OS CAMINHOS DA ENERGIA FOTOVOLTAICA NO BRASIL

Vivemos em um planeta movido a partir da energia do Sol. 

Muito antes da invenção dos painéis que transformam a energia do sol em eletricidade, muito antes do surgimento da espécie humana e de todas as formas de vida que conhecemos, aliás, muito antes da própria formação do planeta Terra, o Sol já era a mais poderosa fonte de energia aqui nessa nossa região do Cosmos. 

Segundo uma das teorias científicas mais conhecidas em nossos dias, o universo se formou a partir de uma poderosa explosão conhecida como o Big Ben. Estima-se que essa explosão ocorreu há cerca de 14 bilhões de anos atrás e que ela foi a responsável pela geração de toda a matéria que formou as estrelas, planetas e demais atros do universo cósmico. 

Há cerca de 4,57 bilhões de anos, uma grande massa de matéria, conhecida como nuvem molecular, sofreu um colapso gravitacional. A maior parte dessa matéria ficou no centro da nuvem e formou o Sol. Depois, foi a força gravitacional do Sol que atuou na formação dos planetas, luas, asteroides e demais corpos celestes que formam o nosso Sistema Solar. 

A poderosa energia do Sol manteve o núcleo metálico da Terra em estado liquefeito, com intensa atividade geotérmica, modelando cada vez mais intensamente a superfície do planeta e consolidando cada vez mais os espaços dos oceanos e continentes. O forte campo magnético terrestre produzido pela energia do núcleo metálico do planeta permitiu a retenção de grandes volumes de água e dos gases formadores da atmosfera ao redor do planeta. Marte, nosso vizinho sideral dos mais próximos, não possui um campo magnético como o terrestre e, por causa disso, não conseguiu reter águas na sua superfície e grandes quantidades de gases na sua atmosfera. 

A força do Sol combinada com a atmosfera modelou o clima – as chuvas, o gelo, as marés e os ventos esculpiram o planeta Terra. O lento passar do tempo e toda uma combinação elementos criaram um planeta azul, com dois terços de sua superfície coberta por água e repleto de vida – Terra, o planeta das águas!

Essa rápida introdução resume bilhões de anos da história de nosso planeta, um corpo celeste que ainda depende totalmente da energia do Sol. O ciclo das chuvas, a estabilidade do clima, a energia que faz crescer as plantas e que sustenta toda a base da cadeia alimentar da vida na superfície do planeta – incluindo-se aqui as águas dos oceanos. Sim, nosso planeta é movido pela energia solar. Já o uso da energia solar para a geração de energia elétrica, esse é bem mais recente. 

O efeito fotovoltaico foi observado pela primeira vez em 1839, quando o físico francês Alexandre Becquerel fazia experimentos de paramagnetismo com o oxigênio líquido. A partir daí, Becquerel desenvolveu vários experimentos eletroquímicos e percebeu que a exposição à luz de eletrodos de platina e de prata dava origem ao efeito fotovoltaico. Esse efeito corresponde à geração de tensão e/ou corrente elétrica em um material após a sua exposição a luz. 

Em 1877, Wiliam Grylls Adams, um professor de filosofia natural do King’s College de Londres, junto com seu aluno Richard Day, desenvolveram a primeira placa fotovoltaica sólida. Eles aplicaram um filme de selênio sobre um substrato de ferro, onde um fino filme de ouro servia como contato elétrico. Esse painel apresentava uma eficiência de conversão de energia de aproximadamente 0,5%.  

Daqueles tempos pioneiros até os nossos dias, novos materiais passaram a ser desenvolvidos e a eficiência dos painéis fotovoltaicos é cada vez maior, com custos de produção cada vez mais baixos. As grandes estrelas do momento são as pesquisas com painéis construídos com grafeno, que possuem eficiência energética de 42% – os melhores painéis solares atualmente no mercado têm uma eficiência da ordem de 16%

Um dos grandes trunfos dos sistemas de energia solar ou fotovoltaica é a sua simplicidade de operação. Um conjunto de placas fotovoltaicas pode ser facilmente montado sobre o telhado de uma casa ou fábrica, convertendo a energia do sol em eletricidade. Essa energia pode ser armazenada em baterias ou pode ser injetada imediatamente na rede elétrica (após passar por circuitos retificadores), alimentando diretamente os equipamentos elétricos. Andando pelas ruas e avenidas de uma cidade qualquer, está sendo cada vez mais comum encontrarmos painéis fotovoltaicos instalados sobre os telhados. 

De acordo com dados da ABSOLAR – Associação Brasileira de Energia Solar, a geração de energia elétrica a partir de painéis fotovoltaicos no Brasil atingiu a marca de 7,5 GW em 2020, o que equivale à metade da capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Itaipu. De acordo com essa Associação, o preço das placas solares e dos demais equipamentos caiu cerca de 90% nos últimos 10 anos, o que vem incentivando cada vez mais o crescimento do setor. 

De acordo com estimativas do setor, as empresas de geração solar empregam mais de 130 mil profissionais no Brasil e faturam cerca de R$ 21 bilhões ao ano. No mundo, as empresas desse setor empregam mais de 3,5 milhões de profissionais, o que corresponde a um terço dos empregos gerados pelas energias renováveis. Existem atualmente no Brasil cerca de 350 mil pequenos sistemas de geração fotovoltaica instalados em telhados de residências, pequenas empresas e terrenos, além de 3.900 sistemas de geração centralizada, que geram a eletricidade em um local e enviam a energia para consumo em outros locais através de linhas de transmissão

Também já existem diversos Parques Solares em operação aqui no Brasil, que são grandes centrais de geração de energia fotovoltaica. Veja uma lista com alguns deles: 

Parque Solar São Gonçalo – Piauí: Localizado no município de São Gonçalo do Gurguéia. Inaugurado em 2020, é o maior empreendimento do tipo no Brasil, com uma capacidade de geração de energia de 1,5 GW; 

Parque Solar de Nova Olinda – Piauí: Localizado em Ribeira do Piauí. Esse Parque possui 930 mil painéis solares instalados e ocupa uma área total de 690 hectares. Possui uma capacidade de geração de energia de 292 MW, o que é suficiente para abastecer 300 mil residências; 

Parque Solar Ituverava – Bahia: Em operação desde 2017, fica localizado em Tabocas do Brejo Velho. Possui 850 mil painéis solares em uma área de 579 hectares. A capacidade de geração é de 158 MW, o suficiente para abastecer 166 mil residências; 

Parque Solar de Bom Jesus da Lapa – Bahia: Em operação desde 2017, tem uma capacidade de geração de energia de 158 MW, o suficiente para abastecer 166 mil residências; 

Parque Solar Horizonte – Bahia: Também localizado no município de Tabocas do Brejo Velho. Possui uma capacidade instalada de 103 MW e capacidade para abastecer 108 mil residências. O parque está sendo expandido, com expectativa de atingir a marca de 220 MW. 

Um outro destaque importante é o projeto piloto do Parque Solar flutuante do Lago da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, que foi inaugurado em agosto de 2019. Contando inicialmente com 3.792 painéis fotovoltaicos e com uma capacidade instalada de 1 MW, essa iniciativa abre uma nova perspectiva para o aumento da produção de energia elétrica nas usinas hidrelétricas já existentes no país, sem que haja a necessidade de se aumentar as áreas de águas represadas.  

Conforme comentamos na postagem anterior, a geração de energia elétrica através de usinas hidrelétricas é renovável e limpa. Porém, a construção dos grandes reservatórios causa enormes impactos ao meio ambiente, prejuízos para a produção agropecuária, além de forçar o deslocamento compulsório das populações que vivem nas áreas que serão alagadas. A produção da energia também fica dependente de ciclos regulares de chuvas nas áreas dos reservatórios. 

Uma das referências mundiais na geração de energia fotovoltaica é a Alemanha. Desde o ano 2000, o Governo do país vem concedendo pesados subsídios para o estímulo da instalação de sistemas fotovoltaicos como uma forma de reduzir a dependência da eletricidade gerada em usinas termelétricas a carvão. Graças a todos esses estímulos, a capacidade de geração fotovoltaica do país já supera a marca dos 40 GWGraças a sua localização geográfica na faixa tropical do planeta, o Brasil possui uma insolação cerca de 3 vezes maior que a da Alemanha, além de possuir um território 23 vezes maior. Imaginem o potencial para o crescimento desse tipo de geração de energia aqui no nosso país. 

Encerro com uma notícia interessante: Uma grande fabricante brasileira de materiais para a construção conseguiu recentemente a liberação pelo INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, para vender um novo modelo de telha que já vem com células fotovoltaicas incorporadas. Olhem o tamanho da revolução que vem por aí…

O CRESCIMENTO DA GERAÇÃO DE ELETRICIDADE POR FONTES EÓLICAS NO BRASIL, OU O MILAGRE DOS VENTOS

Para um cidadão médio de países da Europa ou dos Estados Unidos, Canadá e Japão, qualquer referência ao Brasil remeterá quase que automaticamente a comentários sobre carnaval, futebol ou as queimadas na Amazônia. O fato de nosso país possuir o quinto maior território do mundo, figurar entre as dez mais importantes economias do mundo e se destacar em áreas tão diversas como a agricultura e a engenharia aeroespacial, isso não terá a menor relevância nessas conversas. 

Entre os muitos “detalhes” desconhecidos dos estrangeiros existe um de importância ímpar nesses nossos tempos do “politicamente correto”: a matriz energética do Brasil é a mais limpa e renovável do mundo. Até bem pouco tempo atrás, cerca de 90% de toda a eletricidade gerada em nosso país vinha de fontes hidráulicas. Essa participação vem diminuindo gradativamente nos últimos anos devido ao crescimento significativo da geração de eletricidade a partir de outras fontes renováveis como as eólicas e fotovoltaicas. 

Nas últimas postagens falamos da ocorrência do fenômeno climático La Niña e dos problemas de falta de chuvas em algumas regiões brasileiros, principalmente em áreas do Centro-Oeste e do Sudeste. Essas regiões concentram grandes usinas hidrelétricas, que juntas respondem por cerca de 70% da geração do país. Com o baixo nível dos reservatórios, existem preocupações sobre uma possível falta de energia elétrica nos próximos meses. 

Contando com cerca de 12% de toda a água doce superficial do planeta, o Brasil pode se dar ao luxo de construir grandes complexos hidrelétricos. Além da Usina Hidrelétrica de Itaipu, construída no rio Paraná na divisa com o Paraguai, podemos destacar outros empreendimentos de grande porte como as Usinas de Belo Monte e Tucuruí, no Estado do Pará, e também a Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia. 

Apesar de serem consideradas fontes de geração de energia limpa e renovável, as hidrelétricas ficam sujeitas aos humores do clima e da dependência de chuvas regulares. Qualquer evento de seca prolongada em alguma das regiões brasileiras e a consequente redução do nível dos reservatórios das usinas cria imediatamente preocupações entre as autoridades do setor. É justamente por isso que a consolidação de outras fontes de energia renováveis é tão importante. 

A produção de eletricidade a partir de geradores eólicos vem crescendo contínua e discretamente aqui no Brasil, representando atualmente mais de 10% de toda a geração elétrica do país. De acordo com informações da ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica, a capacidade instalada do setor em setembro de 2020, era de 16,68 GW, com expectativa de chegar a 25,5 GW até 2024. Há época eram 653 parques eólicos e 7.920 aerogeradores em operação

Para que vocês tenham ideia real do que isso significa: a Usina Hidrelétrica de Itaipu, o maior empreendimento do tipo no Brasil e o segundo maior do mundo atrás da Usina Hidrelétrica das Três Gargantas da China, tem uma capacidade instalada de 14 GW. No atual ritmo de crescimento, bastarão pouco mais de 5 anos para que a geração eólica acrescente o potencial instalado equivalente de mais uma hidrelétrica de Itaipu à matriz energética do país. 

A história da geração eólica no Brasil tem suas raízes na grave crise energética que assolou o país entre os anos de 2001 e 2002, conhecido popularmente como “Apagão”. Naquele momento, o país enfrentou um fortíssimo ciclo de secas, que tiveram como resultado uma forte redução do nível dos reservatórios das principais usinas hidrelétricas do país. Sem contar com fontes alternativas, o país foi obrigado a enfrentar um vigoroso racionamento de energia elétrica, onde o objetivo foi uma redução de 20% no consumo de energia elétrica. 

De acordo com estimativas feias pelo TCU – Tribunal de Contas da União, o “Apagão” gerou prejuízos da ordem de RS 45,2 bilhões aos cofres públicos do país. A crise também escancarou a desorganização e a falta de planejamento do nosso setor elétrico. Para ajudar a prevenir futuras crises, o Governo Federal criou há época uma série de estímulos para o desenvolvimento de novas fontes de energia renovável no país. 

No início de 2004, a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, criou o PROINFA – Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica. Esse Programa contratou o equivalente a 1,4 GW de energia eólica, uma geração que há época era cerca de 5 vezes mais cara que as fontes hidrelétricas. Uma das principais exigências feitas pelo BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, para o financiamento dos projetos era um índice de nacionalização dos equipamentos da ordem de 60%

Apesar do alto custo inicial, essa medida foi fundamental para o desenvolvimento do setor no Brasil. Foram criadas várias empresas especializadas na fabricação dos aerogeradores aqui no país, o que rapidamente levou a uma grande absorção de know-how e ao barateamento sistemático dos projetos. A partir de 2013, o índice de nacionalização exigido passou de 60% para 80%. A partir de 2017, a geração eólica passou a ser mais barata que a geração hidrelétrica aqui no Brasil. 

De acordo com os especialistas do setor, o território do Brasil é um dos melhores do mundo para a instalação de parques eólicos, sobretudo na Região Nordeste. Muitos dos terrenos onde são instalados os aerogeradores pertencem a pequenos agricultores, que arrendam as áreas por prazos de até 20 anos em troca do recebimento de um aluguel. Essa nova fonte de receita tem sido fundamental para a melhoria do padrão de renda de muitas famílias nordestinas. 

Diferentemente das grandes centrais hidrelétricas do país, que ficam em regiões distantes dos grandes centros consumidores, os parques eólicos têm a vantagem de poderem ser implantados próximos de cidades, o que reduz enormemente os custos de construção de linhas de transmissão e as perdas de energia. Em 2019, o país já contava com 28,8 milhões de residências sendo abastecidas com a energia elétrica gerada por parques eólicos, especialmente na Região Nordeste. Graças a essa geração, perto de 23 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases causadores do efeito estufa, deixaram de ser lançadas na atmosfera. 

Apesar de todas as vantagens ambientais, a geração de energia eólica também tem seus problemas. Muita gente reclama da poluição visual criada pelos aerogeradores, principalmente em praias badaladas do litoral nordestino. Também existem estudos que mostram que o barulho gerado pela rotação das pás dos aerogeradores incomoda os animais da fauna silvestre e, muito pior, aves morrem ao se chocarem com esses dispositivos.  

Segundo um levantamento feito por grupos ambientalistas do Estado norte-americano da Califórnia, perto de 200 mil aves morrem em acidentes desse tipo a cada ano na região. Apesar de chocante, esse número está muito distante dos estragos causados pelos gatos domésticos, que matam cerca de 3,7 bilhões de aves nos Estados Unidos a cada ano. 

Apesar dessas polêmicas, a geração eólica tem enormes vantagens sobre as fontes hidrelétricas, a começar pela dispensa dos grandes reservatórios de água. Essas construções levam obrigatoriamente ao represamento de rios e ao alagamento de centenas de quilômetros quadrados de terras, muitas vezes cobertas por remanescentes florestais. Isso causa grandes prejuízos a atividades produtivas na agricultura e na pecuária, além de provocar o deslocamento de populações que vivem nessas áreas.  

Outra fonte de problemas das usinas hidrelétricas são as grandes linhas de transmissão de energia elétrica, muitas delas com centenas de quilômetros de comprimento, cuja construção obriga o desmatamento de extensas faixas de matas por todo o país. 

Que soprem então os bons ventos… 

OS “RIOS VOADORES DA AMAZÔNIA” E AS TORNEIRAS DOS PAULISTANOS

Na tarde do dia 18 de agosto de 2019, nós paulistanos fomos surpreendidos por um “fenômeno” climático novo: por volta das 15h00, o céu da cidade começou a escurecer rapidamente e, menos de uma hora depois, todas as luzes das ruas e dos faróis dos veículos já estavam acesas. À primeira vista, parecia que uma violenta tempestade estava prestes a cair sobre a cidade. Mas o que veio a seguir foi algo inédito – uma chuva escura, com água na cor de chá mate. 

Foi somente no dia seguinte que explicações mais plausíveis começaram a surgir – os meteorologistas concluíram que grandes volumes de fumaça das queimadas que ocorriam naquele momento em grandes áreas da Amazônia Ocidental, principalmente no Acre e na Bolívia, foram carregadas pelas fortes correntes de vento na direção da Região Metropolitana de São Paulo. A fuligem e as cinzas dessa fumaça se misturaram às nuvens e teve início a “chuva negra” daquela tarde. 

Esse evento inédito (pelo menos nessa escala) foi um verdadeiro divisor de águas nas “narrativas” sobre a destruição da Amazônia. Políticos oportunistas como Emmanuel Macron, Presidente da França, iniciaram uma série de discursos falando sobre a destruição da “Nossa Amazônia”. Celebridades e famosos de todos os quilates embarcaram nessa canoa e também passaram a divulgar fotos das queimadas na floresta (mesmo que não fossem exatamente fotos de queimadas na Amazônia). Foi um verdadeiro circo. 

A ligação direta entre as queimadas na Amazônia e a “chuva negra” em São Paulo naquela tarde demonstrou a íntima relação que existe entre as duas regiões. Falo aqui dos “rios voadores da Amazônia”, fundamentais para a formação das chuvas em uma extensa faixa do território brasileiro, em especial nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. São grandes massas de umidade que surgem a partir da evapotranspiração da floresta e que são arrastadas ao longo de milhares de quilômetros, indo provocar chuvas em locais muito distantes da Amazônia

Como todos devem saber, a maior parte da água das chuvas tem como origem a evaporação de imensas quantidades de água nos oceanos. De acordo com algumas estimativas científicas, cerca de 383 mil km³ de água evaporam dos oceanos a cada ano. Esse volume equivale a uma camada de 106 cm da água de todos os oceanos e mares do mundo. Toda essa água evaporada se precipita na forma de chuva, neve, granizo, água congelada, orvalho, entre outras – 75% dessas precipitações ocorrem sobre os oceanos e os 25% restantes sobre os continentes

Uma parte das águas continentais também acaba se perdendo para a atmosfera. Uma parte da águas que está presente nos solos se perde por evaporação e as plantas perdem água através da transpiração. A junção desses dois processos forma a chamada evapotranspiração. Em uma região gigantesca como a Floresta Amazônica, os volumes de água que são lançados de volta a atmosfera através da evapotranspiração são fabulosos e formam os chamados “rios voadores da Amazônia”. 

Esse “rios” carregam grandes massas de umidade, que são espalhadas pelo território brasileiro pela força dos ventos e passam “voando” sobre nossas cabeças sem que nos demos conta. Grandes massas de ar frio vindas do Sul do continente ou da Cordilheira dos Andes se chocam com esse vapor quente, dando início as providenciais chuvas que irrigam nossos campos, transbordam em nossos rios e garantem a sobrevivência de plantas, animais e seres humanos em todos os cantos. 

A grande massa de vegetação da Floresta Amazônica gera uma imensa área de baixa pressão atmosférica, que por sua vez “puxa” uma grande parte da água evaporada no Oceano Atlântico Sul para o interior do nosso continente. A maior parte dessa água é precipitada sobre a floresta na forma de chuva. Num segundo momento, a evapotranspiração da Floresta Amazônica devolve uma grande parte dessa água para a atmosfera na forma de vapor, que primeiro é arrastada no sentido Oeste em direção da Cordilheira dos Andes. 

Com uma altura média de 4 mil metros, a Cordilheira dos Andes forma uma barreira natural que desvia essas massas de umidade em direção ao Sul do continente. Fortes correntes de vento entram em cena e arrastam essa umidade por todo o Centro-Sul do país. Uma parte da umidade vai ser precipitada na forma de neve e chuvas nas encostas da Cordilheira dos Andes, passando a alimentar as nascentes de muitos rios da Bacia Amazônica. Essa verdadeira “bomba d’água” amazônica vem funcionando de maneira interrupta há dezenas de milhões de anos. 

Uma região brasileira que merece destaque por estar justamente no caminho dos “rios voadores” é o Centro-Oeste, transformado nas últimas décadas em um dos mais importantes celeiros agrícolas do mundo. As grandes massas de umidade geradas pela evapotranspiração da Floresta Amazônica trazem as preciosas chuvas que irrigam as terras e faz a produção de grãos dessa região crescer sem parar. As chuvas também permitem o crescimento das extensas pastagens onde dezenas de milhões de cabeças de gado se alimentam. Ou seja – todos os negócios agropecuários são dependentes da Floresta Amazônica!

Essa observação é fundamental aqui – os grandes produtores rurais brasileiros estão sendo acusados sistematicamente pela grande mídia internacional de serem os grandes algozes da destruição da Floresta Amazônica. Fala-se incessantemente que grandes extensões da floresta estão sendo derrubadas e queimadas para permitir o plantio de grandes campos de soja e formação de pastagens para a criação de gado. Existem sim muitos problemas e todos sabemos que alguns fazendeiros gananciosos e muitos pequenos sitiantes imprudentes acabam sendo os responsáveis pelo início de grandes incêndios nas matas. Entretanto, a maior parte dos produtores rurais, especialmente as novas gerações que estão assumindo os negócios das famílias, tem plena consciência da importância da preservação da Floresta Amazônica.

Por maiores problemas que possam existir entre a agropecuária e as florestas, os “rios voadores” demonstram claramente que existe uma perfeita simbiose entre a Floresta Amazônica e os demais biomas brasileiros. Caso a Amazônia venha a ser destruída como muitos profetizam em todo o mundo, esses “rios voadores” irão, literalmente desaparecer, levando junto com eles as chuvas que nutrem os campos de grande parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Ou seja: “matar” a Amazônia provocaria a morte da maior parte dos negócios agropecuários do Brasil – todos sairemos perdendo. Muito além de ser um verdadeiro fetiche para políticos, artistas e ambientalistas estrangeiros, a preservação da Floresta Amazônica é fundamental para nós brasileiros, especialmente aqueles que vivem do agronegócio.

E não é só isso – parte substancial da água usada no abastecimento de grande parte da nossa população depende das chuvas formadas a partir da água trazida por esses “rios voadores”. Um desses casos é a Região Metropolitana de São Paulo, que tem no Sistema Cantareira o seu principal manancial de abastecimento. Na última postagem falamos da situação preocupante do Cantareira, onde a ocorrência de chuvas vem diminuindo ano após ano.  

Uma das principais causas apontadas por especialistas para a redução das chuvas nessa região são justamente os desmatamentos na Amazônia e a redução dos volumes de água carregados pelos “rios voadores”. Ou seja – as torneiras dos paulistanos, e de moradores de muitas outras grandes cidades brasileiras, correm o risco de ficar secas por causa de desmatamentos e queimadas na Floresta Amazônica, que está a 2 mil ou 3 mil km de distância de suas casas. 

Encerro com algo para todos pensarem na cama: parodiando um ditado muito conhecido sobre a famosa cidade norte-americana de Las Vegas, nem tudo o que acontece na Amazônia fica na Amazônia… 

AS NOVAS AMEAÇAS AO SISTEMA CANTAREIRA

Nessas últimas semanas, a Região Metropolitana de São Paulo vem sendo assolada por fortíssimas tempestades de verão. Como é de praxe, devido à falta de uma infraestrutura adequada para a drenagem das águas pluviais, diversas regiões das cidades da mancha metropolitana enfrentaram grandes enchentes e enormes transtornos. Chega verão, sai verão, e as coisas não mudam. 

Enquanto isso, na região onde ficam os rios que formam o Sistema Cantareira, o mais importante manancial de abastecimento de água dessa grande região, as chuvas estão abaixo da média. Nós podemos creditar parte da culpa desses eventos à “nossa” amiga La Niña

De acordo com informações da Sabesp – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, o nível do Sistema Cantareira hoje, dia 8 de fevereiro, está em 44,8% da sua capacidade máxima. No último mês de dezembro, porém, o Sistema chegou a operar em 34% da sua capacidade, o mais baixo nível desde a grande crise hídrica que assolou os paulistanos entre os anos de 2014 e 2015. As lembranças traumáticas daqueles meses de “racionamento branco” nas Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas ainda estão muito vivas na memória das populações. 

As preocupações com o Sistema Cantareira ficam ainda maiores quando observamos os dados pluviométricos da região onde ficam as nascentes dos seus principais rios formadores: desde 2019, o volume de chuvas está 20% abaixo das médias históricas. E como “gato escaldado tem medo de água fria”, luzes de alerta e de muita preocupação não param de “piscar” na cabeça de muita gente. 

O Sistema Cantareira foi idealizado no início da década de 1960, quando as autoridades concluíram que a Região Metropolitana de São Paulo necessitava de um maior volume de água. Foram realizados diversos estudos técnicos visando encontrar novas fontes de abastecimento. Surgiram então dois projetos: o Sistema Cantareira, com produção de 33 m³/s de água a um custo orçado em US$ 1 bilhão em valores há época, e o Sistema do Juquiá, localizado no Vale do rio Ribeira de Iguape, com uma capacidade de produção de 70 m³/s de água a um custo de US$ 6 bilhões.  

Por razões econômicas e operacionais, a escolha recaiu sobre Sistema Cantareira. O projeto do Sistema do Juquiá foi engavetado, pois, além do alto custo de construção, implicaria em maiores gastos operacionais com os sistemas de bombeamento que trariam a água de uma distância de mais de 200 km e que teriam de vencer um desnível no relevo de mais de 800 metros. 

O Sistema Cantareira está localizado na Região Nordeste do Estado de São Paulo, encravado entre a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira, e que é conhecida pelo simpático nome de Região Entre Serras e Águas. O Sistema é formado cinco reservatórios: Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha, todos na Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba, além do reservatório Paiva Castro, que fica dentro da bacia hidrográfica do Alto Tietê. Além desses reservatórios principais, o Sistema possui um pequeno reservatório intermediário no alto da Serra da Cantareira – Águas Claras.  

O Sistema Cantareira foi projetado com as represas em altitudes diferentes em função da topografia da região. Graças a isso, o Sistema utiliza a força da gravidade para conduzir as águas desde as represas de Jaguari e Jacareí, na região de Bragança Paulista, passando para as represas de Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro. Um sistema de túneis conduz a água até Estação Elevatória Santa Inês, que bombeia as águas para o reservatório de Águas Claras na Serra da Cantareira. Entre as represas e as torneiras, essas águas chegam a percorrer até 160 km. 

A partir do reservatório de Águas Claras, a água é enviada para a Estação de Tratamento do Guaraú, na zona norte da cidade de São Paulo. Após o tratamento, a preciosa água chega aos lares, indústrias, escritórios e comércios de grande parte da Região Metropolitana. As águas que vertem das represas Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha também seguem na direção do rio Piracicaba, um dos principais mananciais de abastecimento da Região Metropolitana de Campinas. 

Antes da grande crise hídrica de 2014, era muito comum os reservatórios do Sistema Cantareira atingirem níveis entre 80% e 100% de sua capacidade máxima. Em vários anos, inclusive, os reservatórios “sangravam”, ou seja, os vertedouros das barragens deixavam passar as águas excedentes. Após a crise hídrica, o nível máximo dos reservatórios tem ficado em valores entre 60% e 70% da capacidade máxima

De acordo com informações dadas em entrevista pelo Professor Pedro Côrtes do Instituto de Energia e Ambiente da USP – Universidade de São Paulo, parte do problema se deve à redução do volume de chuvas na região dos mananciais que formam o Sistema Cantareira. Esse problema está ligado diretamente aos desmatamentos na região da Floresta Amazônica, região de origem dos chamados “rios voadores”, grandes nuvens de chuvas que atravessam o país e vem cair na Região Sudeste.  

Outra causa é o crescimento do consumo de água nas Regiões Metropolitanas, o que impede uma recuperação mais forte dos níveis dos reservatórios. Caso os reservatórios do Sistema Cantareira não consigam acumular volumes expressivos de água durante o período das chuvas, os níveis das represas cairão perigosamente durante o período da seca e apresentarão as mesmas imagens dramáticas da última grande crise hídrica. 

Felizmente, muitas providências foram tomadas desde aqueles tempos. A primeira delas foi a construção do sistema de transposição que permite o bombeamento de águas desde a represa do Jaguari, na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, na direção da Represa do Atibainha, que forma o Sistema Cantareira. Inaugurado em 2018, esse sistema segue as regras de compartilhamento das águas do rio Paraíba do Sul entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.  

Apesar da plena legalidade, sempre que se executam operações de retirada de água da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul para reforçar o Sistema Cantareira, outros usuários ficam preocupados – especialmente no Estado do Rio de Janeiro. Só para relembrar – cerca de 85% da água usada no abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de mais de 70% em cidades da Baixada Fluminense, vem da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. 

Também foram realizadas obras para melhorar a interligação entre as diversas represas formadoras do sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo. Relembrando a crise hídrica que começou em 2014 – enquanto as represas do Sistema Cantareira estavam secando, outras represas do sistema tinham água, porém, faltavam tubulações que permitissem o transporte da água na direção das ETAs – Estações de Tratamento de Água. Há época, obras emergenciais tiveram de ser feitas a “toque de caixa” para corrigir essas deficiências. 

Apesar da situação ser preocupante, as chances de um colapso no sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo hoje são mínimas. Além do mais, outros reservatórios da Região como o Guarapiranga, Alto Tietê, Rio Grande e São Lourenço, entre outros, estão com bons níveis e prontos para reforçar o sistema de distribuição. Mas, como diz um velho ditado, “cuidado e canja de galinha não fazem mal a ninguém”! Precisamos acompanhar toda essa situação com muita cautela. 

Essa questão deve ser encarada com um grande lembrete para todos nós: a água é um elemento cada vez mais raro e caro em nosso mundo. Diferentemente do que fomos ensinados a acreditar, que a água cai dos céus é não custa nada, o acesso a água potável para seus múltiplos usos está ficando cada vez mais complicado em um mundo com cada vez mais pessoas precisando de água, alimentos e energia. 

A SECA EM ALGUMAS REGIÕES BRASILEIRAS, OU LA NIÑA FAZENDO AS SUAS TRAQUINAGENS

Desde o final de 2020, a NOAA – Administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, vem observando uma redução de 1,2° C na temperatura das águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico. Conforme já comentamos em postagens anteriores, isso indica a ocorrência do fenômeno climático La Ninã. Segundo as projeções da NOAA, será o terceiro La Niña mais intenso dos últimos 20 anos. 

O fenômeno provoca uma série de mudanças nos padrões climáticos de todo o mundo. Aqui no Brasil, a presença de La Niña está causando fortes tempestades e chuvas acima da média em algumas regiões como no Pantanal Mato-Grossense. Em outras regiões, porém, está acontecendo justamente o contrário – as chuvas estão abaixo da média. Para completar o quadro, o inverno de 2020 foi um dos mais secos dos últimos anos – o retorno das chuvas em muitos lugares atrasou em cerca de 15 dias. 

Existem grandes chandes dos efeitos de La Niña serem sentidos até a metade deste ano. No quadro geral, se esperam chuvas acima da média nas regiões Norte e Nordeste. Na região Sul haverá tendências para estiagens regionalizadas a partir de fevereiro. Na maior parte das Regiões Sudeste e Centro-Oeste, a tendência será de chuvas entre a média e abaixo da média, e, numa extensa faixa entre o Oeste do Estado de São Paulo e o Mato Grosso do Sul, a tendência será de chuvas abaixo da média. 

Esse panorama climático traz uma série de preocupações para o sistema de geração de energia elétrica do país. Cerca de 90% da energia elétrica gerada no Brasil vem de usinas hidrelétricas que estão concentradas nas Regiões Sudeste/Centro-Oeste, as mais atingidas pela seca. Essas duas regiões respondem por 70% da geração hidrelétrica do país. Em dezembro, o nível dos reservatórios de água nessas regiões estava em 17,72% da sua capacidade.  

De acordo com a última atualização do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, publicada em 06 de fevereiro, o nível dos reservatórios nessas duas regiões atingiu a preocupante marca de 23,64%. Essa situação crítica dos reservatórios não é nova e decorre de vários anos de volumes acumulados de água abaixo da média. 

A Região Sul do país foi onde os reservatórios apresentaram as melhores taxas de recuperação: de um nível de 18,25% em dezembro, os reservatórios já atingiram a marca de 61,77% na última medição. Nas Regiões Nordeste e Norte, os reservatórios estão com níveis de 52,02% e 30,59% das capacidades máximas, respectivamente. 

No início do mês de dezembro, a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, colocou o abastecimento de energia elétrica do país na chamada Bandeira Vermelha, e autorizou a cobrança de uma tarifa extra na conta de energia dos consumidores. Em janeiro, diante das perspectivas de melhora da situação, houve um recuo do órgão e passou a valer a Bandeira Amarela. Essas medidas têm como principal objetivo encarecer o custo da energia, de modo a forçar os consumidores a gastarem menos eletricidade no seu dia a dia.  

Entre outras medidas emergenciais, o CMSE – Comitê de Monitoramento do Sistema Elétrico, já havia autorizado desde outubro o acionamento das poluentes usinas termelétricas a carvão e a gás, além de contratar a importação de energia elétrica da Argentina e do Uruguai. Quanto maior a disponibilidade de energia elétrica gerada a partir de outras fontes, maior a economia de água nos reservatórios brasileiros. 

Ainda não existe consenso entre as autoridades do setor sobre os riscos de um racionamento de energia elétrica no país. Ainda estamos dentro do período das chuvas e existe a esperança da recomposição dos estoques de água em muitos reservatórios a exemplo do que aconteceu na região Sul.  

Ao longo de 2020, a pandemia da Covid-19 e as diversas medidas de restrição à circulação da população ajudaram a “esfriar” as atividades econômicas do país, reduzindo assim o consumo de energia elétrica. As preocupações agora se voltam para 2021, quando existem boas expectativas para a volta do crescimento econômico e do natural aumento da demanda por energia elétrica. 

De acordo com informações do ONS, o parque gerador de energia elétrica do Brasil tinha, no último mês de novembro, uma capacidade total instalada de 165 mil MW. As estimativas indicam um aumento de 3% nessa capacidade ao longo de 2021, chegando a uma capacidade de 170 mil MW. Até o ano de 2025, a capacidade geradora do país deverá chegar aos 181 mil MW

A capacidade geradora “nominal” do país é, segundo a ONS, muito maior que o consumo. Em janeiro deste ano, a carga média de energia foi de 69 mil MW – em janeiro de 2020, antes do início da pandemia, a demanda foi de 70,7 mil MW. Ao longo de todo o ano de 2020, o consumo médio mensal foi de 66,4 mil MW, com o pico de consumo em alguns horários chegando na casa dos 80 mil MW

Apesar dessa aparente folga entre a capacidade de geração e o consumo, é importante ressaltar que nem toda a capacidade geradora do sistema está disponível 100% do tempo. Existem interrupções de fornecimento devido a problemas nas linhas de transmissão do Sistema Interligado, paradas para manutenção (algumas não previstas) em usinas hidrelétricas, usinas termelétricas que estão desligadas, entre outros problemas.  

A capacidade de geração de energia elétrica sincronizada no país na última semana foi de 86 mil MW, um valor que está muito próximo dos picos de consumo e que pode significar riscos à segurança do fornecimento de energia elétrica à população. Manter uma boa margem de segurança nesse momento é fundamental, daí a preocupação em acionar as usinas termelétricas existentes, importar energia de países vizinhos e forçar a população a reduzir o consumo. 

A geração de energia elétrica aqui no Brasil a partir de fontes renováveis como a hidrelétrica é um grande exemplo para um mundo onde grande parte da energia provém da queima do carvão mineral. Entretanto, quaisquer alterações nos padrões das chuvas podem resultar em graves riscos para todo o sistema. É importante diversificar as fontes geradores, usando-se principalmente outras fontes renováveis como a energia solar. 

O uso da energia solar já responde por cerca de 1 mil MW no Brasil, porém está muito longe de outros países e regiões do mundo. Na Europa, por exemplo, a geração e uso desse tipo de energia já corresponde a valores da ordem de 100 mil MW. As coisas tendem a melhorar muito nos próximos anos – de acordo com projeções da Agência Bloomberg, as contribuições das fontes de energia fotovoltaicas na matriz energética brasileira deverão representar cerca de 32% em 2040

Enquanto isso, precisaremos cuidar melhor de nossos rios e, principalmente de nossas florestas. A água tem múltiplos usos – além de essencial para a geração de energia elétrica, ela também é fundamental para o abastecimento de populações, agricultura, pecuária e indústrias. La Niña até tem aprontado das suas traquinagens, mas todos nós temos parte na responsabilidade pela situação preocupante de muitos dos nossos reservatórios de água. 

O AUMENTO DAS TEMPERATURAS NO ÁRTICO, OU “SIBÉRIA 40 GRAUS”

Nestes últimos dias, uma grande parte dos Estados Unidos está enfrentando as piores nevascas dos últimos dez anos. Em Nova Jersey, o Estado mais fortemente atingido, a neve acumulada já forma uma camada com quase 1 metro. Segundo informações divulgadas ontem, dia 3, ao menos 7 pessoas já morreram. No Colorado, 3 esquiadores estão desaparecidos após uma avalanche. 

Essa forte onda de frio foi provocada pelo deslocamento do vórtice polar em duas direções – uma parte seguiu em direção às regiões Central e Nordeste dos Estados Unidos, e outra parte foi na direção de áreas meridionais da Europa, onde provocou, entre outros distúrbios, as fortes nevascas que assolaram a Espanha semanas atrás.

Conforme comentamos na postagem anterior, o vórtice polar é formado por duas massas de ar frio que circulam ao redor do Polo Norte. A primeira delas, que localizada na troposfera (a camada mais baixa da atmosfera), é chamada de vórtice circumpolar. Essa massa de ar frio chega a se estender do Norte do México até o Norte do Canadá. A segunda massa de ar frio, que é bem menor e é chamada de vórtice polar estratosférico, se localiza em altitudes entre 16 e 48 km e circula sobre o Polo Norte.  

Em condições climáticas normais, esses dois vórtices apresentam uma diferença de temperatura constante e permanecem estáveis em suas camadas da atmosfera. No início deste ano, porém, os meteorologistas observaram um aquecimento repentino da atmosfera nessas regiões, o que provavelmente foi a causa do deslocamento dos vórtices polares. Entre as possíveis causas desse aquecimento brusco da atmosfera, que não é considerado tão anormal, está o aumento constante das temperaturas no Ártico ao longo dos últimos anos

Um extenso estudo realizado por quinze pesquisadores internacionais concluiu que a temperatura do Ártico aumentou nos últimos dez anos o mesmo que toda a Terra nos últimos 140 anos. Desde o início da década de 1880, a temperatura do planeta aumentou cerca de 0,8° C – no Ártico, esse aumento foi de 0,75° C apenas nos últimos dez anos

De acordo com informações do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a temperatura do Ártico vai subir ente 3 e 5° C até 2050, e de 5 a 9° até 2080, irremediavelmente. De acordo com as estimativas, o volume de gelo no Ártico diminuiu cerca de 40% desde 1979. Caso as emissões de gases de efeito estufa continuem no ritmo atual, o Ártico terá verões sem gelo a partir de 2030. Os derretimentos de gelo na região contribuem com um terço do aumento do nível dos oceanos

Um sintoma claro do aumento progressivo das temperaturas no Ártico foi visto em junho de 2020 na cidade de Verkhoyansk, na Sibéria. Essa região da Rússia ganhou fama mundial pelo rigor do inverno e pelas temperaturas baixas mesmo nos meses de verão. Essa cidade, inclusive, fica dentro dos limites do Círculo Polar Ártico. O inverno siberiano registra temperaturas de até -45° C no inverno – em 1933, houve o registro de –67,7° C, até hoje a temperatura mais baixa já registrada no planeta. 

No dia 20 de junho, os termômetros da cidade registraram 38° C, um recorde absoluto de calor. Segundo informações do website meteorológico russo Pogoda i Kimat, a cidade vem registrando temperaturas entre 10 e 14° C acima da média nos verões dos últimos anos. Esse nível de temperatura está muito próximo dos 40° C do Rio de Janeiro dos versos e das músicas populares. 

Outra consequência visível do aumento das temperaturas no Ártico é o derretimento de grandes extensões do permafrost, abreviação de permanent frost ou solos congelados permanentemente. Em regiões de altas latitudes da Rússia, do Canadá, do Alasca (território dos Estados Unidos), entre outras, tem sido comum o desabamento de construções por causa da perda do permafrost. Sem a rigidez do gelo nos solos, que tem um comportamento similar ao das rochas, as fundações dessas construções simplesmente afundam, colocando abaixo casas e edifícios. 

O derretimento do permafrost também se reflete na queda de árvores da taiga. As raízes dessas árvores são relativamente pequenas e se adaptaram ao longo do seu processo evolutivo à dureza dos solos. Sem o gelo congelado, os solos não tem a resistência necessária para a estabilidade das árvores, que caem em grandes quantidades. As imensas massas de troncos mortos sobre os solos são o combustível dos grandes incêndios florestais que, cada vez com uma frequência maior, devastam grandes extensões da taiga. 

O aumento das temperaturas e a perda da massa de gelo no Ártico se reflete no aumento da temperatura das águas do mar na região. Essas mudanças nos padrões climáticos provocam um aumento das ondas de calor refletidas de volta para atmosfera, o que gera oscilações cada vez mais fortes e persistentes nas massas de ar frio que formam o vórtice polar. 

Cientistas e meteorologistas ainda têm dúvidas sobre os mecanismos de funcionamento do vórtice polar e ainda não tem dados suficientemente completos para afirmar que o aumento da temperatura do Ártico é mesmo a principal causa dos deslocamentos das massas de ar frio. Vale lembrar que o ano de 2020 foi um dos mais quentes já registrados em nossa história e foi marcado por um recorde na perda da massa de gelo no Ártico.  

O principal vilão do clima mundial na atualidade é o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, onde o dióxido de carbono (CO2) é destaque. Esse gás é produzido naturalmente pela respiração de seres humanos e animais, pela decomposição de restos de plantas e de animais, por queimadas em florestas, pela digestão de alimentos nos intestinos de animais e seres humanos, entre outras fontes. Também é produzido por inúmeras atividades humanas como nas indústrias e nos transportes.  

De acordo com dados do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima, na sigla em inglês, o dióxido de carbono está presente em 78% das emissões humanas e em 55% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Os maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa em 2018 foram os Estados Unidos, a China e a Índia – o Brasil ficou na 14° posição

O efeito estufa é um processo físico natural do planeta Terra que ocorre quando determinados gases presentes na atmosfera absorvem parte da irradiação infravermelha do sol, irradiando e retendo esse calor na superfície do planeta. Esse mecanismo permitiu, ao longo dos vários ciclos da história geológica do planeta, a estabilização da temperatura dentro de uma faixa vital para a manutenção da vida e do clima. Essa estabilização permitiu o desenvolvimento dos sistemas florestais e dos oceanos, com o consequente equilíbrio dos gases formadores da atmosfera e a explosão da vida biológica na Terra. 

A partir de meados do século XVIII, quando teve início a chamada Revolução Industrial, passou a ocorrer um aumento contínuo da queima de combustíveis fósseis, especialmente carvão mineral e derivados de petróleo, aumentando de maneira contínua as emissões de gases de efeito estufa. A população humana também cresceu de forma vertiginosa – no início do século XIX éramos pouco mais de 1 bilhão de habitantes e, dentro de poucos anos, estaremos chegando na casa dos 8 bilhões de seres humanos

As necessidades de produção de alimentos, roupas, produtos e moradias para tanta gente tem levado a uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais, o que, ao fim ao cabo, resulta em emissões maiores de gases de efeito estufa. O antigo equilíbrio climático do planeta será, cada vez mais, uma lembrança de um passado distante.  

As únicas certezas que temos é que as mudanças no clima não vão parar de nos surpreender e que o nosso futuro será cada vez mais incerto. 

OS RIGORES DO INVERNO NO HEMISFÉRIO NORTE

A ocorrência do fenômeno La Niña nesses últimos meses, e que ainda deverá ser sentida até o final do primeiro trimestre, está causando chuvas acima da média em algumas regiões do Brasil. Ontem mesmo, dia 2 de fevereiro, a cidade de São Paulo foi castigada por uma fortíssima chuva acompanhada de ventos com velocidades acima dos 80 km/h. 

Enquanto sofremos com a chuva por aqui, muitas regiões do Hemisfério Norte estão tendo problemas com os rigores do inverno. Normalmente, costumamos associar o frio intenso e as fortes tempestades de neves às estepes geladas da Sibéria ou à tundra no Norte do Canadá. Entretanto, mudanças anormais no vórtice polar têm empurrado as tempestades de neve para outras regiões, como foi o caso recente da Espanha. 

No início de janeiro, uma fortíssima onda de frio atingiu a Espanha, um país onde os invernos são bem mais amenos do que na maior parte da Europa. Na capital do país, Madrid, a temperatura chegou a atingir a marca de -16° C; em alguns povoados da região de Guadalajara as temperaturas mínimas chegaram a inacreditáveis -35° C. Importantes cidades do país ficaram, literalmente, paralisadas devido ao forte acúmulo de neve nas ruas (vide foto). 

Os meteorologistas já vinham observando um “aumento vertiginoso” nas temperaturas da atmosfera do Ártico e previam que isso poderia resultar no deslocamento de massas de ar gelado para outras regiões do Hemisfério Norte. Ao longo da primeira semana de janeiro deste ano, as temperaturas em camadas elevadas da estratosfera sobre a Sibéria subiram de -69° C para -13° C.  

Esse brusco aumento da temperatura desequilibrou o vórtice polar e o empurrou para fora do seu eixo no Polo Norte – uma parte foi empurrada na direção da América do Norte e outra na direção da Europa. Os efeitos desse deslocamento, que já estão bastante visíveis, estão provocando fortes nevascas nas regiões Centro-Oeste e Nordeste dos Estados Unidos, e também em regiões de latitude média da Europa, como no caso a Espanha. 

O vórtice polar é formado por duas massas de ar frio que giram ao redor do Polo Norte. Em uma camada mais baixa da atmosfera – a troposfera, gira uma corrente de jato, que também é chamada de vórtice circumpolar. Essa massa é grande e muitas vezes se estende do Norte do México até o Norte do Canadá, se movendo do Oeste para o Leste. 

A segunda camada de ar frio fica localizada em altitudes entre 16 e 48 km, sendo conhecida como vórtice polar estratosférico. Essa camada é bem menor que o vórtice circumpolar e fica estacionada sobre o Polo Norte, girando de Oeste para Leste. Essa massa se forma em todos os invernos e se dissipa quando chega a primavera no Hemisfério Norte. 

Esses dois vórtices normalmente apresentam uma diferença de temperatura constante, o que faz com mantenham as suas posições estáveis. Um aquecimento repentino da atmosfera, como o que foi detectado pelos meteorologistas no início do ano, desestabiliza os dois sistemas e provoca um deslocamento anormal dos vórtices. 

Os cientistas afirmam que esses aquecimentos da estratrosfera são relativamente comuns. Em 2018, por causa de um desses aquecimentos, o Reino Unido enfrentou uma forte onda de frio, que teve como resultado uma grande escassez do gás usado no aquecimento residencial. Em 2019, foi a vez da cidade de Chicago, no Norte dos Estados Unidos, enfrentar temperaturas mais baixas que as do Polo Norte. Nos últimos anos, os meteorologistas passaram a estudar mais esses fenômenos, buscando uma forma de prever com mais antecedência os deslocamentos dos vórtices polares. 

Entre os inúmeros fenômenos climáticos envolvidos no estudo da formação e dos deslocamentos dos vórtices polares, as mudanças climáticas globais entram como um complicador a mais. Ao longo dos últimos 30 anos, as temperaturas no Ártico sofreram um aumento duas vezes maior do que o observado no restante do mundo. Esse aquecimento tem resultado no derretimento de geleiras e em grandes perdas no gelo marinho da região. Os cientistas supõem que essas mudanças podem tornar o vórtice polar mais instável, porém, ainda faltam maiores estudos. 

Os cientistas já sabem que a perda de gelo no Ártico tem resultado num aumento da temperatura das águas da região, o que se reflete num aumento das ondas de calor que são refletidas de volta para a atmosfera. Esse calor extra se reflete em oscilações mais fortes e persistentes na corrente de jato no sentido Norte, o que pode interromper o vórtice polar. 

No ano passado, que foi considerado um dos mais quentes já registrados, houve uma perda recorde da cobertura de gelo marinho no Ártico. Os cientistas suspeitam que essa pode ter sido uma das causas do forte deslocamento do vórtice polar nas últimas semanas. Porém, ainda serão necessários maiores e mais profundos estudos para que se possa entender exatamente o que está acontecendo. 

A complexa equação ainda precisa incluir La Niña e El Niño, as emissões de gases de efeito estufa, a derrubada de florestas em todo o mundo (e não só as “famosas queimadas na Amazônia”), a poluição gerada por indústrias, a poluição dos oceanos, entre muitos outros fatores. 

Também existem dúvidas relativas às mudanças climáticas naturais provocadas, por exemplo, pelas mudanças no eixo de rotação do planeta. A última dessas grandes mudanças foi a Era do Gelo ou Período Glacial, que teve seu ápice a “apenas” 20 mil anos atrás (em tempos geológicos, isso é bem pouco tempo). Grandes extensões da Ásia, Europa e América do Norte foram cobertas por geleiras e as espécies animais e vegetais locais evoluíram para se adaptar às novas condições ambientais. Nossos “primos” Neandertais prosperaram nesses tempos na Europa e na Ásia. 

Conseguir entender o funcionamento dos mecanismos do vórtice polar é fundamental para se garantir a segurança de populações diante da chegada de grandes massas de frio e neve. Com uma previsão antecipada, as populações passam a contar com tempo hábil para a estocagem de comida e água, além de lenha e/ou combustível para o aquecimento das residências. Governos podem planejar melhor os estoques de gás e combustíveis, transportes e serviços de emergência. 

O caso recente das fortes nevascas na Espanha é um exemplo dos problemas que podem ser antecipados. Os espanhóis, que não estão habituados à convivência com esses volumes de neve, foram pegos, literalmente, de “calças curtas” pelas fortes precipitações, o que em condições normais já seria bastante problemático. Em meio a pandemia da Covid-19, onde a população já vinha sofrendo fortes restrições de circulação e com a economia seguindo em marcha lenta, os impactos foram muito fortes. 

Somente na cidade de Madrid, mais de mil pessoas tiveram de ser resgatadas de seus veículos após serem atingidas pelas fortes nevascas que cobriram as ruas e avenidas da cidade. Algumas pessoas chegaram a ficar 24 horas à espera de resgate. O Governo teve de convocar tropas do exército para ajudar os bombeiros e as forças de segurança nas operações de resgate.  

Além da região de Madrid, as tempestades de neve colocaram outras nove províncias espanholas em alerta vermelho. No total, a neve afetou 36 das 50 províncias da Espanha. Faltaram alimentos nos supermercados e combustíveis nos postos de gasolina, além de dificuldades nos sistemas de abastecimento de eletricidade, gás e água. O já sobrecarregado sistema de saúde do país dependeu do esforço sobre-humano dos seus profissionais para a tender as inúmeras emergências médicas que surgiram. 

A pergunta que fica: a Espanha foi a “bola da vez” – qual país e/ou regiões serão os próximos? 

A INCIDÊNCIA DE “LA NIÑA” E OS RISCOS PARA A AGRICULTURA

Nas últimas postagens falamos de algumas alterações nos padrões climáticos que estão sendo provocadas aqui no Brasil pelo fenômeno climático La Niña. A formação desse fenômeno está associada ao resfriamento das águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico e têm consequências em todo o mundo. O pacote “brasileiro” inclui, entre outros eventos, fortes tempestades em muitas cidades, aumento na incidência de raios no Estado de São Paulo e chuvas acima da média no Pantanal Mato-Grossense

No caso do Pantanal, essas chuvas acima da média provocadas por La Niña são mais do que bem-vindas. O bioma passou por uma forte seca no ano passado, que teve como uma de suas consequências a ocorrência de imensas queimadas. Com a chegada das chuvas e a volta do alagamento de grandes extensões da planície, o Pantanal Mato-Grossense começa a renascer das cinzas, literalmente. 

Para quem vive de trabalhar e cultivar a terra, as chuvas são quase sempre muito bem-vindas. A exceção fica por conta dos períodos de colheita, quando a chuva acaba criando alguns problemas. No caso do Estado de Mato Grosso, a maior potência do agronegócio brasileiro, a previsão dos meteorologistas fala de chuvas acima da média até os meses de março e abril, o que deverá prejudicar tanto a colheita da soja quanto o plantio da safra do algodão. 

De acordo com informações da EMBRAPA Soja, uma das áreas especializadas da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, as condições ideais para a cultura do grão incluem uma temperatura de solo próxima dos 20° C, uma temperatura do ar entre 20 e 30° C e uma umidade do ar entre 70 e 80%. Também se incluem nessas condições um solo bem drenado e com boa retenção de água. O excesso de chuvas ou ambientes muito úmidos impactam diretamente na produtividade da cultura. 

Quando o plantio das sementes da soja é feito em solos com excesso de água, os processos bioquímicos de germinação das sementes e emergência das plântulas, que são majoritariamente aeróbicos (ou seja, dependem da presença do ar), serão prejudicados pela falta de oxigênio. O excesso de umidade nos solos prejudica as trocas gasosas – entrada de oxigênio e saída de gás carbônico, entre outros problemas. 

Quando as plantas estão em desenvolvimento, elas necessitam de uma boa incidência de luz solar, energia essencial para os processos de fotossíntese. Em dias chuvosos ou nublados, a RFA – Radiação Fotossintética Ativa, é drasticamente reduzida pelas nuvens. Nessas condições, as folhas medianas e baixas da planta recebem quantidades ínfimas de radiação solar, diminuindo ainda mais os processos de fotossíntese da planta e reduzindo a sua capacidade produtiva. 

O excesso de umidade também cria problemas para a colheita mecânica da safra. Grãos de soja com excesso de umidade podem começar a germinar durante o transporte e armazenamento ou podem se tornar ardidos ou apodrecidos. Qualquer uma dessas ocorrências compromete a qualidade do produto e diminui os ganhos dos produtores. Usando uma expressão típica aqui do meu bairro, a soja é uma cultura “bem enjoada”. 

Já para o algodão, uma planta originária de regiões de clima quente e seco, tanto o excesso de chuvas quanto a alta umidade do ar podem levar ao apodrecimento das maças e estimular a proliferação do bicudo, inseto que é a principal praga dos algodoeiros. Em qualquer um desses casos, não haverá muito o que fazer e a lavoura estará perdida. 

Uma das principais razões para o sucesso da agricultura no Cerrado brasileiro foi o clima com duas estações bem definidas – um período chuvoso seguido por uma estação seca. Essa característica climática sempre favoreceu o planejamento das épocas para o plantio e colheita das culturas, além de permitir a escolha do tipo de cultura mais adequada para cada período.  

A estação das chuvas no Cerrado vai de setembro até o início de maio, sendo seguida pela estação da seca que vai de junho a agosto. Esse ciclo alternado de chuvas e seca forma o chamado “ano agrícola”. Um produtor mais tradicional, que produz semeando e colhendo nas épocas mais adequadas do ano conseguirá colher apenas uma safra por ano. Com o aprimoramento das técnicas agrícolas, os agricultores desenvolveram a chamada semeadura de “safrinha”, o que passou a permitir a produção de duas ou mais safras a cada ano.  

A chamada soja de ciclo precoce, por exemplo, tem sua semeadura a partir das primeiras chuvas no mês de setembro e começa a ser colhida no mês de janeiro, época em que as chuvas já começam a se reduzir no Cerrado. O plantio do algodão é feito logo após a colheita da soja e a sua colheita será feita no auge do período seco entre junho e agosto. Outra cultura típica em sucessão à soja é o milho, normalmente chamado de “milho safrinha”. 

Nos anos em que há a incidência do fenômeno climático La Niña ou do seu irmão, o El Niño, os padrões de chuva e seca são alterados, criando uma série de dificuldades para os produtores rurais ajustaram corretamente os seus ciclos de produção. Nessas primeiras semanas de fevereiro, a colheita da soja já deveria estar sendo finalizada em Mato Grosso e o plantio do algodão já deveria ser sido iniciado. Porém, com chuvas acima da média, os produtores precisam esperar a chegada de uma janela de estiagem para colher a soja nas melhores condições possíveis. 

Esse adiamento do plantio do algodão poderá “empurrar” o período da colheita para uma data perigosamente próxima da chegada do período das chuvas, o que vai prejudicar, e muito, a produção. A parte mais sensível do algodoeiro é a pluma (vide foto), a matéria prima dos fios e dos tecidos de algodão. O caroço do algodão produz um óleo, usado principalmente na culinária, e também o chamado línter da semente do algodão, também conhecido como mel de viscose, usado na produção de uma fibra de celulose. Essas fibras são a matéria prima de produtos têxteis como a viscose. 

Nas últimas décadas, os produtores agrícolas se transformaram nos principais clientes das empresas especializadas na elaboração de boletins com previsão do tempo. Cada vez mais, os produtores brasileiros se destacam na chamada “agricultura de precisão”, onde as culturas agrícolas são minuciosamente ajustadas às previsões climáticas de cada micro região. 

As complexas alterações climáticas provocadas pela presença de La NIña, um fenômeno ainda não totalmente compreendido pelos meteorologistas, bagunça o “meio de campo” dos agricultores e pode causar grandes prejuízos para os mais desatentos. 

De acordo com as estimativas mais atualizadas do Centro de Previsão Climática, entidade ligada a NOAA – Administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, há 95% de chances de La Niña persistir até o final do verão no Hemisfério Sul. As possibilidades de o fenômeno persistir nos meses de abril, maio e junho caem para 55%, com tendência de neutralidade a partir do início do segundo semestre. Todas essas probabilidades são cuidadosamente analisadas pelos meteorologistas que preparam os relatórios para os produtores agrícolas. 

Na agricultura moderna agora é assim – um olho no céu e outro na tela do computador. Cada vez mais, a produção agrícola vai sendo ajustada às condições climáticas, sejam elas quais forem. La Niña e El Niño podem até aprontar as suas traquinagens climáticas, mas o agricultor bem informado saberá como superá-las ou, o mínimo, como reduzir os seus impactos na produção. 

UMA BOA NOTÍCIA: AS CHUVAS NO PANTANAL MATO-GROSSENSE ESTÃO ACIMA DA MÉDIA HISTÓRICA NESTE VERÃO

O ano de 2020 será lembrado para sempre como um dos mais problemáticos da hitsória humana. Uma das razões para isso foi a pandemia da Covid-19, que afetou a vida e a saúde de bilhões de pessoas em todo o mundo. Na área ambiental, um dos marcos foram os grandes incêndios no Pantanal Mato-Grossense. De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, o volume de chuvas na região do Pantanal entre outubro de 2019 e março de 2020 foi 40% abaixo dos níveis médios. Essa forte seca levou a uma alta incidência de incêndios e resultou na destruição de mais de 4 milhões de hectares de matas

Felizmente, o período das chuvas chegou com precipitações acima da média. Somente nos sete primeiros dias de 2021, choveu o equivalente à média de um mês no Pantanal Mato-Grossense. Segundo informações do CEMTEC – Centro de Monitoramento do Clima, é o fenômeno climático La Niña quem está forçando o deslocamento de grandes frentes frias para a região e provocando fortes chuvas. E a previsão é de mais chuvas pelo menos até o início de fevereiro. 

O Pantanal Mato-Grossense é uma das maiores planícies alagáveis do mundo – em anos de cheias excepcionais, a área alagada se aproxima dos 250 mil km², o que equivale a 3% do território brasileiro ou a uma área equivalente ao Estado de São Paulo. Esse imenso “território das águas” se estende pelo Sudoeste do Estado de Mato Grosso e Oeste do Mato Grosso do Sul, englobando também áreas no Paraguai e na Bolívia – nesses países é conhecido como El Chaco.  

Pela sua importância ecológica, a região foi promovida a Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. Já foram catalogadas mais de 650 espécies de aves, 80 espécies de mamíferos, 50 espécies de répteis e mais de 260 tipos diferentes de peixes. A vegetação combina espécies da Floresta Amazônica, do Cerrado e da Mata Atlântica, além de uma infinidade de espécies endêmicas, adaptadas para a vida nesta grande área alagável

Ao contrário do que muitos imaginam, as paisagens pantaneiras apresentam brutais oscilações, alternando períodos de grandes cheias, cheias normais, vazantes e secas. A Marinha do Brasil, através do Serviço de Sinalização Náutica d’Oeste, com sede em Ladário – Mato Grosso do Sul, monitora os dados hidrométricos da região a partir de uma régua de medição desde 1900. Entre 1964 e 1973, citando um exemplo, a região enfrentou um longo período de seca. Em 1970, o nível do rio Paraguai, o principal da região, chegou a apenas 19 cm

Os registros da Marinha também mostram as grandes enchentes do Pantanal: em 1905, a cheia atingiu a marca de 6,62 metros na régua de Ladário. Em 1913 – 6,39 metros; em 1955 – 6,56 metros; 5,46 metros em 1974 e em 1982 atingiu a marca de 6,52 metros. A maior cheia já registrada foi a de 1988, quando se atingiu a marca de 6,64 metros, causando uma grande mortandade nos rebanhos bovinos e enormes transtornos para as comunidades pantaneiras

Nos últimos anos, as maiores cheias foram as de 2011 e de 2018, quando as águas atingiram, respectivamente, as marcas de 5,62 e 5,35 metros. A primeira inundou praticamente ¼ da planície pantaneira e a segunda provocou um prejuízo de R$ 230 milhões aos pecuaristas. Para efeito de comparação, no grande período de seca entre 1964 e 1973, a maior cheia registrada foi de 2,74 metros. Como se nota, a região vive, literalmente, períodos de altos e baixos. 

O relevo particular da planície pantaneira é o principal responsável por essas enormes variações no nível das águas. O Pantanal Mato-grossense tem altitudes médias da ordem de 100 metros, com uma baixíssima declividade, uma alta pluviosidade e centenas de rios e lagos. Todo esse grande volume de águas corre muito lentamente em direção ao Sul, onde existe um verdadeiro afunilamento, conhecido como Fecho dos Morros do Sul. 

A velocidade de escoamento no Pantanal é tão baixa que as águas de uma chuva, nas cabeceiras do rio Paraguai, poderão levar mais de quatro meses para atravessar toda a planície alagada. A dinâmica das cheias no Pantanal é bastante similar às enchentes que todos conhecemos nas grandes cidades brasileiras: excesso de águas de chuva e carência de sistemas de escoamento pluvial. 

Quando a região passa por uma temporada de chuvas abaixo da média, que foi o que aconteceu em 2020, as esperadas grandes cheias não acontecem e a vegetação seca fica sujeita aos incêndios florestais. Basta uma pequena centelha, uma bituca ou guimba de cigarro jogada pela janela de um carro ou uma queimada desastrada para a preparação de um pequeno roçado para desencadear um incêndio de grandes proporções. E em 2020, o Pantanal ardeu como nunca. 

Felizmente, diferentemente do que muitas manchetes de jornais e de portais de notícias divulgaram, esse não vai ser o fim do Pantanal Mato-grossense e de suas exuberantes flora e fauna. O ecossistema vem enfrentando esses altos e baixos há alguns milhões de anos e, tanto a sua fauna quanto a flora, estão adaptados para ciclos de destruição e de renascimento. É só uma questão de tempo até vermos a vida retomar todos os seus espaços na grande planície. 

A questão realmente preocupante e que aparece pouco nas reportagens sensacionalistas é a derrubada de vegetação de Cerrado para a abertura de campos agrícolas. Mesmo distantes da planície pantaneira, esses desmatamentos provocam impactos nos caudais de muitos rios que nascem no Cerrado e que correm na direção do Pantanal Mato-grossense. Exemplos são os rios Cuiabá, Piquiri, São Lourenço, Taquari, Aquidauana e Miranda, entre muitos outros.

Conforme já tratamos em inúmeras postagens, a vegetação típica do Cerrado tem como principal característica a presença de grandes e profundas raízes. Ao longo de milhões de anos de evolução, essa vegetação foi se adaptando aos ciclos de seca anuais do bioma, permitindo que a plantas captem a águas de lençóis subterrâneos profundos. Na temporada das chuvas, essas grandes raízes facilitam a infiltração da água no solo, garantindo assim a recarga dos lençóis e aquíferos do Cerrado. 

Para garantir a conservação de uma área com cobertura de mata nativa nas propriedades rurais, a chamada Reserva Legal, o Código Florestal de 2012 estabeleceu em seu Artigo 12 os percentuais mínimos de vegetação nativa a serem preservados em relação à área total dos imóveis. Nas áreas de Cerrado que ficam dentro da Região da Amazônia Legal, o que abrange a maior parte do Estado de Mato Grosso, no mínimo 35% da vegetação nativa de um imóvel rural precisa ser preservada. Em Mato Grosso do Sul, esse percentual é de 20% nas áreas do Cerrado. O Código Florestal também estabeleceu as regras para a preservação das faixas de mata ciliar nas margens dos rios. 

É preciso que os órgãos ambientais fiscalizem com rigor o cumprimento dessas normas, pois a presença de mata nativa é fundamental para a manutenção contínua dos volumes de água para a planície pantaneira. Com o preço das commodities agrícolas nas alturas, como são os casos do milho e da soja, muitos produtores podem até resistir a ideia de perder parte de sua área de produção, mas é preciso conscientizá-los da importância do bioma Pantanal. 

Apesar da imensa maioria dos críticos internacionais das políticas ambientais do Brasil falarem praticamente só da Floresta Amazônica, as grandes queimadas que atingiram o Pantanal Mato-grossense nesses últimos tempos ganharam enorme destaque nos meios de comunicação e poderão se transformar em um novo foco de dor de cabeça para todos os brasileiros, prejudicando principalmente os próprios produtores agrícolas – muitos países estudam impor barreiras à importação de produtos agrícolas brasileiros. 

Graças ao seu imenso território, ótimas terras, clima quente e grande abundância de recursos hídricos, o Brasil tem uma vocação natural para o agronegócio. Porém, é fundamental que se faça isso com um olho nas plantações e outro na preservação de importantes biomas como o Pantanal Mato-Grossense e a Floresta Amazônica. 

CHUVAS ”AMAZÔNICAS” POR TODO O BRASIL, OU LEMBRANDO DE LA NIÑA

No último dia 19 de janeiro, o litoral Sul do Estado de São Paulo foi castigado por uma fortíssima tempestade, com volumes de chuvas equivalentes aos padrões da Amazônia. Nesse dia eu estava na casa da minha irmã em Peruíbe, a cidade mais afetada pelas fortes chuvas. De acordo com informações da Defesa Civil do Estado de São Paulo, o volume de chuvas acumulado na cidade foi de 255 mm. A última vez que testemunhei uma chuva com tal intensidade foi em 2010, quando eu trabalhava em Rondônia – foram 246 mm de chuva em pouco mais de uma hora. 

A imagem que ilustra essa postagem mostra o tamanho dos estragos deixados pela chuva na cidade – a foto mostra o que sobrou da avenida litorânea. Um detalhe que chama a atenção são as tubulações na cor laranja, que faziam parte da rede de esgotos. Ao que tudo indica, as tubulações “explodiram” por causa do excesso de pressão provocado pelas águas pluviais. De acordo com as normas técnicas, águas pluviais (de chuva) não podem ser lançadas nas tubulações de esgoto, porém, é muito comum os usuários fazerem isso – em um dia de chuva forte, o resultado pode ser exatamente essa destruição que vimos. 

Notícias de chuvas com esse padrão “Amazônico” estão ocupando as manchetes dos jornais e telejornais nesse verão com uma frequência acima da média. Nessa última quinta-feira, dia 28, a Região Metropolitana de Florianópolis, Santa Catarina, foi castigada por uma chuva fortíssima. Só no município de Alfredo Wagner, 14 pontes foram destruídas pelas fortes enxurradas e cerca de 2,5 mil pessoas ficaram ilhadas. Foram cerca de 150 mm de chuva em menos de uma hora. 

No mesmo dia 28, uma fortíssima tempestade assolou a cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. Em apena uma hora, choveu cerca de 100 mm, valor equivalente a 2/3 de toda a chuva que estava prevista para o mês de janeiro. A forte enxurrada alagou ruas, arrastou carros e danificou, pelo menos, uma casa. Segundo o relato de moradores, essa foi a chuva mais forte que já atingiu a cidade.

Em 20 de dezembro, uma outra fortíssima tempestade já havia se abatido em regiões do Vale do rio Itajaí em Santa Catarina, causando grandes estragos em pelo menos 11 cidades dessa região. As mais fortemente atingidas foram Presidente Getúlio e Rio do Sul, onde 11 pessoas morreram em função, principalmente, do desmoronamento de encostas de morros. Mais de 370 casas foram destruídas e cerca de 1,6 mil pessoas ficaram desabrigadas. 

Na Região Metropolitana de São Paulo, as fortes tempestades de verão e suas inseparáveis enchentes tem marcado a vida da população como sempre. Aqui, o que tem chamado a atenção dos meteorologistas é o aumento da incidência de raios durante as chuvas. Na cidade de São Paulo, citando um exemplo, a incidência média de raios ao longo do mês de janeiro é de 3.800. Até o último dia 25 de janeiro, o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, já havia registrado 6.800 quedas de raio na cidade. 

De acordo com informações do INPE, esse aumento expressivo do número de raios, que tem se repetido em todo o Estado de São Paulo, é uma consequência do fenômeno climático La Niña, que está se manifestando com bastante intensidade nesse verão. Esse fenômeno é caracterizado pelo resfriamento de uma grande área do Oceano Pacífico, o que produz alterações na atmosfera e nos padrões climáticos de todo o mundo. As fortes chuvas que estamos assistindo em muitas regiões do país são consequência de La Niña

A OMM – Organização Meteorológica Mundial, já havia previsto que a incidência do fenômeno La Niña seria de moderado a forte no período 2020/2021. As projeções feitas pela instituição indicam que há uma probabilidade de 90% de as temperaturas das águas dessa região do Oceano Pacífico permaneceram mais frias até o final do primeiro trimestre desse ano. Enquanto essas condições não se alterarem, La Niña continuará causando seus estragos. 

Quando o fenômeno La Niña é observado no Oceano Pacífico, as águas superficiais de uma extensa região apresentam uma redução média entre 2 e 3° C na sua temperatura. Nesses anos de ocorrência de La Niña, costuma se observar, entre os meses de dezembro e fevereiro, um aumento das chuvas na região Nordeste e temperaturas abaixo do normal na região Sudeste. O fenômeno também provoca um aumento do frio na costa Oeste dos Estados Unidos e no Japão, além de aumento das chuvas na costa Oeste da Ásia.  

Entre os meses de junho e agosto, a presença de La Niña costuma produzir um inverno mais seco nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Também pode interferir na temperatura da costa Oeste da América do Sul, reduzindo as temperaturas. Na região do Caribe, La Niña provoca uma redução na temperatura e um aumento das chuvas. No Leste da Austrália e no Leste da Ásia se observa um aumento das temperaturas.  

A ocorrência do fenômeno La Niña varia muito. Sua frequência ocorre em intervalos de 2 a 7 anos, com uma duração de 9 a 12 meses – em alguns casos, pode ter uma duração de até 2 anos. O El Niño, um outro fenômeno climático provocado por um aumento da temperatura no Oceano Pacíifico, têm uma frequência tão irregular quanto a da La Niña, ocorrendo também em intervalos de 2 a 7 anos, porém, com uma duração de 10 a 18 meses. 

Os efeitos desses dois fenômenos são sentidos pelas populações há vários séculos, porém, a observação científica só teve início no final da década de 1870, quando se passaram a fazer medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Pacífico. Os grandes avanços na observação e no entendimento dos fenômenos ocorreram nos últimos cinquenta anos, quando uma série de satélite de observação meteorológica começaram a ser colocados na órbita da Terra. 

Também merecem destaque os trabalhos para a instalação de boias oceanográficas e meteorológicas nas águas do Oceano Pacífico, feitos principalmente pela NOAA – Administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos, na sigla em inglês. O uso cada vez maior de supercomputadores com grande capacidade para o processamento de uma infinidade de dados e medições climáticas de todo o mundo também tem sido fundamental para a modelagem e entendimento dos complexos padrões climáticos. 

Apesar dos enormes avanços já alcançados pelos meteorologistas no entendimento do El Niño e de La Niña, ainda existem muitas lacunas a serem preenchidas. Uma delas é entender exatamente quais são as consequências desses fenômenos climáticos e quais são os efeitos das mudanças climáticas globais. Como todos sabem, a poluição atmosférica provocada pelos gases de efeito estufa e os grandes desmatamentos em todo o mundo têm provocado alterações visíveis no clima do planeta. 

Faltam informações para se entender exatamente qual é o tamanho dessas alterações e qual a sua relação com Los Chicos Malos (As Crianças Malvadas), apelido que eu dou para o El Niño e La Ninã, nomes que em castelhano significam, respectivamente, o menino e a menina. 

Nesses últimos tempos de intensa demagogia, a propagada destruição da Floresta Amazônica tem sido usada por muitos líderes mundiais para jogar toda a culpa das mudanças climáticas nas costas dos brasileiros. Segundo essa narrativa, as queimadas na Amazônia para a abertura de campos para o cultivo de soja e criação de gado são as principais responsáveis por tudo de mal que vem ocorrendo com o clima do mundo.  

Nenhum desses líderes e seus “ambientalistas de estimação” (observem que fiz a citação entre aspas para não generalizar – existe muita gente séria trabalhando nessa área por aí) parece se lembrar dos fabulosos volumes de carvão mineral que vêm sendo queimados desde os tempos do Império Romano, das centenas de milhões de veículos que circulam pelas ruas todos os dias, das grandes indústrias poluidoras e da destruição de grande parte das florestas tropicais ao redor do mundo

Precisamos entender melhor o funcionamento da nossa “grande máquina planetária” e do seu intrincado clima antes de sairmos falando besteiras pelos quatro cantos do mundo. Também é importante que as nossas cidades se preparem melhor para os períodos de fortes chuvas – com ou sem mudanças climáticas, basta uma chuva mais forte para muitas cidades entrarem em colapso. Entra verão, sai verão e as coisas não mudam!