OS IMPACTOS DA CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE TUCURUÍ NA VIDA DE POPULAÇÕES TRADICIONAIS DAS MARGENS DO RIO TOCANTINS

Favelização de Tucuruí

Numa sequência de postagens anteriores, falamos da Bacia Hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia e da exploração de todo o seu potencial para geração de energia hidrelétrica. O rio Tocantins já possui um total de 7 empreendimentos hidrelétricos em sua calha e existem outros projetos em estudo – o rio Araguaia, por enquanto, ainda tem suas águas livres de barragens de usinas hidrelétricas. 

Além de toda uma série de impactos ao meio ambiente, a construção de barragens causa o deslocamento de grandes contingentes populacionais e produz toda uma série de impactos ao meio social. A construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no baixo curso do rio Tocantins no Pará, é um exemplo desses impactos. Com a formação do lago da Hidrelétrica no início da década de 1980, que inundou uma área com aproximadamente 2.850 km², diversas comunidades tradicionais ribeirinhas foram desalojadas de forma compulsória, grande parte sem receber nenhuma indenização – apenas uma pequena ajuda de custo foi paga. Vamos falar um pouco dos impactos do empreendimento na vida destas pessoas. 

O enchimento do lago da Usina Hidrelétrica de Tucuruí inundou áreas dos municípios de Tucuruí, Breu Branco, Novo Repartimento, Goianésia do Pará, Nova Ipixuna, Itupiranga, Jacundá e Marabá, entre outros. Além do impacto direto sobre áreas à montante, alteradas fortemente após a formação do reservatório, municípios a jusante da represa (correnteza abaixo) também sofreram impactos indiretos devido às alterações no regime das águas e na fauna aquática do rio Tocantins.  

Em toda a Região da Floresta Amazônica, os rios sempre foram as estradas usadas pelas populações. Por essa razão, as margens dos rios de toda a grande bacia hidrográfica do rio Amazonas sempre foram densamente povoadas desde tempos Pré-Colombianos. Essas populações ribeirinhas sempre sobreviveram da pesca, do extrativismo de espécies como as castanhas e o açaí, da caça e da produção de pequenas culturas agrícolas como a mandioca e o milho. E no baixo curso do rio Tocantins, a situação não seria muito diferente e cerca de 32 mil pessoas que viviam na região tiveram de ser desalojadas para a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Aí estão incluídas as comunidades tradicionais de ribeirinhos e pescadores, grupos indígenas e também comunidades de quilombolas, estas últimas só reconhecidas recentemente

Um detalhe importante a ser lembrado é que todas essas comunidades tradicionais ocupam os mesmos territórios a várias gerações, sem possuir nenhum tipo de documento oficial que comprove a posse da terra. E sem conseguir comprovar a posse da terra, fica bem difícil conseguir reivindicar qualquer tipo de compensação financeira em casos de desapropriação – o Estado brasileiro não tem qualquer obrigação legal (não falamos aqui das obrigações morais) de ressarcir pessoas que vem ocupando terras públicas de maneira ilegal, ou seja – por invasores de terras.  

Numa época marcada pela grande repressão política e de forte intervenção estatal na economia, lembrando que no período da construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí o país vivia sob um Regime Militar de exceção, os interesses estratégicos do país eram colocados acima de qualquer pessoa, especialmente em se tratando de gente pobre dos confins da Floresta Amazônica e que, em tese, ocupavam áreas públicas. 

Em todos os relatos que encontramos de pessoas e famílias desalojadas pela construção dessa usina hidrelétrica e de muitas outras espalhadas por todo o país, ouvimos relatos de promessas das melhorias que toda a região viveria após a construção dos empreendimentos, com a geração de muitos empregos e melhoria na qualidade de vida de todos. Quem oferecia qualquer resistência em abandonar suas terras ancestrais, acabava sofrendo ameaças e eram expulsos a força. Esse desligamento forçado de suas raízes históricas e culturais foi o início dos traumas vividos por essas populações.  

Muitas dessas terras vinham sendo ocupadas pelas mesmas famílias a várias gerações – em muitos casos, as pequenas comunidades possuíam o que as populações Amazônicas chamam de “campos santos”, pequenos cemitérios onde seus ancestrais foram enterrados. Outra característica das margens de rios e matas da Floresta Amazônica são as encantarias – objetos e locais sagrados onde espíritos e seres mágicos da floresta vivem. São valores imateriais e muitas crenças espirituais herdadas dos antigos indígenas. Abandonar tudo isso é bastante difícil para todas essas pessoas. 

Com a perda dos seus meios de sustento e de vida em seus antigos territórios, muitos dos desalojados passaram a conviver com o estresse, a depressão e, em muitos casos, com o alcoolismo e uso de drogas. As mulheres formam o grupo mais vulnerável a todos esses problemas, ficando, inclusive, sujeitas a abusos sexuais. Muitos desses desalojados abandonaram a vida rural e foram viver em áreas urbanas, onde passaram a conviver com problemas sociais da favelização (vide foto), violência urbana, prostituição, falta de saneamento básico, além de serviços de saúde e educação dos mais precários. Os quilombolas, além de encontrar toda essa gama de problemas, também passaram a enfrentar outros ligados ao racismo

No caso das comunidades indígenas, que tem valores completamente diferentes dos chamados “brancos civilizados” (nem tão brancos e tão civilizados assim), essas questões são ainda mais complicadas. Um exemplo foram os impactos sofridos pela comunidade dos índios Asurini, que vivem nas Terras Indígenas Trocará Pacajá, no Estado do Tocantins, e também na Terra Indígena Koatinemo, no Pará. Apesar de suas terras não terem sido alagadas, essas comunidades passaram a sofrer com os desequilíbrios ambientais criados pela construção da Hidrelétrica, como o desaparecimento de fora e fauna, elementos essenciais para a sua alimentação e sobrevivência, além de conflitos com as fazendas de gado que surgiram na região de entorno das terras indígenas. Essas comunidades não foram contempladas com nenhuma indenização ou compensação por danos. 

Essas comunidades indígenas buscavam formas de compensação similares às recebidas pelos índios Parakanã, grupo que teve parte de suas terras inundadas e que recebeu algumas compensações parciais através do Programa Parakanã Pro PKN, firmado entre a Eletronorte e a Funai. Esse programa abrangeu as áreas da saúde, educação, apoio à produção, meio ambiente e vigilância dos limites, além de obras de infraestrutura e apoio administrativo. 

Os problemas das comunidades indígenas, infelizmente, não pararam por aí. Com o deslocamento de todo esse contingente de pessoas, muitas Terras Indígenas passaram a sofrer com a pressão de assentamentos próximos e com o contato frequente com essas pessoas. Em diversos casos, suas línguas nativas acabaram sendo substituídas pelo português, mulheres indígenas passaram a se relacionar com “homens brancos” e a sofrer contaminação por diversos tipos de DSTs – Doenças Sexualmente Transmissíveis.  

Muitas meninas indígenas, com idades entre 10 e 15 anos passaram a se casar com esses “brancos”. Indígenas passaram a sofrer ferimentos ou até morreram vítimas do uso inadequado da energia elétrica e/ou de aparelhos eletrodomésticos. Também cresceram muito os casos de alcoolismo, tabagismo e uso de drogas entre os indígenas. Há de se destacar também as profundas mudanças em seus hábitos de vida e de alimentação – as alterações nos ritmos das águas do rio Tocantins provocaram drásticas mudanças nos volumes dos cardumes de peixes e na fauna que antes vivia nas matas da região. Os orgulhosos e autossuficientes índios de outrora passaram a viver, em muitos casos, como indigentes, dependendo do recebimento de cestas básicas e de auxílios dos órgãos governamentais. 

Para finalizar, um detalhe intrigante – grande parte da energia elétrica gerada em Tucuruí é utilizada por indústrias do Pará e do Maranhão, especialmente multinacionais do setor do alumínio, com preços subsidiados. Enquanto isso, muitos dos desalojados pelas obras do empreendimento ainda vivem à base da luz de velas e de lampiões, mesmo passados mais de 30 anos da inauguração da Usina Hidrelétrica de Tucuruí

As prometidas melhorias na qualidade de vida eram para quem mesmo?

A IMPACTANTE CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE TUCURUÍ

UHE Tucuruí

A Usina Hidrelétrica de Tucuruí é, de muito longe, o principal empreendimento energético do rio Tocantins e um dos maiores do Brasil. Conforme comentamos em postagem anterior, os primeiros estudos sobre o potencial hidrelétrico dos rios Tocantins e Araguaia foram iniciados por técnicos norte-americanos, numa espécie de “convênio” (diria algo mais parecido com a contratação das raposas para fazer um censo no galinheiro) assinado em 1964, entre o Governo Militar do Brasil e autoridades do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Esses estudos também incluiriam dados sobre o potencial de navegação, agricultura, mineração e perspectivas industriais da região. 

Já nos estudos iniciais, foi destacado um trecho do baixo curso do rio Tocantins – as Corredeiras de Itaboca, onde o rio apresentava um forte desnível de 20 metros ao longo de um trecho de 6 km. As estimativas iniciais dos técnicos norte-americanos falavam de um potencial de geração de energia elétrica de 2,4 mil MW em condições naturais. Estudos mais aprofundados feitos posteriormente confirmaram o grande potencial hidrelétrico desse local e já em 1972 foi definida a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí nesse trecho. 

Usina Hidrelétrica de Tucuruí começou a ser construída em novembro de 1975, com o início da escavação do canal de desvio do rio Tocantins, obra concluída em outubro de 1976. Todos os estudos ambientais realizados tinham como foco os problemas que poderiam afetar o funcionamento da Usina, sem que se levasse em conta os impactos que a obra poderia causar ao meio ambiente e às populações ribeirinhas. Nenhum estudo prévio sobre os impactos do represamento do rio e a formação do lago, a abertura de estradas de acesso, instalação de linhas de transmissão, remoção de comunidades ribeirinhas ou perdas de recursos minerais sob a área alagada foi realizado.   

Como imagino ser do conhecimento de todos, qualquer obra que tenha potencial de causar impactos significativos ao meio ambiente, de postos de gasolina a usinas hidrelétricas e nucleares, precisa passar por um processo de Licenciamento Ambiental junto aos órgãos ambientais competentes. Os estudos de impacto ao meio ambiente e o licenciamento ambiental foram estabelecidos pela resolução número 001 do CONAMA –Conselho Nacional do Meio Ambiente, em 1986. As obras de construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí foram concluídas em 1984, em pleno regime militar e antes da criação do processo de licenciamento ambiental, numa época em que “valia tudo”. Não é difícil de se imaginar que antes, durante e depois da construção de Tucuruí, os impactos ambientais e sociais foram deixados em um plano muito, muito secundário. Aliás, é importante lembrar que o Banco Mundial recusou financiar as obras da Usina devido à falta de estudos de impactos ambientais.  

Um conjunto de estudos bastante limitados, incluindo-se os riscos de salinização do estuário do rio Tocantins e da água usada no abastecimento da cidade de Belém, foram realizados à véspera da inauguração de Tucuruí, com o objetivo explícito de conter a pressão da opinião pública. Atualmente, para que você tenha uma ideia da complexidade do processo de licenciamento de uma obra deste porte, são necessários aproximadamente cinco anos de estudos para a liberação da construção de uma usina hidrelétrica e, ainda assim, gerando muitos problemas sociais, ambientais e econômicos.  

Um dos problemas ambientais mais graves da obra foi o fechamento das comportas e o enchimento do lago da represa sem que a retirada da vegetação fosse concluída. Conforme comentado em outras postagens, a vegetação submersa apodrece e torna as águas ácidas e anôxicas (com baixos níveis de oxigênio), o que compromete a qualidade das águas e impede a sobrevivência de peixes e de outros seres aquáticos.  

Estudos realizados durante a fase de projeto de Tucuruí, recomendavam a remoção de 85% da vegetação na área que seria inundada. Apesar desta recomendação, a Eletronorte – Centrais Hidrelétricas do Norte do Brasil, estatal responsável pela obra, definiu um plano para a remoção de apenas 30% desta vegetação, priorizando o corte de madeiras com alto valor comercial. A concessão dos serviços de supressão vegetal e exploração comercial das madeiras desta área florestal coube, “inexplicavelmente”, à CAPEMI – Caixa de Pecúnio dos Militares. Sem qualquer experiência neste tipo de atividade empresarial, a CAPEMI só conseguiu realizar o desmatamento de aproximadamente 100 km², o que equivale a apenas 5% da supressão vegetal recomendada inicialmente.

A CAPEMI, inclusive, faliu em 1983 após a descoberta de uma enorme fraude financeira, o que, ao lado da incompetência empresarial, foi um dos motivos para a não conclusão do corte da vegetação. Ordens vindas dos mais altos escalões do Governo levaram ao fechamento das comportas da represa, mesmo com a maior parte da mata ainda em pé.  

Uma outra controvérsia envolvendo a supressão vegetal na área alagada diz respeito ao uso do Agente Laranja, um desfolhante químico de uso militar altamente tóxico, pela Capemi durante os trabalhos de corte da vegetação. O Agente Laranja, para citar um único exemplo, foi usado durante a Guerra do Vietnã (1959-1975), por tropas dos Estados Unidos, com o objetivo de desfolhar extensas áreas florestais naquele país onde, supostamente, tropas inimigas estavam escondidas. Pessoas expostas ao Agente Laranja apresentam inúmeros problemas neurológicos e propensão ao desenvolvimento de câncer. Em 1983, uma inspeção feita por consultores independentes em um dos acampamentos da obra encontrou 373 barris vazios do produto. As autoridades sempre negaram o fato e as supostas provas dos acontecimentos, simplesmente sumiram, o que nunca foi algo anormal no período dos Governos Militares.  

Outro conjunto altamente relevante de problemas gerados pela construção de Tucuruí foram os impactos aos ecossistemas aquáticos, que começam pela não inclusão de uma “escada para peixes” no escopo da obra. Devido aos altos custos e a “pouca relevância da questão”, não foram realizados estudos sobre a diversidade e os impactos das obras para as espécies aquáticas no rio Tocantins. Estudos feitos anteriormente pelo INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, haviam identificado cerca de 350 espécies de peixes no rio Tocantins.

Após o enchimento do lago de Tucuruí, o número de espécies encontradas foi muito pequeno, dominado por umas poucas espécies de predadores. Nos três primeiros anos da formação do lago, as piranhas eram os peixes encontrados com maior frequência nas águas (representavam entre 40% a 70% das espécies capturadas em redes experimentais do INPA), o que mostra o grau dos impactos nos ecossistemas aquáticos. Com o passar do tempo, houve a recuperação das populações de outras espécies e redução da população de piranhas.  

Além destes problemas de maior impacto ambiental, existiram outros, de ordem social, também muito importantes. A remoção compulsória de populações é um deles. Famílias que moravam a inúmeras gerações nas áreas ribeirinhas, foram transferidas a força para outras áreas, sem qualquer margem para negociação ou discussão. Obras do patrimônio histórico e cultural destas comunidades foram encobertas silenciosamente pelas águas da represa. Eu destaco nesta lista um patrimônio imaterial e sentimental que não tem preço para estas pessoas – os campos santos, pequenos cemitérios destas comunidades, onde seus ancestrais foram enterrados. Também são relevantes os locais considerados “sagrados” por comunidades indígenas, onde acreditavam viver os espíritos dos seus antepassados. Naqueles “anos de chumbo”, contestar qualquer uma das decisões do Regime Militar podia resultar numa sentença de prisão nos muitos porões da ditadura.  

Em 22 de novembro de 1984, a Hidrelétrica de Tucuruí foi inaugurada com muita pompa e circunstância pelo General João Batista Figueiredo, último presidente do Regime Militar que governou o Brasil por duas décadas. A potência instalada inicial da Usina era de 4 mil MW que, depois de sucessivas ampliações, atingiu a marca de 8,37 mil MW em 2010. A barragem da Usina atingiu um comprimento total de 11 km e uma altura de 75 metros, o que formou um lago com 200 km de comprimento e com uma área total de 2.850 km²

Em setembro de 2016, mais de 30 anos depois da inauguração da Hidrelétrica de Tucuruí, foi concluído um acordo entre a Eletronorte e 2.343 famílias desalojadas pela construção do empreendimento nas cidades de Novo Repartimento, Tucuruí, Breu Branco, Goianésia do Pará, Jacundá, Itupiranga e Nova Ipixuna. Depois de décadas de lutas e muito sofrimento, cada uma das famílias recebeu R$ 5.088,00 a título de indenização – pouco dinheiro para uma quantidade tão grande de problemas criados pelas obras. 

Tucuruí foi uma das últimas grandes obras do chamado período dos Governos Militares (1964-1985) e se transformou numa espécie de símbolo do descaso dessas “otoridades” com o meio ambiente. À época, eu lembro de ter escrito um trabalho para a faculdade sobre a obra, onde foquei nos problemas criados pela formação da represa, que inundou uma grande área de floresta. Na pressa em concluir as obras e diante da incompetência e corrupção que tomou conta dos responsáveis por essa parte do empreendimento, os responsáveis simplesmente pularam essa etapa. Uma outra curiosidade sobre Tucuruí é que, mesmo sendo uma das maiores geradoras de energia elétrica do país, inúmeras comunidades da região ficaram sem o abastecimento de eletricidade até poucos anos atrás.  

A “excepcional” visão estratégica de longo prazo dos planejadores nacionais, que sempre foi motivo de orgulho nas propagandas oficiais do antigo regime, não foi suficientemente longa para incluir uma eclusa para tráfego de embarcações no projeto da barragem, possibilitando a futura criação e operação da Hidrovia Tocantins-Araguaia. A eclusa que se encontra na barragem hoje, considerada a maior do mundo, levou duas décadas para ser concluída, custando a “bagatela” de R$ 1,6 bilhão. Apesar do altíssimo investimento, a eclusa é considerada um elefante branco – os operadores afirmam que o tráfego de embarcações atinge apenas 5% do potencial de tráfego previsto no projeto (estima-se que a eclusa tem potencial para atender o tráfego de até 20 milhões de toneladas/ano em cargas). 

O grande obstáculo para o aumento no número de embarcações e cargas trafegando na região é a existência do Pedral do Lourenço, uma gigantesca formação geológica que se estende por um trecho de 43 km no rio Tocantins. Há vários anos, sucessivos Governos tentam realizar uma concorrência pública, com o objetivo de contratar empresas para a construção de um canal de navegação nesse trecho e viabilizar uma parte importante da hidrovia Tocantins-Araguaia. Sabe-se lá quantas décadas mais serão necessárias para que se concluam essas obras. 

Apesar da sua enorme importância como geradora de energia elétrica, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí será para sempre um símbolo de como as coisas funcionam no Brasil – falta de visão de longo prazo, muito improviso e extrema inconsequência. 

 

O RIO TOCANTINS E A TRISTE SINA DOS GOLFINHOS DE ÁGUA DOCE, OU FALANDO DO DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

Boto-do-Araguaia

Na postagem anterior, quando falamos das usinas hidrelétricas do rio Tocantins, mostramos o drama vivido pelos botos do Araguaia, uma espécie de golfinhos de água doce recém classificada pela ciência, mas que, desgraçadamente, já está na lista de espécies seriamente ameaçadas de extinção. Até 2014, os cientistas imaginavam que os botos do Araguaia eram da mesma espécie de botos da Bacia Amazônica. Estudos mais detalhados mostraram que esses animais tem importantes diferenças físicas e, portanto, passaram a ser agrupados em uma nova espécie – a Inia araguaiensis

Os botos do Araguaia não estão sozinhos na sua luta pela sobrevivência – existem diversas espécies de golfinhos de água doce ao redor do mundo que enfrentam problemas semelhantes. A poluição das águas, a destruição de áreas florestais e o assoreamento da calha dos rios, a fragmentação dos seus habitats – como a construção de barragens de usinas hidrelétricas, e a redução dos caudais dos rios estão no topo da lista de problemas comuns. 

Um dos casos mais trágicos é o do baiji (Lipotes vexillifer), também conhecido como golfinho-lacustre-chinês ou ainda como golfinho branco. Esse magnífico animal tinha como habitat principal o rio Yangtzé, o maior rio da Ásia e também o rio mais poluído da China. Estudos científicos indicam que o baiji vinha habitando a bacia hidrográfica do rio Yangtzé há, pelo menos, 20 milhões de anos, mas não resistiu a uns poucos milênios de convivência com os seres humanos – a última vez que um baiji foi visto nas águas poluídas do rio Yangtzé foi em 2006. Várias expedições científicas foram organizadas desde então e saíram em busca de exemplares vivos do golfinho, mas nenhum animal foi encontrado. A espécie vem sendo considerada funcionalmente extinta. 

Outra espécie de golfinhos de água doce seriamente ameaçada é o golfinho-do-irrawaddy (Orcaella brevirostris) do Mekong, outro grande rio da Ásia. Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto, lembrando muito as belugas. Eles podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. Populações isoladas de golfinhos-do-irrawaddy são encontradas em rios e estuários desde o delta do rio Ganges, na Baía de Bengala, até o Norte da Austrália, incluindo as costas do Estreito de Malaca, áreas costeiras das Ilhas Indonésias nos mares de Java, das Flores, de Banda, de Timor e de Arafura, além de áreas costeiras no Golfo da Tailândia e do Sul do Mar Meridional da China.  

A espécie, que já foi abundante no rio Mekong e uma grande atração para os turistas que visitam a região, está reduzida a poucas dezenas de indivíduos. Entre as causas desse desaparecimento está a construção de grandes barragens de usinas hidrelétricas, a caça predatória, a morte de animais que se afogam ao ficar presos nas redes de pesca, “atropelamentos” por embarcações, encalhes em bancos de areia e também devido a intensa poluição das águas em muitos trechos do rio Mekong, especialmente pelo carreamento de resíduos de pesticidas agrícolas usados nas plantações de arroz. 

Outra espécie que está correndo seríssimos riscos é o golfinho-do-rio-ganges (Platanista g. gangetica), cujo habitat se estende por toda a bacia hidrográfica dos rios Ganges e Bramaputra, entre outros rios menores da Índia Oriental, do Nepal, do Butão e de Bangladesh, onde se encontra o grande Delta do Rio Ganges. Na época das Monções, período de fortes chuvas em toda a Ásia, esses golfinhos se aproveitavam da alta dos níveis dos rios e subiam as correntes até chegar aos sopés das montanhas das Himalaias. O susu, nome popular que a espécie recebe da população, costuma emergir em intervalos de 30 a 45 segundos para respirar na superfície; algumas vezes ele pode ser observado nadando com o “bico” para fora, lembrando muito os crocodilos da espécie gavial, encontrados em toda a Índia. Estes golfinhos podem ser encontrados em águas rasas com até um metro, mas parecem preferir mesmo as regiões com águas mais profundas. 

A intensa poluição nas águas do rio Ganges está tornando a sobrevivência do susu um grande desafio. O despejo de esgotos e efluentes industriais nas águas do rio tem reduzido os estoques de peixes e de pequenos crustáceos, os principais alimentos do cardápio dos golfinhos. A construção de diversas barragens ao longo de toda a calha do rio Ganges é um outro problema – estes obstáculos criam barreiras para o livre fluxo dos animais em suas rotas de migração e isola populações, um mal que leva à redução da variedade genética dos animais e prenuncia a extinção da espécie. As imensas ilhas de lixo flutuante com todos os tipos de resíduos também criam graves problemas para a navegação por ecolocalização – a grande quantidade de obstáculos na água transforma as imagens geradas em verdadeiros labirintos nos cérebros dos animais, o que resulta em estresse intenso. Caso não venham a ser tomadas medidas de controle da poluição das águas e adotadas políticas sérias para a gestão dos resíduos sólidos na bacia hidrográfica do rio Ganges, o destino dos seus golfinhos será o mesmo dos baijis do rio Yangtzé: a eminente extinção. 

Uma espécie que eu costumo incluir nessa lista, que não é exatamente um golfinho de água doce, mas que vive um drama semelhante, é a vaquita (Phocoena sinus), uma pequena espécie de cetáceo que habita a região do delta do rio Colorado e um pequeno trecho de águas salobras do Golfo da Califórnia. O rio Colorado, conforme já tratamos em uma série de postagens anteriores, é um dos rios com maior aproveitamento no mundo. Suas águas são altamente exploradas em sistemas de irrigação agrícola em uma extensa área do Sudoeste dos Estados Unidos. Como resultado desse uso intensivo, praticamente não chega mais água doce na região do Delta do rio Colorado, o que destruiu o habitat das vaquitas. A intensa pesca no Golfo da Califórnia completou o drama dos golfinhos – centenas de animais passaram a morrer presos nas redes de pesca. Numa contagem recente dos animais, os biólogos encontraram menos de 20 vaquitas. 

Todas as espécies de cetáceos modernos – baleias, golfinhos, botos e orcas, descendem de um ancestral comum: o Pakicetus. Esse animal extinto era do tamanho de um cachorro e apresentava algumas semelhanças com as lontras, com características terrestres e aquáticas. O primeiro fóssil do Pakicetus foi encontrado no início da década de 1980 no Paquistão (por isso o nome Pakicetus ou cetáceo do Paquistão). Na análise do fóssil, os cientistas rapidamente perceberam a semelhança com o crânio dos cetáceos modernos, especialmente quando se observava a região da cavidade do ouvido. Esses animais evoluíram para uma vida totalmente aquática no antigo Mar de Tétis, um oceano que existiu originalmente entre a Laurásia Gondwana, os supercontinentes ancestrais do planeta Terra. 

Com a fragmentação e reconfiguração dos continentes, os ancestrais das diversas espécies de cetáceos foram encontrando seus novos nichos ecológicos e se adaptando para as novas condições de vida. No caso dos botos do Araguaia, sua história evolutiva está ligada a um grupo de animais da mesma espécie dos rios da Bacia Amazônica que acabou isolado na bacia hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia. Ao longo de milhões de anos, essa espécie seguiu por um caminho evolutivo diferente, surgindo assim uma espécie diferente de animais. Todo um esforço evolutivo de dezenas de milhões de anos e que resultou em todo um conjunto de espécies de animais fascinantes, está fortemente ameaçado pela insensatez e irresponsabilidade dos seres humanos.  

Neste dia, quando o mundo comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente, é importante pararmos para pensar um pouco no que estamos fazendo com o nosso planeta e com todas as espécies animais e vegetais que compartilham suas vidas com as nossas. 

  

FALANDO DAS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO TOCANTINS

UHE LUIZ EDUARDO MAGALHÃES

Conforme comentamos em postagem anterior, a bacia hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia ocupa a segunda posição em produção de energia elétrica no Brasil. O rio Tocantins possui um total de 7 usinas hidrelétricas em sua calha, onde o grande destaque é a Hidrelétrica de Tucuruí, empreendimento que possui uma potência total instalada de 8.370 MW

O primeiro grande estudo para o aproveitamento dos recursos hídricos dos rios Araguaia e Tocantins foi iniciado em 1964, com patrocínio da Agency for Internacional Development – United States Department of States, e em parceria com a extinta CIVAT – Comissão Interestadual dos Vales do Araguaia-Tocantins. Aqui vale lembrar que, naqueles tempos, o Governo dos Estados Unidos apoiou a ascensão de diversas Juntas Militares ao poder, inclusive aqui no Brasil, como parte de sua estratégia na Guerra Fria contra a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Como parte do “pacote”, os norte americanos passaram a desenvolver diversos programas de cooperação técnica e científica com os países sob a sua esfera geopolítica. 

Técnicos americanos iniciaram os trabalhos sobrevoando os rios Araguaia e Tocantins em aviões de pequeno porte. Naqueles tempos, as regiões lindeiras do rio Tocantins eram escassamente povoadas e os acessos por via terrestre eram praticamente inexistentes. Todos os dados disponíveis sobre hidrologia, meteorologia, solos, propriedades, recursos minerais e florestais, potenciais hidrelétricos e projeções de desenvolvimento econômico e industrial foram consultados. Os estudos iniciais foram focados no potencial de navegação, mas acabaram incorporando a agricultura, geração de energia elétrica, controle das águas e atividades industriais. 

Um dos principais destaques do relatório final que foi apresentado ao Governo brasileiro fazia referência ao potencial hidrelétricos dos rios, estimado entre 10 e 15 milhões de kW, onde foram destacadas 12 regiões de maior interesse na calha dos rios. Na região do baixo curso do rio Tocantins, foi destacada uma localidade – as Corredeiras de Itaboca, onde o rio apresentava um forte desnível de 20 metros ao longo de um trecho de 6 km. As estimativas iniciais dos técnicos norte-americanos falavam de um potencial de geração de energia elétrica de 2,4 mil MW em condições naturais. Anos depois, foi construída nesse local a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, uma das maiores em operação no Brasil e sobre a qual falaremos detalhadamente em futuras postagens. 

A Usina Hidrelétrica de Tucuruí foi inaugurada em 1984, dentro de um grande pacote de obras de infraestrutura levada a cabo pelo Regime Militar que governou o país entre 1964 e 1985. Depois de uma longa pausa, houve uma repentina retomada da construção de hidrelétricas no rio Tocantins, quando foram construídas as usinas de Serra Mesa (1998), Cana Brava (2002), Luís Eduardo Magalhães (2002), Peixe Angical (2006), São Salvador (2009) e Estreito (2012)

A Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, cuja seca persistente na sua represa foi tema da postagem anterior, foi inaugurada em 1998. A Usina possui uma capacidade instalada total de 1,275 mil MW. Além da preocupação óbvia com a geração de energia elétrica, Serra Mesa foi concebida com o objetivo de armazenar grandes volumes de água e, a exemplo da represa da Usina Hidrelétrica de Três Marias no rio São Francisco, regularizar os caudais do rio Tocantins nos períodos da seca, garantindo a geração de energia nas usinas hidrelétricas que seriam construídas a jusante. Conforme comentamos, a Represa vem enfrentando um forte período de seca desde de 2012 e várias medias para a recuperação dos seus níveis de água estão tomadas. 

Em 2002, foram inauguradas as Usinas Hidrelétricas de Cana Brava e Luís Eduardo Magalhães. A Usina de Cana Brava está localizada entre os municípios de Minaçu, Cavalcante e Colinas do Sul, no Estado de Goiás. O empreendimento possui três grupos geradores, que fornecem uma potência total de 450 MW. O lago formado pela Hidrelétrica, que inundou uma área total de 139 km², acabou se transformando numa das principais atrações turísticas da região. Como é comum acontecer em regiões interioranas que ficam longe do litoral, os reservatórios de água são transformados em verdadeiras praias de água doce e passam a concentrar hotéis, pousadas, restaurantes e clubes náuticos. 

A Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães (vide foto), que era chamada anteriormente de Lajeado, está localizada entre os municípios de Miracema do Tocantins e Lajeado, já no Tocantins, a cerca de 54 km da capital do Estado – Palmas. A Usina conta com 6 grupos geradores, que fornecem uma capacidade total instalada de 902,5 MW. A barragem da Usina, com uma altura de 74 metros, formou um lago de 630 km², que, além dos municípios sede do empreendimento, se estende também para Palmas, Porto Nacional, Brejinho de Nazaré e Ipueiras. As obras da Hidrelétrica foram iniciadas em 1998 e concluídas em 2002. 

A Usina Hidrelétrica de Peixe Angical, concluída em 2006, fica localizada entre os municípios de Peixe e São Salvador, no Estado do Tocantins, a cerca de 350 km da capital do Estado – Palmas. A Usina possui 3 grupos geradores e uma potência total instalada de 452 MW. O lago da hidrelétrica inundou uma área de aproximadamente 120 km². Curiosamente, talvez por uma referência ao próprio nome do empreendimento, a Usina Hidrelétrica de Peixe Angelical é a única instalação da calha do rio Tocantins a contar com uma escada para peixes. Esse dispositivo, de extrema importância para a migração das espécies aquáticas durante o período da piracema, é fundamental para atenuar os impactos da obra sobre a fauna do rio

Na sequência foi a vez da Usina Hidrelétrica São Salvador, inaugurada em 2009, no município de Paranã, em Tocantins. A Hidrelétrica conta com 2 grupos geradores, que fornecem uma potência instalada total de 243,2 MW. A Usina é do tipo a “fio d’água”, empreendimento que opera basicamente a partir da força da correnteza do rio, necessitando de pequenos reservatórios ou, conforme as características do rio, muitas vezes nem dependem da reservação de água. São Salvador possui um reservatório com 104 km² de área. 

Finalmente, chegamos ao mais recente empreendimento energético instalado na calha do rio Tocantins – a Usina Hidrelétrica de Estreito, localizada no município homônimo, no Estado do Maranhão, na divisa com Tocantins. A Hidrelétrica possui 8 grupos geradores e uma capacidade total instalada de 1,087 mil MW, suficiente para abastecer uma cidade com 4 milhões de habitantes. As obras do empreendimento foram concluídas em 2012. O lago formado pela Usina inundou uma área de 555 km², se espalhando por um total de 12 municípios de Tocantins e do Maranhão. 

Como é fácil de se notar no texto, a imensa maioria das usinas hidrelétricas instaladas ao longo da calha do rio Tocantins não se deu ao trabalho de se preocupar com a instalação de escadas ou qualquer outro dispositivo que permitisse o livre fluxo de espécies aquáticas pelas águas do rio. Isso permite uma leitura bastante objetiva dos impactos ambientais que essa verdadeira sucessão de represamentos provocou no rio, sem falar, é claro em todos os impactos sociais. 

Entre as muitas espécies ameaçadas, vamos citar uma icônica – o boto do Araguaia (Inia araguaiensis), espécie descrita pela ciência somente em 2014. Durante séculos, se acreditou que os botos que habitavam as águas dos rios Araguaia e Tocantins eram da mesma espécie que os botos dos rios da Bacia Amazônica, representados pelas espécies boto cinza (Sotalia guianensis), o boto tucuxi (Sotalia fluviatilis) e o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis). Os estudos revelaram que esses animais possuíam diferenças na estrutura óssea e no número de dentes, características que os colocavam dentro de uma nova espécie. 

Ironicamente, o boto do Araguaia mal nos foi apresentado pela ciência e já entrou na lista das espécies sob grave risco de extinção. 

OS PERSISTENTES BAIXOS NÍVEIS DA REPRESA DE SERRA MESA EM GOIÁS

Serra Mesa

A Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, no rio Tocantins, foi inaugurada em 1998. Sua represa passou a ocupar a quinta posição entre os maiores lagos artificiais do Brasil, com uma área total de 1.784 km², maior que o município de São Paulo. A represa passaria a desempenhar um papel semelhante ao da Represa de Três Marias, funcionando como um regulador dos caudais do rio Tocantins no período da seca. Para cumprir essa função, a represa poderia armazenar aproximadamente 54 bilhões de m³ de água, números que a colocariam como o maior reservatório do país em capacidade de armazenamento. Infelizmente, desde 2012, os níveis da Represa não pararam de cair. 

No final do ano passado, nós publicamos uma postagem aqui no blog falando da situação crítica de Serra Mesa, que naquela época chegou ao nível de 12,46% (28/10/2018). Naquele momento, toda a Região o Centro-Oeste do país estava passando por um período de forte seca e as populações da região esperavam ansiosamente pela chegada de chuvas em volumes maiores e com melhor distribuição geográfica. As projeções da meteorologia, infelizmente, não eram as mais animadoras – as chuvas previstas para os últimos meses do ano estavam abaixo da média histórica por conta da presença do fenômeno El Niño. As projeções indicavam que o fenômeno climático provocaria áreas com chuvas mais intensas nas regiões Sudeste e Sul 

De acordo com estudos da SECIMA – Secretaria Estadual de Cidade, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás, foi observada uma redução de 10% nos volumes de chuva no Estado desde 2008 – a partir de 2016, a redução foi ainda maior, chegando aos 25%. Neste período, o fenômeno El Niño  se fez presente em 4 anos, tendo  provocado redução nas chuvas em pelo menos 3 anos. Apesar dos números encontrados, os dados do estudo não permitem nenhuma conclusão sobre o assunto. Na década de 1960 também foi observado um período de 4 anos com redução contínua das chuvas no Estado, porém, as chuvas voltaram aos níveis históricos nos anos seguintes. 

Entre janeiro e julho de 2018, o volume de chuvas acumulado no Estado de Goiás chegou à marca de 6.710 mm, o menor volume registrado desde de 1994, quando foram registrados 6.017 mm no mesmo período. Historicamente, o volume médio de chuvas nesse período é de 8.400 mm. É esse déficit hídrico contínuo que está se refletindo nas águas do reservatório de Serra Mesa e também na produção agrícola do Estado, onde afeta a produtividade das culturas de grãos e provoca atrasos no plantio de novas safras. 

Além de fenômenos climáticos, o Estado de Goiás, em particular, e grande parte da Região Centro-Oeste, sofre com o avanço das frentes agrícolas e com o corte sistemática de extensas áreas de vegetação nativa do Cerrado. Conforme já comentamos exaustivamente em diversas postagens anteriores, esse corte de espécies nativas do bioma tem reflexos na recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos de água. O clima do Cerrado é caracterizado por dois períodos distintos – um período de fortes chuvas seguido por uma temporada de seca. Ao mesmo tempo, os solos do bioma apresentam rochas permeáveis, com alta capacidade para o armazenamento de água, onde os grandes sistemas de raízes da vegetação nativa facilitam a infiltração da água. Sem a presença dessa vegetação, a água das chuvas tem dificuldade para se infiltrar em grandes profundidades para a recarga dos depósitos subterrâneos, o que comprometerá as nascentes de água do bioma. 

Uma resolução da ANA – Agência Nacional de Águas, publicada no final de 2018, determinou que a barragem da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa passasse a liberar uma quantidade menor de água entre os meses de dezembro de 2018 e maio de 2019. O objetivo dessa medida seria a recuperação do volume de água no reservatório durante o período das chuvas em um nível de até 7,2%. Com essa medida, a vazão da Hidrelétrica foi reduzida de 300 m³ por segundo para 200 m³ por segundo nos meses de dezembro de 2018 e maio de 2019. Entre janeiro e abril de 2019, essa redução foi ainda maior – para 100 m³ por segundo. Ontem, dia 03/06/2019, o nível da Represa de Serra Mesa atingiu a marca de 22,86%, contra o nível de 12,49% em 09/12/2018, o que mostra que houve uma visível melhoria

Além de garantir a geração de energia elétrica – a Usina Hidrelétrica de Serra Mesa tem uma potência instalada de 1,275 mil MW, a Represa foi concebida para regularizar os caudais do rio Tocantins nos períodos de seca, garantindo assim as vazões para a operação das demais Hidrelétricas a jusante – Cana Brava, São Salvador, Peixe Angical, Luís Eduardo Magalhães e Estreito. Com a adoção dessa medida emergencial, foram garantidas as vazões mínimas de operação para as Usinas Hidrelétricas, ao mesmo tempo que se garantiu uma substancial recuperação dos níveis de armazenamento de água na Represa de Serra Mesa. 

Apesar de necessária, essa medida criou uma série de complicações para a navegação em um longo trecho do rio Tocantins. Tradicionalmente, os meses de chuva são os melhores para a navegação na calha do rio, quando a elevação dos volumes dos caudais encobre os extensos bancos de areia, obstáculos que prejudicam muito a navegação nos períodos da seca. Além do transporte de grãos como o milho e a soja, a navegação no rio Tocantins é fundamental para o transporte das populações ribeirinhas e de turistas, especialmente pescadores, que buscam a região e seus famosos peixes como o tucunaré. A Marinha do Brasil foi engajada nesse processo a fim de fiscalizar e garantir a segurança da navegação nesse período especial. 

Além dos aspectos técnicos ligados à geração de energia elétrica e aos transportes fluviais, a recuperação dos níveis da Represa de Serra Mesa também tem reflexos no turismo, uma importante fonte de renda e de lazer para a população local. Conforme já comentamos em outras postagens, a construção de usinas hidrelétricas em áreas interioranas do país, apesar de toda uma lista de problemas decorrentes, cria verdadeiras “praias” de água doce para as populações, além de permitir a prática de toda uma série de esportes náuticos. 

A forte seca que atingiu a Represa de Serra Mesa a partir de 2012, criou grandes problemas para o turismo na região do entorno. Hotéis, restaurantes – alguns flutuantes, clubes náuticos e muitas praias com infraestrutura (quiosques, banheiros e estacionamentos), que ficavam na beira do espelho d’água, passaram a ficar a centenas de quilômetros das margens. Além da extensa faixa de lama seca, a paisagem ficou tomada por restos de árvores mortas ainda em pé, que não foram cortadas antes do enchimento do lago e acabaram encobertas pelas águas (vide foto). Dezenas desses estabelecimentos comerciais fecharam e centenas de pequenos comerciantes e prestadores de serviço, que dependiam desse fluxo turístico, perderam sua fonte de trabalho e renda. 

A melhora no nível de Serra Mesa amenizou os problemas, mas ainda se está longe dos bons tempos do grande lago em meio ao Cerrado. Há muitos anos atrás eu tive a oportunidade de fazer um passeio turístico de barco nessa Represa e lembro bem da alegria dos demais passageiros, a grande maioria formada por gente local, que aparentavam navegar pela primeira vez num espelho d’água tão grande.  

Que esses bons tempos voltem o mais rápido possível. 

TOCANTINS-ARAGUAIA: A SEGUNDA BACIA HIDROGRÁFICA EM PRODUÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA DO BRASIL

Tocantins-Araguaia

A bacia hidrográfica formada pelos rios Tocantins e Araguaia ocupa uma área total de 960 mil km², o que corresponde a 11% do território brasileiro. Ela se estende por cerca de 2.500 km no sentido Sul-Norte, desde as nascentes do rio Araguaia na Serra do Caiapó, próxima ao Parque Nacional das Emas no município de Mineiros em Goiás, até a foz do rio Tocantins na Baía da Ilha do Marajó, no Estado do Pará. É, ao lado do rio São Francisco, uma das maiores bacias hidrográficas localizadas inteiramente em território brasileiro. 

A bacia hidrográfica Tocantins-Araguaia é considerada como a segunda maior em produção de energia elétrica do Brasil. No rio Tocantins foram construídos vários complexos hidrelétricos, transformando o rio numa sucessão de represas. A primeira usina hidrelétrica do rio Tocantins foi Tucuruí, concluída em 1984 e causadora de inúmeros problemas ambientais e sociais. Em 1998, foi concluída a Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, que formou um dos maiores espelhos d’água do Brasil; em 2002 foram finalizadas as Usinas de Cana Brava e Luís Eduardo de Magalhães; em 2006 foi a vez da Usina de Peixe Angical e em 2009 as Usinas de Estreito e São Salvador

Já o rio Araguaia ficou com seu curso totalmente livre da construção de barragens e usinas hidrelétricas. Estudos técnicos feitos na sua bacia hidrográfica indicavam um potencial de geração hidrelétrica de 3,1 mil megawatts e havia a previsão para a construção de três usinas hidrelétricas: Santa Isabel, Torixoréu e Couto Magalhães. Para a sorte do rio, Governo Federal acabou desistindo desses projetos

O rio Araguaia percorre uma extensão total de 2.115 km até desaguar no rio Tocantins, na divisa dos municípios de Esperantina, no Estado do Tocantins, e São João do Araguaia, no Pará. A bacia hidrográfica do rio Araguaia abrange uma área total de mais de 380 mil km², tendo as nascentes dos seus afluentes ocorrendo exclusivamente em áreas de Cerrado. No Oeste do estado do Tocantins, o rio Araguaia se divide em dois braços, sendo um dos braços chamado de rio Javaés, formando a ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo. Um trecho de 1.160 km do rio Araguaia, entre as cidades de São João do Araguaia e Beleza, é navegável durante o período da cheia. 

Com cerca de 2.450 km de extensão, o rio Tocantins é o segundo maior rio totalmente brasileiro, só ficando atrás do rio São Francisco. O Tocantins se forma a partir da junção dos rios Paraná e Maranhão, cursos d’água com nascentes na região da Serra Dourada em Goiás. Na região conhecida como Bico do Papagaio, na divisa entre os Estado do Tocantins, Maranhão e Pará, as águas do rio Araguaia se juntam ao rio Tocantins, formando um rio caudaloso, navegável por cerca de 2 mil km no período das cheias. 

Assim como vem ocorrendo com o rio São Francisco, a bacia hidrográfica do Tocantins-Araguaia também está sofrendo com a redução sistemática dos seus caudais. E a causa é basicamente a mesma – a destruição sistemática de extensas áreas de vegetação natural de Cerrado para a abertura de novos campos agrícolas. Durante séculos, os solos do Cerrado foram considerados muito pobres para a agricultura em larga escala. Esse cenário começou a mudar na década de 1950, quando foram desenvolvidas técnicas para a correção da forte acidez desses solos como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. Na década de 1970, foram desenvolvidas sementes de cultivares, especialmente milho e soja, adaptados para o clima e os solos do bioma, inovações que transformaram toda a região do Cerrado brasileiro numa gigantesca fronteira agrícola. 

O grande salto da agricultura na região se deu na década de 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. Com o avanço da agricultura e o corte da vegetação nativa do Cerrado, foi iniciada a contagem regressiva para o fim dos grandes rios da região. 

À medida que as grandes plantações de grãos e as extensas pastagens para as boiadas passaram a ocupar as paisagens do Cerrado, passou-se a observar também uma forte redução dos níveis dos rios Tocantins e Araguaia nos meses de seca. Essa redução dos caudais, que sempre foi considerada normal nesses períodos, passou a transformar grandes trechos do rio em filetes de água entrecortando grandes brancos de areia, o que passou a afetar a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. 

Uma imagem que se tornou comum nas margens dos rios Araguaia e Tocantins são as gigantescas voçorocas criadas pelas chuvas, algumas alcançando mais de 70 metros de largura e 50 metros de profundidade. Essas formações são resultado da forte erosão dos solos durante a época das chuvas e carreiam, a cada ano, milhões de toneladas de sedimentos para a calha dos rios. A origem dessas erosões está no manejo inadequado dos solos e na remoção da cobertura vegetal nativa. Apesar da aparência pobre acima da superfície, as espécies vegetais do Cerrado possuem sistemas de raízes extremamente complexas e profundas, que permitem a infiltração de porcentagens significativas das águas das chuvas em direção aos aquíferos subterrâneos, ao mesmo tempo que protegem o solo contra a erosão. Cultivares como o milho e a soja, ao contrário, possuem raízes muitos curtas, e facilitam a formação de fortes enxurradas e a erosão dos solos.  

Os antigos rios grandes e caudalosos, com fartos estoques de peixe e muita vida em suas margens, cada vez mais se transformam em pequenos córregos nos meses de seca, com profundidades de poucos centímetros. Trechos que em décadas passadas só podiam ser atravessados em balsas ou embarcações, agora podem ser atravessados facilmente a pé, caminhando sobre os montes de entulho e areia. Sem entrarmos nos problemas de abastecimento de água das populações, da perda de uma importante fonte de alimentação fornecida pela pesca e da destruição de um ambiente fundamental para a manutenção de inúmeras espécies aquáticas e terrestres, essa redução dos caudais é um “tiro no pé” em termos de transporte. A consolidação da Hidrovia Tocantins-Araguaia, uma via de transportes fundamental para a produção de grãos de uma extensa região do Cerrado, tende a ficar restrita, cada vez mais, aos períodos de cheia dos rios.  

A redução dos caudais da bacia hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia também pode afetar em cheio a produção de energia elétrica nas inúmeras hidrelétricas instaladas ao longo da sua calha. Vamos começar a falar desses empreendimentos a partir da próxima postagem. 

BARÃO DE COCAIS: PARTE DO TALUDE DA MINA GONGO SECO SE DESPRENDEU SEM CAUSAR MAIORES DANOS

Barão de Cocais

A tensão vivida pela população de Barão de Cocais diminuiu um pouco esta manhã – uma parte do talude da Mina Gongo Seco, que ameaçava desmoronar abruptamente e tinha potencial para romper uma barragem de rejeitos, se despendeu nessa madrugada, sem causar maiores danos. De acordo com nota emitida pela Vale do Rio Doce, empresa mineradora responsável pelo empreendimento, “o material está deslizando de forma gradual, o que até o momento corrobora as estimativas de que o desprendimento do talude deverá ocorrer sem maiores consequências”, informou a mineradora em nota oficial. A Vale disse ainda que a barragem segue com monitoramento 24 horas por dia com uso de radar e estação robótica capazes de detectar movimentações milimétricas”

O drama na cidade de Barão de Cocais teve início no mês de fevereiro, quando os funcionários da Mina Gongo Seco passaram a observar uma aceleração abrupta no deslocamento de um grande bloco do talude, que nada mais é que um paredão rochoso. A queda abrupta desse bloco, com mais de 80 metros de altura e com centenas de toneladas de peso, poderia desencadear uma grande onda de choque, com potencial para desestabilizar uma barragem de rejeitos da mesma mina, localizada a cerca de 1,5 km. A eventual onda de lama e de rejeitos minerais liberadas pela barragem poderia atingir partes da cidade Barão de Cocais em pouco mais de 1 hora, o que foi suficiente para colocar toda a cidade em estágio de alerta. 

Conforme comentamos em postagem anterior, a ansiedade criada na população pela espera do desastre criou uma série de problemas, que foram da paralização do comércio na cidade ao aumento do número de pessoas que passaram a buscar atendimento psiquiátrico e psicológico. Moradores dos pontos mais críticos foram retirados de suas casas e hospedados em hotéis; rotas de fuga e pontos de encontro foram sinalizados; trechos de calçadas foram pintados na cor laranja, sinalizando os locais que poderiam ser atingidos pela lama, entre outras medidas preventivas. 

Felizmente, ao que tudo indica, a vida poderá começar a voltar à normalidade em Barão de Cocais. 

Torçamos todos pela continuidade dessa “queda gradativa” do talude e que lições sejam tiradas dessa “quase” tragédia.