AÇUDES DO CEARÁ PERDEM DIARIAMENTE 2,4 BILHÕES DE LITROS DE ÁGUA POR EVAPORAÇÃO 

Nas postagens anteriores falamos dos problemas do abastecimento de água para as populações de São Paulo e cidades vizinhas. O crescimento desenfreado e caótico da região a partir das últimas décadas do século XIX resultou na destruição de importantes fontes de água.. 

Para contornar esse problema, os Governos há época passaram a construir represas em áreas então distantes da grande mancha urbana. As fontes de água da Serra da Cantareira se transformaram numa primeira opção para a captação de água, que era encaminhada para a represa do Engordador na Zona Norte da cidade. 

Por volta de 1908, foi concluída a construção da represa Guarapiranga na Zona Sul da cidade de São Paulo. Inicialmente, essa represa era usada para regularizar as vazões do rio Tietê na época da seca, permitindo assim a operação contínua da Usina Hidrelétrica de Santana de Paranaíba. No final da década de 1920, essa represa teve sua classificação alterada para manancial de abastecimento de água

Também é importante citar o caso da represa Billings, que teve sua construção autorizada em meados da década de 1920, com o objetivo de permitir a geração de energia elétrica na Usina Henry Borden em Cubatão, na Região da Baixada Santista. Essa usina iniciou suas operações em 1926. 

Aqui existe um detalhe importante: o decreto do Presidente da República Arthur Bernardes que autorizou a construção da represa Billings em 1925, alertava que o uso energético dessas águas não poderia comprometer o abastecimento da população local. Essa represa já era vista há época como o futuro grande manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. 

Outras importantes represas foram construídas ao longo de todo o século XX, onde o maior destaque são as represas que formam o Sistema Cantareira. Apesar de, há época de suas respectivas construções, essas represas estarem localizadas em áreas distantes da mancha urbana, bairros e cidades passaram a crescer e ocupar as margens dessas represas, resultando em desmatamentos, destruição de nascentes, poluição das águas por esgotos e muito lixo. 

Entre todas as represas que formam o sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, a de Cotia é a que apresenta a melhor qualidade da água e a melhor preservação ambiental. O detalhe é que essa represa fica no centro de uma grande reserva florestal. Ou seja, não basta construir barragens e desapropriar áreas para o armazenamento de água – é importante criar um cinturão verde ao redor das represas para garantir a sua preservação. 

Para deixar ainda mais clara a importância da vegetação ciliar, ou seja, da preservação das matas nas margens de um corpo d`água, vamos citar um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará sobre as perdas de água por evaporação em oito açudes do Estado. 

O grupo do HIDROSED – Hidrossedimentolólica do Semiárido concluiu que esses açudes perdem cerca de 2,4 bilhões de litros de água por evaporação a cada dia. Essa perda de água equivale ao volume necessário para o abastecimento de mais de 2 milhões de pessoas. O grupo baseou seus estudos em imagens de satélite e em modelos matemáticos de evaporação em corpos d`’agua. 

Os pesquisadores concluíram que nas bordas dos açudes onde havia uma faixa de vegetação preservada essa perda por evaporação foi entre 18% e 31% menor. Normalmente, a evaporação costuma ser maior próxima das margens por causa da menor profundidade das águas, uma característica que facilita o aquecimento e a evaporação da água. Onde existe vegetação, a sombra formada mantém a água mais fria e menos propensa a evaporação. 

Foram estudados oito reservatórios localizados em áreas de climas subúmidos e semiáridos no interior do Ceará. Os pesquisadores analisaram imagens captadas pelos satélites Landsat5 e Landasat8 entre os anos de 1985 e 2018. Os resultados da pesquisa foram publicados na prestigiosa revista científica Science Direct em 25 de novembro de 2021. 

Conforme já tratamos em diversas portagens aqui do blog, o Semiárido Nordestino sofre frequentemente com grandes ciclos de seca. Grandes secas que marcaram época foram as que ocorreram em 1744, 1790, 1877, 1915 e 1932, O imperador Dom Pedro II ficou tão impressionado com a seca de 1877, que ordenou a construção de um grande açude na cidade de Quixadá, no interior do Ceará. A obra, que foi batizada de Açude do Cedro (vide foto), foi concluída apenas em 1906. Desde então, açudes se transformaram na mais popular obra usada para o combate às secas – atualmente, existem mais de 8 mil açudes no Ceará. 

Além de apresentar os menores níveis de precipitação pluviométrica do Brasil, o Semiárido Nordestino ainda sofre com uma intensa incidência de raios solares, o que resulta em elevados índices de perda de água por evaporação. Os resultados desse estudo indicam claramente que o plantio intensivo de árvores ao redor dos açudes da região pode ser uma importante e econômica iniciativa para a proteção dos escassos recursos hídricos da região. 

A mesma iniciativa vale para os demais reservatórios do país, inclusive os problemáticos da região Metropolitana de São Paulo. Além de proteger as margens das represas de assoreamentos, desmoronamentos e do carreamento de resíduos pelas enxurradas, essa vegetação favorece a recarga dos aquíferos, os grandes depósitos subterrâneos de água. 

Se você quer garantir o seu abastecimento de água amanhã, plante uma árvore na margem de uma represa hoje – Simples assim! 

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