TRATANDO OS DEJETOS SUÍNOS, OU A VINGANÇA DOS PORCOS CONTINUA

biogas

No meu último post começamos a falar do sério problema no abastecimento de água na região oeste do Estado de Santa Catarina, provocado pela contaminação da maior parte das fontes de água por dejetos suínos.

Para que se entenda a complexidade do problema, pesquisei dados relativos à suinicultura no início da década de 2.000 no Estado de Santa Catarina. Vejam alguns números:

– Rebanho suíno de mais de 4 milhões de animais;

– Produção de 665 mil toneladas de carne no ano 2.000;

– Estado responsável por 80% das exportações brasileiras do produto, com rendimento de U$ 231 milhões;

– 18 mil propriedades produtoras de suínos para venda industrial.

– Suinocultura catarinense participava com cerca de 18% do valor bruto da produção agrícola estadual.

Esses números, por si só, conseguem explicar e justificar a pressão ecológica da suinocultura no oeste catarinense. Porém, há muito mais – se você verificar na gondola de congelados de um supermercado, vai observar que os grandes frigoríficos que trabalham com carnes e produtos de origem suína ficam no Estado de Santa Catarina. Esses grandes grupos praticamente monopolizam a compra dos animais produzidos nas pequenas propriedades, ditando o preço a ser pago ao produtor. Sempre que situações de monopólio acontecem, um lado sempre sai perdendo – nesse caso, como se pode notar, são os pequenos produtores que ficam sujeitos às “regras” do mercado.

A baixa rentabilidade dos produtores acaba impedindo que estes façam os investimentos necessários em suas propriedades com vistas ao tratamento dos dejetos suínos. Grandes volumes de dejetos vão necessitar de instalações adequadas para o tratamento: uma ótima solução são os biodigestores e as lagoas facultativas com aeradores, que vão permitir a separação dos resíduos sólidos e tratamento dos efluentes antes do lançamento num corpo d’água, além de permitir uma destinação adequada ao lodo sanitário gerado. Relatórios da época mostravam que 75% das propriedades estavam em desacordo com a legislação ambiental. A maioria das propriedades rurais pesquisadas utilizavam tanques de decantação para a separação dos efluentes líquidos dos sólidos; esse processo garante um pré-tratamento dos dejetos e uma grande redução da carga orgânica dos poluentes, porém verificou-se que a maioria destes tanques não possuía um revestimento no fundo, levando à infiltração de efluentes no solo e à contaminação das águas do lençol freático. Para o tratamento final dos efluentes, seria necessário utilizar, pelo menos, um tanque ou lagoa aerada para uma redução ainda maior da carga orgânica, o que poucas propriedades possuíam – os efluentes ainda com grande carga de poluentes eram lançados nos corpos d’água, levando ao já citado colapso do abastecimento das cidades.

Apesar do custo proibitivo para a maioria dos pequenos produtores rurais, o tratamento dos dejetos de suínos através de biodigestores teria condições de resolver, ao mesmo tempo, o controle sanitário dos efluentes, a reciclagem orgânica dos resíduos para uso como fertilizante e também permitir o aproveitamento do biogás gerado pela biodigestão anaeróbia dos resíduos. Esse biogás (gás metano) pode ser usado na produção de energia elétrica através de queima em uma turbina geradora a gás, garantindo a autossuficiência das propriedades e possibilitando a venda dos excedentes de produção para as distribuidoras de eletricidade da região, gerando uma renda extra para a complementação do orçamento das famílias. Já existem alguns projetos pilotos em andamento, porém em escala muito pequena para o tamanho dos problemas na região.

Ao longo dos últimos anos diversas medidas foram e vem sendo tomadas com vistas ao controle da poluição gerada pelos dejetos suínos no oeste catarinense, com bons resultados no combate à poluição dos mananciais. Muita coisa ainda precisará ser feita ao longo dos próximos anos de forma a garantir que todos tenham direito ao acesso a água, tanto nas propriedades rurais quanto nas cidades. Aliás, essa disputa entre os vários usuários da água será uma das marcas do século 21.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s