A PREOCUPANTE SITUAÇÃO DOS SOLOS FÉRTEIS DA COLÔMBIA

Durante muito tempo, especialmente a partir da década de 1980, as principais notícias sobre a Colômbia tinham como focos principais a produção e a exportação de cocaína, e também a feroz luta das tropas do Governo Central contra diversos grupos paramilitares espalhados pelo interior do país. Quem nunca ouviu falar de Pablo Escobar, o “senhor da droga colombiana” e que chegou a ser considerado um dos homens mais ricos do mundo. Felizmente, muita coisa mudou nos últimos anos e outras notícias – a maioria bem melhores, passaram a sair da Colômbia. 

Com cerca de 47 milhões de habitantes, a Colômbia é o segundo país mais populoso da América do Sul, só ficando atrás do Brasil. Dentro do bloco das nações hispânicas, o país só tem uma população menor que o México, os Estados Unidos (falo aqui da comunidade hispânica no país) e a Espanha. Em termos econômicos, o país vem apresentando índices de crescimento acima da média Latino Americana e já é a 4ª maior economia da América do Sul. 

O território da Colômbia pode ser dividido, a grosso modo, em terrenos montanhosos da Cordilheira dos Andes e em grandes planícies como a Amazônica e a dos Llanos Orientales (vide foto), região formada por grandes campos e várzeas inundáveis. Cada um desses sistemas ocupa aproximadamente metade do território do país. Em termos populacionais, perto de 3% da população vive na região da Amazônia e dos Llanos e 20% nas planícies próximas ao Mar do Caribe – a imensa maioria dos colombianos vive na região da Cordilheira dos Andes 

A Cordilheira dos Andes ocupa toda uma área que vai do Centro da Colômbia até uma faixa bem próxima do litoral do Oceano Pacífico, onde existe uma estreita planície costeira coberta por vegetação. O trecho colombiano da Cordilheira dos Andes é dividido em três ramos – a Cordilheira Ocidental que acompanha a costa do Oceano Pacífico; a Cordilheira Central, que é delimitada pelos vales dos rios Cauca e Magdalena, e, por fim, a Cordilheira Oriental, que se estende até as bordas das planícies da faixa Leste do país. 

Os rios Cauca e Magdalena se formam a partir do degelo de glaciares no alto das montanhas andinas e correm em direção ao Norte. Os seus vales concentram algumas das cidades mais importantes da Colômbia como Cali, Medelin, Manizales, Pereira, Armênia, Quindio, Bucaramanga, Cúcuta e Bogotá, a capital do país. Esses vales também concentram uma parte considerável da agricultura e, por extensão, dos problemas ambientais associados aos solos. 

De acordo com informações do IGAC – Instituto Geográfico Augustin Codazzi, a Colômbia possui cerca de 11 milhões de hectares de solos com grande potencial para produção agrícola, uma área que corresponde a aproximadamente 9,6% do seu território. Entre as regiões com maior potencial agrícola se destacam os departamentos Atlántico, Sucre, Magdalena, Quíndio, Quíndio, Cundinamarca, BolivarAntioquia

Nos grandes vales colombianos se repetem os mesmos problemas encontrados nas Serras do Peru e que citamos na postagem anterior: o uso inadequado dos terrenos íngremes das encostas. Com a remoção da cobertura florestal natural para uso desses solos para a produção agrícola e sem maiores cuidados para conter a erosão, grandes volumes de solos férteis são perdidos a cada ano. 

Solos férteis, conforme já tratamos em postagens anteriores, são formados por sedimentos inertes finos, matéria orgânica, água e ar, que recobrem as camadas mais profundas de rochas inertes. Essa fina camada é o resultado de muitos séculos de processos de gênese de solos e é vital para o crescimento de vida vegetal e sustento de inúmeras formas de vida animal. Sem a proteção da vegetação, essa camada de solo fértil pode ser “lavada” e arrastada rapidamente pelas chuvas, podendo levar a processos graves de desertificação. 

Um outro problema grave da Colômbia é a salinização de solos. De acordo com informações do IDEAM – Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais, cerca de 14 milhões de hectares ou 12,3% do território da Colômbia já é afetado pelo problema. A salinização dos solos pode ocorrer devido a problemas naturais como inundações e secas, assim como por ações antrópicas na agricultura, pecuária e mineração

As regiões mais afetadas pelo problema são La Guajira, Cesar, Magdalena e Atlántico. A situação mais grave se encontra em La Guajira, onde entre 70 e 80% dos solos apresentam o problema. O aumento da salinidade empobrece o solo, diminui a produção, modifica a acidez e também prejudica a qualidade dos recursos hídricos. 

A situação dos solos na Colômbia fica ainda mais preocupante quando se observam que várias ações governamentais estão sendo tomadas para transformar o país numa “potência” agrícola. Esse movimento ficou muito claro após os diversos acordos de paz assinados com os grupos guerrilheiros que, por décadas, mandaram e desmandaram em grandes áreas do país. 

A Colômbia já tem uma longa tradição na produção e exportação de produtos como café, cacau e frutas. Entretanto, o país possui um enorme potencial de crescimento – apenas 1/3 das terras férteis estão sendo usadas para fins agrícolas. Nos últimos anos têm sido intensos os processos de derrubada de matas e ocupação de áreas de campos por atividades agrícolas. Somente entre os anos de 2014 e 2016, 1,5 milhão de hectares de matas foram transformadas em campos agrícolas

Um exemplo a ser citado é a região dos Llanos, tradicionalmente ocupada por atividades pecuárias. Essa região tem características e um potencial agrícola muito semelhantes ao Cerrado brasileiro. As autoridades colombianas têm um grande interesse em estimular a produção de milho, cevada e feijão, alimentos básicos consumidos pela população e que o país importa atualmente. Também não podem ser ignorados os riscos para a extensa região da Amazônia colombiana. 

Outra área onde o país tem grande potencial é a produção de madeiras para exportação – a Colômbia possui cerca de 26 milhões de hectares de terras que podem ser usadas para esse fim. Atualmente, a Colômbia precisa importar grandes volumes de madeira do Chile e do Canadá. 

Os produtos agropecuários respondem por cerca de 8% do volume total de exportações da Colômbia. O objetivo do Governo é chegar a um valor próximo do Chile, onde esses produtos correspondem por 15% das exportações. Muitos empresários preferem olhar para a Argentina, onde cerca de metade das exportações são de produtos agropecuários. 

Para completar esse quadro com os riscos potenciais para o meio ambiente, a Colômbia vem perdendo receitas ano a ano com as exportações de petróleo, uma commodity importante para o equilíbrio das contas externas do país. Logo, a pressão da agricultura e da pecuária, além da mineração, sobre os solos só tenderá a aumentar ao longo dos próximos anos. 

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