A CRIAÇÃO DA ZONA FRANCA DE MANAUS

CMM

Uma das iniciativas mais interessantes e inteligentes para a ocupação da Amazônia foi a criação da Zona Franca de Manaus (vide foto). Pensada inicialmente como um porto livre, essa área permitiria o armazenamento e a retirada de mercadorias de qualquer natureza, podendo atender todos os países da Bacia Amazônica. Nessa ideia simplória inicial, esse porto livre seria uma espécie de armazém alugado por empresas estrangeiras. Com o passar do tempo, essa ideia evoluiu muito e hoje é um dos grandes destaques econômicos da Região Amazônica. Vamos entender um pouco dessa história: 

A ideia da criação de um porto livre em Manaus data da década de 1870, quando a cidade se tornou um dos principais centros da indústria gomífera da Amazônia. Formalmente, foi o deputado federal Francisco Pereira da Silva que, em 1951, propôs a criação do porto livre. A proposta do deputado foi aprovada e transformada em lei, mas, como é típico aqui em nosso país, a “lei não pegou”. Em 1953, o Governo do Presidente Getúlio Vargas criou a SPVEA – Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia, uma outra ideia que também não avançou. O Governo Vargas, que já vinha enfrentando uma profunda crise política, acabou abruptamente com o suicídio do Presidente em 1954. 

A lei que criou a Zona Franca de Manaus foi promulgada em 1957 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Essa lei previa a criação de um espaço portuário de “armazenamento ou depósito e retirada de mercadorias de qualquer natureza, com armazéns e cais flutuantes na margem do rio Negro”, uma ideia muito próxima do conceito proposto pelo deputado Francisco Pereira da Silva em 1951. O Presidente Juscelino Kubitschek tinha um forte cunho desenvolvimentista e de integração nacional. Um dos destaques do seu Governo foi a criação do Plano de Rodovias que, entre outras obras, culminou com a construção da BR-364, rodovia que permitiu a ligação terrestre entre Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, e os Territórios do Guaporé (atual Rondônia), e Acre, além de regiões do Sul do Estado da Amazônia. 

A Zona Franca de Manaus viria a dar um verdadeiro “salto” em importância em 1967, época dos chamados Governos Militares (1964-1985). Essa é uma época de forte nacionalismo, quando o mundo vivia um dos períodos mais tensos da chamada Guerra Fria, um conflito ideológico entre o bloco capitalista, comandado pelos Estados Unidos, e o bloco comunista, que tinha a liderança da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Aqui na América Latina, as tensões ideológicas entre esses dois blocos resultaram no estabelecimento de inúmeros regimes de exceção, comandados por juntas militares e com apoio direto ou indireto dos Estados Unidos. 

Uma ideia que se desenrolava há muitos anos e que enchia de temores os militares brasileiros era hipótese de uma Internacionalização da Amazônia, comentada em postagem anterior. Foi justamente após a ascensão dos militares ao poder que passaremos a assistir à criação de uma série de medidas para a integração e ocupação da Amazônia brasileira, onde destacamos a construção de grandes rodovias como a Transamazônica, a Belém-Brasília e a Cuiabá-Santarém, projetos de mineração como Carajás, entre outros. Um dos slogans governamentais desse período era “uma Amazônia sem homens, para homens sem-terra” – falaremos de tudo isso em futuras postagens. 

Foi dentro desse contexto de defesa da Amazônia contra uma eventual ocupação estrangeira que o Presidente Castello Branco criou a SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus, que oficializou e ampliou a Zona Franca. A SUFRAMA passou a conceder uma série de incentivos fiscais para as empresas que se instalassem na Zona Franca – esses incentivos se estenderiam por 30 anos. A área da Zona Franca era, inicialmente, de 10 mil m², englobando Manaus e municípios vizinhos. Posteriormente, a área de abrangência foi ampliada para a Amazônia Ocidental, englobando os Estados do Amazonas, Rondônia, Acre e Roraima

As indústrias eletroeletrônicas estrangeiras foram as primeiras a perceber as vantagens para a instalação de unidades na Zona Franca de Manaus, se valendo primeiro dos incentivos fiscais para a importação de produtos prontos desde suas matrizes e, depois, importando componentes para a montagem in loco. Para se ter uma ideia do sucesso da Zona Franca de Manaus, apenas em 1967, foram criadas 1.339 novas empresas na região. Eu lembro claramente de uma época no início da década de 1970, quando as pessoas de classe média e média alta viajavam até Manaus para comprar produtos eletroeletrônicos como aparelhos de som, televisores, gravadores e máquinas fotográficas com “ótimos preços”. 

A Zona Franca também criou uma verdadeira “indústria de sacoleiros” por todo o país. Muita agente viajava até Manaus para comprar esses produtos, revendendo depois com um bom lucro em outras cidades do país. Em 1976, a SUFRAMA estabeleceu uma cota máxima de produtos que poderiam ser comprados e conseguiu controlar melhor essa revenda de produtos. 

Na década de 1980, o Governo Federal implementou algumas mudanças na Zona Franca de Manaus. A primeira delas foi uma alteração no prazo de validade da área, que primeiro foi estendido até 2007 e depois para 2013. Outra mudança se aplicaria na agregação de conteúdo tecnológico nacional nos produtos. Até aquele momento, as empresas multinacionais se limitavam a importar componentes desde seus países de origem e a realizar apenas a montagem dos produtos em Manaus, se aproveitando assim dos incentivos fiscais e do baixíssimo custo da mão-de-obra local. Essa baixa massa de salários não ajudava a fortalecer a economia local e beneficiava apenas as grandes empresas. 

Um exemplo: no final da década de 1980 eu trabalhava numa multinacional eletroeletrônica holandesa. Essa empresa estava estudando o lançamento de uma nova linha de produtos que seria montada na fábrica de Manaus. Esses produtos usavam uma tecnologia nova há época chamada SMD – Surface Mounting Device, onde os componentes eletrônicos eram montados nas placas de circuito impresso por um sistema robótico. Engenheiros da matriz na Holanda fizeram uma visita de vistoria na fábrica de Manaus e chegaram a uma conclusão – a mão-de-obra em Manaus era tão barata que não valia a pena importar o robô de montagem de componentes. A empresa lucraria muito mais fazendo a montagem dos componentes manualmente. 

Com as mudanças realizadas pela SUFRAMA, as empresas instaladas no Pólo Industrial de Manaus se viram forçadas a fazer investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Esse conteúdo tecnológico nacional se transformou num caminho para agregar valor nacional aos produtos e melhorar os salários da mão-de-obra nessas empresas, que além dos simples operários da montagem, passaram a contratar engenheiros e pesquisadores de diversas áreas. Essa mudança provocaria uma elevação de patamar significativa no Parque Industrial de Manaus ao longo dos anos seguintes. 

Atualmente, o Pólo Industrial de Manaus abriga cerca de 600 empresas e emprega mais de 500 mil trabalhadores diretos e indiretos. A maior parte da produção local, que vai de telefones celulares a motocicletas, é consumida no mercado brasileiro e cerca de 5% é exportada para América Latina, Estados Unidos e Europa. Em 2014, o prazo de validade da Zona Franca de Manaus foi estendido até 2073. 

Apesar dos inúmeros problemas que foram criados na cidade de Manaus a partir da criação da Zona Franca, onde podemos incluir o crescimento desordenado da mancha urbana, falta de infraestruturas de saneamento básico, de transportes, saúde e educação – problemas típicos de cidades grandes, a iniciativa foi extremamente benéfica para a preservação da Floresta Amazônica. Com a grande oferta de trabalho nas empresas em Manaus, um grande número de trabalhadores rurais passou a migrar para a cidade grande, deixando para trás a vida de “homem do campo”. Com essa mudança, grandes áreas da Floresta Amazônica deixaram de ser derrubadas e queimadas para a abertura de novos espaços agrícolas e pecuários. 

Conceitos como o da Zona Franca de Manaus, devidamente ajustados e integrados ao mundo contemporâneo, podem ser uma das alternativas para gerar uma colonização racional do território da Amazônia. Essa ocupação de mão-de-obra e geração de renda permite que se alcance um desenvolvimento sustentável sem a necessidade de destruir a Floresta Amazônica. 

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A COLONIZAÇÃO DOS CAMPOS AMAZÔNICOS DE RONDÔNIA

Soja em Rondônia

A imagem idealizada da Floresta Amazônica que muita gente aqui no Brasil e no mundo inteiro têm, mostra uma floresta com árvores gigantescas e muito próximas umas das outras, onde só se consegue chegar navegando através de rios grandes e caudalosos. Nesta floresta densa vivem milhares de espécies animais e vegetais; em clareiras isoladas no meio da mata, tribos de diversas etnias indígenas vivem felizes e em plena harmonia com a natureza. De repente, uma grande queimada começa a destruir grandes trechos dessa floresta, consumindo os habitats de pessoas e animais, e transformando a antiga mata num mar de cinzas. 

Essa imagem idílica da Amazônia está um “pouquinho” longe da realidade. Na verdade, o que chamamos de Floresta Amazônica é um conjunto de diferentes sistemas florestais, onde se incluem florestas secas com grandes árvores, florestas inundáveis com vegetação adaptada aos ciclos de cheias, várzeas e campos alagáveis, manguezais, manchas de cerrado e cerradões, entre muitos outros biomas. Uma forma de visualizar todo esse conjunto de diferentes biomas é imaginarmos uma grande colcha de retalhos (do tipo patchwork), onde cada cor ou padronagem de tecido representa um diferente tipo de sistema florestal ou bioma. Esse grande conjunto de sistemas florestais ocupa uma área de aproximadamente 5,5 milhões de km², distribuídos em 9 diferentes países – 60% dessa floresta fica dentro do território brasileiro

Para complicar um pouco mais o entendimento do que é a Floresta Amazônica, existe aqui no Brasil um conceito geográfico e econômico chamado de Amazônia Legal. Esse conceito tem suas origens em 1953, quando o Governo Federal regulamentou o Plano de Valorização Econômica da Amazônia. Esse Plano foi modificado em 1966, quando foi criada a SUDAM – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, e passou a ser usado o nome de Amazônia Legal.  

A área ocupada pela Amazônia Legal é de 5,2 milhões de km², cerca de 1 milhão de km² a mais que a área ocupada pela Floresta Amazônica “real” no país, o que corresponde a cerca de 61% do território do Brasil. Essa área “extra” da Amazônia Legal é formada basicamente por áreas de transição entre o Cerrado e os diferentes sistemas florestais tipicamente amazônicos – muitas das famosas imagens de grandes queimadas da Amazônia que correram o mundo nessas últimas semanas ocorreram justamente nessas áreas de Cerrado e de transição da Amazônia Legal. 

Conforme mostramos rapidamente na nossa última postagem, foi a construção da Rodovia BR-364, no início da década de 1960, que permitiu a ligação terrestre entre as cidades de Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, e Porto Velho, capital do então Território do Guaporé, atualmente Estado de Rondônia. Anos depois, a rodovia foi estendida até o Território do Acre. Antes da realização dessa obra, a Amazônia Ocidental só podia ser acessada por via fluvial em rios da Bacia Amazônica ou então por avião. Com a construção dessa Rodovia, foi aberta também a principal porta de entrada para a migração de colonizadores, especialmente originários da Região Sul do Brasil, em direção ao Sudoeste da Amazônia.  

A partir dessa integração rodoviária ao restante do território brasileiro, o Território do Guaporé passou a assistir uma forte onda migratória. Em 1970, a população do Território chegou aos 100 mil habitantes; em 1979 atingiu a marca de 423 mil e em 1982 atingiu 608 mil habitantes. Atualmente, o Estado de Rondônia tem 1,8 milhão de habitantes e possui uma relevante produção agrícola, especialmente de grãos como a soja, e pecuária. O rio Madeira se transformou numa importante via para o escoamento da produção local e também de cargas vindas do Estado de Mato Grosso. 

Agora, um detalhe importante dessa rápida colonização de Rondônia – grande parte dessas frentes agrícolas e de produção pecuária no Estado foram implantadas em áreas de Campos Amazônicos, um tipo de formação vegetal muito parecido com as áreas de Cerrado do Brasil Central e bastante diferente da imagem idealizada da densa Floresta Amazônica com grandes árvores. 

Cerca de 1/3 do território do atual Estado de Rondônia, cerca de 71 mil km² ou 2,5 vezes a área do Estado de Alagoas, eram cobertas por Campos Amazônicos. Essas áreas, que se mostram na forma de grandes ilhas cercadas pela Floresta Amazônica, apresentam a ocorrência de plantas e animais típicos do Cerrado. Ao longo das suas complexas histórias, tanto a Floresta Amazônica quanto o Cerrado apresentaram aumentos e reduções de suas áreas totais, acompanhando as mudanças climáticas do planeta. Os Campos Amazônicos são resquícios de um grande aumento da área do Cerrado até cerca de 10 mil atrás, quando a Floresta Amazônica voltou a crescer e isolou muitas áreas desse bioma. 

A colonização e o povoamento dessas extensas áreas de Campos Amazônicos em Rondônia coincidiram com os esforços da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, na climatização e adaptação de grãos, especialmente a soja, às condições de clima e de solos do Cerrado. A soja, conforme já apresentamos em postagens anteriores, é originária da China, onde vem sendo cultivada há cerca de 5 mil anos e foi criada a partir do cruzamento de duas espécies selvagens. É um grão com alto teor de gordura e proteína, com diversos usos para a alimentação humana e sobretudo na produção de rações para a alimentação de animais.

Plantios experimentais do grão começaram a ser feitos no Brasil a partir dos últimos anos do século XIX. A soja passou a ser plantada no Brasil em escala comercial no Rio Grande do Sul a partir da década de 1920, quando um pastor luterano norte-americano distribuiu sementes trazidas dos Estados Unidos para um grupo de agricultores pobres da região de Santa Rosa, no Oeste gaúcho. Adaptadas a um clima temperado, essas sementes produziram bem no extremo Sul do país. 

A partir da década de 1960, a EMBRAPA passou a realizar diversos trabalhos com a soja, buscando desenvolver variedades que se adaptassem aos solos e clima do Cerrado do Brasil Central. Os solos desse bioma apresentam altos teores de alumínio e uma grande acidez, sendo considerados pobres e improdutivos. Na década de 1950 foram desenvolvidas técnicas de correção dos solos como a calagem e a aplicação de calcário – a acidez dos solos deixou de ser um grande problema. Em meados da década de 1970, a EMBRAPA conseguiu desenvolver as primeiras variedades de soja adaptadas ao plantio no Cerrado, abrindo assim uma nova e importante frente para o avanço da agricultura no Brasil Central e fortalecendo a política da “Marcha para o Oeste”. 

Essa mesma tecnologia agrícola desenvolvida para o Cerrado também se mostrou adequada para os solos dos Campos Amazônicos – a produtividade da soja nessas regiões de Rondônia está entre as mais altas do Brasil (vide foto). Essa ocupação “humana” dos Campos Amazônicos, é claro, causou todo um conjunto de impactos à biodiversidade do bioma, muito similares aos observados no Cerrado. A partir do sucesso na colonização desses sistemas florestais, novas ondas migratórias de colonizadores que chegaram ao Estado a partir da década de 1980, passaram a ocupar e avançar contra as bordas do Sul da Floresta Amazônica. Não por acaso, foi justamente essa região a que apresentou o maior número de queimadas e incêndios nessa última temporada

É sempre importante observar e lembrar que todos os problemas de devastação e de degradação ambiental, que observamos hoje nessa região e em outras do grande território da Amazônia, não surgiram da noite para o dia e não podem ser resolvidos com o reflorestamento dessas áreas, como sugeriu o Presidente da França, Emmanuel Macron, em muitas das suas falas em defesa da “Nossa Amazônia”. A situação é bastante complexa e envolve muitos interesses políticos e econômicos, recursos naturais e estratégicos, além de muita gente, gente essa que foi estimulada a migrar para a Amazônia por diferentes Governos ao longo dos últimos 50 anos. De um jeito figurado, podemos dizer que “depois que abriram essa caixa de Pandora, será bastante difícil de fechar”…

Como eu sempre costumo dizer, na Amazônia tudo é superlativo – os rios, as matas, a biodiversidade e também os problemas. 

A CONSTRUÇÃO DA RODOVIA CUIABÁ-PORTO VELHO, OU LEMBRANDO DA CARAVANA FORD

Caravana Ford - Rondônia

Nessa sequência de postagens, onde estamos apresentando a história do povoamento da Amazônia e das raízes das grandes queimadas e desmatamentos que estamos assistindo em nossos dias, falamos diversas vezes dos seringais e seringueiros dos Territórios do Acre e do Guaporé, atualmente Rondônia. São muitos os capítulos da história da Amazônia que se passaram nessa região Oriental da grande Floresta. O que não falamos e que muito provavelmente você não sabe é que essa grande região da Amazônia era virtualmente impossível de ser atingida por terra até o início da década de 1960 – até essa época, só se chegava a Rondônia e ao Acre através da navegação fluvial pelos rios da Bacia Amazônica ou de avião

Os primeiros esforços para estabelecer comunicações por terra entre a Amazônia Ocidental e as demais regiões do país foram iniciados no final do século XIX pelo Exército brasileiro, que passou a trabalhar na abertura de estradas nos confins dos sertões e na instalação de linhas telegráficas. O grande nome desse período foi o militar e sertanista Cândido Rondon (1865-1958), que a partir de 1892 começou a trabalhar nas regiões de Goiás, Mato Grosso e Território do Guaporé, mais tarde batizado como Estado de Rondônia em sua homenagem. Entre 1907 e 1915, a unidade de Rondon construiu a Linha Telegráfica Estratégica Mato Grosso-Amazonas. Os trabalhos pioneiros de Rondon e de sua equipe ajudaram a abrir muitos dos caminhos para o interior do país, um trabalho monumental, mas que deixou muitos vazios desses sertões ainda a serem descobertos. 

Os planos para a construção de uma rodovia que ligasse a cidade de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, aos territórios do Guaporé e do Acre só se concretizariam em 1944. Nesse ano, uma comissão criada pelo Governo Federal elaborou um plano rodoviário, onde se incluiu a proposta para a construção da Rodovia Acreana, designada então como BR-029, que previa a interligação entre as cidades de Cuiabá, Porto Velho, Rio Branco e Cruzeiro do Sul, seguindo até a fronteira do Peru, onde faria conexão com a Rodovia Pan-Americana. Essa rodovia também permitiria a interligação rodoviária desde Cuiabá até as Regiões Centro-Sul do país. Um pequeno trecho de 55 km dessa rodovia chegou a ser iniciado, mas as obras foram paralisadas. 

A decisão efetiva para a construção da Rodovia BR-029 se deu em fevereiro de 1960 durante o Governo do Presidente Juscelino Kubitschek. Famoso pelo seu slogan “50 anos em 5”, o Governo Kubitschek ficou marcado pelo forte cunho progressista e, entre outros grandes legados, foi o responsável pela construção de Brasília e a transferência da Capital Federal para o Planalto Central, uma mudança que foi fundamental para estimular a interiorização da população do país. Consta que a decisão do Presidente se deu em uma reunião com o Governadores do Estado do Amazonas e dos Territórios do Guaporé e do Acre. 

O Presidente solicitou que o DNER – Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, iniciasse imediatamente os trabalhos, com a meta de inaugurar a Rodovia naquele mesmo ano. A pressa do Presidente Juscelino Kubitschek em concluir a construção da Rodovia, que teve sua designação mudada depois para BR-364, tinha uma razão prática – seu mandato se encerraria no final de janeiro de 1961, sendo que o prazo estipulado pelo Governo para a inauguração da Rodovia era 10 de dezembro de 1960. 

Apesar de todos os esforços das autoridades, os trabalhos de abertura e avanço das frentes de construção da Rodovia BR-364 não atingiam as metas estabelecidas e, para piorar a situação, o candidato melhor posicionado na corrida para a sucessão presidencial era Jânio Quadros, abertamente contrário à política de construção de estradas de Juscelino Kubitschek. A proposta para a construção da Rodovia Cuiabá-Santarém, por exemplo, que seria levada a cabo somente na década de 1970, era chamada de “rodovia das onças” por Jânio Quadros. Havia um temor generalizado entre os Governadores dos Territórios do Acre, do Guaporé e do Estado do Amazonas de uma paralisação das obras no caso de uma vitória de Jânio Quadros naquelas eleições. 

Em fins de 1960, cerca de 824 km dos 971 km previstos no projeto (já existiam alguns trechos de estradas de terra prontos) estavam precariamente concluídos, com o leito em terra batida (essa rodovia só seria asfaltada no início da década de 1980), com obras complementares inacabadas e com a maioria das pontes construídas em madeira. Faltava a conclusão de cerca de 147 km para que se pudesse considerar a “Rodovia” pronta. 

Aqui começa um capítulo curioso da história dessa Rodovia: O Governador do Território do Guaporé – Paulo Leal, conseguiu o apoio da Ford, empresa fabricante de veículos, e organizou a Caravana Ford, uma expedição composta por sete caminhões F-600, um trator e um Jipe, todos modelos da marca. Apoiada por uma forte campanha publicitária, a Caravana saiu de São Paulo no dia 28 de outubro de 1960 sob o comando do próprio Paulo Leal.  

Depois de enormes obstáculos, onde se incluem a abertura de trilhas na mata, lama, travessia de rios em balsas improvisadas, a Caravana conseguiu chegar em Porto Velho no dia 28 de 1960, sendo recebida por uma multidão entusiasmada com o feito. A foto que ilustra essa postagem dá uma boa ideia das muitas dificuldades enfrentadas pelos membros da expedição. A repercussão que a Caravana Ford obteve junto à opinião pública foi tão positiva em prol da importância da conclusão da Rodovia BR-364, que o Presidente Eleito, Jânio Quadros, se viu obrigado a concluir suas obras. 

Com a conclusão dessa Rodovia, que passou por vários melhoramentos depois, as portas da Amazônia Ocidental ficaram abertas para a chegada de um grande contingente de imigrantes, vindos especialmente da Região Sul do Brasil. Em 1970, a população do Território do Guaporé, citando um exemplo, bateu na casa dos 100 mil habitantes; em 1979 atingiu a marca de 423 mil e em 1982 atingiu os 608 mil habitantes. O principal impulsionador desse grande fluxo migratório foi o INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. 

Um dos principais programas de colonização do INCRA era o PIC – Projeto Integrado de Colonização, que distribuía lotes de terra entre 50 e 100 hectares e que foi concentrado nas regiões de entorno da Rodovia BR-364. Outro modelo de colonização era o PAD – Projeto de Assentamentos Dirigidos, que distribuía lotes de terra entre 100 e 250 hectares em regiões mais afastadas do Território. Entre 1970 e 1984, somente no Território do Guaporé, que teve seu nome mudado para Rondônia em 1982, foram realizados assentamentos em uma área superior a 3,6 milhões de hectares, beneficiamento dezenas de milhares de pequenos produtores rurais. Há um detalhe importante aqui – para garantir a posse definitiva desses lotes, esses colonos eram obrigados a derrubar a mata e trabalhar a terra

Nos primeiros anos da década de 1970, foram concluídas as obras de abertura do trecho da Rodovia BR-364 entre Porto Velho e as principais cidades do Acre, aumentando ainda mais o fluxo de imigrantes para a Amazônia Ocidental e consolidando de uma vez por todas a ligação terrestre de toda essa grande região com o restante do Brasil. Entre 1982 e 1984 esse trecho da Rodovia foi asfaltado e, inclusive, está prevista para o final deste ano a inauguração de uma ponte sobre o rio Madeira, eliminando a necessidade da travessia por balsas e melhorando o fluxo de veículos. 

Com tamanhos esforços do Governo Federal para a ocupação dessa região da Amazônia por pequenos e médios produtores rurais ao longo das últimas décadas, é claro que os Estados de Rondônia, do Acre e também regiões do Sul do Estado do Amazonas se transformaram em campeões em desmatamentos para a abertura de frentes agrícolas, formação de pastos para a criação de gado e também para exploração de madeira. Detalhe – grande parte das queimadas que tanto preocuparam o mundo ocorreram e estão acontecendo justamente nessas regiões. 

O POVOAMENTO E AS PROPOSTAS PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZÔNIA, OU LEMBRANDO DO INSTITUTO INTERNACIONAL DA HILÉIA AMAZÔNICA

Protestos Pró Amazônia

As tradicionais queimadas anuais na “Floresta Amazônica”, que nós brasileiros e vizinhos dos países amazônicos estamos tão acostumados a acompanhar nas últimas décadas, tiveram uma repercussão muito forte no mundo inteiro esse ano (vide foto). Com a popularização cada vez maior das redes sociais, especialmente adas grandes celebridades, fotos e vídeos dos incêndios florestais no Brasil – dentro e fora da Amazônia, ganharam o mundo e espaços cada vez maiores nos noticiários internacionais. Manchetes sensacionalistas como “O pulmão do mundo está queimando” ou “A Amazônia em chamas”, colocaram grande parte da opinião pública internacional contra o Brasil. 

Um dos nomes de maior destaque nesse período recente (falamos de poucas semanas atrás) foi o Presidente da França, Emmanuel Macron. Atolado em problemas internos, especialmente aqueles ligados aos sucessivos protestos dos chamados Coletes AmarelosMacron se transformou no “defensor número um” da Amazônia e passou a pregar abertamente a Internacionalização da “Nossa Amazônia” como uma das únicas alternativas para salvar a maior floresta equatorial do planeta da iminente destruição. Felizmente, o Presidente francês acabou como uma voz isolada, pelo menos por enquanto. Essa fala de Emmanuel Macron, ao contrário do que muitos possam imaginar, não é nova. 

A primeira tentativa moderna de se internacionalizar uma parte da Amazônia se deu nos últimos anos do século XIX, com a criação do Bolivian Syndicate no então disputado território do Acre. Conforme comentamos em postagens anteriores, o Acre era um território boliviano, que foi invadido por seringalistas e seringueiros brasileiros a partir da década de 1870. Sem conseguir resolver a questão por vias diplomáticas e militares, o Governo da Bolívia negociou a criação de uma companhia internacional, com capitais majoritariamente norte-americanos e também ingleses e alemães, onde cederia a exploração do Acre por 30 anos para estrangeiros. Na prática, o Acre teria sido transformado em uma colônia internacional aos moldes daquelas da África de então. Esse acordo foi denunciado por Luiz Galvez e foi um dos estopins para a Proclamação da República do Acre e da assinatura do Tratado de Petrópolis em 1903, que permitiu a anexação definitiva do território ao Brasil. 

A proposta mais explícita para uma internacionalização da Amazônia, porém, foi a sugestão da criação do IIHA – Instituto Internacional da Hiléia Amazônica, em 1946. Essa proposta foi feita na primeira sessão da UNESCO – Conferência Geral das Nações Unidas para Educação, Ciência e a Cultura, pelo cientista e delegado brasileiro Paulo Estevão de Berredo Carneiro. A bem-intencionada proposta tinha como objetivo promover o desenvolvimento de pesquisas nas áreas das ciências naturais e sociais, além de determinar as possibilidades para a ocupação demográfica de toda a Amazônia

A partir de 1947, a proposta para a criação da Hiléia Amazônica se tornou um dos principais projetos da UNESCO. Com a criação da CEPAL – Comissão Econômica para América Latina e o Caribe, o debate para a criação da Hiléia Amazônica ganhou força. As grandes potências passaram a enxergar a internacionalização da Amazônia como uma possibilidade para o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos da região, onde se incluíam Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela (as Guianas já estavam sob controle de países estrangeiros). De quebra, essas potências teriam acesso garantido à todas as riquezas da Região Amazônica.

Essa proposta, é claro, desagradava os políticos, os militares e também a população mais esclarecida do Brasil e dos demais países amazônicos. O Governo brasileiro, que desde o início da década de 1940 já vinha implementando uma série de políticas para a ocupação de extensas áreas desabitadas do interior do país, repudiou fortemente essa ideia. Já estava em andamento nessa época a “Marcha para o Oeste”, uma política que estimulava a colonização de áreas distantes do litoral, especialmente na Região Centro-Oeste. Historicamente, a população brasileira cresceu ao longo de uma faixa de terras ao redor de 500 km a partir do litoral e eram poucas as cidades localizadas nos sertões brasileiros. Um exemplo dos vazios demográficos é o Oeste do Estado de São Paulo que, apesar de ter há época uma das regiões mais industrializados do país na sua faixa Leste, era praticamente selvagem no seu extremo Ocidental. 

Felizmente, a ideia do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica foi perdendo força ao longo dos anos e o assunto acabou temporariamente esquecido. O acirramento da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, se tornou a grande prioridade mundial. Os fantasmas da internacionalização voltariam a assustar muita gente, especialmente da área militar, no final da década de 1950, quando foi proposto o Tratado da Antártida. Esse Tratado foi assinado inicialmente por 12 países no final de 1959, onde todas essas nações se comprometiam a suspender suas pretensões territoriais no continente gelado por um prazo indeterminado. Para muitos dos adeptos da “Teoria da Conspiração“, esse Tratado seria uma espécie de balão de ensaios para um futuro tratado para a internacionalização da Amazônia. 

O Tratado da Antártida consagrava entre seus princípios a liberdade para a pesquisa científica, a cooperação internacional e a utilização pacífica desse imenso território. A militarização da região foi expressamente proibida, assim como a sua utilização para testes com armamentos nucleares e também como depósito de lixo radioativo. Diversos países, entre eles o Brasil, aderiram a esse tratado ao longo dos anos. Em 1991, o Tratado sofreu uma revisão pelos países signatários e até 2041 a Antártida continuará sendo um patrimônio de toda a humanidade. 

A hipótese da internacionalização da Amazônia, frequentemente, é levantada por uma ou outra autoridade política das grandes potencias internacionais, dentro de contextos diferentes. Um exemplo que podemos citar se deu no início da década de 1990, quando um senador americano do Estado de WisconsinBob Kasten, disse em um discurso que “ao contrário do que pensam os brasileiros, a Amazônia não é deles, ela pertence a todos nós”. Coincidência ou não, nessa mesma época foram impressos mapas da América do Sul, onde a Região da Amazônia era mostrada como uma área internacional. Em diversas ocasiões, conversando com turistas americanos mais jovens, ouvi que muitos deles receberam essa informação nos bancos escolares. 

Quem tem acompanhado essa sequência de postagens, já deve ter percebido que o povoamento da Região Amazônica brasileira foi sendo feito na forma de ondas migratórias bem espaçadas. Um exemplo foi o que ocorreu por causa da exploração do látex – a partir de 1850, quando o uso de produtos de borracha foi ganhando força no mercado mundial, começou um processo de migração de trabalhadores em direção aos seringais da Bacia Amazônica. Essa migração ganhou muita força na década de 1870; no início da década de 1910, com o aumento da concorrência do látex do Sudeste Asiático, essa migração diminui radicalmente e ficou estagnada por praticamente 30 anos. 

Durante a II Guerra Mundial, quando os seringais do Sudeste Asiático foram tomados por forças invasoras do Japão, o mundo voltou a se lembrar do látex da Amazônia e foi criado um esforço de guerra para aumentar a sua produção e exportação – falamos do Segundo Ciclo da Borracha e dos seus famosos Soldados da Borracha. Entre 1943 e 1945, mais de 50 mil Soldados da Borracha foram recrutados, principalmente na Região Nordeste, e enviados para os “fronts” nas selvas amazônicas. Todas essas ondas migratórias para a exploração extrativista dos recursos naturais da Amazônica, até então, causaram impactos praticamente irrelevantes à ecologia da grande Floresta

Nos últimos 50 anos, porém, a ferocidade do avanço do povoamento e da devastação de grandes áreas da Floresta Amazônica têm, literalmente, fugido de qualquer controle e vem colocando a opinião pública internacional cada vez mais a favor de uma grande intervenção internacional na Amazônia. A partir das próximas postagens, vamos analisar os ingredientes e os programas governamentais que fomentaram essa ocupação “agressiva” da Amazônia. 

OS GRANDES “VAZIOS” NO MAPA DA AMAZÔNIA, OU LEMBRANDO DOS IRMÃOS VILLAS-BÔAS

Irmãos Villas-Bôas

Durante algumas poucas décadas, naqueles que foram chamados de Ciclos da Borracha, a Região Amazônica ganhou notoriedade dentro e fora do Brasil. Essa fama, porém, foi efêmera e a Região não tardou a voltar ao esquecimento por parte da maioria da população brasileira. No imaginário popular, a Amazônia continuou sendo sinônimo de mata fechada, grandes rios, índios e animais selvagens. 

Até a metade do século XX, a população da Região Amazônica era muito pequena, esparsa e muito mais pobre do que nos dias atuais. A grande concentração de seringueiras em algumas regiões, como no caso do Acre, levou a uma concentração maior de populações. No geral, porém, a maior parte dos rios e matas da grande Floresta permaneciam praticamente inexploradas e formavam grandes vazios no mapa do país. 

Ao longo de mais de quatro séculos de história, a maior parte da população brasileira se concentrava em áreas litorâneas com “vista para o mar” ou, para sermos mais precisos, ao longo de uma faixa costeira com talvez 500 km de largura. Uma das poucas grandes cidades que fugia a esta regra era Manaus, que está distante cerca de 1.300 km do Oceano Atlântico, mas que tem à sua frente uma imensidão de águas doces muito parecidas com um mar. Cidades localizadas em pontos mais distantes da costa como Cuiabá e Goiás Velho, sempre sofreram com o isolamento e com as dificuldades de comunicação com o resto do Brasil.  

Em grande parte do país, as coisas só começariam a mudar a partir do final do século XIX, quando o Exército Brasileiro passou a desenvolver trabalhos para a instalação de linhas telegráficas e a construir estradas nos confins dos sertões. Um dos nomes de maior destaque desse período foi o militar e sertanista Candido Rondon (1865-1958), que a partir de 1892 começou a trabalhar nas regiões de Goiás, Mato Grosso e Território do Guaporé, mais tarde batizado como Estado de Rondônia em sua homenagem. Os trabalhos pioneiros de Rondon e de sua equipe ajudaram a abrir muitos dos caminhos para o interior do país, uma tarefa monumental, mas que deixou muitos vazios desses sertões ainda a serem descobertos – o Sul da Amazônia era um destes “vazios”.  

Em 1943, durante o Governo de Getúlio Vargas e ainda na época dos Soldados da Borracha, foi criada uma expedição que desbravaria uma parte importante dos sertões da região Norte e que abriria as primeiras portas para o contato com inúmeras tribos indígenas isoladas e desconhecidas da Amazônia. Falamos da Expedição Roncador-Xingu, um marco na antropologia e na etnografia brasileira até hoje. A expedição foi gestada num momento onde se vivia a política da “Marcha para o Oeste“, quando o Governo Federal passou a criar incentivos para a migração de colonos e trabalhadores rurais rumo às terras desabitadas do interior do Brasil. E olhem que não estamos falando de nada tão distante assim – a região Oeste do Estado de São Paulo, citando um exemplo, era muito pouco habitada na época e um dos destinos desta ocupação pioneira.  

O nome escolhido para chefiar a expedição foi o do Coronel Flaviano de Mattos Vanique, um militar de carreira do tipo “linha dura”, que recrutou um grupo com cerca de quarenta sertanistas do Mato Grosso. O perfil ideal para a escolha destes sertanistas era “quanto mais analfabeto, melhor”. Dentro da mentalidade do Coronel Flaviano, analfabetos trabalhavam mais e não perdiam tempo fazendo perguntas. Esse “perfil” de expedicionário sem educação formal criou uma série de problemas para alguns irmãos paulistas, oriundos da classe média alta e com um alto nível educacional: Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas (vide foto).  

Bem vestidos, barbeados e demonstrando modos refinados, os irmãos Villas-Bôas foram prontamente descartados pelo Coronel Flaviano quando tentaram ingressar na Expedição Roncador-Xingu. Obcecados com a ideia de explorar uma das regiões mais distantes e isoladas do Brasil, os Villas-Bôas não desistiram: passados alguns meses da dispensa, eles se reapresentaram barbudos, malvestidos, envergonhados e mostrando um comportamento típico dos matutos dos sertões – foi assim que conseguiram entrar para a tão sonhada Expedição. 

Trabalhando inicialmente em atividades braçais, que iam desde os trabalhos em hortas a construções, os Villas-Bôas rapidamente foram ganhando a confiança dos líderes da Expedição e passaram a ocupar postos cada vez mais importantes dentro do grupo. Em 1949, já sob o comando de Orlando Villas-Bôas, o mais velho dos irmãos, a Expedição atingiu o Alto rio Xingu e faz contato com dezessete tribos isoladas da região. Percebendo rapidamente os problemas e as consequências que o choque cultural que seria criado após o encontro entre os “brancos” (a cor tem um significado diferente aqui, o de “civilizado”) e indígenas, Orlando Villas-Bôas propõe uma mudança drástica nos objetivos da Expedição: ao invés de criar núcleos de povoamento para colonos e agricultores, ele decide desenvolver trabalhos para a manutenção da integridade dos territórios e da cultura indígena nas terras do Alto rio Xingu.  

As ideias e os trabalhos dos irmãos Villas-Bôas repercutiram fortemente nos meios acadêmicos e políticos do Brasil ao longo dos anos. Em 1961, no Governo do Presidente Jânio Quadros e com o apoio do antropólogo Darcy Ribeiro, que trabalhava na época para o Serviço de Proteção ao Índio, foi criado o Parque Nacional Indígena do Xingu, nome mudado depois para Parque Indígena do Xingu. O Parque foi a primeira área indígena homologada pelo Governo Federal. O Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, falecido em 1958, foi um dos maiores apoiadores do projeto dos irmãos Villas-Bôas para a criação dessa área indígena, apesar de algumas divergências pontuais. Aqui é importante comentar que Rondon era de origem indígena e que foi o mais importante estudioso e registrador das etnias indígenas do Brasil no início do século XX. Esse seu trabalho foi fundamental para a criação do Serviço de Proteção aos Índios em 1910. 

A criação do Parque Indígena do Xingu visava tanto a preservação das comunidades e culturas dos povos indígenas, quanto a preservação ambiental de uma extensa área da Amazônia. Localizado no Norte do Estado do Mato Grosso, o Parque é formado por uma área de 27 mil km², numa região de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica. O rio Xingu, o principal curso d’água que atravessa a área, acabou dando nome ao Parque Indígena. Além do Xingu, o Parque conta com inúmeros dos seus afluentes: Kulene, Tanguro, Kurisevo, Ronuro, Suiá, Miçu, Maritsauá, Auiá Miçu, Uaiá Miçu e Jarina.

O trabalho pioneiro dos irmãos Villas-Bôas na criação do Parque Indígena do Xingu levaria à criação de diversas outras áreas indígenas por toda a Região Amazônica. Apesar dos inúmeros problemas enfrentados nessas áreas, onde se incluem a invasão e os desmatamentos feitos por madeireiros, grileiros e garimpeiros, essas Terras Indígenas balizaram os limites para todo um processo de colonização e povoamento que viria a ser implementado por toda a Amazônia a partir de meados da década de 1960. 

Após mais de 24 anos de trabalho, grande parte sob o comando dos irmãos Villas-Bôas, a Expedição Roncador–Xingu resultou na criação de mais de 40 cidades e 16 campos de pouso em regiões longínquas da Amazônia Legal, além é claro da criação do Parque Indígena do Xingu, que atualmente abriga mais de 6 mil índios de 16 etnias diferentes. Também permitiu o mapeamento cartográfico de uma extensa região, retirando um dos grandes vazios do mapa do país e escrevendo um importante capítulo da história da Amazônia. 

FORDLÂNDIA: UMA UTOPIA AMERICANA NA FLORESTA AMAZÔNICA

Henry Ford

A saga da exploração do látex na Floresta Amazônica é repleto de histórias interessantes. Uma das mais intrigantes foi o projeto do norte-americano Henry Ford, o pai da fabricação de automóveis em massa, que imaginou a criação de toda uma infraestrutura para a produção de látex “em série”, aos mesmos moldes usados em suas linhas de produção de automóveis. Esse projeto, que entrou para a história com o nome de Fordlândia, se estendeu de 1928 a 1945.

O uso industrial da borracha cresceu exponencialmente a partir da criação do processo de vulcanização por Charles Goodyear em 1839. A importância dessa matéria-prima se consolidou nas últimas décadas do século XIX, quando nasceu a indústria automobilística. Originária das florestas equatoriais da Amazônia, a árvore produtora do látex – a seringueira (Hevea brasiliensis), teve suas sementes contrabandeadas para a Inglaterra em 1879 e, depois, suas mudas foram plantadas em territórios ingleses do Sudeste Asiático. De matéria-prima controlada pelos Senhores da Borracha brasileiros entre 1850 a 1912, o látex passou para o controle de empresários ingleses a partir de 1913.

A Ford Motor Company, gigante da manufatura de automóveis que foi criada por Henry Ford em 1903, era uma das maiores consumidoras mundiais de produtos fabricados a partir da borracha. Graças ao seu gigantesco volume de produção de veículos, a Ford conseguia controlar os preços e os volumes de produção de diversas matérias-primas como o das chapas de aço, as madeiras e os couros usado na fabricação dos bancos, capotas e revestimentos internos de seus carros. Já os preços e os volumes de produção das peças de borracha, esses estavam sob controle de empresas da Inglaterra, algo que incomodava fortemente os norte-americanos.

Avaliando o sucesso obtido pelos empresários ingleses na formação de seringais artificiais em territórios britânicos do Sudeste Asiático, Henry Ford imaginou que ele mesmo poderia repetir essa façanha, plantando seringais artificiais na própria Amazônia. Realizado profissionalmente e dono de uma das maiores fortunas de sua época, Henry Ford tinha em suas mãos todos os recursos financeiros necessários para levar a cabo seu sonho e, por outro lado, todo um complexo industrial ávido para consumir toda a borracha que conseguisse produzir – as contas da equação fechavam perfeitamente.

A partir de 1927, Ford iniciou negociações com políticos brasileiros em busca da concessão de terras para a implantação do seu mega-projeto. O Governo do Estado do Pará concedeu uma área com mais de 14 mil km² no município de Aveiro, às margens do rio Tapajós. Os termos do acordo de concessão, altamente favoráveis aos norte-americanos, isentavam a Ford Motor Company do pagamento de taxas de exportação de látex, borracha, peles, couros, petróleo, sementes, madeira e qualquer outros produtos e/ou matérias-primas produzidas em suas instalações. O projeto, batizado com o nome de Fordlândia, começou a ser implantado em 1928.

Henry Ford pensou grande quando imaginou seu empreendimento na Amazônia: sua empresa enviou dois grandes navios cargueiros abarrotados de materiais e equipamentos para montar rapidamente sua cidade “norte-americana” nas selvas brasileiras. Foram cerca de 2 mil casas para os trabalhadores, bem ao estilo das casas norte-americanas do Meio-Oeste; 6 escolas, 2 hospitais, 2 portos fluviais, 30 galpões, 2 unidades de beneficiamento de látex, entre outras instalações. Também foram construídas estações de captação e de tratamento de água, redes de distribuição de água e de captação de esgotos, usinas para geração de energia elétrica, estações de rádio e de telefonia, 70 km de estradas, entre outras obras de infraestrutura. Não menos importantes, foram plantadas 1,9 milhões de mudas de seringueira em Fordlândia e 3,2 milhões no distrito de Belterra.

Apesar dos investimentos maciços em infraestrutura industrial e na criação de uma confortável cidade, chamada pelos locais de Vila Americana, o projeto de Henry Ford se encontrava ilhado em meio a inúmeros problemas. Os solos da sua concessão eram pedregosos e de baixa fertilidade, o que resultou na formação de plantações de seringueiras de qualidade bastante questionável. Sem experiência com a cultura de uma árvore equatorial, os técnicos norte-americanos plantaram as mudas muitos próximas uma da outra, o que viria a favorecer o surgimento de pragas agrícolas, especialmente um micro-organismo do gênero Microcyclus, que se mostrou fatal ao longo do tempo.

Além desses problemas agrícolas, a Fordlândia também sofreria com problemas políticos: os militares brasileiros e uma grande parcela dos políticos nacionais não viam com bons olhos essa “presença” norte-americana na Amazônia. Ao longo dos 17 anos da operação do projeto, esses políticos e militares não se esforçaram para ajudá-lo em nada – ao contrário, fizeram tudo o que foi possível para atrapalhar os planos da Ford no Pará.

O relacionamento entre os gerentes norte-americanos e os trabalhadores brasileiros também não foi um dos melhores. Acostumados a uma condição de trabalho autônomo e indisciplinado, os trabalhadores não aceitavam a rígida disciplina imposta pelos “gringos”, que ia da obrigatoriedade do uso de crachás de identificação e cumprimento de horários à realização de tarefas padronizadas, que seguiam rigidamente os conceitos de produção em série usados pelas fábricas da Ford. Outro ponto de atrito frequente era a comida servida nos refeitórios, que seguia a dieta usual dos norte-americanos, com muito hambúrguer e batatas fritas. Em 1930, numa das muitas revoltas dos trabalhadores contra o establishment da Ford, o gerente local foi obrigado a requisitar um avião da empresa  Pan-Am, com o qual voltou com toda a sua família para os Estados Unidos para nunca mais voltar.

Doenças tropicais como a malária e a febre amarela também causaram seus estragos na Fordlândia. Os norte-americanos tiveram o cuidado de construir dois hospitais dentro do projeto, incluindo neles um centro de investigação de doenças tropicais – a Floresta Amazônica, porém, foi muito mais forte. Além de atingir centenas de trabalhadores brasileiros, essas doenças também vitimizaram muitos dos chefes e gerentes estrangeiros. Num dos casos mais trágicos, há o relato de um gerente norte-americano da Ford que perdeu, num curto espaço de tempo, a mulher e os três filhos, vítimas dessas terríveis doenças. O simples medo de contrair quaisquer uma dessas doenças, criava uma grande rotatividade entre os profissionais estrangeiros.

Com o início da II Guerra Mundial, tropas japonesas invadiram os territórios ingleses do Sudeste Asiático e inviabilizaram o fornecimento do látex para grande parte do mercado mundial. Mesmo com esse evento e com a “ressuscitação” da produção do látex na Amazônia com os chamados Soldados da Borracha, a Fordlândia não conseguia atingir as sua metas de produção. O sonho de Henry Ford seguia rumo ao inevitável naufrágio.

Em 1945, dois anos antes da morte de Henry Ford, seu neto Henry Ford II assumiu a presidência da Ford Motor Company e, entre seus primeiros atos, extinguiu a Fordlândia. Em um acordo firmado com o Governo brasileiro, a Ford conseguiu receber uma indenização de US$ 250 mil pelas terras, infraestruturas e equipamentos instalados no projeto. Segundo informações da empresa, a Fordlândia provocou um prejuízo total para a empresa de US$ 25 milhões, em valores da época.

A criação da borracha sintética, feita a partir de derivados do petróleo ainda durante o desenrolar da Grande Guerra Mundial, enterrou de uma vez por todas qualquer possibilidade de outro grupo empresarial assumir o projeto. A Fordlândia hoje é uma cidade fantasma, repleta de esqueletos de galpões e fábricas, além de máquinas e equipamentos enferrujados, onde muitos sonhos se transformaram em verdadeiros pesadelos.

A grande Floresta Amazônica mostrou que era muito mais forte do poderiam imaginar aqueles pobres estrangeiros.

OS CAÇADORES DA AMAZÔNIA E O CICLO DO COURO E DAS PELES DE ANIMAIS SILVESTRES, OU FALANDO DOS SERINGUEIROS DESEMPREGADOS

Caça na Amazônia

Imagine que você foi contratado para trabalhar no meio da Floresta Amazônica. Seus contratantes lhe prometeram um salário fixo, participação nos lucros, moradia, alimentação e suporte técnico. Empolgado com as boas perspectivas profissionais, você se lança rumo ao desconhecido e, dentro de poucas semanas, já se encontrará nos confins desconhecidos da Amazônia. Aí, você descobre que tudo não passava de uma grande armação e que terá que trabalhar num regime de semiescravidão em troca de comida, além de ter contraído uma enorme dívida com seus contratantes. 

A história da imensa maioria dos seringueiros arregimentados para trabalhar na Amazônia foi mais ou menos essa. Flagelados pelas sucessivas secas no Semiárido Nordestino, centenas de milhares de sertanejos foram convencidos a migrar para a Amazônia, onde poderiam fazer fortuna em poucos anos trabalhando nos seringais, quando voltariam com muito dinheiro no bolso para as suas cidades de origem. Conforme mostramos numa série de postagens, esses trabalhadores foram enganados e depois abandonados a sua própria sorte com o fim do Primeiro Ciclo da Borracha

A partir de 1913, quando os seringais do Sudeste Asiático superaram a produção do látex da Amazônia, teve início um processo contínuo de desemprego dos seringueiros e de todos os demais profissionais que trabalhavam envolvidos com a extração do látex no meio das matas. Não existem números oficiais sobre o número real de seringueiros levados de todo o Brasil, principalmente da Região Nordeste, para a Amazônia – existem estimativas que falam de 500 a 700 mil trabalhadores. Na década de 1940, quando o látex da Amazônia voltou a ser lembrado devido a invasão dos territórios ingleses do Sudeste Asiático por tropas japonesas na II Guerra Mundial, números do Governo brasileiro falavam de 30 mil seringueiros em toda a Amazônia brasileira. 

Onde foram parar essas centenas de milhares de seringueiros, uma vez que uns poucos conseguiram voltar para suas cidades de origem? 

Uma das respostas possíveis a essa pergunta: os seringueiros desempregados se transformaram em eficientes caçadores de animais silvestres e passaram a fornecer peles e couros para o mercado da moda internacional. De acordo com estudos detalhados feitos por pesquisadores brasileiros e americanos, que tomaram como base os dados oficiais das alfândegas, entre 1904 e 1967, ano em que a caça de animais silvestres foi proibida no Brasil, cerca de 23 milhões de peles e couros de animais silvestres foram exportados pelo país. A foto que ilustra essa postagem mostra um curtume em Manaus na década de 1950, especializado no tratamento das peles e couros de animais silvestres.

A lista das espécies animais caçadas implacavelmente incluía onças-pintadas, gatos-maracajás, veados, lontras, ariranhas, peixes-boi, capivaras, antas, sucuris, jiboias, jacarés, entre outras espécies, donas de couros e pelagens consideradas exóticas e altamente valorizadas no mercado internacional. Após 1967, essa “indústria” continuou funcionando clandestinamente, com os couros e peles sendo exportados ilegalmente. A demanda por essas matérias-primas continuou até poucas décadas atrás, quando movimentos internacionais pela defesa dos animais passou a pressionar a indústria da moda, que diminui progressivamente seu uso. 

Um exemplo de animal que foi intensamente caçado nos rios da Amazônia foi o jacaré-açú (Melanosuchus niger). É o maior membro da família dos jacarés, podendo atingir um comprimento de 4,5 metros e um peso da ordem de 300 kg. Existem relatos bastante consistentes de exploradores e cientistas de tempos passados que falavam de exemplares capturados que tinham mais de 6 metros de comprimento e peso da ordem de 500 kg. O jacaré-açu é um predador de topo de cadeia alimentar, atacando praticamente tudo o que encontrar em seu caminho, o que inclui peixes, anfíbios, aves, répteis (inclusive jiboias e sucuris), mamíferos de grande porte como onças, capivaras e antas, e, é claro, seres humanos.  

De acordo com um detalhado estudo publicado por cientistas brasileiros na renomada revista Science Advances em 2016, entre 1904 e 1969, foram abatidos mais de 4,4 milhões de jacarés-açú em toda a Amazônia brasileira para aproveitamento do couro. O couro escuro do jacaré-açu, que podia cobrir uma área com até 10 m² de superfície, estava entre os mais valorizadas do mercado mundial. Sapatos, bolsas, malas, cintos, casacos e luvas feitos com esse couro eram encontrados nas lojas mais sofisticadas das grandes metrópoles mundiais e valiam uma pequena fortuna. 

Os rios e igarapés da Amazônia sempre foram os principais caminhos para o transporte de pessoas e cargas por toda a floresta e, por essa razão, os animais aquáticos e semiaquáticos sempre foram os mais perseguidos pelos caçadores. Aos números dramáticos de jacarés-açu abatidos nesse período, podemos acrescentar 100 mil peixes-boi, 386 mil ariranhas e 400 mil capivaras. Da fauna terrestre, foram 5,4 milhões de catetos, uma espécie de porco selvagem, 4 milhões de veados-mateiros, entre outras vítimas

Com a decadência da indústria do látex, centenas de milhares de seringueiros passaram a ser aliciados por comerciantes de couros e peles, sendo rapidamente transformados em mortais caçadores. O conhecimento adquirido ao longo de vários anos em caminhadas pelo meio da floresta em busca das seringueiras foi fundamental na busca e abate dos animais em seus habitats naturais. As mesmas redes de navegação que eram usadas para o escoamento das pélas de borracha, passaram a ser usadas para a venda dos couros e peles, assim como para o transporte dos produtos para as grandes cidades da Amazônia, onde se encontravam os depósitos dos grandes comerciantes internacionais. 

Cálculos atualizados afirmam que esse comércio internacional de couros e peles de animais silvestres da Amazônia movimentou aproximadamente US$ 500 milhões entre 1904 e 1969. É claro que a imensa maioria dessa fabulosa massa de recursos ficou na mão dos grandes comerciantes e intermediários – os caçadores, que faziam o trabalho sujo e insano nos confins da Floresta, ficaram com as migalhas. Passadas várias décadas dessa fase negra de nossa história, muitas das populações animais ainda não recuperaram suas antigas populações, especialmente as espécies aquáticas e semiaquáticas. Um exemplo são os jacarés-açú, que eram abundantes em todos os rios da Bacia Amazônica, e que agora só são encontrados em alguns rios e dentro de áreas indígenas e parque nacionais. 

Uma das grandes ironias do Ciclo da Borracha é que, apesar de toda a superexploração da mão-de-obra dos seringueiros, essa atividade gerou muita prosperidade econômica para muita gente sem causar prejuízos ambientais para a Floresta Amazônica. Esse ciclo das peles e dos couros, ao contrário, foi devastador para muitas espécies animais, levando algumas como o peixe-boi à beira da extinção. 

Esses eventos, tanto os positivos quanto os negativos, devem servir de exemplo para o desenvolvimento de ações de desenvolvimento sustentável em toda a Amazônia em nossos dias atuais.