AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AINDA FALANDO DA ZONA FRANCA DE MANAUS

Na postagem anterior fizemos um breve relato da história da criação da Zona Franca de Manaus e do seu grande sucesso para a economia e para a sustentabilidade ambiental no Estado do Amazonas. Esse sucesso econômico, entretanto, não foi seguido pelo desenvolvimento social da população. Manaus e região sofrem com o crescimento desordenado da mancha urbana, falta de infraestruturas de saneamento básico, de transportes, saúde e educação – problemas típicos das cidades grandes brasileiras. 

Com a grande oferta de trabalho nas empresas em Manaus, um grande número de trabalhadores rurais passou a migrar para a cidade grande, deixando para trás a vida de “homem do campo”. Com essa mudança, grandes áreas da Floresta Amazônica deixaram de ser derrubadas e queimadas para a abertura de novos espaços para agricultura e para pecuária. O Polo Industrial de Manaus conseguiu gerar desenvolvimento econômico sem a necessidade de destruir a Floresta Amazônica. Se olharmos os números dos desmatamentos no Amazonas, o maior Estado brasileiro, veremos que são bem menores do que os de Estados vizinhos. 

Dentro da área urbana da capital do Amazonas, os problemas sociais e ambientais são enormes. Manaus conta atualmente com uma população de 2 milhões de habitantes, grande parte deles vivendo em condições precárias. Em termos de saneamento básico, Manaus ocupa a 5° pior posição entre as grandes cidades brasileiras. Pouco mais de 10% dos esgotos gerados na cidade são coletados e, desse total, apenas 24% recebe o tratamento adequado. Os inúmeros canais e igarapés que cruzam a cidade são os receptores de todos esses esgotos

Em relação ao abastecimento de água, os números são bem melhores – 88% da população é atendida por redes de água tratada. Entretanto, os números indicam uma perda de faturamento da empresa local de saneamento da ordem de 70% – são vazamentos nas tubulações das redes e o roubo de água através de ligações clandestinas, os famosos “gatos”. 

A cidade também enfrenta enormes problemas na área de coleta e destinação dos resíduos sólidos urbanos. São mais de 72 mil toneladas geradas a cada mês e as áreas de descarte estão ficando saturadas. Existem também grandes problemas na coleta nos domicílios e grande parte do lixo gerado pela população acaba sendo despejado nos igarapés e causa grandes impactos ambientais. No quesito habitação, a situação também é dramática: perto de 350 mil famílias manauaras moram em palafitas, ocupações e loteamentos clandestinos.

Conceitos como o da Zona Franca de Manaus, devidamente ajustados e integrados ao mundo contemporâneo, podem ser uma das alternativas para gerar uma colonização racional do território da Amazônia. A ocupação da mão de obra e geração de renda permite que se alcance um desenvolvimento sustentável. Porém, como fica claro nos números apresentados, é fundamental que se busque o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico, a justiça social e a preservação ambiental. 

Entre os inúmeros problemas enfrentados pela cidade de Manaus destaca-se o isolamento em relação ao restante do país, mal que afeta outras regiões da Amazônia como nos casos dos Estados de Roraima e Amapá. Citando um exemplo, todos devem se recordar do “apagão” sofrido pelo Amapá há poucas semanas atrás e das grandes dificuldades para o transporte de geradores elétricos e de transformadores para lá. 

No caso específico de Manaus, um dos gargalos para uma melhor integração ao restante do país, e que ficou bem claro nesses últimos dias com a falta de oxigênio hospitalar para o tratamento da Covid-19, é a falta de uma ligação terrestre por meio de uma rodovia.  

Essa ligação inclusive já existe – a BR 319, uma rodovia parcialmente pavimentada que liga Porto Velho até Manaus. Concluída no início da década de 1970, essa rodovia era totalmente pavimentada. Entretanto, grande parte do trecho da pista ficava encoberto pelas águas do rio Madeira durante o período das cheias e o revestimento asfáltico acabou sendo quase que totalmente destruído. Sem o asfalto, a rodovia fica praticamente intransitável em grande parte do ano (vide foto) e passou a ser chamada pela população local de “caminho das onças“. Uma viagem entre Manaus e Porto Velho pode durar de um dia a uma semana, isso quando é possível atravessar o percurso total de quase 900 km. O trecho mais problemático da rodovia é conhecido como “trecho do meio”, com cerca de 500 km.. 

Quando eu morei na região entre 2009 e 2010, ouvi histórias um pouco diferentes. Segundo contam os locais, foram os donos de empresas de navegação fluvial os responsáveis pela destruição do asfalto da rodovia. Essa ligação terrestre barateou muito os custos para o transporte de mercadorias por caminhão entre as duas cidades, causando enormes prejuízos para os donos de embarcações que faziam esse mesmo trajeto. Segundo esses relatos, foram usadas retroescavadeiras para arrancar o revestimento de asfalto de grandes trechos da rodovia. 

O Governo Federal está trabalhando para reconstruir essa ligação, agora elevando o nível da pista para fugir dos alagamentos anuais. Segundo está sendo divulgado, essa reconstrução da rodovia prevê a instalação de túneis e passagens aéreas para a circulação de fauna, além da criação de diversas áreas de proteção ambiental ao longo do trajeto. Se essa ligação já estivesse pronta, dezenas de caminhões poderiam estar transportando cilindros de oxigênio até Manaus nesse momento e salvando muitas vidas. 

Apesar de parecer um contrassenso ambiental, o asfaltamento dessa rodovia, e de outras que foram construídas há muito tempo atrás, com todas as garantias necessárias para a proteção ambiental das matas nas áreas lindeiras, é fundamental para as populações pobres de Manaus e de outras cidades da Amazônia. Alimentos, remédios, roupas, produtos de limpeza e higiene pessoal, além de outros itens básicos produzidos em outras regiões, que só conseguem chegar nas cidades por via aérea ou fluvial, poderão ser transportados por caminhões a preços mais baixos. 

Muita gente não sabe, mas a Amazônia brasileira abriga uma população de mais de 20 milhões de habitantes. Grande parte dessas pessoas vivem isoladas em pequenas comunidades perdidas nas margens de rios e igarapés, sem acesso aos serviços mais básicos de saúde, educação e saneamento básico. Em casos de emergência, doentes precisam ser transportados até cidades grandes como Manaus em busca de atendimento – essas viagens normalmente são feitas em pequenos barcos e duram vários dias. Acessos terrestres como a BR-319 podem encurtar, e muito, esse tempo de viagem. 

As empresas da Zona Franca de Manaus também serão beneficiadas com o asfaltamento dessas rodovias, passando a contar com mais uma opção de transporte para peças e componentes e também para o escoamento da sua produção. Quando mais forte a produção industrial no Polo Industrial, menor será a pressão por atividades agropecuárias nas áreas florestais no interior do Estado do Amazonas. 

As narrativas sobre a defesa e a proteção da Floresta Amazônica normalmente não levam em consideração essas populações, cujos ancestrais foram as populações tradicionais da floresta e os imigrantes que começaram a ser assentados na região ainda nos tempos do Ciclo da Borracha. Falar em desenvolvimento sustentável da região requer, obrigatoriamente, incluir essas populações na equação. E o exemplo do que pode ser alcançado com polos industriais como o de Manaus pode ser um ótimo caminho a ser seguido por outras cidades da Amazônia. 

A indústria, quem diria, pode ser uma forte aliada na preservação da Floresta Amazônica! 

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