A REPRESA BILLINGS E A CHEGADA DAS CHUVAS

Prainha Represa Billings

Com o final do ano se aproximando e com o início do período das chuvas na região Centro-Sul do Brasil, agricultores e produtores rurais têm seu ânimo redobrado, na esperança de fartura de águas para o início do plantio; nas cidades, as populações se preocupam com o enchimento das represas e outros reservatórios de água, que garantirão o abastecimento nos meses vindouros. Para a vida natural, o período marca o reinício do ciclo da vida. Existe, porém, uma região, onde a chegada das chuvas tem um significado completamente diferente: falo das áreas de entorno da represa Billings, na Região Metropolitana de São Paulo, onde a chegada das chuvas é providencial para ajudar na diluição da grande quantidade de esgotos acumulados nas águas da represa

A represa Billings é o maior reservatório de águas da Região Metropolitana de São Paulo, com uma área de drenagem com aproximadamente 560 km² e uma superfície máxima de espelho d’água de 173 km². O reservatório ocupa áreas dos municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com uma capacidade total de armazenamento superior a 1 bilhão de metros cúbicos de água, maior que a soma de todas as represas que formam o Sistema Cantareira.  

Apesar de todo esse tamanho, somente uma parte das águas da represa Billings pode ser aproveitada para o abastecimento da população – um dos braços da represa foi isolado por meio de uma barragem e ainda mantém águas limpas e isentas de poluentes. A maior parte das suas águas está altamente comprometida pela presença de esgotos. Há pouco menos de duas semanas, eu visitei uma das margens da represa e fiquei assustado com o verde intenso das águas, um sinal claro da presença de grandes volumes de algas verdes nutridas pela alta concentração de esgotos. 

Concebida inicialmente como reservatório para geração de energia elétrica, a represa Billings ganhou outras características de uso com o passar do tempo. Uma das mais importantes foi a de pólo de turismo e lazer, com a utilização das margens como balneário, de suas águas para a prática de esportes náuticos, além de ser um ótimo local para a pesca artesanal. A crescente população das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, em especial da região do chamado ABCD Paulista (iniciais dos municípios de Santo, André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), transformaram a represa em uma espécie de “praia” longe da praia (vide foto).

A região sofreu forte crescimento industrial no final da década de 1950, graças à implantação do parque automobilístico brasileiro. A especulação imobiliária que se seguiu ao boom das indústrias, encontrou nas matas ao redor da represa Billings as áreas ideais para a criação e a venda de lotes populares, grande parte irregulares. Novos bairros surgiam a cada dia, sem qualquer preocupação com a implantação de uma infraestrutura urbana adequada – as águas da represa foram transformadas em receptores dos esgotos domésticos de uma população cada vez maior.  

Com o crescimento desordenado de toda a Região Metropolitana de São Paulo e o aumento da carga de poluição na bacia hidrográfica do rio Tietê, os problemas de poluição na represa Billings só fizeram aumentar. O sistema de transposição de águas do rio Tietê para a Billings, que foi durante décadas uma alternativa para manter o nível da represa e garantir uma boa geração de energia elétrica na Usina Henry Borden em Cubatão, passou a representar um seríssimo problema ambiental – grande parte da carga de esgotos despejados no rio Tietê acabava sendo transferida para as águas da represa Billings

Os problemas ambientais na Billings foram transformados em bandeira para inúmeros movimentos ambientalistas e sociais, que passaram a lutar pela recuperação e preservação do manancial. Em 1992, com a promulgação da nova Constituição Paulista, foi suspensa o bombeamento e a transferência de águas da bacia do rio Tietê para a represa Billings, exceto em situações de emergência. O que na época parecia ser um ponto de inflexão na direção de uma melhoria na qualidade das águas da represa, não tardou a se mostrar inócuo. Os lançamentos de esgotos in natura de centenas de milhares de residências, nas áreas das margens e dentro da bacia hidrográfica da Billings, não pararam de aumentar. Para piorar a situação, a geração na Usina Hidrelétrica Henry Borden foi dramaticamente reduzida. Com essa nova configuração, como um “sistema praticamente fechado”, a renovação das águas armazenadas ficou muito lenta, transformando a represa, literalmente, em uma grande fossa a céu aberto. 

A chegada da temporada das chuvas traz sempre um pouco de alívio para o corpo d’água – com grandes volumes de águas pluviais chegando na represa, há uma diluição maior do volume de esgotos e toda a biota – incluindo-se plantas, animais e moradores das áreas de entorno da Billings, conseguem respirar um pouco melhor (estou falando tanto no sentido figurativo, quanto no ato de respirar, propriamente dito). Esse alívio momentâneo nas condições da represa irá perdurar enquanto as chuvas caírem. 

Enquanto as autoridades dos diversos níveis de Governo não conseguirem unir forças para resolver, em definitivo, o problema do lançamento de esgotos na represa Billings, restará sempre a alternativa de se torcer muito por uma longa e forte temporada de chuvas. 

VEJA NOSSO CANAL NO YOUTUBE – CLIQUE AQUI

AS SOMBRAS QUE RONDAM O SISTEMA CANTAREIRA

Represa do Atibainha

No início de 2014, as populações das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram surpreendidas com uma notícia alarmante: o nível do Sistema Cantareira, maior conjunto de mananciais de abastecimento dessas regiões e sobre o qual a imensa maioria da população nunca tinha ouvido falar antes, estava com um nível inferior a 30%, isso no auge do período de chuvas. Considerando-se o nível de consumo de água da população na época e o volume armazenado nas represas, chegou-se à conclusão que não haveria água suficiente para atender a todos até a chegada do próximo período das chuvas. 

A região Sudeste enfrentava naquele momento a maior seca da sua história e o volume de chuvas nas cabeceiras das nascentes dos rios formadores do Sistema Cantareira estavam com níveis muito abaixo das médias históricas. Responsável pelo abastecimento de aproximadamente 60% da população, o Sistema Cantareira corria o risco de secar antes da chegada do final do ano. Estava armada a maior crise hídrica já vivida na região. 

Mas a falta de chuvas foi apenas uma das peças desse intrincado quebra-cabeças: a falta de mecanismos de gestão e a incompetência política deram uma grande contribuição para essa crise. Duas grandes represas da Região Metropolitana estavam praticamente cheias, mas isoladas do resto do sistema de abastecimento regional, e não podiam socorrer a população. Essas represas eram a Guarapiranga, localizada na Zona Sul do município de São Paulo, e a represa Billings, um manancial com uma capacidade de armazenamento de água maior que todas as represas do Sistema Cantareira juntas e localizado entre o município de São Paulo e a região do ABCD (iniciais dos municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema). 

Sem dispor de fontes alternativas de abastecimento, as populações dessas Regiões Metropolitanas tiveram de suportar uma redução forçada do volume de água fornecido (que as autoridades recusaram admitir se tratar de um racionamento), enquanto assistiam um esforço colossal da companhia local de águas para realizar obras civis que permitissem a interligação das diversas represas do sistema de abastecimento regional. Foram meses tensos, que deixaram inúmeros traumas na população. A maior crítica contra as autoridades estaduais e diretores da empresa local de águas, é o fato de não terem sido foram emitidos comunicados antecipados alertando sobre a gravidade da situação. Aqui vale lembrar que 2014 foi um ano eleitoral e, ao que tudo indica, candidatos à reeleição tudo fizeram para esconder a gravidade da situação. 

Passados mais de quatro anos desde a crise hídrica, os paulistas receberam com reservas a informação da entrada do Sistema Cantareira em “estado de alerta” – desde o início de agosto, o nível do Sistema está abaixo dos 40%. Com os muitos traumas deixados na população desde aquela época, muitos moradores da Grande São Paulo e da Região Metropolitana de Campinas se assustam com a possibilidade, mesmo que longínqua, de uma nova crise no abastecimento de água. 

Autoridades do Governo do Estado e da Sabesp, a empresa estadual de saneamento básico, garantem que as atuais reservas de água do Sistema Cantareira são suficientes para o abastecimento da população até o final de 2019. Também informaram que uma série de obras foram concluídas, aumentando a segurança hídrica do Sistema: 

  1. Antes da crise hídrica de 2014, o consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo era de 71 mil litros de água por segundo (fevereiro de 2013). Cinco anos depois da crise hídrica, o consumo caiu para 62 mil litros – em julho último, esse consumo caiu ainda mais e está em 60 mil litros de água por segundo. A população mudou muitos dos seus hábitos de consumo e a água tem sido utilizada com uma maior consciência ambiental. De acordo com informações da Sabesp, desde o início de 2018, os volumes de água retirados do Cantareira estão de 16 a 28% abaixo do limite estabelecido para a Grande São Paulo, o que significa uma economia média de recursos hídricos de 25%
  2. Foi inaugurada a interligação entre o Sistema Cantareira e a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, com possibilidade de transferência de 5 mil litros de água por segundo; 
  3. Um novo sistema produtor, o São Lourenço, foi inaugurado e pode fornecer 6,4 mil litros de água por segundo ao sistema de abastecimento metropolitano. 

Uma outra mudança importante foi a repactuação da partilha dos recursos hídricos do Sistema Cantareira – a Grande São Paulo pode receber até 33 mil litros de água por segundo. Caso o nível do Sistema esteja abaixo de 60%, essa captação cai para 31 mil litros por segundo; com o volume abaixo de 40%, a captação cai para 27 mil litros por segundo; abaixo de 30%, a captação vai a 23 mil litros e abaixo de 20%, a captação cai para 15,5 mil litros. A nova partilha também estabelece que a região de Campinas receberá um volume de 10 mil litros de água por segundo no período seco. 

Apesar de todas as garantias dadas pelas autoridades locais, tem muita gente desconfiada nessas duas importantes Regiões do Estado de São Paulo. Para essas pessoas, as sombras da crise hídrica de 2014 ainda não se dissiparam completamente. Nem mesmo a chegada do período das chuvas nesse começo de primavera fará essas pessoas mudarem de opinião.

Como diz um velho ditado: cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça…

A CHEGADA DA PRIMAVERA E A VOLTA DAS CHUVAS NA REGIÃO CENTRO-SUL DO BRASIL

Chuvas de Primavera

Ao longo de várias semanas falamos dos conflitos entre a agricultura e as florestas, enfatizando o grande consumo de água pelas plantações. Também falamos dos problemas de perda de solos férteis, do uso intensivo de agrotóxicos e da contaminação das fontes de água por resíduos químicos – são problemas que, aparentemente, parecem distantes, mas que afetam igualmente todos os seres vivo. Com a chegada da primavera e com a volta das chuvas em importantes áreas da região Centro-Sul do país, é hora de mudarmos um pouco o nosso enfoque e voltarmos a falar dos já conhecidos problemas de enchentes e de secas localizadas. 

O território brasileiro se estende ao longo de diferentes latitudes, com as terras do extremo Norte localizadas além da Linha do Equador e com a faixa do extremo Sul bem abaixo do Trópico de Capricórnio. Diferentes zonas climáticas, como não poderia ser diferente, ocorrem em cada uma dessas regiões, indo do clima Equatorial na região coberta pela Floresta Amazônica até o clima temperado na região Subtropical dos Pampas Sulinos. O regime de chuvas em cada uma dessas zonas climáticas segue a sua própria dinâmica. 

A chamada Região Centro-Sul do Brasil compreende uma zona geoeconômica do país que inclui as regiões Sul e a maior parte da região Sudeste, com exceção do Norte do Estado de Minas Gerais, e também os Estados de Mato Grosso do Sul e Goiás, o Sul dos Estados de Tocantins e do Mato Grosso, além do Distrito Federal. Essa grande região compreende uma área total de 2,2 milhões de km², o que corresponde a cerca de 25% do território brasileiro. Você pode nunca ter prestado atenção, mas os blocos com a previsão do tempo nos telejornais sempre citam a Região Centro-Sul em seus boletins climáticos. 

Essa grande região brasileira pode ser dividida em três áreas climáticas diferentes: nos estados da região Sul e em parte do Estado de São Paulo, o clima é Subtropical; nas regiões serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o padrão climático é o chamado Tropical de Altitude; no restante da Região Centro-Sul, o clima predominante é o Tropical. Apesar de toda essa variação climática, há um ponto comum em toda essa região: as estações do ano – primavera, verão, outono e inverno, são bem definidas e o período das chuvas vai do mês de setembro até março, com uma maior intensidade nos meses de dezembro e janeiro. Na maior parte do restante do Brasil, o ano pode ser dividido em duas estações distintas – o verão, com meses quentes e secos, e o inverno, com meses quentes e chuvosos. A intensidade das chuvas varia muito de uma região para outra, sendo mais intensas entre março e julho. 

A região geoeconômica Centro-Sul concentra a maior parte da população brasileira, o que inclui as maiores cidades do país: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A chegada do período das chuvas é sempre comemorada por essas populações, que dependem dessa água para alimentar rios e represas que geram energia elétrica e abastecem as cidades. A região também concentra uma parte considerável do agronegócio brasileiro, que depende como nenhum outro da água das chuvas para irrigar lavouras e dessedentar os grandes rebanhos animais. 

Depois de vários séculos de estabilidade desde os primeiros anos da colonização do país, o clima da Região Centro-Sul vem apresentando comportamentos bastante anormais nas últimas décadas, fato que preocupa muitos especialistas. Muitas regiões, nitidamente, estão com um clima diferente de décadas atrás. Cito o caso da Região Metropolitana de São Paulo – os invernos há cinquenta anos atrás eram extremamente frios, com temperaturas que chegavam bem próximas de zero graus. Lembro bem das minhas camisas de flanela e da minha mãe ou avó gritando para não esquecer de pôr uma blusa para sair na rua. Nesses últimos anos, as temperaturas do inverno são um convite para ir até as praias da Baixada Santista. 

As chuvas também têm apresentado variações na duração das suas temporadas e elas não têm caído de forma equilibrada em todas as regiões. Alguns lugares muitas vezes sofrem com o excesso de chuva, enquanto outros, relativamente próximos, continuam sofrendo com a seca. Isso gera enormes preocupações. Entre 2014 e 2015, a Região Metropolitana de São Paulo passou por uma intensa crise hídrica, com importantes reservatórios dos diversos sistemas de abastecimento, literalmente, secando. O Sistema Cantareira, o maior conjunto de represas de armazenamento de água para o abastecimento regional, entrou no chamado Volume Morto – a água ficou abaixo do nível de captação, sendo necessárias inúmeras obras emergenciais e a adoção de medidas para economia de água por toda a população. 

A partir da próxima postagem vamos passar a acompanhar as consequências da chegada do período de chuvas nas cidades e áreas rurais, conferindo também os problemas com as típicas enchentes e também comemorar as boas notícias que chegam junto com as águas. 

 

PS: Postagem nº 600

ALGUNS NÚMEROS E FATOS IMPRESSIONANTES SOBRE OS AGROTÓXICOS

Alerta Agrotóxicos

De acordo com informações do SINDIVEG – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, entidade que reúne as empresas do setor de agroquímicos, o faturamento total dessas empresas em 2017 foi de US$ 8,9 bilhões, uma redução de 7% em relação ao ano anterior. Considerando-se a cotação do dólar (11/10/2018) – R$ 3,75, estamos falando de um faturamento de aproximadamente R$ 33,4 bilhões, ou, 0,5% do valor do PIB – Produto Interno Bruto, brasileiro, que em 2017 fechou em R$ 6,6 trilhões

Esmiuçando um pouco esse número, descobrimos que 35% do total das receitas vem da produção e venda de herbicidas, 28% dos fungicidas e 27% dos inseticidas. A cultura da soja é, de longe, a maior consumidora desses produtos, respondendo por 52% das vendas, seguida pelos setores da cana-de-açúcar (12%), milho (10%), algodão (7%) e café (3%) – juntas, essas cinco culturas consomem um volume equivalente a 84% de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil. Em termos de volume de agrotóxicos, o consumo total desse grupo de culturas é de 850 mil toneladas a cada ano,  com uma aplicação de cerca de 12 litros de produtos químicos tóxicos em cada hectare cultivado. No total, o consumo de agrotóxicos no Brasil está próximo de 1 milhão de toneladas ou 1 bilhão de litros a cada ano, volume que coloca o nosso país na posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo.

Entre os Estados consumidores, Mato Grosso aparece na primeira posição, respondendo por 21% de todos os agrotóxicos consumidos no país. Nas últimas décadas, o Estado se consolidou como maior produtor brasileiro de grãos e líder nacional na exportação de commodities agrícolas. Na segunda posição vem o Estado de São Paulo, com 15% das vendas, e o Rio Grande do Sul, com 12% dos negócios. Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul aparecem na sequência da lista dos maiores consumidores de agrotóxicos do país

Tantos números e tanto dinheiro escondem muitos problemas: 

De acordo com informações do Greenpeace Brasil, uma das mais importantes Organizações Não Governamentais de defesa do meio ambiente no mundo, mais de 20% dos agrotóxicos utilizados no Brasil utilizam substâncias ilegais, que aumentam, em muito, os riscos à saúde das populações e ao meio ambiente. Um exemplo é o acefato, substância que segundo a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, causa problemas no sistema endócrino humano – essa substância já teve seu uso proibido em toda a Europa.  

Greenpeace alerta que o uso dessas substâncias químicas, limitará cada vez mais os volumes de exportações de grãos e de carne para a União Europeia e para países como China, Estados Unidos e Índia, onde o uso desses produtos já é proibido. Dos cerca de 500 tipos diferentes de agrotóxicos autorizados para venda no Brasil, cerca de 30% são proibidos na Europa

O problema, infelizmente, vai além do uso de substâncias já proibidas em outros países – a legislação brasileira para este setor é extremamente permissiva e admite o uso de agrotóxicos em concentrações muitos superiores àquelas permitidas em outros países. E, como resultado direto, observamos em nossos produtos agrícolas, nos solos dos nossos campos e também nas fontes de água, um aumento progressivo no volume de resíduos tóxicos. 

Nessa lista, apresentamos alguns dos agrotóxicos mais usados no Brasil. O número apresentado ao lado mostra a quantidade de vezes a mais que a concentração de resíduos dessas substâncias em água potável é permitida aqui no país quando comparada com as normas da Europa: 

2,4-D (herbicida) – 300 vezes mais 

Clorpirifós (inseticida/acaricida) – 300 vezes mais 

Diuron (herbicida) – 900 vezes mais 

Mancozebe (fungicida/acaricida) – 1.800 vezes mais 

Tebuconazol (fungicida) – 1.800 vezes mais 

Glifosato (herbicida) – 5.000 vezes mais 

A contaminação das fontes de água com resíduos de agrotóxicos é, atualmente, um dos mais graves problemas ambientais de nosso país. A disponibilidade de água para o abastecimento de inúmeras cidades de todo o Brasil é cada vez menor – rios e importantes fontes de água já sofrem em demasia com a poluição por esgotos e resíduos sólidos. A baixa qualidade da água bruta (água antes do tratamento) é ainda mais agravada pela visível redução dos caudais (volume de água) de muitos rios importantes. E como se isso tudo já não fosse problemático demais, passamos a verificar um crescimento substancial no volume de resíduos de agrotóxicos nessas águas nas últimas décadas. Há ainda um outro seríssimo agravante – grande parte das ETAs – Estações de Tratamento de Água, não está preparada para eliminar esses resíduos tóxicos durante os processos de tratamento.

Com essa absoluta falta de limites, estamos assistimos a uma verdadeira invasão de resíduos de agrotóxicos em tudo o que comemos e bebemos, indo dos grãos às frutas, das verduras aos legumes, da carne ao leite e da água até as bebidas industrializadas. De acordo com projeções da Fundação Oswaldo Cruz, um dos mais respeitados centros de pesquisas médicas do Brasil, entre os anos de 2007 e 2014, mais de 1 milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos, sendo que um quinto dessas vítimas eram crianças e adolescentes

Tanto os fatos quanto os números são absolutamente intoleráveis em uma sociedade dita civilizada. 

OS AGROTÓXICOS QUE VOCÊ PÕE NA SUA MESA

Salada

Você que tem acompanhado as postagens sobre os diversos problemas que são causados pelo uso excessivo de agrotóxicos em nosso país, já deve ter se perguntado sobre os riscos que esses produtos podem trazer aos alimentos que consumimos em nosso dia a dia. Vamos explorar esse tema na postagem de hoje. 

A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, através do seu Programa de Análise dos Resíduos Tóxicos de Alimentos, realiza sistematicamente exames laboratoriais em amostras de alimentos, onde são feitos testes e medições em busca de resíduos de agrotóxicos. Os testes também procuram detectar a presença de agrotóxicos não autorizados – como se já não bastassem os problemas relativos ao uso de produtos químicos de fabricação nacional e autorizados pelos órgãos de fiscalização do Brasil, existem grandes problemas com o uso de produtos proibidos e que são contrabandeados desde países vizinhos. 

Num dos mais recentes levantamentos da ANVISA, aproximadamente 2.500 amostras de 18 tipos de alimentos foram analisadas. Veja a lista dos 10 alimentos que apresentaram os maiores níveis de contaminação – os valores percentuais indicam o total de alimentos com níveis de resíduos de agrotóxicos acima dos valores permitidos dentro de cada lote analisado: 

  1. Pimentão: 91,8%
  2. Morangos: 63,4% 
  3. Pepino: 57,4% 
  4. Alface: 54,2% 
  5. Cenoura: 49,6% 
  6. Abacaxi: 32,8% 
  7. Beterraba: 32,6% 
  8. Couve: 31,9% 
  9. Mamão: 30,4% 
  10. Tomate: 16,3% 

Um dos vegetais analisados, as batatas, produto que figura na lista dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros, felizmente, ficou na última posição na lista pesquisada – nenhum dos lotes examinados apresentou vestígios de agrotóxicos. 

Os níveis de contaminantes encontrados nessa pequena amostra de alimentos consumidos diariamente pela população assustam, ao mesmo tempo que não causam surpresa a ninguém. Conforme já comentamos anteriormente, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, mesmo não sendo o maior produtor agrícola do planeta. Cerca de 1 milhão de toneladas de agrotóxicos são aplicados anualmente em plantações de Norte a Sul do país – fazendo uma divisão simples desse volume total de produtos químicos pela nossa população, que hoje está na casa dos 208 milhões de habitantes, chegaremos ao uso de quase 5 litros de agrotóxicos para cada um dos brasileiros: é justamente uma parte desse volume de químicos tóxicos que está chegando na sua mesa, através dos alimentos que você consome com a sua família

O desenvolvimento e a utilização dos diversos tipos de agrotóxicos, especialmente ao longo do século XX, foi fundamental para o controle de diversas pragas agrícolas, que destruíam uma parte considerável das colheitas de frutas, verduras, legumes e grãos. Todo esse esforço foi fundamental para o aumento da disponibilidade de alimentos a preços cada vez menores, o que ajudou a reduzir a fome e a desnutrição em todo o mundo. O problema que vem sendo observado nas últimas décadas é que o consumo de agrotóxicos, especialmente aqui no Brasil, vem crescendo a taxas muito maiores que os volumes de alimentos produzidos.  

Para que vocês tenham uma ideia desse crescimento: desde 2008, a importação de produtos químicos usados na produção de agrotóxicos no país teve um aumento de 400%; já o volume de agrotóxicos importados, prontos para o consumo, teve um aumento de 700% no mesmo período. E olhem que esses números não incluem os agrotóxicos contrabandeados de países vizinhos, de forma a burlar os controles da fiscalização (a compra e a aplicação de agrotóxicos depende da apresentação de uma “receita”, emitida por um profissional licenciado em agronomia/agricultura). 

Uma das razões desse uso abusivo de agrotóxicos aqui no Brasil está na nossa legislação: um estudo recente demonstrou que as nossas leis permitem um nível de contaminação dos corpos d’água com níveis de agrotóxicos num nível 5 mil vezes superior ao que é permitido em países da Europa. No caso de grãos como o feijão e a soja, os limites de contaminantes tolerados pela legislação brasileira são, respectivamente, 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa. Não é à toa que todos nós, brasileiros, estamos sendo envenenados um pouco a cada dia com alguns dos produtos químicos mais venenosos já criados ao longo da história. 

Uma das formas de se reduzir os níveis dos resíduos de agrotóxicos presentes nesses alimentos é submetê-los a uma ótima higienização, lavando-os com muita água corrente. Estudos indicam que folhagens como alface, rúcula e agrião, devidamente lavados e deixados em repouso numa solução de hipoclorito de sódio, podem ter os resíduos tóxicos reduzidos em até 90%. Muitas frutas e legumes, sem qualquer exagero, podem ter suas cascas lavadas com detergente e uma esponja de espuma antes de serem cortados e preparados, uma providência que ajudará muito na redução dos resíduos tóxicos. Muitos consumidores têm assumido posições mais radicais e só se alimentam com produtos orgânicos, que apesar de mais caros, apresentam riscos de contaminação muito menores (há sempre o risco da presença de resíduos tóxicos carregados pelos ventos ou pela água usada na irrigação – risco zero é muito difícil de se atingir).

A se persistir a atual situação, não tardará muito a termos de escolher entre morrer de fome ou sermos envenenados lentamente pelos agrotóxicos. 

OS CONFLITOS ENTRE A SOJA E AS UVAS NA REGIÃO DA CAMPANHA GAÚCHA: UM CASO PRÁTICO

Vinhos da Campanha Gaúcha

A contaminação do meio ambiente, especialmente das fontes de água, por resíduos de agrotóxicos é, atualmente, um dos maiores problemas ambientais de nosso país. Conforme apresentamos nas postagens anteriores, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo – anualmente, quase 1 milhão de toneladas (1 bilhão de litros) de produtos químicos altamente tóxicos são aplicados em lavouras por todo o Brasil. Fazendo uma conta rápida, são 5 litros de agrotóxicos lançados no meio ambiente para cada um dos brasileiros. É muita coisa. 

Vamos mudar um pouco a temática dos nossos textos – ao invés de falarmos mais uma vez dos riscos e dos problemas criados por esse imenso volume de venenos agrícolas ao meio ambiente, vamos mostrar os prejuízos econômicos que alguns produtores rurais estão sofrendo por causa de resíduos de agrotóxicos que chegam às suas propriedades, arrastados pelos ventos. Estamos nos referindo aos produtores de uva da região da Campanha Gaúcha, no Estado do Rio Grande do Sul

Regiões de clima temperado, com invernos frios e verões quentes são as mais adequadas para o cultivo da uva. Existem duas faixas climáticas no mundo onde se encontram condições excepcionais para a produção de bons vinhos – essas regiões produtoras são conhecidas como os Paralelos do Vinho. No Hemisfério Norte, essa faixa fica localizada entre os paralelos 30 e 40° Norte e incorpora algumas das mais tradicionais regiões produtoras de vinho do mundo na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. No Hemisfério Sul, essa faixa climática fica entre os paralelos 30 e 40° Sul e compreende áreas da Argentina, Uruguai, Chile, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. A região da Campanha Gaúcha, no extremo Sul do Brasil, é uma importante representante brasileira na região dos Paralelos do Vinho desde a década de 1980

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a Campanha Gaúcha é a região vinícola mais quente e com o menor volume de chuvas do Brasil, contando com uma área de vinhedos com aproximadamente 1.560 hectares (dados de 2015). A região está distribuída em 12 municípios gaúchos, com destaque para Santana do Livramento, Bagé, Candiota, Dom Pedrito e Quaraí. As principais variedades de uvas cultivadas na região para vinhos tintos são a Cabernet Sauvingnon, Tannat, Pinot Noir, Merlot e Cabernet Franc, além das variedades específicas para vinhos brancos Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling Itálico.

A relativa “tranquilidade” dos produtores de uva da região da Campanha já não é mais a mesma de anos atrás – as plantações locais vêm sofrendo problemas de contaminação de resíduos tóxicos de outras culturas vizinhas. Muitos produtores de uva da região reclamam que suas culturas estão sendo contaminadas por resíduos de agrotóxicos de plantações de soja próximas. Resíduos de um herbicida utilizado para eliminar as ervas daninhas antes do plantio da soja, o 2,4-D, estão sendo arrastados pelos ventos na direção dos vinhedos e estão provocando uma redução de até 70% na produção de uvas.  

O 2,4-D é o segundo agrotóxico mais vendido no Brasil e, de acordo com os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização – ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, IBAMA – Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis, e Ministério da Agricultura, o uso do produto é seguro. A soja é um dos grãos mais produzidos no país e o Rio Grande do Sul, conforme apresentamos em postagem anterior, foi o berço da cultura no país e hoje ocupa a terceira posição entre os Estados produtores, respondendo por cerca de 16% de toda a soja produzida no Brasil. A cultura do grão é tão disseminada no Estado que, conforme apresentamos na postagem anterior, a segunda maior frota de aeronaves agrícolas em operação no país está localizada no Rio Grande do Sul e tem na cultura o seu grande mercado comercial. 

Com tantos campos de soja e com grandes volumes de agrotóxicos sendo despejados nessas plantações, começou a acontecer o inevitável: resíduos de agrotóxicos lançados nas plantações de soja estão sendo espalhados pelos ventos (estudos mostram que os ventos podem espalhar esses resíduos por distâncias de até 30 km), e começaram a chegar aos vinhedos da região da Campanha. O produto químico, que é “inofensivo” para a soja, é fatal para os vinhedos e vem provocando uma redução na produtividade entre 30 e 70%, conforme a proximidade das plantações em relação as regiões cultivadas com soja. Análises químicas feitas nos resíduos encontrados nessas plantações não deixaram qualquer dúvida – o produto químico é mesmo o 2,4-D. 

A uva é a principal matéria prima das indústrias vinícolas locais e o processamento das frutas em toda a cadeia produtiva do vinho agrega valor e cria uma infinidade de empregos altamente especializados, além de gerar importantes receitas tributárias para os municípios dessa região do Rio Grande do Sul. Uma quebra na produção de uvas nessa ordem de grandeza pode, literalmente, inviabilizar toda a produção vinícola da Campanha Gaúcha. E não são apenas as vinícolas que sofrem prejuízos: toda a cadeia produtiva será comprometida, o que inclui a produção de garrafas, rótulos, embalagens, máquinas e equipamentos, serviços de manutenção e vendas de peças de reposição, além de atividades nas áreas comercial e de transportes, entre outras. 

A grande discussão que se desenrola hoje na região da Campanha Gaúcha é quem vai pagar o prejuízo. As grandes indústrias de agrotóxicos já lavaram as mãos e afirmaram que a responsabilidade pelo problema é dos produtores rurais, que não seguiram as recomendações técnicas para aplicação dos produtos. Alguns produtores de soja até fizeram um mea culpa, afirmando que vão mudar os procedimentos de aplicação dos agrotóxicos, evitando o uso de aeronaves agrícolas em plantações muito próximas da região da Campanha Gaúcha. Também prometem evitar a aplicação dos agrotóxicos por métodos mais tradicionais em dias de muito vento. Até agora, nenhum dos grupos envolvidos colocou a mão no bolso e indenizou os produtores de uva pelos prejuízos já sofridos – a chance de isso acontecer, falando de forma muito realística, é bastante remota. 

Como os populares costumam falar, os produtores de uva da Campanha Gaúcha acabaram com um grande “mico” nas suas mãos… 

A POLÊMICA APLICAÇÃO DE AGROTÓXICOS POR AVIÕES AGRÍCOLAS

Aviação Agrícola

No início de maio de 2013, o piloto de um avião agrícola que estava realizando a pulverização de lavouras de milho na região de Rio Verde, no Estado de Goiás, cometeu um erro operacional gravíssimo – ele acabou despejando um grande volume de inseticidas agrícola sobre uma escola do Assentamento Pontal dos Buritis, nas margens da Rodovia GO-174. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros local, haviam 122 alunos no local no momento do acidente – 37 pessoas foram intoxicadas, sendo que 8 eram professores e funcionários da escola e 29 eram alunos, com idades entre 6 e 14. Felizmente, não houve nenhuma morte. 

Longe de ser um caso isolado, esse acidente mostra os riscos que a pulverização de agrotóxicos com o uso de aviões tem levado às populações que moram nas proximidades dos grandes campos agrícolas brasileiros. Além dos riscos de um erro semelhante ao que foi cometido pelo piloto de Rio Verde, estudos demonstram que os ventos podem carregar resíduos de agrotóxicos lançados por aeronaves a distâncias de até 30 km. Se considerarmos que grande parte do território brasileiro está ocupada por imensos campos agrícolas, os riscos para as populações de inúmeras cidades interioranas são muito grandes. 

De acordo com informações do SINDAG – Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, o país possuía uma frota de 2.115 em 2017. Esses números colocam o Brasil na segunda colocação entre os países com maior frota de aeronaves agrícolas, onde se incluem aviões e helicópteros. Entre os Estados, Mato Grosso aparece na primeira posição 464 aeronaves registradas, seguido pelo Rio Grande do Sul com 427 aeronaves e de São Paulo com 312 aeronaves. O uso cada vez maior de aeronaves agrícolas em nosso país se deve ao modelo de agronegócios adotado no Brasil, onde campos agrícolas cada vez maiores estão sendo usados para a produção de grãos em larga escala. Para aplicar agrotóxicos em áreas cada vez maiores, o uso de aeronaves se mostra altamente eficiente. 

Para que todos tenham uma noção exata do tamanho dessa frota, ela corresponde a 68% da frota nacional de aeronaves, onde se incluem também todas as aeronaves comerciais e militares. Outro detalhe importante é que 60% dos aviões utilizados nas operações de aplicação de agrotóxicos são de produção nacional. Esses números mostram o tamanho dos interesses econômicos que estão por trás da atividade e também o poder do lobby político que se desenrola nos bastidores do poder. A atividade gera inúmeros postos de trabalho, onde se incluem pilotos, mecânicos, operadores de voô, fabricantes de peças de reposição, óleos e combustíveis – é um mercado multimilionário.

A aplicação de agrotóxicos por aviões gera uma dispersão descontrolada de resíduos de agrotóxicos, que vem aumentar ainda mais os problemas já conhecidos, onde solos, fontes de água e trabalhadores rurais estão sendo cada vez mais expostos ao contato com esses resíduos tóxicos. Os ventos podem carregar grandes quantidades dos produtos químicos a longas distâncias, atingindo cidades e vilas, terras indígenas e, particularmente, os poucos fragmentos florestais de matas nativas remanescentes. No mundo inteiro, conforme comentamos em postagem anterior, calcula-se entre 200 e 300 mil as mortes anuais de seres humanos devido a problemas associados à contaminação por agrotóxicos. A questão da pulverização aérea desses produtos é tão grave que, em muitos países da Europa e no Canadá, essas operações já foram proibidas. 

Aqui no Brasil, existem vários parlamentares que trabalham no sentido de proibir ou regulamentar, da melhor maneira possível, esse tipo de atividade. Em 2012, citando um exemplo, um projeto apresentado na Assembleia Legislativa do Paraná acabou sendo arquivado por ser considerado inconstitucional. Um novo projeto foi apresentado por um deputado do Estado e está aguardando a apreciação da Assembleia local. Em minha opinião, as chances desse projeto prosperar, tanto a nível estadual quanto federal, são mínimas – a força do agronegócio é imensa e existem bancadas inteiras de deputados e senadores com fortes ligações com esse setor econômico. Só para lembrar, o setor de agronegócios responde por quase 25% do PIB – Produto Interno Bruto, brasileiro e a produção rural nas últimas décadas é um dos poucos setores da economia que vem crescendo consistentemente no país

Uma das grandes questões levantadas por essa discussão, e que merece a nossa reflexão, é saber quem é o verdadeiro culpado: o uso de aviões, a periculosidade dos produtos químicos, a diluição ou as quantidades de agrotóxicos que são aplicadas? Para muitos analistas, mesmo que se proíba o uso das aeronaves agrícolas, o problema da dispersão dos resíduos de agrotóxicos vai continuar devido aos usos e formulações erradas, onde concentrações excessivas dos produtos são aplicadas nas culturas. 

Espremida entre os diversos interesses econômicos, políticos e sociais, a questão ambiental é transformada numa espécie de refém do problema. São muitas as vozes que gritam em uníssono sobre a importância do agronegócio e de todas as receitas geradas pelas exportações de commodities agrícolas. Enquanto isso, populações são expostas direta e indiretamente a grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos que, conforme já comentamos em postagem anterior, vão se acumulando no organismo das pessoas e, com o passar do tempo, poderão culminar com o desenvolvimento de inúmeras doenças, muitas delas fatais. 

Em resumo: se ficar, o agrotóxico te pega; se correr, as nuvens de resíduos de produtos químicos arrastadas pelos ventos te comem… 

Um detalhe importante – os grandes produtores rurais e suas famílias, normalmente, moram nas grandes metrópoles, bem longe das problemáticas áreas rurais. 

OS TRABALHADORES RURAIS E OS AGROTÓXICOS

EPIs na agricultura

O uso excessivo de agrotóxicos de todos os tipos é um dos mais graves problemas ambientais vividos pelo país nas últimas décadas. Diferentemente dos grandes desmatamentos, dos vazamentos de barragens de rejeitos de mineração e de outras tragédias ambientais que são mostradas quase que diariamente pelos meios de comunicação, a contaminação de solos e águas com resíduos de agrotóxicos é um problema silencioso e invisível, que não chama facilmente a atenção das populações e, especialmente, das autoridades. Nas últimas postagens apresentamos alguns dados relativos a essa grande catástrofe ecológica. 

Agrotóxico é uma designação genérica de todo o conjunto de produtos químicos utilizados pela agricultura, onde se incluem defensivos, pesticidas, praguicidas, biocidas, agroquímicos e produtos fitofarmacêuticos ou fitossanitários. Essas substâncias químicas são utilizadas, basicamente, para matar formas de vida animal ou vegetal que são prejudiciais à saúde pública ou às culturas agrícolas. Incluem-se na lista os insetos, ácaros, moluscos, roedores, fungos, ervas daninhas e bactérias, entre outras. Os fabricantes e vendedores desses produtos não costumam informar nos rótulos e folhetos comerciais que esses agrotóxicos também matam pessoas. 

De acordo com algumas estimativas de organismos internacionais da área do trabalho, entre 200 mil e 300 mil pessoas morrem a cada ano vítimas, direta ou indiretamente, da contaminação por agrotóxicos. Esse é um número bastante difícil de se aferir uma vez que os respectivos atestados de óbito de cada uma dessas vítimas não trarão no campo “causa da morte” a expressão envenenamento por agrotóxicos. A causa mortis será algum tipo de câncer, infecção generalizada, falência múltipla de órgãos, pneumonia, entre outras doenças fatais. Os produtos químicos usados na produção dos agrotóxicos, a exemplo do benzeno, vão se acumulando no corpo das pessoas que têm contato frequente com esses venenos, tais como os trabalhadores rurais e as pessoas que vivem próximas das áreas de lavouras onde os agrotóxicos são aplicados, e ao longo do tempo acabam provocando inúmeras doenças. 

Dados do Ministério da Saúde, correspondentes a um período de 7 anos – de 2008 a 2014, indicaram um total de 34.147 notificações de centros médicos de todo o país referentes a pacientes intoxicados pelo uso de agrotóxicos; pelo menos, 2 mil mortes ligadas a esses casos foram confirmadas no período. Apesar de ser um número bastante expressivo e dramático, os dados parecem estar subnotificados – o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, absorvendo cerca de 19% de toda a produção desses produtos químicos. Se consideramos que todo esse volume de agrotóxicos foi manipulado e aplicado por trabalhadores de todo o país, as 5 mil notificações/ano de casos de contaminação nos parece muito insignificante. De acordo com a OMS – Organização Mundial da Saúde, para cada 1 caso notificado, outros 50 são “esquecidos”

Entre os principais problemas que levam à contaminação de trabalhadores rurais com resíduos de agrotóxicos está a manipulação incorreta dos produtos durante a diluição, os erros nas dosagens de produtos químicos necessários para as aplicações e, especialmente, a falta de uso de EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, especialmente luvas, botas e respirador/máscara, além de roupas impermeáveis. Na maior parte dos casos, esses trabalhadores não têm a exata noção dos riscos à sua saúde e não recebem ou não têm acesso a orientações com profissionais especializados. Muitos desses profissionais acreditam que estão aplicando “remédios de plantas” e não manipulando venenos. 

Mas o problema é bem mais sério do que aparenta ser – muitos dos EPIs disponibilizados para uso pelos trabalhadores rurais são tecnicamente inadequados para os usos em trabalhos na agricultura. Devido à baixa demanda, quando comparado com outras áreas como a indústria e a construção civil, as empresas fabricantes não fazem investimentos mais pesados em pesquisa e desenvolvimento de equipamentos específicos para uso na agricultura. É comum que se façam simples adaptações das peças usadas, por exemplo, na construção civil, para uso na agricultura. Graças a essas verdadeiras “artimanhas”, esses EPIs, mais ou menos improvisados, acabam expondo os trabalhadores ainda mais aos contaminantes. 

O uso dos equipamentos de segurança, entre outros procedimentos, foi definido pela Norma Regulamentadora 15 do Ministério do Trabalho (mais conhecida como NR-15), onde foram definidas as atividades profissionais ou operações insalubres, que expõem o trabalhador a danos à sua saúde, estabelecendo inclusive o pagamento de adicionais por insalubridade. A finalidade dos EPIs é, basicamente, a de proteger a integridade física dos trabalhadores contra uma série de riscos laborais: frio, calor, radiação, gases tóxicos, agentes químicos e biológicos, poeiras e vibrações, entre outros. Os EPIs utilizados nas atividades rurais muitas vezes não cumprem essa função, especialmente no que se refere à proteção contra agentes químicos. Citando um único exemplo – o trabalhador rural deveria usar uma roupa impermeável ao fazer a aplicação dos agrotóxicos nas lavouras (vide foto).  

Bem, imagine agora que a temperatura ambiente está na casa dos 40° C, algo muito comum nas regiões de Cerrado no Brasil Central, e que este trabalhador deverá usar um traje que, por falta de uma correta adaptação para o uso, fará com que a temperatura do seu corpo ultrapasse, em muito, a zona de conforto – o resultado é que esse trabalhador, simplesmente, vai se recusar a usar esse traje impermeável e fará a aplicação dos produtos químicos com roupas comuns, bem mais confortáveis. É esse o drama desses EPIs – são muito desconfortáveis e pouco práticos para as atividades no campo. E os trabalhadores se recusam a usar muitos desses equipamentos. 

Numa improvável visita de fiscais do Ministério do Trabalho a uma dessas propriedades rurais, se viverá uma situação de absoluta hipocrisia: os fazendeiros alegarão que compraram e distribuíram os EPIs a todos os seus empregados  (um fato bastante provável) e os trabalhadores rurais irão afirmar que, justamente naquele dia, o calor estava muito intenso e que, por causa disso, eles deixaram de usar esses equipamentos de segurança. Já os produtos químicos dos agrotóxicos, esses não dormem em serviço e farão a sua parte, contaminando um pouco mais os organismos desses trabalhadores. 

A situação é muito grave! 

CALANGO LENGO – UMA VISÃO ADOCICADA DO DRAMA DA SECA

A seca é um fenômeno natural que, periodicamente, assola extensas áreas do Semiárido Nordestino. Essa definição altamente racional, que por diversas vezes usamos em postagens publicadas aqui no blog, esconde todo o drama humano que se desenrola nessas situações extremas.

Para mostrar esse outro lado da seca, apresentamos uma animação brasileira, lançada em 2008, que trata da questão da seca de uma forma lúdica: CALANGO LENGO – MORTE E VIDA SEM VER ÁGUA. Dirigida por Fernando Miller, a animação participou de inúmeros festivais de cinema e foi indicada a vários prêmios. Apesar de todo esse sucesso no meio cinematográfico, Calango Lengo padece do mesmo mal que assola todas as produções de cinema de curta metragem – a falta de espaços comerciais para exibição. É por isso que pouca gente já assistiu essa animação.

Calango Lengo representa o espírito inquebrantável do sertanejo, que luta com todas as suas forças contra as secas e contra as dificuldades. Apoiado em sua fé, ele luta para continuar vivendo dos frutos de sua terra, na esperança que dias melhores ainda virão. Uma ótima ferramenta para os educadores ambientais e também para que você reflita sobre o tema.

Uma boa diversão e bom aprendizado a todos!

Clique aqui para ter maiores informações sobre o vídeo ou para ter acesso ao link da animação no Youtube.

A CONTAMINAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA POR AGROTÓXICOS

Agrotóxicos e água

O uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras brasileiras é um problema bastante grave, sobre o qual começamos a tratar na postagem anterior. Apesar de não ser o maior produtor agrícola do mundo, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos – 19% de toda a produção desses produtos químicos tem como destino as lavouras brasileiras. Entre outros inúmeros problemas, esse uso indiscriminado traz sérias consequências para o meio ambiente. E um dos maiores males é a contaminação de lençóis de água e aquíferos subterrâneos e de fontes de água superficiais

De acordo com um estudo do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, publicado em 2011, os resíduos de agrotóxicos são a segunda principal fonte de contaminação das águas do Brasil, ficando atrás apenas dos esgotos sanitários. Como quase nenhum avanço nessa área ocorreu nos últimos anos, é bem provável que a situação atual em 2018 seja até pior. De acordo com o estudo, os resíduos de agrotóxicos respondem por mais de 6% das contaminações das águas, ficando à frente dos despejos industriais e das contaminações geradas por atividades mineradoras

De acordo com especialistas em medicina, a maioria dos agrotóxicos são produzidos a partir de derivados de benzeno, uma substância tóxica altamente prejudicial à saúde e bastante associada ao desenvolvimento de casos de câncer. Segundo reportagem que tratou desse assunto, com informações da doutora Silvia Brandalise, médica do Centro Boldrini de Campinas, instituição especializada no tratamento do câncer infantil, e professora de Ciências Médicas da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas,  “os derivados de benzeno têm como ação importante a quebra de cromátides, que são elementos que compõem o cromossoma. Uma exposição aos derivados de benzeno ou à radiação, você consegue fazer uma mutação. Sendo assim, o câncer e outras doenças, que são mutações sucessivas, vão acontecendo na célula cronicamente exposta a esses produtos.” 

Conforme já comentamos em postagem anterior, as atividades agrícolas são as maiores utilizadoras de água do mundo, sendo responsáveis por mais de 70% do consumo. Os resíduos de agrotóxicos que ficaram acumulados nas plantas e nos solos acabam sendo carreados pela água usada na irrigação ou pelas chuvas na direção dos corpos d’água da região – parte desses resíduos acabam infiltrando nos solos e atingem as reservas subterrâneas de água. Diferentemente de outros contaminantes como esgotos domésticos, efluentes industriais e resíduos de mineração, que alteram as características e a cor das águas, os resíduos de agrotóxicos são “invisíveis” a olho nu – moradores das margens dos rios coletarão e utilizarão a água sem consciência dos riscos que estão correndo (excluam-se os casos onde as altas concentrações de produtos químicos deixarão a água com um cheiro forte). 

Além da contaminação direta da água, os resíduos de agrotóxicos afetam toda a biota aquática. A depender do tipo de produto químico, plantas, bactérias, invertebrados e pequenos peixes sofrerão as consequências da contaminação, que poderão, inclusive, levar grande parte das populações à morte. Há uma outra consequência bem mais séria – essas plantas e pequenos animais estão na base da cadeia alimentar dos rios e lagos, o que fatalmente levará à contaminação de peixes maiores. Esses poderão não ter maiores problemas com a ingestão dessas substâncias, que ficarão armazenadas nos tecidos adiposos. Caso esse peixe venha a ser pescado e consumido, esses produtos químicos acabarão sendo absorvidos e acumulados no corpo dos seres humanos, o que poderá resultar em intoxicações e envenenamentos, ou ainda, poderão desencadear uma série de doenças no longo prazo. 

A contaminação de reservas subterrâneas de água também é um problema gravíssimo. Conforme já comentamos em postagem anterior, as águas subterrâneas são fundamentais para o abastecimento de populações rurais e urbanas, que nem sempre podem contar com a disponibilidade de águas superficiais para o abastecimento. Na agricultura, essas águas são importantes para a irrigação, especialmente nos períodos da seca. Expostos sistematicamente à infiltração de água com resíduos de agrotóxicos, os aquíferos e lençóis subterrâneos de água vão apresentando níveis de contaminação cada vez mais altos. E como nem sempre as águas retiradas do subsolo passam por testes de laboratório para averiguar a sua qualidade e potabilidade, pessoas, animais e plantas podem estar sendo expostos a altos níveis de contaminantes químicos. 

Segundo algumas estimativas, apenas 1% dos agrotóxicos aplicados nas lavouras atingem o seu objetivo, que são ervas daninhas, insetos predadores, fungos, invertebrados e outras pragas prejudiciais – os 99% restantes acabam transformados em resíduos tóxicos. Esse é um dado assustador – as atividades humanas que envolvem a aplicação de agrotóxicos nas lavouras são, na verdade, operações de envenenamento do meio ambiente, com seríssimas consequências para os corpos d’água. 

É preciso se repensar tudo isso.