O AZEITE DE DENDÊ E AS AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE DOS RIOS DA MALÁSIA, OU UM PIRARUCU PERDIDO NUM LAGO DO SUDESTE ASIÁTICO

Dendê

Vamos começar falando de uma notícia surpreendente, publicada pelos grandes veículos de comunicação na última semana: um pirarucu com 2,4 metros de comprimento e cerca de 108 kg foi capturado em um lago de Sabah, uma região da Ilha de Bornéu, na Malásia. Para os que não conhecem, a Malásia é um país continental/insular do Sudeste Asiático, que se estende entre a península malaia e a Austrália. 

Já o pirarucu (Arapaima gigas), esse é um dos peixes mais típicos da Bacia Amazônica. A espécie pode chegar a um comprimento de 3 metros e a um peso superior aos 250 kg, sendo considerado uma das maiores espécies de peixes de escamas de água doce do mundo. O pirarucu foi intensamente caçado por causa da qualidade e sabor de sua carne, estando na lista das espécies mais vulneráveis dos rios da Bacia Amazônica. Durante o Período Colonial, as aldeias dos Jesuítas instaladas na região processavam e salgavam o pirarucu, que depois era vendido em Portugal sob o rótulo de “bacalhau da Amazônia”. 

Imaginar um peixe como o pirarucu nadando nas águas de um lago no outro lado do mundo é surreal e só pode ser explicado pela introdução artificial da espécie nesse ecossistema. Onívoro, o pirarucu come frutas, insetos, moluscos, crustáceos, peixes, anfíbio, répteis e, conforme surja a oportunidade, ovos e aves aquáticas. Um peixe do seu porte introduzido em um outro ecossistema poderá resultar em enormes impactos às outras espécies aquáticas locais. 

Esse caso preocupante e curioso coloca em evidência duas das mais importantes florestas equatoriais do mundo: a Floresta Amazônica e as Florestas do Sudeste Asiático. Também mostra como a mídia internacional trata de maneira diferente problemas muito parecidos: a destruição das florestas e as suas consequências na mudança do clima do planeta. A Floresta Amazônica, talvez pela sua grandeza e por todo o misticismo que a cerca, não sai dos noticiários e o Brasil é responsabilizado sistematicamente, por países industrializados, de ser omisso na proteção da floresta e de ser um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global. Apesar do exagero, é preciso reconhecer que parte dessas acusações são verdadeiras. 

Agora, uma pergunta – vocês têm visto notícias frequentes sobre a destruição das Florestas do Sudeste Asiático? Essas notícias até são veiculadas, mas em quantidade muito pequenas quando defrontadas com a realidade – cerca de 2/3 das florestas da Malásia e da Indonésia foram derrubadas nas últimas décadas, especialmente para a exploração da madeira e para ampliação da agricultura. Como consequência de toda essa destruição, os rios locais e toda a sua biodiversidade estão seriamente ameaçados. Uma das grandes vilãs de toda essa devastação ambiental é uma palmeira de origem africana – a palma-da-Guiné ou dendezeiro (Elaeis guineensis), que produz um fruto rico em óleo e muito conhecido pelos brasileiros: o azeite de dendê

O óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Trata-se de um produto versátil, que pode estar presente em cerca da metade dos produtos vendidos em um supermercado. Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê é o seu uso como biocombustível em motores a diesel. A abertura de campos agrícolas para o plantio de dendezeiros responde por cerca de 0,4% dos desmatamentos mundiais – na Indonésia e Malásia, entretanto, essa cultura responde por metade dos desmatamentos. Ou seja, o biocombustível renovável feito a partir dos frutos do dendezeiro é o maior responsável pela destruição das Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático

Uma das áreas que mais vem sofrendo com os desmatamentos e o avanço das plantações de palma na Malásia e também no país vizinho, a Indonésia, são os solos dos pântanos de turfa. Esses solos são formados pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta, acumuladas por mais de 8 mil anos nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km sobre uma planície de inundação. As Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas, ajudando a controlar a intensidade das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática. 

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte de Sumatra (Dicororhinus sumatrensis), além de uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa é usada na destilação do whisky.

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados. 

As Autoridades da Malásia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê, parecem fazer vista grossa para os problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões do país, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas. Entre os países que compram o azeite de dendê da Malásia estão a França e a Alemanha, dois dos países que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. 

Enquanto muitos falam e outros ganham muito dinheiro, florestas e pântanos de turfa desaparecem silenciosamente no Sudeste Asiático, comprometendo as águas de rios e lagos, e ameaçando toda a rica biodiversidade aquática onde se encontra até o pirarucu da Amazônia. 

OS PERSEGUIDOS BAGRES-GIGANTES-DO-RIO-MEKONG

Giant Catfish (Pangasianodon gigas) photographed in an aquarium

O barramento de rios, principalmente para a construção de usinas hidrelétricas, é uma das atividades humanas que mais causam problemas para a biodiversidade dos rios. Em uma série anterior de postagens, tratamos longamente desse problema. Mas, apesar de tudo, a hidroeletricidade é uma das fontes energéticas mais eficientes e limpas que a humanidade dispõe. Projetos para a construção de usinas hidrelétricas necessitam de bons projetos, onde o estudo dos impactos ao meio ambiente e as medidas mitigadoras precisam ser as melhores possíveis. 

Na atualidade, um dos rios que mais vem sofrendo impactos ambientais criados pela construção de represas é o Mekong, o maior e mais importante rio do Sudeste Asiático. Existem 11 grandes projetos de usinas hidrelétricas em andamento – 9 no Laos e 1 no Camboja. A China já construiu 4 usinas hidrelétricas no trecho do rio que corta o seu território e tem intenção de construir mais 4. Em toda a bacia hidrográfica do rio Mekong existem cerca de 200 projetos de barramentos para os mais diferentes usos – geração de energia elétrica, abastecimento de água, irrigação, entre outros. 

O rio Mekong nasce nas Montanhas Himalaias do Tibete, região controlada pela China, e ao longo de seu curso de mais de 4.300 km atravessa outros cinco países – a fronteira entre Mianmar e Laos, grande parte da fronteira entre o Laos e a Tailândia, Camboja e por fim o Vietnã. Cerca de 100 milhões de pessoas, pertencentes a quase uma centena de grupos étnicos diferentes, vivem ao longo das margens do rio Mekong e dependem, direta ou indiretamente, de suas águas.  

No Delta do rio Mekong no Vietnã, uma região com aproximadamente 40 mil km², vivem cerca de 17 milhões de pessoas, população que depende das águas do rio para abastecimento, transporte e irrigação dos campos de arroz. O Vietnã é o terceiro maior produtor mundial e seu arroz é considerado um dos melhores do mundo. Aliás, o país exporta a maior parte da sua produção a várias décadas e importa arroz de qualidade inferior para o abastecimento de sua população, gerando assim receitas em moeda estrangeira para equilibrar sua balança de pagamentos.  

As águas do rio Mekong são também fundamentais para a agricultura de todos os países e regiões que formam a sua bacia hidrográfica. As Monções, conjunto de fortes ventos que se formam nas águas do Oceano Índico nos meses do verão, carregam poderosas massas de nuvens na direção das Montanhas Himalaias e criam uma fortíssima temporada de chuvas em todo o Sudeste asiático e subcontinente indiano. Essa temporada de chuvas costuma ser chamada popularmente de Chuvas da Monção

Essas chuvas provocam fortes enchentes nos rios da região, cobrindo todas as margens e áreas baixas com uma grossa camada de sedimentos e nutrientes. Essa camada de solo, com excepcional fertilidade, é usada há milhares de anos pelas populações da região para a produção de todo o tipo de gêneros alimentícios, especialmente o trigo, grão fundamental para as populações do Paquistão e da Índia, e o arroz, alimento principal dos países do Extremo Oriente e do Sudeste asiático. 

O barramento sucessivo das águas do rio Mekong poderá comprometer, irremediavelmente, o carreamento desses sedimentos e nutrientes. Isso não é uma mera especulação – a construção da represa Assuã no rio Nilo, inaugurada em 1960, fez isso. Desde a antiguidade, as populações que se estabeleceram ao longo das margens do rio Nilo, no Egito, se valiam das enchentes anuais e do carreamento de sedimentos para a produção de alimentos. Com a construção da represa, o fluxo de sedimentos nas águas do rio Nilo diminuiu muito e os agricultores foram obrigados a se valer de fertilizantes e produtos químicos para garantir a produtividade de suas plantações. Esse aumento nos custos de produção reduziu, substancialmente, os ganhos dos agricultores egípcios. 

Do lado biológico, a implantação de todo esse conjunto de obras é um verdadeiro desastre. O rio Mekong tem aproximadamente 1.200 espécies de peixes e produz, anualmente, mais de 2 milhões de toneladas de pescados, alimento essencial para as populações. Essa produção pesqueira, fatalmente, irá declinar ao longo do tempo. A espécie de peixe mais conhecida e explorada comercialmente no rio Mekong é a carpa-de-lama-siamesa (Henicorhynchus siamensis), também conhecida como trey riel. Esse peixe é tão popular e reconhecido pelas populações locais que seu nome foi dado à moeda do Camboja – o riel.  

Outra espécie impressionante da fauna do rio Mekong é a arraia-gigante (Dasyatis laoensis), que só foi descrita pela ciência bem recentemente – já foram capturados exemplares com 4,2 m de comprimento, 2 m de largura e peso superior a 300 kg. Uma espécie que também está seriamente ameaçada são os simpáticos e carismáticos golfinhos-do-Irrawaddy (Orcaella brevirostris). Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto, lembrando muito as belugas. Eles podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. 

O grande atrativo dos pescadores do rio Mekong são as suas diversas espécies de peixes gigantes, onde se destacam o monstro-do-rio (Bagarius yarrelli), um peixe que parece ser uma mistura de tubarão com jacaré, e a carpa-de-salmão-gigante (Aaptosyax grypus), peixes que superam facilmente um peso de 200 kg. A espécie mais conhecida e que tem a carne mais apreciada pela população é o bagre-gigante-do-rio-Mekong (Pangasianodon gigas), que podem chegar a 3 metros de comprimento (algumas histórias de pescador falam de espécimes com mais de 5 metros) e um peso da ordem de 300 kg. A espécie é considera o “rei dos peixes” do Mekong

Cada vez mais raro, o bagre-gigante (vide foto) é considerado uma verdadeira iguaria em países como o Vietnã, onde existe um ditado popular que diz que “quanto maior o peixe, melhor o sabor”. Para proteger a espécie, que corre riscos seríssimos de extinção, o governo do Vietnã proíbe a pesca e a venda no país desde 2008. As multas para quem for pego em flagrante vão de US$ 88 mil, para pescadores, a US$ 658 mil para empresas, e uma pena de reclusão que pode chegar aos 15 anos. Apesar dessa legislação rigorosa, não é difícil encontrar restaurantes que vendem clandestinamente pratos preparados com a carne do bagre-gigante. 

A escassez cada vez maior da espécie e os altos preços pagos pelos restaurantes – US$ 176.00 por kg, estimulam muita gente a correr os riscos. Os países do Sudeste asiático são famosos em todo o mundo pelos baixíssimos salários pagos aos seus trabalhadores – entre US$ 1.00 e US$ 2.00 por dia para os trabalhadores com as menores qualificações. Empresas chinesas têm aberto filiais no Vietnã e no Camboja em zonas industriais especiais buscando justamente reduzir os seus custos de produção, que já são extremamente baixos quando comparados com o resto do mundo. A perspectiva de capturar um grande exemplar de bagre-gigante em um único dia de trabalho pode significar a garantia de uma excelente aposentaria para qualquer um desses trabalhadores. 

Um dos poucos lugares os bagres-gigantes podem se sentir um pouco mais seguros é no Camboja, onde existe uma veneração religiosa em torno da espécie. O animal é retratado em esculturas nos templos locais desde o século XII e são consideradas criaturas detentoras de qualidades divinas. Para um pescador cambojano, pescar um bagre-gigante é um sinal de azar. Pescadores e contrabandistas de países vizinhos se aproveitam desse culto em torno da espécie e invadem as águas do trecho cambojano do rio Mekong atrás desses peixes. 

Entre as crendices benéficas de alguns e a ganância desenfreada de muitos, os bagres-gigantes-do-rio-Mekong caminham rapidamente para a extinção e de se tornarem lendários como os dragões.  

O POLÊMICO USO DOS PEIXES “BARRIGUDINHOS” NO COMBATE AO MOSQUITO AEDES AEGYPTI NO BRASIL

Barrigudinho

Na nossa última postagem falamos da introdução do peixe-mosquito (Gambusia affinis), uma espécie originária do México e dos Estados Unidos, em rios de todo o mundo, com o objetivo de combater as larvas de mosquitos causadores de doenças como a malária. Um dos casos mais famosos é o da região de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde a espécie começou a ser introduzida em 1925. A partir do suposto sucesso dessa experiência, o uso dos peixes-mosquito se popularizou, causando uma série de impactos ambientes nos ecossistemas invadidos. Além de comer as larvas dos mosquitos, a espécie também come ovas e alevinos de outras espécies de peixes, vermes, crustáceos, girinos e zooplâncton, competindo agressivamente com as espécies nativas. 

Um dos países com rios onde os peixes-mosquito foram introduzidos é a Austrália. Isolada do resto do mundo há cerca de 160 milhões de anos desde a separação dos continentes, a Austrália possui uma fauna e  flora altamente diferenciadas, com espécies que não são encontradas em outros lugares do mundo e, por essa razão, extremamente sensíveis à introdução de espécies exóticas. Em vários rios australianos, o peixe-mosquito se transformou em uma praga, ameçando a sobrevivêncai de espécies nativas de peixes, como o Scaturiginichthys vermeilipinnis,e muitos anfíbios. A partir de estudos feitos por pesquisadores locais, conclui-se que os ganhos obtidos com a introdução da espécie no combate aos mosquitos foram irrelevantes quando comparados às espécies locais de peixes que ocupam o mesmo nicho ecológico; já os impactos ambientais negativos, esses foram gigantescos

Conclusões semelhantes foram obtidas em estudos feitos em outros países, lembrando que os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, invadindo muitos outros a partir de migrações ao longo das bacias hidrográficas. Uma vez introduzidas em um ecossistema, espécies invasoras que obtém sucesso na colonização desse novo habitat são muito difíceis de serem eliminadas.

Apesar da enorme lista de problemas ambientais criados pela introdução de espécies de peixes exóticos com o objetivo de combater focos de larvas de mosquito, acumulados ao longo de quase um século de experiências em todo o mundo, a prática ainda continua. Aqui no Brasil, onde diversas regiões vêm enfrentando problemas com doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, diversas cidades estão usando um peixinho originário da Bacia Amazônica – o Barrigudinho, para o controle biológico das populações do inseto. Apesar de parecer inofensiva, essa prática produz diversos impactos negativos.  

O Barrigudinho (Poecilia reticulata), também conhecido como Guppy e Lebiste, é originário de rios da Bacia Amazônica, na América do Sul, e também de rios da América Central. A espécie, que é muito utilizada como peixe ornamental e muito conhecida pelos aquaristas, têm diversas características similares aos peixes-mosquito. Os machos da espécie atingem um comprimento máximo de 5 cm e as fêmeas podem chegar aos 7 cm. A espécie é vivípara, onde os alevinos já nascem formados, com as fêmeas dando à luz de 20 a 40 crias de cada vez. Em seu habitat natural, as populações do Barrigudinho vivem isoladas em trechos de pequenos rios e em lagos. 

À primeira vista, a introdução de uma espécie de peixe brasileira em rios brasileiros de outras regiões pode até parecer inofensiva. O problema é que vivemos em um país de dimensões continentais, com climas e biomas muito diversificados, onde as diversas espécies de seres vivos passaram por diferentes processos evolutivos e de adaptação aos seus respectivos ecossistemas ao longo de dezenas de milhões de anos. Nesses ambientes, todas as espécies desenvolveram suas próprias estratégias de sobrevivência, criando um perfeito equilíbrio entre presas e predadores. Quando uma espécie qualquer é retirada do seu habitat natural e é introduzida em outro ecossistema, ela pode passar a levar vantagens na predação de outras espécies, causando desequilíbrios populacionais. É esse o grande risco da introdução dos Barrigudinhos em outras bacias hidrográficas do país. 

A cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, vem utilizando os Barrigudinhos para o controle das larvas do Aedes Aegypti desde 2005. A espécie foi introduzida em cerca de 30 córregos da cidade e de toda a região de entorno, o que, segundo as Autoridades locais, trouxe excelentes resultados no controle das populações de mosquitos e na redução das infestações de Dengue, Zika, Chikungunya e febre amarela, doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti. Uberlândia é a maior cidade do interior do Estado de Minas Gerais, com uma população superior a 600 mil Habitantes, e está inserida na bacia hidrográfica do rio Paranaíba, um dos principais formadores do rio Paraná. A introdução de uma espécie de peixe amazônico nessa bacia hidrográfica, é claro, vai ter impactos ambientais. 

Um outro caso bastante divulgado é o da cidade do Rio de Janeiro, onde os Barrigudinhos vem sendo distribuídos para a população e introduzidos em rios e riachos do município desde 2013. Um dos principais focos do projeto são os depósitos de água, piscinas abandonadas, fontes públicas e lagos, onde a água parada é um convite para a procriação dos mosquitos. De acordo com dados da Vigilância Ambiental em Saúde do município, os casos de Dengue na cidade sofreram uma forte redução após a adoção dessa iniciativa: em 2012, foram contabilizados 130 mil casos de Dengue – em 2015, os casos registrados caíram para 17.700. Destaque-se aqui que a cidade do Rio de Janeiro está inserida dentro de pequenas bacias hidrográficas que desaguam diretamente no Oceano Atlântico, com águas altamente degradadas e poluídas. Os impactos criados com a introdução de uma espécie invasora, neste caso, são bem pequenos. 

O propagado sucesso de casos como os de Uberlândia e do Rio de Janeiro inspirou uma grande quantidade de prefeituras de todo o Brasil a adorem os Barrigudinhos como uma “ferramenta” para o controle de populações do Aedes Aegypti. Sem maiores estudos sobre os eventuais impactos junto à biodiversidade dos seus corpos d’água, essas Prefeituras passaram a adquirir os peixes, que devido ao seu grande uso como peixe ornamental de aquários são bem fáceis de serem encontrados no comércio, e passaram a fazer distribuição junto as suas populações. Um grupo de cientistas brasileiros e estrangeiros publicou um artigo na prestigiada revista científica Science em 2016, criticando o uso indiscriminado desses peixes e apontando os riscos ambientais.

Apesar dos muitos impactos ecológicos que o uso indiscriminado dos Barrigudinhos vêm provocando, existem casos onde a utilização da espécie para o controle das larvas do mosquito é feita de maneira responsável e elogiável. Um desses casos é encontrado no Piauí, onde os esforços para o controle do vetor são coordenados pela Universidade Estadual do Piauí com apoio da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias. 

Os trabalhos começaram em 2009, quando foi criado o Projeto Dengoso. Pesquisadores ligados à instituição iniciaram pesquisas no litoral do Piauí, onde se encontra o Delta do rio Parnaíba, buscando identificar populações locais de peixes da família Poecilidae, a mesma a que pertencem os Barrigudinhos da Amazônia. Numa segunda etapa, os peixes capturados foram transferidos para reprodução em tanques e só depois passaram a ser distribuídos por todo o Estado, para introdução em locais infestados pelas larvas dos mosquitos. Como esses peixes são nativos da mesma bacia hidrográfica, os impactos à biodiversidade serão mínimos. Foi criada uma cartilha infantil com informações sobre o Projeto para distribuição para as instituições envolvidas e também para os alunos das escolas.

Em toda e qualquer bacia hidrográfica existem espécies de peixes nativos que podem ser usados para o controle das populações de larvas de mosquito – é questão de se fazer uma boa pesquisa para identificação e uso dessas espécies, a exemplo do que foi feito no Projeto Dengoso do Piauí. A introdução indiscriminada de espécies “exóticas” como o Barrigudinho para realizar esse controle biológico, apesar de parecer inocente à primeira vista, vai causar uma série de problemas à biodiversidade local a médio e longo prazo.

O “PODEROSO” PEIXE-MOSQUITO

Peixe-mosquito

Na postagem anterior falamos dos problemas provocados pela introdução acidental das carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi. Importadas no início da década de 1970 para o controle de algas e crustáceos que infestavam os tanques de criação de peixes em fazendas de aquacultura, as carpas acabaram sendo arrastadas para a calha do rio Mississipi pelas fortes enchentes que assolaram a região no início dos anos de 1990. De lá para cá, com farta disponibilidade de alimentos e com pouquíssimos predadores naturais, a espécie passou a dominar as águas da bacia hidrográfica e está ameaçando toda a biodiversidade nativa. 

As carpas (Cyprinus carpio) podem atingir um comprimento de 1,2 metro e um peso da ordem de 50 kg. Extremamente voraz, o peixe pode consumir um volume diário de alimentos equivalente a 40% do seu próprio peso. Quando se fala em impactos à biodiversidade de um corpo d’água, porém, nem sempre a questão do tamanho e do porte da espécie invasora é o aspecto mais determinante.  Um pequeno peixe invasor – o peixe-mosquito, está causando uma série de impactos ambientais em rios de diferentes partes do mundo. Vamos entender sua história: 

O peixe-mosquito (Gambusia affinis) é um pequeno peixe nativo de rios de uma estensa região entre o Sul dos Estados Unidos e o México. O nome da espécie se deve ao pequeno tamanho – os machos têm até 3,5 cm de comprimento e as fêmeas cerca de 6 cm, e também à sua fama de grande predador das larvas de mosquitos. Genericamente, eles são conhecidos pelo nome de gambusia. A espécie habita ambientes lênticos de águas doces paradas e pequenos riachos, onde se alimentam de insetos, vermes e zooplancton. A espécie é vívipara (os alevinos já nascem formados) e se reproduz a altíssimas taxas durante os meses de verão – são entre 3 e 5 posturas de filhotes por estação, onde nascem até 60 alevinos de cada vez. 

A fama internacional de “super” caçador dos peixes-mosquito teve início em 1925, quando a espécie foi introduzida na região pantanosa de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde passou a atuar no controle das populações dos mosquitos transmissores da malária. Localizada a cerca de 1.600 km de Moscou, nas margens do Mar Negro, Sochi se transformou no mais importante balneário do país. Com temperaturas anuais entre 2° C e 27° C, um clima extremamente ameno para os rigorosos padrões russos, a cidade passou a chamar a atenção da aristocracia ainda no século XIX, quando Sochi foi transformada em balneário. Nicolau II, o último czar do Império Russo, era um assíduo frequentador de suas praias. 

Após a Revolução Russa de 1917, toda a sofisticada infraestrutura hoteleira de Sochi foi nacionalizada e transformada em um patrimônio da classe proletária soviética. A partir de 1920, os Governantes Russos iniciaram um amplo programa para ampliação da orla turística da cidade, que atingiria uma extensão total de 145 km. Um dos principais trabalhos realizados foi a drenagem de uma grande área pantanosa, onde foram abertos vários canais e houve o plantio maciço de eucaliptos, árvores de grande porte e rápido crescimento, com grande necessidade de água e ideal para a secagem de terrenos úmidos.  

A combinação de águas paradas e clima quente, que possibilitava a fácil procriação de mosquitos, transformou toda a região de Sochi num foco permanente de malária desde a antiguidade (existem registros arqueológicos que provam a presença humana na região há 100 mil anos). Foi aqui que entrou em cena o peixe-mosquito – por sugestão de cientistas e especialistas em biologia, as Autoridades Russas autorizaram a importação de espécimes do peixe-mosquito dos Estados Unidos em 1925. Aqui é importante lembrar que, naqueles tempos, os norte-americanos ainda não eram os arqui-inimigos do povo russo, situação criada décadas depois pela Guerra Fria. 

Nos Estados Unidos e no México, os peixes-mosquitos eram frequentemente introduzidos em açudes e represas para o controle de populações de mosquitos, obtendo um grande sucesso nessas missões. Os especialistas russos, conhecedores dessa habilidade dos peixes-mosquito e que recomendaram a introdução da espécie em águas russas, não levaram em consideração um pequeno detalhe: em águas da América do Norte, os peixinhos poderiam desempenhar seu papel convivendo com outras espécies nativas, inclusive com vários predadores naturais, responsáveis pelo controle das populações de peixe-mosquito. Sem maiores preocupações com os impactos ambientais e sem maiores estudos sobre a fauna aquática local, os peixes-mosquitos passaram a ser introduzidos nos rios e pântanos da região de Sochi

Os esforços do Governo da Rússia na região, pouco a pouco, passaram a mostrar bons resultados – em meados da década de 1930, o número de casos de malária na região foi reduzido em 6 vezes e a doença foi completamente erradicada em 1956. Pelos grandes serviços prestados à comunidade local no combate aos mosquitos causadores da malária, os peixes-mosquitos foram homenageados em 2010 com uma estátua em bronze no distrito de Adler, em Sochi

Após ser alçado à condição de “herói do povo da Rússia”, os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, que enfrentavam problemas semelhantes com mosquitos e com a malária e/ou outras doenças disseminadas pelo vetor. Foi então que especialistas começaram a perceber que os ganhos com a introdução da espécie invasora eram bem menores do que havia se imaginado e que os impactos à biodiversidade local, ao contrário, eram enormes

Uma das primeiras observações feitas mostraram que os peixes-mosquito comiam aproximadamente a mesma quantidade de larvas e insetos que peixes autóctones do mesmo porte desses países. Uma outra constatação, bem óbvia aliás, mostrou que os peixes-mosquito não se limitavam a comer apenas larvas de mosquito e insetos – como qualquer bom predador, os peixinhos comiam zooplâncton, vermes, pequenos crustáceos, ovas de peixes e alevinos de outras espécies, mostrando um apetite insaciável e bem desproporcional ao seu tamanho.  

Introduzidos em ecossistemas com boas condições ambientais e farta disponibilidade de alimentos, a espécie passou a se reproduzir rapidamente e a ocupar nichos ecológicos de outras espécies. Os peixes-mosquito também se mostraram grandes encrenqueiros, atacando e até matando peixes de outras espécies em lutas por alimentos e pela demarcação de territórios. Ou seja – a quantidade de problemas ambientais criados pela introdução dos peixes-mosquito em rios de todo o mundo se mostraram muito maiores do que os supostos ganhos no combate às populações de mosquitos. Falando em linguagem bem popular, ficou comprovado que “o crime não compensava”.

Na Austrália, citando um exemplo, os peixes-mosquito foram introduzidos na década de 1950, em regiões quentes e com alta incidência de mosquitos. A experiência mostrou que não houve ganhos na redução dos mosquitos e espécies nativas de peixes e de rãs passaram a ter sua sobrevivência ameaçada. Na Europa, os peixes-mosquito foram introduzidos em Portugal, Espanha, França e Itália, com o objetivo de combater a malária que era encontrada em algumas áreas remotas desses países. O surtos da doença foram eliminados com a implantação de sistemas de infraestrutura de saneamento básico nas décadas de 1960 e 1970. Já os impactos ambientais aos ecossistemas aquáticos desses países criados pela espécie invasora, esses prosseguem até hoje.

A história do peixe-mosquito é muito parecida com a dos pardais europeus (Passer domesticus), introduzidos na cidade do Rio de Janeiro em 1904. A cidade enfrentava um grande surto de febre amarela e algum “especialista” disse ao Prefeito Pereira Passos que os pardais eram grandes comedores de insetos. Cerca de 200 pardais foram importados de Portugal e soltos em uma cerimônia oficial no Campo de Santana. As aves não acabaram com os mosquitos Aedes Aegypti, que tiveram suas populações controladas com medidas de saneamento básico implantadas por Oswaldo Cruz, e pior: a espécie invasora passou a competir, e com grande vantagem graças ao seu porte avantajado, contra espécies nativas da Mata Atlântica como os sabiás, tico-ticos, sanhaços e curruíras, que disputavam os mesmos alimentos e habitats.

Moral da história – pouco importa o tamanho da espécie invasora, mas sim o tamanho dos estragos que elas podem provocar aos ecossistemas aquáticos locais. Está aí o peixe-mosquito para comprovar.

CARPAS ASIÁTICAS INVADEM RIOS DOS ESTADOS UNIDOS

Carpas asiáticas no rio Mississipi

No início da década de 1970, algumas fazendas de criação de peixes localizadas na bacia hidrográfica do rio Mississipi, no Sul dos Estados Unidos, passaram a importar carpas asiáticas, com o objetivo de controlar infestações de algas e moluscos nos tanques de criação dos peixes. Segundo as informações que foram repassadas aos aquacultores por especialistas em controle biológico, essas carpas eram peixes vorazes e com um apetite insaciável, podendo consumir diariamente até 40% do seu próprio peso em alimentos.

Na visão dominante na época, a introdução controlada dos peixes nas fazendas resolveria os problemas criados pelas espécies invasoras. Essa história lembra muito uma outra que vivemos aqui no Brasil – a introdução dos pardais europeus (Passer domesticus) no Rio de Janeiro, no início do século XX pelo Prefeito Pereira Passos, para o controle dos mosquitos transmissores da febre amarela. Clique aqui para conferir.

A carpa comum (Cyprinus carpio) é originária de lagos e rios da Ásia, especialmente da região da Eurásia Central. A espécie, que pode atingir um comprimento de até 1,2 metro e um peso de 50 kg, sempre foi utilizada para a alimentação humana. Desde a antiguidade, as carpas foram introduzidas em rios e lagos de toda a Ásia e Europa, tornando-se uma das espécies invasoras mais difundidas em todo o mundo – calcula-se que a espécie esteja presente atualmente em mais de 80 países.  

Com toda essa diversidade de novos ambientes, as carpas passaram a sofrer adaptações fisiológicas, surgindo uma infinidade de subespécies, com tamanhos e características diferentes. As carpas coloridas do Japão (Cyprinus carpio haematopterus), mais conhecidas pelo nome japonês de nishikigoi, é uma das subespécies mais conhecidas do mundo.  

O estratagema usado pelas fazendas de criação de peixe funcionou bem por cerca de 20 anos, com as carpas asiáticas dando “conta do recado”. Os problemas começaram no início da década de 1990, quando a bacia hidrográfica do rio Mississipi passou a enfrentar sucessivas cheias acima da média histórica, especialmente em regiões próximas do Delta. No seu trecho final, o rio Mississipi se abre num grande Delta, que se estende por cerca de 400 km de largura e ocupa uma área total de 75 mil km².  

Várias dessas fazendas foram atingidas e as carpas asiáticas acabaram sendo arrastadas dos tanques na direção da calha do rio MississipiExtremamente fortes e adaptáveis, as carpas passaram a colonizar as águas do rio. A exceção dos jacarés-norte-americanos (Alligator mississippiensis), as carpas asiáticas não possuem predadores naturais na bacia hidrográfica do rio Mississipi e acabaram avançando vorazmente contra as espécies nativas, alterando totalmente a biodiversidade do ecossistema. 

Sem encontrar predadores naturais, dispondo de grandes estoques de alimentos e possuindo uma alta taxa de natalidade – cada fêmea da espécie possui em seu ventre cerca de 1 milhão de ovas, as carpas encontraram um meio ambiente ideal e suas populações passaram a aumentar descontroladamente, o oposto da situação de suas congêneres do rio Tigre, citadas em postagem anterior. De acordo com entidades que representam os profissionais do setor, a pesca comercial no baixo curso do rio Mississipi já foi seriamente comprometida. 

A produção pesqueira sempre foi uma atividade econômica das mais importantes nessa extensa região, que além de peixes, produz grandes quantidades de crustáceos e moluscos, iguarias que sempre fizeram parte das culinárias cajun e creole. Entre os pratos mais famosos da região destacam-se o jambalaya, uma espécie de paella local com arroz, frango, chouriço francês, vegetais, lagostim ou camarão, e o gumbo, um ensopado de quiabo com camarões. 

A bacia hidrográfica do rio Mississipi é uma das maiores do mundo, ficando atrás apenas das bacias hidrográficas do rio Amazonas e do rio Congo, na África. O rio Mississipi tem aproximadamente 3.800 km de comprimento, ocupando a segunda posição na lista dos maiores rios da América do Norte. Entre seus principais afluentes destacam-se o rio Missouri, o maior rio do continente norte-americano, e os rios Ohio, Illinois, Arkansas e o Atchafalaya. A bacia hidrográfica do rio Mississipi drena uma área total de 3,2 milhões de km², onde se incluem 31 Estados americanos e 2 províncias canadenses.

Avançando cerca de 80 km a cada ano, as populações de carpas asiáticas foram ocupando toda a calha do rio Mississipi e invadindo afluentes de todos os tamanhos. Na sua marcha rumo ao Norte, as carpas atingiram também as calhas dos rios Missouri e Ohio, dois dos principais tributários da bacia hidrográfica, que em conjunto com o rio Mississipi formam a Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio, responsável pelo transporte anual de cargas num volume de mais de 425 milhões de toneladas

Um dos destaques da Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio é o Canal de Illinois e Michigan, concluído pelo Corpo de Engenheiros do Exército Americano em 1848. Esse Canal permitiu a interligação entre a bacia hidrográfica do rio Mississipi e os Grandes Lagos, ampliando imensamente as possibilidades de navegação hidroviária no país em meados do século XIX. Esse canal permitiu a navegação de barcaças de cargas vindas de toda a região dos Grandes Lagos e do rio São Lourenço na direção de New Orleans e do Golfo do México ao Sul, através do rio Mississipi.  

Importante interligação entre as duas bacias hidrográficas, o Canal de Illinois e Michigan passou a se apresentar como um caminho natural para o avanço das carpas asiáticas rumo ao extremo Norte dos Estados Unidos, além de abrir as portas do Canadá para a espécie invasora. Os Grandes Lagos representam a maior concentração de água doce do mundo e a chegada das carpas asiáticas, a exemplo do que aconteceu no rio Mississipi, poderia resultar em enormes impactos à biodiversidade local. Somente nos Grandes Lagos, a indústria pesqueira fatura US$ 7 bilhões por ano e gera dezenas de milhares de empregos

Autoridades da cidade Chicago e do Estado de Illinois, contando com apoio do Governo Federal dos Estados Unidos e com forte pressão do Governo do Canadá, decidiram implantar uma barreira no Canal de Illinois e Michigan, de forma a bloquear o avanço das carpas. O projeto experimental foi construído pelo Exército norte-americano, sendo formado por um conjunto de telas metálicas eletrificadas, que tem como objetivo espantar as carpas. O projeto também utiliza embarcações que descarregam pulsos elétricos de alta voltagem na água, matando as carpas aglomeradas nas proximidades da cerca (vide foto) – esses animais podem ser consumidos por populações humanas. Uma outra alternativa que foi proposta e que, felizmente, acabou rejeitada, seria a liberação de uma veneno químico que só mataria as carpas. 

A mais recente iniciativa para tentar controlar as crescentes populações de carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi se deu com a inauguração de um grande complexo industrial sino-americano no Estado do Kentucky. A empresa é especializada na produção de bolinhos de peixe, peixe defumado, peixe seco e molho de peixe, produtos voltados para o mercado chinês e que serão produzidos a partir das carpas asiáticas pescadas no rio Mississipi. O projeto também prevê o uso das tripas e resíduos resultantes do processamento dos peixes na produção de adubo

A super exploração de espécies aquáticas para fins comerciais sempre foi muito eficiente na redução e/ou extinção desses animais em seus ecossistemas naturais. No caso das carpas asiáticas que infestam esses grandes rios americanos, todos estão torcendo para que a tradicional “escrita” de muitas outras histórias trágicas, se repita. 

OS RISCOS AO MASQOUF, A CARPA ASSADA IRAQUIANA, OU FALANDO DOS PROBLEMAS DA BIODIVERSIDADE DO RIO TIGRE

Maqouf

A orgulhosa Bagdá foi pensada para ser grande – a cidade planejada foi fundada no dia 30 de julho de 762 pelo califa Almançor, com o claro objetivo de se transformar na capital do império islâmico. Foram necessários quatro anos do trabalho de mais de 100 mil trabalhadores, que levaram a cabo os projetos dos maiores engenheiros, projetistas e artistas daquela época. Entre as muitas tradições legadas pela histórica cidade ao mundo está o masqouf (ou masgouf)um prato a base de carpa grelhada. 

masqouf é uma espécie de prato nacional do Iraque. Vendedores do grelhado eram encontrados por todos os cantos das cidades; em Bagdá existiam restaurantes especializados na preparação do prato. Nos lugares mais sofisticados, as carpas eram mantidas vivas em um tanque – o cliente escolhia a carpa que queria comer, que era abatida, limpa e temperada na hora. O peixe limpo recebia sal apenas na parte interna, sendo colocado numa grelha fechada e com a parte interna voltada para as brasas (vide foto). O peixe ficava pronto em 45 minutos, sendo servido com cebolas e picles. O consumo dessa iguaria multicentenária, lamentavelmente, está sob ameaça – a intensa poluição das águas de rios como o Tigre, entre outros problemas “mais graves”, estão impedindo a pesca e a produção de carpas em cativeiro. Vamos entender essa história: 

De acordo com a tradição judaico-cristã a que nós ocidentais estamos mais acostumados, logo depois de criar o homem e a mulher, Deus fez um “paraíso na terra” para que eles pudessem habitar: o Jardim do Éden. A descrição dos livros sagrados dessas religiões deixa muito clara a localização desse paraíso: uma terra entre as águas dos rios Tigre e Eufrates. Nos séculos seguintes, essa região passou a ser conhecida no Ocidente com o nome de Mesopotâmia, palavra composta de origem grega que significa, literalmente, “terra entre rios“. 

Segundo evidências arqueológicas, essa região foi ocupada por volta do 7° milênio a.C. pelos primeiros agrupamentos humanos civilizados. As linhas de pesquisa apontam que a agricultura em larga escala começou a ser desenvolvida nas terras férteis do Sul a partir do 5° milênio a.C., inclusive com o uso de sistemas de irrigação. Com a fartura de águas oferecidas pelos rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia rapidamente se transformou num dos celeiros do mundo antigo, recebendo, em conjunto com o Vale do rio Nilo, o nome de Crescente Fértil. Sucessivas civilizações floresceram nessas terras: sumérios, acadianos, caldeus, babilônicos e assírios. Grandes impérios como o dos medos, dos persas e os antigos gregos, entre outros, não pouparam esforços para conquistar a região. A Mesopotâmia sempre foi uma região rica, disputada e instável. 

Essa instabilidade prossegue até os nossos dias: dos três países que formam as bacias hidrográficas dos rios Tigre e Eufrates, dois enfrentam guerras civis – Síria e Iraque; a Turquia, onde ficam as nascentes desses rios, vive uma relativa paz interna; o Governo central, porém, enfrenta sérios problemas com grupos pró-independência da região Curda nas regiões Leste e Sudeste do país, além de várias disputas milenares com outros grupos, como os armênios. Sem nos alongarmos muito mais em questões históricas, grande parte dos conflitos da região estão ligados à partilha dos territórios e formação artificial dos países por interferência de grandes potências ocidentais, uma divisão que não respeitou conflitos milenares entre diferentes grupos étnicos, e, principalmente, a disputa pelo controle das grandes reservas de petróleo da região. 

No caso do Iraque, o país foi formado pela fusão, num mesmo território, de três grupos humanos bem diferentes: os sunitas e os xiitas, duas vertentes opostas do islamismo, além dos curdos, um grupo étnico com origem, religião e língua diferente do resto do país. Além desses três grupos principais, o Iraque possui vários grupos menores como cristãos e judeus, entre muitas outras minorias étnicas. Governar esse verdadeiro “balaio de gatos” nunca foi uma das tarefas mais fáceis. 

Entre 1979 e 2003, o Iraque foi governado por Saddam Hussein, um ditador sanguinário de origem sunita. Apesar da relativa prosperidade econômica do seu Governo, garantida pelos altos rendimentos com a venda de petróleo, Saddam Hussein perseguiu e exterminou grupos curdos do Norte do país, se envolveu numa sangrenta guerra com o Irã (1980-1988), país vizinho de maioria xiita, além de invadir e anexar o Kuwait (1990), sob alegação que a região era uma província histórica do Iraque. Uma poderosa coligação militar comandada pelos Estados Unidos expulsou os iraquianos do Kuwait cerca de 6 meses depois. 

Após a derrota e expulsão do Kuwait, o regime do ditador Saddam Hussein passou a enfrentar uma série de conflitos internos. O colapso total do regime começou em 2001, logo após o atentado às Torres Gêmeas de Nova York, quando o Iraque passou a ser classificado pelos norte-americanos como um dos países formadores do “Eixo do Mal”. Em 2003, uma Coalizão Militar Internacional iniciou uma intervenção no Iraque, removendo Saddam Hussein do poder. O ditador tentou fugir do país, mas foi capturado, julgado e condenado à morte em 2006. 

E o que toda essa confusa histórica do Iraque em décadas recentes tem a ver com as carpas assadas de Bagdá?  

O rio Tigre, em conjunto com seu rio irmão, o Eufrates, acabaram sendo transformados em locais de desova para milhares de corpos das vítimas dos inúmeros conflitos entre os diversos grupos que lutam pelo controle do país. Cadáveres flutuando nas águas dos rios passaram a fazer parte das “paisagens” do país, principalmente no rio Tigre, que corta a cidade de Bagdá. Habitante do ecossistema aquático do rio Tigre, a carpa comum (Cyprinus carpio), que é um peixe onívoro originário da região do Cáucaso na Eurásia, passou a incluir a carne humana desses mortos no seu cardápio, para desespero dos clérigos muçulmanos.

Os muçulmanos ou islamitas, como preferem ser chamados, seguem o halal, um rigoroso conjunto de comportamentos, formas de vestir e de falar, e especialmente de alimentos que podem ser consumidos e que são permitidos pela religião. Se para qualquer pessoa civilizada já seria complicado consumir a carne de um animal que se alimentou de carne humana, para um crente que segue os ensinamentos do Islã é algo simplesmente inadmissível – a situação se complica ainda mais pelo fato de muitos dos mortos “desovados” nos rios serem de fé muçulmana. Quando as primeiras notícias dessa tragédia começaram a circular no Iraque, muitos clérigos (líderes espirituais das mesquitas) publicaram fatwas, decretos religiosos, proibindo o consumo da carne das carpas dos rios. 

A criação de carpas em cativeiro passou a ser uma alternativa para contornar os fatwas e abastecer o mercado, garantindo a preparação do tradicional masqouf. Tanques flutuantes para a criação dos peixes passaram a ser vistos nas cercanias das principais cidades do país, especialmente no rio Tigre. Em 2016, a produção de carpas em cativeiro no Iraque atingiu a marca de 29 mil toneladas, apesar da intensa poluição das águas, que sofrem com o lançamento de esgotos domésticos, industriais, lixo e “muitos outros resíduos”

Em outubro de 2018, uma nova tragédia se abateu sobre o rio Tigre – milhões de carpas começaram a morrer nos tanques de criação. Inicialmente, circularam notícias que falavam do lançamento de veneno nas águas do rio por um dos muitos grupos armados em luta no país. Estudos posteriores mostraram que a causa da mortandade dos peixes foi um surto do vírus do herpes Koi (KHK), inofensivo para os seres humanos, mas mortal para esses animais

A desova de corpos e a poluição das águas dos rios, os fatwas, e, mais recentemente, o surto do vírus do herpes, levaram a grandes questionamentos acerca da qualidade das carpas e a uma forte diminuição do consumo dessa carne no Iraque. O masqouf, é claro, ainda continua a ser servido, porém, em um número cada vez mais restrito de restaurantes e usando apenas carpas criadas em cativeiros de cidades muito distantes do rio Tigre. Os preços populares de outrora da iguaria, agora estão absurdamente salgados e muito distantes das posses da imensa maioria dos habitantes do país. 

Ameaças à biodiversidade das águas também causam prejuízos à cultura dos países.

AS AMEAÇAS ÀS POPULAÇÕES DE TRUTAS NOS RIOS DO CANADÁ

Truta-arco-íris

O discreto Canadá é o maior país da América do Norte e o segundo maior país do mundo em superfície, superado apenas pelo gigantesco território da Rússia. O país tem uma área total com quase 10 milhões de km², cerca de 1,5 milhão de km² maior que o Brasil. É um dos países com a maior disponibilidade de águas doces superficiais, apresentando cerca de 7% do total disponível no mundo. 

As paisagens canadenses são muito particulares e combinam grandes cadeias de montanhas, florestas, pradarias, planícies, tundra e campos de gelo, além do país possuir o maior litoral do mundo, com mais de 200 mil km de extensão. A água é um dos elementos dominantes das paisagens canadenses – 8,6% da superfície do país é formada por corpos d’água e nenhum outro país tem tantos lagos como o Canadá. Os canadenses tem uma relação muito próxima com a água, podendo até serem comparados com as populações da Amazônia – a vida junto às águas faz parte da identidade cultural dos canadenses. 

A pesca esportiva, especialmente de trutas, é uma das atividades mais populares no país, sendo praticada por centenas de milhares de pessoas. Uma das técnicas mais divertidas é a chamada fly fishing, ou pesca com mosca, onde se usa uma isca que imita um inseto e que é lançada e puxada rapidamente na água. O período de reprodução das trutas ocorre entre o outono e o inverno, época em que os peixes realizam uma migração em rios com forte correnteza, rumo as suas zonas de desova e fazem a festa de uma legião de pescadores e de ursos, animais que se aglomeram nos rios para capturar o maior número possível de peixes. 

A alegria de pescadores e ursos, infelizmente, pode estar com os dias contados – mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global já são bastante visíveis no Canadá e o futuro das trutas em rios canadenses pode estar seriamente ameaçado. Vamos entender o que está acontecendo: 

As trutas são peixes de escamas, com corpo comprimido e alongado, encontradas originalmente em rios de águas frias do Hemisfério Norte. As espécies mais comuns são a truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss), encontrada em rios da costa do Oceano Pacífico, entre o Alaska e a Califórnia, e a truta-marrom (Salmo trutta), que ocorre em rios da Europa e da Ásia. A truta-arco-íris (vide foto) tem um comprimento entre 30 e 45 cm, podendo pesar até 2 kg – recentemente, um pescador norte-americano capturou um espécime com mais de 21 kg de peso, batendo o recorde mundial da maior truta já pescada.  

A truta-arco-íris passou a ser criada em cativeiro em pelo menos 45 países, sendo introduzida de propósito ou acidentalmente em diversos rios de montanha nesses países. No Brasil, as trutas-arco-íris podem ser encontradas em rios da Serra da Mantiqueira, entre os Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, além de rios das regiões serranas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A introdução dessa espécie exótica em rios brasileiros, é claro, causou uma série de impactos nos ecossistemas locais. 

Uma das características mais marcantes das trutas é a sua dependência de águas cristalinas, puras e muito oxigenadas, típicas de regiões montanhosas, sem as quais as diversas espécies não conseguem sobreviver. As trutas também são muito sensíveis à presença de poluentes e resíduos de agrotóxicos e fertilizantes nas águas. Os apreciadoras da truta alegam que, graças a todo esse conjunto de características, a carne do peixe é uma das mais saudáveis para o consumo humano. 

No Canadá, um dos efeitos do aquecimento global pode ser visto no aumento da temperatura das águas dos rios, que tradicionalmente sempre foram muito frias, cristalinas e altamente oxigenas. Esse aumento na temperatura está provocando um aumento na quantidade de algas nas águas, o que, entre outras coisas, resulta numa diminuição nas taxas de oxigênio dissolvido. Em seu processo de fotossíntese, as algas absorvem oxigênio, competindo diretamente com os peixes. Quando morrem, as algas servem como alimento para inúmeras espécies de bactérias aquáticas, muitas delas aeróbicas (que respiram ar), levando a uma redução ainda maior nos volumes de oxigênio dissolvido na água. 

Com o empobrecimento da oxigenação das águas, as exigentes trutas apresentam uma forte redução no seu metabolismo e ficam sem energia para enfrentar a força das correntezas na sua jornada rumo às cabeceiras dos rios e dois locais usados para a desova e reprodução da espécie. Com seu ciclo reprodutivo interrompido, as populações de trutas-arco-íris estão entrando em declínio, correndo risco de extinção em algumas regiões onde o aquecimento das águas está mais acelerado.

O aumento das temperaturas no Canadá também produz reflexos negativos nas fontes de água que formam grande parte dos rios – o derretimento de geleiras de suas montanhas. Com parte considerável do seu território dentro de latitudes polares, o Canadá apresenta invernos rigorosos, com grande precipitação de neve. Com a chegada da primavera, essa grossa camada de neve derrete, alimentando uma complexa rede de rios e lagos com água fresca. Em regiões montanhosas, essa neve se condensa na forma de geleiras permanentes, que derretem lentamente em altitudes mais baixas e alimentam continuamente diversos rios. Alguns estudos científicos projetam um aumento de até 8° C na temperatura do Norte do Canadá, o que poderá resultar no derretimento de 20% das geleiras existentes. 

Na região das Montanhas Rochosas, no Oeste do Canadá, a situação é mais preocupante – as projeções indicam que as geleiras dessas montanhas poderão perder até 70% de sua massa de gelo até o final deste século. Uma das geleiras mais ameaçadas é a Columbia Icefield, na Colúmbia Britânica, o maior glaciar montanhoso do mundo. O Glaciar Athabasca, um dos principais braços do Columbia Icefield, é uma das maiores atrações turísticas da região e um exemplo da redução das geleiras no país. Atualmente, o Athabasca ocupa uma área com aproximadamente 6 km², com uma capa de gelo com uma altura entre 90 e 300 metros. Nos últimos 125 anos, a geleira recuou mais de 1,5 km e perdeu mais da metade do seu volume. Atualmente, a geleira vem apresentando um recuo anual entre 2 e 3 metros. O degelo continuo dessa geleira alimenta uma infinidade de rios que descem das montanhas e formam os habitats ideias para a sobrevivência das trutas. 

Recentemente, uma geleira na Ilha Baffin, a 5° maior ilha do mundo e localizada no Norte do Canadá, derreteu e deu uma pequena amostra dos efeitos do aquecimento global. Estudos realizados nos afloramentos rochosos expostos pelo degelo mostraram que a geleira sobreviveu ali por cerca de 40 mil anos. Uma das conclusões dos estudos no local indicam que a região está passando pelas temperaturas mais altas dos últimos 115 mil anos. Os rios alimentados por essa geleira, simplesmente, desapareceram

Mas, nem sempre, o derretimento de uma geleira acontece de forma lenta e gradual – em abril de 2017, nós publicamos uma postagem aqui no blog, onde falamos do derretimento brusco de uma geleira no Norte do Canadá e do desaparecimento do rio Slims, um processo que durou apenas 4 dias – toda a biodiversidade das águas desapareceu instantaneamente. Um dos braços do Glaciar Kaskawulsh, que alimentava o rio Slims, desapareceu e toda a água resultante do derretimento passou a correr na direção de uma outra bacia hidrográfica, a do rio AlsekEsse processo irá se repetir inúmeras vezes nos próximos anos e dezenas de rios canadenses irão desaparecer de uma hora para outra, exterminando os habitats de inúmeras espécies, incluindo-se nessa lista as agitadas trutas-arco-íris. 

Na gíria antiga do meu bairro, quando alguém falava “é truta”, isso queria dizer que se tratava de uma mentira – com o passar do tempo, a expressão foi ganhando outros significados. Nesse caso, infelizmente, trata-se da mais pura verdade – as trutas dos rios canadenses poderão desaparecer dentro de poucas décadas.