtivas passaram a ser ocupadas por grandes plantações e a vegetação típica do Cerrado passou a perder espaço. Apesar de parecerem frágeis, as plantas do bioma são perfeitamente adaptadas ao clima, possuindo raízes profundas e fortes – são essas raízes que permitem a infiltração da água das chuvas para a recarga dos aquíferos

As culturas de grãos, principalmente soja e milho, possuem raízes extremamente curtas, o que dificulta a absorção da água pelo solo. A consequência disso é que as águas das chuvas de verão correm pela superfície, atingindo os rios com grande volume e velocidade. Além de carrear grandes quantidades de sedimentos, essas águas aumentam violentamente os caudais dos rios, provocando muita enchente e destruição por onde passam. 

Além do assoreamento e entulhamento das calhas dos rios com todos os tipos de sedimentos, a destruição das matas também causa uma redução considerável no volume de águas das nascentes, podendo até mesmo provocar o desaparecimento de muitas delas. Ou seja – há um excesso de água nos rios durante o período das chuvas e falta de água na época da seca. 

Não é difícil de perceber que os problemas vividos pelo Estado de Minas Gerais hoje têm raízes históricas. Se nada for feito daqui para frente, a tendência é um aumento progressivo da intensidade das enchentes e também do número de pessoas atingidas e de vítimas fatais.