RAPANUI: OS MISTÉRIOS DA FLORESTA PERDIDA DA ILHA DE PÁSCOA

Ilha de Páscoa

Sempre que falamos da destruição e queima de florestas para a formação de campos para a agricultura, a imagem de uma pequena ilha perdida no meio do Oceano Pacífico me vem à mente – a Ilha de Páscoa. Sua história tem muito para nos ensinar: 

A colonização das ilhas do Oceano Pacífico pelos polinésios é, de longe, a maior saga das migrações oceânicas da história da humanidade. Partindo do Sudeste asiático em canoas primitivas repletas de pessoas, animais domésticos e plantas, os polinésios iniciaram por volta do ano 1.200 A.C. a colonização das ilhas oceânicas isoladas no Oceano Pacífico. Sem mapas, instrumentos náuticos ou conhecimentos das correntes oceânicas e do regime de ventos, esses pioneiros navegadores se lançaram rumo ao horizonte azul seguindo as estrelas, as aves migratórias e as nuvens. Ao longo de dois milênios, os polinésios desbravaram o maior de todos os Oceanos, com uma área total equivalente a um terço da superfície terrestre. E um dos locais mais remotos alcançados pelos polinésios foi Rapanui, a Ilha de Páscoa, por volta do ano 300 d.C. 

A Ilha de Páscoa é considerada a porção de terra mais isolada do mundo, distante cerca de 3 mil km da costa do Chile e cerca de 2 mil km da Ilha Pitcairn e outras ilhas polinésias mais próximas. A ilha foi descoberta em 5 de abril de 1722, um domingo de Páscoa, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen. Além das impressionantes estátuas de pedra, os moais, encontrados por todos os cantos, a desolação da ilha, praticamente despida de qualquer árvore ou arbusto, foi uma das características que mais chamou a atenção destes primeiros europeus que ali desembarcaram. As ilhas da Polinésia são cobertas por uma vegetação luxuriante, que se estende desde as praias até o topo das montanhas de origem vulcânica. Por que Rapanui era tão diferente de todas as outras ilhas? 

Na verdade, conforme uma série de estudos viria a demonstrar, a Ilha de Páscoa era coberta originalmente por uma densa floresta subtropical com grande árvores e bosques frondosos – a destruição dessa floresta foi obra humana. 

Um dos primeiros pesquisadores a se debruçar sobre essa questão foi o explorador, zoólogo e geógrafo norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002), que em meados da década de 1950 realizou inúmeras pesquisas de grande envergadura na ilha. No comando de uma equipe de 23 pessoas, Heyerdahl descobriu que a ilha já havia sido totalmente coberta por vegetação. Uma das descobertas mais surpreendentes, porém, ocorreu após o estudo da grossa camada de sedimentos do fundo de um lago localizada na cratera de um antigo vulcão. Analisando os sedimentos a partir de tempos mais remotos se observou uma sucessão de camadas ricas em pólen, o que indica a presença de grandes áreas cobertas por florestas e vegetação. Em um determinado ponto, desaparece qualquer vestígio de pólen e os sedimentos apresentam uma camada negra de fuligem – deste ponto em diante o pólen praticamente desaparece dos sedimentos. 

Uma análise detalhada de todas essas informações levou os pesquisadores a concluírem que, em um determinado momento, toda a vegetação da ilha foi queimada em um grande incêndio florestal que durou várias semanas. Thor Heyerdahl especula em um dos seus escritos sobre a Ilha de Páscoa que esse incêndio pode ter sido provocado intencionalmente pelos primeiros polinésios que desembarcaram na Ilha, que talvez estivessem tentando abrir uma clareira para a construção de sua aldeia e plantio de suas roças de subsistência. O fogo, porém, parece ter fugido completamente do controle e acabou por destruir a maior parte da cobertura vegetal da ilha. O uso posterior de lenha para as fogueiras, madeira para a construção de casas e de embarcações, e também de andaimes e plataformas para a construção dos moais se encarregou de consumir todas as reservas florestais remanescentes. 

A situação dos solos da Ilha de Páscoa só não se tornou mais desesperadora devido à sua origem vulcânica, onde há grande presença de elementos químicos como fósforo, potássio e nitrogênio, o que garante uma grande fertilidade e permitiu que a pequena população da ilha continuasse a produzir os seus alimentos. Sem a presença desses elementos, a Ilha de Páscoa já teria sido transformada em um grande bloco de rocha estéril e desabitado perdido no meio do oceano. 

Nesses tempos em que assistimos um avanço furioso da humanidade contra os últimos remanescentes florestais do planeta, a história da Ilha de Páscoa soa como uma espécie de alerta contra a estupidez humana. O aumento constante do número de habitantes do planeta impõe um aumento contínuo da produção de alimentos e de matérias primas – porém, o meio ambiente tem seus limites e a Ilha de Páscoa está aí para nos mostrá-los. 

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