TERRA PRETA DE ÍNDIO: UMA ALTERNATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA

Mandioca

As terras negras ou terras pretas de índio, conforme comentamos na última postagem, são manchas de solo com excepcional fertilidade encontradas em toda a região Amazônica. Esses solos são ricos em nutrientes como magnésio, fósforo, zinco, manganês, cálcio e potássio, além de carbono orgânico. Esses solos não são de origem natural, mas sim de origem antrópica e, segundo estudos já realizados, eles começaram a ser formados a cerca de 4 mil anos atrás, quando grupos de indígenas pré-colombianos começaram a ocupar a região. Apesar de ser um tema praticamente desconhecido da maioria dos brasileiros, o uso dessas terras para a produção agrícola faz parte do dia a dia de milhares de ribeirinhos de toda a Bacia Amazônica e também da vida de inúmeras nações indígenas. Vamos falar um pouco disso. 

Um exemplo prático da importância dos solos escuros da Amazônia na vida cotidiana das populações indígenas foi observado por Morgan Schimidt, um pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, que estudou as terras pretas no território dos índios Kuikuro no Alto Xingu, no Estado de Mato Grosso. O pesquisador observou que os Kuikuro constroem as suas aldeias em áreas próximas dessas manchas de solo escuro, que podem estar até 20 km de distância. As terras são utilizadas para a prática agrícola, especialmente na produção do milho. O pesquisador também observou que os índios, nas suas atividades diárias, continuam produzindo terra preta: os índios cavam valas no solo para usar no descarte de resíduos de alimentos, cinzas, ossos, restos de peixes e de caças, conchas, folhas de palmeiras, serragem e restos de madeira, dejetos humanos e outros detritos. Esse composto, que muitas é incendiado, é a base para a formação das terras pretas. 

Um outro caso interessante é o dos índios Munduruku do rio Tapajós, no Estado do Pará. Essa tribo está lutando contra o projeto para a construção de uma usina hidrelétrica em Itaituba, obra que poderá forçar os índios a terem de abandonar as suas terras. Os índios estão lutando pela demarcação do seu território, inclusive incluindo a existência das manchas de terra preta como uma prova da ocupação ancestral do território pela etnia. A mancha de terra preta das terras dos índios Munduruku, que aliás é uma das maiores de toda a Amazônia, também abriga a comunidade de Montanha Mangabal. 

Índios e ribeirinhos praticam uma agricultura de subsistência, onde se inclui a produção de grãos, mandioca, pimenta e frutas. De acordo com as informações dos agricultores, a terra tem altíssima produtividade, sem que haja necessidade de qualquer tipo de manejo especial ou aplicação de qualquer tipo de fertilizante. Uma preocupação desses produtores, que mostra o desconhecimento que ainda existe sobre as terras pretas de índio, é a realização de obras pelos Governos nessas áreas, como é o caso da usina hidrelétrica em estudo: se aprovado o projeto, as águas do reservatório vão encobrir uma das maiores manchas de terra preta de índio conhecidas da Amazônia. Assim como essa obra em estudo, rodovias, ferrovias, cidades, áreas portuárias e outras obras, simplesmente não consideram a existência das terras negras. 

Mas é a população ribeirinha dos rios da Amazônia uma das que mais se beneficia das terras pretas de índio, que são utilizadas para produção das suas culturas de subsistência e também de excedentes de produção para a venda. As margens dos rios concentram as maiores quantidades de manchas de terra preta da Amazônia, onde a fertilidade dos solos e a pouca necessidade de preparo para o plantio sempre funcionaram como um atrativo para a fixação dessas populações.  

Em tempos onde a preocupação com a preservação da Floresta Amazônica ganha cada vez um número maior de defensores em todo o mundo, a utilização das manchas de terra preta para a implantação de projetos de desenvolvimento sustentável torna-se uma grande alternativa de trabalho e renda para os pequenos produtores, onde é possível a produção de alimentos orgânicos, sem a necessidade do uso de qualquer tipo de fertilizante químico. Esse tipo de uso sustentável garante a preservação da cobertura vegetal e a execução de trabalhos de melhoramento contínuo dos solos com a produção de grãos, tubérculos e árvores frutíferas. 

Como se vê, é possível se criar toda uma nova dinâmica econômica na região Amazônica usando apenas uma tecnologia criada por índios há milhares de anos atrás. Simplesmente surpreendente!

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