MACACOS E LEMURES PODERÃO TROCAR AS ÁRVORES POR UMA VIDA NO SOLO DEVIDO AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

cerca de 24 milhões de anos, as regiões Nordeste e Leste da África eram cobertas por densas florestas. A região tinha um clima e quente chuvoso, muito parecido com o clima atual da região central do continente. Como acontece em toda floresta densa, essas matas abrigavam espécies animais adaptados para a vida nesse tipo de bioma, com destaque aqui para diversas espécies de macacos arborícolas, ou seja, que vivem na copa das árvores. 

As evidências dessa vegetação foram encontradas em sedimentos marinhos escavados por um navio de pesquisa no Mar Vermelho e no Oceano Índico Ocidental. Analisando os sedimentos, os pesquisadores encontraram produtos químicos e pólen criados por essa antiga vegetação, que foram lavados pelas chuvas ou carregados pelos ventos até o oceano. 

As mesmas evidências mostram que mudanças climáticas atingiram essa região entre 24 e 10 milhões de anos, transformando gradativamente as grandes florestas em savanas muito parecidas como o Cerrado Brasileiro. As grandes árvores passaram a rarear enquanto uma vegetação formada basicamente por gramíneas começou a ganhar espaço. Essas mudanças na vegetação tiveram profundas repercussões na vida animal. 

Entre 6 e 7 milhões de anos, algumas espécies de macacos arborícolas foram obrigadas a mudar de comportamento – sem contar com o abrigo e o acesso aos seus alimentos nas árvores, esses animais passaram a viver no solo na sua luta pela sobrevivência.  

Essa mudança de estilo de vida levou a uma mudança evolutiva nesses animais, fazendo surgir dois ramos distintos – de um lado evoluíram os chimpanzés e do outro os hominídeos, ancestrais de nós seres humanos. A região onde isso ocorreu é o território atual da Etiópia e do Quênia, considerado pela maioria dos especialistas como o berço da humanidade

Um estudo recente, coordenado por pesquisadores da San Diego Zoo Wildlife Alliance e com a participação de outros 118 pesquisadores de 124 instituições ao redor do mundo, mostrou que as atuais mudanças climáticas estão provocando uma mudança de comportamento muito parecida em espécies de macacos e de lêmures: esses animais estão trocando os galhos das árvores pelo solo. 

O estudo começou a partir de observações aleatórias de alguns dos pesquisadores, que passaram a suspeitar que algumas espécies de macacos arborícolas estavam passando mais tempo no solo que o normal. Dessas observações surgiram discussões entre vários grupos de pesquisadores, o que acabou levando a um estudo mais detalhado dessa questão. 

Foi criada uma grande equipe internacional de pesquisadores para se aprofundar no assunto. O grupo analisou mais de 150 mil horas de filmagens do comportamento de 47 espécies de macacos e lêmures em 68 locais diferentes nas Américas e na Ilha de Madagascar. 

O estudo mostrou que as espécies que consomem menos frutas em sua dieta alimentar e que vivem em grandes bandos são as mais propensas a se arriscar descendo ao solo. Essas “aventuras” no solo das florestas têm como principais objetivos a busca por outros tipos de alimentos e também o conforto das temperaturas mais amenas na sombra das árvores. 

Assim como aconteceu num passado distante na faixa Leste e Nordeste da África, mudanças climáticas estão alterando o regime de chuvas em muitas regiões, uma mudança de provoca reflexos na vegetação das florestas. Sem contar com os ciclos regulares de chuva, as árvores tendem a definhar e abrir espaço para uma vegetação rasteira como as gramíneas, plantas que necessitam de quantidades muito menores de água para sobreviver. 

Entre suas conclusões, os pesquisadores também sugerem que esse comportamento dos animais decorre da destruição e da fragmentação das áreas florestais por ações humanas. Com menos árvores, os animais ficam mais expostos aos raios solares e passam a sofrer com a falta de alimento – especialmente frutas. 

Muitas espécies que só se alimentam de frutas, por exemplo, estão sendo forçadas a mudar de hábitos, passando a consumir uma dieta mais generalizada, incluindo no cardápio raízes de plantas e outros alimentos que só são encontrados no solo. Em regiões onde a vegetação está bem preservada e existem poucas interferências humanas, o comportamento dos animais não mudou. 

Um outro ponto interessante que também foi observado é que os animais estão formando grupos maiores do que os usuais na copa das árvores. Essa é uma medida que está relacionada diretamente com a exposição maior aos predadores terrestres – grupos maiores garantem uma maior segurança aos indivíduos. 

Esse tipo de estudo costuma causar grandes polêmicas, especialmente dentro de grupos que não acreditam na teoria da evolução das espécies. Sem querer entrar em maiores polêmicas, acredito que o que está acontecendo no momento é simplesmente uma luta desses animais pela sobrevivência. Se isso vai levar ou não ao surgimento de novas espécies de animais num futuro distante, essa é outra conversa. 

Agora, não há como negar que mudanças ambientais forçam animais a se adaptar às novas condições. Um exemplo fartamente documentado é o dos sapos-cururu na Austrália. Originários Da América do Sul, esses animais foram introduzidos nas Ilhas do Havaí com o objetivo de predar algumas espécies de insetos que atacavam os canaviais locais. O experimento deu bons resultados. 

Tentando repetir a façanha, agricultores da Austrália introduziram esses animais no país em 1933, na tentativa de combater uma espécie local de besouro que estava destruindo os canaviais. Infelizmente, os sapos não conseguiram se dar bem nessa nova missão e passaram a se dispersar por todo o interior seco do continente australiano, mostrando uma notável adaptação ao novo meio ambiente.

Um detalhe interessante: os cientistas australianos descobriram que os sapos-cururu passaram por adaptações físicas e aumentaram a sua velocidade de propagação em cinco vezes ao longo dos últimos 60 anos. Estudos anatômicos comparativos com espécimes da década de 1930, preservados em museus, demonstraram que as patas traseiras dos sapos-cururu tiveram um aumento de 25% em seu comprimento, aumentando proporcionalmente a força muscular e a velocidade dos animais. 

Que ninguém se espante se, num futuro próximo, venha a encontrar um macaquinho rápido e ágil como um coelho correndo em disparada numa campina… 

POLUIÇÃO EXTREMA DO AR FORÇA O FECHAMENTO DE ESCOLAS EM NOVA DÉLHI  

O Governo da Índia anunciou, mais uma vez, o fechamento de todas as escolas da capital do país – Nova Délhi, a partir de sábado, dia 5 de novembro. De acordo com as autoridades locais, os níveis de poluição do ar atingiram “níveis perigosos”. Além da forte poluição do ar provocada pelo caótico trânsito de uma das maiores regiões metropolitanas do mundo, existem as emissões de inúmeras centrais termelétricas a carvão e, especialmente, as queimadas agrícolas em todo o norte da Índia. 

De acordo com informações da empresa suíça IQAir, especialista no monitoramento da qualidade do ar, o nível de partículas de poluição do tipo PM2,5 na cidade alcançou uma marca 25 vezes superior ao máximo estabelecido pela OMS – Organização Mundial da Saúde.  

Em decisão recente, A OMS reviu suas recomendações para os níveis máximos de concentração dessas partículas – os novos limites são 5 micro gramas e 15 micro gramas por metro cúbico de ar, respectivamente, para a PM2,5 e PM10.   

Toda a faixa que engloba o Norte da Índia e o Sul do Paquistão é considerada como uma das áreas com o ar mais poluído do mundo. No final de 2021, Lahore, uma cidade paquistanesa de 11 milhões de habitantes e localizada muito próxima da fronteira com a Índia, foi declarada como a cidade com o ar mais poluído do mundo pela iniciativa Monitor da Qualidade do Ar. 

Com a chegada do inverno, quando o ar fica mais frio, a dispersão dos poluentes é dificultada e a concentração de poluição do ar nas cidades indianas aumenta vertiginosamente. O problema é amplificado pelo início da colheita de culturas como a da cana-de-açúcar, onde os agricultores locais ainda utilizam da queima da palha para facilitar o corte das plantas. 

Essa situação é particularmente grave no Estado indiano do Punjab, considerado como um dos celeiros agrícolas da Índia. Parte do Punjab acabou ficando do lado do Paquistão durante o processo de partilha do antigo território do Vice Reino Britânico da Índia em 1947. 

De acordo cm informações do Governo da Índia, cerca de 1/3 da poluição de Nova Délhi tem como origem as queimadas nas áreas agrícolas. Numa tentativa de combater essa poluição, o Governo Central e também os Governos Estaduais proibiram as queimadas, porém, são muitos os agricultores que persistem com essa técnica tradicional de colheita. 

A situação também está ganhando contornos de crise política – tanto a prefeitura de Nova Délhi quanto o Governo do Punjab são de partidos de oposição ao Primeiro-ministro Narendra Modi. Está se desenrolando uma guerra de críticas entre os dois lados, sem que se resolva a situação. 

Conforme já tratamos em outras postagens, a Índia é fortemente dependente do carvão mineral, combustível essencial para a geração de energia elétrica e também para uso em processos industriais. O carvão responde por 40% da matriz energética do país – a índia queima cerca de 600 milhões de toneladas de carvão pa cada ano. Some-se a isso uma gigantesca frota de veículos antigos com motores de combustão interna e indústrias de todos os tipos 

Mais de 60% da geração de energia elétrica da Índia é feita em centrais termelétricas à carvão, uma das fontes energéticas mais sujas e poluentes do mundo. Cerca de 300 milhões de indianos, ou cerca de 20% da população, não tem acesso ao uso de eletricidade, o que sinaliza que as coisas ainda podem piorar muito. 

A maior parte dessa população marginal pertence às classes mais pobres do país e passa suas noites sob a luz de velas, lampiões e fogueiras, além de não ter acesso ao uso de quaisquer equipamentos eletrônicos, eletrodomésticos e outros confortos da sociedade moderna.  O Governo da Índia está fazendo pesados esforços para aumentar a oferta de energia elétrica no país, o que, em tempos de crise mundial de energia, poderá significar mais queima de carvão. 

Outra questão complicada e difícil de resolver no país é a renovação da frota de veículos, outra importante fonte de poluição do ar das cidades indianas. Incentivar o uso de veículos elétricos, a exemplo de muitos países industrializados vinham fazendo, é inviável na Índia – mais consumo de energia elétrica significa mais carvão sendo queimado em centrais termelétricas. 

Uma boa opção para o país seria o incentivo ao uso de biocombustíveis como o etanol, muito utilizado aqui no Brasil. Grande produtor de açúcar, a Índia tem a opção de instalar destilarias para a produção de etanol, podendo utilizar, inclusive, a queima do bagaço da cana-de-açúcar para a geração de energia. Várias montadoras já exportaram veículos com motor flex para o país para testes e tem planos para fabricar localmente esses veículos. 

Já para o problema das queimadas agrícolas, esse é bem mais complexo. A agricultura é o maior empregador de mão de obra da Índia, especialmente em pequenas propriedades. Como essa mão de obra é extremamente barata, os agricultores preferem utilizar as técnicas mais arcaicas de colheita. 

Além de sua aplicação no corte da cana, as queimadas também são largamente utilizadas para a limpeza e preparação de solos para o cultivo, nada muito diferente do que feito por pequenos agricultores aqui no Brasil que se valem da tradicional coivara. 

Com uma população superior a 1,3 bilhão de habitantes e com a necessidade de gerar cerca de 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver a mão de obra dos jovens que estão entrando no mercado de trabalho, é muito difícil imaginar que a Índia vá tomar maiores medidas para resolver o grave problema da poluição do ar no país. 

Finalizando, um dado que mostra a situação caótica do país: das 100 cidades com o ar mais poluído do mundo, 46 ficam na Índia. 

GRANDES PLANTAÇÕES DE EUCALIPTO AMPLIFICAM PROBLEMAS CRIADOS PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e franceses confirmou uma suspeita já antiga – grandes plantações florestais comerciais de rápido crescimento podem consumir praticamente todo o volume de água das chuvas de uma determinada região. Aqui no Brasil, o alerta vale para as grandes plantações de eucalipto, espécie que responde por 80% dos plantios comerciais. 

O alerta e algumas das conclusões desse estudo foram publicadas recentemente no portal de notícias da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. 

De acordo com o professor Pedro Brancalion da ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, instituição ligada a USP – Universidade de São Paulo, a falta de planejamento e, obviamente, de estudos de impacto ambientais dessas plantações podem intensificar eventos regionais de secas, um problema grave resultante das mudanças climáticas. 

Segundo informações da FAPESP, o projeto faz parte de uma rede de experimentos que tem como principal objetivo entender os impactos da diversidade de espécies de árvores no funcionamento dos ecossistemas. Além do Brasil, também integram o projeto experimentos da Áustria, Suécia, Bélgica, Alemanha e França. Além de pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa, o projeto também inclui órgãos de fiscalização florestal desses países. 

O plantio comercial de grandes florestas surgiu em resposta ao alto consumo de madeira para usos pelas indústrias de móveis, da construção civil e de papel e celulose. A exemplo do que assistimos aqui no Brasil ao longo de nossa história, grandes florestas nativas em todo o mundo desapareceram por causa das atividades humanas como a agricultura, a pecuária e também pela exploração madeireira. 

A produção em larga escala de madeira em florestas artificiais pareceu, a princípio, ser uma ótima alternativa para atender a alta demanda dos mercados, ao mesmo tempo em que ajudaria a proteger, e até recuperar, os remanescentes florestais das matas nativas. Esses plantios vêm crescendo de maneira exponencial ao longo das últimas décadas. 

Segundo a FAPESP, existem aproximadamente 10 milhões de hectares de plantações comerciais de madeira aqui no Brasil, majoritariamente de eucalipto. Um exemplo já mostrado em postagens aqui no blog é o caso do Espírito Santo, onde extensas regiões de antigos domínios da Mata Atlântica foram tomadas por um “mar” de eucaliptos. 

A produção de madeira dessas florestas tem como destino principal as indústrias de papel e de celulose. De acordo com a FAPESP, mais da metade dessas plantações de eucalipto é formada por plantas criadas a partir de um único clone, ou seja, todas possuem a mesma composição genética. Essa “padronização” genética garante o rápido crescimento das árvores, porém reduz a resiliência das florestas a problemas ambientais. 

Essa equação ambiental tem uma falha grave – essas florestas crescem vigorosamente enquanto se tiver uma farta disponibilidade de água. Entretanto, a falta de água em momentos de seca poderá secar ou até matar as árvores. Muito pior – a floresta poderá consumir toda a água disponível nessa região em prejuízo de outras espécies e populações. 

Em palestra no evento “Climate change and biodiversity scientific cooperation day”, realizado no dia 20 de outubro no IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o professor Brancalion afirmou que “é preciso buscar meios de tornar as plantações florestais mais resilientes à seca e econômicas no uso da água”. 

De acordo com o pesquisador, ” quanto mais espécies uma floresta (plantio comercial de árvores) tiver, melhor será seu funcionamento e sua resiliência às mudanças climáticas, pois usará de forma mais eficiente recursos ambientais como a água“. 

Os pesquisadores da ESALQ e do CIRAD – Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento, da França, conduzem seu experimento em uma área de seis hectares na cidade de Itatinga, no interior do Estado de São Paulo. A área é denominada Estação Experimental de Ciências Florestais da ESALQ/USP. 

Na área são encontrados 150 diferentes formatos de silvicultura, onde são comparadas as performances das espécies utilizadas. Essa comparação vai do monocultivo (plantio de uma única espécie) até o plantio combinado de até seis espécies diferentes, entre exóticas e espécies nativas da Mata Atlântica e do Cerrado. 

A experimentação científica é sempre o melhor para a solução de problemas ambientais, fugindo da opinião dos “especialistas”, uma verdadeira praga na área ambiental. Os resultados desses estudos também serão fundamentais para o confronto com os grandes grupos multinacionais que dominam o setor da silvicultura. 

Esses grupos costumam afirmar que suas plantações não criam problemas ambientais, não consomem excessos de água e também não prejudicam a biodiversidade. Além disso, suas atividades ajudam a garantir a geração de trabalho e renda para as comunidades rurais. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e que fizer uma rápida incursão pelos ‘mares verde de eucalipto” do Espírito Santo vai perceber que as coisas não são bem assim. 

A “eucaliptização”, neologismo que eu costumo usar, fez desaparecer uma série de terras indígenas no Norte do Espírito Santo. Uma rápida lista: Amarelo, Olho d’Água, Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo, Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê, Gimuhuna, Piranema, Potiri, Sahy Pequeno, Batinga, Santa Joana, Morcego, Garoupas, Rio da Minhoca, Morobá, Rio da Prata, Ambu, Lagoa Suruaca, Cavalhinho, Sauaçu, Concheira, Rio Quartel, São Bento, Laginha, Baiacu, Peixe Verde, Jurumim e Destacamento.   

O avanço das plantações também expulsou pequenos agricultores e comunidades quilombolas. Quem conseguiu resistir, passou a conviver com uma redução drástica da oferta de água nos rios e córregos, o que inviabilizou a agricultura de subsistência. Isso sem falar nos impactos a fauna e flora nativas. Esses problemas em terras capixabas se repetem em todo o mundo nas regiões próximas das florestas comerciais. 

O conhecimento criado por esses estudos é bem-vindo e poderá ajudar bastante nesses novos tempos de mudanças climáticas. 

CABO VERDE E SEUS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS

De acordo com Plutarco, um historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo médio platônico grego do início da Era Cristã, existia no meio do Oceano Atlântico um conjunto de ilhas onde todos os habitantes levavam uma vida de grande felicidade e de desfrute dos bens terrestres. Essa suposta descrição acabou se transformando na lenda das Ilhas Afortunadas ou a Macaronésia (do grego makáron – felicidade e nésoi – ilhas), lenda que foi transmitida para outros povos. 

Cerca de quinhentos anos depois, São Brandão, um monge católico irlandês, organizou uma expedição que buscaria a lendária Macaronésia. Descrita no manuscrito Navigatio Sancti Brendani, um dos textos mais populares da Idade Média, a expedição teria sido formada por cerca de 60 religiosos, que zarparam com um barco (que segundo muitas fontes era feito de couro) na costa Oeste da Irlanda.  

Um dos grandes feitos dessa lendária expedição teria sida a descoberta das Ilhas Feroé ou Faroé, no Atlântico Norte. Também teriam encontrado outras ilhas no meio do oceano com aspectos semelhantes aos descritos por Plutarco. Essas ilhas seriam os arquipélagos dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde.  

Também não podemos esquecer do encontro de uma grande “ilha” coberta por densas matas, que correspondia à descrição de uma antiga terra citada nas lendas vikingsHy-Brazil. Entre a lenda e a realidade, muita gente acredita que essa terra é o nosso Brasil. 

De todos os arquipélagos da Macaronésia, Cabo Verde é o que tem as mais importantes e profundas relações com o nosso país. Navegadores portugueses “descobriram” essas ilhas em 1460, quando buscavam o “caminho das índias”. Algumas fontes afirmam que as ilhas foram avistadas antes, em 1456, por navegadores venezianos. 

Em 1462, as ilhas começaram a ser colonizadas e foram transformadas em uma importante base de apoio e de reabastecimento para os navios portugueses. A expedição de Pedro Álvares Cabral, inclusive, fez uma rápida parada no arquipélago de Cabo Verde algumas semanas antes de “descobrir” o Brasil em 1500. 

A partir da década de 1530, quando teve início a colonização efetiva do nosso país, as ilhas de Cabo Verde passaram a funcionar como um entreposto entre o Brasil e Portugal. As primeiras mudas de cana-de-açúcar que foram trazidas para o Brasil vieram de plantações já existentes no arquipélago. Também vieram de lá grandes contingentes de escravos que eram comprados de diversas feitoras ao longo de toda a costa da África. Muitas vezes, esses escravos eram trocados por mercadorias como armas de fogo, aguardente e fumo. 

Em tempos bem mais recentes, Cabo Verde passou a servir como uma importante e obrigatória escala para voos que faziam rotas entre o Brasil e países da América do Sul rumo Europa e vice-versa. Os antigos aviões que faziam essa rota precisavam aterrissar no Aeroporto da Ilha do Sal para reabastecer. 

Esse importante pedacinho isolado de mundo, que tem uma área total de apenas 4 mil km², está vivendo hoje sob inúmeros problemas ambientais. As ilhas, que ficam localizadas a cerca de 600 km da costa da África a altura da faixa do Sahel, sofrem com a seca, a falta de água potável e com o aumento das temperaturas. 

O arquipélago de Cabo Verde, assim como outros em todo o mundo, está sendo fortemente afetado pelas mudanças climáticas. Além dos importantes riscos de desertificação de suas terras por causa de sua posição geográfica, o território das ilhas sofre com os efeitos do aumento do nível do mar, o que está provocando erosão em alguns pontos da costa e danos na infraestrutura. 

Com raras fontes de água superficiais, a população das ilhas sempre dependeu da exploração de águas subterrâneas, captadas a partir de poços. Com o aumento do nível do mar, essas águas estão sofrendo um processo de salinização. Atualmente, a maior parte da água fornecida aos habitantes vem de usinas de dessalinização de água marinha, um processo de produção muito caro para um país pobre e que dependente da importação de petróleo. 

Uma outra área crítica é a produção de alimentos, coisa que sempre foi complicada em Cabo Verde. Durante muito tempo, as principais ilhas do arquipélago foram usadas para a produção de cana-de-açúcar, a matéria prima do valioso açúcar dos tempos coloniais. Assim como aconteceu em uma grande faixa da Mata Atlântica do litoral do Nordeste Brasileiro, essa atividade destruiu importantes áreas de mata nativa em Cabo Verde. 

Isoladas do continente, essas ilhas desenvolveram uma biodiversidade vegetal extremamente rica, onde cerca de metade das espécies eram endêmicas e altamente adaptadas ao clima local. Os intensos desmatamentos ao longo dos séculos vieram se somar a uma influência cada vez maior dos ventos quentes vindos do Deserto do Saara e do Sahel, o que está se refletindo em um forte processo de desertificação em muitas áreas das ilhas. 

As ilhas de Cabo Verde vêm sofrendo sistematicamente com fortes secas ao longo das últimas décadas, problema que está inviabilizando a produção agrícola e pecuária, além de e forçar grandes contingentes da população a mudar para as áreas urbanas. A maior parte dos alimentos consumidosatualmente pela população é importada. 

De acordo com projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, uma organização ligada a ONU – Organização das Nações Unidas, a região do Oceano Atlântico Tropical Oriental, onde fica localizado Cabo Verde, deverá sofrer um aumento médio na temperatura de até 2,5º C até final deste século. Também está prevista uma diminuição da umidade e da precipitação entre 5 e 10%

As projeções dos especialistas também falam de um aumento do nível do oceano na região entre 13 cm e 1,4 metro até o final deste século. Além dos já citados danos às áreas costeiras, esse aumento do nível do mar terá reflexos no aumento da velocidade das correntes marítimas e da força das ondas, eventos que poderão afetar a maior fonte de riqueza das ilhas – a pesca. 

Todos esses problemas enchem o futuro população cabo-verdiana, que hoje se encontra na casa dos 560 mil habitantes, de incertezas. O pequeno país, que tem um PIB – Produto Interno Bruto, inferior a US$ 2 bilhões e que luta para se tornar auto suficiente na produção de alimentos e de energia, poderá, simplesmente, ficar inviabilizado. 

A triste sina de Cabo Verde, desgraçadamente, é a mesma de dezenas de pequenos países insulares de todo o mundo – todas essas nações poderão desaparecer do mapa nas próximas décadas por causa das mudanças climáticas. 

A EUROPA ESTÁ SENDO “INVADIDA” POR GÁS NATURAL VINDO DO AZERBAIJÃO

O Azerbaijão é um daqueles países sobre o qual a maioria dos leitores deve conhecer quase nada. Existe inclusive uma brincadeira, de gosto bastante discutível, de se chamar esses países distantes e desconhecidos de “fim-do-mundistão”. 

Os azeris ou azerbaijanos são um grupo étnico de língua turcomana da Ásia Central, com grande presença no Noroeste do Irã e, majoritariamente, na República do Azerbaijão, país que fica na Região do Cáucaso. O nome do país é uma combinação de azeri com o sufixo de origem persa stan, usado para designar “terra”, ou seja – a terra dos azeris. 

O desconhecimento do Azerbaijão é bastante fácil de explicar – até 1991, o país fazia parte da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Antes disso foi alvo da cobiça dos impérios da Pérsia, da Rússia e, por fim, do Império Otomano. 

No início do século XX o Azerbaijão produzia metade do petróleo consumido no mundo. Petróleo e gás são recursos abundantes na Região do Cáucaso. Aliás, existem relatos de viajantes desde a antiguidade clássica que falavam de poços de gás em chamas nessa região. 

As fronteiras atuais da terra dos azeris foram demarcadas em 1828, quando os Impérios Russo e Otomano assinaram o Tratado de Turkmenchay. Do lado russo surgiria o atual Azerbaijão; do outro lado, os azeris passaram a ter seu território primeiro sob controle do Império Otomano e depois pela Pérsia, atual Irã. 

A exploração do petróleo em larga escala no Azerbaijão começou na década de 1870. Essa indústria cresceu fortemente em volume e importância até o início da Primeira Guerra Mundial. Com a ascensão dos bolcheviques na Rússia a partir de 1917, o Azerbaijão, a Armênia e a Geórgia foram unidos para formar a República Socialista Federativa Soviética Transcaucasiana, que durou até 1936. 

Desde o fim da URSS, o Azerbaijão vem buscando a sua inserção no mercado internacional, feito tornado possível graças as suas imensas reservas de petróleo e gás. Cerca de 90% das exportações do país se referem a vendas de petróleo e gás, principalmente para os países europeus. 

Desde o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a Europa passou a olhar para o Azerbaijão com um “carinho” todo especial. O principal interesse dos europeus, é claro, é o gás natural do país e do seu enorme potencial para substituir a Rússia como principal fornecedor do combustível

O Azerbaijão e a Turquia possuem excelentes relações culturais e comerciais. As línguas turca e azeri são muito próximas (algo muito similar ao que acontece entre o português e o espanhol), o que fez os dois países serem muito próximos ao longo da história. Os dois países também compartilham uma grande população que professa a fé islâmica.

Um importante sistema de oleodutos e gasodutos já existentes nesses dois países, e que também cruzam o território da Geórgia, permite o transporte do petróleo e do gás natural na direção da Europa. Em 2022, um volume total de 21 bilhões de metros cúbicos de gás natural azerbaijano será fornecido para a Europa. Esse volume é cerca de 31% maior do que as exportações feitas em 2021

No último mês de julho, inclusive, a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, visitou o Azerbaijão e teve reuniões com o Governo do país. A meta da União Europeia é aumentar consideravelmente as compras e as importações de gás natural do país, se livrando, em definitivo, da dependência do gás da Rússia. 

Essa possibilidade, que é comercialmente interessante para ambos os lados, esbarra em problemas técnicos – os sistemas de gasodutos, e também de oleodutos, existentes já atingiram seu limite de capacidade. Novos sistemas para o transporte desses combustíveis precisarão ser construídos, o que vai necessitar de pesados investimentos, além de muito tempo, algo que os países da Europa não têm. 

Existe um outro problema nessa equação – é preciso combinar com os russos, literalmente. Mesmo após o colapso da URSS, a Rússia fez questão de manter sua influência sobre as ex-Repúblicas Soviéticas. A região do Cáucaso não escapou dessa política. 

A concorrência do gás natural e do petróleo do Azerbaijão sempre incomodou a Rússia, que sempre movimentou as “pedras” do tabuleiro do Cáucaso a seu favor. Com a interrupção das suas exportações do combustível para a Europa, é bastante improvável que os russos fiquem passivos diante do aumento dessas exportações Azerbaijão para os países europeus. 

Ainda é cedo para se afirmar que o gás natural do Cáucaso e, mais especificamenete, do Azerbaijão será a salvação energética da Europa. Porém, é nítida a invasão desse combustível por todo o continente nesse momento.  

Também é essencial lembrar que a Turquia faz parte da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, força militar criada após a Segunda Guerra Mundial para se contrapor ao crescimento da URSS. 

A Turquia tem todo o interesse, tanto comercial como estratégico, de permitir a passagem do gás natural e do petróleo do Azerbaijão através do seu território em direção a Europa, o que deverá ajudar bastante no processo. Vamos esperar para ver o que o futuro nos trará. 

Apesar do gás natural ser um combustível de origem fóssil, sua queima é bem menos danosa ao meio ambiente. Logo, continuar usando esse combustível para gerar energia elétrica e em usos industriais é bem mais saudável para o meio ambiente mundial. 

Torçamos para que as coisas caminhem bem. 

OS DESAFIOS DA COP27 – 27ª CONFERÊNCIA DAS PARTES DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS

No próximo sábado, dia 6 de novembro, terá início a 27ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, mais conhecida como COP 27. O evento será sediado em Sharm el-Sheikh, uma cidade turística localizada entre o deserto da Península do Sinai e o Mar Vermelho no Egito. 

O lema dessa edição da Conferência será “Juntos para a implementação”. Um dos principais objetivos do encontro será a concretização de acordos e compromissos anteriores, a exemplo das negociações firmadas em 2015, na COP 21 em Paris. 

A questão das mudanças climáticas, que até poucos anos atrás era tratada com enorme ceticismo por grande parte das nações – especialmente os países mais industrializados, ganhou enorme força nos últimos anos. Em tempos de crise energética e de escassez de alimentos, a questão se tornou uma prioridade absoluta. 

Conforme tratamos em uma postagem anterior, o Governo dos Estados Unidos, durante a administração do Presidente George W. Bush, chegou a contratar serviços de relações públicas para combater as notícias que falavam das mudanças climáticas. Isso aconteceu em 1990, pouco mais de 30 anos atrás. 

O Governo norte-americano alegava há época que essas questões não tinham comprovação científica e que poderiam ameaçar os “empregos, o comércio e os preços nos Estados Unidos”. Entre outras ações, “especialistas” escolhidos a dedo pela Casa Branca foram contratados com a missão de desacreditar qualquer dado ou informação que falasse das mudanças climáticas. 

Os esforços do Governo Bush, felizmente, começaram a “fazer água” em 1992, ano em que foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro. A Rio 92, como ficou mais conhecida, chamou a atenção do mundo para a questão ambiental e colocou o conceito de desenvolvimento sustentável em evidência. 

A COP – Conferência das Partes, ou Conference of the Parties em inglês, foi adotada justamente em 1992, como o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima. Os países signatários da Convenção ratificaram o acordo em 1994, e passaram a se reunir anualmente a partir de 1995. 

Entre as questões que deverão nortear os debates deste ano estão as medidas para conter as mudanças climáticas a partir dos mecanismos aplicáveis por todos os países, a mitigação das emissões dos gases de efeito estufa, a adaptação climática, as parcerias para conter o aquecimento global e o impacto climático nas questões financeiras. 

É bastante fácil notar que são todas questões altamente problemáticas, especialmente num momento de grande tensão internacional a exemplo do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Eu imagino que ouviremos muitos discursos acalorados, inúmeras promessas e poucas ações práticas. 

Negociações diplomáticas, apesar de serem lentas e complicadas, são sempre o melhor caminho. O crescimento exponencial dos efeitos do aquecimento global na vida de cidadãos de todo o mundo nesses últimos anos poderá ajudar a fazer as “PARTES” se entenderem um pouco melhor. 

Oxalá isso aconteça! 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS FORAM SENTIDAS POR 96% DA HUMANIDADE NO ÚLTIMO ANO 

Até alguns poucos anos atrás, as mudanças climáticas eram consideradas como uma mera ficção. No início da década de 1990, citando um exemplo, o Governo do presidente George W. Bush financiou uma grande campanha de comunicação para desacreditar os cientistas que começavam a falar das mudanças climáticas. 

Segundo a narrativa, fatos sem comprovação científica poderiam ameaçar os “empregos, o comércio e os preços nos Estados Unidos”. A estratégia envolvia uma pesada campanha de comunicação na imprensa, indo desde a inserção de declarações de notórios “especialistas científicos” até mecanismos para pautar as matérias. 

Felizmente, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – mais conhecida como Rio 92, foi um grande sucesso e essa “bolha” acabou sendo rompida. 

Passados pouco mais de 30 anos desde aqueles tempos, as mudanças climáticas ainda não são um consenso global, porém, está ficando cada vez mais difícil sair por aí negando que alguma coisa está acontecendo com o clima mundial. 

Uma pesquisa realizada pela Climate Central, uma organização sem fins lucrativos, apurou que 96% da população mundial foi impactada pelo aumento das temperaturas no último ano. Ou seja – cerca de 7,6 bilhões de pessoas sentiram o aumento da média global de temperaturas entre setembro de 2021 e outubro de 2022. 

O Relatório do Índice de Mudança Climática, ou CSI – Climate Shift Index, analisou 1.021 cidades em todo o mundo. Foram utilizados dados de temperatura diários do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, catalogados ao longo de mais de 70 anos, além de dezenas de modelos climáticos. 

O CSI conseguiu calcular a probabilidade de um clima excepcionalmente quente em um local e dia especifico estar ou não associado ao aquecimento global. O índice revelou que pelo menos 200 milhões de pessoas sentiram algum dos efeitos das mudanças climáticas em cada um dos 365 dias analisados. 

O pico da exposição global às mudanças climáticas ocorreu no dia 9 de outubro de 2021, quando mais de 1,7 bilhão de pessoas, ou mais de 20% da população mundial, experimentaram temperaturas acima da média numa probabilidade até 3 vezes maior devido as interferências humanas no clima. 

As regiões mais afetadas por essa “anomalia” climática ficam em áreas próximas a Linha do Equador, em países como o México, Brasil, África Ocidental e Oriental, Península Arábica e Arquipélago Malaio. 

Usando uma palavra que está na moda, o negacionismo das mudanças climáticas está ficando cada vez mais difícil. Falando de uma forma mais popular, “não adianta ficar chorando pelo leite derramado”. É hora de limpar a mesa e ir no mercadinho comprar outra garrafa de leite… 

Como sempre comentamos em nossas postagens, as mudanças climáticas já são um fato consumado. Precisamos nos adaptar a elas da melhor maneiro possível – o que vai exigir fabulosos investimentos em todas as áreas, e tentar seguir com a vida da melhor maneira possível. 

E que os céus nos ajudem!

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO CINEMA E NA TV 

As novelas da televisão, os filmes do cinema, o teatro e as músicas, entre outras formas de arte, têm o poder de influenciar pessoas e lançar modas e ideias. Aqui no Brasil o melhor exemplo são as telenovelas. As roupas dos principais protagonistas rapidamente viram moda, o bordão de algum deles rapidamente ganha as ruas, entre outras influencias. Muitos recém-nascidos acabam sendo batizados com os nomes dos atores na trama. 

Lembro de cabeça de uma novela chamada o Clone, que foi produzida por um grande canal de televisão aqui do Brasil há uns 20 anos atrás. Uma das protagonistas do enredo era uma jovem árabe do Marrocos. Tradições típicas do país, citando a dança do ventre como exemplo, passaram a influenciar muita gente e levaram a abertura de inúmeras escolas especializadas. 

Essa influência do mundo das artes muitas vezes é usada para fins mais comerciais. Vou citar como exemplo um filme norte-americano que gosto muito e que ilustra muito bem como essas coisas funcionam – Obrigado por fumar. O personagem principal do enredo é Nick Naylor, vivido pelo ótimo ator Aaron Eckhard, que é lobista das grandes empresas fabricantes de cigarros. 

Preocupados com a queda contínua do consumo dos cigarros, os fabricantes encarregam Nick de encontrar uma solução para o problema. Depois de muita pesquisa, ele recebe uma proposta interessante de um grande agente de Hollywood – contratar grandes estrelas do cinema mundial a “peso de ouro” para fumar em seus filmes, o que influenciaria os espectadores/telespectadores a fumar, aumentando assim as vendas da indústria. 

Se qualquer um dos leitores assistir a um filme clássico das décadas de 1940, 1950 ou de 1960, vai observar que o cigarro fazia parte da personalidade das pessoas daquela época. Não por acaso esses anos marcaram o auge da indústria do cigarro. A partir de então começaram a surgir inúmeros estudos ligando o tabagismo a inúmeras doenças, e, pouco a pouco, os personagens foram se tornando “abstêmios”. O feeling do personagem Nick Naylor parece fazer sentido.  

Seguindo esse raciocínio da influência das artes no comportamento das pessoas, um grupo de pesquisadores resolveu verificar como está andando a temática das mudanças climáticas nos enredos de programas de televisão, em filmes e outras formas de arte. 

A Good Energy, uma consultoria de histórias sem fins lucrativos, e a Media impact Project, ligada a USC – Universidade do Sul da Califórnia, passaram a analisar milhares de roteiros de filmes e programas de televisão escritos entre os anos 2016 e 2020, buscando palavras-chaves relacionadas à temática mudanças climáticas

A pesquisa analisou 37.500 roteiros de filmes e programas de televisão ao longo de 5 anos. Os pesquisadores criaram um banco de dados com transcrições dos roteiros e passaram a pesquisar um grupo de 36 palavras-chave ligadas ao tema mudanças climáticas. 

Do total de roteiros analisados, apenas 2,8% traziam uma ou outra referência ao tema. De acordo com Anna Jone Joyner, fundadora da Good Energy, “é uma ausência bastante gritante, visto que estamos falando de um fenômeno que, literalmente, todos os humanos da Terra estão experimentando de maneira individual e coletiva”. 

A Showtime, um serviço de televisão a cabo norte-americano, foi a mídia com o maior número de menções a temas ligados ao clima. A National Geografic, cujos documentários são famosos por mostrar a vida selvagem e a natureza, atingiu a marca de 14,6% das menções. Também são destaques a HBO e a Netflix pelas suas respectivas menções. 

O filme ligado a questões de mudanças climáticas mais lembrado pelos telespectadores foi o Dia Depois de Amanhã (vide foto), um blockbuster lançado em 2004, e que faturou mais de US$ 550 milhões em bilheterias de todo o mundo. A produção ganhou vários prêmios, especialmente na área dos efeitos visuais. 

Na trama, o aumento das temperaturas globais e o degelo do Ártico provocaram a interrupção da Corrente do Golfo, uma importante corrente marítima de águas quentes que vai do Mar do Caribe em direção ao Atlântico Norte. Sem essa corrente, uma nova Era do Gelo tem início no Hemisfério Norte. 

Um detalhe chamou a atenção dos pesquisadores – mesmo quando secas, ondas de calor, incêndios florestais e grandes furações aparecem nos roteiros, apenas 10% deles são associados às mudanças climáticas. Quando o tema combustíveis fósseis aparece nos roteiros, em apenas 12% dos casos são associados às mudanças climáticas. 

Para tentar reverter esse quadro, a Good Energy passou a organizar workshops com escritores e roteiristas para conscientizá-los da importância de incluir essa temática em seus roteiros. Esse trabalho não é nada fácil – esses profissionais não gostam de sofrer influências eternas. 

Um dado que vem reforçar a importância de filmes e programas de televisão abordarem questões climáticas em seus roteiros foi detectado através de uma pesquisa ambiental feita pelo instituto Gallup a pedido do IEP – Instituto for Economic and Peace, uma instituição australiana com filiais em todo o mundo. Os pesquisadores entrevistaram 125.000 pessoas em 121 países. 

Apenas 48,7% dos entrevistados, praticamente 5 em cada 10 pessoas, consideram as mudanças climáticas como uma ameaça grave para a humanidade. Isso nos dá uma clara ideia da quantidade de pessoas que não tem acesso a informações sobre o que está acontecendo com o clima em nosso mundo. 

Dentro desse cenário, usar os roteiros dos filmes e o enredo de telenovelas para divulgar os problemas decorrentes das mudanças climáticas globais parece ser uma boa ideia. Falta só convencer os produtores, artistas e roteiristas da importância disso. 

Oxalá surjam novas produções ao estilo de o Dia Depois de Amanhã, onde um herói solitário consegue salvar o dia, ou melhor, salvar o mundo. Estamos precisando muito disso… 

A MÍTICA PASSAGEM NOROESTE, OU FALANDO DOS BENEFÍCIOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

Na geometria plana, a menor distância entre dois pontos é uma linha reta. No mundo real, onde diferentes regiões geográficas são separadas por rios, cadeias de montanhas, mares fechados ou grandes oceanos, ou ainda por questões políticas e militares em determinadas regiões, esse conceito deixa de ser verdadeiro. 

Vamos relembrar rapidamente do controle que alguns reinos do Oriente Médio impunham às rotas comerciais terrestres que vinham do Extremo Oriente e do Sul e do Sudeste Asiático na direção da Europa. A lendária Rota da Seda, que cruzava toda a Ásia Central entre a China e a Europa, é um dos maiores exemplos. 

Durante centenas de anos essa rota esteve sob controle dos turcomanos. Falo aqui de todo um grupo de povos de línguas turcomanas ou turco-tártaras. Além dos turcos, a mais importante etnia da Turquia, a lista inclui os azerbaijanos, casaques, uzbeques, oguzes, nogais, iacutos, entre muitos outros.  

Se qualquer um dos leitores consultar um mapa da Ásia Central, vai verificar que os territórios ocupados por esses povos formam uma grande mancha entre a Costa leste da Turquia e o leste da China. Existe um antigo ditado que diz que, ainda hoje, “é possível ir de Istanbul, na Turquia, até Pequim, na China, falando unicamente o turco“. 

Esses povos controlavam tanto os volumes quanto os preços das mercadorias que eram transportadas da China para a Europa através da Rota da Seda. O início da Era das Grandes Navegações, onde Portugal teve um papel chave nos séculos XV e XVI, foi impulsionada pela busca de uma rota comercial oceânica alternativa para o Oriente, o chamado Caminho para as Índias. Os portugueses lograram sucesso nessa empreitada e, de quebra, ainda “descobriram” o Brasil no caminho. 

Um dos casos mais emblemáticos dessa corriga por novas rotas de navegação rumo ao Oriente foi a busca da lendária Passagem Noroeste. Muitos navegadores acreditavam que era possível navegar da Europa rumo ao Norte do Oceano Atlântico até se atingir o Norte do Oceano Pacífico. É claro que no meio desse caminho existia um Oceano Ártico e suas enormes banquisas de gelo, algo que criva enormes problemas nara os navegadores. 

Para que todos tenham uma ideia da importância dessa rota para a navegação mundial: a distância marítima entre o Porto de Roterdã, na Holanda, até Tóquio, no Japão, é de 21.100 km via Canal de Suez e de 23.300 km seguindo via Canal do Panamá. A mesma rota feita através da Passagem Noroeste cairia para cerca de 14.100 km. 

Uma das mais antigas referências a busca pela Passagem Noroeste data de 1497, quando Henrique VII, rei da Inglaterra, incumbiu a missão ao navegador John Calbot. O navegador teria conseguido atingir a Terra Nova, no Leste do Canadá, imaginando ter chegado a Ásia, mesmo erro cometido por Cristovão Colombo 5 anos antes quando chegou na Ilha de Santo Domingo. Cabot acabou desistindo da viagem e voltou para a Inglaterra. 

Outro pioneiro nessa busca foi o navegador francês Jacques Cartier, que fez sua viagem em 1534. Assim como aconteceu com John Calbot, Cartier também acabou atingindo a costa Leste do Canadá. O navegador também desistiu da empreitada, não sem antes reivindicar a região, atualmente conhecida como Quebec, para a Coroa da França. 

Outras tentativas inglesas para a conquista da Passagem Noroeste ficaram a cargo de Martin Frobisher. O militar inglês organizou três expedições – 1576, 1577 e 1578, todas frustradas. Essas expedições conseguiram atingir a Groenlândia e terras distantes do Canadá como a Ilha Baffin e a Baía de Hudson, porém, sem conseguir encontrar a Passagem Noroeste. 

Existem evidências históricas que sugerem que o navegador português David Melgueiro foi o primeiro a conseguir realizar uma viagem pela Passagem Noroeste, indo da cidade do Porto, em Portugal, até a cidade de Kagoshima no Japão. Essa viagem teria se estendido entre os anos de 1660 e 1662. 

Entre essas e muitas outras buscas frustradas, é preciso citar a trágica expedição da Marinha Inglesa comandada por Sir John Franklin. Essa expedição era formada por dois veleiros, o HMS Erebus e o HMS Terror, com um total de 127 tripulantes. Os navios zarparam da Inglaterra 1845, e, simplesmente, desapareceram nas águas do oceano Ártico. Pesquisadores só encontrariam os naufrágios do Erebus em 2014, e do Terror em 2017. 

Um outro registro histórico importante é o do barão sueco Adolf Erik Nordenskjöld, que conseguiu atravessar a Passagem Noroeste em 1879. Ele partiu da cidade de Gotemburgo na Suécia em um navio baleeiro em 1878, seguindo ao longo da costa da Sibéria. A meio caminho do Estreito de Bering, o navio acabou ficando preso na banquisa de gelo por cerca de 10 meses até a chegada do verão. 

Um dos mais famosos exploradores das águas polares e que se notabilizou por ter conseguir realizar grandes façanhas foi o norueguês Roald Amundsen. Para quem acha reconheceu o nome, lembro que Amundsen liderou a primeira expedição a atingir o Polo Sul em 1911, derrotando a equipe inglesa liderada por Robert Falcon Scott. Os ingleses, desgraçadamente, foram surpreendidos por uma forte tempestade durante o retorno e todos os membros da equipe morreram. 

Amundsen partiu de Oslo, na Noruega, em junho de 1918, a bordo no navio Maud (vide foto), que era uma réplica exata do lendário navio Fram. Essas embarcações foram construídas com o fundo arredondado, uma adaptação essencial para suportar com segurança as situações de congelamento das águas do Oceano Ártico.  

Como era previsto, o Maud acabou ficando preso por 22 meses na banquisa de gelo. Entre outros contratempos da jornada, Amundsen quase morreu ao ser atacado por um urso polar. Em outro momento, ele acabou intoxicado pela fumaça de uma lamparina a óleo enquanto trabalhava em sua cabine. O Maud chegou ao porto de Nome, no Alasca, em 27 de junho de 1920. 

O sonho que todos esses navegadores pioneiros carregaram em seus corações ao longo dos séculos – de encontrar uma rota mais curta entre a Europa e a Ásia, está se tornando uma realidade graças ao aquecimento global. Segundo os cientistas, o Ártico está perdendo 13% de sua massa de gelo a cada década. De acordo com as projeções dos especialistas, é bem possível que as águas do Oceano Ártico e a Passagem Noroeste deixem de ficar congeladas a partir de 2050.

Navios cargueiros comuns e de passageiros poderão então navegar por essas águas durante o ano inteiro, sem qualquer preocupação com as banquisas de gelo e com os icebergs. Atualmente, só navios especiais do tipo quebra-gelo, conseguem navegar com relativa segurança nessas águas durante alguns meses do ano. 

Se é possível afirmar que o aquecimento global está trazendo algum tipo de benefício para a humanidade, esse é um deles. 

OMS ALERTA: ENVENENAMENTO POR CHUMBO MATA 1 MILHÃO DE PESSOAS A CADA ANO

Candido Portinari (1903-1962) foi um dos maiores pintores da história do Brasil. Ele nos deixou um legado de mais de 5 mil pinturas e desenhos, que vão de pequenos esboços a painéis gigantescos como o mural “Guerra e Paz”, obra que foi doada em 1956 para a sede da ONU – Organização das Nações Unidas, em Nova York. 

Esse gigantesco painel, com dimensões de 10 x 14 metros, ocupou Portinari por cerca de 5 anos. O artista fez mais de duzentos desenhos, que depois foram transformados em setenta lâminas, que depois seriam montadas como um verdadeiro quebra-cabeças.  

Um detalhe triste dessa grande saga: Candido Portinari nunca conseguiu ver a sua obra completamente montada na sede da ONU. Ele morreu em 1962, vítima de uma grave intoxicação por chumbo, elemento presente em grande quantidade nas tintas que usava diariamente em seus trabalhos. 

Essa triste lembrança de Candido Portinari serve como uma introdução a um importante alerta da OMS – Organização Mundial de Saúde. Em comunicado, a organização informa que cerca de 1 milhão de pessoas morrem todos os anos em consequência do envenenamento por chumbo. 

O chumbo é um metal pesado altamente tóxico que está presente em inúmeros produtos que utilizamos em nosso dia a dia. Além das tintas, o chumbo é usado em pilhas e baterias, cabos elétricos, mantas de blindagem, aditivos para gasolinas, entre muitos outros produtos. 

A exposição contínua leva a acumulação do chumbo no organismo humano. Isso pode afetar as funções cerebrais, os rins, os sistemas digestivo e reprodutor, inclusive podendo se reverter em mutações genéticas em descendentes. Também são relatadas diversas doenças no sangue. 

Os principais sintomas dessa intoxicação são irritabilidade, cefaleia, tremor muscular, alucinações, perda de memória e de capacidade de concentração. Esses sintomas podem progredir para delírios, convulsões, paralisias e coma. As sequelas desses problemas podem afetar a memória e o aprendizado. 

Um dos mais graves e rumorosos casos de intoxicação por chumbo aqui no Brasil foi o que ocorreu na cidade de Santo Amaro, na Bahia. Nessa cidade funcionou por mais de 30 anos uma empresa de beneficiamento de chumbo. Essa empresa faliu em 1993, deixando um passivo ambiental de cerca de 500 mil toneladas de resíduo desse metal. 

Além de afetar gravemente a saúde da população da cidade, essa contaminação também chegou as águas do rio Subaé e atingiu todo o seu estuário na Bahia de Todos os Santos. Caetano Veloso, cantor e compositor natural de Santo Amaro, lançou uma canção de protesto chamada “Purificar o Subaé” em 1981, gravada em parceria com Maria Bethânia, Gilberto Gil e Nicinha. 

Além dos contatos frequentes com tintas residenciais e industriais com altos níveis de chumbo, trabalhadores de todo mundo são expostos frequentemente ao contato com esse metal. Uma das atividades que mais expõem trabalhadores a esse risco é a reciclagem de materiais. 

A coleta, o transporte e a seleção de materiais recicláveis é o ganha pão de milhões de pessoas pobres em todo o mundo. Esses trabalhos, na esmagadora maioria dos casos, é feito de maneira artesanal e improvisada, onde não se respeitam as normas mínimas de segurança como o uso de EPIs – Equipamentos de Proteção Individual. 

Entre as sucatas mais cobiçados por esses recicladores estão as de metais como o alumínio, o cobre e o chumbo, materiais que tem um alto valor de revenda no mercado. No caso do chumbo, uma das principais fontes do metal são as baterias velhas de automóveis e caminhões (vide foto). 

Essas baterias são formadas basicamente por uma caixa plástica de baixo valor e por um conjunto de valiosas placas e contatos elétricos feitos de chumbo. As baterias também contêm uma solução ácida tóxica, que é descartada no meio ambiente sem maiores preocupações. 

As baterias são desmontadas sem maiores cuidados, o mesmo ocorrendo com a manipulação das peças de chumbo. Em muitas “recicladoras”, as peças de chumbo são derretidas de forma improvisada com maçaricos e transformadas em lingotes, um formato que valoriza o material junto aos compradores. 

Outra importante fonte de contaminação são atividades de reciclagem do chamado lixo eletrônico. Conforme já tratamos em postagens anteriores, componentes eletrônicos e placas de circuito impresso utilizam uma série de metais nobres e altamente valorizados. Destaco o cobre, o estanho, a prata, o alumínio, e, em quantidades bem menores, o ouro. 

A separação desses metais nobres de partes plásticas e de porcelana dos componentes é uma atividade que não é fácil e que demanda muita mão de obra. Países miseráveis como Gana acabaram sendo transformados em verdadeiros “cemitérios” mundiais de lixo eletrônico. Nesses países a mão de obra barata abunda. 

São justamente esses trabalhos miseráveis, que garantem as mínimas condições para a sobrevivência de milhões de pessoas, as principais fontes de contaminação por chumbo em todo o mundo. Sem nenhuma outra opção de trabalho, essa massa de trabalhadores se intoxica – com chumbo, mercúrio, cádmio e tantos outros metais perigosos, um pouco mais a cada dia. 

O alerta da OMS é providencial, mas o tamanho e a complexidade do problema são descomunais.