CALCULANDO O TAMANHO DAS ENCHENTES

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Você deve estar achando a imagem da foto publicada neste post familiar: ela mostra um trecho do Rio Los Angeles, na cidade homônima da Califórnia, Estados Unidos. Dezenas de filmes americanos, produzidos em Hollywood (distrito da cidade de Los Angeles), mostraram cenas de perseguições ao longo da calha concretada do Rio Los Angeles; podemos citar os filmes Exterminador do Futuro e Uma Saída de Mestre; no filme O Núcleo – Missão ao Centro da Terra, um ônibus espacial faz um pouso de emergência no local . A curiosa desproporção entre o pequeno filete de água e o tamanho da calha tem uma explicação simples – a calha foi superdimensionada para receber o volume das águas das chuvas e evitar enchentes na cidade – simples assim.

Os volumes das águas das chuvas são previsíveis em cada uma das regiões de um Estado ou País e podem ser calculados a partir de uma série histórica das médias de chuvas ao longos dos anos. Conhecido os volumes das chuvas, o sistema de drenagem de águas pluviais pode ser dimensionado, de forma que não ocorram as enchentes. Quando um sistema de drenagem não consegue escoar adequadamente o volume das águas das chuvas, temos o conhecido fenômeno das enchentes, tão familiar a todos nós. Enchentes nada mais são do que acúmulos anormais de água das chuvas, que não conseguem “lugar” nos dispositivos de extravasão pluvial – se não há lugar nesses dispositivos, a água excedente fica nas ruas e avenidas “esperando” chegar sua vez de seguir pelas rede de drenagem. E como disse, esse volume de chuvas é previsível e não há como chamar uma enchente de catástrofe natural (algumas vezes isso até acontece): é irresponsabilidade de governantes.

O dimensionamento dos sistemas de drenagem de águas pluviais deve considerar os volumes típicos de chuva na região que caem sobre a superfície. Uma chuva com precipitação de 20 mm, por exemplo, resultará num volume de 20 litros de água sobre cada metro quadrado da região; considerando-se que as casas e terrenos de uma determinada rua ocupam área total de 10.000 m², pode-se calcular que o volume de águas pluviais que será lançado sobre essa rua será de 200.000 litros nessa chuva (ou seja, 20 litros/m² x 10.000 m²) – portando, todos os dispositivos instalados para drenar a água da chuva terão de ser capazes de absorver esse volume de água. Se a chuva tiver precipitação de 30 mm ou 40 mm, os volumes de água aumentarão respectivamente para 300.000 e 400.000 litros – não havendo uma capacidade de drenagem instalada para se absorver e escoar rapidamente todo esse volume de chuvas, o resultado será um ponto de alagamento nessa rua, que somada às águas de tantas outras ruas poderá se transformar no alagamento de uma avenida e depois de todo um bairro ou cidade.

A chuva, como todos sabem, é um fenômeno da natureza essencial para a vida no planeta, contra o qual não temos nenhum controle e que nunca seremos fortes o bastante para vencer: temos de adaptar nossas cidades para o convívio com as chuvas, de forma a minimizar ao máximo os eventuais problemas e prejuízos de sua fúria. Apesar de previsível e natural num país de clima essencialmente equatorial e tropical, muitas cidades do Brasil ainda não estão plenamente adaptadas ao convívio com este fenômeno. Minha cidade, São Paulo, simplesmente para em dias de chuva forte, com enchentes generalizadas nos bairros mais baixos que, entra ano e sai ano, continuam alagando e causando prejuízo sistemático para a população. As vezes até chego a pensar que nossos governantes estão a esperar por alguma mudança climática que, de uma hora para outra, virá a reduzir substancialmente os volumes anuais das chuvas, fazendo desaparecer as odiosas enchentes num passe de mágica.

Na falta de soluções milagrosas, sabemos que o próximo verão, ou inverno conforme a região, trará em sua esteira as fortes chuvas de final de tarde e, mais uma vez, assistiremos ruas e avenidas alagadas, deslizamentos de encostas, famílias desabrigadas e a mercê das doenças de veiculação hídrica.

É muito triste ser um profeta de catástrofes anunciadas…

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