UMA NOTÍCIA: “BANCADA DA AMAZÔNIA DESTINOU APENAS 0,03% DAS EMENDAS PARA O MEIO AMBIENTE; DO AM SÓ UM DEPUTADO”

Ao longo de todo esse ano de 2021, publicamos diversas postagens mostrando muitos dos problemas ambientais da Região Amazônica. Falamos de queimadas, desmatamentos, avanço da agricultura e da pecuária, garimpos ilegais, entre muitos outros – no caso de países amazônicos vizinhos, esses problemas incluem também o plantio de coca e o refino da cocaína.

Ocupando metade do território brasileiro e abrigando uma população da ordem de 25 milhões de pessoas, seria de se esperar que, ao menos, os deputados federais e senadores que representam os Estados da região se empenhassem o suficiente para garantir verbas públicas para projetos de conservação da Floresta Amazônica. Infelizmente, isso não vem acontecendo. Leiam essa notícia publicada pelo portal Dia a Dia Notícia de Manaus:

*Da Redação – Dia a Dia Notícia 

Em 2021, a bancada da Amazônia, composta por deputados e senadores dos nove estados da Amazônia Legal, aprovou apenas seis emendas para serem executadas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). No total, foram cerca de R$ 1,8 milhão que representa 0,03% das emendas aprovadas, porém nenhuma foi executada. Dos parlamentares que representam o estado Amazonas no Senado Federal e Câmara dos Deputados, apenas o deputado federal José Ricardo (PT) obteve emenda destinada ao Ministério do Meio Ambiente. 

A bancada da Amazônia é composta por 91 deputados e 27 senadores, que representam os nove estados que fazem parte da Amazônia Legal, sendo eles os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Apenas o deputado federal José Ricardo (PT) destinou uma emenda para o Ministério do Meio Ambiente no valor de R$ 200.000,00, porém não foi executada. Das 647 emendas realizadas entre os meses de janeiro a dezembro, que totalizam mais de R$ 2 bilhões, nenhum valor foi aplicado pelo MMA, onde estão concentradas as principais ações de preservação e fiscalização através do Ibama e ICMBio.

Os senadores Omar Aziz (PSD), Eduardo Braga (MDB) e Plínio Valério (PSDB), que representam o Amazonas no Senado Federal, destinaram emendas para a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), Recursos Sob Supervisão do ME, Ministério da Defesa, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Fundo Nacional de Saúde, Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Fundo Nacional de Assistência Social, entre outros. As emendas totalizam o valor de R$ 48.839.958,00.

Já os deputados do AM Átila Lins (PP), Bosco Saraiva (SD), Capitão Alberto Neto (PRB), Delegado Pablo (PSL), José Ricardo (PT), Marcelo Ramos, Sidney Leite (PSD) e Silas Câmara (PRB) destinaram emendas para Ministério dos Direitos Humanos, Ministério do Desenvolvimento Regional, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério da Defesa, Ministério da Cidadania, Fundo Nacional de Saúde, entre outros. O valor total foi de R$ 133.668.874,00.

Os deputados que compõem a bancada da Amazônia aprovaram para o orçamento de 2021 o valor de R$ 4,8 bilhões, onde quase metade deste valor (43%) foi destinado a pasta da saúde em decorrência da pandemia de Covid-19. Infraestrutura representa 12% do orçamento, já o setor agropecuário obteve grande quantidade emendas com 57 propostas e orçamento no valor de R$ 155 milhões.

Segundo levantamento da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência (SBPC), o orçamento executado pelo Ministério do Meio Ambiente no ano de 2021 é considerado o pior em 20 anos. Neste ano também, os índices de desmatamento bateram recordes históricos, a área de floresta derrubada é a maior em 15 anos.

Fazer discursos no Plenário do Congresso Nacional falando da necessidade da preservação da Amazônia é muito bom. Se esses discursos fossem seguidos pela dotação e liberação de verbas para a execução de projetos de preservação e recuperação ambiental do bioma seria melhor ainda.

Infelizmente, só vemos demagogia e muito jogo de cena…

PORTUGAL JÁ TEM UM “SERTÃO” PARA CHAMAR DE SEU 

Uma postagem rápida. 

Reservatórios de água e açudes secos, dificuldades para o abastecimento de cidades, agricultores e pecuaristas penando para conseguir água para irrigar suas plantações e dessedentar seus animais. Essas imagens, que lembram muito as temporadas de estiagem mais forte no nosso Sertão Nordestino, são das secas que vem assolando muitas regiões de Portugal com uma frequência cada vez maior. 

A imagem que ilustra essa postagem é bastante didática. Ela mostra o solo esturricado do antigo fundo de um reservatório seco – a ponte de pedra em arcos no fundo não deixa dúvida que a cena é em Portugal. 

De acordo com informações relativas ao último mês de outubro do IPMA – Instituto Português de Mar e Atmosfera, o serviço nacional meteorológico, sísmico e oceanográfico do país, cerca de 40% do território continental de Portugal apresentou chuvas fracas, 31,8% chuvas normais, 13.6% com seca fraca, 11,6% com seca moderada e 3% com seca severa

Entre as regiões classificadas com seca severa encontram-se áreas do Baixo Alentejo e do Algarve. Além da baixíssima precipitação, a temperatura média em Portugal foi 2,46% acima do normal, se situando em 23,6° C – em Mora, na região de Évora, a temperatura chegou a 34,2° C no dia 7 de outubro. 

Para nós brasileiros, tão acostumados que estamos com notícias de seca – especialmente no Semiárido Nordestino, esses números soam como triviais. Para Portugal, entretanto, eles são uma novidade preocupante. Mais preocupante ainda é o fato de as áreas com problemas de seca estarem aumentando ano após ano no país. 

Portugal não está sozinha nessa questão – diversas regiões da Europa vêm enfrentando temperaturas de verão acima da média, com ocorrências e secas, além de fortes ondas de calor. Em uma postagem publicada em agosto falamos do fenômeno atmosférico Lúcifer, que provocou dias com altíssimas temperaturas em vários países e também grandes incêndios florestais

Um estudo realizado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e publicado pela prestigiada Revista Nature, mostrou que as secas que vem assolando a Europa, especialmente a partir de 2014, são as mais intensas dos últimos 2 mil anos. Os pesquisadores analisaram as concentrações de isótopos de carbono e de oxigênio armazenados nos anéis de crescimento de 147 carvalhos que remontam dos tempos do Império Romano. 

As conclusões desse estudo indicam que o aquecimento global está por trás dessas mudanças climáticas na Europa. Também entram na “equação” fortes correntes de jato, intenso escoamento do ar, além de ventos excepcionalmente fortes a cerca de 11 km de altitude. O Deserto do Saara, que ocupa uma área de mais de 9,2 milhões de km2 no Norte da África, é um grande influenciador dessas ondas de calor e de seca que vem assolando a Europa. 

Portugueses e cidadãos de muitos países da Europa vão precisar se adaptar a esses novos e complicados tempos, inclusive tendo de aprender muitas das técnicas de sobrevivência com pequenos volumes de água. Num curtíssimo prazo, os Governos precisarão ampliar a capacidade de armazenamento de reservatórios de água, investir em projetos contra o desperdício de água, incentivar o reuso da água, entre outras medidas de economia. 

No médio e longo prazo, será necessária a realização de grandes obras de infraestrutura para o transporte de água entre regiões – o Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco, poderá ser um exemplo (inclusive nos seus pontos negativos). Outro caminho, que já é bastante utilizado na Espanha e em Malta, é a construção de usinas para a dessalinização da água do mar

Conforme já tratamos em outras postagens aqui no blog, o aquecimento global e todas as mudanças climáticas que ele traz são irreversíveis. Resta a essas populações aceitar os problemas e passar a fazer mudanças nos seus hábitos de vida. São novos e cada vez mais complicados os tempos atuais. 

A RECONSTRUÇÃO DA CATEDRAL DE NOTRE-DAME, OU FALANDO DA HIPOCRISIA DE MUITOS FRANCESES 

No início da noite do dia 15 de abril de 2019, a famosa Catedral de Notre-Dame, em Paris, foi tomada por um incêndio de grandes proporções. Telejornais e sites de notícias apresentaram essa tragédia ao vivo para todo o mundo. Eu lembro claramente das cenas de voluntários e bombeiros correndo desesperadamente para salvar obras de arte e outras peças religiosas, enquanto outras equipes tentavam dominar as fortes labaredas (vide foto). 

Uma das partes mais danificadas da catedral foi o telhado, que teve todo o seu antigo madeiramento completamente destruído. Felizmente, a maior parte da estrutura desse belíssimo exemplar da arquitetura gótica, que teve a sua construção iniciada em 1193, não foi afetada por essa grande tragédia. 

Desde então, a reconstrução da Catedral se transformou em uma questão de honra para o Governo da França. Nos primeiros dias após o incêndio, doadores de todo o mundo começaram a enviar contribuições para a reconstrução de Notre-Dame. De acordo com informações do órgão responsável pela administração da Catedral, já foram arrecadados cerca de 833 milhões de Euros provenientes de 340 mil doadores

Uma decisão tomada pelo Governo francês, que desagradou muitos ambientalistas, diz respeito à reconstrução da Catedral de Notre-Dame seguindo o projeto de restauração feito em 1843 pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc. O grande ponto de atrito nesse projeto é a estrutura de madeira do telhado – segundo alguns cálculos, poderá ser necessário derrubar até 2 mil carvalhos para fornecer a madeira a ser usada na obra. 

O carvalho é uma árvore do gênero Quercus, da família Fagus, da qual existem aproximadamente 600 espécies. Essas árvores são nativas do Hemisfério Norte, sendo encontradas em latitudes temperadas e tropicais da Europa, América do Norte, Ásia e Norte da África.  

Desde a mais remota antiguidade, a madeira dos carvalhos vem sendo largamente usada para a construção civil, construção naval, móveis e, em especial, na construção de barris para o armazenamento de bebidas como o vinho e o conhaque. 

Esse uso intensivo dessas madeiras levou à derrubada de grandes extensões de matas nativas, especialmente na Europa. Um exemplo citado aqui nas postagens do blog é o da famosa Floresta de Sherwood, na Inglaterra, que já foi o esconderijo do lendário Robin Hood. Atualmente, o que restou da antiga floresta é uma mancha verde do tamanho de um parque urbano. 

De acordo com as informações divulgadas pelos órgãos governamentais da França, serão derrubadas cerca de mil árvores nesse ano de 2021, sendo que metade das árvores virá de Florestas Nacionais e a outra metade de florestas particulares. As árvores consideradas ideais para o corte devem ter, no mínimo, tronco com 1 metro de diâmetro e altura útil de 20 metros. 

Segundo essas fontes, esse volume corresponde a apenas 0,1% do corte anual de madeira na França, estimado em cerca de 2 milhões de metros cúbicos. Segundo os ambientalistas, esses percentuais são muito relativos – são necessários de 200 a 300 anos para um carvalho atingir esse tamanho. 

De acordo com o plano de manejo, os troncos cortados deverão ficar por cerca de 6 meses no chão da floresta secando naturalmente. Durante esse período, especialistas vão avaliar as deformações nos troncos, que muitas vezes se curvam conforme vão perdendo umidade. Caso essa curvatura seja muito acentuada, o tronco será descartado para uso na reconstrução da Catedral e outras árvores precisarão ser derrubadas. 

Numa segunda fase, os troncos serão transportados até um deposito coberto, onde prosseguirão no processo de secagem por um período entre 12 e 18 meses, para só depois serem trabalhados nas carpintarias. O nível ideal de umidade para se trabalhar com madeira deve ficar numa faixa entre 34% e 42%. Madeira com excesso de umidade fica sujeita ao ataque de fungos, mofo e insetos; quando a madeira fica muito seca existe a perda de celulose, um polímero natural que mantém as fibras unidas. 

Segundo a crítica dos ambientalistas e de muitos especialistas em construção civil, a estrutura do telhado poderia ser feita com elementos metálicos, um material muito mais adequado que a madeira e bem mais resistente no caso de um novo incêndio. Nos dias atuais existe uma infinidade de ligas metálicas disponíveis para esse tipo de uso, o que evitaria a derrubada de tantos carvalhos centenários. 

Outra crítica pertinente diz respeito ao uso de elementos de chumbo para a fixação das peças de madeira, uma das premissas do projeto arquitetônico original. Durante o incêndio da Catedral em 2019, essas peças de chumbo derreteram com as altas temperaturas (o ponto de fusão do chumbo é 327,5° C) e grandes volumes do metal (na forma de vapor metálico) foram liberados na atmosfera. Medições feitas nas cercanias da Catedral logo após o incêndio identificaram altos níveis de chumbo na atmosfera e nos solos. 

O chumbo, só para lembrar, é um metal pesado muito usado na fabricação de tintas e baterias automotivas, entre inúmeras outras aplicações, com um longo histórico de intoxicação de seres humanos. Conforme a dosagem e a exposição, o chumbo pode causar uma série de doenças no sistema nervoso central.  

Durante muitos séculos, redes de abastecimento de água foram fabricadas usando tubulações de chumbo. Um caso clássico foi o da antiga cidade de Roma – muita gente suspeita que as loucuras de muitos imperadores romanos (Nero, por exemplo) foram provocadas pela intoxicação com esse metal. 

Um caso histórico brasileiro foi o de Candido Portinari (1903-1962), que na minha modesta opinião foi um dos maiores pintores de todos os tempos. Ele morreu vítima de intoxicação pelo chumbo presente nas tintas usadas em seus trabalhos. 

Agora, uma provocação: como muitos de vocês devem recordar, houve um grande incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro em 2018 – grande parte do acervo histórico foi perdido naquela ocasião e a maior parte da construção terminou seriamente danificada.  

Vamos imaginar que, para fins de restauração do telhado do prédio, fosse necessário derrubar mil árvores da Floresta Amazônica a fim de obter o mesmo tipo de madeira que foi usada na construção original. Fico imaginando o tamanho dos pulos que muitos “ambientalistas” franceses estariam dando em protesto. 

Pessoalmente, eu sou obrigado a concordar com os (verdadeiros) ambientalistas franceses nessa questão. Com todo o respeito ao patrimônio histórico do país e à sua preservação, na construção original da Catedral de Notre-Dame e na restauração de 1843, as pesadas vigas de carvalho foram usadas por que esse era o melhor material disponível para esse fim há época. 

Na era das ligas metálicas de titânio e nióbio, ou ainda de materiais compósitos a base de fibra de carbono, nada justifica o sacrifício de tantas árvores centenárias para a construção da estrutura de um telhado. Que Notre-Dame (Nossa Senhora) perdoe minha heresia… 

CICLONE EXTRATROPICAL PROVOCA FORTES CHUVAS NO SUL DA BAHIA E NO NORTE DE MINAS GERAIS 

Fortes chuvas estão castigando o Sul da Bahia e o Norte de Minas Gerais nesses últimos dias. Segundo o último balanço divulgado pela Defesa Civil da Bahia nesta segunda-feira, dia 13 de dezembro, já são mais de 220 mil pessoas afetadas, sendo mais de 15 mil desalojados e mais de 6 mil desalojados. Ao menos 10 pessoas morreram no Estado por causa das fortes chuvas. 

Os municípios mais fortemente atingidos pelas chuvas ficam no extremo Sul da Bahia. A lista inclui Eunápolis, Guaratinga, Itabela, Itanhém, Mucuri, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Teixeira de Freitas, Vereda, Jucuruçú, Medeiros Neto, Prado e Itamaraju. Com menores estragos estão as cidades de Mascote, Itacaré, Itabuna, Ilhéus, Canavieiras, Camacan e Belmonte. O Governo da Bahia já declarou situação de emergência em, pelo menos, 51 municípios e o Governo Federal já reconheceu a mesma situação em 24 municípios baianos. 

No Norte de Minas Gerais os municípios em situação mais complicada ficam nas regiões dos vales dos rios Jequitinhonha, Mucuri e Doce. De acordo com meteorologistas, essa região não registrava um volume de chuvas tão grande há mais de quarenta anos. O índice pluviométrico registrado neste último domingo, dia 12 de dezembro, atingiu a marca de 186 milímetros, um volume 47% superior à média histórica

O último balanço da Defesa Civil de Minas Gerais indica que mais de 11.500 pessoas já foram atingidas, sendo mais de 9.500 desalojados e quase 2 mil desabrigados. Ao menos 5 pessoas morreram em consequência dos fortes temporais em território mineiro. O Governo de Minas Gerais já reconheceu a situação de emergência em 31 municípios. 

As cidades mineiras mais fortemente atingidas pelas chuvas são Monte Azul, Serranópolis de Minas, Salinas e Fruta de Leite. Além de impactar o nível dos rios Jequitinhonha, Mucuri e Doce, as águas das chuvas provocaram uma forte elevação no nível do rio São Francisco, porém, sem maiores consequências. Na região de Pedras de Maria Cruz, o nível do rio subiu mais de 4 metros

Fortes chuvas de verão, conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui no blog, não deveriam representar nenhuma novidade para um país de clima essencialmente tropical e equatorial. Ano após ano, grande parte do território do país entra na temporada das chuvas e, pressupõe-se, que as nossas cidades apresentassem as mínimas infraestruturas para o escoamento das águas pluviais. 

Infelizmente, não é isso o que acontece: entra ano e sai ano com suas fortes e previsíveis chuvas, com Prefeitos e Governadores apelando por ajuda do Governo Federal para o socorro às vítimas das enchentes e dos desmoronamentos de casas e encostas de morros, além de recursos para a reconstrução de infraestruturas danificadas como ruas, avenidas e pontes. 

Aqui existe um mecanismo que não sei se a maioria dos leitores conhecem: sempre que se declara situação de emergência e/ou de calamidade pública, os Governos locais ficam liberados para usar as verbas públicas emergenciais sem a necessidade de processos com concorrência pública para a prestação de serviços e realização de obras. É uma verdadeira festa com dinheiro público… 

O responsável por essas fortes chuvas está bem distante do Sul da Bahia e do Norte de Minas Gerais – trata-se de um ciclone extratropical que está estacionado no litoral de Santa Catarina. Esse ciclone começou a formar no início da última semana ao longo da costa do Estado do Rio de Janeiro, onde surgiu uma área de baixa pressão. 

Conforme esse ciclone foi se deslocando para o Sul, ele foi se aprofundando em mar aberto e começou a organizar as típicas nuvens de formação ciclônica em espiral. O fenômeno trouxe ar mais frio do mar para o Sul do Brasil, provocando geadas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, além de provocar um clima típico de inverno na cidade de São Paulo. 

O Norte do Espírito Santo e de Minas Gerais, além do Sul da Bahia, foram atingidos por um sistema frontal induzido por um centro de baixa pressão no Oceano Atlântico, o que vem provocando volumes de chuva “absurdamente altos” nessas regiões. De acordo com medições pluviométricas feitas pelo CEMADEN – Centro Nacional de Prevenção de Desastres, o volume das chuvas atingiu a marca de 450 mm em Itamaraju e 171 mm em Porto Seguro. Ambos os municípios ficam na Bahia

Apesar da forte polarização política entre as autoridades do Governo estadual da Bahia e do Governo Federal, o que já rendeu uma longa lista de acusações e divulgação de informações conflitantes, as populações estão recebendo ajuda. Cestas básicas, roupas e itens de uso pessoal, muitos deles doados por organizações sociais civis, já foram distribuídos. 

O Ministério do Desenvolvimento Regional já anunciou a liberação de R$ 5,8 milhões para os municípios de Eunápolis, Itamaraju, Jucuruçu, Ibicuí, Ruy Barbosa, Maragogipe e Itaberaba. Uma portaria desse Ministério liberou outros R$ 1,2 milhão para ações de emergência em Eunápolis. O Governo Federal também anunciou a liberação de recursos do FGTS – Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, para as vítimas dos municípios com decretação de situação de emergência.  

Nas regiões afetadas no Norte de Minas Gerais, onde a polarização política é bem menor do que na Bahia, a população também está recebendo ajuda dos Governos Estadual e Federal. Tropas das Forças Armadas também foram autorizadas a atuar no resgate e na realocação de pessoas desabrigadas pelas fortes chuvas. 

Também é fundamental destacar o incansável trabalho das Polícias Militares e Corpo de Bombeiros desses Estados, da Polícia Rodoviária Federal, das equipes da Defesa Civil, além de voluntários e de organizações da sociedade civil. 

De acordo com os meteorologistas, esse ciclone deverá se afastar cada vez mais do litoral e se dissipar em alto mar. Esse afastamento gradual do ciclone deverá resultar em problemas cada vez menores com fortes chuvas na Bahia e em Minas Gerais. 

O verão, época das fortes chuvas nas regiões Centro-Sul e Leste do Brasil, só vai começar oficialmente no dia 22 de dezembro. Isso é sinal que ainda enfrentaremos muitos problemas com fortes chuvas ao longo dos próximos meses. Infelizmente, muitas das tragédias humanas que vimos até agora são apenas referentes ao começo dessa temporada de chuvas. 

PEIXE-LEÃO: UMA ESPÉCIE INVASORA QUE ESTÁ DOMINANDO O MAR DO CARIBE

Na última postagem falamos da Zona Morta do Golfo do México, um verdadeiro “deserto de biodiversidade” que ocupa uma área de mais de 22 mil km2 ao redor do delta do rio Mississipi. Recebendo grandes volumes de resíduos de fertilizantes e de outros produtos químicos, essas águas “férteis” estimulam o crescimento de algas e micro algas. Todo esse ciclo vegetal, incluindo a fase de decomposição das plantas mortas., consome a maior parte do oxigênio dissolvido na água, o que impede ou reduz bastante as condições para a sobrevivência de inúmeras espécies nessa área

A bacia hidrográfica do rio Mississipi, onde encontramos outros grandes rios como o Missouri e o Ohio, é a maior da América do Norte e a terceira maior do mundo, abrigando uma intensa atividade agropecuária, além de ser o lar de dezenas de milhões de norte-americanos e canadenses. As autoridades ambientais lutam para controlar o tamanho dessa Zona Morta. 

Além dessa contaminação química das suas águas, o Mar do Caribe também sofre com a poluição e com o carreamento de resíduos sólidos – veja a postagem sobre a ilha de resíduos plásticos, com vazamentos de petróleo, com a destruição de áreas florestais e de mangues, entre muitos outros problemas ambientais. Um drama recente e que vem ganhando proporções cada vez maiores é a invasão dessas águas por espécies exóticas. Um dos casos mais graves é o dos peixes-leão

Peixe-leão é o nome genérico dado a uma grande variedade de peixes marinhos belos e venenosos dos gêneros Pterois, Parapterois, Crachypterois, Ebosia e Dem dhrochirus, todas pertencentes à família Scorpaenidae. Esses peixes são muito apreciados por aquaristas de todo o mundo, uma característica que está na origem do problema da invasão do Mar do Caribe por essas espécies. 

Extremamente agressivo e voraz, o peixe-leão costuma atacar outras espécies menores que vivem no mesmo aquário. Aquaristas iniciantes, que não conhecem bem o peixe, muitas vezes acabam se decepcionando com esse comportamento e descartam esses animais em rios e praias. Essa foi, muito provavelmente, a história da invasão dos peixes-leão na costa Leste dos Estados Unidos e no Mar do Caribe. Os primeiros exemplares em águas norte-americanas foram avistados em 1985, na costa da Flórida

As diferentes espécies de peixe-leão são originárias da região do Indo-Pacífico, onde são encontrados ao largo dos bancos de corais entre a Austrália e o Leste e Sul da África. Nessas águas, esses peixes possuem diversos predadores naturais como tubarões e garoupas, o que mantém suas populações sob controle. 

A retirada de espécies animais e vegetais do habitat original e a sua introdução em outros ambientes altera substancialmente seu ciclo de vida. Em grande parte dos casos, os novos ambientes não possuem espécies predadoras, o que causa enormes desequilíbrios ambientais, a começar pela concorrência com as espécies nativas.  

Um exemplo que podemos citar é o caso dos eucaliptos, espécie de árvore típica da Austrália que foi introduzida no Brasil no início do século XX. Os coalas (Phascolarctos cinereus), que são mamíferos marsupiais arbóreos australianos, vivem nessas árvores e se alimentam de suas folhas. Aqui no Brasil, os eucaliptos crescem e prosperam praticamente sem qualquer tipo de predador natural. 

Sem enfrentar maiores ameaças, os peixes-leão iniciaram um rápido processo de colonização de toda a costa Leste dos Estados Unidos e, por volta do ano de 2005, os primeiros exemplares passaram a ser encontrados nas águas do Mar do Caribe, primeiro nas praias continentais do Golfo do México e depois nas diversas ilhas oceânicas. A espécie repetiu um feito anterior datado da segunda metade do século XIX, quando os animais atravessaram (por conta própria e sem interferência humana) o Mar Vermelho e o recém aberto Canal de Suez, invadindo as águas do Mar Mediterrâneo.  

Em 2012, circularam as primeiras notícias da chegada da espécie nas ilhas de Trindad e Tobago e, não muito tempo depois, dois exemplares de peixe-leão foram capturados no litoral do Amapá. Aqui é importante citar que existe uma formação natural, uma longa cadeia de recifes de corais que se estende por mais de mil quilômetros entre a Guiana Francesa e a cidade de São Luiz no Maranhão, que pode funcionar como uma trilha para a migração dos peixes. 

Esses corais se situam em profundidades entre 70 e 220 metros, ficando abaixo da pluma de águas doces do rio Amazonas. Essa surpreendente formação, que ocupa uma área estimada em 56 mil km2, só foi identificada em 2016 e os estudos sobre a sua biodiversidade ainda estão em estágio inicial. 

Em dezembro de 2020, um peixe-leão foi capturado por mergulhadores em Fernando de Noronha, arquipélago que fica a mais de 350 km do litoral de Pernambuco. Três outros exemplares foram capturados em agosto de 2021. Segundo os especialistas, é provável que ovas fecundadas da espécie tenham sido arrastadas até o arquipélago pelas correntes marítimas

Um caso intrigante foi relatado por pesquisadores da UFF – Universidade Federal Fluminense, que em maio de 2014, capturou um exemplar de 25 cm numa área rochosa da Prainha, em Arraial do Cabo, Região dos Lagos no Estado do Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2016, um outro exemplar foi capturado na mesma região. Os pesquisadores acreditam que a introdução desses animais na região se deve ao descarte feito por algum aquarista – é muito pouco provável que os peixes tenham migrado do Mar do Caribe para o litoral fluminense, um trajeto de mais de 6 mil km. 

Os peixes-leão são considerados mesopredadores, ou seja, comem peixes de pequeno a médio porte. As espécies nativas não o reconhecem como uma ameaça e não fogem instintivamente como fazem ao avistarem seus predadores naturais. Com essa fartura de alimentos e sem ameaças naturais, a espécie cresce descontroladamente, conquistando novos territórios a cada dia. 

Áreas ao redor de ilhas oceânicas costumam abrigar espécies endêmicas, ou seja, que só vivem nessas águas. A chegada de uma espécie exótica e voraz como o peixe-leão poderá resultar numa redução drástica das populações dessas espécies locais, ou mesmo, na extinção desses animais. As regiões mais vulneráveis no litoral brasileiro são as áreas oceânicas ao redor de Fernando de Noronha, do Atol das Rocas, de Martin Vaz e Trindade, além dos penedos ou rochedos de São Pedro e São Paulo. 

A invasão de biomas por espécies exóticas, um tema que já tratamos em uma série de postagens aqui no blog, é um dos maiores problemas ambientais de nossos tempos. O peixe-leão é apenas mais uma espécie invasora em meio a tantas outras em biomas aqui do nosso lado do mundo. 

A “ZONA MORTA” DO GOLFO DO MÉXICO 

Ao longo da costa dos Estados norte-americanos do Texas, Luisiana e Mississipi, na região do Mar do Caribe, existe uma faixa de águas que apresentam níveis extremamente baixos de oxigênio, onde peixes e outros organismos marinhos não conseguem sobreviver. Essa região é conhecida como a Zona Morta do Golfo do México. 

De acordo com estimativas feitas pela NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, essa Zona Morta ocupa uma área de mais de 16 mil km2. A NOAA monitora o problema desde de 1985 – em 2017, essa área superou a marca dos 22,7 mil km2

De acordo com os cientistas, existem Zonas Mortas em áreas oceânicas de todo o mundo – a do Golfo do México é a segunda maior em área. Os baixos níveis de oxigênio dissolvido nesses locais decorrem dos altos níveis de resíduos químicos – especialmente os resíduos de fertilizantes usados na agricultura, que são carreados para o oceano pelas águas do rio Mississipi.

Fertilizantes são fundamentais para a agricultura de alta produtividade moderna. Compostos químicos a base de NPK – nitrogênio, fósforo e potássio, entre outros, fornecem os nutrientes fundamentais para o desenvolvimento das culturas. Entretanto, parte desses fertilizantes acaba sendo arrastada para o curso de riachos e rios pelas águas das chuvas. 

Na água, esses nutrientes estimulam o crescimento de algas e microalgas que, como qualquer planta, consomem oxigênio – nesse caso, falamos do oxigênio dissolvido na alga. Bactérias que se alimentam dos restos dessas plantas também consomem o oxigênio, deixando peixes, moluscos, vermes e outras criaturas aquáticas com baixos níveis de oxigênio para sobreviver. 

Outra fonte importante de nutrientes nas águas são os esgotos, principalmente os esgotos domésticos. A matéria orgânica presente nos esgotos – principalmente as fezes e os restos de alimento, também atuam como nutrientes e contribuem para a proliferação dessas plantas aquáticas e a consequente hipóxia, que é o baixo nível de oxigênio dissolvido nas águas. 

Quando olhamos num mapa a localização da Zona Morta do Golfo do México (vide a imagem fornecida pela NOAA), percebemos claramente a sua localização ao redor do delta do rio Mississipi. Junto com os rios Missouri e Ohio. O Mississipi forma a maior bacia hidrográfica da América do Norte e a terceira maior do mundo, que só fica atrás da bacia Amazônica e a do rio Congo. Ocupando uma área de mais de 3,2 milhões de km2, essa bacia hidrográfica incorpora, total ou parcialmente, 31 Estados norte-americanos e 2 províncias canadenses.  

A bacia hidrográfica dos rios Mississipi/Missouri e Ohio abriga algumas das mais importantes regiões agrícolas do mundo. Um exemplo é o chamado Corn Belt ou o Cinturão do Milhos dos Estados Unidos. Essa região é formada por 12 Estados do Centro, Norte e Nordeste dos Estados Unidos, respondendo por mais de 40% da produção mundial de milho

Além da agricultura intensiva, onde milhões de toneladas de fertilizantes são utilizadas a cada ano, as águas dessa bacia hidrográfica também recebem os efluentes de esgotos de milhares de cidades. Os Estados Unidos possuem uma excelente infraestrutura de saneamento básico em suas cidades, onde praticamente 100% dos esgotos são coletados e tratados. 

Dependendo do tipo de tecnologia utilizada nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, o nível do tratamento pode deixar uma pequena parcela dos efluentes – algo entre 2 e 5%, com resíduos. A isso se juntam ligações clandestinas de esgotos, resíduos de fazendas de criação de animais e até mesmo eflúvios (chamado popularmente de chorume) de aterros sanitários.  

Considerando-se apenas o tamanho da população dos Estados Unidos – mais de 330 milhões de habitantes, e da enorme quantidade de propriedades rurais no país, esse “pequeno” volume de resíduos sem tratamento é bastante significativo. O caudal médio no delta do rio Mississipi, que fica no Sul do Estado da Luisiana, é de 12.700 m3/s, volume de água que transporta quantidades fabulosas de nutrientes. 

Segundo informações da NOAA, os maiores problemas são causados pelos nitratos e pelo fósforo. Além do consumo de oxigênio pelas algas e micro algas vivas, a decomposição das plantas mortas também gera um grande consumo de oxigênio – as bactérias que decompõem as plantas também precisam do gás para “respirar”. Com baixos níveis de oxigênio dissolvido nas águas, a região se transforma em um verdadeiro deserto biológico

A grande preocupação das autoridades norte-americanas é o crescimento dessa Zona Morta – nos últimos 5 anos a área tem ficado com um tamanho 2,8 vezes maior que a meta estabelecida, onde a área máxima ficaria dentro de uma faixa de águas com 5 mil km2

Durante a maior parte do ano, essa Zona Morta se mantém inalterada. As águas doces do rio Mississipi demoram a se misturar com as águas salgadas do Mar do Caribe. Esse fenômeno é bastante conhecido e se deve à diferença de temperatura e composição química das águas. Um exemplo é o famoso Encontro das Águas dos rios Amazonas e Negro. No outono, quando a região do Mar do Caribe é tomada por fortes ventos, a agitação das águas ajuda a reduzir o tamanho da área com hipóxia. 

Esse “fenômeno”, conforme já comentamos, não é exclusivo da região do delta do rio Mississipi. Ele se repete em regiões de foz de grandes rios em todo o mundo. Exemplos são as áreas ao redor da foz de rios como o Tamisa, o Reno e o Danúbio, na Europa; o delta do rio Nilo, no Egito, e do rio Volga na Rússia. Também entram nessa lista outros importantes rios da Ásia como o Indo, o Ganges, o Mekong e o Yangtzé

Aqui na América do Sul temos o exemplo do rio da Prata, na divisa entre a Argentina e o Uruguai. Apesar de ainda estar muito longe do tamanho do problema no Golfo do México, o volume de nutrientes que tem chegado nesse rio vem aumentando progressivamente ao longo das últimas décadas. 

O rio da Prata é o trecho final da segunda maior bacia hidrográfica da América do Sul. Entre os seus grandes rios formadores temos os rios Paraná, Paraguai, Negro, UruguaiPilcomayoBermejo Salado, entre muitos outros. Essa bacia hidrográfica ocupa uma área superior a 4,3 milhões de km2 no Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai

Aqui no Brasil, somente para exemplificar, essa bacia hidrográfica está inserida em uma grande extensão do Cerrado, bioma onde as atividades agropecuárias mais cresceram no país nas últimas décadas. Outro bioma importante é a Pampa Argentina e Uruguaia, e sua extensão em território brasileiro – os Pampas Sulinos

Além dos volumes crescentes de resíduos de fertilizantes agrícolas, essas águas recebem grandes quantidades de resíduos orgânicos presentes nos esgotos domésticos de uma infinidade de cidades (aqui na América do Sul, ao contrário dos Estados Unidos, as cidades não tem maiores preocupações com a coleta e tratamento de esgotos), além de imensos volumes de resíduos gerados por fazendas de criação de animais. 

Dentro de muito pouco tempo, desgraçadamente, o rio da Prata poderá se transformar em um sério “concorrente” ao Mar do Caribe no quesito Zona Morta… 

A SURPREENDENTE BIODIVERSIDADE ENCONTRADA EM UMA DAS ILHAS DE RESÍDUOS PLÁSTICOS DO OCEANO PACÍFICO

Além dos imensos problemas ambientais que se desenrolam nas grandes florestas do mundo, onde o grande destaque é a Floresta Amazônica, nossos oceanos e mares não estão em uma situação nada melhor. Aqui é importante lembrar que, ao contrário dos discursos de muitos famosos, políticos e ambientalistas internacionais, o verdadeiro pulmão do mundo são as algas e o fito plâncton que vivem nas águas salgadas dos mares e oceanos. 

Os problemas são muitos, a começar pelas grandes mudanças que o aquecimento global vem provocando. Com temperaturas mais altas, o gelo das regiões polares e das grandes cadeias de montanhas está derretendo, despejando fabulosos volumes de água doce nos oceanos. Isso está provocando mudanças em importantes correntes marítimas, o que prejudica a fauna e a flora oceânica, além de provocar mudanças nas grandes massas de nuvens e nas chuvas em muitas regiões

Também não são pequenos os problemas provocados por derramamentos de petróleo, acidentes cada vez mais frequentes. Um outro problema que não é novo, mas que vem crescendo cada vez mais são as chamadas “zonas mortas” – grandes extensões de água sem vida marítima, um fenômeno que vem sendo provocado pelo despejo de águas altamente poluídas de rios, principalmente com resíduos de fertilizantes e pesticidas usados na agricultura. 

Hoje gostaria de focar no problema da poluição dos mares e oceanos por resíduos plásticos. Em postagens anteriores já tratamos desse assunto, onde mostramos as grandes ilhas formadas por resíduos de plástico flutuante no Oceano Pacífico e no Mar do Caribe

A palavra plástico vem do grego plassein, o que significa moldável e exprime as características de mudança da forma física dos materiais. Os primeiros experimentos com o material datam da década de 1860, quando o inventor inglês Alexander Parkes iniciou seus estudos com o nitrato de celulosa, um material sólido bastante flexível, resistente a água, de cor opaca e com boa aderência para a pintura com tinta – esse material ganhou o nome de parquesine e é considerada a primeira matéria plástica a ser criada. 

Na década de 1870, após sucessivos aperfeiçoamentos, surgiu a celuloide, a primeira versão comercial do plástico, utilizado inicialmente pelos dentistas na fabricação de próteses dentárias e pelos fabricantes de bolas de bilhar, que buscavam uma alternativa ao caro marfim animal. O celuloide ganhou fama mundial com o surgimento do cinema, quando os rolos dos filmes eram fabricados com esse material. 

Em 1909 surgiu a baquelite, o primeiro polímero sintético com alto grau de dureza, resistência ao calor e ótimo isolamento elétrico, com larga aplicação na confecção de produtos elétricos e de telefonia, discos, e mais tarde na fabricação das caixas dos rádios, popularizados a partir da década de 1920. 

Na década de 1930 surgiu a poliamida, conhecida comercialmente como nylon, usada intensamente durante a II Guerra Mundial (1939-1945) na fabricação de paraquedas, equipamento novo e decisivo em muitas batalhas. O esforço industrial mundial durante esse conflito levou à criação de toda uma gama de polímeros como o drácon, o isopor, o vinil, o polietileno e o poliestireno. Após o término da Guerra em 1945, os diferentes tipos de plásticos passaram a fazer parte do cotidiano do homem moderno, utilizado na fabricação de todos os tipos de produtos, utensílios e, especialmente, nas embalagens.  

Entre a grande lista de qualidades desses materiais, existe uma que raramente é citada: o plástico comum é, virtualmente, indestrutível, o que cria todo o tipo de problemas com os resíduos a base de polímeros plásticos. Um exemplo: uma garrafa PET (Polietilenotereflalato) pode levar até 200 anos para se decompor na natureza. Descartados sem maiores cuidados, os resíduos plásticos causam enormes problemas para o meio ambiente, especialmente quando são arrastados para as águas dos oceanos e mares. 

Os oceanos e mares cobrem 71% da superfície do planeta Terra, o que corresponde a cerca de 362 milhões de km², onde encontramos aproximadamente 1,3 bilhão de km³ de água. Nesse mundo de águas encontramos a maior “floresta” do mundo, formada pelas mais diferentes espécies de algas, microalgas e fito plâncton. Essas plantas geram perto de 54% do oxigênio liberado na atmosfera do planeta

De acordo com estudos da organização ambientalista WWF – World Wildlife Fundcerca de 10 milhões de toneladas de resíduos de plástico chegam aos oceanos todos os anos. Esse volume corresponde a 1/10 de toda a produção de plástico do mundo.   

Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro quadrado de mar – é indeterminada a quantidade de resíduos que está submersa nos oceanos. As sacolas plásticas, como as de supermercados tão presentes em nosso dia a dia, representam até 27% desse lixo flutuante dos oceanos, segundo algumas medições já feitas

Grandes ilhas flutuantes formadas por resíduos plásticos passaram a ser encontradas nos oceanos, especialmente a partir da década de 1980. Um exemplo é uma grande ilha de resíduos plásticos que foi descoberta no Oceano Pacífico em 1997. Segundo cálculos de oceanógrafos, essa “ilha” chega a ocupar uma área de 1,2 milhão de km2, o que equivale a soma das áreas dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. O volume dos resíduos plásticos é estimado em 4 milhões de toneladas

Pesquisadores dos Estados Unidos e do Canadá descobriram recentemente que uma dessas ilhas de resíduos plásticos no Norte do Oceano Pacífico está sendo “colonizada” por plantas e animais marinhos de áreas costeiras do Oeste desses países. Essa biodiversidade inclui, entre outras espécies, anêmonas, moluscos, caranguejos e insetos marinhos. Os espécimes foram encontrados em 90% dos resíduos plásticos flutuantes. 

Um conceito chave na biologia é o que diz que os espécimes mais aptos, ou seja, os indivíduos que melhor se adaptam às condições de um determinado ambiente, são os que sobrevivem. Um animal que consegue se alimentar, por exemplo, de uma planta que outros animais desprezam, terá uma grande vantagem competitiva e poderá gerar toda uma linhagem de animais que, ao longo do tempo, poderão se constituir em uma nova espécie. 

O que está acontecendo nessa ilha de resíduos flutuantes, e que pode estar se repetindo em outras dessas ilhas, é que diversas espécies de plantas e de animais conseguiram identificar uma oportunidade de sobrevivência nesses locais e estão se adaptando para a vida num meio ambiente “hostil”. Plantas e insetos formam a base da cadeia alimentar, atraindo espécies maiores de predadores, formando assim novos ecossistemas. 

Ao mesmo tempo em que esses eventos são um triunfo da evolução dessas espécies, não deixa de ser um fato lamentável. Com a destruição de seus antigos habitats por ações humanas, essas espécies, ironicamente, encontraram um novo nicho ecológico justamente em um “produto” de outra tragédia ambiental. 

Se não acontecer uma mudança drástica no gerenciamento e um descarte adequado dos resíduos plásticos gerados pela humanidade, surgirão cada vez mais “ilhas flutuantes“ nos oceanos prontas para serem colonizadas por plantas e animais marinhos. 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA FLORESTA AMAZÔNICA EM UM RÁPIDO RESUMO 

Ao longo das últimas postagens apresentamos um quadro geral dos enormes problemas ambientais que se desenrolam na Floresta Amazônica. Ao contrário do que muitos políticos, famosos e ambientalistas internacionais repetem à exaustão, queimadas, derrubada de árvores e garimpo ilegal, entre outros graves problemas, não acontecem só no Brasil: esses males estão cercando a grande floresta equatorial por todos os lados

A Floresta Amazônica ocupa uma área de aproximadamente 5,5 milhões de km2 – algumas fontes falam de 7 milhões de km2, área essa que inclui diversos trechos de biomas de transição. Cerca de 60% da Floresta Amazônica fica dentro do território brasileiro, sendo o restante distribuído entre Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa

Essa distribuição da Floresta Amazônica entre diversos países também pressupõe a divisão de muitos dos problemas ambientais. Para apresentar um quadro geral, fizemos um rápido resumo dos problemas em cada um dos países amazônicos. 

Brasil: Um relatório do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgado no último dia 18 de novembro, indicou um aumento na taxa de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira no período entre 1° de agosto de 2020 e 31 de julho de 2021. Os dados indicam um aumento na taxa de desmatamentos de 21,97% e uma perda de 13.225 km² de cobertura vegetal no período

A Amazônia Legal compreende toda a área coberta pela Floresta Amazônica no Brasil, além de todo o território dos Estados de Mato Grosso e Tocantins, além de uma faixa no Leste do Estado do Maranhão – a maior parte dessas áreas “extras” é coberta pelo bioma Cerrado. A área total é de 5 milhões de km².

Essa perda de cobertura florestal na Amazônia brasileira normalmente está associada a expansão de campos para a prática da agricultura e também para a formação de pastagens para a criação de gado. Também existem casos de derrubada de mata para a exploração de madeiras nobres, além da destruição de matas por atividades de garimpo – todas ilegais. 

Colômbia: A Floresta Amazônica na Colômbia ocupa uma área total de mais de 480 mil km2, o que corresponde a 42% do território do país. A maior parte das agressões ambientais guarda muitas semelhanças com o que acontece aqui no Brasil. Na Colômbia, porém, existe um diferencial importante: grande parte dos desmatamentos e das agressões ambientais ao bioma são comandados por grupos armados ligados aos diferentes movimentos revolucionários do país. 

A Colômbia é, de longe, a maior produtora e exportadora mundial de cocaína, além de outras drogas. Grande parte dos campos de plantio da coca (Erythroxylum coca) ficam em áreas desmatadas dentro da Amazônia colombiana. Essas terras são usadas em ciclos curtos de produção até o esgotamento da fertilidade dos solos, quando então são substituídas por solos virgens em novos trechos desmatados da floresta. 

Além dos desmatamentos, os trabalhos de refino e processamento das folhas de coca para a obtenção da cocaína despejam milhares de litros de produtos químicos nos rios e corpos d’água, causando diversos problemas ambientais. 

Equador: A maior parte dos problemas ambientais da Floresta Amazônica no Equador estão associados a extração e ao transporte do petróleo. O bioma ocupa uma área total de 120 mil km2 no país. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente do Equador, ocorreram 1.169 vazamentos de petróleo no país entre 2005 e 2015. Cerca de 81% desses vazamentos ocorreram na Floresta Amazônica, onde foram perdidos cerca de 350 mil barris de petróleo

Em sua grande maioria, esses vazamentos ocorreram durante o transporte do petróleo através de oleodutos, infraestruturas que transporte o óleo desde os campos de produção no meio da Amazônia até os portos no Oceano Pacífico. O Governo do país está movendo diversos processos judiciais contra grupos petroleiros internacionais.  

Peru: A Floresta Amazônica ocupa mais de 60% da superfície do Peru, com uma área total de mais de 782 mil km2. Em área, essa é a segunda maior extensão da Floresta Amazônica depois do trecho brasileiro. Desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e para a formação de pastagens também são comuns no Peru, onde também existe extração ilegal de madeira, garimpos e plantações de coca. Porém, merece destaque o crescimento das plantações de palma da Guiné no país. Essa árvore, só para relembrar, produz um coco rico em óleo, de onde se extrai o famoso azeite de dendê

Em 2020, a Amazônia peruana perdeu uma área de 203 mil hectares, a maior perda florestal dos últimos 20 anos. Segundo estimativas do Governo local, parte desses desmatamentos foi provocados pela pandemia da Covid-19 – peruanos desempregados abandonaram as cidades e voltaram para suas vilas de origem, onde passaram a se dedicar ao cultivo de víveres e à criação de animais. A derrubada de grandes trechos de matas para a produção do dendê também é inegável. 

Bolívia: Entre 2001 e 2020, a Bolívia perdeu 9,5% de sua cobertura vegetal, o que corresponde a uma área de 6,11 milhões de hectares. Desse total, ao menos 3 milhões de hectares se referem a desmatamentos e queimadas no trecho boliviano da Floresta Amazônica. O bioma ocupa cerca de 472 mil km2 no país. 

Essa perda maciça de cobertura florestal, que também inclui áreas de savana na região do Chaco, foi uma decorrência do grande crescimento da produção de grãos no país, destaque especial para a soja. Os sucessivos governos populistas que estão no poder nas últimas décadas tem, inclusive, estimulado as queimadas pelos agricultores. 

Venezuela: A grande ameaça no trecho venezuelano da Floresta Amazônica, que ocupa uma área de 458 mil km2 no país, são as atividades mineradoras e o garimpo do ouro e de diamantes. Nocauteada por uma gravíssima crise econômica, a Venezuela encontrou na mineração uma fonte de divisas. O Governo realizou uma série de mudanças na legislação do país, transformando praticamente todas as terras em áreas de mineração. Isso incluiu reservas da biodiversidade, florestas nacionais, terras indígenas e de afrodescendentes. 

O grande projeto governamental de mineração atende pelo pomposo nome de “Arco Mineiro do Orinoco“. Entre os grupos mais ameaçados estão os indígenas Ianomâmis, cujo território se distribui entre o Brasil e a Venezuela. 

Na Guiana, no Suriname e na Guiana Francesa também existem problemas, mas esse são bem menores do que nos demais países amazônicos. Como fica bem fácil de se notar, a Floresta Amazônica não tem problemas apenas no Brasil – ela está sofrendo um verdadeiro cerco por todos os lados! 

O GARIMPO DO OURO E AS NOVAS AMEAÇAS AOS IANOMÂMIS NO BRASIL E NA VENEZUELA, OU AINDA FALANDO DO ARCO MINEIRO DO ORINOCO

Quem tem acompanhado as postagens mais recentes aqui do blog já percebeu que a situação da Floresta Amazônica é infinitamente mais complicada do que as falas de muitos dos seus “defensores” pelo mundo afora. Acusar sistematicamente o Brasil pela “destruição do pulmão do mundo” é uma visão muito simplificada do problema. 

A Floresta Amazônica está sofrendo um verdadeiro cerco por todos os lados, onde os atores da tragédia são brasileiros, colombianos, peruanos, equatorianos, bolivianos e venezuelanos, entre muitos outros. Além de gente “local”, existem cumplices dessa destruição em todo o mundo – são empresas estrangeiras que compram madeiras, minérios, animais silvestres, plantas e outras riquezas retiradas da grande Floresta. 

Um capítulo dramático dessa saga de destruição é o que está acontecendo na porção venezuelana da floresta. Milhares de pessoas comuns, atormentadas pela profunda crise econômica vivida na Venezuela, estão sendo cooptadas para trabalhar em garimpos e outras atividades de mineração. Trabalhando muitas vezes sob a mira de armas, esses cidadãos estão revirando margens e leitos de rios por toda a Floresta Amazônica em busca de ouro, diamantes e outros minerais nobres. 

Esse grande movimento de mineradores na Amazônia venezuelana recebe o nome de “Arco Mineiro do Orinoco”, um projeto oficial do Governo local que está repleto de ilegalidades e de agressões contra o meio ambiente. A partir de todo um controverso conjunto de modificações na legislação do país, praticamente todo o território da Venezuela foi transformado em áreas de mineração. Isso inclui florestas nacionais, reservas da biosfera, terras indígenas e de afrodescendentes, entre outras – o Governo precisa ganhar dinheiro, custe o que custar. 

A área destinada a esse projeto cobre cerca de 112 mil km2 no Estado de Bolívar, formando um grande polígono com o rio Orinoco no centro. A extremidade Leste desse polígono se aproxima perigosamente da Reserva da Biosfera Alto Orinoco-Casiquiare, uma área com 8,2 milhões de hectares onde vivem os índios Ianomâmis na Venezuela

Os Ianomâmis (ou Yanomâmis) são um dos povos indígenas mais antigos da América do Sul e se espalham por um extenso território entre o Extremo Norte do Brasil e o Sul da Venezuela. São cerca de 35 mil indígenas distribuídos em cerca de 350 comunidades nos dois países. No Brasil, esse povo conta com cerca de 15 mil indivíduos distribuídos numa faixa de terras entre o Noroeste de Roraima e Norte do Amazonas

No total, o território dos Ianomâmis tem uma área de 192 mil km2, uma área pouca coisa menor que o território do Estado brasileiro do Paraná ou de toda a Grã-Bretanha. Isso nos dá uma ideia da enorme dificuldade das autoridades para controlar a entrada e saída de pessoas nesse território, um problema que se complica devido ao caráter binacional da área. Garimpeiros e madeireiros se aproveitam dessa dificuldade de fiscalização e invadem constantemente a terra indígena. 

contato dos Ianomâmis com os “brancos” (palavra que tem uma conotação mais cultural do que étnica) é bastante recente. Ele ocorreu na década de 1940, quando equipes de topografia foram enviadas para a região para delimitar a fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Funcionários do antigo SPI – Serviço de Proteção ao Índio, e missionários religiosos se estabeleceram na região logo depois, um contato que trouxe as primeiras epidemias de gripe e sarampo, doenças que foram fatais para muitos indígenas. 

Outra lembrança trágica do contato dos indígenas com invasores se deu na década de 1970, quando o Governo Militar iniciou a construção de uma rodovia dentro do território Ianomâmi. Doenças trazidas pelos forasteiros dizimaram a população de duas aldeias na comunidade Ianomâmi de Opiktheri

Ao longo da década de 1980, o território dos Ianomâmis sofreu uma intensa invasão de garimpeiros – estimativas da época falam de cerca de 40 mil invasores. Foram registrados inúmeros confrontos armados, destruição de aldeias e exposição dos indígenas às doenças trazidas pelos invasores. As autoridades calculam que 20% da população Ianomâmi morreu ao longo de sete anos

A tragédia vivida pelos indígenas nesse período ganhou as manchetes em todo o Brasil e no mundo, causando uma enorme comoção. Sob muita pressão de grupos de defesa dos povos indígenas, de ambientalistas, líderes políticos e religiosos de todo o mundo, o território dos indígenas no Brasil foi demarcado em 1992, ficando conhecido como Parque Ianomâmi. 

Apesar de todo o arcabouço legal e o status de área indígena, frequentemente circulam notícias da invasão do território Ianomâmi por garimpeiros e madeireiros, de confrontos e mortes de indígenas, da destruição de grandes áreas de floresta. No lado venezuelano, as coisas também sempre foram muito complicadas para os indígenas. 

Com o aprofundamento da crise na Venezuela, país que há quase um século tinha na exploração do petróleo a sua base econômica, a mineração foi alçada à condição de “salvação da lavoura”. Com o plano de mineração no Arco Mineiro do Orinoco, milhares de venezuelanos pobres estão sendo estimulados a se aventurar nas selvas do país em busca de ouro, diamantes e outros minerais valiosos. 

A proximidade cada vez maior com os garimpeiros está sendo fatal para os indígenas. Segundo informações da Hutukara Associação Ianomâmi, cerca de 3 mil hectares da Terra Indígena foram destruídos pelo garimpo ilegal entre janeiro e setembro de 2021. As regiões mais impactadas são Waikás, Aracaçá e Kayanau – a destruição segue na direção da região de Xitei

Os Ianomâmis também estão sofrendo com o crescimento dos casos de malária. Segundo o Conselho Distrital de Saúde Indígena Ianomâmi e Ye’kwana, foram mais de 27 mil casos registrados em 2020. Até setembro deste ano, já foram registrados 20 mil casos. Segundo os especialistas, os desmatamentos feitos pelos garimpeiros aumentam a incidência dos mosquitos transmissores da doença. 

A Polícia Federal brasileira realizou há poucos dias atrás uma grande operação de combate ao garimpo ilegal no Território Ianomâmi. Foram apreendidos 75 aeronaves, 17 veículos, 10 balsas, 6 embarcações, 85 mil litros de combustível e 650 cartuchos de munições, além de 30 toneladas de minérios. Apesar de não acontecerem na velocidade e na frequência necessárias ao tamanho do problema, essas operações policiais são constantes no lado brasileiro do território dos Ianomâmis. 

No outro lado da fronteira, infelizmente, ações desse tipo são cada vez mais raras. Como principal responsável pelo estímulo à mineração no país, especialmente na busca pelo cobiçado ouro, o Governo da Venezuela está fazendo vista grossa a toda a tragédia vivida pelos Ianomâmis. Numa escala repugnante de valores, ouro e pedras preciosas são muito mais importantes que árvores, rios, fauna e indígenas. 

Lamentável…

O ARCO MINEIRO DO ORINOCO, OU A AMAZÔNIA VENEZUELANA SOB RISCO

Em um comunicado recente, o FMI – Fundo Monetário Internacional, indicou que a Venezuela deverá encerrar o ano de 2021 com a menor renda per capita das Américas, ficando atrás do, até então, país mais pobre da região – o Haiti. Segundo as projeções do FMI, a renda anual dos venezuelanos ficará em US$ 1,627.00. 

Com 28 milhões de habitantes e dona das maiores reservas mapeadas de petróleo do mundo, a Venezuela foi, até poucas décadas atrás, uma das nações mais ricas da América Latina. Com a ascensão de Hugo Chaves ao poder em 1999, e com a implantação de sua Revolução Bolivariana, o país entrou num ciclo contínuo de decadência econômica e social

De acordo com pesquisa da UCAB – Universidade Católica Andrés Bello, e de outras duas importantes instituições de ensino do país, 94,5% da população da Venezuela vive na pobreza, com uma renda inferior a US$ 3.20/dia. Desse total, 76,6% vive abaixo da linha da pobreza com uma renda inferior a US$ 1.20/dia. A inflação deverá fechar o ano numa taxa de 2.700%

Parte dessa verdadeira tragédia social é bastante visível. Milhares de venezuelanos fogem do país em busca de melhores condições de vida em países vizinhos. A cidade de Pacarana, no Norte do Estado de Roraima exemplifica essa tragédia. A região é a porta de entrada desses imigrantes no Brasil – até 800 venezuelanos chegam a cada dia e as estimativas do Governo Federal indicam que mais de 260 mil já vivem como refugiados no país. 

Um dos lados menos visíveis da tragédia da Venezuela é o que está se passando em áreas do Centro e do Sul do país, onde milhares de garimpeiros estão devastando áreas naturais em busca de minerais preciosos como ouro, coltan, bauxita e cobre, além de diamantes. Muito pior – essa enorme tragédia ambiental está sendo patrocinada e estimulada pelo Governo central do país. 

O Governo da Venezuela vinha anunciando desde, 2011, um megaprojeto de mineração: o AMO – Arco Mineiro do Orinoco. O projeto abrangia uma área poligonal de 112 mil km2 no Estado de Bolívar, onde as estimativas preliminares indicam a existência de mais de 7 mil toneladas em reservas de ouro, diamantes e outros minerais

Diversos grupos mineradores internacionais demonstraram interesse inicial, porém, devido à degradação das condições políticas do país, nenhum contrato foi fechado. Com o colapso da exploração petrolífera, que caiu de mais de 4 milhões de barris/dia para pouco mais de 300 mil barris/dia, o Governo da Venezuela resolveu partir para o vale-tudo: foram feitas mudanças na legislação para permitir a exploração mineral em praticamente todo o país. 

Oficialmente, o Plano Nacional de Mineração 2019-2025, do Governo da Venezuela, estabeleceu a mineração como uma prioridade para a “diversificação da economia” do país. Além da Região Amazônica, esse plano apresenta excelentes “oportunidades de negócios” na faixa Norte do país, onde se incluem reservas de feldspato, cal, areia e também áreas para a produção de carvão vegetal – inclusive, foi criada uma empresa para esse fim subordinada ao Exército venezuelano. 

De acordo com informações da RAISG – Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georrefenciada, já existem mais de 2 mil pontos de mineração “legalizada” pelo Governo venezuelano na Amazônia local, onde se estima que mais de 189 mil pessoas estejam trabalhando. Essas áreas de mineração são altamente predatórias ao meio ambiente, sendo que muitas delas estão dentro de áreas indígenas (ao menos 16 áreas). 

As maiores concentrações dessas áreas de mineração ou de garimpo estão concentradas nas bacias hidrográficas dos rios Cuyuni, Caroni, Paragua e Caura, no Estado de Bolívar, e dos rios Ventauri, Sipapo e Negro, nas cabeceiras do rio Orinoco, no Estado do Amazonas, todas dentro do território da Venezuela. 

A Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 458 mil km2 na Venezuela, o que corresponde à metade do território do país. A maior parte da Amazônia venezuelana está concentrada ao Sul do rio Orinoco, justamente nos Estados do Amazonas e de Bolívar, os maiores do país. 

De acordo com estimativas do Governo da Venezuela feitas em 2019, esses garimpos produziram 25,4 toneladas de ouro, a maior produção anual já contabilizada no país. Porém, de acordo com analistas ligados à oposição, essa produção superou a cifra das 80 toneladas. Desvios de ouro nessas operações, a exemplo do que vimos em Serra Pelada aqui no Brasil, são comuns. 

Classificada como estratégica para a Venezuela, essa mineração foi colocada “sob controle” das Forças Armadas do país. Os militares, segundo relatos de muitos refugiados, têm ordens para eliminar qualquer fonte de problemas que impeçam o avanço das atividades mineradoras. Existem inúmeros postos do Banco Central da Venezuela por todas essas regiões, onde o ouro pode ser vendido “sem perguntas”. 

Grupos armados, inclusive antigos guerrilheiros da Colômbia, estão no controle dessas áreas de garimpo sob a proteção dos militares venezuelanos. Notícias de torturas, assassinatos e mortes de garimpeiros são praticamente diárias, porém, desde que o ouro e outros minerais valiosos continuem sendo produzidos, os militares e as autoridades da Venezuela continuarão a fazer vista grossa. 

Atividades de mineração, conforme já tratamos inúmeras vezes em postagens aqui no blog, são danosas ao meio ambiente, mesmo quando realizadas por empresas sérias com profissionais qualificados. No vale-tudo dos garimpos “legalizados” da Venezuela, essa extração vem sendo feito da maneira mais selvagem possível. 

O pacote inclui a devastação da cobertura florestal, dragas no leito e nas margens dos rios, uso de grandes volumes de mercúrio nos processos de separação do ouro de outros metais, confrontos e mortes de indígenas, torturas e muita violência. Estudos preliminares feitos por biólogos na região indicam altos níveis de contaminação nos rios por mercúrio. Como não existe, porém, o menor interesse do Governo em apoiar esse tipo de estudo, as informações disponíveis são muito limitadas. 

Com o salário mínimo na Venezuela valendo o equivalente a US$ 3.50/mês, milhares de pessoas tem abandonado a vida nas cidades e saído na direção desses garimpos para tentar a sorte. Além da extrema violência dos grupos que controlam essas áreas, essas populações se expõem aos riscos de doenças tropicais como a malária e a febre amarela, a falta de saneamento básico e de assistência médica, dificuldades para adquirir alimentos, escassez de transportes, entre outras dificuldades para as condições mínimas de vida. 

Nessa luta pela simples sobrevivência diária, quem é que se importa com a destruição do meio ambiente ou com a conservação da Floresta Amazônica?