COLNIZA: UM EXEMPLO DO QUE É A VIOLÊNCIA NA AMAZÔNIA 

Colniza é um município localizado no Noroeste do Estado de Mato Grosso junto à divisa com Rondônia e a cerca de 1.060 km da capital Cuiabá. É mais daqueles municípios imensos da Amazônica, com uma área de quase 29 mil km2, ou seja, é maior que o Estado de Alagoas. 

O município surgiu como um projeto de colonização em Aripuanã no início da década de 1980, quando milhares de famílias sem-terra da Região Sul foram reassentadas na Região Norte do país num esforço épico de ocupação da Amazônia. Foram os tempos do slogan – “Amazônia, uma terra sem homens para homens sem-terra“. 

O censo populacional de 2020 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, listou 39.861 habitantes. A economia de Colniza tem sua base na agropecuária. As lavouras do município produzem milho, feijão, arroz, mandioca, abacaxi, cacau, banana e pupunha, entre outros produtos hortifrutigranjeiros. Um destaque é a produção de café – Colniza é o maior produtor de Mato Grosso com cerca de 20 milhões de pés e uma produção anual de 100 mil sacas. 

Destaque também para a produção de gado bovino de corte – o rebanho é da ordem de 250 mil cabeças. Em menor escala o município também possui rebanhos de ovinos, caprinos e equinos. Nada mal para um município que foi desmembrado e reconhecido oficialmente apenas em 1998. 

Quem é leitor frequente das postagens aqui do blog talvez tenha reconhecido o nome Colniza. Há poucos dias atrás falamos que entre os 10 municípios brasileiros que mais emitem GEE – Gases de Efeito Estufa, 8 ficam na Amazônia: Colniza é um deles. 

A fama de Colniza, melhor dizendo – a má fama, vem de outro lugar: em 2004, a sede do município recebeu o título de “cidade mais violenta do Brasil“. Naquele ano foram registradas 165,3 mortes por grupo de 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, a taxa de homicídios nesse mesmo ano nas duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, foram 42 e 64,8, respectivamente. 

Um estudo feito em 2007 mostrou que Colniza também foi o município brasileiro com o maior número de registros de mortes por arma de fogo – a taxa média foi de 131,6 casos para cada 100 mil habitantes. As disputas pela posse de terras lideram as causas dessas mortes

Um exemplo – em 2017, 9 pessoas foram mortas numa chacina no município. Cerca de 100 famílias estavam acampadas na Gleba Taquaruçu do Norte, local da chacina, desde 2012, aguardando uma reintegração de posse. Segundo testemunhas, homens encapuzados invadiram o acampamento e atiraram contra sete dos moradores; outros dois homens foram mortos a golpes de facão.  

Essa é uma forma típica de se resolver questões agrárias na região fora dos tribunais. Os mandantes se valem do isolamento em relação as cidades da região. Outro aliado é o medo dos sobreviventes, que preferem o silencio ao risco de perder a própria vida em uma represália. 

A notícia levou vários dias para chegar até as autoridades do município. O local da chacina é bastante isolado e de difícil acesso. Os autores dos disparos, muito provavelmente, eram matadores de aluguel ou jagunços, como se diz no interior do país, contratados por fazendeiros e/ou madeireiros incomodados com a presenças dos “sem-terra”. 

No último mês de abril, essa chacina de Colniza completou 5 anos e, até o momento, ninguém foi apontado como culpado. Um pecuarista da região está sendo investigado como mandante e outros três homens foram indicados como os executores do crime.  

A ação contra o pecuarista, que havia sido arquivada em 2020, foi reaberta recentemente. Dois dos outros acusados foram inocentados por um júri popular em 2020, por falta de provas. Essa é outra característica da violência na Amazônia – muito raramente alguém é condenado por um crime desse tipo. E nas raras ocasiões em isso acontece, “bons advogados” se valem de 1001 artifícios jurídicos para tirar seus clientes da prisão. 

De acordo com um estudo realizado pela Comissão Pastoral da Terra, a Amazônia concentrou 80% das mortes em conflitos agrários no Brasil em 2021. Segundo o estudo, foram 1.903 conflitos em 2019, 2.054 em 2020 e 1.768 em 2021. O número de assassinatos passou de 20 em 2019, para 35 em 2021. Segundo a Pastoral da Terra, até abril de 2022, 14 pessoas foram mortas em conflitos agrários no Brasil.

Se qualquer um dos leitores fizer uma rápida pesquisa sobre a violência na Amazônia, vai encontrar nomes de outras cidades com uma história bastante parecida com a de Colniza – Altamira, Marabá, Marituba, Paragominas, Castanhal, Parauapebas, entre muitos outras. A maior parte das ocorrências fatalmente estará ligada às inúmeras disputas por terras. Também serão muitos os casos ligados ao garimpo, exploração de madeira e, cada vez mais, ao tráfico de drogas. 

A tragédia recente que vitimou o jornalista inglês Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira, que tem tido uma enorme repercussão nacional e internacional, é apenas mais um caso entre dezenas de outros casos parecidos que acontecem ano após ano por toda a Região Amazônica. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a Amazônia ocupa cerca de 58% do território brasileiro (falo aqui da Amazônia Legal), uma imensidão onde falta Estado e sobram problemas. Essa espécie de “vácuo” governamental abre espaço para todo o tipo de ilegalidades – particularmente na área do meio ambiente, que se mostram ao mundo em grandes desmatamentos, exploração ilegal de madeira, garimpo em terras públicas e indígenas, entre muitos outros. 

Os grupos e “organizações” que se beneficiam dessa falta de estruturas governamentais – justiça, polícia, infraestruturas de transporte, entre outras, criam e operam seus próprios sistemas de leis, onde a pena capital é constantemente aplicada em quem não segue as regras locais. 

Discussões acaloradas sobre o assassinato de Dom Phillips e Bruno Araújo vão continuar acontecendo ao longo do tempo (lembremos que este é um ano eleitoral). A questão, porém, é muito, muito mais ampla e merecerá um debate sério e isento de paixões partidárias. 

A preservação ambiental da Amazônia é essencial, porém, como sempre fazemos questão de lembrar, existem mais de 22 milhões de brasileiros vivendo na região e cuidar dessas é tão importante quanto cuidar de rios, árvores e animais. 

O DESAPARECIMENTO DE UM JORNALISTA INGLÊS E DE UM INDIGENISTA BRASILEIRO NA AMAZÔNIA – UM DESFECHO TRÁGICO

Há poucas horas atrás, um avião da Polícia Federal pousou em Brasília cumprindo uma trágica missão – o transporte dos corpos do jornalista inglês de Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Araújo. Os dois estavam desaparecidos desde o último dia 5 de junho, quando foram vistos pela última vez no no percurso entre a comunidade São Rafael e Atalaia do Norte, município localizado no extremo Leste do Estado do Amazonas. 

O desaparecimento foi comunicado ao MPF – Ministério Público Federal, na manhã da segunda-feira, dia 6, pela UNIVAJA – União dos Povos do Vale do Javari e pelo OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato.  

Desde então, forças da Marinha, Exército, Polícia Federal, Polícias Civil e Militar do Amazonas, Força Nacional, FUNAI – Fundação Nacional do Índio e Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, entre outras, trabalharam intensamente nas buscas. 

A tarefa dessas equipes era simplesmente hercúlea – a Terra Indígena Vale do Javari, local do desaparecimento, é gigantesca. São mais de 85 mil km2 de floresta fechada e imensos rios, uma área pouca coisa menor que o território de Portugal. 

Apesar de todas as dificuldades, as equipes já vinham encontrando pistas dos dois desaparecidos ao longo dos últimos dias. Há pelo menos dois dias já circulavam notícias nas redes sociais dando conta da confirmação das mortes dos desaparecidos – os restos mortais foram localizados ontem e passarão por uma perícia para confirmação das identidades.

As forças de segurança que participam da missão já haviam identificado um suspeito pelo desaparecimento, que acabou confirmando que matou o jornalista e o indigenista com a ajuda de seu irmão. Foi esse suspeito que indicou o local onde os corpos foram enterrados. Existem ao menos mais três envolvidos no caso. 

Desde o primeiro momento, quando publicamos uma postagem aqui no blog falando do ocorrido, já imaginávamos que o desfecho seria trágico. Eu morei por cerca de dois anos na Amazônia e sempre ouvi histórias por lá sobre conflitos entre posseiros e índios, garimpos ilegais, madeireiros clandestinos, disputas comerciais entre grupos, contrabando, tráfico de drogas, entre outras. Se contava que muitas dessas questões eram resolvidas “a bala”. 

Em ano eleitoral, quando cargos majoritários estão em jogo, é evidente que o desaparecimento e agora a confirmação (o que só será oficial depois da divulgação do laudo pela Polícia Federal) das mortes de Phillips e Araújo seriam exploradas ao máximo pela oposição. Nos últimos dias, dezenas de “especialistas” sobre questões amazônicas tem se esforçando para atribuir a culpa dessa tragédia ao Governo Federal. E vamos ouvir muitas “explicações” sobre esse caso nos próximos dias.

Como sempre fazemos aqui no blog, é importante colocar o problema em uma perspectiva maior – aliás, muito maior. Considerando-se o conceito de Amazônia Legal, que inclui regiões do Cerrado em Mato Grosso, Tocantins e no Maranhão, a Região Amazônica corresponde à mais da metade do território do Brasil – são 5 milhões de km2 ou quase 59% do território do país.  

Com pouca presença do Estado, enormes deficiências de infraestrutura e de segurança, população rarefeita, além de enormes riquezas naturais como minérios raros e madeiras nobres, a região é um imenso caldeirão de forças e grupos concorrentes, sempre prestes a explodir. Os grandes interesses estão por todos os lados.

Sinceramente, eu não sei quem foi que se sentiu ameaçado pela presença de um jornalista investigativo que se dedicava a escrever sobre a Amazônia e seus muitos problemas. Mais cedo ou mais tarde vamos acabar descobrindo quem foi (ou foram) o responsável por esse crime bárbaro. É certo que que as vítimas mexeram com interesses escusos de alguém e pagaram um peço altíssimo por isso. 

Diferente da imagem romântica de muitos, a Amazônia não é nem nunca foi o último paraíso da Terra. Ali sempre foi um lugar violento – e olhem que não estou falando de tempos mais recentes ou de décadas passadas. A violência faz parte da vida da Amazônia há milhares de anos. 

Evidencias arqueológicas – em especial as peças cerâmicas, mostram a ocupação da grande floresta por sucessivos grupos humanos. O grupo que chegava sempre dava um jeito de exterminar o que já estava por lá. 

Um exemplo clássico foi o das populações indígenas do rio Tapajós ou Cultura Tapajônica, que provavelmente floresceu na região de Santarém entre o 3° milênio a. C até pouco antes do ano 1.000 de nossa era. A maravilhosa cerâmica produzida por esse grupo é bastante similar à de grupos da Costa Rica, o que indica importantes contatos comerciais e culturais entre os grupos ou ainda que o grupo migrou da América Central para a Amazônia. 

Essas tribos tapajônicas simplesmente desapareceram do mapa – é bastante provável que elas foram dizimadas por outros grupos indígenas. Os pesquisadores tem dúvida se foram tribos guarani que migraram do litoral em direção Amazônia, ou se foram os temíveis Caraíbas ou Karibs do Alto Xingu durante a sua migração em direção as ilhas do Mar do Caribe (que ganhou esse nome por causa desses índios). 

Em tempos “mais modernos”, quando começou a ocupação e colonização da região a partir de meados do século XVII, a violência foi trazida pelos “brancos civilizados”, que enxergavam os indígenas como mão de obra barata. Essa violência só fez crescer com a ocupação irracional de muitas regiões da Amazônia nas últimas décadas. 

Os problemas (que são muitos e tão grandes quanto a grande floresta) não são nem um pouco simples e serão necessários muitos Governos (das mais diferentes cores partidárias) para que se alcance alguma coisa próxima do que todos chamamos de normalidade. 

Por enquanto, o que temos é a tradicional exploração política de dois cadáveres e a certeza que muitos outros ainda vão aparecer… 

O BRANQUEAMENTO DOS ARRECIFES DO LITORAL DO NORDESTE BRASILEIRO

O aquecimento global, onde grande parte do problema está ligado as grandes emissões de gases de efeito estufa, está ameaçando recifes de coral em todo o mundo. Um dos principais problemas está ligado ao crescimento da absorção de dióxido de carbono pelas águas marinhas – esse é um dos principais gases de efeito estufa e provoca um aumento da acidez da água, o que enfraquece os esqueletos dos recifes de coral. 

Outro problema sério é o chamado branqueamento dos corais – o aumento da temperatura das águas faz com que os recifes percam as suas colônias de algas, principal fonte de alimento do coral e base da cadeia alimentar de muitas criaturas que lá vivem. Um exemplo gravíssimo desse problema é o que está ocorrendo na Grande Barreira da Austrália, o maior sistema de corais do mundo com cerca de 2,3 mil km de extensão. 

Essas também são ameaças aos recifes de corais aqui do Brasil, que ficam localizados em uma extensa faixa ao longo do litoral da Região Nordeste e que são mais conhecidos entre nós pelo nome de arrecifes. Recentemente, foi comprovada a existência de uma faixa de sistemas de recifes de corais nas proximidades da foz do rio Amazonas, ainda bem pouco estudados e em fase de mapeamento. 

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, as formações de recifes de coral no litoral brasileiro se estendem ao longo de uma faixa não contínua de 3 mil km entre o litoral do Maranhão e o Sul da Bahia. De acordo com o órgão, uma em cada quatro espécies marinhas brasileiras vive nesses ecossistemas, incluindo-se aí 65% das espécies de peixes. 

Uma curiosidade – o litoral da Região Nordeste possui a segunda maior extensão de corais no mundo. Somente o trecho entre os Estados de Pernambuco e Alagoas tem uma extensão contínua de 130 km. Uma das áreas mais ricas do mundo em biodiversidade de corais é o Arquipélago de Abrolhos, localizado ao largo da costa Sul da Bahia, sendo considerado o maior santuário de vida marinha do Atlântico Sul.   

A visita aos arrecifes é passeio obrigatório em inúmeras praias do litoral nordestino. Um exemplo fácil é Porto de Galinhas, um distrito do município de Ipojuca localizado a pouco mais de 70 km da cidade do Recife. Essa praia de 6 km é considerada por muitos como a mais famosa de Pernambuco. A visita de jangada aos arrecifes é um dos pontos altos de qualquer visita ao lugar. 

Outra citação obrigatória é o Atol das Rocas, localizado a cerca de 150 km da costa do Rio Grande do Norte. Ele é o único atol, uma formação circular de recifes no topo de uma montanha submarina, do Oceano Atlântico Sul. O Atol das Rocas tem uma importância biológica ímpar, sendo o local de reprodução de diversas aves migratórias e tartarugas, além de diversas espécies marinhas. 

A exemplo do que está ocorrendo com corais de todo o mundo, toda essa beleza pode estar ameaçada – pesquisadores brasileiros vêm observando ciclos de branqueamento em recifes de coral desde o norte da Bahia até o Rio Grande do Norte. A temperatura das águas nesse trecho do nosso litoral tem atingido temperaturas até 2° C acima da média em alguns períodos.  

A NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, também já observou esses eventos. Em 2020, inclusive, a NOAA chegou a emitir o Alerta 2, usado para os casos mais graves de branqueamento, onde existem riscos de morte dos corais. 

A agência norte-americana vem monitorando o aquecimento das águas dos mares e oceanos em todo o mundo e também acompanhando a situação dos sistemas de corais. A agencia mantém sete estações virtuais de monitoramento via satélite no litoral do Brasil. 

Uma região onde o problema do branqueamento tem se mostrado preocupante é na chamada Costa dos Corais, uma APA – Área de Proteção Ambiental, que se estende entre o Sul de Pernambuco e Alagoas, onde se localizam importantes cidades turísticas. O problema também é visível no Arquipélago de Fernando de Noronha e em trechos do litoral do Rio Grande do Norte. 

Outro exemplo do problema foi observado em 2019, quando os pesquisadores observaram uma grande ocorrência de branqueamento em arrecifes ao Norte da cidade de Salvador. Em pelo menos metade das formações dessa região foi observado algum grau de branqueamento. Há época foi sugerido que o fenômeno foi resultado de um longo período com águas mais quentes nessa região. 

Os recifes de coral, conforme comentamos na última postagem, são formações constituídas basicamente por rochas calcárias formadas pelo acúmulo dos restos de organismos vivos como corais, algas, conchas e outros elementos compostos por carbonato de cálcio. Sobre essas estruturas vivem em simbiose os corais, que são animais cnidários que possuem um exoesqueleto calcário, e algas como as zooxantelas, entre outras dezenas de espécies de animais marinhos. 

Com o aquecimento das águas do oceano essas algas são expelidas ou morrem e os corais, que se alimentam de subprodutos da fotossíntese das algas, perdem a sua fonte de alimentação. A perda das algas compromete todo o ecossistema, uma vez que elas formam a base da cadeia alimentar de outras espécies que vivem no recife. 

De acordo com os pesquisadores, o branqueamento dos corais pode ter outras origens além do aquecimento das águas. Fontes de estresse podem ser causadas pela poluição das águas por esgotos, produtos químicos e petróleo, ou ainda pela presença de resíduos sólidos como plásticos. 

Em 2019, como muitos de vocês devem se lembrar, uma faixa de costa de mais de 2 mil km entre o Maranhão e o Sul da Bahia foi atingida por misteriosas manchas de petróleo durante várias semanas. Alguns fragmentos de óleo chegaram a ser encontrados no litoral Norte do Estado do Rio de Janeiro. Essa agressão ambiental pode ter provocado sérios prejuízos aos arrecifes da região. 

A situação dos arrecifes do litoral do Nordeste Brasileiro ainda não é tão grave como o de outras formações de corais do mundo, mas existem razões de sobra para nos preocuparmos. Metade da Grande Barreira da Austrália já foi comprometido pelo branqueamento e morte dos corais. Isso nos dá uma perfeita noção do que poderá acontecer por aqui. 

Como eu sempre costumo repetir, vivemos em tempos bastante complicados para a natureza. 

EXPERIMENTO DEMONSTRA QUE ALGUMAS ESPÉCIES DE RECIFES DE CORAL PODEM RESISTIR AO AQUECIMENTO GLOBAL 

Em meio a uma contínua enxurrada de más notícias na área ambiental, sempre encontramos algo que nos enche de esperança – a boa notícia de hoje fala de um experimento feito por pesquisadores norte-americanos que encontrou algumas espécies de recifes de coral que conseguem resistir a um aumento de até 2º C na temperatura da atmosfera. 

Uma rápida contextualização preliminar: o aumento contínuo da temperatura do planeta tem afetado negativamente os recifes de coral de todo o mundo. Desde os tempos do início da Revolução Industrial em meados do século XVIII, a temperatura média na Terra já subiu 1,1º C. A emissão maciça de GEE – Gases de Efeito Estufa, é apontada como uma das principais vilãs do aquecimento global. 

Os recifes de coral são formações constituídas basicamente por rochas calcárias formadas pelo acúmulo dos restos de organismos vivos como algas, conchas e outros elementos compostos por carbonato de cálcio. Essas formações abrigam uma infinidade de espécies animais e vegetais marinhas, que por sua vez atraem espécies maiores como peixes, moluscos e crustáceos, além de tartarugas e mamíferos marinhos. Essas estruturas vivas são altamente susceptíveis ao aumento das temperaturas da atmosfera. 

De acordo com estimativas feitas pelo IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, um aumento nas temperaturas globais acima de 1,5º C poderá causar danos irreversíveis aos recifes de coral. Se esse aumento for igual ou superior a 2º C, 99% das espécies de corais dos recifes poderão desaparecer

Exemplos desse risco foram vistas entre os anos de 2014 e 2015 nas águas do Havaí, onde ondas de calor marinhas foram responsáveis pela morte de 1/3 dos corais dos recifes da região. Também podemos citar o caso da Grande Barreira de Coral da Austrália, que vem enfrentando a morte em massa de corais por causa do aumento das temperaturas. 

Depois desse cenário sombrio, passemos às boas notícias: um estudo científico publicado no último mês de março na prestigiada regista científica Nature, tendo na liderança o pesquisador Rowan Mclachlan, especialista em corais da Universidade do Oregon, demonstrou que algumas espécies de corais são altamente resilientes ao aumento das temperaturas. 

Mclachlan e sua equipe observaram que algumas espécies de corais do Oceano Pacífico encontradas entre as Ilhas do Havaí e a Samoa Americana pareciam estar resistindo bem aos aumentos da temperatura da atmosfera, muito diferente de outras espécies que estão morrendo. 

Os cientistas vêm observando já há vários anos que as ondas de calor marinhas que estão sendo criadas pelo aumento das temperaturas globais têm levado os recifes de coral a perder as algas simbióticas que lá vivem e os alimentam. Essa perda de algas provoca um efeito chamado branqueamento dos corais. 

Em paralelo a isso, os oceanos vêm absorvendo uma parte do excesso de dióxido de carbono da atmosfera, um dos mais importantes gases de efeito estufa, um fenômeno que está tornando as águas marinhas cada vez mais ácidas – essa acidez está enfraquecendo os esqueletos dos recifes de coral. 

A fim de entender a aparente resiliência dessas espécies de coral, a equipe de pesquisadores visitou quatro recifes em ambientes diferentes ao redor da ilha havaiana de Oahu em 2015. Se valendo de um martelo e de uma talhadeira, eles coletaram amostras de três espécies bastante comuns de coral: Montipora capitata, Porites compressa Porites lobata. 

Essas “mudas” de corais foram colocadas em tanques de 70 litros instalados ao ar livre na Ilha de Cocos, simulado um ambiente bastante próximo ao dos seus ambientes naturais. Esses tanques, num total de 40, receberam areia, cascalho, peixes, plâncton, plantas e outros elementos característicos dos recifes, além de serem alimentados continuamente com a água do mar. O intuito do experimento era simular ao máximo as condições oceânicas e observar o desenvolvimento dos corais. 

Ao longo de 22 meses, os pesquisadores submeteram alguns dos tanques a um aumento de temperatura de 2º C. Alguns tanques passaram a receber água acidificada e outros foram submetidos tanto ao aumento da temperatura quanto a águas acidificadas. Um quarto grupo de tanques foi deixado dentro das condições normais para servir como controle. Todos os indicadores fisiológicos do experimento foram rigorosamente controlados. 

Ao final desse período, os pesquisadores se surpreenderam com a reação dos corais: 46% dos corais da espécie Montipora capitata, 56% dos Porites lobata e 71% dos Porites compressa sobreviveram às mudanças ambientais simuladas. Muito melhor: muitos desses corais estavam prosperando. 

Dentro das limitações de um estudo científico, esse experimento demonstrou que nem tudo está perdido para os corais de nosso mundo. Existem algumas espécies que conseguem se adaptar às mudanças climáticas, o que nos leva a acreditar que, pelo menos num médio prazo, os recifes de coral poderão continuar resistindo em oceanos em constante mudança. 

Apesar destas serem notícias animadoras, é fundamental que se mantenham os esforços multinacionais para uma limitação do aumento das temperaturas globais com o objetivo de amenizar os impactos ao meio ambiente. Lembro que o Acordo de Paris, assinado por 195 países e ratificado por 147 nações – inclusive o Brasil, em 2016, previa, entre muitos outros, um esforço para limitar o aumento das temperaturas do planeta em 2º C até o final deste século. 

Salvar os recifes de coral é essencial para a salvação da própria espécie humana. Estima-se que 50% de todas as espécies de peixes do mundo vivam em formações de coral, onde encontram alimentos e áreas abrigadas para a reprodução.  Ou seja, falamos aqui de salvar os ecossistemas de onde retiramos parte significativa de nossas reservas de alimentos. 

Em um mundo que já vive hoje uma grande crise alimentar, isso é algo realmente relevante para todos nós. 

8 DOS 10 MUNICÍPIOS BRASILEIROS QUE MAIS EMITEM GASES DE EFEITO ESTUFA FICAM NA AMAZÔNIA

Uma notícia publicada hoje: 8 dos 10 municípios brasileiros que mais emitem gases causadores do efeito estufa ficam na Região Amazônica. Os dados se referem ao ano de 2019 e foram divulgados pelo SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, uma iniciativa do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. 

As duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, é claro, são grandes poluidoras e ocupam a 5ª e a 8ª posição dessa lista, respectivamente. Todas as demais posições dessa lista ficaram por conta de cidades da Amazônia: Altamira e São Félix do Xingu, ambas localizadas no Pará, ocupam as duas primeiras posições da lista de maiores emissoras de gases de efeito estufa do Brasil. Essas cidades são seguidas por Porto Velho (RO), Lábrea (AM), Pacajá (PA), Novo Progresso (PA), Colniza (MT), Apuí (AM) e Novo Repartimento (PA). 

A Região Norte responde por 60% de todas as emissões brasileiras de gases de efeito estufa. E o motivo é bastante conhecido – desmatamentos e queimadas. Curiosamente, a Região abriga apenas 20% da população do país. 

Antes que qualquer um dos leitores saia por aí gritando alucinadamente que “o Brasil está queimando a Amazônia e poluindo a atmosfera do mundo”, é fundamental saber que as emissões de GEE – Gases de Efeito Estufa, do nosso país respondem por um volume entre 3% e 4% das emissões globais, de acordo com dados de 2019. Algumas fontes afirmam que nossas emissões são ainda menores – 1,5%. 

Os maiores poluidores do mundo são a China, com 27% das emissões globais, seguida pelos Estados Unidos com 11%. Juntos, esses dois países respondem por quase 40% de todas as emissões globais. Índia com 3,4% e a União Europeia 3,3% vêm na sequência. 

Muitos de vocês devem estar se perguntando: como São Paulo, uma cidade com 12 milhões de habitantes e com uma frota de 24 milhões de carros e motocicletas, consegue emitir menos GEE que Altamira, uma cidade do interior do Estado do Pará? 

A resposta não é tão complicada: o município de Altamira ocupa uma área total de 159 mil km², números que o colocam na posição de maior município do Brasil. Para que todos tenham uma ideia do que isso significa – o Estado do Ceará tem uma área de “apenas” 148 mil km². Com a economia do município de Altamira baseada na agricultura e na pecuária, não é difícil de entender por que as emissões de GEE são tão grandes. 

O segundo maior emissor de GEE do Brasil é outro município gigante do Pará – São Félix do Xingu, o sexto maior município do país. A área total do município é de 84 mil km² – para efeito de comparação, Portugal tem um território com pouco mais de 92 mil km². São Félix do Xingu possui o maior rebanho bovino do país – são 2,5 milhões de cabeças, quase 20 animais para cada habitante do município. 

Para atingir essa impressionante marca, São Félix do Xingu alçou a posição de campeão brasileiro de desmatamentos. Somente no ano de 2019, o município viu desaparecer 9,2 mil km² de florestas ou quase 10% da sua área total. Essa área desmatada correspondeu a 1/3 de tudo o que foi desmatado na Amazônia naquele ano. 

Vou destacar por minha conta o município de Porto Velho, medalha de bronze nessa famigerada “competição”. A área total de Porto Velho é de 31 mil km², bem maior que os 27 mil km² do Estado de Alagoas. Eu morei por lá entre os anos de 2009 e 2010, e lembro muito bem da temporada das queimadas, quando o forte cheiro de fumaça invadia a capital do Estado, a cidade de Porto Velho. 

O perfil dos demais “campeões brasileiros” em emissões de CEE é muito parecido com os três primeiros colocados da lista. São todos municípios com áreas enormes e que surgiram a partir das políticas de ocupação da Região Amazônica implementadas a partir da década de 1960. Um slogan que marcou época e que simboliza aquele momento histórico: Amazônia, uma terra sem homens para homens sem-terra

Relembrando, até meados do século XX, perto de 80% da população brasileira estava concentrada em uma faixa de até 300 km do litoral. Todo o interior do país era um grande vazio populacional. E olhem que nem estamos falando de rincões nas distantes Regiões Centro-Oeste e Norte – o Oeste do Estado de São Paulo e o Norte do Paraná, citando apenas dois exemplos, eram cobertos de densas florestas cheias de “índios brabos” nessa época. 

Uma saga que ajuda a explicar o que eram esses vazios populacionais foi a Expedição Roncador-Xingu, iniciada em 1949, e que ajudou a colocar grande parte da Região Centro-Oeste no mapa do Brasil. Os lendários irmãos Villas-Boas – Orlando, Cláudio e Leonardo, fizeram parte dessa emocionante aventura. 

Na década de 1960, em especial após a ascensão dos Governos Militares em 1964, houve um grande impulso na integração da Região Norte ao restante do país através de rodovias e um estimulo à migração de povoadores vindos de outras regiões do país, especialmente da Região Sul. 

Conforme tratamos em uma extensa série de postagens aqui do blog, foram abertas a partir dessa época as Rodovias Cuiabá-Porto Velho-Rio Branco (BR364), a Belém-Brasília (BR153), a Cuiabá-Santarém (BR164), Porto Velho-Manaus (BR319), além da icônica Rodovia Transamazônica (BR230). Dezenas de milhares de famílias foram estimuladas a mudar para a região, recebendo grandes lotes de terra do Governo Federal. 

Essa ocupação territorial foi feita, literalmente, a “ferro e a fogo” – os colonos tinham a obrigação legal de desmatar os lotes de terra que receberam do Governo Federal e formar fazendas para a criação de gado e/ou para produção agrícola. Começaram assim as mundialmente conhecidas “queimadas da Amazônia”. 

Essa ocupação rápida e irracional da Amazônia teve uma razão dogmática por parte dos militares – combater a temida internacionalização da Amazônia, uma ideia que começou a ganhar forma no final da década de 1940 na Europa e nos Estados Unidos e que tinha nome e sobrenome IIHA – Instituto Internacional da Hileia Amazônica.  

Essa foi uma proposta da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, que, para a nossa felicidade, não foi para a frente por causa do acirramento da Guerra Fria entre os norte-americanos e os russos. Mesmo assim, essa ideia acabou inspirando o Tratado da Antártida que foi assinado em 1959 e internacionalizou o grande continente gelado. Tem muito Governante pelo mundo afora com essa ideia ainda em mente…

A paranoia criada pela ideia da internacionalização foi uma das grandes responsáveis pela ocupação irracional de grandes áreas da Amazônia. Diria até que levou a abertura da “caixa de Pandora” na grande floresta. Os recordes na emissão de gases de efeito estufa por esses oito grandes municípios da região é apenas uma das faces dos muitos males que se estabeleceram por lá nessas últimas décadas… 

PINTADO É INCLUÍDO NA LISTA DE PEIXES AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO 

O pintado (Pseudoplatystoma corruscans), também conhecido como surubim, caparari, brutelo, loango e moleque, é um dos maiores peixes de água doce do Brasil, podendo atingir até 1,8 metro de comprimento e peso de até 90 kg. A espécie é encontrada várias bacias hidrográficas brasileiras como a do Rio Paraná e a do Rio São Francisco. 

De acordo com muitos experts em culinária, o sabor da carne do pintado é algo incomparável. É um peixe bastante apreciado na culinária de muitas regiões do país por ter muita carne e poucas espinhas. Para os praticantes de pesca esportiva, a pesca do pintado é emocionante – é um peixe forte e brigador, o que exige muita força e agilidade dos pescadores (vide foto). 

Um exemplo de prato regional onde o peixe é o ingrediente principal é a mujica de pintado de Cuiabá, um caldo de mandioca servido com o peixe cozido. Em cidades ao longo da calha do rio São Francisco, a moqueca de surubim é uma das boas pedidas. No interior do Estado de São Paulo, é comum se encontrar pintado assado no espeto. 

Pois bem – o Ministério do Meio Ambiente incluiu o pintado na lista oficial de espécies brasileiras ameaçadas de extinção, conforme portaria publicada no último dia 7 de junho. A medida deverá entrar em vigor em 180 dias a partir da data da publicação. E já há muita gente reclamando da medida. 

O Mato Grosso do Sul é um desses. O IMASUL – Instituto do Meio Ambiente do Estado, requisitou junto ao Ministério do Meio Ambiente o estudo que subsidiou a inclusão do peixe na lista de espécies ameaçadas. 

De acordo com o órgão, o pintado não é uma espécie ameaçada de extinção nos rios de Mato Grosso do Sul. O órgão alega que o Estado já possui legislação própria para regular seus estoques pesqueiros e que não vê ameaças locais para a espécie. 

De acordo com declarações de muitos pescadores profissionais de Mato Grosso do Sul, o pintado é o carro chefe das vendas em muitas peixarias. Esses profissionais temem uma forte redução em suas rendas com a proibição da pesca da espécie. A polemica deverá aumentar muito ao longo do tempo. 

Se as águas sul-mato-grossenses, aparentemente, estão boas para os pintados, na bacia hidrográfica do rio São Francisco as coisas vão de mal a pior para a espécie, que é mais conhecida localmente pelo nome de surubim. No passado, inclusive, o surubim era uma espécie de peixe símbolo do rio São Francisco

O rio São Francisco, mais conhecido pelo nome carinhoso de Velho Chico, é um corpo d`água altamente degradado por causa dos grandes desmatamentos em suas margens, pela mineração, pelo carreamento de grandes volumes de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas, além do lançamento de enormes volumes de esgotos sem tratamento e produtos químicos em suas águas. 

A ictiofauna do rio sofreu muito com a construção sucessiva de grandes barragens de usinas hidrelétricas ao longo do seu curso. Essas barragens e seus lagos destruíram muitos dos locais de reprodução das espécies aquáticas e também criaram enormes obstáculos para a migração dos animais. 

Registros históricos informam que as águas do rio São Francisco e de muitos dos seus afluentes eram altamente piscosas num passado cada vez mais distante. Aliás, ele era considerado um dos rios mais abundantes em relação a pescado no país. Esses registros indicam que a bacia hidrográfica tinha 158 diferentes espécies de peixes, algumas endêmicas. 

Um outro problema grave do rio foi a introdução de espécies exóticas de peixes, lançadas sem maiores estudos sobre os impactos e alterações ambientais que causariam no ecossistema. Na bacia hidrográfica do Rio São Francisco foram introduzidos, entre outros, o bagre-africano, a carpa e o tucunaré, espécies que ocuparam nichos ecológicos de espécies endêmicas e se tornaram verdadeiras pragas. 

Nos últimos anos, a captura de surubins nas águas do Velho Chico foi transformada em uma tarefa das mais difíceis. A situação chegou a tal ponto que muitos dos restaurantes das cidades localizadas ao longo de suas margens passaram a servir pratos à base de cachara, um peixe amazônico muito parecido com o surubim. 

Na bacia hidrográfica do rio da Prata, onde o rio Paraná é o principal corpo d`água, a principal ameaça a espécie são as grandes barragens de usinas hidrelétricas como a de Ilha Solteira e Itaipu. Além do pintado, essas estruturas ameaçam outras espécies importantes como o jaú, jurupoca, dourado e piracanjuba.  

A inclusão do pintado na lista de espécies ameaçadas de extinção é importante, mas nem de longe resolve o problema. Será preciso, entre muitas outras providencias, criar programas de reprodução em cativeiro, além do lançamento sistemático de alevinos em reservatórios de usinas hidrelétricas. 

Outra boa providencia que poderá ajudar muito será um desenvolvimento cada vez maior da criação da espécie em cativeiro para fins comerciais, a exemplo do que é feito com peixes como a tilápia. No Estado de São Paulo, esse peixe vem sendo criado em cativeiro há quase 30 anos e já responde por cerca de 40% de toda a produção de pescado do Estado. 

A recuperação dos ambientes naturais onde o pintado vive, citando como exemplo a bacia hidrográfica do rio São Francisco, também será de grande valia. O reflorestamento de trechos de matas ao redor de nascentes, a criação de “escadas para peixes” em barragens, a coleta e o tratamentos de esgotos nas cidades, entre muitas outras providencias, contribuiriam, e muito, para a recuperação das populações de pintados e de muitos outros peixes. 

Mais importante que tudo é o alerta – precisamos cuidar melhor de nossas águas e dos seus peixes! 

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE ATUALIZA LISTA DE ESPÉCIES AMEAÇADAS NO BRASIL 

O Ministério do Meio Ambiente publicou uma portaria no último dia 7 de junho, onde atualizou a lista oficial de espécies da flora e da fauna brasileira em ameaça de extinção. Essa lista atualizou a publicação feita em 2014 e, segundo as informações divulgadas, será atualizada anualmente daqui para a frente. 

De acordo com a nova lista, 3.209 espécies da flora e 1.249 espécies e subespécies da fauna brasileira estão ameaçadas. As espécies da fauna incluem 257 aves, 59 anfíbios, 71 répteis, 102 mamíferos, 97 peixes marinhos, 291 peixes continentais, 97 invertebrados aquáticos e 275 invertebrados terrestres. 

Desse total de espécies ameaçadas, 669 representam resultados atualizados, 581 são táxons (uma unidade em qualquer nível de um sistema de classificação: um reino, género e uma espécie de um sistema de classificação dos seres vivos) que não tiveram seus resultados atualizados, 144 são espécies e subespécies que saíram de uma categoria de ameaça e 219 são novos táxons incluídos na lista. 

O Ministério do Meio Ambiente informa que existem 7.841 táxons que foram categorizados como não ameaçados. Esses táxons incluem 138 na categoria Quase Ameaçados, 7.054 como Menos Preocupante, 482 como Dados Insuficientes e 167 como Não Aplicável, onde se incluem espécies com ocorrência marginal no país. O Ministério também informou que, até o final de 2022, será publicada uma nova lista com o ciclo de avaliação e reavaliação de outras 15 mil espécies. 

Essa nova lista também inclui nove espécies da fauna consideradas extintas na natureza, uma a mais que a última lista apresentada em 2014. Essa espécie que foi incluída é um sapo endêmico da Mata Atlântica – Boana cymbalum, que era encontrado apenas num trecho da Serra de Paranapiacaba, em São Paulo. 

Também existem boas notícias – duas espécies de tubarão que eram consideradas regionalmente extintas, saíram da lista. Falamos do cação-dente-de-agulha (Carcharhinus isodon) e o tubarão-gato-de-boca-estreita (Schroederichthys bivius). 

Outras sete espécies de peixes marinhos saíram da lista de espécies ameaçadas. São elas a raia-manta (Mobula hypostoma), manta-anã (Mobula rochebrunei), peixe-bruxa (Myxine sotoi), raia-viola (Pseudobatos lentiginosus), a raia-elétrica (Tetronarce puelcha), o peixe-cachimbo (Micrognathus erugatus) e o cação-bagre (Squalus acanthias). Essas duas últimas espécies passaram a ser classificadas como Criticamente Em Perigo. 

Outros exemplos de espécies ameaçadas que aparecem na lista são os morcegos, animais que costumam causar arrepios na maioria das pessoas, mas que são fundamentais nos processos de polinização das plantas. Na última lista publicada haviam 6 espécies de morcegos que foram classificadas como Vulneráveis à Extinção. Uma espécie, o morceguinho-do-cerrado (Lonchophylla dekeyseri) havia sido considerada Em Perigo e outras duas, Furipterus horrens e Natalus macrourus, foram classificadas como Vulneráveis. 

Quatro dessas espécies saíram da lista de espécies ameaçadas, sendo que duas – Glyphonycteris behnii e Xeronycteris vieirai foram retiradas da lista devido à insuficiência de dados. Uma terceira espécie – Eptesicus taddei, deixou de ser considerada ameaçada devido a ampliação do seu território de ocorrência. A outra espécie – Lonchorhina aurita, foi reclassificada como Quase Ameaçada. 

A liusta mostra claramente que as espécies em situação mais crítica são justamente aquelas nativas dos biomas mais ameaçados do país – a Mata Atlântica, o Cerrado e o Pampas. Em biomas menos impactados como é o caso da Amazônia, as espécies ameaçadas ocorrem pontualmente em regiões fortemente impactadas pelo agronegócio ou garimpo. 

Esse é o caso de um pequeno sapo endêmico da Serra do Tepequém, em Roraima – Anomaloglossus tepequem (vide foto). Essa espécie foi descrita pela ciência em 2015, sendo considerada há época como Criticamente em Perigo de Extinção, uma vez que sua área de ocorrência sofreu fortes impactos por causa dos garimpos. 

Entre as espécies ameaçadas da flora, podemos destacar árvores como o pau rosa (Aniba rosaeodora) e a araucária (Araucaria angustifolia), mais conhecida como pinheiro-do-Paraná. O pau rosa é uma espécie da Amazônia que ganhou fama mundial por causa do óleo essencial que produz que, entre outros produtos, entra na formulação do mundialmente famoso perfume Chanel número 5. 

O primeiro registro de extração do óleo essencial do pau rosa no Brasil data de 1967. Estimativas indicam que mais de 2 milhões dessas árvores foram cortadas irregularmente para extração do óleo (que é retirado da madeira), sem que tenha ocorrido o replantio.  

A araucária é uma espécie de árvore tipicamente sul-americana. No Brasil, a espécie Araucaria angustifolia é encontrada em toda a Região Sul e em trechos serranos dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, além de uma faixa de terras no Sul do Mato Grosso do Sul. 

A madeira dessa árvore – o pinho, é de ótima qualidade e vem sendo explorado desde o início da colonização do país. Somente entre as décadas de 1930 e 1990, perto de 100 milhões de araucárias foram derrubadas para aproveitamento da sua madeira, principalmente nos Estados da Região Sul do Brasil. Entre as décadas de 1930 e 1960, a madeira de pinho das araucárias esteve no topo da lista das madeiras exportadas pelo Brasil. 

Um outro exemplo de espécie vegetal ameaçada que está ligada a todos nós é a Euterpe edulis, mais conhecida como palmeira-jussara, fonte de uma deliciosa iguaria – o palmito. Típica da Mata Atlântica e do Cerrado, essa palmeira vem sendo explorada até a exaustão sem que hajam maiores esforços para o replantio. 

Qualquer espécie animal ou vegetal, por menor ou mais insignificante que possa parecer, é um triunfo da vida e o resultado de um longo processo evolutivo. A perda de qualquer uma dessas espécies é uma perda irreparável para toda a humanidade e também para muitas outras espécies associadas ou interdependentes. 

Um exemplo é a gralha-azul, uma espécie de ave que depende diretamente da araucária. Essas aves comem a semente das árvores – o pinhão, que antes de ser consumido é enterrado no solo a fim de perder a sua acidez. Muitos pinhões são esquecidos pelas aves e acabam se transformando em novas árvores. 

Ou seja, uma espécie depende da outra…

ANALISANDO UM CASO DE EXPLORAÇÃO ILEGAL DE MADEIRA EM UMA TERRA INDÍGENA NA AMAZÔNIA 

Acontecimentos desses últimos dias colocaram a questão das Terras Indígenas em evidencia. No último dia 5, conforme apresentamos em uma postagem anterior, um jornalista inglês e um indigenista brasileiro desapareceram enquanto visitavam uma área indígena no Vale do rio Javari, no extremo Leste do Estado do Amazonas. As buscas pelos desaparecidos estão envolvendo as Forças Armadas, a Polícia Federal, a Polícia Civil do Amazonas, entre outros órgãos. 

Também houve a divulgação de um relatório da Polícia Federal dando conta da altíssima contaminação de rios da Terra Indígena Ianomâmi por mercúrio de garimpos ilegais. O território dos índios ianomâmis se estende entre os Estados de Roraima e Amazonas, em território brasileiro, e por uma ampla região no Sul da Venezuela. Em ambos os lados da fronteira encontramos inúmeros garimpos ilegais de ouro. 

O caso da Terra Indígena Ianomâmi não é um caso isolado – existem inúmeros outros casos conhecidos de invasão dessas terras por garimpeiros, madeireiros, pescadores e caçadores por todos os cantos do país, particularmente na Amazônia. Para dar uma ideia aos leitores do que anda acontecendo nesses territórios, selecionei um estudo de caso sobre a exploração ilegal de madeiras na Terra Indígena Sete de Setembro em Rondônia. 

Localizada entre os municípios de Cacoal, em Rondônia, e Rondolândia, no Mato Grosso, a Terra Indígena Sete de Setembro é o lar dos indígenas da etnia Paiter-Suruí. Esse grupo viveu isolado na região até 1969, ano em que foram feitos os contatos iniciais pela FUNAI – Fundação Nacional do Índio. 

Há época desse primeiro contato, a população dos Paiter-Suruí foi estimada em 800 indivíduos. Com a ocupação sucessiva das terras de Rondônia, o que foi resultado de um esforço do Governo Federal a partir da década de 1960 para o povoamento da Amazônia, essa população indígena passou a ter contato frequente com posseiros e fazendeiros. Calcula-se que, entre 1971 e 1974, metade dessa população morreu em virtude de doenças como gripe e sarampo contraídas dos “brancos”. 

A demarcação da Terra Indígena dos Paiter-Suruí se deu apenas em 1976, época em que parte do território ancestral desse povo já havia sido ocupado por colonizadores. Essa invasão ocorreu de forma involuntária com aval do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, autarquia criada pelo Governo Federal em 1970, com o objetivo de realizar a reforma agrária, manter o cadastro nacional de imóveis rurais e administrar as terras públicas da União. 

A Terra Indígena dos Paiter-Suruí, que foi batizada oficialmente de Terra Indígena Sete de Setembro, possui uma área de 274 mil hectares, onde vivem atualmente 1200 indígenas distribuídos em 24 aldeias. O território é coberto por uma floresta ombrófila densa, uma característica que passou a chamar a atenção dos madeireiros desde a década de 1980. 

A extração e o processamento de madeiras é uma das atividades econômicas mais importantes da Região Norte do Brasil. Cerca de 80% de toda a produção brasileira de madeiras vem de áreas da Amazônia, onde se incluem as atividades legais e ilegais. No caso específico de Rondônia, a indústria madeireira chegou a responder por metade do Produto Interno Bruto do Estado na década de 1980. Nos últimos anos essa participação do setor caiu para menos de 30%. 

A redução da produção madeireira em Rondônia tem duas causas principais. Primeiro, devido à exaustão dos recursos – grandes áreas foram desmatadas a partir da década de 1970 para a abertura de terras agrícolas e formação de pastagens para o gado. Em segundo lugar pelas dificuldades criadas pela legislação ambiental. 

A burocracia estatal envolvida para a aprovação legal da extração de madeiras é enorme. Com a falta de “estoques” madeireiros de fácil acesso, as UC – Unidades de Conservação, e as Terras Indígenas, foram transformadas em fontes de extração ilegal de madeiras. Em ambos os casos, a falta de uma estrutura eficiente de fiscalização nessas áreas facilitou, e muito, as atividades dos madeireiros ilegais. 

Como vem acontecendo desde os primeiros tempos da colonização do Brasil, quando os índios derrubavam as árvores de pau-brasil em troca de espelhinhos e quinquilharias, os indígenas Paiter-Suruí passaram a ser cooptados, trocando as madeiras extraídas de suas terras por mercadorias de baixo valor como alimentos industrializados, bebidas alcoólicas, ferramentas, roupas, ou até mesmo por pequenas quantias em dinheiro vivo. Essa é uma prática que se repete em terras indígenas em toda a Amazônia. 

A devastação sistemática das matas dentro da Terra Indígena, é claro, acarreta em uma série de impactos ambientais e sociais. Sempre que uma árvore de grande valor comercial é derrubada em uma mata, uma infinidade de árvores vizinhas também acaba sendo destruída. Essas árvores podem não ter valor comercial, mas são importantes do ponto de vista ambiental por produzirem frutos e sementes, que alimentam inúmeras espécies animais – inclusive seres humanos. 

A redução das fontes de alimentos leva ao desaparecimento de espécies, onde destacamos mamíferos como macacos, antas e cotias, animais que são caçados pelos índios e que suprem parte de suas necessidades alimentares. A destruição das matas também provoca impactos nos rios, o que vai comprometer a pesca, outra fonte importante de alimentos. 

Um impacto importante da derrubada contínua das matas é favorecimento ao crescimento de algumas espécies de árvores oportunistas, um fenômeno que leva ao aumento das chamadas espécies generalistas de crescimento rápido. Isso leva um empobrecimento cada vez maior da biodiversidade das matas. 

As deficiências na alimentação e o contato frequente com madeireiros, grileiros e fazendeiros têm consequências diretas na saúde da população indígena. Um estudo feito por pesquisadores da FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz, entre os Paiter-Suruí mostrou um dos mais altos índices de tuberculose do Brasil. De acordo com os pesquisadores, a incidência dessa doença entre esses indígenas é semelhante ao que se observa na população carcerária. 

Também entram nessa conta doenças sexualmente transmissíveis, desnutrição infantil, alcoolismo e consumo de drogas, entre muitas outras contribuições que os “brancos civilizados” dão aos indígenas “semisselvagens”. 

Uma estimativa feita pela FUNAI em 2007, mostra bem o alcance dessa exploração madeireira ilegal: cerca de 60 caminhões carregados com toras de madeiras eram retirados diariamente da Terra Indígena Sete de Setembro, um volume equivalente a 780 metros cúbicos de madeira. Em valores há época, isso representava cerca de R$ 78 mil reais ao dia, ou, cerca de R$ 1,7 milhões ao mês. 

Já para os indígenas, o ganho era de apenas R$ 30,00 para cada caminhão de madeira retirado de suas terras. Ou seja – apesar de todas as perdas em biodiversidade e recursos alimentícios, os indígenas ficavam com apenas 2% dos ganhos com a venda das madeiras. 

É essa indústria altamente lucrativa para uns poucos e devastadora para as comunidades indígenas que, em conjunto com o garimpo, está devastando várias Terras Indígenas na Amazônia. 

A CONTAMINAÇÃO DOS RIOS DA TERRA INDÍGENA IANOMÂMI PELO MERCÚRIO DOS GARIMPOS ILEGAIS

A Amazônia voltou a ser destaque na mídia internacional nesses últimos dias. Conforme apresentamos na postagem anterior, um jornalista inglês, Dom Phillips, e um indigenista brasileiro, Bruno Araújo, estão desaparecidos desde o último dia 5 – os dois foram vistos pela última vez num trecho do rio Javari, no Estado do Amazonas. 

O desaparecimento foi comunicado ao MPF – Ministério Público Federal no dia 6 de junho, pela UNIVAJA – União dos Povos do Vale do Javari e pelo OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. Essa notícia está correndo o mundo. 

Outra notícia divulgada recentemente e que, com toda a certeza, também vai dar o que falar, diz respeito a contaminação de rios na Terra Indígena Ianomâmi, no Estado de Roraima. Segundo um laudo da Polícia Federal, quatro rios que cortam a região apresentam níveis de contaminação por mercúrio com valores 8.600% acima do máximo estipulado para o consumo humano das águas

No caso de águas que serão destinadas a irrigação de culturas arbóreas, cerealífera, forrageiras, pesca amadora e navegação, as amostras coletadas apresentaram um teor de mercúrio até 860% acima do máximo permitido pela legislação. Nos dois casos, essa contaminação é simplesmente assustadora. 

As amostras de água foram coletadas nos rios Couto de Magalhães, Catrimani, Parima e Uraricoera e fazem parte de uma investigação da Polícia Federal sobre a presença de garimpeiros ilegais dentro da Terra Indígena Ianomâmi. 

Segundo um estudo feito em 2016, pela Fundação Oswaldo Cruz em comunidades indígenas vizinhas do rio Uraricoera, os moradores já apresentavam altos níveis de mercúrio no organismo, com 92,3% de contaminação. 

Entre os anos de 2018 e 2021, a Polícia Federal já havia identificado um aumento das áreas afetadas por mercúrio na região. Na mesma área do rio Uraricoera, que é uma das mais impactadas pelo garimpo ilegal, houve um aumento de 505% no número de garimpos. A Terra Indígena Ianomâmi vive a maior onda de devastação dos últimos 30 anos – somente no último ano, houve um aumento de 46% na degradação florestal. 

Os Ianomâmis (ou Yanomâmis) são um dos povos indígenas mais antigos da América do Sul e se espalham por um extenso território entre o Extremo Norte do Brasil e o Sul da Venezuela. São cerca de 35 mil indígenas distribuídos em cerca de 350 comunidades nos dois países. No Brasil, esse povo conta com cerca de 15 mil indivíduos distribuídos numa faixa de terras entre o Noroeste de Roraima e Norte do Amazonas.  

No total, o território dos Ianomâmis tem uma área de 192 mil km2, uma área pouca coisa menor que o território do Estado brasileiro do Paraná ou de toda a Grã-Bretanha. Isso nos dá uma ideia da enorme dificuldade das autoridades para controlar a entrada e saída de pessoas nesse território, um problema que se complica devido ao caráter binacional da área. Garimpeiros e madeireiros se aproveitam dessa dificuldade de fiscalização e invadem constantemente a terra indígena. 

Em uma postagem publicada em julho de 2021, já alertávamos sobre a invasão das terras ianomâmis no lado da Venezuela por garimpeiros daquele país. Como é do conhecimento de todos, a Venezuela está vivendo uma gravíssima crise econômica e social já há vários anos. 

A Venezuela é dona das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e até poucos anos atrás era o país mais rico da América do Sul. Com a ascensão de Hugo Chaves ao poder em 1999, e com a implantação de sua Revolução Bolivariana, o país entrou num ciclo contínuo de decadência econômica e social. Estudos indicam que mais de 94% da população do país está vivendo abaixo do limite da pobreza, com uma renda inferior a US$ 3,20 ao dia. 

A base da economia da Venezuela era a exploração do petróleo, atividade que entrou em colapso – a produção caiu de 4 milhões de barris/dia no início da década de 1990 para os atuais pouco mais de 300 mil barris/dia. Em busca de alternativas econômicas, o Governo da Venezuela criou um grande programa de exploração mineral denominado Arco Mineiro do Orinoco

Estimativas indicam a existência de cerca de 200 mil pessoas trabalhando em mais de 2 mil pontos de “mineração legalizada” dentro do trecho venezuelano da Amazônia. Parte desses “mineradores” estão trabalhando dentro do território ianomâmi da Venezuela. 

Dentro do território brasileiro a situação não é tão crítica quanto na Venezuela, mas existem inúmeros grupos de garimpeiros e de madeireiros instalados dentro da área indígena. Esses invasores se valem do grande isolamento da região e das dificuldades para a fiscalização de uma área tão grande. 

O garimpo ilegal do ouro é uma das atividades mais devastadoras do meio ambiente. Além do uso de grandes quantidades de mercúrio, elemento que é usado para separar o ouro de outros minerais e sobre o qual já tratamos em postagens anteriores, o pacote inclui a devastação da cobertura florestal, instalação de dragas no leito e nas margens dos rios, prostituição de mulheres indígenas, transmissão de doenças, confrontos e mortes de indígenas, torturas e muita violência.  

A comercialização desse ouro explorado ilegalmente movimenta verdadeiras fortunas e se vale de uma enorme rede de intermediários onde se incluem, contrabandistas de toda ordem, madeireiros, traficantes de drogas, políticos e “muita gente graúda” dos dois lados da fronteira. Essas pessoas não estão nenhum pouco preocupadas com a contaminação das águas dos rios ou com a saúde de indígenas. 

Muito provavelmente, o desaparecimento do jornalista inglês e do indigenista brasileiro no vale do rio Javari está ligado a confrontos com pessoas desse mesmo naipe, o que demonstra como é difícil se falar na preservação da Amazônia e dos direitos das nações indígenas. 

O DESAPARECIMENTO DE UM JORNALISTA INGLÊS E DE UM INDIGENISTA BRASILEIRO NA AMAZÔNIA 

Uma notícia preocupante e que pode ter sérias repercussões internacionais: o jornalista inglês Dom Phillips (a esquerda na foto) e o indigenista brasileiro Bruno Araújo estão desaparecidos desde o último dia 5. Os dois foram vistos pela última vez no vale do rio Javari, no Estado do Amazonas. Essa região fica próxima da fronteira com o Peru. 

O desaparecimento foi comunicado ao MPF – Ministério Público Federal, na manhã dessa segunda-feira, dia 6 de junho, pela UNIVAJA – União dos Povos do Vale do Javari e pelo OPI – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. De acordo com as informações, Phillips e Araújo desapareceram no percurso entre a comunidade São Rafael e o município de Atalaia do Norte. 

Em nota publicada, o MPF informou que fará a intermediação das operações de busca com o objetivo de “solucionar o caso o mais rápido possível”. A Marinha do Brasil foi encarregada da investigação contando com a participação da Polícia Federal, Polícia Civil do Amazonas, Força Nacional, FUNAI – Fundação Nacional do Índio, e Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari. 

De acordo com o relato de membros da UNIVAJA e do OPI, os dois viajantes haviam recebido “ameaças em campo” durante uma visita. As entidades afirmaram também que vários técnicos de suas equipes já haviam sofrido ameaças nessa região, fatos que já haviam sido comunicados oficialmente à Polícia Federal, ao MPF, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos e também à entidade Indigenous Peoples Rights International. 

O jornalista Dom Phillips mora em Salvador há quinze anos e trabalha como correspondente do jornal britânico The Guardian., Também faz reportagens para veículos como Washington Post, New York Times e Financial Times. Ele estava viajando pela Amazônia para coletar depoimentos para um livro sobre meio ambiente que está escrevendo. Segundo o relato várias organizações sociais, ele era frequentemente ameaçado por seu trabalho em defesa das populações. 

O indigenista Bruno Araújo é servidor da FUNAI e já havia trabalhado como coordenador regional do órgão em Atalaia do Norte, sendo um profundo conhecedor da região. Devido ao seu trabalho, o indigenista sofria constante ameaças de madeireiros, garimpeiros e pescadores ilegais que atuam no Vale do Javari. A FUNAI informou que o servidor estava em seu período de férias e que realiza a viagem sem qualquer caráter oficial.

Phillips e Pereira seguiram no dia 3 de junho, até um posto de vigilância indígena próximo da localidade conhecida como Lago do Jaburu, onde solicitaram autorização para visitar as comunidades e entrevistar os indígenas. Os dois deveriam regressar para Atalaia do Norte no dia 5, porém, consta que fizeram uma parada na comunidade ribeirinha São Rafael para visitar o líder comunitário conhecido como “Churrasco”. 

Segundo o que já foi apurado, os dois viajantes chegaram na comunidade as 6 horas, mas o líder comunitário não se encontrava no local. Após uma rápida conversa com a esposa do líder, os dois seguiram rumo a Atalaia do Norte, um percurso que dura aproximadamente 2 duas horas. Os dois desapareceram em algum lugar desse percurso. 

O desaparecimento desses dois homens ocorre num momento delicado para o Governo Brasileiro. O Presidente Jair Bolsonaro foi convidado a participar da Cúpula das Américas, nos Estados Unidos, onde certamente será cobrado por ações mais amplas para a preservação da Floresta Amazônica.  

O verão amazônico ou o período da seca está começando na região Norte do Brasil. Como acontece todos os anos, essa é uma época em que as queimadas na Amazônia ganham destaque em veículos de comunicação em todo o mundo. O desparecimento de um jornalista inglês que escreve sobre os nossos problemas ambientais e que que trabalha para órgãos de imprensa norte-americanos certamente vai ampliar a exposição dos problemas e, fatalmente, trará sérios constrangimentos para o mandatário brasileiro junto aos demais líderes políticos das Américas. 

Todos os órgãos públicos envolvidos na investigação desse desaparecimento receberam instruções para que se dediquem ao máximo para elucidar rapidamente essa complicada questão. 

O caso é difícil, mas vamos torcer por boas notícias.