O RENASCIMENTO DA FLORESTA DA TIJUCA, OU ERA UMA VEZ NO RIO DE JANEIRO…

Na última postagem apresentamos um resumo do quadro caótico que tomou conta do abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XIX. Os intensos desmatamentos das florestas ao redor da cidade, principalmente para a criação de grandes cafezais, comprometeram inúmeras das nascentes que forneciam a água que corria para as fontes públicas.

Um dos corpos d’água mais degradados há época foi o rio da Carioca, uma das principais fontes de água do sistema de abastecimento do Rio de Janeiro. Esse rio era tão importante que compartilhava o nome com os naturais da cidade – os cariocas. 

A situação foi agravada pelo rápido crescimento da cidade a partir da chegada da Família Real portuguesa e toda a sua Corte – diferentes fontes falam de um acréscimo entre 12 e 20 mil pessoas à população da cidade após esse evento. Esse aumento da população foi seguido por um forte crescimento da demanda por mão de obra e transformou o Rio de Janeiro no maior mercado de venda de escravos do Brasil. Milhares de novos escravos passaram a ser incorporados à população da cidade a cada ano, pressionando cada vez mais as fontes de abastecimento de água. 

O dia a dia dos cariocas, tanto os nativos quanto os recém chegados, não era dos mais confortáveis e salutares. Mesmo tendo sido elevada à categoria de Metrópole do Império Ultramarino Português, as ruas da cidade do Rio de Janeiro eram feias, sujas e cheiravam pessimamente mal – os canais de drenagem de águas pluviais, que também eram usados para a dispersão dos esgotos e do lixo, estavam quase sempre secos e cobertos com uma grossa camada de excrementos humanos e detritos. Os nobres e os demais membros da Corte não paravam de reclamar das péssimas condições de saneamento ambiental daquele “fim de mundo”. 

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, o que agravou ainda mais a escassez de água potável e aumentou as dificuldades para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. Agora não eram apenas os nobres e ricos que reclamavam – toda a opinião pública da cidade passou a exercer uma forte pressão sobre os Governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas produtores de água. 

Data da década de 1820 a primeira decisão de se desapropriar terras na Tijuca para reflorestar as nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela exploração indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e criação de animais destinados ao consumo da crescente população. 

A partir de 1845, inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas e as desapropriações de fazendas se intensificaram. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais. 

A partir de 1861, por ordem do imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala. A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores.  

Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente mudas de espécies da Mata Atlântica, que ainda resistiam em pequenos fragmentos florestais, e muitas espécies exóticas. Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou.

Esse gradual renascimento da Floresta da Tijuca foi responsável pela recuperação dos caudais do rio da Carioca e, consequentemente, pelo reestabelecimento da capacidade de produção do sistema de abastecimento de água da cidade. O crescimento gradual dos volumes de água garantiria parte importante do abastecimento da população carioca até o final do século XIX, quando novas fontes passaram a ser incorporadas ao sistema. 

Em 1961 a floresta foi elevada a condição de Parque Nacional do Rio de Janeiro, nome alterado anos depois para Parque Nacional da Tijuca, ou simplesmente Floresta da Tijuca (vide foto) para os cariocas, com área total de 3.953 ha. Além de abrigar excepcional patrimônio natural da Mata Atlântica, o Parque concentra dentro dos limites de sua área valiosos bens culturais e históricos, constituindo a maior floresta artificial urbana do mundo, contemplando maciços rochosos, quedas d’água, riachos, fauna e flora da Mata Atlântica, mirantes, ruínas de antigas fazendas e da Real Fábrica de Pólvora, entre outras atrações. 

Junto com as praias e as montanhas que envolvem a cidade do Rio de Janeiro e a transformaram no cartão postal mais conhecido do Brasil em todas as partes do mundo, a Floresta da Tijuca é um dos grandes patrimônios naturais da capital fluminense, fornecendo ainda hoje preciosos serviços ambientais e atraindo milhares de turistas a cada ano.

Entre as melhores lembranças que eu tenho da cidade do Rio de Janeiro, onde tenho raízes familiares, estão caminhadas que fiz quando adolescente em trilhas no meio dessa floresta. Uma espécie de árvore que abunda nessas matas são as jaqueiras, uma planta de origem asiática que se adaptou perfeitamente ao clima local. O cheiro adocicado dessas frutas ao longo das trilhas era marcante e inesquecível. 

Desgraçadamente, esses trabalhos de reflorestamento e recuperação de áreas devastadas pela cultura do café não se estenderam a outras regiões do interior da Província do Rio de Janeiro. Áreas que no passado foram cobertas por uma densa floresta de Mata Atlântica e que foram transformadas em fazendas produtoras de café, foram abandonadas a própria sorte após a exaustão dos solos. O que foi floresta, na melhor das hipóteses, acabou transformado em ralas matas de capoeira – a maior parte dessas áreas virou pastagem para o gado ou terras para uma agricultura de pequena escala. 

Não existem estudos antigos sobre as florestas e bacias hidrográficas da Província do Rio de Janeiro anteriores ao ciclo do café, o que dificulta se fazer uma comparação da situação do meio ambiente antes e depois. É possível especular, genericamente, que toda a devastação ambiental que se seguiu ao início da cafeicultura na Província causou uma grande diminuição dos volumes de água das principais bacias hidrográficas e que expressivos volumes de sedimentos resultantes da erosão dos solos ocuparam importantes espaços na calha dos corpos d’água. 

Também podemos supor que populações animais foram reduzidas, ou até mesmo extintas, e que houve uma importante redução na diversidade botânica das matas. De acordo com estimativas, cerca de 97% do território do Rio de Janeiro era coberto por Mata Atlântica e ecossistemas associados como matas de altitude, restingas e mangues há época do descobrimento do Brasil. Atualmente, pouco mais de 15% das terras fluminenses ainda são cobertas com vegetação do bioma, especialmente em encostas de morros e serras, o que nos dá uma clara ideia da herança que foi deixada pela cultura do café no Estado. 

Como eu comentei em uma postagem anterior, a situação lembra uma área atacada por uma grande nuvem de gafanhotos – depois de comer a última folha da vegetação, os gafanhotos levantaram voo em busca de matas virgens para atacar. 

FLORESTA DA TIJUCA: UM EXEMPLO DOS IMPACTOS DA DEVASTAÇÃO AMBIENTAL PRODUZIDA PELA CAFEICULTURA

Nas últimas postagens montamos um resumido quadro histórico da chegada e interiorização da cultura do café na Província do Rio de Janeiro. Segundo os registros históricos, as primeiras mudas e/ou sementes de café chegaram nas terras fluminenses por volta de década de 1760. Ainda nas últimas décadas do século XVIII, os primeiros cafezais começaram a ocupar áreas ao redor da cidade do Rio de Janeiro. Uma dessas áreas ficava exatamente onde encontramos hoje a Floresta da Tijuca. 

Quando a cidade do Rio de Janeiro foi fundada em 1565, as montanhas e serras da região eram cobertas por uma imponente cobertura florestal, constituída exclusivamente por espécies da Mata Atlântica. Eram árvores de grande porte, com algumas espécies podendo chegar até 45 m de altura e com troncos de mais de dois metros de diâmetro. A partir de meados do século XVII, essas matas começaram a ser derrubadas e substituídas por plantações de cana-de-açúcar, principalmente na região da Baixada Fluminense.  

Além de necessitar de grandes extensões de terras para as plantações de cana, a indústria do açúcar também exigia a queima de grandes quantidades de madeira para a geração do calor necessário às diversas etapas da produção do açúcar – eram usados até 20 kg de lenha para a produção de um único quilo de açúcar. Os remanescentes florestais que ainda existiam na região passaram a ser derrubados e transformados em lenha para os engenhos. 

Em 1763, após o início da exploração do ouro nas Minas Gerais, a capital da Colônia foi transferida de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro. A proximidade geográfica com as zonas produtoras facilitaria imensamente a administração da produção e a exportação do precioso metal para a Metrópole. A cidade portuária viveu nesse momento a sua primeira explosão populacional, assumindo em pouco tempo o título de maior cidade da Colônia com uma população de 30 mil habitantes. 

No final do século XVIII, as plantações de café começaram a ocupar as antigas áreas desflorestadas pelos canaviais e também a pressionar as matas remanescentes. O cafeeiro, conforme já comentamos em outras postagens, é uma planta arbustiva bastante exigente quanto a qualidade dos solos, excessos de calor e de frio, ventos e concorrência com outras espécies vegetais.

Rapidamente, os produtores perceberam que as encostas dos morros com suas matas eram os locais ideais para o plantio dos cafezais. A região da Tijuca, que ainda apresentava uma expressiva cobertura de floresta de Mata Atlântica há época, passou a ser desmatada e ocupada com imensos cafezais

O sucesso da cultura do café rapidamente começou a mostrar os seus custos ambientais em função da substituição da cobertura florestal por plantações. Apesar de sua localização em uma das melhores áreas portuárias naturais do Brasil – a Baía da Guanabara, a cidade do Rio de Janeiro sempre sofreu com a falta de água potável. Esses problemas se agravaram após a chegada do café a terras fluminenses.

Sem rios extensos e caudalosos, o abastecimento da população local sempre dependeu dos inúmeros riachos com nascentes nas encostas dos morros. Um desses corpos d’água, o Rio da Carioca, tinha suas nascentes justamente nas matas da Tijuca. Com a devastação das matas na região, o rio passou a apresentar uma grande redução dos seus caudais

O sistema de abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, construído logo após a transferência da capital, trazia as águas do Rio da Carioca até o centro da cidade através de um sistema de tubulações que incluía um trecho em forma de aqueduto – os famosos Arcos da Lapa (vide imagem). Essa água jorrava através de um conjunto de fontes públicas e era carregada por moradores e escravos em jarros até as residências.

Os já antigos problemas de abastecimento de água na cidade passaram a ser mais frequentes a partir de 1808, ano da chegada da família Real Portuguesa. Naquele ano, a então modesta cidade colonial do Rio de Janeiro foi promovida a Metrópole do Império Ultramarino Português e sofreu uma grande explosão populacional.

Com a eminente invasão de Portugal pelas tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte, toda a Corte Portuguesa (estamos falando de um número entre doze e vinte mil pessoas, conforme a fonte) acompanhou a Família Real para um “exílio” em terras brasileiras. Somente na frota da Marinha da Inglaterra, país aliado de Portugal e que disponibilizou vários navios para a evacuação de Lisboa, aproximadamente 11.500 pessoas se espremeram nas naus para acompanhar a Família Real e se beneficiar desta segurança para a fuga.

A cidade do Rio de Janeiro, bastante modesta para o padrão das capitais europeias da época, era de longe a cidade com a “melhor infraestrutura da Colônia” e candidata natural a receber todo esse contingente estrangeiro. Para acomodar, alimentar e manter toda essa crescente população, os já depauperados recursos florestais passaram a ser explorados ao máximo: precisava-se de madeiras para a construção civil, lenha para as cozinhas, liberação de novas áreas para a produção de alimentos e criação de animais, entre outros usos. 

Em períodos de estiagem a vazão da água costumava diminuir muito, o que provocava reclamações da população. Após a devastação das matas da Tijuca pelos cafezais, a água passou a desaparecer no período da seca. Além dos problemas de escassêz, a situação era agravada por atos de vandalismo – haviam relatos de danos às tubulações provocados por grupos de escravos fugitivos, que se escondiam nas matas ao redor da cidade e que buscavam dessa forma algum tipo de vingança contra os antigos senhores. 

Outro problema que surgiu foi a falta de mão de obra – após todo esse caótico período que se seguiu à chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, quando milhares de casas tiveram de ser construídas às pressas para acomodar os recém chegados, a cidade do Rio de Janeiro passou a apresentar uma forte demanda por mais escravos. 

Naqueles tempos antigos, todos os trabalhos domésticos, desde a preparação dos alimentos até a ingrata tarefa de esvaziar os penicos usados pela nobreza e pelas elites, dependiam dos escravos. Essa mão de obra também era essencial para carregar compras e todo o tipo de produtos, carregar as liteiras (o tipo de transporte individual usado há época), rachar e carregar lenha para as cozinhas, tratar dos animais domésticos e das hortas, entre outros trabalhos.

Nos sítios e fazendas do cinturão verde da cidade, se faziam necessárias mais mãos para trabalhar na produção de alimentos como o milho e a mandioca. A nascente indústria cafeeira, por sua vez, demandava cada vez mais gente a fim de atender ao insaciavel mercado externo do café. 

A província do Rio de Janeiro se transformou rapidamente no maior mercado comprador de escravos do Brasil – fossem eles “novos”, recém importados desde os portos da costa da África, fossem eles de “segunda mão”, trazidos de outros pontos da Colônia. Os preços dos “produtos” dispararam e muita gente fez fortuna. Esse aumento vertiginoso da população, livre e escrava, só fazia aumentar a pressão sobre os parcos recursos hídricos disponíveis então. 

Como não poderia deixar de ter acontecido, a cidade do Rio de Janeiro simplesmente entrou em colapso devido à escassez de água. Foi então que os Governantes locais se lembraram das antigas matas que outrora existiram na região da Tijuca, onde abundavam nascentes de água. Era preciso reflorestar a região e torcer pela volta das nascentes de água. 

Foi assim que começou a renascer a Floresta da Tijuca. Falaremos disso na próxima postagem. 

ANTÔNIO CLEMENTE PINTO, O PRIMEIRO BARÃO DE NOVA FRIBURGO

A cafeicultura na província do Rio de Janeiro foi, ao longo de grande parte do século XIX, a principal geradora de riquezas do Brasil. Nesse período, que se estendeu até a década de 1870, a então Província do Rio de Janeiro chegou a produzir perto de 80% de todo o café brasileiro, uma cultura que trouxe muita riqueza e forjou toda uma classe de “nobres” locais. 

Um grande exemplo dessa elite cafeeira foi Antônio Clemente Pinto, um proprietário rural luso-brasileiro e considerado um dos homens mais ricos dos tempos do Império. Clemente Pinto foi um típico homem de negócios da sua época e chegou a ser dono de, pelo menos, uma dúzia de fazendas produtoras de café nas regiões de Nova Friburgo, Cantagalo e São Fidélis. 

Antônio Clemente Pinto nasceu em uma pequena aldeia do Norte de Portugal em 1795. Ele chegou ao Brasil em 1821, onde começou a trabalhar como caixeiro em uma loja na cidade do Rio de Janeiro de propriedade de João Rodrigues Pereira de Almeida, o Barão de Ubá, um rico comerciante e fazendeiro português. Uma curiosidade: um dos seus companheiros de ofício naqueles tempos do início de carreira foi Irineu Evangelista de Souza, o futuro Barão de Mauá e primeiro grande industrial do Brasil

Contando com a ajuda e mentoria do seu patrão, Clemente Pinto ingressou no lucrativo e polêmico comércio de escravos africanos. Essa atividade, que até meados do século XIX foi um dos negócios mais lucrativos das três Américas, era fundamental para a agricultura há época, onde praticamente tudo dependia das pernas e braços dos escravos. 

O uso da mão de obra escrava em Portugal começou ainda nos primeiros tempos da independência (ocorrida em 1139), quando muitos dos muçulmanos derrotados em batalhas eram escravizados pelos lusos. Durante séculos, os exércitos cristãos dos portugueses (e também dos castelhanos) lutaram contra os chamados mouros, empurrando os invasores cada vez mais para o Sul da Península Ibérica. A cada vitória dos cristãos, surgiam milhares de potenciais escravos para uso nos trabalhos mais pesados e degradantes.

Com a gradual conversão dos mouros ao cristianismo, os portugueses passaram a se valer dos negros escravizados comprados na África. Há registros de escravos africanos trabalhando em plantações de cana de açúcar em Portugal ainda no século XIV. Aos tempos do descobrimento do Brasil, existiam cerca de 30 mil escravos africanos em Portugal. Após as fracassadas tentativas de usar a mão de obra indígena no empreendimento da colonização do Brasil, os portugueses iniciaram a importação da mão de obra africana – um censo de 1584 indicou que já existiam cerca de 10 mil escravos trabalhando na Região do Nordeste Açucareiro.

No ano de 1600, o número total de escravos negros no Brasil atingiu a marca de 30.000; em 1700, chegou ao número de 150.000, concentrados na Região Nordeste. Durante o Ciclo do Ouro, a demanda por escravos aumentou ainda mais. Com o crescimento das plantações de café a partir das últimas décadas do século XVIII, o tradicional negócio, mais do que nunca, foi de “vento em popa” para os “empreendedores”. 

Esses bons ventos, porém, mudaram de direção em 1845, quando o Parlamento Britânico aprovou o Bill Aberdeen, uma lei inglesa que passou a conceder à Marinha Real Britânica o direito de abordar em alto mar qualquer navio, de bandeira inglesa ou de qualquer outro país, suspeito de tráfico de escravos.

Essa medida passou a criar sérias dificuldades para o comércio internacional de escravos, o que levou muitos dos antigos comerciantes a mudar de ramo. Clemente Pinto passou a concentrar seus esforços e recursos na compra de terras para a produção do valioso café, entre outras atividades. Em poucos anos, Clemente Pinto se tornou um dos maiores produtores do Brasil.

Citando apenas duas de suas fazendas: em Nova Friburgo, Clemente Pinto comprou a Fazendo de São Lourenço, com uma área de aproximadamente 2 mil alqueires (considerando o antigo Alqueire Mineiro, essa medida corresponde a cerca de 9,6 mil hectares, sendo que cada hectare corresponde a 10 mil m²). Na mesma cidade, também possuía a Fazenda do Cônego com área de 1.200 alqueires (cerca de 5,8 mil hectares). Cerca de 200 escravos trabalhavam nessas fazendas. 

Uma das grandes realizações de Antônio Clemente Pinto e que nos dá uma verdadeira ideia do tamanho do seu patrimônio e visão de negócios, foi a construção, com recursos próprios, da Estrada de Ferro de Cantagalo, obra iniciada em 1857 e que se destinava ao escoamento de sua produção de café. O primeiro trecho dessa ferrovia, que foi concluído em 1860, ligava a Raiz da Serra (Cachoeiras de Macacu), em Friburgo, ao Porto das Caixas, na região de Itaboraí. Após sucessivas ampliações, levadas a cabo por seu filho – Bernardo Clemente Pinto, a linha férrea passou a ligar, em 1876, Niterói a Cantagalo, passando por Nova Friburgo, com uma extensão total de 178 km. 

Em reconhecimento às suas grandes realizações e, conforme comentamos em postagem anterior, feito o devido pagamento pelo título nobiliárquico, Antônio Clemente Pinto recebeu o baronato através de um Decreto Imperial em 28 de março de 1854. Junto com o título de Primeiro Barão de Nova Friburgo, Clemente Pinto também passou a ser Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa e de Cristo, Fidalgo Cavaleiro da Casa Imperial e Grande do Império. Nada mal para um camponês nascido na pobre aldeia portuguesa de Ovelha do Marão. 

Como todo bom nobre de sua estirpe, Clemente Pinto encomendou a construção de um palacete em Cantagalo ao arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav, um dos grandes nomes há época e que também foi responsável pelo projeto de uma outra das suas propriedades – o Palácio do Catete, concluído em 1867. Inaugurado em 1860, o Palacete do Gavião (vide foto abaixo) é um grande exemplo da arquitetura neoclássica no Brasil. Fica localizado a cerca de 2 km do centro da cidade de Cantagalo, numa colina cercada por arvoredos e pomares. A construção, que atualmente pertence a particulares, ainda está bem preservada e mantém toda a sua nobreza. 

Entre os muitos requintes, a sala de jantar possuía uma parede onde foi feita uma belíssima pintura a óleo – um renomado pintor francês veio de Paris especialmente para realizar a obra. Um outro destaque do Palacete é a sua capela, onde existe uma fabulosa imagem de Nossa Senhora da Conceição. Acima do altar existe um documento emoldurado com a autorização para a realização de missas no local – o texto foi escrito a próprio punho pelo Imperador Dom Pedro II e pelo Bispo de São Sebastião do Rio de Janeiro. 

A figura que ilustra essa postagem reproduz uma pintura a óleo com o Barão e a Baronesa de Nova Friburgo (Laura Clementina da Silva). Observem alguns detalhes interessantes da cena – ao fundo, numa colina vista através de uma janela, vemos o Palacete do Gavião. Na mesa ao lado, temos uma maquete do Palácio do Catete e nas mãos do Barão vemos um mapa com o trajeto da sua estrada de ferro. Uma demostração incontestável de riqueza, poder e prestígio.

O Barão viria a falecer aos 74 anos no Palácio do Catete em 1869, deixando uma imensa fortuna para os seus dois filhos, um enorme legado para a sua região, além de muitas polêmicas e intrigas. Um exemplo: o embaixador da Suíça – Von Tschudi, um contemporâneo que visitou a região de Cantagalo, anotou em seu relatório oficial que circulavam na região inúmeras histórias sobre uma série de negócios ilícitos realizados pelo Barão e que extrapolavam, em muito, os negócios com o café. Nada comprovado.

O tempo de vida de Antônio Clemente Pinto coincide com o auge do ciclo do café na Província do Rio de Janeiro, desde seu início modesto nos morros nas cercanias da capital do Império até a decadência da produção e “fuga” dos cafezais para o Vale do Paraíba em São Paulo. A assinatura da Lei Áurea em 1888, que pós fim à escravidão no Brasil, e a Proclamação da República em 1889, que acabou com a monarquia, enterraram de vez os antigos meios de produção do café, além de pôr um fim no comércio de títulos nobiliárquicos no país. 

A decadente “nobreza rural” fluminense ainda continuaria usando seus títulos por muitas décadas. Porém, sem a riqueza gerada em outros tempos pelo café, esses títulos cada vez mais passariam a ser apenas uma lembrança “amarelada” de velhos tempos dourados. 

A CULTURA DO CAFÉ E A DEGRADAÇÃO DOS SOLOS NA PROVÍNCIA DO RIO DE JANEIRO

Os primeiros cafezais em terras fluminenses começaram a ser plantados nas encostas dos morros que circundam a cidade do Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XVIII. As plantações foram seguindo na direção da Serra da Bocaina no Sul fluminense, chegando até Angra dos Reis e Parati. Os cafezais também entraram no Litoral Norte de São Paulo e ocuparam as estreitas encostas da Serra do Mar em Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião. 

O grande salto na produção cafeeira se deu com a chegada da cultura à região do Médio rio Paraíba do Sul. As altitudes da região se situam entre os 300 e os 900 metros, com encostas protegidas dos ventos e com boa precipitação de chuvas. A região era totalmente coberta com uma densa vegetação de Mata Atlântica e apresentava solos com alta fertilidade. As cidades de Valença, Vassouras, Piraí, Barra do Piraí, Barra Mansa e Cantagalo, entre outras, se tornaram grandes produtoras de café. 

Na sua contínua marcha em busca de terras “virgens”, os cafezais entraram na faixa Leste da Província de Minas Gerais e se espalharam em cidades como Juiz de Fora, Rio Preto, Cataguases, Rio Novo, Muriaé e Carangola. Acompanhando o baixo curso do rio Paraíba do Sul, a cultura do café chegou até o Sul do Espírito Santo. Toda essa extensa área de produção estava nas mãos de grandes fazendeiros da Província do Rio de Janeiro, os Barões, Condes e Viscondes do Café fluminense

Conforme comentamos na postagem anterior, os verdadeiros “rios de dinheiro” que passaram a circular na economia da Província desencadearam numa espécie de “loucura consumista” entre as classes mais abastadas. Verdadeiros palacetes passaram a ser construídos nas sedes das fazendas, apresentando os mais caros e luxuosos artigos de decoração disponíveis há época.  

Artigos de alto luxo como roupas, joias, relógios e alimentos passaram a ser frequentes nas sofisticadas lojas que surgiram nas cidades – os consumidores não tinham limites no orçamento para adquirir esses produtos. As cidades recebiam sucessivos melhoramentos e surgiam escolas de alto padrão, teatros, bibliotecas, ateliês de fotografia e de moda. Professores de música e de línguas se estabeleciam em grande número nessas cidades – não faltavam alunos. 

As principais bases econômicas dessa lucrativa atividade eram os baixos preços das terras e a farta mão de obra, formada basicamente por negros escravizados. A partir de meados do século XIX, a chegada dos trilhos das ferrovias ampliaria ainda mais essa base econômica. Fazendeiros e empreendedores compravam grandes extensões de terra, onde a densa floresta era rapidamente colocada abaixo com a força dos machados e do fogo. Em pouco tempo, milhares de mudas de café com suas folhas verde esperança cobriam os solos até onde a vista podia alcançar. 

O café é uma planta arbustiva, que pode crescer até uma altura de 3 metros ou mais. Diferente da rústica cana de açúcar, o café é uma planta muito delicada. A temperatura ideal para o desenvolvimento das plantas fica na faixa entre os 5 e os 33°. Insolação excessiva e geadas podem destruir as plantas. Requer ainda chuvas regulares e solos com muita fertilidade. Uma outra dificuldade da cultura é tempo necessário para o desenvolvimento das plantas e início da produção dos frutos – entre 4 e 5 anos. Durante esse prazo, a área ao redor das plantas precisa receber limpezas regulares

Era durante esse prazo de desenvolvimento das plantas que começavam os problemas de degradação dos solos. Sem a proteção da densa vegetação das antigas matas, a camada fértil de humus, revestimento formado pela decomposição de matéria orgânica ao longo de milhares de anos e que recobria os solos inertes, passava a ser “lavada” e levada pelas chuvas, sendo arrastada na direção de rios e riachos. Normalmente, bastava um período de apenas 10 anos para a fertilidades desses solos ser completamente perdida. 

A técnica de plantio das mudas de café usadas há época também contribuíram, e muito, para a rápida erosão da camada fértil. As carreiras de pés de café eram plantadas em linha, desde os trechos mais altos até as partes mais baixas dos terrenos, quando o ideal seria o plantio em curvas de nível.

A razão para esse plantio irracional era simples – com a plantas em linhas paralelas, um único capataz montado em um cavalo podia supervisionar um grupo com mais de 100 escravos desde as partes baixas dos terrenos. Caso as plantas seguissem as curvas de nível das encostas, os fazendeiros alegavam que muitos escravos dormiriam escondidos à sombra dos cafezais. 

Quando essas terras perdiam a fertilidade, elas eram rapidamente abandonadas e a produção era retomada em terras novas. O baixo custo para a aquisição de novas terras e o uso de mão de obra escrava tornava muito mais compensador para os fazendeiros o abandono das antigas áreas ao invés de tentar fazer qualquer tipo de trabalho para recuperar a fertilidade dos solos.

Assim, grandes trechos das antigas matas nativas eram derrubados em sequência, deixando em seu rastro extensas faixas de solos degradados. Como não existem recursos naturais infinitos, chegou um momento em que, simplesmente, não haviam novas áreas para se desmatar

Com o esgotamento dos solos em terras fluminenses, a produção de café no Rio de Janeiro, Província que chegou a responder por quase 80% da produção brasileira, rapidamente declinou a partir da década de 1870, sendo substituída pela crescente produção cafeeira no trecho paulista do Vale do rio Paraíba. Devido à proximidade geográfica e da infraestrutura já existente, o café paulista continuaria sendo exportado através do Cais do Porto do Rio de Janeiro.

De acordo com Caio Prado Júnior em sua obra História Econômica do Brasil, a primeira exportação de café fluminense se deu em 1779, quando pouco mais de 79 arrobas (cerca de 1,2 tonelada) seguiu para Lisboa e Cidade do Porto, em Portugal. Em 1796, essa exportação atingiu a marca de 8.495 arrobas e em 1806, 82.245 arrobas. Ao longo das décadas seguintes, esse crescimento seria contínuo e intenso. 

Com o fim dos grandes volumes de dinheiro gerados pelo plantio e exportação do café, a “nobreza” rural fluminense rapidamente entrou em bancarrota. Sem recursos para manter seu padrão de vida de alto luxo e extravagâncias de toda ordem, Barões, Condes e Viscondes caminharam para o obscurantismo da história. As encostas dos morros e os vales que outrora eram cobertos pela densa floresta de Mata Atlântica, agora estavam transformados em pastagens e ralas matas de capoeira. 

Uma figura de linguagem que eu sempre costumo usar para descrever essa destruição de biomas é a de uma grande nuvem de gafanhotos. Esses vorazes e insaciáveis insetos pousam em grandes áreas cobertas por matas e plantações, onde começam a comer, de forma alucinada, qualquer folha, semente, fruto ou ramo de planta. Quando a comida se esgota, a nuvem de gafanhotos levanto voo e sai em busca de novas áreas de alimentação. Para trás, ficam apenas terras devastadas e despidas de qualquer vegetação. 

A cafeicultura fez exatamente isso em terras fluminenses e áreas circunvizinhas no Litoral Norte de São Paulo e do extremo Leste de Minas Gerais. O meio ambiente teve seus recursos sugados até a última gota e, quando nada mais tinha a oferecer, foi largado à própria sorte. A outrora luxuriante Mata Atlântica, só conseguiu resistir nas encostas mais íngremes e nos terrenos mais altos, onde era impraticável o plantio do café. 

O Vale do rio Paraíba na Província de São Paulo seria a próxima “escala” dos cafezais e dos “gafanhotos”. 

O BREVE “REINADO” DA NOBILIARQUIA CAFEEIRA FLUMINENSE

Nobiliarquia é estudo das origens e da história das famílias nobres, seus nomes de família, escudos, armas e brasões, além dos registros ou tratados sobre esse assunto. Essa palavra foi usada no título da postagem por que o assunto de hoje são as inúmeras famílias “nobres” que surgiram na esteira da cafeicultura em terras fluminenses ao longo do século XIX. 

O “nascimento” da cafeicultura no Rio de Janeiro ocorreu cerca de um quarto de século antes da chegada da Família Real e de toda a Corte de Portugal ao Brasil. A primeira exportação de café a partir do Rio de Janeiro se deu em 1779 e se limitou a apenas 79 arrobas (cerca de 1,2 tonelada) – às vésperas da chegada da Família Real, essas exportações já superavam as 80 mil arrobas anuais.

Como todos devem recordar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram o território de Portugal em 1807, o que obrigou o Rei Dom João VI a buscar exílio no Rio de Janeiro, onde desembarcou em 8 de março de 1808, depois de uma rápida escala em Salvador.  

Além da Família Real, toda a Corte e as classes mais abastadas de Portugal também vieram buscar refúgio aqui em nossas terras. As estimativas falam que, no total, esse grupo de refugiados era da ordem de 10 mil pessoas e chegaram em 19 navios das esquadras portuguesa e inglesa. O seleto grupo incluía comerciantes, advogados, médicos, engenheiros, artistas, arquitetos, religiosos, militares, professores, entre muitos outros.  

Toda essa nova população, que representava a “nata dos Lusitanos”, provocou enormes impactos, principalmente psicológicos, na então elite econômica da Colônia que vivia no Rio de Janeiro, formada essencialmente por “jecas” e semianalfabetos brasileiros. Muitas dessas pessoas, que enriqueceram com atividades como a produção do açúcar, mineração do ouro e o tráfico de escravos, descobriram que não bastava ser rico – era fundamental ser nobre! 

A produção e exportação do café naqueles tempos, que crescia a olhos vistos, passou a gerar grandes fortunas entre famílias fluminenses. Conforme comentamos em postagem anterior, as exportações de café em 1820 representavam 18% das vendas externas do Brasil e não parariam de crescer até as primeiras décadas do século XX, quando representavam mais de 50% das nossas exportações. 

Os verdadeiros “rios de dinheiro” que alguns produtores de café começaram a ganhar, produziram uma onda de consumo de produtos de alto luxo e extravagâncias de toda a ordem jamais vistas em terras brasileiras. Uma das mais interessantes foi o surgimento de um mercado para a venda de títulos nobiliárquicos ou de nobreza por parte da Família Real.  Qualquer pessoa com a bolsa recheada de dinheiro poderia virar um nobre da noite para o dia.

Quem se dispusesse a pagar o equivalente a 750 mil réis em meados do século XIX, levaria para casa o título de Barão. Por pouco mais de 1 milhão de réis, podia se comprar o título de Visconde – já um título de Conde custava cerca de 1,5 milhão de réis. Para os super ricos, as melhores opções eram o título de Marquês, que podia ser comprado por pouco mais de 2 milhões de réis, ou um de Duque, que não saía por menos de 2,45 milhões de réis. Por todas as cidades das regiões produtoras de café, especialmente ao longo do médio Vale do rio Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro, se multiplicavam as famílias “nobres”. 

A partir da década de 1820, o fluxo de riquezas gerados pela cafeicultura produziu gigantescas mudanças nos hábitos de consumo e de vida de muitas famílias de grandes centros produtores como Vassouras, Valença, Piraí, Barra do Piraí, Barra Mansa e Cantagalo, entre outras comunidades. A mais vistosa dessas mudanças se deu na arquitetura – os grandes fazendeiros não poupavam dinheiro para a construção de verdadeiros palácios nas sedes de suas fazendas (vide foto) e nos solares que mantinham nas cidades. 

As vias de acesso a essas propriedades eram, invariavelmente, cercadas por fileiras de palmeiras imperiais. Além de um sem fim número de dormitórios, essas propriedades possuíam salões de festas, sala de bilhar, sala de armas, sala de música, além de escadarias feitas com o mais fino mármore e granito que o dinheiro podia comprar.

As dependências internas eram finamente decoradas com obras de arte, espelhos de cristal, móveis finos entalhados em madeiras nobres como o jacarandá e o mogno, tapeçarias orientais, entre outros requintes. Os luxuosos aparadores e cristaleiras guardavam as mais finas baixelas e talheres lavrados em pura prata de lei

As refeições servidas às mesas eram regadas com o melhor vinho importado, presuntos de Nova York, compotas e conservas francesas, peixes nórdicos e as melhores caixas de frutas secas do Mediterrâneo. Chefes de cozinha europeus, com todo um batalhão de ajudantes e serviçais, eram encarregados do preparo e dos serviços as mesas nas refeições. 

Qualquer casa de cafeicultor de respeito possuía um grande piano de cauda, onde seus filhos e, principalmente, as filhas recebiam aulas de música com os melhores professores que existiam na Colônia. Essas casas também contavam com um verdadeiro séquito de profissionais altamente especializados: costureiras e alfaiates, sapateiros, boticários, dentistas, enfermeiros, mecânicos, serralheiros, carpinteiros, jardineiros, pedreiros, cabeleireiros e barbeiros, entre outros. Tudo precisava funcionar perfeitamente e nenhum serviço podia faltar para o fazendeiro e seus familiares. 

Além das suntuosas casas-palacetes, as fazendas também contavam com diversas estruturas que garantiam uma grande autossuficiência. As fazendas tinham uma capela para realização de todos os serviços religiosos, desde os batizados até as cerimônias fúnebres. Contavam ainda com casas para os trabalhadores livres, senzalas para os escravos (há registros de fazendas que tinham mais de mil escravos), enfermarias especializadas para homens, mulheres e crianças; oficinas como ferraria, carpintaria e serralheria.

Outras estruturas indispensáveis eram os paióis, canis, chiqueiros, estábulos e cocheiras para trato dos animais de carga, entre outras. Aqui é importante lembrar que as sacas de café eram transportadas inicialmente por tropas de mulas e burros, indo desde as fazendas produtoras até o Cais do Porto no Rio de Janeiro – o transporte ferroviário de cargas só estaria disponível a partir da segunda metade do século XIX. Muitas fazendas também possuíam vendas e boticas para atender seu grande número de moradores. 

A cultura da exuberância dos fazendeiros atraiu para as cidades interioranas um grande número de arquitetos, principalmente europeus, que se esmeravam em realizar os projetos de construção mais extravagantes. Para dar suporte às construções, surgiram as mais diversas oficinas especializadas: carpintaria, cantaria, fundições, serralheria, marcenarias, cerâmicas, olarias, hidráulica e gás – o primeiro sistema de iluminação a gás do Brasil foi instalado em uma fazenda da cidade de Valença. 

As cidades também prosperavam – surgiram inúmeros ateliês de artistas, fotógrafos e modistas. Construíam-se teatros, bibliotecas e grandes prédios públicos. Hotéis e hospedarias surgiram por todos os cantos e estavam sempre cheios. O comércio nessas cidades também se tornou bastante sofisticado, principalmente com a venda de artigos de alto luxo importados como rendas inglesas, chales orientais, sedas de Lion e leques de madrepérola. Joalherias e relojoarias das mais sofisticadas também não poderiam faltar. Professores de línguas, principalmente do francês, também eram bastante procurados e se estabeleciam nessas cidades.

A educação e a cultura para essa elite econômica não poderiam ficar de fora – criaram-se colégios de excelência, com muitos professores vindos do “estrangeiro”. Essas escolas atraíam, inclusive, os filhos de muitas famílias abastadas da cidade do Rio de Janeiro. Grupos teatrais, muitos vindos diretamente dos palcos da Europa, orquestras de câmara e musicistas renomados, além das mais importantes companhias de ópera, frequentavam os teatros das cidades fluminenses. Se a nobreza “rural” entendia as peças e músicas em francês, inglês e italiano, isso era um mero detalhe…

A chegada da linha férrea e dos seus vagões luxuosos a partir de meados do século XIX tornou as viagens entre a Capital e as cidades do interior muito confortáveis e rápidas, além de garantir um melhor escoamento das incontáveis sacas de café rumo ao porto. 

Essa vida de luxo e nobreza dos cafeicultores fluminenses foi efêmera – o mal uso e o esgotamento da fertilidade dos solos nos cafezais rapidamente comprometeram a produção do grão no Rio de Janeiro, que entrou em forte decadência em poucas décadas e levou a imensa maioria dos “nossos” Barões e Condes do café à bancarrota. Falaremos disso na próxima postagem. 

A CHEGADA DOS CAFEZAIS AO RIO DE JANEIRO

Entre meados do século XIX e o fatídico ano de 1929, o café foi o mais importante produto da pauta de exportações do Brasil. O primeiro grande centro produtor e exportador do grão foi o Estado do Rio de Janeiro. As primeiras sementes de café teriam chegado na cidade do Rio de Janeiro por volta de 1774 pelas mãos do desembargador João Alberto Castelo Branco. Essas sementes teriam sido entregues aos Frades Barbadianos, que teriam sido os responsáveis pela produção das primeiras mudas. Algumas fontes afirmam que Castelo Branco trouxe mudas de café de Belém do Pará e que ele mesmo teria feito o plantio. 

O Rio de Janeiro teve um começo de história bastante tumultuado. O Donatário da então Capitania de São Vicente – 2° Quinhão, que englobava toda a faixa Sul fluminense e o Vale do Paraíba em São Paulo, era Martin Afonso de Sousa. Por falta de recursos, tanto humanos quanto financeiros, Sousa iniciou seu empreendimento de colonização no litoral de São Paulo em 1532, de onde pretendia expandir em direção ao Norte. Ele dividia o seu projeto colonial com seu irmão – Pero Lopes de Sousa, Donatário da Capitania de Santo Amaro, uma estreita faixa de terra entre os domínios dos dois trechos da Capitania de São Vicente. 

Aproveitando-se desse vazio da colonização, aventureiros franceses invadiram a Baía da Guanabara e ali fundaram a chamada França Antártica, um empreendimento que estendeu entre os anos de 1555 e 1570 e contava com o apoio dos índios Tamoios. Essa “colônia” foi comandada por Nicolas Dante de Villegagnon, que pretendia instalar ali uma base naval e militar, permitindo assim que o Reino da França controlasse o tráfego de embarcações em todo o Oceano Atlântico Sul e, consequentemente, todo o comércio marítimo com as Índias.  

Tropas portuguesas comandadas por Estácio de Sá só conseguiram expulsar todos os franceses da região em 1570. Durante essa fase tumultuada, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada em 1565. Nas proximidades do Morro do Pão de Açúcar, os portugueses fundaram o Forte de São João, embrião da cidade do Rio de Janeiro. Seriam necessárias várias décadas até que os portugueses conseguissem “pacificar” os belicosos índios Tamoios. 

A Baía da Guanabara apresentava um dos melhores portos naturais da costa brasileira, tendo como vantagem extra uma entrada estreita, ideal para a defesa contra embarcações invasoras. A partir do início do século XVII, canaviais começaram a surgir nas áreas de entorno da Baía e, especialmente, na região conhecida como Baixada Fluminense. A partir das primeiras décadas do século XVIII, os canaviais se expandiriam na direção de Cabo Frio. 

Há registros históricos que confirmam que, por volta de 1630, o Rio de Janeiro abrigava perto de 100 engenhos de cana, a maioria de pequeno e médio porte e com uma produção muito aquém dos grandes engenhos do Nordeste. Muitos eram na verdade engenhocas, pequenas unidades para moagem das canas com o objetivo de se produzir aguardente. Crescendo discretamente, tanto em termos econômicos quanto populacionais, o Rio de Janeiro atingiu a marca de 30 mil habitantes na segunda metade do século XVII, assumindo o posto de cidade mais populosa da Colônia. 

Com o início do Ciclo do Ouro, a importância do Rio de Janeiro aumentou muito – a região passou a centralizar o escoamento dos carregamentos de ouro para Portugal e a cidade ganhou grande peso econômico e importância como porto. Em 1763, por decisão do Marquês de Pombal, secretário geral de El-Rei, a capitania da Colônia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro. Em 1808, essa importância aumentaria ainda mais com a transferência do Rei de Portugal – Dom João VI, e toda a sua corte para a cidade, fugindo assim das tropas invasoras de Napoleão Bonaparte. 

Esse rápido resumo dá uma ideia geral da importância econômica e social que a cidade do Rio de Janeiro estava ganhando dentro da Colônia e do grande número de empreendedores que estavam buscando alternativas para fazer fortuna. Foi dentro desse ambiente efervescente que a cultura do café encontraria as condições ideais para se desenvolver. 

Os primeiros cafezais surgiram ao redor da cidade do Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XVIII. Incluem-se na lista os atuais bairros de Jacarepaguá, Campo Grande, Guaratiba e Santa Cruz. Uma região muito conhecida da cidade atualmente – a Floresta da Tijuca, já foi ocupada por grandes fazendas com plantações de café. Outra região próxima que já foi tomada por cafezais é a Baixada Fluminense, onde os pés de café paulatinamente foram substituindo os antigos canaviais. 

O baixo preços das terras em regiões interioranas do Estado do Rio de Janeiro, principalmente ao longo da antiga estrada Rio-São Paulo, rapidamente começou a atrair a atenção dos empreendedores. A cultura cafeeira começou a se irradiar na direção de São João Marcos e Resende, chegando a cidades como Vassouras, Valença, Paraíba do Sul e, mais tarde, Cantagalo. O Vale médio do rio Paraíba do Sul, ou simplesmente Vale para os fluminenses, apresentava um clima e altitudes perfeitas para a produção do café.  

Os terrenos virgens, cobertos pela densa vegetação de Mata Atlântica possuíam uma fertilidade invejável. Seguindo as águas do rio Paraíba do Sul, os cafezais também se espalhariam por terras do Leste de Minas Gerais e chegariam ao Sul do Espírito Santo. Uma outra frente de expansão dos cafezais surgiria a Leste da Baía da Guanabara, desde São Gonçalo até Itaboraí e Maricá. 

Ao longo das primeiras décadas do século XIX, a cidade de Vassouras se transformou na capital brasileira do café, uma posição que trouxe muita riqueza e prosperidade para a região. O Porto do Rio de Janeiro se transformaria no mais importante do Brasil e a riqueza gerada pela cafeicultura na cidade do Rio de Janeiro se manifestaria até o ano de 1910. 

Os principais mercados para o café produzido no Brasil há época eram os Estados unidos, a Inglaterra e a França. Na década de 1820, a produção de café no Brasil, principalmente em terras fluminenses já representava 18% da produção mundial. Na década seguinte, esse volume alcançaria a marca de 36% e, em 1850, bateria nos 48% da produção mundial, o que colocou o Brasil como o maior produtor mundial de café. Há época, o Estado do Rio de Janeiro respondia por 79% da produção nacional de café

Além de solos férteis e clima adequado, a produção cafeeira dependia de muita mão de obra. Naquele momento, a grande massa de trabalhadores era formada por mão de obra escrava (vide foto). O aumento exponencial que se observou na agricultura fluminense há época transformou o Estado do Rio de Janeiro no grande mercado para a venda de escravos “novos e usados”. Nas primeiras décadas do século XIX, o comércio internacional de escravos ainda era permitido e grandes “lotes de negros” chegavam com frequência ao cais do Rio de Janeiro.  

Um outro mercado que surgiu com força foi a venda de escravos entre Estados. Os grandes engenhos do Nordeste Açucareiro agonizavam naquele momento e a venda de escravos “de segunda mão” para as grandes fazendas de café da Região Sudeste acabaram por se transformar em uma fonte de renda para engenhos falimentares. A Bahia foi uma das principais fornecedoras dessa mão de obra para o Rio de Janeiro. As antigas e decadentes regiões de mineração das Geraes também dispunhas de bons estoques de “negros” subutilizados, que também passaram a ser deslocados para o Vale do rio Paraíba e arredores. 

Os grandes fazendeiros fluminenses fizeram verdadeiras fortunas com a produção e venda do café, transformando algumas cidades da região em verdadeiras “ilhas” de prosperidade. Falaremos sobre isso na próxima postagem. 

O CAFÉ NOSSO DE CADA DIA: UMA BREVE HISTÓRIA

Entre meados do século XIX e o fatídico ano de 1929, quando a Bolsa de Valores de Nova York quebrou e teve início a Grande Depressão, o café foi o mais valioso produto de exportação do Brasil, respondendo por mais da metade das vendas do país. A forte demanda internacional pelo produto surgiu num momento complicado de nossa economia colonial, quando a produção do açúcar, do algodão e do ouro perderam relevância. Podemos dizer que o café foi uma espécie de “salvador da pátria” há época, ao mesmo tempo em que se transformou no novo vilão da devastação da Mata Atlântica. 

O interesse internacional pela bebida não surgiu de uma hora para outra – foi uma trajetória de centenas de anos entre as montanhas da Etiópia, no Nordeste da África, até chegar aos sofisticados cafés vienenses e Botteghe del Caffè de Veneza. Vamos conhecer um pouca dessa fantástica jornada: 

Conforme comentamos na postagem anterior, o café é originário da região de Cafa, na Etiópia. De acordo com a tradição oral da população, um jovem pastor de cabras observou que os seus animais gostavam de comer os frutos vermelhos e as folhas de alguns arbustos, ficando muito ativos depois disso. Conta-se ainda que foi a partir daí que os habitantes locais passaram a preparar chás a partir das folhas e frutos da planta. 

Com a popularização do consumo do café, sementes da planta foram levadas para o Iêmen, no Sul da Península Arábica, onde passou a ser conhecido como kahwaf ou cahue, palavras que em árabe significam “força”. Manuscritos locais do século VI de nossa era já falavam do cultivo da planta em terras árabes – inclusive, o nome científico da planta, Coffea arabica, dado pelo cientista Lineu, veio daí. Graças ao intenso tráfego de caravanas de mercadores e de tribos beduínas, o consumo e o gosto pela bebida foram disseminados por todo o Oriente Médio ao longo do tempo. 

A partir do século XIV, a produção de café do Iêmen ganhou escala comercial e o principal porto exportador do país ficava na região de Moka, um nome que passou a estar associado aos melhores cafés do mundo. Em 1475, foi inaugurada a primeira cafeteria do mundo na famosa cidade de Constantinopla (atual Istanbul) na Turquia – o Kiva Han. O estilo social de consumo de café criado pelos turcos se popularizou por todo o Oriente Médio, principalmente no Egito. No final do século XVII já existiam perto de 650 Bayt Gahwa, as famosas cafeterias do Cairo, locais que eram o ponto de encontro de artistas e intelectuais. 

Os egípcios criaram vários tipos de café, que depois acabaram se popularizando em países de língua árabe. O arriha é um café levemente adocicado. O mazboot é meio doce e o ziyada é muito doce. O cliente precisava escolher o tipo de café desejado antes da preparação, uma vez que o açúcar era dissolvido na água usada no preparo da bebida. Um outro tipo de café, o sada, era amargo e servido apenas em ocasiões tristes como nas cerimônias fúnebres. 

Constantinopla também serviu como caminho para a chegada do café na Europa. A primeira cafeteria italiana ou Bottheghe del Caffè conhecida foi fundada em Veneza em 1615. Sendo um dos polos comerciais mais importantes da Europa há época, Veneza acabou por popularizar o café por todo o continente. 

Surgiram muitas histórias e estórias associadas ao café na Europa. Uma delas foi a forte oposição ao consumo do café por religiosos católicos, que associavam a bebida de origem árabe aos muçulmanos e ao Islã. Quem consumia café era considerado herege por muitos padres. O papa Clemente VIII (1536-1605) precisou intervir e até propôs o batismo do café como forma de tornar a bebida cristã. 

Outro “causo” interessante tenta explicar a origem dos famosos cafés de Viena. Consta que após o fracasso da conquista da cidade pelos turcos em 1687, grandes quantidades de sacas de café foram deixadas para trás pelos exércitos que batiam em retirada. Os austríacos teriam considerado esse café como uma espécie de despojo de guerra e passaram a consumir a bebida com um prêmio pela vitória. 

É bastante folclórica também a origem dos famosos capuccinnos italianos. Conta-se que os monges franciscanos da ordem dos Capuchina não gostavam muito do sabor forte do café, que há época era consumido sem açúcar. Os monges então passaram a adicionar leite e mel a bebida. Com o passar do tempo, a receita foi incrementada com a adição de chocolate e chantily, e o nome da bebida passou a ser uma homenagem aos religiosos que a criaram. 

Na Inglaterra, a primeira cafeteria conhecida foi aberta em 1652. Em 1672, foi inaugurada a primeira dessas lojas na cidade de Paris. Foi na França, durante o reinado de Luís XIV, que se criou o hábito de tomar café com açúcar. Com a popularização do café entre ingleses e franceses, surgiu a necessidade de expandir a produção para atender o forte aumento no consumo. Consta que foi um oficial francês, Gabriel Mathien de Clieu, o responsável pela introdução das primeiras mudas de café na Guiana e Ilha Martinica, territórios da França nas Américas. Rapidamente a cultura se espalhou pelas ilhas do Mar do Caribe e países da América Central. 

O café chegou ao Brasil em 1727, pelas mãos do sargento-mor Francisco de Melo Palheta (ou Palhete, segundo algumas fontes), um militar a serviço do Governo de Portugal e que realizou trabalhos de demarcação de limites entre a Colônia portuguesa e a Guiana Francesa. Consta que Palheta ganhou uma muda de café da esposa do Governador da Guiana e trouxe a planta para a cidade de Belém, capital do Grão-Pará, a grande província da Região Norte há época. A partir de Belém, o café começou a se espalhar por pequenas cidades e fazendas dos sertões, onde a produção era destinada apenas ao consumo doméstico. 

Com o aumento da demanda pelo produto no mercado internacional, foram feitas as primeiras tentativas de plantio em escala comercial no Maranhão e na Bahia, tentativas essas que foram frustradas devido ao clima excessivamente quente dessas regiões. A planta encontraria as condições ideais para o seu cultivo nas regiões serranas e de clima ameno da região Sudeste do Brasil. As primeiras sementes de café chegariam na cidade do Rio de Janeiro por volta de 1774, onde foram semeadas no Convento dos Frades Barbadianos. 

As primeiras mudas de café foram plantadas nos arredores da cidade do Rio de Janeiro e, pouco a pouco, passaram a conquistar espaço ao longo do Vale do rio Paraíba do Sul, interior do Estado do Rio de janeiro e primeiro grande centro produtor de café do Brasil. A cultura mudaria radicalmente toda a região, faria a fortuna de muitos barões e baronesas fluminenses, e destruiria grande parte da Mata Atlântica da região. 

Contaremos essa história na próxima postagem. 

O CAFÉ E A MATA ATLÂNTICA: UMA HISTÓRIA DE OPULÊNCIA E DE DESTRUIÇÃO

O século XVIII foi, talvez, um dos mais alucinantes da história do Brasil. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, esse século começou sob a influência da “febre do ouro”. Tudo começou nos últimos anos do século anterior, quando bandeirantes paulistas encontraram o tão sonhado ouro numa localidade lendária conhecida pelos indígenas como Serra do Sabarabuçu, no coração das Geraes. Essa notícia correu rapidamente por todos os cantos da Colônia e centenas de milhares de pessoas largaram tudo o que tinham (e o que não tinham) nas regiões do litoral açucareiro e se embrenharam nos sertões para garimpar o “vil metal”. 

A população brasileira em meados do século XVIII era estimada em 500 mil habitantes – 2/3 desse contingente se dirigiu para as áreas de mineração, o que nos dá uma boa ideia da crise desencadeada na indústria do açúcar. Sem os braços e pernas dos trabalhadores, a produção despencou. A crise, que já era grande, ficou imensa devido à concorrência de outras nações e colônias.  

Engenhos e canaviais haviam ocupado a maior parte das ilhas do Mar do Caribe e terras vizinhas, desde a Geórgia, no Sul dos Estados Unidos, até a Guiana Francesa, na América do Sul. A cultura também havia se espalhado pelas costas da África, principalmente nas colônias portuguesas. Um produto antes raro e caro, o açúcar se tornara barato e popular. 

Produzir grandes volumes de açúcar era muito custoso – entre o plantio das mudas de cana de açúcar e a chegada do produto aos mercados consumidores na Europa havia um hiato de quase dois anos. Além disso, entre esses dois extremos haviam os riscos do transporte pelos mares, momento em que parte importante das cargas podia se perder. Enquanto as margens de lucro eram altamente compensadoras, não faltavam banqueiros e grandes comerciantes com grandes somas de dinheiro para financiar as operações com segurança. Com a brutal queda de preços que se seguiu, esse dinheiro desapareceu. 

A loucura “dourada” nas Geraes também não durou muito tempo – por volta de 1770, os principais veios auríferos já davam sinais claros de esgotamento. Sem a produção do açúcar que, ao longo de mais de dois séculos, foi o principal (quiçá único) pilar econômico local e agora, com o iminente fim da mineração do ouro, a Colônia parecia caminhar para uma espécie de limbo. 

Nas últimas duas décadas desse século houve um breve surto salvador – com o início da Revolução Industrial na Inglaterra e suas maravilhosas máquinas a vapor, houve uma verdadeira explosão no consumo de algodão pela indústria têxtil. O então distante Maranhão, com seu clima quente e seco, se mostrou ideal para a produção dessa fibra. Foi assim que, ao longo de pouco mais de vinte anos, o Maranhão se tornou um dos maiores produtores mundiais de algodão e, por pouco tempo, foi a província mais rica do Brasil.  

A aventura foi breve – regiões do Sul dos Estados Unidos rapidamente tomaram a dianteira nessa produção e, por suas ligações culturais e econômicas com a Inglaterra, se consolidaram com seu principal fornecedor da commodity. O Maranhão acabou caindo novamente no esquecimento. Foi então que, chegando discretamente às nossas terras, uma planta africana mudaria os rumos da nossa nação – o café. 

Segundo a tradição oral, o café é originário da região de Cafa, na Etiópia, país do Nordeste da África. Segundo as lendas dessa região, um jovem pastor de cabras observou que os seus animais ficavam muito ativos após comerem as folhas e as frutas vermelhas de alguns arbustos. Esse fato chamou a atenção dos moradores locais, que passaram a preparar chás a partir das folhas e frutos da planta – foi a partir desse uso que se desenvolveu o preparo do café que conhecemos hoje em dia.  

Consta que o café foi introduzido no Brasil por Francisco Palheta (ou Palhete) no Estado do Pará em 1727.  A planta foi sendo disseminada por todo o Brasil Colônia, onde era cultivada para uso exclusivamente doméstico nas fazendas e casas das vilas e cidades. Comercialmente, o valor do café era quase nulo. Foi somente no decorrer do século XVIII que o café adquiriu status nos mercados internacionais, passando a ser considerado um artigo de luxo nos grandes centros urbanos da Europa e dos Estados Unidos.  

As primeiras sementes de café chegaram ao Rio de Janeiro por volta de 1774, onde foram semeadas no Convento dos Frades Barbadianos. A partir do início do século XIX foram iniciadas as primeiras plantações comerciais de café em sítios e fazendas, especialmente na região Oeste do Estado do Rio de Janeiro, próximas ao rio Paraíba do Sul. Sem maiores possibilidades de expansão nessa região, a cultura cafeeira passou a se expandir na direção do Vale do Paraíba, já no Estado de São Paulo, por volta de 1850.  

Diferentemente de outros produtos agrícolas, o café é uma planta que apresenta uma série de restrições físicas para o seu cultivo, bastante diferente da cana de açúcar ou do algodão, produtos de grande destaque na época. Os limites de temperatura ideais para o cultivo da planta oscilam entre 5 e 33º C. É uma planta muito sensível tanto a geadas quanto ao excesso de calor e insolação. Requer ainda chuvas regulares e bem distribuídas e é muito exigente em relação à qualidade do solo.  

É uma planta de cultivo permanente, cujo início da produção exige um período entre 4 e 5 anos a partir do plantio das mudas. Os solos ao redor dos cafeeiros precisam ser limpos com frequência e a planta requer adubação constante para se garantir uma boa produção. Ou seja – tratava-se de uma cultura agrícola sofisticada e bastante difente da rústica cana de açúcar, que nada mais é do que um capim superdesenvolvido.

A maior parte do território brasileiro não se adequava à produção do café. Também existiam as dificuldades no cultivo e trato das plantas, problemas que se mostrariam fatais para o rápido esgotamento dos solos. Foi no Estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, nas regiões serranas vizinhas dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Sul do Espírito Santo, que a cultura cafeeira, propriamente dita, foi iniciada no Brasil.  

Rapidamente, os grandes cafezais com suas folhas verdes monocromáticas passaram a ocupar grandes áreas antes polvilhadas com os mais diferentes tons de verde da Mata Atlântica. Pequenas vilas perdidas no meio do nada foram transformadas em cidades elegantes. Surgiram grandes fazendas com sedes imponentes, onde barões e baronesas passaram a residir. Depois dos gigantescos estragos que a indústria canavieira fez ao trecho nordestino do bioma, que foi praticamente dizimado, chegava agora a vez da destruição da Mata Atlântica na Região Sudeste. 

O Vale do Paraíba, a ligação natural entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi a porta de entrada do café no Estado de São Paulo, transformando-se em poucos anos no primeiro grande cenário da cultura cafeeira no Brasil. As condições naturais da região eram esplendidas: altitudes entre 300 e 900 metros, com temperaturas dentro dos limites ideais para o café e ciclo de chuvas regulares.  

O relevo acidentado da região proporcionava encostas bem protegidas contra o vento, um fator importante para uma planta arbustiva como o café. O Vale do Paraíba, em meados do século XIX, tornou-se um grande centro condensador de população e riqueza do Brasil. A importância do café se mostrou tamanha que, já em 1822, um ramo de café foi incorporado no Brasão Imperial. 

Serão muitas histórias e estragos ambientais para se contar. 

AINDA FALANDO DA SIDERURGIA E DA DESTRUIÇÃO DAS MATAS MINEIRAS

A primeira metade do século XX foi bastante tumultuada para a economia do Brasil. Nossa jovem República entrou no século passado apresentando um forte perfil agrário, onde a cultura do café e os seus poderosos “barões” davam as cartas no país. Há época, o Brasil era o maior produtor e exportador de café do mundo, uma commodity que gerava metade das receitas em moeda forte do país. Outro importante produto era o látex, matéria prima estratégica há época e que era usada na produção da borracha. Até 1912, o Brasil era o maior produtor de látex do mundo e suas exportações representavam 40% de nossas receitas externas. 

O primeiro grande baque econômico do século começou ainda nos primeiros anos da década de 1910, quando os seringais ingleses plantados no Sudeste Asiático iniciaram a produção de látex. Conforme já tratamos em postagens anteriores, a seringueira (Hevea brasiliensis) é uma árvore nativa da Floresta Amazônica, o que garantiu, por muitas décadas, o monopólio do látex na mão na mão de produtores de países da região.  

Entretanto, em 1876, o inglês Henry Wickhan realizou a façanha de contrabandear milhares de sementes da seringueira para a Inglaterra, onde botânicos conseguiram produzir mudas da árvore. Essas mudas foram levadas para as Colônias Inglesas do Sudeste Asiático, onde o clima era muito similar ao da Amazônia. Plantadas organizadamente, essas seringueiras passaram a produzir látex em grande escala, superando a produção da Amazônia em volume e em custos. 

A dramática situação da economia só não foi pior por causa do início da I Guerra Mundial em 1914. Com o aumento da demanda mundial por borracha, os produtores da Amazônia conseguiram ganhar uma sobrevida. A deflagração da Grande Guerra também passou a inibir a importação de uma grande gama de produtos industrializados e forçou a produção local. Conforme comentamos na postagem anterior, esse quadro estimulou o aumento da produção de ferro e aço no Brasil, principalmente em Minas Gerais – a necessidade de grandes volumes de carvão vegetal levou ao desmatamento de grandes trechos da Mata Atlântica nesse Estado

Pouco mais de dez anos após o final da I Guerra Mundial, quando a economia brasileira ainda estava em recuperação, nosso país sofreu um novo abalo – a grande crise econômica mundial deflagrada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Dessa vez, a crise atingiu em cheio as exportações brasileiras de café, o nosso mais importante produto de exportação. Passados outros dez anos, tem início a II Guerra Mundial e mais uma vez entramos em uma fase de restrições à importação de produtos industrializados

Essa sucessão de crises “decenais” teve profundos reflexos na economia brasileira, que foi forçada a mudar profundamente, deixando de depender da agricultura e viu a participação das indústrias crescer muito. Esse forte crescimento do setor industrial, é claro, estimulou o crescimento da produção de ferro e aço, produtos básicos para as indústrias. 

Um outro setor que passou a apresentar um grande crescimento ao longo desse período foi a construção civil. A mudança do perfil econômico do país levou a uma intensa migração de populações de áreas rurais para as áreas urbanas. As famosas “barras de ferro” são elementos fundamentais para a construção de casas e edifícios com estrutura de concreto armado.

Por todo o país surgiram pequenas empresas especializadas na produção dessas barras – essas empresas compravam as barras de ferro e aço padronizadas produzidas pelas siderúrgicas mineiras e, usando equipamentos de trefilação a frio, produziam as barras nas medidas e padrões usados pela construção civil. 

Abrindo um rápido parêntese aqui – os materiais cerâmicos usados pela construção civil – tijolos, telhas, manilhas, lajotas e azulejos, entre outros, também contribuíram, e muito, com a devastação de matas em todo o Brasil. Esses produtos precisam passar por um processo de queima, o que normalmente era feito em fornos a lenha

Conforme comentamos na postagem anterior, em 1921 foi fundada a Companhia Belgo-Mineira, a maior empresa do setor do Brasil há época e que mudaria os rumos da siderúrgica no país. Essa empresa geraria um grande desenvolvimento regional. Entre outros importantes avanços, o início das operações da Belgo-Mineira levou à retomada das obras da Estrada de Ferro Vitória a Minas, obra que vinha se arrastando desde 1904 e que era essencial para o escoamento de produtos e o transporte de carvão mineral importado. 

A demanda por produtos siderúrgicos no Brasil não parava de crescer – a produção total em 1931, incluindo ferro gusa, aço, laminados trefilados e peças fundidas, atingiu a marca de 71 mil toneladas. No final da década de 1930, a Belgo-Mineira construiu uma segunda usina na cidade de João Monlevade e novas empresas começaram a operar em Minas Gerais. Em 1945 foi criada a Acesita – Aços Especiais Itabira, e em 1956 a Usiminas – Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais. 

Em 1942, o Governo Federal fundou a Companhia Vale do Rio Doce, que ao longo do tempo se transformaria numa das maiores produtoras e exportadoras de minério de ferro e ferro gusa do mundo. Já em 1946, foi inaugurada a CSN – Companhia Siderúrgica de Volta Redonda, no interior do Estado do Rio de Janeiro. 

A partir de meados da década de 1950, a demanda por ferro e aço sofreu um forte incremento no país, porém, ao menos dessa vez, a causa foi interna – indústrias do setor automobilístico passaram a operar no Brasil. O Governo do Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), criou uma política de estímulo à fabricação de veículos em território brasileiro 

Apesar do aumento da importação e do uso do carvão mineral nos altos fornos das empresas siderúrgicas brasileiras, principalmente nas de Minas Gerais, o uso de carvão de origem vegetal continuava em alta. A razão para isso era muito simples – o baixo custo do “produto nacional”. A grande maioria dos produtores de carvão eram pequenos agricultores, que retiravam as madeiras ilegalmente de florestas públicas, sem gastar praticamente nada.

Na produção do carvão nos fornos rudimentares em suas propriedades, esses carvoeiros se valiam da “mão de obra familiar”, ou seja, mulher, filhos (o famoso “trabaho infantil“) e outros parentes. Graças a tudo isso, o carvão vegetal se mostrava altamente competitivo quando comparado ao produto importado, que além de caro, ficava sujeito ás fortes oscilações do valor do dólar. 

Graças a toda essa conjuntura, a devastação florestal continuou avançando e atingiu níveis altíssimos, o que, a grosso modo, acabaria se transformando numa grande ameaça às próprias indústrias. A fim de garantir o suprimento de carvão vegetal para suas unidades de produção, as grandes empresas siderurgicas passaram a adquirir grandes áreas cobertas por florestas. Esse foi o caso da Companhia Belgo-Mineira, que comprou grandes áreas em Várzea da Palma, no Norte de Minas Gerais, e no Vale do Rio Doce. 

A partir de 1948, a Belgo-Mineira se tornaria pioneira no plantio de florestas de eucalipto, visando garantir a produção de madeira e de carvão para uso futuro. O eucalipto australiano já vinha sendo produzido com sucesso no Estado de São Paulo há vários anos, onde tinha a missão de fornecer madeira para a construção de dormentes ferroviários e de lenha para locomotivas.

As árvores apresentavam um crescimento rápido e podiam sofrer o primeiro corte sete anos após o plantio. Outras empresas perceberam rapidamente a estratégia da Belgo-Mineira e também passaram a investir no plantio de florestas artificiais. A partir da década de 1960, as autoridades florestais da época tornaram obrigatória a autoprodução de madeiras para a produção de carvão. 

Apesar de todos esses cuidados ambientais, que tinham como meta a preservação dos remanescentes florestais em Minas Gerais, os dados do setor continuavam desanimadores. De acordo com dados estatísticos de 1976, ano em que as informações passaram a ser registradas com maior grau de fidelidade, cerca de 90% do carvão vegetal produzido no Brasil há época, o que correspondia a 15,5 milhões m³, era produzido com madeira retirada de matas nativas. A Mata Atlântica e o Cerrado em Minas Gerais, por causa da forte demanda por carvão nas siderúrgicas do Estado, foram os biomas mais devastados

Apesar dos grandes esforços das empresas para evitar o uso de carvão de origem “suspeita”, ainda hoje há muito carvão sendo produzido com madeira retirada das matas nativas. A razão para isso é relativamente simples – segundo a AMS – Associação Mineira de Silvicultura, 40% do carvão vegetal produzido no Estado em 2015 veio de pequenos produtores rurais – muitos desses produtores continuam derrubando matas nativas para obtenção de madeira e lenha

Infelizmente, o Estado de Minas Gerais continua liderando a devastação do pouco que restou da Mata Atlântica no Brasil.

Uma observação final: Somando-se as perdas de Mata Atlântica ao longo da faixa do Nordeste Açucareiro, que segundo minhas estimativas oscilam entre os 90 e 120 mil km², com as perdas para a siderurgia em Minas Gerais, que superam a casa dos 230 mil km², chegamos a uma perda entre 320 e 350 mil km² de matas nativas somente nessas duas regiões.

A INDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL, A SIDERURGIA E A DEVASTAÇÃO DAS MATAS EM MINAS GERAIS, OU AS FLORESTAS QUE VIRARAM CARVÃO

Aos tempos da chegada da expedição descobridora de Pedro Álvares Cabral em 1500, o território onde se encontra hoje o Estado de Minas Gerais tinha perto de 47% de sua superfície coberta com vegetação de Mata Atlântica, o equivale a mais de 282 mil km² de matas do bioma. Em pouco mais de três séculos e depois de vários ciclos econômicos, a Mata Atlântica hoje está restrita a 10,2% da superfície do território mineiro, ocupando pouco mais de 50 mil km²

A primeira pergunta que surge é: que fim teria levado mais de 230 mil km² de Mata Atlântica no Estado? 

E a resposta lamentável é: a maior parte virou carvão! 

Em postagens anteriores apresentamos rapidamente o chamado Ciclo do Ouro, que teve início nos últimos anos do século XVII. Notícias sobre as descobertas de ouro na Serra do Sabarabuçu, uma localidade lendária no centro do Estado de Minas Gerais, correram pelos “quatro cantos” da Colônia e atraíram centenas de milhares de aventureiros para o garimpo. Em poucas décadas, os sertões das Geraes abrigavam perto de 2/3 da população brasileira há época. 

Esses tempos “dourados” se estenderam por todo o século XVIII, quando então as minas de ouro se esgotaram e toda essa grande população precisou se dedicar a outras ocupações para sobreviver. Uma parte importante dos trabalhadores que lidavam com a mineração e fundição do ouro acabou por se manter no ramo da metalurgia, passando a trabalhar com um outro metal abundante na região – o ferro.  

Surgiram por todos os cantos pequenas forjarias, onde se produziam panelas, ferramentas agrícolas, ferraduras, pregos e outros produtos para o uso cotidiano. Vale lembrar aqui que toda essa atividade era ilegal – empresas e comerciantes portugueses tinham o total monopólio para a produção e venda desses produtos. Com o passar do tempo, essas atividades foram crescendo e se consolidando como uma das mais importantes da economia de Minas Gerais. 

Apesar da grande abundância de minério de ferro, faltava nas Geraes o combustível mais usado para alimentar as forjas e os fornos de fundição em todo o mundo: o carvão mineral. Na falta do combustível fóssil, os mineiros passaram a se valer do carvão de origem vegetal, obtido a partir do desmatamento de grandes áreas florestais. O carvão vegetal passou a ser usado intensamente em vários processos nessas industrias, especialmente na produção do ferro gusa. E foi assim que a Mata Atlântica (e grande parte do Cerrado mineiro) foi transformada em carvão. Vamos entender melhor essa história. 

Essa incipiente indústria metalúrgica artesanal de Minas Gerais se consolidaria ao longo de várias décadas, até que, em 1827, ela daria um verdadeiro salto tecnológico. Foi nesse ano que o engenheiro francês e metalurgista Jean-Antoine-Félix Dissandes de Monlevade, mais conhecido pelos locais como João Monlevade, inaugurou uma usina dotada de uma forja catalã para a produção de ferro em Caeté. A existência de depósitos minerais e, principalmente, a abundância de matas na região, foram os principais fatores que trouxeram o francês para essa localidade. 

A revolucionária usina construída por João Monlevade conseguia produzir cerca de 30 arrobas de ferro por dia, o que equivalia a 450 kg, uma escala de produção nunca vista antes em terras mineiras. Até 1872, ano da morte de João Monlevade, essa usina foi a grande referência em metalurgia nas Geraes. Entre as décadas de 1820 e 1860, houve um grande avanço, tanto técnico quanto quantitativo, na metalurgia do Estado. 

Um outro grande salto qualitativo se daria em 1876, quando foi criada a Escola de Minas de Ouro Preto. Essa escola colocaria os setores metalúrgico e siderúrgico de Minas Gerais em um novo patamar tecnológico, modernizando os processos de produção do ferro gusa em altos fornos com carvão vegetal, além de possibilitar um grande aprimoramento nos processos de laminação, trefilagem e fundição de peças de ferro e de aço. 

Em um censo industrial realizado pelo Governo Imperial em 1881, as indústrias metalúrgicas respondiam por apenas 3% do total de estabelecimentos industriais do país. Há época, nosso parque industrial tinha cerca de 600 indústrias em funcionamento em todo o Brasil e era dominado por indústrias têxteis (60%) e de produtos alimentícios (15%). As indústrias do segmento químico, que há época se limitavam a embalar produtos processados no exterior, respondiam por 10% do total de estabelecimentos industriais. A lista se completava com as indústrias do segmento de madeiras, com 4% de participação, e as de vestuário e produtos de cuidado pessoal, com 3,5%, entre outras menores. 

Mudanças profundas no setor teriam início em 1888, quando o primeiro alto forno de uma indústria siderúrgica foi aceso na Usina Esperança, em Itabirito. Essa foi a primeira indústria siderúrgica independente do Brasil e sua produção diária era de 6 toneladas de ferro gusa, o primeiro estágio da produção do aço. Seu alto forno consumia cerca de 21 m³ de carvão vegetal por dia.

Para que todos tenham uma ideia do consumo de madeira que isso implicava, a produção de cada m³ de carvão vegetal requer entre 1,8 e 2,5 m³ de lenha/madeira. Em 1915, o volume de produção dessa usina atingiria a marca de 3.259 toneladas de ferro gusa, o que representou um consumo de mais de 10 mil m³ de carvão vegetal

Com o desenrolar da I Guerra Mundial, que se estendeu entre 1914 e 1918, o Brasil passou a enfrentar uma série de dificuldades para a importação de produtos manufaturados de todos os tipos.  O Governo Federal adotou uma série de políticas para o estímulo da produção industrial local em substituição às importações – os setores metalúrgicos e siderúrgicos cresceram muito nesse período.

A Usina Esperança, citando como exemplo, já apresentaria um volume de produção da ordem de 15 mil toneladas em 1921, o que implicava na necessidade de uma grande produção de carvão vegetal e na devastação de mais áreas florestais em Minas Gerais há época

A essa altura da história, o Estado de Minas Gerais já era responsável por cerca de 90% da produção brasileira de ferro gusa. Em 1921 seria fundada a Companhia Belgo-Mineira, a primeira siderúrgica de grande porte do Brasil. Formada por capitais da França, da Bélgica e de Luxemburgo, essa empresa representou uma mudança nos paradigmas dos investimentos estrangeiros no setor, que até então se limitavam na aquisição dos direitos de exploração de reservas de minérios por grupos estrangeiros. 

Baseadas no antigo conceito de “reservas infinitas de matérias primas”, as empresas mineiras continuariam derrubando as matas nativas para a obtenção da madeira necessária para a produção do carvão vegetal, pratica que se estenderia até meados do século XX.

Grandes áreas florestais que circundavam cidades e áreas industriais desapareceram, sendo transformadas em extensas áreas de campos e pastagens. Os grandes volumes de carvão vegetal, cada vez mais necessários para alimentar os insaciáveis altos fornos, passaram a ser trazidos de regiões cada vez mais distantes. 

A escala da destruição das florestas continuaria a crescer ao longo das décadas seguintes. Continuaremos a falar sobre isso na próxima postagem.