A IMPORTÂNCIA DO BIOMA CERRADO

Tamanduá-bandeira

Se você fizer uma pesquisa nos arquivos deste blog, irá encontrar dezenas de postagens onde falamos do Cerrado e de sua importância ambiental para grande parte do território brasileiro. Porém, apesar de toda essa importância, o Cerrado não é o mais fotogênico bioma do Brasil – quem conhece a Floresta Amazônica ou já visitou alguns dos fragmentos sobreviventes da Mata Atlântica, onde existe uma altíssima concentração de espécies vegetais e animais de todos os tipos e tamanhos, poderá duvidar de toda essa importância dada a um bioma formado por árvores raquíticas, campos limpos e sujos, com solos reconhecidamente de baixa fertilidade. 

O que o Cerrado tem de tão importante afinal? 

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2 milhões de km², somente ficando atrás da Floresta Amazônica, que ocupa uma área de 5,5 milhões de km² em 9 países – 60% da Floresta Amazônica fica em território brasileiro, ocupando cerca de 22% do território nacional. A área do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves florestais (ou manchas de Cerrado) no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. Neste espaço territorial encontram-se as nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul como a Amazônica, Tocantins/Araguaia, Paraguai, Paraná e São Francisco, o que resulta em um elevado potencial aquífero e favorece a sua biodiversidade

Com uma área tão grande, o Cerrado se apresenta sob diferentes formações florestais. Segundo o livro Fitofisionomias do Bioma Cerrado, publicada em 1998 por J. F. Ribeiro e B. M. Walter, a vegetação do Cerrado pode ser dividida em três grupos principais (outros autores dividem o bioma de forma diferente):  

Florestas: onde a vegetação é dividida em Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca e Cerradão (que é uma savana florestada);  

Savanas: onde se encontra a formação Cerrado, os Parques de Cerrado, os Palmeirais e as Veredas; 

Campos: grandes extensões cobertas por Campos Limpos, Campos Sujos e os Campos Rupestres. 

Esses diferentes sistemas florestais abrigam uma grande biodiversidade de espécies animais: já foram catalogadas mais de 1.500 espécies entre mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, além de insetos e moluscos. As espécies mais carismáticas são o lobo-guará, o tamanduá-bandeira (vide foto), o tatu-bola, o cervo-do-pantanal, o cachorro-vinagre, a onça-pintada e a lontra. 

Essas formações florestais do Cerrado, conforme comentamos no início deste texto, não apresentam nada que pareça tão excepcional assim. Se você estiver atravessando uma região de Cerrado numa viagem por uma estrada, verá árvores de médio porte com no máximo 15 metros de altura (em áreas úmidas, na beira de rios, essa altura poderá chegar a 25 metros), muitos campos sujos repletos de grandes formigueiros e campos limpos, cobertos por uma vegetação alta de gramíneas. Aliás, se você estiver fazendo essa viagem na época da seca, aí é que você não ficará nem um pouco admirado com as paisagens. 

A grande importância do bioma Cerrado está justamente em uma parte da vegetação que você não vê: as raízes ou sistemas radiculares da vegetação. Grosso modo falando, nós podemos comparar uma árvore do Cerrado com um iceberg, aquelas grandes montanhas de gelo que flutuam nos oceanos e que, de vez em quando, causam danos nos navios – a maior parte do gelo do iceberg está embaixo d’água. As árvores do bioma, que normalmente se apresentam raquíticas, com troncos retorcidos e folhas pequenas, na verdade se mostram como plantas gigantescas quando se passa a observar o tamanho de suas raízes, que em muitos casos chegam a atingir dezenas de metros de profundidade

Os solos pobres do bioma Cerrado guardam uma fabulosa riqueza: inúmeros aquíferos e lençóis subterrâneos de água, que alimentam algumas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil como as do rio Paraná, São Francisco e Tocantins/Araguaia. Alguns dos maiores e mais importantes aquíferos do país estão localizados em regiões de Cerrado: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani (esse parcialmente). A evolução da vegetação do Cerrado se deu justamente no sentido de permitir que as longas raízes das plantas conseguissem acessar essa água do subsolo. Mas há um outro detalhe extremamente importante: quando chega o período das chuvas, são esses sistemas de raízes longas dessas vegetações os principais responsáveis pela infiltração da água no subsolo e a recarga dos sistemas de aquíferos e reservas subterrâneas de água

Com o avanço da fronteira agrícola pelas regiões de Cerrado, grande parte dessa vegetação nativa foi derrubada e substituída por plantações de soja e milho, além da criação de áreas de pastagens para alimentação de rebanhos. As raízes curtas dessas plantas não têm, nem de longe, as características da vegetação original do bioma: a água da chuva não consegue penetrar através das inúmeras camadas do solo e assim chegar aos aquíferos subterrâneos – não há uma recarga adequada das reservas subterrâneas. E sem a água dos aquíferos, as nascentes de muitos rios estão, literalmente, secando. 

Na próxima postagem falaremos mais sobre esse problema. 

O CERRADO, A SOJA E AS GRANDES BACIAS HIDROGRÁFICAS DO BRASIL

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Quem acompanha as postagens aqui do blog, com certeza deve ter estranhado toda uma sequência de postagens falando da história da soja no Brasil. A partir da postagem de hoje, você vai poder entender claramente onde nós queríamos chegar – o avanço da soja nas regiões do Cerrado brasileiro está causando sérios impactos no regime das águas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil. Para que todos entendam a dimensão deste problema, vamos dar uma visão geral da importância hidrológica do Cerrado – a região é o verdadeiro berço das águas do Brasil

Ocupando uma área equivalente a um quarto do território brasileiro, o Cerrado possui um clima com uma marcante estação de chuvas, além de solos altamente porosos e adequados para o armazenamento de grandes volumes de águas em seus aquíferos. A combinação de todas estas características resulta nas fecundas nascentes de águas de importantes rios que formam 8 grandes bacias hidrográficas brasileiras: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Ocidental e Amazônica

Para que você consiga visualizar o que tudo isso significa, segue uma descrição resumida de cada uma destas bacias hidrográficas, com a indicação das áreas totais de drenagem e das regiões onde estão localizadas, que se espalham por todos os cantos do Brasil: 

bacia hidrográfica do rio Paraguai tem uma área total de 1,1 milhão de km² e abrange áreas dos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, incluindo também áreas em territórios da Argentina, do Paraguai e da Bolívia. O Paraguai é o principal rio da bacia hidrográfica. 

bacia hidrográfica do rio Paraná abrange uma área de 879 mil km², distribuídos pelos Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, além do Distrito Federal. O Rio Paraná é o principal rio da bacia hidrográfica, que conta ainda com importantes rios como o Grande, Paranaíba, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. As bacias hidrográficas do Paraguai e do Paraná se juntam, formando a bacia hidrográfica do Rio da Prata, a segunda mais importante da América do Sul. 

bacia hidrográfica Araguaia-Tocantins é formada pela junção das águas dos rios Tocantins e Araguaia, se estendendo pelos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Pará e Maranhão, além do Distrito Federal. É a maior bacia hidrográfica totalmente brasileira. Esta bacia ocupa uma área de aproximadamente 767 mil km², equivalente a 7,5% do território brasileiro. 

bacia hidrográfica do Atlântico Leste ocupa uma área de 388 mil km², se estendendo desde o Nordeste do Estado de Minas Gerais, Norte do Espírito Santo, Leste da Bahia, além do Estado de Sergipe. Os principais rios formadores desta bacia hidrográfica são o Paraguaçu, das Contas, Salinas, Pardo, Jequitinhonha, Mucuri e Itapicuru. 

bacia hidrográfica do rio Parnaíba abrange quase totalmente o Estado do Piauí e partes do Maranhão e do Ceará, com uma área total de 344 mil km². O Parnaíba é o principal rio da bacia hidrográfica, com aproximadamente 1.400 km de extensão e com nascentes no Sul do Piauí. 

bacia hidrográfica do Atlântico Nordeste Ocidental possui uma área de 254 mil km², que engloba grande partes dos Estados do Maranhão e do Pará. Tem como principais formadores os rios locais: Gurupi, Turiaçu, Pericumã, Mearim, Itapecuru, Kabrelindzom e Murim; 

Rios com nascentes no Cerrado também são tributários da maior bacia hidrográfica do mundo – a do Rio Amazonas, que ocupa uma área de quase 7 milhões de km². Os principais tributários com nascentes em áreas da região do Cerrado no Estado de Mato Grosso são o rio Xingu e os rios Teles Pires, Arinos e Juruena, formadores da bacia hidrográfica do rio Tapajós. Também se inclui nesta lista o rio Guaporé, afluente da bacia hidrográfica do Rio Madeira, com nascente no Estado do Mato Grosso, entre outros rios. 

E não menos importante, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco, que drena uma superfície com uma área total de 639 mil km² e se estende naturalmente pelos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, e através do Sistema de Transposição já atinge o Estado da Paraíba e, em breve, chegará também aos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte. 

Apesar de fornecer água para a maioria das bacias hidrográficas do Brasil, existe uma grande diferença no volume destas contribuições: enquanto as águas de rios com nascentes na região do Cerrado contribuem com apenas 4% das águas da gigantesca bacia Amazônica, na bacia hidrográfica do Rio São Francisco essa contribuição corresponde a 94%. Isto significa que a eventual destruição das fontes de água da região do Cerrado seria quase irrelevante para a região da bacia Amazônia e catastrófica para a região do Semiárido. 

Infelizmente, o avanço das fronteiras agrícolas em áreas do Cerrado, especialmente com a cultura da soja, já apresenta como resultados uma visível redução nos caudais destas bacias hidrográficas – no caso do Rio São Francisco, que é altamente dependente dessas águas, essa redução é muito mais do que visível: é alarmante! 

A SOJA E O CERRADO

Até meados da década de 1970, a soja era uma ilustre desconhecida da maioria dos brasileiros – quem vivia fora da região Sul ou de lugares com grande presença de imigrantes de origem japonesa, apreciadores do grão em sua culinária, não tinha a menor ideia do que era um grão de soja. Ao contrário de toda essa maioria de pessoas, eu conheço a soja desde a mais tenra infância – minha família, desde muito tempo, é adepta de vida e alimentação saudável e assados, bolinhos e leite de soja sempre tiveram seu espaço em casa (algumas receitas, é claro, deixaram uma lembrança não muito boa – algo como serragem rançosa). Também lembro claramente da primeira vez que vi soja plantada no sítio de um dos meus tios em Lutécia, no Oeste do Estado de São Paulo, isso por volta de 1975. Foi uma espécie de plantio experimental, para verificar a produtividade do grão entre as safras de milho – não tenho ideia dos resultados obtidos. 

Esse ano, 1975, é uma espécie de marco na história da soja no Brasil. Os Governos militares da época tinham enorme interesse na expansão da produção de grãos em regiões do país de baixa população, especialmente na região do Cerrado brasileiro. O mundo vivia na época um momento complicado da Guerra Fria entre russos e americanos, que disputavam a liderança da humanidade na época. Aqui no Brasil, os nossos militares estavam preocupados com algumas ideias como a internacionalização da Amazônia, proposta feita por algumas nações estrangeiras na época – a prioridade dos Governos militares na época era a ocupação, no menor tempo possível, de grandes vazios em nosso território.  Um marco dessa época do “Brasil Grande” foi a construção da Rodovia Transamazônica, que ia desde o Leste da Paraíba até o Oeste do Estado do Amazonas, um caminho para “levar homens sem terras para uma terra sem homens”. 

Foi dentro desse contexto histórico que a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, através do seu Centro Nacional de Pesquisa de Soja, passou a trabalhar em pesquisas para o desenvolvimento de cultivares do grão adaptadas às condições de solo e de clima do Brasil. No final da década de 1970, foram anunciadas as primeiras variedades de soja adaptadas ao clima Tropical e aos solos do Cerrado brasileiro, algo que mudaria completamente os rumos da agricultura no Brasil.  

As áreas de Cerrado foram consideradas por muito tempo como inadequadas para a agricultura comercial de larga escala. Com solos extremamente ácidos e considerados pouco férteis, extensas regiões do território brasileiro ficaram ocupadas por pequenas propriedades rurais e por reduzidas lavouras de subsistência durante vários séculos. Foi graças ao desenvolvimento de tecnologias para a correção do solo e, principalmente, com o desenvolvimento de sementes adaptadas para crescimento em regiões do Cerrado que esse panorama começou a mudar rapidamente já na década de 1970. Com grandes incentivos do Governo Federal, um grande número de agricultores, especialmente da região Sul, foi deslocado para regiões de Cerrado em todo o Brasil.  

O Cerrado era considerado plano e com farta disponibilidade de recursos hídricos para a irrigação. Com a mudança da capital brasileira para a nova cidade de Brasília em 1960, foram feitos grandes investimentos na construção de rodovias em direção ao Planalto Central e para toda a Região Centro-Oeste, o que favorecia tanto o escoamento da produção de grãos quanto o fluxo de imigrantes de outras regiões na direção da nova fronteira agrícola. Os campos agrícolas se expandiram rapidamente na direção de Mato Grosso, que acabou dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre, de um lado, e Norte de Goiás, que acabou se transformando no Estado de Tocantins, Oeste da Bahia e, mais recentemente, na direção do Sul do Estado do Piauí e do Maranhão. Regiões do Cerrado nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que já estavam ocupadas por cidades e plantações experimentaram saltos na produtividade.  

Atualmente, os antigos domínios do Cerrado concentram 36% de todo o rebanho bovino, 63% da produção de grãos – 30% do Cerrado foi transformado em pastagens para boiadas. No Cerrado, a soja representa 90% (15,6 milhões de hectares) da agricultura do bioma. Para se ter uma dimensão, na safra 2013/2014, mais da metade (52%) da soja cultivada no Brasil estava concentrada no Cerrado

Nos últimos dez anos, o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação  e de espécies animais (vide foto) nativas do Cerrado. 

Toda essa expansão de campos agrícolas e de pastagens em áreas de Cerrado tem um alto custo ambiental, que se traduz na redução dos caudais das bacias hidrográficas com nascentes no bioma – das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem nascentes em áreas do Cerrado, com destaque para a bacia do Rio São Francisco. A redução nos volumes de água faz-se sentir por todo o território brasileiro. Infelizmente, o avanço da fronteira agrícola que se viu nos últimos 50 anos já consumiu aproximadamente metade do bioma, fragmentando o Cerrado em inúmeras ilhas – ilhas de vegetação cercadas por campos de grãos por todos os lados. 

Na próxima postagem vamos detalhar os impactos ambientais desse avanço da soja no Cerrado. 

A SOJA AVANÇA PELO SUL DO BRASIL

Trigo

Na última postagem, mostramos os primeiros anos da soja no Brasil, que começou como uma espécie de cultura marginal nos campos do Rio Grande do Sul e, pouco a pouco, começou a se expandir para outras regiões, até se transformar num dos grãos mais importantes produzidos no Brasil. Na postagem de hoje, vamos mostrar um pouco da expansão do grão para os Estados de Santa Catarina e Paraná. 

Um marco da história da soja no Rio Grande do Sul se deu em 1949, quando foram registradas as primeiras exportações do grão. Outra data importante para a cultura no Estado foi 1958, ano em que começou a funcionar a primeira unidade industrial voltada para o processamento da soja. Essa fábrica tinha a capacidade de esmagar cerca de 150 toneladas do grão a cada dia, o que foi mais um estímulo para a produção da soja no Rio Grande do Sul na década de 1960. Mas o grande impulso para a produção da soja veio com a nova política governamental para a expansão da cultura do trigo em terras gaúchas – a soja passou a funcionar como a cultura de sucessão após a colheita do trigo (vide foto)

Essa cultura de sucessão também acabou sendo expandida para Santa Catarina e para o Paraná. No Estado do Paraná, a soja teve seu começo sendo plantada no entre-ruas dos cafezais ainda na década de 1960. Com o processo de erradicação dos cafezais a partir da década de 1970 e com a abertura de novos campos agrícolas, a produção de soja teve grande expansão no Estado, sendo plantada como cultura de sucessão com o trigo e com o milho. Em Santa Catarina, os primeiros registros de soja datam dos primeiros anos da década de 1970. O trigo era a principal cultura agrícola do Estado, tendo sua produção concentrada nos meses de frio – a soja passou a ser uma opção para plantio nos meses de verão, ocupando as terras ociosas. É importante lembrar que nesse período, o Rio Grande do Sul era o grande fornecedor de sementes para os Estados vizinhos e as variedades de soja plantadas tinham praticamente as mesmas características, sendo bastante adaptadas para as características climáticas da região Sul. 

Até 1975, todas as variedades de soja plantadas no Brasil, especialmente na região Sul, eram de origem norte-americana, adaptadas para as condições climáticas daquele país e, razoavelmente, adaptáveis para as condições climáticas do Sul brasileiro. Essa pouca adaptabilidade ao clima e aos solos do Brasil se refletia numa baixa produtividade – a produção mal chegava a 20 sacas de 60 kg por hectare (cerca de 1.200 kg/hectare), valor muito abaixo da atual produtividade média brasileira, que supera o valor de 3.100 kg/hectare. Essa baixa produtividade tinha reflexos nos custos de produção, que eram muito altos – o plantio da soja só compensava mesmo como uma cultura de sucessão para os meses de calor, onde os agricultores se aproveitavam dos subsídios governamentais dados para a produção do trigo

A criação do Centro Nacional de Pesquisa de Soja em 1975, uma unidade da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, viria a mudar o cenário do grão no país. A principal missão desse Centro era a pesquisa e o desenvolvimento de variedades de soja adaptadas às diversas condições de solo e de climas do Brasil, inicialmente focada na região Sul. Outra missão importante desse Centro era o desenvolvimento de técnicas de plantio específicas para as condições brasileiras. Os ganhos em produtividade passaram a viabilizar as plantações, tornando a cultura atrativa do ponto de vista financeiro. Outro aspecto altamente relevante foi a consolidação do complexo da soja a partir da instalação de indústrias produtoras de óleo, rações, de produção de sementes, de fertilizantes e de defensivos agrícolas. Todo esse complexo criou estabilidade para os plantadores do grão, que passaram a ter demanda garantida para o seu produto, estimulando cada vez mais a expansão da cultura, que passou a ocupar espaços no campo cada vez mais importantes ao lado do trigo, do feijão e do milho. 

Foi a partir dessa experiência na região Sul do país que a Embrapa deu um verdadeiro salto na criação de novas variedades de soja, atingindo um novo patamar que mudaria para sempre os campos brasileiros: a adaptação da cultura para os climas quentes e para as características dos solos do Cerrado brasileiro. A história da soja e da agricultura, com todos os problemas ambientais que conhecemos, nunca mais seria a mesma – a soja deixaria de ser uma coadjuvante nos campos e passaria a ocupar o papel principal. 

Falaremos disso em nossa próxima postagem. 

OS CAMINHOS DA SOJA NO BRASIL: RIO GRANDE DO SUL

Grão de soja

Na última postagem eu fiz uma apresentação geral da cultura da soja no Brasil, grão que se tornou uma das grandes commodities do nosso agronegócio e responsável por boa parte do superávit comercial do país. O “grão dourado” também é responsável por grande parte da devastação florestal que se assistiu no Cerrado brasileiro a partir da década de 1970 e, nos últimos anos, a cultura passou a se expandir rumo ao Norte, se instalando em terras da região Amazônica.  

Esse avanço da agricultura e também da pecuária, muito mais do que uma fonte de receitas para a economia do país, faz soar um sinal de alerta – até que ponto é um bom negócio devastar a maior floresta equatorial do mundo em função da produção de soja e carnes? 

Vamos começar entendo quais foram os caminhos que o grão de origem asiática percorreu ao longo de mais de um século antes de chegar aos limites da Floresta Amazônica. E foi um longo caminho. 

Durante muito tempo, a soja foi considerada uma espécie de “curiosidade” agrícola. As primeiras sementes do grão foram trazidas dos Estados Unidos e chegaram à Escola de Agronomia da Bahia em 1882. Vários agricultores receberam as sementes com instruções para o plantio, que acabou não sendo muito bem-sucedido por causa do clima quente da Bahia – a planta preferia um clima Temperado como o do Meio-Oeste americano. Os agricultores também não conseguiam entender exatamente para que ela servia – o grão, apesar de lembrar um pouco ao feijão, não tinha o mesmo sabor ou textura quando cozido e temperado. 

Há notícias de estudos com a soja em 1891 no Instituto Agronômico de Campinas no interior do Estado de São Paulo, que segundo consta, distribuiu sementes da planta para diversos produtores. De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, foram realizados plantios experimentais da planta a partir de 1901 no Estado do Rio Grande do Sul, onde se buscava melhores resultados graças ao clima Subtropical, mais próximo do clima Temperado dos Estados Unidos.

No Estado de São Paulo, após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses, o grão passou a ser encontrado no comércio com um pouco mais de facilidade. Fora esses casos isolados, não há notícias do cultivo da soja em maior escala até 1914, quando produtores do Noroeste do Rio Grande do Sul passaram efetivamente a plantar soja com vista à produção de ração para porcos. 

Uma das histórias interessantes sobre o começo da cultura da soja no Brasil e que demonstra o quanto a sua produção era considerada “marginal” pelos agricultores pode ser vista na história de Albert Lehenbauer, um missionário luterano americano, que foi o responsável pela popularização do grão entre os seus paroquianos. Segundo os relatos preservados, o pastor Lehenbauer ficou extremamente chocado com o grau de pobreza de algumas vilas rurais da região de Santa Rosa, cidade gaúcha para a qual ele foi enviado como missionário.

Em 1923, voltando de uma viagem de férias aos Estados Unidos, o pastor trouxe algumas garrafas com grãos de soja. Esses grãos foram distribuídos em pequenas latas e punhados entre os membros de sua congregação. O pastor Lehenbauer orientou pessoalmente cada agricultor sobre o plantio da soja, ensinando a cada um sobre o grande potencial energético do grão para a engorda dos animais, especialmente os porcos. Essas comunidades rurais podem ser consideradas as primeiras do Brasil a viverem do plantio da soja. 

O cultivo da soja só passou a ganhar destaque a partir da década de 1940, quando as indústrias perceberam o potencial do grão para a produção de óleos e gorduras vegetais. Com o avanço da urbanização, que passou a se acentuar a partir dessa data, as famílias passaram a mudar alguns de seus hábitos alimentares – o tradicional uso da banha de origem animal para a preparação de alimentos passaria a ser substituído pelo uso de óleos e gorduras de origem vegetal.

Além desse uso, a soja passou a encontrar seu espaço como uma nova fonte de proteína para consumo humano, especialmente na forma de farinhas para o enriquecimento de alimentos, e também se consolidou como insumo básico para a fabricação de rações para alimentação animal. E foi assim, lentamente, que o grão de origem asiático passou a fazer parte das paisagens gaúchas, disputando seu espaço com o trigo e o arroz, e também com a pecuária, essas as mais tradicionais atividades dos Campos Sulinos ou Pampas. 

Continuamos na próxima postagem. 

A SOJA, AS MATAS E OS SOLOS

Soja

Desde os primeiros tempos do Brasil colonial, nossas terras vêm se prestando aos mais diferentes usos agrícolas: cana-de-açúcar, café, algodão, laranja, cereais de todos os tipos. A cada avanço das frentes agrícolas, diferentes biomas acabaram sucumbindo sob o fogo e o avanço das plantações. Nenhuma cultura agrícola, entretanto, avançou tão rapidamente em nosso país como a soja. E este fenômeno não se deu apenas em terras brasileiras: a soja avançou por diferentes países como Índia, Estados Unidos, Argentina, Paraguai e, nas últimas décadas, por diversos países africanos. Ao contrário de culturas tradicionais como o trigo, a cevada e o centeio, que gastaram milhares de anos para conquistar o mundo, a soja o fez em menos de um século. Vamos tentar entender um pouco disso:

A soja surgiu originalmente na China há cerca de 5 mil anos atrás, a partir do cruzamento de duas espécies selvagens de grãos. O grão resultante desse cruzamento, com alto teor de gordura e proteína, rapidamente caiu no gosto popular e passou a ser um ingrediente fundamental na culinária chinesa na forma de óleos e molhos. Foi ao longo do século XX que a soja começou a ganhar o mundo, tendo sido plantada inicialmente nos Estados Unidos, onde o grão se adaptou rapidamente ao clima, muito similar ao da China. No Brasil, a soja começou a ser plantada inicialmente no Rio Grande do Sul, única região de clima próximo ao Temperado. 

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, realizou diversos trabalhos de pesquisa com a soja, conseguindo climatizar e adaptar o grão às condições de clima do Brasil. O grande êxito da EMBRAPA, porém, foi conseguir adaptar a soja às características de solo do Cerrado brasileiro, feito que transformaria o país no segundo maior produtor do grão. O Cerrado sempre foi considerado um bioma pobre, com solos improdutivos – aliás, foi graças a essa “pobreza” que o bioma conseguiu atravessar pela maior parte da história do país praticamente intocado: foi a adaptação da soja às terras com alto teor de alumínio do Cerrado a principal responsável pela devastação do bioma a partir de meados da década de 1970. 

Brasil e Estados Unidos disputam, cabeça a cabeça, a posição de maior produtor mundial de soja, que em 2017 atingiu a cifra de 351,3 milhões de toneladas, em uma área de mais de 120 milhões de hectares ao redor do globo. A produção dos Estados Unidos atingiu a cifra de 117,2 milhões de toneladas (33,4% da produção mundial) com uma área plantada de 33,4 milhões de hectares. A produção do Brasil atingiu a cifra de 113,9 milhões de toneladas (32,4% da produção mundial), com uma área plantada de 33,9 milhões de hectares. Apesar da altíssima produtividade das lavouras brasileiras, nosso país peca pela falta de uma infraestrutura adequada para o escoamento da produção, feita basicamente por caminhões em rodovias com péssimas condições de conservação. Nas épocas de colheita, é comum a formação de gigantescas filas de carretas nas rodovias e nos acessos aos portos, com queima de grandes volumes de combustível, muita poluição e perda de produtividade. 

O Estado do Mato Grosso é o maior produtor brasileiro de soja. Na safra 2016/2017 sua produção atingiu a cifra de 30,5 milhões de toneladas, com uma área plantada de 9,3 milhões de hectares. Na segunda colocação encontramos o Estado do Paraná, com uma produção de 19,5 milhões de toneladas e o Rio Grande do Sul com uma produção bem próxima, atingindo a cifra de 18,7 milhões de toneladas. Em termos percentuais, Mato Grosso lidera o ranking nacional com 26,8% da produção de soja, com o Paraná na segunda colocação com 17,1% e o Rio Grande do Sul na terceira colocação com 16,4%. 

Cerca de 41,5% da soja produzida no Brasil ou 47,2 milhões de toneladas são destinadas ao mercado interno, especialmente usada na produção de óleo, margarinas e gordura vegetal, além da produção de ração e farelo para alimentação animal. Perto de 51,6 milhões de toneladas serão exportadas in natura, especialmente para a China, responsável pela compra de mais de 65% da produção brasileira, e para a União Europeia, responsável pela compra de 11,6% de nossa produção. O Brasil é considerado o maior exportador mundial de soja, com os Estados Unidos, Argentina e Paraguai vindo na sequência

Apesar desses números grandiosos, a cultura da soja causa inúmeros problemas ambientais por todo o país, especialmente por causa do avanço das culturas contra as matas, destruição de solos, contaminação e assoreamento de rios, perda de biodiversidade animal e vegetal em várias regiões, contaminação de terras e águas com resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos, entre outros problemas. 

Nas próximas postagens vamos explorar alguns desses problemas, especialmente aqueles ligados aos solos e as águas. 

RAPANUI: OS MISTÉRIOS DA FLORESTA PERDIDA DA ILHA DE PÁSCOA

Ilha de Páscoa

Sempre que falamos da destruição e queima de florestas para a formação de campos para a agricultura, a imagem de uma pequena ilha perdida no meio do Oceano Pacífico me vem à mente – a Ilha de Páscoa. Sua história tem muito para nos ensinar: 

A colonização das ilhas do Oceano Pacífico pelos polinésios é, de longe, a maior saga das migrações oceânicas da história da humanidade. Partindo do Sudeste asiático em canoas primitivas repletas de pessoas, animais domésticos e plantas, os polinésios iniciaram por volta do ano 1.200 A.C. a colonização das ilhas oceânicas isoladas no Oceano Pacífico. Sem mapas, instrumentos náuticos ou conhecimentos das correntes oceânicas e do regime de ventos, esses pioneiros navegadores se lançaram rumo ao horizonte azul seguindo as estrelas, as aves migratórias e as nuvens. Ao longo de dois milênios, os polinésios desbravaram o maior de todos os Oceanos, com uma área total equivalente a um terço da superfície terrestre. E um dos locais mais remotos alcançados pelos polinésios foi Rapanui, a Ilha de Páscoa, por volta do ano 300 d.C. 

A Ilha de Páscoa é considerada a porção de terra mais isolada do mundo, distante cerca de 3 mil km da costa do Chile e cerca de 2 mil km da Ilha Pitcairn e outras ilhas polinésias mais próximas. A ilha foi descoberta em 5 de abril de 1722, um domingo de Páscoa, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen. Além das impressionantes estátuas de pedra, os moais, encontrados por todos os cantos, a desolação da ilha, praticamente despida de qualquer árvore ou arbusto, foi uma das características que mais chamou a atenção destes primeiros europeus que ali desembarcaram. As ilhas da Polinésia são cobertas por uma vegetação luxuriante, que se estende desde as praias até o topo das montanhas de origem vulcânica. Por que Rapanui era tão diferente de todas as outras ilhas? 

Na verdade, conforme uma série de estudos viria a demonstrar, a Ilha de Páscoa era coberta originalmente por uma densa floresta subtropical com grande árvores e bosques frondosos – a destruição dessa floresta foi obra humana. 

Um dos primeiros pesquisadores a se debruçar sobre essa questão foi o explorador, zoólogo e geógrafo norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002), que em meados da década de 1950 realizou inúmeras pesquisas de grande envergadura na ilha. No comando de uma equipe de 23 pessoas, Heyerdahl descobriu que a ilha já havia sido totalmente coberta por vegetação. Uma das descobertas mais surpreendentes, porém, ocorreu após o estudo da grossa camada de sedimentos do fundo de um lago localizada na cratera de um antigo vulcão. Analisando os sedimentos a partir de tempos mais remotos se observou uma sucessão de camadas ricas em pólen, o que indica a presença de grandes áreas cobertas por florestas e vegetação. Em um determinado ponto, desaparece qualquer vestígio de pólen e os sedimentos apresentam uma camada negra de fuligem – deste ponto em diante o pólen praticamente desaparece dos sedimentos. 

Uma análise detalhada de todas essas informações levou os pesquisadores a concluírem que, em um determinado momento, toda a vegetação da ilha foi queimada em um grande incêndio florestal que durou várias semanas. Thor Heyerdahl especula em um dos seus escritos sobre a Ilha de Páscoa que esse incêndio pode ter sido provocado intencionalmente pelos primeiros polinésios que desembarcaram na Ilha, que talvez estivessem tentando abrir uma clareira para a construção de sua aldeia e plantio de suas roças de subsistência. O fogo, porém, parece ter fugido completamente do controle e acabou por destruir a maior parte da cobertura vegetal da ilha. O uso posterior de lenha para as fogueiras, madeira para a construção de casas e de embarcações, e também de andaimes e plataformas para a construção dos moais se encarregou de consumir todas as reservas florestais remanescentes. 

A situação dos solos da Ilha de Páscoa só não se tornou mais desesperadora devido à sua origem vulcânica, onde há grande presença de elementos químicos como fósforo, potássio e nitrogênio, o que garante uma grande fertilidade e permitiu que a pequena população da ilha continuasse a produzir os seus alimentos. Sem a presença desses elementos, a Ilha de Páscoa já teria sido transformada em um grande bloco de rocha estéril e desabitado perdido no meio do oceano. 

Nesses tempos em que assistimos um avanço furioso da humanidade contra os últimos remanescentes florestais do planeta, a história da Ilha de Páscoa soa como uma espécie de alerta contra a estupidez humana. O aumento constante do número de habitantes do planeta impõe um aumento contínuo da produção de alimentos e de matérias primas – porém, o meio ambiente tem seus limites e a Ilha de Páscoa está aí para nos mostrá-los. 

TERRA PRETA DE ÍNDIO: UMA ALTERNATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA

Mandioca

As terras negras ou terras pretas de índio, conforme comentamos na última postagem, são manchas de solo com excepcional fertilidade encontradas em toda a região Amazônica. Esses solos são ricos em nutrientes como magnésio, fósforo, zinco, manganês, cálcio e potássio, além de carbono orgânico. Esses solos não são de origem natural, mas sim de origem antrópica e, segundo estudos já realizados, eles começaram a ser formados a cerca de 4 mil anos atrás, quando grupos de indígenas pré-colombianos começaram a ocupar a região. Apesar de ser um tema praticamente desconhecido da maioria dos brasileiros, o uso dessas terras para a produção agrícola faz parte do dia a dia de milhares de ribeirinhos de toda a Bacia Amazônica e também da vida de inúmeras nações indígenas. Vamos falar um pouco disso. 

Um exemplo prático da importância dos solos escuros da Amazônia na vida cotidiana das populações indígenas foi observado por Morgan Schimidt, um pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, que estudou as terras pretas no território dos índios Kuikuro no Alto Xingu, no Estado de Mato Grosso. O pesquisador observou que os Kuikuro constroem as suas aldeias em áreas próximas dessas manchas de solo escuro, que podem estar até 20 km de distância. As terras são utilizadas para a prática agrícola, especialmente na produção do milho. O pesquisador também observou que os índios, nas suas atividades diárias, continuam produzindo terra preta: os índios cavam valas no solo para usar no descarte de resíduos de alimentos, cinzas, ossos, restos de peixes e de caças, conchas, folhas de palmeiras, serragem e restos de madeira, dejetos humanos e outros detritos. Esse composto, que muitas é incendiado, é a base para a formação das terras pretas. 

Um outro caso interessante é o dos índios Munduruku do rio Tapajós, no Estado do Pará. Essa tribo está lutando contra o projeto para a construção de uma usina hidrelétrica em Itaituba, obra que poderá forçar os índios a terem de abandonar as suas terras. Os índios estão lutando pela demarcação do seu território, inclusive incluindo a existência das manchas de terra preta como uma prova da ocupação ancestral do território pela etnia. A mancha de terra preta das terras dos índios Munduruku, que aliás é uma das maiores de toda a Amazônia, também abriga a comunidade de Montanha Mangabal. 

Índios e ribeirinhos praticam uma agricultura de subsistência, onde se inclui a produção de grãos, mandioca, pimenta e frutas. De acordo com as informações dos agricultores, a terra tem altíssima produtividade, sem que haja necessidade de qualquer tipo de manejo especial ou aplicação de qualquer tipo de fertilizante. Uma preocupação desses produtores, que mostra o desconhecimento que ainda existe sobre as terras pretas de índio, é a realização de obras pelos Governos nessas áreas, como é o caso da usina hidrelétrica em estudo: se aprovado o projeto, as águas do reservatório vão encobrir uma das maiores manchas de terra preta de índio conhecidas da Amazônia. Assim como essa obra em estudo, rodovias, ferrovias, cidades, áreas portuárias e outras obras, simplesmente não consideram a existência das terras negras. 

Mas é a população ribeirinha dos rios da Amazônia uma das que mais se beneficia das terras pretas de índio, que são utilizadas para produção das suas culturas de subsistência e também de excedentes de produção para a venda. As margens dos rios concentram as maiores quantidades de manchas de terra preta da Amazônia, onde a fertilidade dos solos e a pouca necessidade de preparo para o plantio sempre funcionaram como um atrativo para a fixação dessas populações.  

Em tempos onde a preocupação com a preservação da Floresta Amazônica ganha cada vez um número maior de defensores em todo o mundo, a utilização das manchas de terra preta para a implantação de projetos de desenvolvimento sustentável torna-se uma grande alternativa de trabalho e renda para os pequenos produtores, onde é possível a produção de alimentos orgânicos, sem a necessidade do uso de qualquer tipo de fertilizante químico. Esse tipo de uso sustentável garante a preservação da cobertura vegetal e a execução de trabalhos de melhoramento contínuo dos solos com a produção de grãos, tubérculos e árvores frutíferas. 

Como se vê, é possível se criar toda uma nova dinâmica econômica na região Amazônica usando apenas uma tecnologia criada por índios há milhares de anos atrás. Simplesmente surpreendente!

AS “TERRAS PRETAS” DA AMAZÔNIA

Terra preta de índio

Para muita gente, a Amazônia, a maior floresta equatorial do mundo, é um dos últimos lugares intocados do planeta e sua preservação é fundamental para o futuro da humanidade. A Floresta Amazônica é sim fundamental para o controle do clima e das chuvas em grande parte do continente americano, uma função que tem grande repercussão no clima global. Porém, para a decepção de muita gente, ela não é uma floresta intocada: há cerca de 4 mil anos atrás, grande parte da floresta estava sendo queimada para a formação de grandes campos agrícolas, que eram necessários para sustentar grandes populações. E as evidências desse processo de ocupação humana estão por todos os lados, nas chamadas “terras pretas de índio”. 

Os solos naturais da Amazônia são dos tipos arenosos e argilosos, muito pobres em nutrientes – a imponência da vegetação da grande floresta pode até passar uma impressão diferente. O segredo da Amazônia está na grossa camada de húmus formado pelo acúmulo de folhas e árvores caídas, e também pela decomposição dos corpos de animais mortos – ou seja, é a própria floresta que gera os nutrientes que sustentam a floresta, numa espécie de “moto perpétuo”. Se uma grande área da floresta for derrubada para a criação de pastagens ou campos agrícolas, em poucos anos essa camada superficial de nutrientes se esgota e a terra se torna improdutiva. 

Na década de 1870, exploradores e naturalistas que viajavam por diferentes partes da Amazônia passaram a observar extensas manchas de solo escuro e profundo, de excepcional fertilidade. Com o passar dos anos e com desenvolvimento de novos estudos sobre esses solos escuros, descobriu-se que os teores de carbono nessas áreas eram muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média era de 20 a 30 gramas. Esses solos também se destacavam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. Esses solos não eram naturais, mas sim criados artificialmente por seres humanos e passaram a ser conhecidos como “terras pretas de índios”. 

Nos últimos anos, os solos escuros da Amazônia têm despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica e as mais importantes revistas da área no mundo como a Nature e a Science têm publicado diversos artigos sobre esse assunto. Em 2006, citando um exemplo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), dedicou um simpósio a esse assunto: Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas). Os cientistas querem entender a origem e quais foram os processos usados para a criação de solos de tamanha fertilidade, usados até hoje por comunidades da região para a produção de alimentos. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas terras pretas de índio permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos. Conseguir recriar os mecanismos de criação da terra preta de índio poderá ser uma excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra.

Para que vocês percebam a importância do tema, os pesquisadores calculam que as terras pretas ocupem entre 1% e 10% de toda a área da Floresta Amazônica. Essas terras foram formadas por índios pré-colombianos, que começaram a desenvolver esse trabalho na mesma época em que os primeiros núcleos maias estavam sendo formados na América Central – talvez até haja uma ligação entre esses grupos. Da mesma forma que há mistérios na origem desses índios, também não se sabe o que aconteceu com eles. 

Conforme essas manchas de terra preta foram sendo abandonadas, talvez por causa da migração das populações para outras regiões, a floresta voltou a crescer, encobrindo qualquer vestígio anterior da presença humana – a grossa camada de solo negro enriquecido ficou única testemunha desse passado distante. 

A Amazônia é realmente fascinante e ainda nos reserva inúmeras surpresas. 

A DEVASTAÇÃO DAS FLORESTAS CENTRO-AMERICANAS E O DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO MAIA

Tikal

Nas postagens anteriores falamos dos incêndios florestais realizados por diversas nações indígenas da América do Norte, incêndios esses que provocaram grandes mudanças nas paisagens ecológicas de várias regiões, como nas Pradarias, e resultaram em alterações significativas das populações de diversas plantas e animais. Esse perfil “incendiário” desses indígenas contrasta com a imagem de protetores da natureza, rótulo criado por muitos grupos ecologistas. Como qualquer outro grande grupo humano com necessidade de grandes volumes de alimentos, esses índios se valeram da força do fogo para criar áreas agrícolas e abrir campos abertos para a caça. 

Vamos deslocar o nosso foco para a América Central, a região mais densamente habitada em tempos pré-Colombianos. Foi nessa região que surgiram e floresceram alguns dos mais impressionantes impérios do Novo Mundo, onde merece destaque o grande Império Maia. Os primeiros assentamentos maias na região datam de 1.800 a.C.; o auge dessa civilização, chamado pelos historiadores de Período Clássico, ocorreu entre os anos 250 e 950 d.C., quando a população pode ter chegado à casa dos 13 milhões de habitantes. Então, sem mais nem menos, o grande império que se estendia por toda a Península de Yucatan, começou a se fragmentar. Grandes cidades foram abandonadas e surgiram cidades-estados por todos os lados, sem um governo central. Quando os primeiros conquistadores espanhóis chegaram na América Central no século XVI, encontraram um povo enfraquecido e dividido – 170 anos depois, o último foco de resistência maia seria silenciado para sempre pelos espanhóis. 

Várias teorias foram surgindo, numa tentativa de explicar o colapso do Império Maia: superpopulação, invasão por povos  estrangeiros, colapso de rotas comercias, revolta de populações camponesas, doenças epidêmicas, mudanças climáticas, esgotamento de solos e caça excessiva de megafauna. Uma hipótese levantada há vários anos atrás, a de uma grande seca regional, ganha cada vez um maior espaço nos meios científicos. Um estudo recente, desenvolvido por cientistas da Universidade de Cambridge e da Universidade da Flórida demonstrou a intensidade dessa seca. 

Estudando resíduos minerais dissolvidos em diversas camadas de sedimentos do fundo de um lago da região, os cientistas conseguiram traçar o padrão meteorológico do período de decadência do Império Maia, entre 800 e 1.000 d.C. A análise dos dados permitiu verificar uma redução média na precipitação entre 41 e 54%, sendo que em alguns períodos a redução chegou a 70%. A umidade relativa do ar diminuiu entre 2 a 7%. Essa seca contínua pode ter afetado intensamente a produtividade agrícola, especialmente a cultura do milho, o mais importante alimento consumido pela população

É aqui que chegamos a um aspecto da agricultura praticada pelos maias que nos soará bastante familiar: o fogo era usado para abrir espaços nas matas para a formação de campos agrícolas, onde o milho era semeado diretamente no solo carbonizado. Apesar de possuírem avançados conhecimentos em matemática, astronomia, arquitetura e outras ciências, além de possuir um sistema de escrita que rivalizava com as mais importantes línguas europeias, os maias não possuiam ferramentas metálicas – especialmente arados, fato que colocava a sua agricultura em padrões pré-históricos. Usando ferramentas rudimentares de madeira e sem o uso de técnicas para a preparação dos solos, a produtividade das culturas agrícolas era muito baixa. E a necessidade de alimentar uma população tão grande pode ter levado à queima de quantidades cada vez maiores de florestas (isto é uma das hipóteses) para a criação de campos agrícolas. 

Uma característica física marcante das planícies da Península de Yucatan é a falta de rios – os maias dependiam das chuvas para encher seus reservatórios de água para uso no abastecimento das cidades e na irrigação de lavouras. Conforme comentamos em postagem anterior, o solo fértil é uma combinação de matéria orgânica, água, ar e resíduos minerais – a perda de qualquer um destes componentes compromete a fertilidade e até mesmo a integridade física dos solos. Com a provável queima de grande parte da cobertura florestal, os solos de Yucatan foram perdendo a capacidade de reter volumes expressivos de água, o que comprometeu a capacidade dos solos em reter nutrientes – ficou-se sem as matas, sem a água e sem a produção agrícola, levando assim uma civilização inteira ao colapso.

Existem diversos outros fatores ambientais e climáticos que podem ter contribuído para essa situação crítica, mas a intervenção humana nas florestas de Yucatan, com certeza, teve a sua participação no colapso do Império Maia. Com o passar do tempo, novas peças desse verdadeiro quebra-cabeça serão encontradas e chegaremos cada vez mais perto de respostas concretas sobre as causas do colapso dessa grande civilização.

As florestas voltaram a crescer sobre as terras da Penísula de Yucatan, encobrindo as ruínas das grandes cidades e os monumentos da antiga Civilização Maia (vide foto). Vários povos de origem maia ainda podem ser encontrados em vários países da região – são herdeiros de passado de glórias, porém sem um grande futuro pela frente. Em comum com seus antepassados, a mesma necessidade da terra para produzir o precioso milho – quiçá continuem respeitando os limites da natureza.