CHINA: UM GIGANTE ECONÔMICO “ALIMENTADO” A CARVÃO

A China possui enormes reservas minerais, onde se destacam os grandes volumes de carvão. As maiores reservas desse combustível fóssil são encontradas no Norte do país – as estimativas indicam que a província de Shanxi possui metade das reservas de carvão do país. Também se destacam com importantes reservas as províncias de Heilongjiang, Liaoning, Jilin, Hebei e Shandong

De acordo com dados de 2018, a China ocupava a primeira posição mundial na produção de carvão com um volume total de 3,5 bilhões de toneladas. Mesmo com essa produção fabulosa, o país também ocupava a posição de maior importador mundial desse combustível com um volume de 285 milhões de toneladas. Os principais fornecedores há época eram a Indonésia e a Austrália. 

Todo esse imenso volume de carvão alimenta uma parte considerável da economia chinesa – aliás, não é exagero afirmar que o dragão gigante da Ásia é alimentado a carvão. A queima do combustível gera a energia necessária para impulsionar siderúrgicas, indústrias, centrais termelétricas para a geração de energia elétrica, além de prover aquecimento para centenas de milhões de residências no rigoroso inverno local. 

Até o ano de 2014, cerca de 80% de toda a energia elétrica gerada na China provinha de centrais termelétricas a carvão, 17% de centrais hidrelétricas e o restante de outras fontes como usinas nucleares. Nesse ano foi estabelecido um plano de ação emergencial para a redução da poluição atmosférica no país.  

Foram estabelecidas reduções de 15% nas emissões de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio em relação aos níveis de 2015 e estabelecido que as 80 maiores cidades do país tenham 80% dos dias com bons níveis de qualidade do ar. Um dos mecanismos para se conseguir essa redução nas emissões passou a ser a substituição do carvão pelo gás natural. Apesar dessa redução, o carvão ainda continuou reinando como a principal fonte energética da China. 

O “ponto fora da curva” para a economia da China e do mundo como um todo começou no final de 2019, época em que começaram a surgir as primeiras notícias da pandemia da Covid-19. A cidade de Wuhan na província de Hubei na China é considerada como o berço da pandemia que paralisou o mundo a partir do início de 2020. 

Sem maiores conhecimentos sobre a doença e seus mecanismos de disseminação, dos tipos de tratamentos e também dos medicamentos que poderiam ser usados no tratamento das vítimas, Governos de grande parte do mundo passaram a adotar políticas de restrição da circulação de pessoas e de produtos – o famoso “fique em casa – a economia a gente vê depois”. 

Sem nos atermos muito a detalhes desse verdadeiro “samba do crioulo doido” que a maioria dos leitores conhece muito bem, as economias dos países entraram num ciclo contínuo de “desligamento” – sem produção e com a redução drástica do comércio mundial, a demanda por combustíveis caiu bastante, o que resultou numa importante redução da produção de petróleo, gás e carvão

Nesses últimos meses, com o arrefecimento da pandemia da Covid-19, a economia mundial passou a apresentar sinais de rápido aquecimento, com um aumento brusco do consumo de combustíveis. Com a produção e a distribuição totalmente desorganizadas, os preços do petróleo, do gás natural e do carvão dispararam no mercado internacional. A economia chinesa está sofrendo como nenhuma outra com a falta de combustíveis, principalmente para a geração de energia elétrica. 

A China caminha a passos rápidos para se tornar a maior economia do mundo. Porém, ao contrário do que todos nós estamos acostumados aqui em nosso país e em países do Ocidente, a economia chinesa possui um planejamento central. Todas as necessidades de produção da economia – matérias primas, recursos energéticos, obras de infraestrutura, sistemas de transporte, entre outros, dependem do trabalho de planejadores do Governo Central. 

Para se calcular a necessidade de combustíveis em um determinado período, esses planejadores avaliam toda a demanda pelas indústrias, usinas termelétricas, sistemas de transporte, entre outras necessidades. Uma vez determinado volume necessário, é dada uma ordem de produção para as empresas de mineração e para os sistemas de importação, transporte e distribuição dos combustíveis por todo o país. Todo o processo demanda vários meses para seu planejamento e execução. 

A paralização da economia mundial por quase dois anos comprometeu todo esse planejamento estatal e agora, com o brusco reaquecimento da economia mundial, a máquina chinesa está com dificuldades para retomar o ritmo normal. Está faltando gás natural, petróleo e, principalmente, carvão para saciar o apetite energético do dragão chinês, produtos que além de raros estão caros. Serão necessários vários meses, talvez anos, para o mercado mundial se normalizar. 

A poluição criada em toda a China por essa fabulosa queima de carvão e de outros combustíveis fósseis gera inúmeros problemas de saúde nas populações, especialmente das grandes cidades (que no país são muitas). Em grandes regiões metropolitanas como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis de poluição do ar por partículas resultantes da queima de combustíveis fósseis em níveis até 40 vezes acima do máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde. 

De acordo com a OMS, a quantidade de partículas microscópicas de poluentes com tamanho até 2,5 micrômetros – conhecidas como PM2.5, deve ser no máximo da ordem de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Estudos conjuntos feitos por universidades americanas e chinesas indicam que a intensa poluição do ar nas grandes cidades da China resulta em 177 mil mortes prematuras a cada ano

A redução forçada das emissões de poluentes na China durante esse período da pandemia da Covid-19 salvou milhares de vidas. De acordo com algumas projeções, cerca de 4 mil crianças e 73 mil adultos com idade acima de 70 anos tiveram suas vidas poupadas devido a redução da poluição do ar em grandes cidades chinesas nos primeiros meses da pandemia. Esses números deverão ser bem maiores quando todo o período for devidamente avaliado

Será uma questão de uns poucos meses até que o fornecimento carvão e de outros combustíveis fósseis seja normalizado em toda a China. Muitas das usinas termelétricas movidas a carvão que até hoje estavam sendo mantidas desativadas provavelmente voltarão a operar, dando um folego extra nessa reativação da economia da China. O poderoso dragão chinês voltará a esbanjar saúde em breve. 

Já o povo, esse voltará a sofrer com os dramáticos efeitos da gravíssima poluição do ar nas grandes cidades chinesas. Lamentável! 

UMA CRISE ENERGÉTICA MUNDIAL

Quem tem acompanhado os noticiários dos últimos dias com alguma atenção deve ter percebido a grande quantidade de notícias que tratam dos grandes aumentos nos preços da gasolina e do óleo diesel. Mesmo quem não um veículo que use esses combustíveis sabe que esses aumentos serão repassados aos preços do transporte público, dos alimentos e de outras mercadorias transportadas por via rodoviária. 

Outro insumo essencial para grande parte das famílias é o gás de cozinha, produto que está com um preço demasiadamente alto para os padrões salariais de grande parte da população. Por trás dessa elevação dos preços desses produtos está uma forte alta no preço do petróleo nos mercados internacionais. Na última semana, o preço do barril do petróleo Brent, que é usado como uma referência no mercado internacional, superou a marca dos US$ 80.00. 

Como se não bastasse esse grande aumento nos custos dos derivados de petróleo, vivemos uma outra crise enérgica – a de geração de energia elétrica. Toda a região Central do Brasil está enfrentando uma forte seca, o que tem reflexos em grandes reservatórios de importantes centrais hidrelétricas que estão com baixíssimos níveis de água.  

Sem essa fonte de geração hidráulica, nosso país teve de acionar as centrais de geração termelétrica emergenciais movidas a carvão e a óleo diesel, insumos que estão com preços nas nuvens devido ao aumento dos custos do petróleo no mercado internacional. 

Aqui vale um lembrete – sempre que as centrais de geração termelétrica são acionadas, os valores das contas de energia elétrica dos consumidores são acrescidos de uma taxa extra, que no momento é chamada bandeira vermelha patamar 2. Segundo dados da ANEEL – Agencia Nacional de Energia Elétrica, o valor dessa taxa é de R$ 9,49 para cada 100 kW/hora consumido. Há estudos com o objetivo de aumentar o valor dessa taxa nesse momento de crise hídrica

Apesar do forte uso político desses aumentos nos preços dos combustíveis e da energia elétrica contra o atual Governo do país – lembrando que ano que vem teremos eleições presidenciais, essa é uma crise mundial que tem afetado países de forma diferente. A Europa e a China são as regiões onde a situação é mais grave. 

Vamos começar falando da China, a economia que mais cresceu nas últimas décadas e que, dentro da nossa área de interesse, é a que mais polui o planeta. Apesar da forte pressão internacional para a redução do carvão como uma das principais fontes de geração de energia elétrica no país, a economia chinesa ainda é fortemente dependente desse insumo.  

Num esforço para tentar tornar a economia da China “mais verde e ecologicamente correta”, o Governo local tem tomado medidas para reduzir a mineração e o consumo do carvão ao mesmo tempo em que vem estimulando o uso cada vez mais intensivo do gás natural, um combustível também de origem fóssil, mas muito menos poluente

Foi aqui que apareceu um enorme problema – depois de quase dois anos de forte retração por causa da pandemia da Covid-19, a economia mundial começou a retomar o crescimento num ritmo muito mais forte do que se esperava. Importantes combustíveis como o petróleo, o gás natural e o carvão passaram a sofrer fortes aumentos nos seus preços, o que está criando problemas no mundo inteiro. 

Vamos citar como exemplo o Brasil, onde apesar de todos os problemas que estamos vivendo, há uma perspectiva de crescimento da ordem de 5% este ano. Esse crescimento gera o aumento do consumo de energia – principalmente elétrica, de matérias primas, de mão de obra, de transportes e tudo mais. 

Transformada já há muitos anos na “fábrica do mundo”, a economia chinesa vem sendo cada vez mais pressionada a fornecer produtos e componentes para inúmeras empresas ao redor do mundo. Para atender essa demanda as fábricas chinesas precisaram aumentar o seu próprio consumo de energia e de matérias primas. Conclusão – está faltando gás natural para a geração de energia elétrica e também falta carvão para acionar todas as antigas unidades de geração de energia elétrica do país

O Governo chinês já está racionando o fornecimento de energia elétrica. Estão ocorrendo cortes de luz programados e até mesmo apagões em fábricas e residências por todo o país. A situação é particularmente grave em três províncias no Norte onde vivem 100 milhões de pessoas. Essa pressão chinesa pelo aumento do consumo de gás natural e de carvão está criando graves problema para a Europa. 

Sempre que a oferta de um determinado produto é reduzida, seu preço acaba subindo. Essa é a boa e velha “Lei da Oferta e da Procura” da economia, que países da Europa estão sentindo na própria pele. O custo do gás natural aumentou quase 300% em alguns países como a Alemanha e a Inglaterra. A razão é simples – a Rússia, país que fornece grande parte do gás natural consumido na Europa, aumentou suas vendas para a China e tem pouco produto extra para fornecer para os europeus. Também alegam dificuldades no transporte de maiores volumes de gás pelos gasodutos já existentes. 

A situação da Europa está ficando tão complicada que muitos Governos tem solicitado à Rússia aumentos nos volumes de carvão comprados do país. Com políticas ambientais extremamente vigorosas, os países europeus vinham reduzindo significativamente os volumes de energia elétrica produzidos através da queima do carvão em usinas termelétricas e migrando essa geração para centrais térmicas a gás. 

Com o inverno se aproximando, época do ano em que há um aumento expressivo do consumo de eletricidade por causa dos sistemas de aquecimento das casas, muitos países europeus pretendem “esquecer” temporariamente seus compromissos ambientais e gerar o máximo possível de energia elétrica com base no carvão. Entre ser ecologicamente correto e morrer de frio ou poluir a atmosfera com gases de efeito estufa em uma casa bem quentinha, melhor ficar com a última opção. 

Essa demanda dos países da Europa por mais carvão da Rússia esbarra num grande problema – a China também tem um clima temperado em grande parte do seu território e também precisa aumentar a sua geração de energia elétrica no período do inverno. Os russos alegam que já comprometeram toda a sua produção excedente com os chineses, inclusive a infraestrutura de transporte. 

Os norte-americanos, por enquanto, ainda estão numa posição confortável. O país atingiu um grau de auto suficiência na produção de petróleo e gás, além de produzir grandes volumes de energia elétrica em centrais nucleares, algo que muitos países da Europa sempre abominaram. O Brasil, inclusive, fechou um grande contrato para a compra de gás natural dos Estados Unidos – segundo alguns analistas, essa compra ajudou a desestabilizar ainda mais o mercado mundial do gás. 

Os próximos meses serão bastante complicados, tanto aqui no Brasil quanto em grande parte do mundo. Essa é aquela parte do mantra que ouvimos à exaustão nos últimos meses – “a economia a gente vê depois“. 

O tal do “depois” chegou… 

A GRALHA-AZUL E A ARAUCÁRIA, OU FALANDO DA INTERDEPENDÊNCIA ENTRE AS ESPÉCIES

O pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis), espécie que inspirou o personagem Pica-Pau dos desenhos animados, passou a ser considerada uma espécie extinta desde o último dia 29 de setembro. Desde 1944, não ouve nenhum avistamento do animal, apesar das intensas buscas realizadas em matas e florestas dos Estados Unidos por cientistas, observadores de pássaros e público em geral.  

Dentro de 60 dias, a contar da data do informe do Fish and Wildlife Service – Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a espécie será considerada oficialmente extinta caso não surjam evidencias ou informações que indiquem a existência de algum espécime vivo. É uma perda lastimável para a vida selvagem e também para a cultura popular mundial. 

Mas, afinal de contas: o que é que se perde com o desaparecimento para sempre de um simples “passarinho”? 

Se perde muito – nenhuma espécie animal ou vegetal vive isoladamente. Diferentes espécies mantem relações de benefício e de associação para a sobrevivência mútua. Uma árvore, por exemplo, pode abrigar diversas outras plantas – bromélias e orquídeas por exemplo, que por sua vez alimentam diversas espécies de insetos, que por sua vez são predados por aves. Se a árvore cair ou for cortada, as perdas se estenderão a todas as outras espécies associadas. Essa relação entre as árvores e as plantas é chamada de inquilinismo. 

As inter-relações entre as espécies recebem diferentes classificações – alguns exemplos: 

Mutualismo: ocorre quando duas espécies são beneficiadas e a associação garante a sobrevivência de ambas. Um caso clássico é o dos líquens, onde uma alga e um fungo que se associaram, o que garantiu a sobrevivência mútua; 

Protocooperação: nesse caso, indivíduos de espécies diferentes vivem de modo interdependente sem prejuízo a nenhuma das espécies. Um exemplo são os pássaros que se alimentam de carrapatos que atacam os grandes mamíferos; 

Colônias: são os casos de indivíduos da mesma espécie ou de espécies diferentes que vivem agrupadas para proteção e benefício mútuo; 

Comensalismo: Nesse caso, apenas uma das espécies é beneficiada, porém, é gerado um benefício indireto para outras espécies. É o caso dos urubus que se alimentam de restos de animais mortos, o que mantém o ambiente saudável para outras espécies; 

Além dessas relações harmônicas, onde nenhuma das espécies é prejudicada, existam as chamadas relações não harmônicas. Exemplos: 

Competição: Nesse caso, diferentes espécies disputam recursos limitados como alimentos, territórios, parceiros sexuais e luminosidade. Esse é o típico processo que beneficia os indivíduos mais fortes e melhor adaptados; 

Canibalismo: uma relação que envolve indivíduos da mesma espécie, onde uma mata o outra para se alimentar, a exemplo da fêmea do louva-a-deus ou da aranha viúva-negra; 

Predatismo: É a relação entre espécies diferentes onde uma delas caça outra, no caso de carnívoros, ou de herbívoros que se alimentam de plantas como bois, cavalos e gafanhotos. 

Os pica-paus se enquadram no grupo dos predadores – essas aves são ávidas comedoras de insetos. Elas usam seus fortes bicos para atacar formigas e cupins que vivem nos troncos de árvores. Atuando como um verdadeiro formão, ferramenta muito usada pelos marceneiros, o bico da ave é usado para arrancar a casca e para furar a madeira, expondo os insetos que são capturados pela língua grudenta. 

Além de insetos, os pica-paus também se alimentam de frutas, nozes e castanhas. Algumas espécies de regiões de clima temperado, inclusive, usam os buracos que foram abertos nos troncos das árvores para estocar nozes e bolotas de carvalho para consumo nos meses de inverno. Aqui no Brasil, a gralha-azul tem um comportamento muito parecido. 

A gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) é uma ave com aproximadamente 40 cm de envergadura, com coloração das penas do corpo de um azul vivo e com a cabeça, a parte frontal do pescoço e partes do peito na cor preta (vide imagem). Essas aves costumam viver em pequenos bandos, se alimentando de frutas, insetos e, especialmente, dos pinhões das araucárias, uma espécie de pinheiro nativo das regiões de clima subtropical do Sul e Sudeste do Brasil, além de países vizinhos como a Argentina e o Uruguai. 

A semente da araucária, o pinhão, é um alimento extremamente importante na culinária da região Sul e também em extensas áreas do Estado de São Paulo. Ele pode ser comido puro após ser cozido em água ou ser incluído em inúmeras receitas de carnes, sopas, pães e bolos, entre uma infinidade de receitas. Os índios das etnias do grupo linguístico jê, que possuíam diversas tribos na região Sul do Brasil, eram grandes comedores de pinhão e, com a chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis, acabaram ensinando muitos desses hábitos alimentares aos recém chegados.  

Muitos animais como pacas e cotias também consomem o pinhão. Assim que caem das araucárias, os pinhões apresentam uma castanha com enorme acidez e são necessários vários dias até que a semente “amadureça” e fique apetitosa para o consumo. Um dos mais ávidos comedores de pinhão da natureza são a gralhas-azuis, aves que desenvolveram uma estratégia especial para armazenar as sementes. 

Durante os meses de outono, época em que as araucárias produzem os pinhões, as gralhas-azuis coletam os pinhões e os “estocam” em áreas delimitadas do solo ou os encravam em troncos caídos no solo, criando assim uma reserva de alimentos para o período do inverno. Esse período em que os pinhões ficam estocados também ajuda a resolver o problema da acidez da semente.  

É aqui que desponta a importância ambiental da relação entre as gralhas-azuis e as araucárias: muitos desses pinhões acabam esquecidos pelas aves e germinam, produzindo novos exemplares de araucárias. Ou seja, as gralhas-azuis são as grandes plantadoras de araucárias, a mesma relação que algumas espécies de pica-paus de países como os Estados Unidos e do Canadá mantém com árvores como os carvalhos e nogueiras. 

Infelizmente, esse fantástico mecanismo de interdependência entre as araucárias e as gralhas-azuis, um processo evolutivo de milhões de anos, está seriamente ameaçado – a Mata das Araucárias, um subsistema florestal da Mata Atlântica, está reduzida a cerca de 4% da sua antiga área original.  Com a destruição do seu habitat e sem um dos seus mais importantes alimentos – o pinhão, as populações de gralha-azul encontram-se ameaçadas de extinção e está sendo cada vez mais difícil encontrar grupos dessas aves livres na natureza. 

A extinção do pica-pau-bico-de-marfim, fatalmente, trará graves impactos em outras espécies que compartilham o mesmo nicho ecológico – populações de insetos que eram predadas pelas aves poderão aumentar sem controle e passar a ameaçar outras espécies. Árvores que dependiam das aves para dispersas suas sementes, ficarão com seus territórios limitados ou terão a sobrevivência ameaçada. Como esses pica-paus não eram vistos já há várias décadas, esses impactos já podem estar ocorrendo silenciosamente. 

Concluindo: não foi apenas uma espécie de pássaro que desapareceu – inúmeras outras espécies associadas poderão seguir brevemente pelo mesmo caminho… 

AVE QUE INSPIROU A ANIMAÇÃO “O PICA-PAU” É DECLARADA EXTINTA NOS ESTADOS UNIDOS 

Uma notícia triste, ao menos para os fãs de desenhos animados, e altamente didática sobre a dramática realidade da degradação do meio ambiente: o Fish and Wildlife Service – Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos, na sigla em inglês, anunciou hoje, dia 29 de setembro, a extinção de 21 espécies animais e de uma planta. 

Entre os animais está o pica-pau-bico-de-marfim, a espécie que inspirou o icônico e malcriado personagem dos desenhos animados – o Woody Woodpecker, ou, Pica-Pau, como o conhecemos aqui no Brasil. Eu cresci assistindo e me divertindo com as aventuras do personagem e lembro que minha mãe comentava que assistia seus filmes nas matines dos cinemas lá pelos idos da década de 1940. 

O último avistamento de um pica-pau-bico-de-marfim foi em 1944, cerca de quatro anos depois do lançamento da animação do Pica-Pau pelos Estúdios Walter Lantz. Há muitos anos, cientistas, pesquisadores, observadores de pássaros e cidadãos comuns vasculham florestas e matas tentando avistar um exemplar da espécie, o que infelizmente nunca aconteceu. 

Fish and Wildlife Service abriu uma consulta pública com 60 dias de duração, prazo destinado a cientistas, pesquisadores e cidadãos comuns fornecerem evidências ou dados relevantes sobre o pica-pau e as outras espécies. Caso não surjam informações que indiquem que ainda existem exemplares vivos dessas espécies, o órgão irá oficializar a extinção desses animais e da planta. 

A razão para o trágico desaparecimento dessas espécies e de milhares de outras são bem conhecidas por todos nós: desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e pastagens, extração de madeira, mineração, construção de grandes obras como represas e rodovias, incêndios florestais (muitos deles intencionais), caca ilegal, entre muitos outros. 

O pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis) era considerada a maior ave do gênero dos Estados Unidos, podendo atingir uma envergadura de até 53 cm e um peso de 570 gramas. A espécie era encontrada principalmente em áreas de antigas florestas e pântanos do Sudeste do país. 

Um detalhe intrigante que liga a criatura ao personagem: em um dos episódios – Dumb Like a Fox, que foi traduzido como “Esperto contra Sabido”, um museu oferecia uma recompensa de US$ 25 para quem capturasse um Campephilus principalis. O Pica-Pau, é claro, deu um jeito de capturar a si mesmo para conseguir receber a recompensa. 

Além do popular pica-pau, a lista de espécies animais declaradas extintas inclui o Kauai O’o, um pássaro que era nativo das florestas do Havaí e o toutinegra de Bachman, uma ave canora de peito amarelo, além de outras oito espécies de pássaros, duas espécies de peixes, oito mexilhões de água doce e uma espécie de morcego. 

Segundo um estudo recente feito por pesquisadores da Universidade de Tel Aviv e do Instituto Weizmann de Ciência, ambos de Israel, algo entre 10% e 20% de todas as espécies de aves foram levadas a extinção ao longo dos últimos 50 mil anos devido a ações dos seres humanos. A caça dos animais e a coleta de ovos são as principais causas dessa verdadeira tragédia. 

A maior parte dessas extinções ocorreu em ambientes de ilhas, onde um dos mais significativos exemplos foram as moas que existiam na Nova Zelândia. Segundo a pesquisa, 68% das espécies de aves que não voam conhecidas pela ciência, como era o caso das moas, já foram extintas. Desgraçadamente, o pica-pau-bico-de-marfim veio se juntar a essa lista de animais levados à extinção por nós humanos. 

Sempre que uma espécie animal ou vegetal é levada a extinção – por fatores naturais ou por mãos humanas, toda uma jornada evolutiva de milhares, quiçá, milhões de anos, chega ao fim. Essas espécies deixem um vazio em seu nicho ecológico, podendo levar outras espécies interdependentes pelo mesmo caminho como no desmoronamento de um castelo de cartas. 

A evolução e o desenvolvimento de uma única espécie é o resultado de uma enorme combinação de fatores naturais como temperatura, fontes de alimentação, habitat, competição com outras espécies, entre muitos outros. Para cada espécie que consegue se sair vencedora nesse processo de seleção natural, inúmeras outras sucumbiram ao longo do caminho. 

Um caso clássico de como funcionam esses processos evolutivos foi constatado por Charles Darwin durante a sua lendária viagem através do mundo no navio HMS Beagle da Marinha inglesa. Durante uma parada nas Ilhas Galápagos, território pertencente ao Equador, Darwin colheu inúmeros indivíduos da flora e fauna local. 

Entre as espécies coletadas se encontravam diversos tentilhões, pássaros que Darwin imaginou serem de espécies diferentes. Essas aves, recolhidas em diferentes ilhas do arquipélago, apresentavam claras diferenças morfológicas, principalmente no tamanho e no formato do bico. 

Estudos posteriores realizados por especialistas em aves na Inglaterra confirmaram que as aves eram da mesma espécie e que os diferentes formatos dos bicos foram uma adaptação aos diferentes tipos de alimentos encontrados nas diferentes ilhas. Darwin concluiu que, num passado distante, um único grupo de tentilhões chegou voando ao arquipélago e, ao se dispersarem pelas ilhas, os descendentes dessas aves foram se adaptando aos diferentes biomas.  

Essa descoberta foi chave na concepção da teoria da seleção natural apresentada no livro “A Origem das Espécies”, publicado por Charles Darwin em 1859. Essa nova concepção, que foi duramente atacada por grupos religiosos criacionistas, mudou os rumos da ciência e a forma que a maioria das pessoas enxerga o mundo. 

Uma das poucas esperanças que nos restam é a possibilidade de um grupo de pica-paus ter conseguido sobreviver em um recanto remoto, longe das vistas de todos. De quando em vez surgem notícias da descoberta de indivíduos vivos de espécies que estavam na lista de animais extintos. 

Um desses casos foi o do pássaro Malacocincla perspicillata, que foi encontrado por moradores de uma localidade remota da Ilha de Bornéu, na Indonésia, em 2020. Fazia cerca de 170 anos desde o último avistamento de uma dessas aves – os ornitólogos locais a consideravam extinta. Foi uma grata surpresa! 

Para nós, resta por enquanto o consolo de assistir a um ou outro desenho do Pica-Pau e torcer para que o esperto “passarinho” esteja só nos pregando uma peça… 

ERA UMA VEZ UM MAR DE MINAS

Uma inédita tempestade de areia assustou os moradores de cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo e também do Triangulo Mineiro – esse foi o tema de nossa última postagem. A raiz do problema é a forte seca que assola essa região e também uma extensa área do Brasil Central. 

Uma situação que permite entender claramente o que está acontecendo pode ser vista na Represa de Furnas. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 26 de setembro, o nível do reservatório atingiu a marca de 14,27% de sua capacidade máxima. Em agosto de 2020, o nível se encontrava em 49,27%. O momento é de grande preocupação.

A história de Furnas remonta ao início da década de 1950, quando a CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais, iniciou estudos para o aproveitamento energético do rio Grande. Esses estudos indicavam um potencial para a construção de até 14 usinas hidrelétricas, onde se alcançaria uma potência total instalada de 7,5 mil MW. Esses projetos ganhariam um forte impulso após a decisão da construção de Brasília e a necessidade de aumentar a geração de energia elétrica para alimentar a nova capital federal. 

A barragem de Furnas viria a ser concluída em 1961, inundando uma área total de 1.440 km² e se transformando no maior corpo d’água de Minas Gerais. Esse grande reservatório atingiu terras de 34 município e provocou o deslocamento de cerca de 35 mil pessoas, além de atingir grandes extensões de solos férteis. Esses impactos geraram uma forte convulsão social, além de exigir o pagamento de grandes indenizações. 

Com o início do enchimento do lago de Furnas, muitas famílias que resistiam em abandonar suas casas e propriedades acabaram forçadas a se mudar. Não é difícil encontrar fotos antigas de famílias em telhados de casas completamente cercadas pelas águas. Em várias situações, tropas do Exército precisaram ser usadas para remover famílias a força. Entre as áreas afetadas destacam-se a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra, que foram totalmente encobertas pelas águas do lago.  

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW. 

Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e Furnas foi se transformando no “Mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago, que se estendem por um perímetro com cerca de 3 mil km, apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“.  

Após a formação do grande lago de Furnas, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório.  

Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras. Em muitos lugares, o reservatório criou condições para o desenvolvimento de projetos de piscicultura. 

Infelizmente, a grande devastação da cobertura florestal, tanto em áreas do Cerrado quanto da Mata Atlântica (as nascentes do rio Grande ficam dentro desse bioma), passaram a cobrar o seu preço – os caudais dos rios e riachos formadores de Furnas passaram a minguar sistematicamente. 

Analisando um gráfico do ONS que apresenta os volumes de água armazenada em Furnas ao longo dos últimos 20 anos, podemos observar nitidamente que os volumes máximos atingidos estão se reduzindo gradativamente ao longo do tempo. Em agosto de 2004, citando um exemplo, o nível máximo atingiu a marca de 92,4%. Nos últimos 5 anos, o nível máximo que as águas do reservatório atingiram nesse mesmo mês foi 49,27%. 

Segundo informações da Eletrobrás, a Usina Hidrelétrica de Furnas continua produzindo energia elétrica, porém, a produção média está na casa de 500 MW, um volume equivalente a apenas 41% da capacidade total instalada. A dúvida que fica – com a redução contínua do nível do reservatório, até quando será possível manter a produção de energia elétrica? 

A seca que se abate sobre o rio Grande e Furnas também está afetando as turbinas geradoras de outras 12 usinas hidrelétricas. Todas essas usinas respondem por ¼ de toda a capacidade geradora do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. Isso nos dá uma boa ideia do tamanho do problema criado pela seca e dos impactos que poderão ser desencadeados em toda a economia do país. 

Fica fácil de notar que a tempestade de areia que tomou conta da região foi apenas a ponta de um grande iceberg – essa história terá muitos e muitos capítulos mais… 

UMA FORTE TEMPESTADE DE AREIA ATINGE O NORTE E NOROESTE DO ESTADO DE SÃO PAULO E O TRIÂNGULO MINEIRO

Cenas de tempestades de areia são bastante comuns em filmes. De memória eu posso citar os filmes A Múmia (1999), Missão Impossível – Protocolo Fantasma (2011) e Mar de Fogo (2004), onde se desenrolam tempestades de areia verdadeiramente assustadoras. O Primeiro filme foi ambientado no Deserto do Saara e os outros no Deserto da Arábia, lugares onde o fenômeno é relativamente comum. 

Nesse último domingo, dia 26 de setembro, cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo e também do Triângulo Mineiro foram surpreendidas por uma tempestade de areia digna dos melhores filmes de Hollywood. A imagem que ilustra essa postagem mostra a grande nuvem de pó tomando conta da cidade de Franca, no Estado de São Paulo. Bastaram uns poucos minutos para a tarde do domingo virar noite. 

As tempestades de areia são comuns em regiões ocupadas por grandes desertos, especialmente na Ásia. Elas são o resultado da combinação de solos secos com ventos fortes, que levantam os sedimentos e os carregam a grandes distancias. De acordo com meteorologistas, essas tempestades podem lançar os sedimentos a uma altura de até 10 mil metros e tem o poder de cobrir cidades inteiras com uma grossa camada de areia. 

Redemoinhos-de-poeira, que nós paulistas costumamos chamar de pé-de-vento, são relativamente comuns nesse período de seca. São fluxos de ar quente que sobem em espiral e que carregam grandes quantidades de poeira vermelha, podendo ser vistos a longas distancias. No folclore popular dos caipiras diz-se que é o rastro deixado pela passagem do saci-pererê – para alguns, é o próprio coisa-ruim (ou diabo) vagando pelos campos. Agora, uma tempestade de areia do tamanho dessa nessas regiões, eu pessoalmente desconhecia. 

Uma das cidades mais impactadas pelo fenômeno foi Franca, localizada a cerca de 310 km da capital paulista. Essa região está sendo fortemente afligida pela seca e foi atingida com ventos com velocidade acima de 100 km/hora, o que lançou uma densa camada de sedimentos e areia sobre a cidade. Segundo os meteorologistas, esse fenômeno é bastante incomum na Região Sudeste do Brasil. 

Franca fica localizada dentro de uma região do Estado de São Paulo que já foi coberta pelo bioma Cerrado. No passado, cerca de 14% da superfície do Estado era coberta pelo bioma – atualmente, essa área corresponde a aproximadamente 1% do território paulista. Um dado curioso revelado por estudos bem recentes – grande parte da cidade de São Paulo já foi coberta com uma grande mancha de Cerrado

Conforme comentamos em postagem anterior, uma extensa faixa do Brasil Central está enfrentando uma fortíssima seca – aliás, a maior seca dos últimos 91 anos. Essa seca atinge especialmente áreas do Cerrado, onde se incluem as regiões Norte e Noroeste do Estado de São Paulo, e também a região do Triangulo Mineiro, justamente onde foi registrada a tempestade de areia. 

Essa região é particularmente importante devido a presença de importantes sub-bacias hidrográficas, especialmente as do rio Grande e Paranaíba, que são as formadoras do rio Paraná. A região concentra importantes usinas hidrelétricas responsáveis por parte substancial da energia elétrica gerada no país. Com a forte estiagem, muitos reservatórios estão vazios e existem riscos de racionamento de energia elétrica dentro de poucos meses. 

Um exemplo da situação crítica dos reservatórios do país é o que se vê atualmente na Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, empreendimento instalado no rio Paraná, que encontra praticamente no volume morto, ou seja, dentro de pouco tempo ficará impossibilitada de gerar energia elétrica. Essa hidrelétrica tem uma potência instalada de 3,44 MW, o que nos dá uma ideia dos problemas que serão criados pelo seu desligamento

A secura também se abate sobre os campos e as poucas matas remanescentes, deixando a vegetação seca e grandes porções de solo ressequido expostos ao vento. Foi essa situação que possibilitou a formação dessa grande nuvem de areia que acabou sendo lançada sobre as cidades paulistas e mineiras. 

Esse raro fenômeno foi particularmente assustador para as populações dessas cidades por se tratar de uma região normalmente verdejante mesmo nos meses de seca. Imaginar uma grande tempestade de areia se abatendo sobre uma cidade nos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, é bem mais fácil de se aceitar pois estão numa região extremamente árida. 

Passado o susto e feita a devida limpeza nas ruas, avenidas e imóveis, é importante parar para pensar no que está ocorrendo com o clima aqui no nosso país em decorrência de todo um conjunto de mudanças climáticas que estão afetando todo o planeta e também devido a impactos ambientais locais que nós mesmos criamos. 

O Cerrado brasileiro já perdeu cerca de metade de sua cobertura florestal devido ao avanço alucinado das frentes agrícolas. Conforme comentamos em outras postagens, a agricultura no bioma ganhou um forte impulso a partir de meados da década de 1970, quando a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias criou sementes de grãos – especialmente a soja, adaptadas ao clima e aos solos do Cerrado. 

Esse grande avanço tecnológico veio de encontro a uma série de políticas governamentais de ocupação de grandes vazios populacionais de nosso território, numa época em que tudo podia ser feito em prol do desenvolvimento do país – inclusive devastar florestas para criação de frentes agrícolas. O Cerrado foi transformado no grande celeiro do Brasil. 

Depois de décadas contínuas de abusos contra o meio ambiente, parece que a natureza resolveu mandar a fatura – essa grande tempestade de areia poderá ser apenas a primeira de muitas outras. 

Precisamos entender exatamente qual foi a causa desse fenômeno e, dentro do possível, buscar formas de se evitar que ele volte a se repetir. É bem provável que a recuperação ambiental de áreas degradadas pela agricultura intensa ajude a evitar a repetição do problema. E mesmo que não resolva esse problema específico, isso vai ajudar bastante na recuperação dos rios da região

JUNTOS PELO ARAGUAIA – UM PROGRAMA PARA A RECUPERACÃO AMBIENTAL DE UM DOS RIOS MAIS IMPORTANTES DO BRASIL CENTRAL 

Uma outra importante bacia hidrográfica que está sofrendo muito com a degradação ambiental é a do rio Araguaia, que junto com o rio Tocantins, forma a maior bacia hidrográfica localizada totalmente dentro do território brasileiro. Essa degradação tem sua principal origem nos grandes desmatamentos da vegetação do Cerrado para expansão das frentes agrícolas

Buscando reverter parte dessa degradação, foi lançado em junho de 2019, o Programa Juntos Pelo Araguaia. Essa é uma iniciativa conjunta do Governo Federal e dos Governos dos Estados de Goiás e Mato Grosso. O Programa prevê uma série de intervenções em toda a extensão do rio Araguaia – a primeira etapa ficará concentrada em 16 municípios goianos e em 12 mato-grossenses 

O rio Araguaia nasce na Serra do Caiapó, na divisa dos Estados de Goiás e Mato Grosso. Segue então rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso. Depois entra no Pará e segue até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Sua bacia hidrográfica cobre uma superfície total de mais de 350 mil km² nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. 

A sina do rio Araguaia está diretamente associada ao início da agricultura em larga escala no Cerrado. Conforme tratamos em inúmeras postagens anteriores, o Cerrado sempre foi considerado como uma grande região inviável para a prática da agrícola em alta escala, com solos extremamente ácidos e de baixa fertilidade. Isso mudou em meados da década de 1970, quando a EMBRAPA – Empresa brasileira de Pesquisas Agropecuárias desenvolveu sementes adaptadas aos solos e clima da região. 

Desde início do século XX, especialmente a partir da década de 1940, Governo brasileiro criou diversas iniciativas para estimular a ocupação e o povoamento de extensas áreas desabitadas do interior do país como a famosa “Marcha para o Oeste“. Com o início do período dos Governos Militares em 1964, esses esforços foram multiplicados. 

O mundo vivia um momento complicado com a Guerra Fria entre russos e americanos, que disputavam a liderança da humanidade na época. Aqui no Brasil, os nossos militares estavam preocupados com algumas ideias como a internacionalização da Amazônia, proposta feita por algumas nações estrangeiras na época – passou a ser prioridade absoluta a ocupação dos grandes vazios do nosso território no menor tempo possível. 

Uma das estratégias adotadas seria a expansão da produção de grãos em regiões do país de baixa população, especialmente na região do Cerrado brasileiro. A missão de viabilizar a agricultura no bioma foi confiada a EMBRAPA, que depois de mais de uma década de pesquisas conseguiu desenvolver grãos, especialmente a soja, adaptados às características do Cerrado brasileiro

O Cerrado goiano foi uma das portas de entrada para a agricultura de grãos no Brasil Central. Desde o início da construção de Brasília a partir de meados da década de 1950, foram feitos grandes investimentos para a criação de uma infraestrutura de transportes e de fornecimento de energia elétrica para a região, o que também beneficiava a produção agrícola. A partir de Goiás, a produção agrícola se expandiu gradualmente na direção de Mato Grosso e do Tocantins, Estado que surgiu em 1988 a partir do desmembramento do Norte de Goiás. 

O grande sucesso e os excelentes resultados da agricultura na Região Centro-Oeste esconderam, durante muito tempo, os enormes desmatamentos da vegetação nativa do Cerrado. Conforme já comentamos em postagens anteriores, as grandes raízes dessa vegetação nativa são essenciais para a infiltração das águas das chuvas e recarga das reservas subterrâneas de água, um problema que se reflete na saúde dos rios da região. 

Em um estudo publicado em 2014, a DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado 

O rio Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior. Com a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no Sul do Estado do Pará, concluída em 1984 e que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem água a rio sem peixe, foi um “pulo”. 

No início de 2017, publicamos uma postagem aqui no blog que mostrava o grau de deterioração a que chegou um rio do Norte de Goiás – o rio do Ouro. Esse rio atravessa o município de Porangatu e já foi considerado o mais importante corpo hídrico da região. Até 2010, o rio do Ouro tinha águas perenes durante todo o ano e, desde então, passou a ser comportar como um rio temporário a exemplos de muitos rios do bioma Caatinga. 

No período da seca, o rio se transforma em um “caminho de pedras” totalmente seco. O fenômeno do rio do Ouro não é um caso isolado – existem ao menos dez rios de Goiás que estão apresentando exatamente o mesmo comportamento. O córrego Bom Sucesso, na mesma região do rio do Ouro, também se tornou intermitente. Na cidade de Goiás, os rios Bacalhau e Bagagem estão se comportando como intermitentes desde 2008. Desde a mesma época os rios Santa Maria e Correntes, na região de Flores de Goiás, Formosa e Alvorada do Norte, também passaram a ser temporários. 

De acordo com informações do Governo de Goiás, o Programa Juntos Pelo Araguaia tem como meta a recuperação ambiental de uma área de 10 mil hectares na sua primeira fase. Conforme comentamos em postagens anteriores onde mostramos outros projetos de recuperação de bacias hidrográficas, essa área é muita pequena quando analisamos a dimensão do problema. Porém, é importante acreditarmos que isso é apenas o início de uma grande caminhada. 

Ao longo dos últimos 40 anos, o agronegócio assumiu um papel importantíssimo dentro da economia do Brasil. Nosso país atingiu recentemente a posição de maior produtor mundial de soja e nossos produtos agropecuários já alimentam cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. A Região Centro-Oeste é um dos grandes destaques dessa produção. 

É aqui que chegamos num ponto central da questão – sem água, não existe produção agrícola. Portanto, recuperar o rio Araguaia é uma questão de sobrevivência para uma parte importante do agronegócio brasileiro. E com um e$tímulo desses (atenção para o cifrão na palavra), o Juntos Pelo Araguaia tem tudo para se transformar num grande sucesso. 

OS PROJETOS DO NEMA – NÚCLEO DE ECOLOGIA E MONITORAMENTO AMBIENTAL DA UNIVASF 

Um importante trabalho na área de recuperação ambiental da bacia hidrográfica do rio São Francisco vem sendo realizado pelo NEMA – Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental, da UNIVASF – Universidade Federal do Vale do São Francisco. Essa instituição foi criada em 2014, com o objetivo de executar o Subprograma das Modificações da Cobertura, Composição e Diversidade Vegetal do Programa de Conservação da Fauna e Flora do PISF – Projeto de Integração do rio São Francisco, com Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional do Brasil. 

Explicando essa “sopa” de siglas: falamos aqui do popular Projeto de Transposição das Águas do rio São Francisco, cujo principal objetivo é permitir o bombeamento de parte das águas do Velho Chico em direção a regiões do interior de Pernambuco e também para o Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.  

Esse importante sistema é divido em dois grandes Eixos – o Norte e o Leste, onde estão sendo construídos cerca de 700 km de canais e túneis, além de estações de bombeamento, sistemas de tubulações e represas. Todo esse conjunto de obras tem como objetivo principal proporcionar a segurança hídrica de 12 milhões de pessoas nos Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Existem iniciativas para extensão da área de abrangência para os Estados de Sergipe e Piauí.

Como acontece com toda obra de grande porte, a construção desse grande sistema gera impactos ao meio ambiente e, dentro dos estudos realizados , foram estabelecidos diversos programas de mitigação e controle desses impactos. É aqui que entra em cena o NEMA. 

A UNIVASF foi criada em 2002 e tem seu campus principal na cidade pernambucana de Petrolina, contando ainda dois campi auxiliares, um na cidade de Juazeiro, na Bahia, e outro em São Raimundo Nonato, no Piauí. A missão dessa instituição é levar ensino superior de qualidade para as populações da região do Semiárido Nordestino, onde desenvolve importantes pesquisas nesse bioma. 

mais recente trabalho desenvolvido pelo NEMA foi plantio de mais de 44 mil mudas de espécies típicas do semiárido em áreas do entorno do Ramal do Agreste. Esse trabalho faz parte do desenvolvimento de modelos de nucleação e preservação ambiental da Caatinga. 

O Ramal do Agreste fica localizado no interior de Pernambuco e tem cerca de 70 km de extensão. O sistema conta com dois grandes reservatórios – Ipojuca e Negros, além de canais, aquedutos-sifões, túneis e estações de bombeamento. De acordo com informações do MDR – Ministério do Desenvolvimento Regional, esse sistema adutor atenderá cerca de 2,2 milhões de moradores em 71 municípios da região. 

Além do plantio das mudas, as equipes do NEMA realizaram a semeadura de 3,6 toneladas de sementes em uma área total de 518 hectares. Foram plantadas e semeadas 24 espécies nativas da Caatinga como a mata-pasto (Senna uniflora), juazeiro (Sarcomphalus joazeiro), maniçoba (Manihot carthagenensis), pinhão-bravo (Jatropha molissima) e falsa-menta (Rhaphiodon echinus).  

Entre as técnicas utilizadas pelos profissionais de campo destacam-se o plantio das mudas em ilhas, a semeadura direta, além da indução e condução de regeneração natural. Todos esses procedimentos buscam a maior aproximação possível com os processos de reprodução natural das plantas, buscando assim conseguir um melhor crescimento e uma maior taxa de sobrevivência das mudas e plantas germinadas. 

As equipes do NEMA já plantaram mais de 75 mil mudas de árvores e semearam cerca de 6 toneladas de sementes em perto de 800 hectares na área de influência do Ramal do Agreste desde 2016. Todas essas mudas possuem uma etiqueta de identificação a partir da qual é possível verificar a origem do lote, a identificação botânica, a região de origem, a idade da planta, além dos valores percentuais de germinação, floração e frutificação. 

O NEMA possui três viveiros de mudas: em Sertânia e Salgueiro, ambos no Estado de Pernambuco, e outro em Brejo Santo, no Ceará. Além da produção própria, a instituição também estimula a produção de mudas de espécies nativas por viveiros particulares da região. Através da Rede de Sementes do PISF é realizada a distribuição de sementes para viveiristas cadastrados. Desde o início dos trabalhos de plantio mais de 19 mil mudas produzidas por esses particulares já foram doadas para plantio em áreas de recuperação. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens anteriores, a região do Semiárido Nordestino vem sendo fortemente impactada desde o início da colonização brasileira. Toda a faixa Leste do litoral Nordestino passou a ser dedicada ao plantio intensivo da cana destinada a produção do açúcar, a mercadoria mais valiosa do comércio mundial naqueles tempos. 

Os constantes atritos entre os criadores de gado e os senhores dos engenhos resultou com a proibição de qualquer atividade pecuária a menos de 60 km da costa. Sem outra alternativa, os criadores conduziram suas boiadas para o interior, passando a ocupar áreas primeiro no Agreste e depois na Caatinga. O fogo foi usado impiedosamente contra a vegetação nativa do semiárido com vistas a criação de campos para a pastagem dos animais. 

Como não foram feitos estudos científicos sobre a região do semiárido antes dessa “diáspora bovina” (as primeiras expedições científicas organizadas na região datam do século XIX), não é possível determinar com exatidão o tamanho dessa devastação e seus impactos na flora e fauna local. 

As estimativas atuais indicam que perto de metade do bioma Caatinga já foi impactado por ações humanas e isso gera grandes impactos nos corpos hídricos da região, onde o rio São Francisco é o mais importante. Os diversos programas de recuperação de áreas degradadas já desenvolvidos pelo NEMA visam justamente iniciar um processo de reversão de toda essa devastação, o que se refletirá gradativamente num aumento do volume de caudais do rio São Francisco. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, todos os esforços de recuperação ambiental de bacia hidrográficas altamente degradas como a do rio São Francisco são extremamente tímidos quando confrontados com o tamanho da devastação. Porém, todos esses esforços são importantes e mostram um começo de caminhada rumo a resultados cada vez mais significativos. 

Nossos sinceros parabéns a todos os pesquisadores e equipes do NEMA. 

O PROJETO DE REVITALIZAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO URUCUIA 

No último dia 17 de setembro, na cidade de Arinos em Minas Gerais, foi lançado em cerimônia oficial o Projeto Pró-Águas Urucuia. Essa iniciativa faz parte do Programa Águas Brasileiras, sobre o qual falamos em uma postagem anterior, e objetiva atender um total de 14 cidades nos Estados de Goiás e Minas Gerais. 

De acordo com as informações divulgadas, o Projeto Pró-Urucuia vai receber investimentos de R$ 105 milhões e terá um prazo de execução de 5 anos. A meta do Projeto é o plantio de 4,5 milhões de mudas de árvores nativas do bioma Cerrado em áreas degradadas da bacia hidrográfica

O rio Urucuia tem aproximadamente 400 km de extensão e é um dos principais afluentes da margem esquerda do rio São Francisco. O nome tem origem indígena e significa algo como água vermelha. Uma provável explicação é o fato das águas do rio, que normalmente são limpas, ficarem avermelhadas pelo carreamento de argila nos meses de chuva. 

As nascentes do rio Urucuia ficam numa localidade conhecida como Raizama ou Lagoa dos Morões em Goiás, entrando logo depois no território mineiro a altura do município de Buritis. A bacia hidrográfica do rio Urucuia ganhou fama nacional e mundial a partir da obra de Guimarães Rosa – a região é cenário, entre outras, da obra Grande Sertão: Veredas. 

A bacia hidrográfica do rio Urucuia, da mesma forma que ocorre com a maioria dos tributários do rio São Francisco, vem sofrendo com o intenso processo de devastação da cobertura florestal no Cerrado diante do avanço das frentes agrícolas. Como já comentamos em outras postagens, as raízes da vegetação nativa do Cerrado são fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos de água. 

Os sistemas radiculares (ou as raízes) da vegetação nativa do Cerrado são gigantescos quando comparados ao de árvores de outros biomas. Isso foi uma adaptação evolutiva às características dos solos da região que apresentam reservas subterrâneas de água muito profundas. Quando essa vegetação nativa é cortada e substituída por campos de soja, de milho ou pastagens, o processo de recarga dos aquíferos deixa de funcionar – essas plantas tem raízes muito curtas e as águas das chuvas não conseguem infiltrar adequadamente nos solos. 

A devastação ambiental no Cerrado, e também em áreas da Caatinga Nordestina, se reflete diretamente na redução dos caudais de uma infinidade de rios tributários do rio São Francisco, que definha a olhos vistos. Quando a foz do rio foi avistada pela primeira vez em 1501, os tripulantes da expedição exploratória portuguesa comandada por América Vespúcio observaram que as águas doces do rio São Francisco chegavam a 4 km da costa, tamanha a força dos seus caudais. 

Hoje, a mesma foz do rio sofre com a forte intrusão de águas do Oceano Atlântico, que transformaram a maior parte do baixo curso do rio em um mar de águas salobras. Isso é o resultado de séculos de degradação ambiental em toda a sua bacia hidrográfica. 

O rio São Francisco nasce nas encostas da Serra da Canastra, na região Leste de Minas e segue por mais de 2.800 km até encontrar sua foz no Oceano Atlântico na divisa dos Estados de Sergipe e Alagoas. Ao longo desse grande percurso o rio recebe contribuições de um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda, com destaque para alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitai, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia

No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Recentemente, com o início da operação de alguns ramais do Sistema de Transposição do rio São Francisco, essas águas também estão chegando ao Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. 

E aqui vem uma informação chave para entender a importância do projeto de revitalização do rio Urucuia: apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de toda as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. Muitos desses rios, como é o caso do Urucuia, tem suas nascentes no Planalto Central em Goiás, Tocantins e Distrito Federal. 

Quem leu a nossa última postagem vai se lembrar que na Fazenda Bulcão, que ocupa uma área de 709 hectares no município de Aimorés no Leste de Minas Gerais, um projeto de recuperação ambiental encabeçado pelo fotógrafo Sebastião Salgado já plantou cerca de 2 milhões de mudas de árvores. 

Em termos comparativos, falar de se plantar 4,5 milhões de mudas de árvores na bacia hidrográfica do rio Urucuia parece ser insignificante, o que é a mais pura verdade. Porém, conforme comentamos em postagem anterior, a iniciativa merece aplausos, especialmente pelo fato de combinar esforços dos Governos Federal, Estadual e municipal, além de contar com a participação da iniciativa privada. 

Sem qualquer tipo de coloração partidária ou preferência por esse ou aquele político, essa é uma iniciativa que precisa ser copiada e multiplicada. Cada árvore plantada vai significar alguns litros de água a mais nos rios da bacia hidrográfica. Quanto mais árvores forem plantadas, mais água os rios terão para nos oferecer. 

Em tempos de forte seca – aliás, vivemos a maior estiagem no Brasil Central nos últimos 91 anos, e de sérios riscos para a geração de energia elétrica no país, iniciativas como a desse projeto são muito bem-vindas. Então, “vida longa e próspera” ao rio Urucuia. 

A RECUPERACÃO AMBIENTAL DA FAZENDA BULCÃO EM AIMORÉS, MINAS GERAIS – UM ESTUDO DE CASO 

Na postagem anterior falamos brevemente do Programa Águas Brasileiras, uma iniciativa que envolve vários Ministérios do Governo Federal, Estados, municípios e também empresas da iniciativa privada. A principal meta é a “ampliação da quantidade e a qualidade da água disponível para consumo e para o setor produtivo, de forma a fomentar o desenvolvimento regional e garantir mais qualidade de vida para a população”. 

A degradação de muitas bacias hidrográficas brasileiras já atingiu um nível crítico e alguma coisa precisava ser feita. Um exemplo que foi citado é a do rio São Francisco, o nosso Velho Chico. Apesar de não formar a maior bacia hidrográfica do Brasil, o São Francisco atravessa grandes extensões do Semiárido Nordestino, a região com a menor disponibilidade de água no país. 

Apesar de muito elogiável, essa iniciativa, a meu ver, é muito tímida para o tamanho do problema. Faço votos que os projetos cresçam cada vez mais e que volumes cada vez maiores de recursos financeiros cheguem ao seu destino final e que se transformem em matas recuperadas. 

A recuperação ambiental de bacias hidrográficas, felizmente, não depende exclusivamente de grandes projetos e vultosos orçamentos públicos. Em minha carreira profissional em empresas do ramo da construção civil, trabalhei em grandes projetos de saneamento ambiental – desgraçadamente, pude acompanhar (de longe) inúmeras situações irregulares de desvio de recursos públicos. 

Pequenas iniciativas levadas a cabo por cidadãos comuns também podem atingir resultados esplendidos. Vou citar o caso da Fazenda Bulcão, na cidade de Aimorés no Leste de Minas Gerais. O dono dessa fazenda é ninguém menos que Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do mundo. Há um bom tempo atrás publiquei uma postagem sobre Serra Pelada e a foto antológica que usei para ilustrar o texto é de autoria de Salgado. 

O município de Aimorés fica as margens do rio Doce, exatamente na divisa entre os Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. Muito antes da grande tragédia ambiental provocada pelo rompimento da barragem de rejeito da mineração se romper e destruir o rio Doce, Aimorés já acumulava um enorme passivo ambiental. 

Originalmente, toda a faixa Leste de Minas Gerais era coberta por uma densa floresta, a Mata Atlântica. Aliás, essa região é conhecida com Zona da Mata. O território onde se encontra hoje o Estado de Minas Gerais tinha perto de 47% de sua superfície coberta com vegetação de Mata Atlântica, o equivale a mais de 282 mil km² de matas do bioma. Em pouco mais de três séculos e depois de vários ciclos econômicos, a Mata Atlântica hoje está restrita a 10,2% da superfície do território mineiro, ocupando pouco mais de 50 mil km². 

Sebastião Salgado nasceu na Fazenda Bulcão e lá viveu até os 15 anos de idade. A propriedade de seus tempos de infância tinha uma área de 709 hectares e contava com metade de sua superfície coberta por matas. Enquanto esteve morando em outras cidades e países, a cobertura vegetal da fazenda foi sendo gradativamente reduzida até atingir a triste marca de apenas 0,5% de matas no final da década de 1990. 

Em 1988, Salgado e sua esposa, Leila Warnick, decidiram morar na Fazenda Bulcão. Sebastião Salgado havia feito um grande trabalho de cobertura fotográfica da crise humanitária em Ruanda pouco tempo antes, onde pode testemunhar as sangrentas lutas que levaram perto de 800 mil pessoas a morte. Doente e traumatizado pela experiência, ele buscava um refúgio mais tranquilo para viver e se recuperar. 

Além da destruição da fauna e da flora, a enorme degradação ambiental que havia se abatido sobre a antiga fazenda destruiu inúmeras nascentes que brotavam das encostas dos morros e que garantiam o abastecimento da propriedade. Foi então que Salgado decidiu recuperar a antiga cobertura vegetal da propriedade e, ainda em 1998, ele e a esposa criaram o Instituto Terra. 

Uma das primeiras providencias foi a de transformar a Fazenda Bulcão em uma RPPN – Reservas Particular do Patrimônio Natural, um procedimento que possibilita a isenção do ITR – Imposto Territorial Rural, e garante a propriedade da terra. Porém, existe o compromisso de os proprietários realizarem a recuperação ambiental da propriedade. 

O começo dos trabalhos de recuperação da antiga mata nativa não foi nada fácil – Sebastião Salgado comentou em entrevistas que todas as mudas que foram doadas pela empresa Vale do Rio Doce e que foram plantadas na fazenda morreram. No segundo ano de reflorestamento, as coisas melhoram um pouco – 20% das mudas sobreviveram. No terceiro ano, as mudas que vingaram representavam metade de tudo o que foi plantado. 

A persistência de Sebastião Salgado e de sua equipe ao longo de mais de 20 anos trouxe ótimos resultados – a Fazenda Bulcão hoje está totalmente reflorestada, com cerca de 2 milhões de árvores nativas da Mata Atlântica. Esse é o maior projeto de recuperação da Mata Atlântica em uma área contínua em todo o país

De acordo com os estudos feitos pela equipe do Instituto Terra, a floresta da Fazenda Bulcão abriga 172 espécies de aves, sendo que 6 dessas estão ameaçadas de extinção; 33 espécies de mamíferos, sendo que 2 delas estão em risco de extinção no mundo e 3 em risco no Brasil. Também entram nessa lista 15 espécies de anfíbios e outras 15 de répteis. A fazenda é destaque como habitat de espécies que estão no topo da cadeia alimentar como as jaguatiricas

Além da restauração da fauna e da flora, todo esse trabalho de recuperação ambiental fez diversas nascentes de água voltarem a vida. Conforme já comentamos em postagens anteriores, a presença da vegetação é fundamental para a infiltração da água das chuvas nos solos, o que recarrega lençóis subterrâneos de água e aquíferos. Com os “tanques cheios”, a terra faz a água brotar dos solos em abundancia – simples assim. 

Ao longo de mais de 20 anos, o Instituo Terra já produziu mais de 4,5 milhões de mudas de espécies da Mata Atlântica, além de manter um laboratório de sementes que reúne informações sobre todos os processos de produção de mudas florestais. O Instituto já desenvolveu mais de 700 projetos educacionais que atingiram um público de mais de 70 mil pessoas. 

A bacia hidrográfica do rio Doce abrange uma área total de 86 mil km² nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, englobando 250 municípios e onde vivem 3,5 milhões de pessoas. Cerca de 98% desse território fica dentro dos antigos domínios da Mata Atlântica. Com a devastação da maior parte da floresta, os caudais dos rios da bacia hidrográfica caíram drasticamente. 

De acordo com estudos científicos, a bacia hidrográfica do rio Doce possui aproximadamente 375 mil nascentes – segundo o Instituto Terra, pelo menos 350 mil dessas nascentes precisam de trabalhos de recuperação da cobertura florestal para continuar a produção de água. Isso é uma tarefa hercúlea. 

Que o maravilhoso exemplo de Sebastião Salgado e Leila Warnick possam ser seguidos por muito mais gente e que ótimos exemplo de recuperação ambiental como o da Fazenda Bulcão sejam replicados por todos os cantos.