AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS MITOS E AS ENCANTARIAS DAS MARGENS DOS RIOS DA BACIA AMAZÔNICA

A Amazônia é um tema recorrente aqui nas páginas do blog desde que começamos a fazer publicações em 2016. Os motivos para isso não são difíceis de explicar: a região ocupa cerca de 40% do território brasileiro e detém aproximadamente 20% de toda a água doce superficial do planeta. 

Nesse início de 2021, reservamos as primeiras postagens da temporada para falar um pouco sobre as opções para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. E não é que surgiu a crise da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus por causa da epidemia da Covid-19, colocando mais uma vez a Região Amazônica nas manchetes dos jornais e sites de notícias de todo o mundo. Para variar, essas manchetes exploraram o lado negativo da Amazônia e, como sempre, deram um jeito de ligar a tragédia humanitária à suposta destruição da Floresta. 

Segundo os dados divulgados pelos Governos da Amazônia e de Manaus, o consumo de oxigênio hospitalar superou em várias vezes a oferta do produto fabricado localmente, levando ao desabastecimento dos hospitais, o que colocou a vida de muitos pacientes em risco. Pelas dificuldades logísticas no acesso a Manaus, tanques de oxigênio passaram a ser transportados por aviões cargueiros civis e militares.  

Ontem foi divulgada a notícia do deslocamento de um comboio de carretas carregando mais de 100 mil m³ de oxigênio pela BR-319, rodovia que liga Porto Velho a Manaus. Devido às péssimas condições da rodovia, que tem grande parte de seu pavimento em terra, esse comboio está sendo escoltado por equipes de manutenção e por tratores, numa verdadeira operação de guerra. 

Deixando essa questão trágica um pouco de lado, gostaria de encerrar essa série de publicações falando de uma particularidade muito importante da Região Amazônica: os mitos e as encantarias populares, que estão presentes em praticamente tudo o que se faz por lá e que precisam ser levadas em consideração em qualquer projeto ou atividade que se queira desenvolver nos domínios da Floresta Amazônica. 

Como exemplo, vou começar falando de um produto tipicamente amazônico, que conquistou apreciadores em todo o mundo: o guaraná (vide foto). Para nós, trata-se de um refrigerante gasoso e adocicado preparado a partir do pó da semente do guaranazeiro (Paullinia cupana), uma planta arbustiva da Amazônia, sendo encontrado no Brasil, Peru, Colômbia e Venezuela. A produção do guaraná é uma típica atividade da agricultura familiar e é uma importante fonte de renda para uma parcela importante da população ribeirinha da Amazônia. 

Os antigos indígenas da Amazônia descobriram as propriedades estimulantes do guaraná há milhares de anos e, desde então, vem usando a semente e o seu pó em tratamentos médicos. A planta possui altos níveis de cafeína e tem efeitos rápidos no combate à fadiga e ao cansaço, propriedades que os pajés consideravam mágicas. 

Entre nós “brancos” (uso aspas por que essa é uma definição sociocultural e não étnica), o guaraná começou a ganhar fama na década de 1920, quando uma empresa de bebidas lançou o famoso Guaraná Antarctica. Com o sucesso da bebida, outros fabricantes começaram a lançar bebidas similares com outras marcas. Atualmente, a centenária bebida se encontra entre as 15 marcas de refrigerantes mais vendidas em todo o mundo. 

Esse é o lado da história que encontramos nas principais fontes de pesquisa. Agora vejam o lado amazônico do fruto e da bebida. Essa é uma das muitas lendas indígenas sobre a origem do guaraná: 

“As tribos de Munducurucânia eram as mais prósperas dos índios. Venciam todas as guerras, as pescas eram ótimas, os peixes, os melhores e a doença era rara. Tudo isso por causa de um curumim (menino) que, há alguns anos, nascera naquela tribo. 

Ele era o mais protegido de todos. Nas pescas, era acompanhado por muitos – os pescadores desviavam dos rios as piranhas, jacarés ou qualquer outro perigo. Mas, certo dia, toda a segurança foi embora: o Gênio do Mal apareceu em forma de cascavel e feriu o garoto. A tribo entrou em lamentação e em desespero. 

Tupã, o Deus dos índios, atendeu a todo aquele lamento e disse: 

– Tirem os olhos do curumim e plantem-no na terra firme, reguem-no com lágrimas durante 4 luas e ali nascerá a “planta da vida”, ela dará força aos jovens e revigorará os velhos. 

Os pajés (feiticeiros) não duvidaram, arrancaram e plantaram os olhos do curumim e regaram com lágrimas durante quatro luas. 

Nasceu ali uma nova planta, travessa como as crianças, com hastes escuras e sulcadas como os músculos dos guerreiros da tribo. E quando ela frutificou, seus frutos de negro azeviche, envoltos de um arilo branco com duas cápsulas de cor vermelho-vivo. Diziam os índios: 

– É a multiplicação dos olhos do príncipe! 

E o fruto trouxe progresso da tribo. Ajudou os velhos e deu mais força aos guerreiros.” 

O povo brasileiro, segundo as descrições do antropólogo Darcy Ribeiro, foi formado a partir da mistura de três matrizes étnicas: a dos brancos europeus, a dos negros africanos e a dos indígenas. Essa mistura se deu tanto na formação étnica da população quanto na formação da cultura brasileira. Nas regiões Sul e em parte do Sudeste, por exemplo, há uma predominância da matriz branca. Nas antigas áreas de produção de cana de açúcar e da mineração do ouro, a matriz africana se manifesta com mais força. Nas áreas interioranas do país e, principalmente, na Região Amazônica, os elementos culturais e étnicos da matriz indígena se sobressaem sobre os demais. 

Dentro do universo místico derivado dessa forte influência dos indígenas amazônicos na formação das populações da Região Norte, a curva de um rio pode não ser apenas um acidente geográfico, mas o resultado da luta de um antigo guerreiro com uma criatura das águas. Uma formação rochosa não é apenas o resquício de um antigo derramamento vulcânico, mas sim a moradia de entidades mágicas. Uma árvore é um ser sagrado

Por menos importante que isso possa parecer para você que vive em outras regiões do país e do mundo, esses elementos míticos são fundamentais para essas populações. E sempre que uma obra ou qualquer outro empreendimento venha a ser realizado em terras amazônicas, todos esses elementos intangíveis precisam ser incluídos nos estudos de impacto ambiental, algo que normalmente não acontece

Vou citar um exemplo: o rio Tocantins nasce em terras do Cerrado em Goiás e tem sua foz na baía de Guajará, bem próximo da cidade de Belém, no Pará. A montante da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, nas proximidades da cidade de Marabá, o rio Tocantins apresenta um trecho muito pedregoso com 43 km de extensão, onde a navegação é extremamente perigosa. Os locais chamam esse trecho de Pedral do Lourenço

Como é típico na Amazônia, as histórias locais contam que Lourenço era um antigo morador da região e que tinha por hábito ir até as pedras do rio para pescar todo final de tarde. Certo dia, sabe-se lá por qual motivo, Lourenço escorregou, caiu no rio e se afogou na forte correnteza. Desde então, o lugar passou a ser chamado de Pedral do Lourenço. 

Ninguém da região tem certeza se existiu mesmo um Lourenço e que tenha morado por ali ou se essa história é derivada de alguma lenda indígena local, que foi simplesmente adaptada para ser recontada para os “brancos”. Todos ali conhecem essa história e sabem apontar exatamente de qual pedra o dito Lourenço caiu. 

Pois bem – existe um projeto do Governo Federal para o derrocamento (obras para a remoção das pedras) e construção de um canal de navegação através do Pedral do Lourenço, criando assim uma via de navegação fluvial segura nesse trecho do rio Tocantins. Essa obra é considerada prioritária para o Governo Federal para viabilizar a Hidrovia Tocantins/Araguaia e ainda está enfrentando alguns problemas para a liberação da licença ambiental. 

Aí eu faço a pergunta – no processo de licenciamento da obra, vocês acham que os “especialistas em meio ambiente” conversaram com os moradores locais sobre a lenda do Lourenço? Classificaram as ditas pedras como patrimônio imaterial da cultura local, poupando esse trecho de qualquer obra de demolição? Eu, sinceramente, não tenho certeza disso. 

O desenvolvimento sustentável da Amazônia é essencial para todos nós brasileiros, principalmente para os mais de 20 milhões de habitantes da Região Amazônica. Conforme apresentamos rapidamente em algumas postagens, existem várias alternativas econômicas para explorar adequadamente os recursos naturais da região, gerando trabalho e renda para a população e preservando o meio ambiente. Tudo o que puder ser feito nesse sentido, precisa ser feito. 

Agora, quem deve decidir sobre o que deve e pode ser feito por lá somos nós brasileiros, principalmente os nossos Amazônidas. Sendo bastante irônico, os Macrons e as Merkels da vida não podem colocar as suas colheres na nossa tigela de açaí. E se tentarem, quem deem com os búfalos n’água (brincando aqui com a expressão popular “dar com os burros n’água) e que levem um bom couro (onde eu vivo, isso significa levar uma bela surra)… 

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