OS RISCOS AMBIENTAIS DA EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO E DO GÁS DE XISTO

Xisto

Nas últimas postagens falamos de uma série de problemas sociais e ambientais criados por diferentes tipos de mineração, especialmente problemas localizados e regionais. Falamos, inclusive de alguns problemas políticos e de conflitos armados que são financiados pela mineração ilegal de diamantes na África e de lápis-lazúli no Afeganistão. Apesar de ser uma atividade imprescindível na vida moderna, a mineração sempre causa impactos negativos. 

Na postagem de hoje, vamos falar de um processo de exploração mineral com alto poder de geração de impactos ambientais – a exploração do xisto pelo método do fraturamento hidráulico. Vamos entender isso: 

Xisto é um nome genérico que se dá a vários tipos de rochas metamórficas fortemente laminadas (vide foto). Essas rochas têm uma enorme importância econômica por serem uma fonte de combustíveis fósseis. Quando rochas como o xisto betuminoso são submetidas a altas temperaturas, elas liberam o chamado petróleo de xisto, um óleo mineral semelhante ao petróleo convencional. Utilizando-se diversos tipos de processos de beneficiamento, o petróleo de xisto produz nafta, óleo combustível, gás liquefeito de petróleo (GLP), óleo diesel e gasolina. As maiores reservas mundiais de xisto estão nos Estados Unidos, Brasil, China e na Argentina

A exploração dos depósitos de xisto passou a ganhar um enorme destaque nos noticiários nos últimos anos devido ao uso cada vez mais intensivo de uma técnica de extração conhecida como fraturamento hidráulico ou hydraulic fracking, em inglês. Os Estados Unidos, país que é um dos maiores consumidores de derivados de petróleo do mundo, se transformou no maior utilizador dessa tecnologia de exploração. A França, ao contrário, proibiu o uso dessa tecnologia em seu território devido aos riscos ao meio ambiente. 

A técnica de exploração consiste na injeção sob alta pressão de uma mistura de água, propante (areia ou outro material similar) e produtos químicos nos substratos rochosos. Essa mistura pressurizada provoca um aumento controlado das fraturas e fissuras nas rochas, locais onde o petróleo de xisto e o gás natural está encerrado, trazendo-os na direção da superfície. De acordo com estimativas feitas no ano de 2010, cerca de 60% dos poços em atividade no mundo usavam essa técnica de extração

O uso intensivo da técnica do fraturamento hidráulico por empresas de petróleo e gás nos Estados Unidos vêm produzindo efeitos econômicos impressionantes nos últimos anos: a produção de gás aumentou perto de 50% e a de petróleo em 11%. O aumento de produção desses “óleos não convencionais” e do gás vai criar perto de 3,3 milhões de empregos e injetar cerca de US$ 468 bilhões na economia dos Estados Unidos até 2020. Um dos pontos mais comemorados dessa nova fase da exploração dos combustíveis fósseis no país é a redução na dependência da importação de petróleo, um problema que sempre foi classificado como o “calcanhar de Aquiles” dos Estados Unidos. 

Deixando de lado toda a euforia e os ganhos econômicos e políticos do “Tio Sam”, é preciso mostrar toda uma série de problemas e de riscos ambientais criados pelo fraturamento hidráulico, a começar pela poluição dos grandes volumes de água utilizados no processo. A água é injetada sob alta pressão nos substratos rochosos e fica rapidamente saturada com o petróleo e o gás de xisto, que por serem mais leves que a água, rapidamente são transportados para a superfície e são separados mecanicamente.  

A água usada no processo fica completamente poluída com resíduos de hidrocarbonetos, metais presentes nas rochas e também com os resíduos dos produtos químicos usados como solventes. Caso haja um erro na operação e essa água altamente poluída vaze para o meio ambiente, há sérios riscos de uma forte contaminação das fontes superficiais de água na região – algo parecido com os acidentes do rio Doce, em Mariana, e no rio Paraopeba, em Brumadinho

Vazamentos dessas águas residuárias são apontados como a causa da poluição de diversos rios no Estado do Kentucky próximos das áreas de exploração do xisto, locais onde foram observadas mortes de diversas espécies animais e vegetais aquáticas. Estudos realizados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos e pelo Serviço de Pesca e de Vida Silvestre comprovaram que os poluentes presentes nessas águas residuárias causam lesões nas guelras, no fígado e no baço dos peixes.

Um outro problema, este muito mais sério, é a contaminação direta dos depósitos subterrâneos de água. Caso os solos ao redor da área onde a exploração do xisto está sendo feita sejam constituídos de rochas permeáveis como os arenitos, é possível que parte dessa água pressurizada e dos gases liberados pelo processo se propaguem através das rochas (processo de percolação) e contaminem as reservas de água do subsolo da região. 

Estudos realizados pela Universidade Duke, na Carolina do Sul, comprovaram a ocorrência desse problema de contaminação das águas subterrâneas na Bacia de Gás de Xisto de Marcellus, situada entre o Nordeste da Pensilvânia e o Sul do Estado de Nova York. Os pesquisadores encontraram altos níveis de metano e etano em mais de 100 poços de abastecimento de água espalhados por toda a região. As medições mostraram que a concentração de metano dissolvido na água “potável” de poços situados a menos de 1 km dos locais de perfuração eram, em média, 6 vezes maiores do que em poços mais distantes. No caso do etano, essas concentrações eram 23 vezes maiores. O metano, caso seja inalado, é altamente prejudicial à saúde humana e o etano é um gás altamente inflamável

A injeção de água pressurizada nos poços de xisto também pode estar relacionada com o aumento de pequenos terremotos nas regiões Central e Leste dos Estados Unidos, conforme estudos do Serviço Geológico do país. Entre os anos de 2010 e 2012, foram registrados mais de 300 terremotos com magnitude acima de 3,0 graus na Escala Richter. Entre os anos de 1967 e 2000, a média de eventos dessa magnitude era de apenas 21 ocorrências por ano. Estudos realizados pelo Earth Observatory da Universidade de Columbia, em Nova York, indicaram que cerca de metade dos terremotos com magnitude superior a 4,5 graus na Escala Richter observados no interior dos Estados Unidos na última década ocorreram em regiões de exploração por fraturamento hidráulico. 

Encerrando os comentários desta postagem – grandes quantidades de gás metano estão sendo liberadas na atmosfera pelos poços que utilizam a técnica do fraturamento hidráulico. O metano, só para relembrar, é 20  vezes mais potente que o CO2 (dióxido de carbono) na formação do Efeito Estufa, o grande vilão do aquecimento global.

Os ganhos econômicos de curto prazo com a produção de petróleo e gás de xisto estão fazendo a alegria de muitas empresas e Governos; já a conta com os prejuízos ambientais que virão a longo prazo, como sempre, será paga por toda a população do mundo. 

LÁPIS-LAZÚLI: O “OURO AZUL” DO AFEGANISTÃO

Lápis-lazúli

Em 1922, o arqueólogo britânico Howard Carter encontrou um dos mais valiosos tesouros do Antigo Egito: a tumba intacta do faraó Tutankhamon. A região da descoberta, conhecida como O Vale dos Reis, em Luxor – Alto Egito, foi o local escolhido pela maior parte das dinastias reais do antigo reino para o repouso final dos seus soberanos. Imensas tumbas foram escavadas nos paredões rochosos, onde as múmias dos faraós, acompanhadas de todos os seus tesouros, eram caprichosamente encerrados com vistas ao início da jornada até o Mundo dos Mortos. Essa região também foi, desde os mesmos tempos antigos, um polo de atração dos mais perigosos ladrões de tumba. Todos os locais onde existiam vestígios de antigas sepulturas reais foram profanados, escavados e os tesouros saqueados. 

A descoberta de uma tumba real intacta no Vale dos Reis foi notícia em todo o mundo e todo o processo de abertura foi acompanhado por jornalistas e autoridades. Quando a pedra que selava a tumba foi removida, todos ficaram perplexos com a quantidade e a beleza dos objetos ali encontrados. A surpresa maior da descoberta se deu com a abertura do sarcófago do faraó – a múmia de Tutankhamon usava uma máscara mortuária de ouro maciço cravejada por pedras de lápis-lazúli e outras gemas preciosas. Nenhuma outra múmia encontrada antes usava um objeto de tamanho esplendor! 

O lápis-lazúli é uma pedra preciosa de cor azul brilhante, conhecida desde a antiguidade  (os primeiros registros datam de 7.000 a.C.) e que desde sempre esteve associada à riqueza e ao poder. Os antigos faraós do Egito e os reis de todo o mundo antigo usavam joias e artefatos adornados com lápis-lazúli. Essas pedras se formam no interior de rochas metamórficas em condições geológicas muito específicas, onde os minerais de lazurita, calcita e pirita se fundiram sob um calor intenso. As maiores e mais valiosas reservas de lápis-lazúli do mundo são encontradas nas montanhas do Afeganistão, um país isolado no centro da Ásia. As pedras de lápis-lazúli são na sua maioria opacas – as variedades translúcidas são as mais raras e, consequentemente, as mais valiosas.

O Afeganistão ocupa uma posição estratégica na Ásia Central, tendo sido o ponto de passagem de importantes rotas comerciais da antiguidade, entre essas a famosa Rota da Seda. As incontáveis caravanas de mercadores, que atravessavam os estreitos caminhos entre as montanhas afegãs, disputavam as valiosas pedras brutas de lápis-lazúli, uma mercadoria que podia ser revendida por preços exorbitantes em todos os reinos do mundo antigo. 

A mineração do lápis-lazúli é o que se pode chamar de devastadora, para se dizer o mínimo. Para extrair pequenas quantidades dessas pedras é necessário fazer primeiro o desmonte de grandes paredões rochosos. No passado, essa etapa da exploração era uma das mais exaustivas, exigindo o trabalho de centenas de mineiros – em nossos tempos modernos, com o uso de explosivos, faces inteiras de montanhas são colocadas abaixo em poucos segundos. 

Numa segunda etapa, os mineiros precisam quebrar as pedras em busca dos veios internos onde o lápis-lazúli se formou. Esse trabalho é feito inicialmente com marretas e ao custo de muitos golpes. Quando se identifica qualquer vestígio dos minerais que formam o lápis-lazúli, o trabalho passa a ser feito de maneira mais cuidadosa com um cinzel. São necessários vários dias de trabalho e a movimentação de dezenas de toneladas de rochas para se obter pequenas quantidades de lápis-lazúli. Algumas tribos afegãs vêm se dedicando a este trabalho a dezenas de gerações. 

Mas esses tempos e essas pacientes técnicas de mineração fazem parte de um passado distante. O Afeganistão vem sendo o palco de sucessivos conflitos militares há várias décadas, um problema que se tornou muito mais graves após o surgimento de grupos militares fundamentalistas, chamados genericamente de talibãs, que se orientam por leituras “ortodoxas” do Alcorão, o livro sagrado dos Ismaelitas (eles não gostam de ser chamados de muçulmanos). Lutando ora contra invasores russos, ora contra uma coalizão de países liderados pelos Estados Unidos na sua “guerra contra o terror”, esses grupos militares passaram a se valer das imensas riquezas minerais dos solos afegãos para financiar sua guerra e a compra de armas e equipamentos militares. 

Ocupando uma área com aproximadamente 650 mil km², o que equivale a uma área um pouco maior do que a soma dos territórios de Minas Gerais e do Espírito Santo, o Afeganistão abriga uma infinidade de províncias minerais. Entre os destaques minerais existem reservas de carvão mineral, cobre, minério de ferro, lítio, urânio, terra-rara, cromita, ouro, zinco, talco, barita, enxofre, chumbo, mármore, gás natural e petróleo, além é claro de imensas veios com gemas preciosas como diamantes e lápis-lazúli. Segundo uma estimativa feita pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos em 2007, os depósitos minerais inexplorados do Afeganistão valem entre US$ 900 bilhões e US$ 3 trilhões. Talvez seja por isso que tantas potências mundiais têm lutado nas últimas décadas pelo controle desse país rochoso e muito seco. 

A exemplo da exploração e exportação dos “diamantes de sangue” da África, sobre os quais falamos em postagens anteriores, os diversos grupos militares afegãos se valem de todas as “técnicas” de exploração mineral disponíveis, usadas da forma mais insustentável e brutal possível, para a obtenção de recursos minerais valiosos. Esses grupos têm interesse especial em recursos de fácil transporte e comercialização como ouro, diamantes e lápis-lazúli. Entre as técnicas de exploração utilizadas, existe uma versão afegã do Ruina Montium do Império Romano, onde ao invés de usar a força hidráulica da água para o desmonte de rochas, usa-se quantidades impressionantes de explosivos militares.  

Faces inteiras de montanhas são colocadas ao chão pela força das explosões e camponeses e pastores das aldeias e vilas das áreas montanhosas são “recrutados” para fazer o trabalho de separação dos minérios. Não é necessário falar que esses trabalhos são realizados sob condições ínfimas de segurança, com grandes rochas soltas em encostas de morros, que podem rolar sob a menor vibração. As montanhas de entulhos soterram vales inteiros, bloqueando antigas trilhas entre as montanhas, o que prejudica as comunicações e os transportes entre as populações espalhadas escassamente pelo território do país.  

Outro problema ambiental sério é o bloqueio dos canais de muitos rios temporários. O Afeganistão é um país extremamente seco e as principais fontes de água superficiais vêm do degelo da neve do alto das montanhas. Com o bloqueio dos canais, a preciosa água acaba evaporando ou se infiltrando nos solos cársticos (solos de rochas permeáveis, especialmente de rocha calcária, onde a água das chuvas e dos rios se infiltra facilmente e corre através de conjuntos de grutas e túneis subterrâneos), prejudicando o abastecimento de populações, rebanhos e demais usos na agricultura. 

Assim como acontece com os brilhantes “diamantes de sangue”, as preciosas pedras de lápis-lazúli vão passar por processos minuciosos de lapidação e polimento, passando depois pela sua montagem nos mais diferentes tipos de jóias (vide foto) e objetos. E como é de praxe, ninguém vai perguntar de qual lugar do mundo essas pedras vieram e qual foi o seu custo em vidas humanas. Simples assim. 

A MINERAÇÃO ILEGAL DE DIAMANTES NA ÁFRICA

Crianças trabalhando em garimpos na África

O Diário de Notícias, um dos mais importantes jornais matutinos de Portugal, fez uma reportagem bem interessante há cerca de dez anos, onde falava da África Ocidental, uma região onde o crime organizado impera. Os principais países que formam essa região são Gana, Libéria, Nigéria, Senegal e Serra Leoa, além de vários outros países menores. Na base dessa verdadeira indústria do crime estão governos, militares “compráveis” por preços módicos, funcionários públicos corruptos, a falta de controle nas fronteiras entre os países e uma localização privilegiada, com fácil acesso à Europa e América do Norte. As autoridades locais calculam que existem 30 grandes grupos criminosos operando na região, no controle de aproximadamente 2 milhões de armas – isso é coisa para “cachorro grande”, como dizemos na minha região. Pouca coisa mudou nessa região nesses últimos anos. 

As organizações criminosas que operam na região lidam com tráfico ilegal de pessoas, drogas, petróleo, tabaco, medicamentos falsos, resíduos industriais e diamantes, isso para não entrarmos em detalhes com atividades criminosas menos lucrativas. Citando alguns exemplos: criminosos da região fornecem cerca de 25% de toda a cocaína consumida na Europa; de acordo com cálculos da ONU – Organização das Nações Unidas, entre 50 e 60% dos medicamentos consumidos na região são falsos, assim como também são falsos cerca de 80% dos cigarros que circulam nos mercados. Outra área onde as organizações atuam é a do petróleo – calcula-se que os criminosos “desviem” cerca de 55 milhões de barris de petróleo a cada ano, especialmente da Nigéria. 

O lucrativo comércio dos diamantes não poderia ficar de fora desse verdadeiro portfólio de atividades criminosas. Em Serra Leoa, um dos grandes produtores de diamantes da região, calcula-se que 80% do comércio destas pedras esteja na mão desses grupos criminosos. Os dados oficias da produção de diamantes do país mostram claramente como anda o descontrole da atividade: em 1970, Serra Leoa produzia uma média de 2 milhões de quilates de diamantes por ano; nos últimos anos, essa produção está abaixo de 500 mil quilates por ano

A má fama dos diamantes de Serra Leoa atingiu o seu clímax durante a guerra civil que assolou o país entre os anos de 1991 e 2002. Um grupo revolucionário conhecido como FRU – Frente Revolucionária Unida, sob o comando de Foday Sankoh, tentou derrubar o Governo central do país. E para financiar a sua revolução e a compra de armas, esse grupo passou a se valer da exploração e exportação ilegal de diamantes. Esse conflito foi um dos inspiradores da expressão “diamantes de sangue” e teve sua história contada em livros, documentários e filmes. Ao longo de 11 anos de guerra, cerca de 2,5 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar para outras regiões do país – o número de mortos no conflito, a depender da fonte consultada, ficou entre 50 mil e 200 mil pessoas

Com a pressão crescente dos custos da guerra civil, os comandantes militares da guerrilha passaram a recrutar o maior número possível de pessoas nas cidades e aldeias sob controle da FRU para os trabalhos de garimpo de diamantes. Jornadas de trabalho excessivas, maus tratos, agressões físicas e sexuais, trabalho infantil (vide foto) – as crianças que conseguiam escapar da mineração acabavam transformadas em meninos soldados. Valia tudo para se encontrar as preciosas pedras. Com o final da guerra em 2002 e com a vitória do Governo central de Serra Leoa, as tropas revolucionárias foram desmobilizadas e muitos dos seus antigos comandantes acabaram se transformando em “senhores do crime organizado”. 

O comércio ilegal de diamantes também financiou, comprovadamente, conflitos armados em larga escala em Angola, República Democrática do Congo, Libéria, República do Congo e Costa do Marfim. Milhões de pessoas foram submetidas aos mesmos maus tratos em trabalhos nos garimpos ilegais. Outras tantas foram forçadas a se deslocar de suas cidades e regiões de origem por causa desses conflitos e centenas de milhares morreram. Muito sangue e muitos diamantes marcaram as suas histórias. 

Uma das técnicas de mineração mais usadas em regiões pobres para a mineração de ouro e de pedras preciosas é a exploração nos chamados aluviões, nome dados aos grandes depósitos de sedimentos clássicos como a areia, o cascalho e o silte. Estes depósitos se formaram ao longo do curso de rios, além de áreas alagáveis e deltaicas, onde os mais diferentes tipos de sedimentos foram se acumulando. Os diamantes, conforme comentamos em postagem anterior, se formam sob calor e pressão intensa dos solos profundos. Erupções vulcânicas, liberação de gases e de água desde altas profundidades, entre outros processos geológicos, trouxeram grandes quantidades de diamantes para a superfície do planeta ao longo das eras – as chuvas se encarregaram de carrear essas gemas até os cursos d’água, e a força das águas as depositaram nas áreas de aluvião. 

Para garimpar os diamantes, os trabalhadores costumam usar uma vasilha metálica ou de madeira, conhecida aqui no Brasil como bateia – pequenas quantidades de sedimentos são coletados e passam a ser lavados para se retirar os sedimentos mais finos. Os materiais que restam na bateia são vasculhados visualmente na busca das pedras preciosas e do ouro – diamantes e ouro costumam ocorrer nos mesmos solos. 

Conforme as buscas avançam, os solos começam a ser escavados para se atingir camadas de sedimentos mais antigas. Essas buscas começam a avançar na direção das margens dos rios, que rapidamente acabam sendo transformadas em uma sucessão de barrancos e de buracos despidos de qualquer vegetação. Como sempre existe pressa para a obtenção de grandes quantidades de diamantes, os trabalhadores não têm tempo a perder com a colocação de escoras de segurança nas escavações: dezenas de trabalhadores acabam morrendo soterrados em desmoronamentos, especialmente nos períodos de chuva. Rolagem de rochas, quedas de árvores, inundação de valas ou, simplesmente, a violência dos seguranças que acompanham todos os trabalhos de mineração com um fuzil nas mãos, completam o quadro da tragédia. 

Além da tragédia humana que é provocada por essa mineração caótica, onde dezenas de milhares de pessoas são forçadas a trabalhar em condições análogas à escravidão, ocorre também uma destruição sistemática dos riachos e rios onde os diamantes são procurados. Além dos grandes volumes de sedimentos finos que acabam sendo liberados na corrente dos rios e que já causam uma perda considerável da potabilidade das águas, a escavação dos sedimentos também pode liberar diversos tipos de metais pesados como chumbo, cádmio, mercúrio e zinco, acumulados ao longo de milhões de anos nos aluviões e que passam a ser espalhados pelas águas dos rios.  

A destruição das margens e de áreas alagáveis também cria enormes problemas ambientais – sem a proteção da vegetação, grandes volumes de sedimentos passam a ser arrastados pelas chuvas em processos erosivos e vão ser acumulados nos canais dos rios. Perde-se ao mesmo tempo grandes volumes de solo fértil e os canais dos rios, problemas que irão comprometer futuras atividades agrícolas nessas regiões.  

As guerras sempre acabam, mas as pessoas precisarão continuar vivendo, especialmente se servindo dos frutos da terra. Sem terras férteis e sem água, o futuro dessas populações será, cada vez, mais incerto. 

OS “DIAMANTES DE SANGUE”

Mineração na África

Diamantes são minerais de extrema dureza, constituidos basicamente por moléculas de carbono, forjados sob alta temperaturas e pressão extrema. A palavra diamante vem do grego adámas, que significa “invencível” Os primeiros registros históricos sobre os diamantes vem da Índia e da Mesopotâmia, por volta do ano 4.000 a.C., onde estas pedras brancas eram usadas na fabricação de artefatos rituais, especialmente em amuletos masculinos – o diamante era associado à virilidade. 

Consta que a primeira joia a ser adornada com um diamante foi o anel de noivado dado à duquesa Maria de Borgonha, uma nobre francesa, em 1477. O impacto que essa pedra brilhante provocou em meio aos nobres da época criou uma magia e um magnetismo que não pararam de crescer até os nossos dias. Nos dias atuais, diamantes de alta qualidade são vendidos a valores na casa de milhões de dólares – em alguns casos, esses valores superam a casa das dezenas de milhões de dólares. O recordista de preços da atualidade é o Oppenheimer Blue, um diamante azul que alcançou o valor de US$ 58 milhões em um leilão, sendo considerada a gema lapidada mais cara do mundo.

Os diamantes são classificados pelos especialistas pelo critério dos  “4 C’s”: color, clarity, carat e cut, que em português significa, respectivamente, cor, claridade, tamanho (peso) e corte (lapidação). Os diamantes mais raros e caros são os azulados e os rosados – diamantes amarelados são os mais comuns e, consequentemente, os menos valiosos. Uma das principais características dos diamantes é a sua leveza, algo importante para diferenciar uma pedra verdadeira de uma falsa. Um grande exemplo dessa leveza das gemas é o diamante Koh-i-Noor, da Coroa Britânica, que tem o tamanho de um limão galego e pesa menos de 22 gramas. 

Porém, por trás desse brilho e de todo o glamour, a mineração dos diamantes possui um lado negro e sombrio – parte considerável do garimpo mundial das gemas é feito ilegalmente, onde milhares de trabalhadores são levados aos limites da dignidade humana e trabalham, não raras vezes, sob a mira de fuzis (vide foto).  O comércio ilegal de diamantes é um dos principais financiadores de grupos armados, exércitos revolucionários, ditadores sanguinários e de grupos terroristas em todo o mundo, especialmente no continente africano.  

A mineração de diamantes é “barata”, custando entre US$ 2.00 e US$ 15.00 por quilate. As pedras brutas são facilmente comercializadas através de um seleto grupo com cerca de 150 compradores intermediários, onde os preços se multiplicam facilmente. Por fim, existem dois grandes compradores finais das pedras, que não fazem muitas perguntas sobre as suas origens – a De Beers, uma gigantesca empresa da África do Sul, e o multimilionário russo Lev Leviev. Juntas, essas duas “entidades” controlam perto de 80% do comércio mundial de diamantes

De acordo com alguns cálculos, mais ou menos precisos, a mineração mundial de diamantes movimenta um volume anual de 26 mil toneladas em pedras, ou 130 bilhões de quilates, o que representa algo como US$ 9 bilhões. Cerca de 20% dessas pedras serão lapidadas e transformadas em, aproximadamente 70 milhões de jóias – principalmente anéis, colares, brincos, braceletes, gargantilhas e relógios. Esses produtos vão gerar vendas totais no valor de US$ 58 bilhões. Uma das receitas para esse “aumento mágico” entre o valor das pedras brutas e o das joias prontas é o uso cada vez maior da mão de obra de crianças indianas nos trabalhos de lapidação das pedras – elas recebem cerca de US$ 0.23 por quilate trabalhado

Percebam aqui uma sutileza numérica – observem que há uma grande distância entre o volume de pedras brutas vendidas e o número de diamantes que são lapidados, polidos e transformados em joias caríssimas. Diferentemente do que dizem os comerciais das grandes empresas joalheiras, os diamantes não são tão raros na natureza. Os grandes  grupos monopolistas, que mandam e desmandam neste mercado, estocam imensos volumes de pedras todos os anos, numa estratégia clara de elevar, artificialmente, os preços dos diamantes. Segundo a famosa Lei da Oferta e da Procura, quanto menor é a oferta de um produto, maiores serão os seus preços.

O continente africano possui grande parte das lavras ilegais de diamantes do mundo, onde milhares de trabalhadores, escravizados ou semi escravizados, são submetidos a jornadas exaustivas de trabalho e sem as mínimas condições de segurança e de higiene. Parte considerável desse exército “invisível” de trabalhadores é formado por mulheres e crianças. A busca das pedras é feita tanto em rios e outros cursos d’água, na técnica conhecida como mineração de aluvião, quanto em escavações subterrâneas, onde as entranhas da terra são cortadas e reviradas num trabalho sem fim. 

Os “senhores” dessas minas contratam seguranças armados para a fiscalização do trabalho – qualquer pedra preciosa encontrada deve ser, imediatamente, entregue a qualquer um deles. Caso haja qualquer desconfiança de desvio de gemas (alguém, por exemplo, engolir uma pedra), esses seguranças poderão abrir a barriga do suspeito a faca para se comprovar o roubo. Para as mulheres, os maiores riscos estão ligados aos abusos sexual, uma violência que também não costuma poupar as crianças. Graças a todo esse conjunto da obra, que mata e mutila incontáveis seres humanos, essas pedras costumam ser chamadas pelo nada agradável nome de “diamantes de sangue”. Destaques de uma lista de países que encabeçam a mineração ilegal de diamantes são Angola, Congo, Zimbábue, Libéria, Costa do Marfim e Serra Leoa, na África, além de países com grandes áreas controladas por guerrilheiros como a Colômbia e o Afeganistão. 

Para encerrarmos essa postagem, uma pequena amostra da violência oculta no comércio mundial de diamantes: Osama Bin Laden, milionário saudita que passou a financiar grupos terroristas islâmicos como a Al Qaeda , financiou parte da sua rede através da compra e venda diamantes ilegais. O ditador da Libéria, Charles Taylor, foi um dos principais fornecedores dos diamantes comprados por Bin Laden. De acordo com o escritor e jornalista americano Greg Campbell, autor do livro Blood Diamonds (Diamantes de Sangue), essa rede negociou US$ 20 milhões entre 1998 e 2001. Entre outras ações terroristas, esse dinheiro financiou o ataque ao World Trade Center em Nova York (as Torres Gêmeas), em 2001.

Na próxima postagem, vamos falar dessa “mineração” de diamantes na África e de todos os problemas político, sociais e, especialmente, ambientais criados por elas. 

A PROBLEMÁTICA MINERAÇÃO DO CARVÃO EM MOÇAMBIQUE

Moçambique

Moçambique é um grande país localizado no Sudeste da África, possuindo uma área com mais de 800 mil km² e com uma população de aproximadamente 20 milhões de habitantes. Ex-colônia de Portugal, Moçambique também tem o português como língua oficial – metade da população utiliza o português como língua oficial do dia a dia e parte da outra metade o tem como 2ª língua, ao lado de uma infinidade de outras línguas e dialetos africanos. 

Moçambique também é um país muito pobre. A renda per capita da população é de apenas US$ 1.50 por dia, o que equivale a R$ 5,60 (na cotação do dia 14/02/2019). O país ocupa atualmente a posição 180° no IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Esse Índice é elaborado pela ONU – Organização das Nações Unidas, e avalia a Saúde, a Educação e a Renda das populações. O IDH de Moçambique figura entre os dez mais baixos do mundo e só não é pior porque a sangrenta guerra civil que assolou o país terminou em 1992

Nos últimos vinte anos, as perspectivas de ganhos econômicos com a exploração das diversas reservas de carvão do país, passaram a representar a esperança de um futuro melhor para a população de Moçambique. Uma dessas reservas está localizada na província de Tete, na região central do país. Chamada de Bacia Carbonífera de Moatize, essa reserva mineral possui uma das maiores jazidas de carvão do mundo, com volumes estimados em, aproximadamente, 2,5 bilhões de toneladas. Diversas empresas multinacionais do setor de mineração implantaram grandes projetos na região. Entre elas, uma velha conhecida de todos nós: a Vale do Rio Doce

O projeto de mineração de carvão da Vale em Moçambique foi iniciado em 2008, sendo que 85% das ações pertencem à empresa brasileira, 5% ao Governo de Moçambique e os 10% restantes estão pulverizados entre investidores locais. A Vale trabalha com a expectativa de operar a mina ao longo de 35 anos, com a meta de produzir 11 milhões de toneladas de carvão por ano. Os investimentos previstos ao longo do projeto são de US$ 8,5 bilhões, um volume de recursos correspondente a mais da metade do PIB – Produto Interno Bruto de Moçambique. Entre os financiadores do projeto estão a multinacional IDC, ligada ao Banco Mundial, e o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, do Brasil. 

As expectativas criadas pela chegada do projeto ao município de Moatize, uma localidade com menos de 30 mil habitantes, e também na capital da província, a cidade de Tete com seus 155 mil habitantes, foram muito grandes. De acordo com dados de 2011, o projeto teria gerado cerca de 3 mil empregos, sendo que 90% das vagas foram ocupadas por trabalhadores locais

Infelizmente, as boas notícias para a população acabam por aqui. A implantação simultânea de vários projetos de mineração na região não tardou a mostrar seus impactos negativos no meio ambiente e na vida das pessoas, que passaram a sofrer com a contaminação das fontes de água, desapropriação de suas terras e convivência diária com uma atmosfera saturada por pó de carvão, entre outros graves problemas. 

Na área onde foi implantado o projeto de mineração da Vale viviam cerca de 1.360 famílias, que dependiam da agricultura de subsistência há várias gerações. Nas negociações para a desapropriação dessas famílias, a empresa brasileira construiu dois assentamentos, um vizinho à área de mineração e outro em Cateme, uma vila a quase 40 km de distância.  

De acordo com informações de ONGs – Organizações Não Governamentais, locais, essas famílias reclamam da qualidade das terras que receberam, que, segundo seus relatos, são de uma qualidade muito inferior e pouco adequadas para a agricultura. Essa é uma reclamação muito comum entre famílias reassentadas e, em diversas postagens aqui no blog, falamos dos problemas vividos por populações deslocadas para a formação de barragens em todo o Brasil como a de Sobradinho, na Bahia. 

Uma outra reclamação, recorrente entre os reassentados, diz respeito às promessas feitas pela Vale para o emprego de muitos desses trabalhadores numa empresa de construção, algo que nunca aconteceu. Também existem problemas de infraestrutura nas vilas, especialmente a falta de energia elétrica. A mineradora também havia assumido o compromisso de fornecer cestas básicas aos reassentados ao longo de cinco anos, mas cessou o fornecimento após apenas um ano. Essa quebra sistemática dos compromissos, que representam gastos insignificantes para o porte do empreendimento, tem causado indignação entre os locais e já gerou inúmeros protestos e manifestações, algumas reprimidas com violência pelas forças policiais. 

Um outro problema grave, este criado pela mineradora indiana Jindal, está afetando a saúde de 6 mil famílias em vários distritos da cidade de Moatize. A mineradora instalou uma grande área para o depósito temporário de carvão nas proximidades de vários bairros, onde vive uma população estimada em 30 mil habitantes. A Jindal opera uma mina em Chirodzi, uma localidade a cerca de 120 km de Moatize. Diariamente, centenas de caminhões chegam ao terreno para descarregar o carvão, que depois será embarcado nos vagões da ferrovia que segue rumo ao litoral, para embarque no porto de Maputo. Essa intensa movimentação de carvão gera uma gigantesca nuvem de pó, que está afetando a saúde de toda a população. 

A inalação contínua do pó de carvão pode provocar uma doença conhecida como pneumoconiose dos carvoeiros ou “pulmão negro”, resultante do acúmulo de pó ao redor dos brônquios pulmonares. Nos casos mais graves da doença, que atingem entre 1 e 2% dos doentes, a pneumoconiose se transforma em fibrose maciça progressiva, onde os tecidos pulmonares e os vasos sanguíneos entram num processo de destruição devido a formação de grandes cicatrizes. Nos casos mais simples, a inalação do pó de carvão causa crises alérgicas e irritação das vias respiratórias, além de provocar complicações em pessoas com doenças pulmonares pré-existentes como asma e bronquite. 

Por fim, e não menos graves, são muitas as reclamações sobre a contaminação das fontes de água usadas para o abastecimento das populações. A mineração do carvão expõe rochas e rejeitos ricos em sulfetos, que liberam grandes quantidades de metais pesados e acidificam as águas. Metais acumulados nos sedimentos dos corpos hídricos passam por processos de bioacumulação em vegetais e, posteriormente, são transmitidos por toda a cadeia alimentar.  

Metais pesados altamente tóxicos como o cádmio, chumbo e mercúrio podem, através desse processo, contaminar seres humanos. Esse processo de transferência de metais entre os seres vivos é chamado de biomagnificação. Apesar das muitas negativas quanto aos problemas de contaminação das águas, as mineradoras costumam enviar caminhões pipa com água potável para as vilas. Isso é, no mínimo, uma confissão informal de culpa. 

Apesar de toda essa série de problemas, entre muitos outros, as autoridades de Moçambique parecem olhar para o outro lado – graças a todos esses grandes projetos de mineração, o PIB do país vem crescendo a taxas de 7% ao ano.  

Então, para que perder tempo se preocupando com a vida e com a saúde das populações que vivem nas áreas de entorno das minas de carvão? 

VOCÊ CONHECE UM MINERAL CHAMADO COLTAN?

SRSG visits coltan mine in Rubaya

É bem provável que você nunca tenha ouvido falar de um mineral chamado coltan. O coltan é uma mistura de dois minerais – a columbita e a tantalita. Da columbita se extrai o nióbio e da tantalita o tântalo. Esses dois minerais são essenciais para a fabricação de componentes eletrônicos utilizados na maioria dos aparelhos eletro-portáteis como smartphones, notebooks, tablets, computadores, televisores, videogames, filamadoras, máquinas fotográficas, sistemas eletrônicos de bordo em carros, trens, navios e aviões, entre outros equipamentos eletrônicos essenciais para a nossa vida moderna. 

Para que você tenha uma ideia da importância do coltan: um levantamento recente mostrou que cerca de 88 mil empresas da União Europeia utilizavam componentes eletrônicos fabricados a partir do coltan. E, se por qualquer problema de fornecimento, o coltan não chegar nas empresas que dependem dessa matéria prima, as consequências serão graves. Um exemplo disso foi o que ocorreu no início dos anos 2000, quando o esperado lançamento do videogame Playstation 2 foi adiado por vários meses devido a falta de coltan no mercado mundial. Em resumo: mesmo não conhecendo o coltan, você não consegue viver um único dia sem ele.

Feita esta apresentação inicial, vamos ao coração do problema: 75% das reservas mundiais desse mineral estão localizadas na República Democrática do Congo, um país no centro do continente africano e que há várias décadas vem sendo assolado por uma terrível guerra civil. Intolerâncias étnicas entre os diferentes grupos da população, disputas territoriais e políticas e, principalmente, o controle das reservas de coltan e de outros minerais raros, estão na raiz dessa guerra. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, mais de 6 milhões de pessoas já morreram nesse conflito, sendo que perto de 4 milhões dessas mortes estão ligadas diretamente à disputa pelo controle da mineração no país

A República Democrática do Congo é uma ex-colônia da Bélgica, alçada à condição de país independente em 1960. É o segundo maior país da África, com aproximadamente 2,35 milhões de km² e 75 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 200 grupos étnicos. Apesar da grande riqueza mineral dos solos e com abundância de recursos naturais e energéticos, o Congo figura entre os países com as mais altas taxas de mortalidade infantil e materna, desnutrição, falta de acesso da população aos serviços de saúde, educação e segurança, além de apresentar as mais precárias infraestruturas de saneamento básico. 

Em Bandulu, uma região da província de Kivu no Leste do país, encontram-se algumas das mais importantes reservas minerais do Congo. A mineração do coltan é feita de forma completamente desordenada (vide foto) e sob um clima de absoluta violência. Existem perto de 5 mil lavras na região, que nada mais são do que imensos buracos no chão, onde homens, mulheres e crianças, muitas vezes trabalhando na condição de escravos ou semi-escravos, cavam o chão em busca do coltan, chamado de “ouro azul”, e também de ouro, diamantes, cobre, urânio, tungstênio e estanho. O trabalho dessa população é, constantemente, realizado sob a mira dos fuzis dos seguranças. 

Ao final de cada jornada de trabalho, os “mineiros” são impiedosamente revistados na busca de desvios de minérios. Caso algum dos trabalhadores seja considerado suspeito de ter engolido alguma pepita de ouro ou uma pedra de diamante, uma forma clássica de “roubar” bens preciosos, ele será conduzido para uma cela, onde permanecerá em jejum por vários dias. Todas as suas fezes serão vasculhadas na busca de qualquer quantidade de mineral que ele eventualmente tenha engolido. Caso não se encontre nenhum vestígio de minerais desviados, o preso será libertado e depois reconduzido para os trabalhos de mineração. A depender da situação e do “mau humor” dos seguranças, o pobre suspeito poderá ser simplesmente estripado e ter suas entranhas vasculhadas.

Por trás dessa estrutura caótica e violenta de mineração, encontram-se funcionários públicos corruptos, militares de todas as patentes, milicianos e combatentes dos mais diferentes grupos étnicos e, também, os chamados “senhores da guerra”. Os ganhos obtidos com a venda dos minerais, especialmente do coltan, alimentam as contas bancárias de pessoas gananciosas e, muito pior, financiam a guerra civil no Congo. Parte importante dos recursos financeiros é usada para a compra de armas e equipamentos militares, usados pelos muitos grupos que disputam o controle das mais diferentes regiões do país, especialmente as províncias minerais. 

As exportações de ouro feitas pela República Democrática do Congo nos dão uma ideia do caos da mineração no país. De acordo com estudos realizados pela ONU – Organização das Nações Unidas, 98% dessas exportações vieram de fontes ilegais. A situação da mineração no país é tão surreal que, em 2017, dois especialistas da ONU, que foram enviados ao Congo para investigar as violações dos direitos humanos nas atividades das minas, foram detidos e executados por supostos rebeldes. 

Atividades mineradoras, como as que temos analisado ao longo dessa sequência de postagens, são potencialmente impactantes ao meio ambiente. No Brasil, onde a implantação dessas atividades fica vinculada à realização de minuciosos estudos de impactos ao meio ambiente e são sujeitas à fiscalização de diversos órgãos de controle, os acidentes são frequentes. Imaginem então a situação de um país onde milhares de quilômetros quadrados do seu território, incluindo-se na lista imensas áreas que supostamente abrigam parques nacionais de preservação da vida selvagem, foram tomados de assalto por minas ilegais. 

A bacia hidrográfica do rio Congo, a maior do continente africano, sofre intensamente com os despejos de rejeito minerais resultantes de todas essas atividades. As águas contaminadas com os mais diferentes tipos de metais pesados se misturam com os resíduos sólidos e esgotos despejados pelos aglomerados humanos, comprometendo a qualidade da água usada no abastecimento das populações que vivem a jusante do rio. O rio Congo tem uma extensão total de 4.700 km e é o principal manancial de abastecimento do país. 

Os impactos ambientais da mineração também atingem em cheio antigas áreas agricultáveis, onde a população vivia da produção de subsistência.  O avanço ilegal e descontrolado das cavas expulsa, diariamente, milhares de famílias de suas terras, criando uma verdadeira onda de refugiados da mineração, algo que só faz agravar o clima de convulsão social criado pela guerra civil. 

Por essas e por muitas outras razões, o coltan figura numa lista conhecida como “os minerais de sangue”. Seu smartphone ou o seu laptop, é claro, não tem qualquer responsabilidade sobre estes horríveis fatos, mas é triste saber que aparelhos “tão legais” e imprescindíveis em nossas vidas tenham coisas desse tipo “gravadas” em seus DNAs.

Pense nesses fatos sempre que usar um desses aparelhos.

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OS PROBLEMAS AMBIENTAIS CRIADOS PELA EXPLORAÇÃO E PELO USO DO CARVÃO MINERAL

Carvão Mineral

O carvão mineral é uma rocha sedimentar sólida que foi formada ao longo de milhões de anos a partir do acúmulo e soterramento de matéria orgânica de origem vegetal. Essa matéria orgânica sofreu um processo de carbonificação, onde o hidrogênio e o oxigênio foram expulsos, favorecendo a concentração do carbono, o principal constituinte do carvão. Conforme o grau de concentração do carbono, o minério recebe nomes diferentes: a turfa tem 60% de carbono; o linhito tem 70%; a hulha ou carvão betuminoso tem concentrações de carbono entre 80 e 85% e, finalmente, o antracito, onde a concentração do carbono é superior a 90%. 

As propriedades energéticas do carvão são conhecidas desde o alvorecer da humanidade, quando as pessoas ficavam fascinadas com as pedras que queimavam como lenha. O aquecimento de abrigos e a geração de calor para se cozinhar alimentos foram as primeiras aplicações para o carvão. Com a descoberta dos metais, a exploração e o uso do carvão atingiram um novo patamar. Foi, porém, com o advento da Revolução Industrial a partir de meados do século XVIII, em que a exploração e a utilização do carvão mineral passaram a ser feitas em grande escala. Essa escala e esse consumo cresceram consideravelmente a partir da década de 1880. 

Nos dias atuais, o carvão é um dos mais importantes combustíveis do planeta, com uso intenso em atividades industriais e em usinas termelétricas – cerca de 40% da energia elétrica usada no mundo é gerada a partir da queima do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas.

Algumas regiões do planeta apresentaram condições climáticas e geológicas ideais para a formação de gigantescas reservas carboníferas. Destaques nessa lista incluem territórios nos Estados Unidos, Rússia, China, Austrália e Índia, países que concentram as maiores reservas de carvão do mundo. O Brasil ocupa a 14° posição entre os países com as maiores reservas desse mineral, concentradas em diversos municípios do Sul do Estado de Santa Catarina. 

A contaminação das fontes de água é um dos principais impactos ambientais provocados pela mineração do carvão. Esse processo é chamado de drenagem ácida. Substâncias e elementos com alto potencial de toxicidade são liberados nas fontes de água, alterando também o Ph (potencial hidrogeniônico). Essas substâncias provocam mudanças físicas, organolépticas e biológicas nos corpos hídricos, além de alterar a geoquímica dos sedimentos.  

A mineração do carvão expõe rochas e rejeitos ricos em sulfetos, que liberam grandes quantidades de metais nas águas. Esses poluentes se associam aos sedimentos, dando-lhes uma cor alaranjada. Menos de 1% dessas substâncias são dissolvidas na água e cerca de 99% ficam armazenadas nos sedimentos dos corpos hídricos, o que significa que os contaminantes permanecerão ativos a longo prazo. É por isso que antigas áreas de mineração desativadas há muitas décadas continuam poluindo as fontes de água. 

Metais acumulados nos sedimentos dos corpos hídricos passam por processos de bioacumulação em vegetais e, posteriormente, são transmitidos por toda a cadeia alimentar. Metais pesados altamente tóxicos como o cádmio, chumbo e mercúrio podem, através desse processo, contaminar seres humanos. Esse processo de transferência de metais entre os seres vivos é chamado de biomagnificação

A exploração do carvão também afeta a atmosfera, especialmente pela liberação do dióxido de enxofre (SO2), material particulado e cinzas volantes. Durante a queima do carvão, o enxofre é totalmente oxidado e transformado em trióxido de enxofre (SO3). Esses compostos químicos comprometem a qualidade do ar. Para os seres humanos, um dos grandes vilões é o sulfeto de hidrogênio (H2S), que uma vez absorvido pelas vias aéreas poderá causar problemas irreversíveis no sistema nervoso central e também no sistema respiratório

O dióxido de enxofre (SO2) é outro elemento químico associado ao aparecimento de doenças respiratórias, estando diretamente associado aos problemas de bronquite crônica, resfriados e disfunções no sistema imunológico. Esse elemento químico também causa danos nas folhas dos vegetais, além de corroer superfícies metálicas pintadas. A queima do carvão também libera grandes volumes de monóxido de carbono (CO) na atmosfera. O monóxido de carbono é um gás altamente tóxico para os seres humanos. Sua inalação produz uma redução dos níveis de oxigênio no sangue a níveis críticos – o monóxido de carbono tem uma maior afinidade com as hemácias, sendo assim um competidor com o oxigênio na ligação com a hemoglobina

A exploração do carvão gera grandes quantidades de rejeitos onde se encontra, entre outros minerais, a pirita. A oxidação da pirita provoca o decaimento do Ph da água, o que fatalmente vai resultar numa acidificação dos solos, um processo que vai dificultar o desenvolvimento das plantas e, especialmente, o uso futuro dessas áreas contaminadas para atividade agrícolas. A origem desse problema está na concentração de metais pesados como o ferro, o alumínio e o magnésio, lixiviados pela água, um processo que também promove a fixação do magnésio. 

Solos onde se desenvolveram atividades de mineração de carvão, mesmo no longo prazo, continuarão a apresentar problemas. Solos que venham a se formar nessas regiões serão estruturalmente fracos, com baixa permeabilidade na camada superficial à água e baixa capacidade de retenção da água, o que vai limitar os processos de construção de solo. Esses solos não permitirão o desenvolvimento adequado da vegetação, o que resultará em erosão dos solos, assoreamento e contaminação dos recursos hídricos. Uma das alternativas para a recuperação desses solos é a aplicação de calcário agrícola, um mineral que neutraliza a oxidação da pirita. 

Essa rápida apresentação mostra que o carvão mineral, apesar de ser um dos combustíveis mais importantes da história da humanidade, é também um dos grandes inimigos da preservação ambiental. 

MINERAÇÃO: A MAIOR RESPONSÁVEL POR MORTES DE TRABALHADORES NO MUNDO

Diamantes em Serra Leoa

De acordo com dados da OIT – Organização Internacional do Trabalho, as atividades ligadas à mineração são as mais perigosas para os trabalhadores em todo o mundo. Os trabalhos nessas atividades são os que oferecem os maiores riscos aos trabalhadores, tanto pela falta de estrutura de segurança das minas quanto pelo total desrespeito às normas e convenções trabalhistas. São frequentes as contratações de mineiros com salários abaixo do piso, jornadas de trabalho abusivas – algumas vezes com turnos de até 24 horas seguidas, abusos físicos por parte dos empregadores e não fornecimento de EPIs – Equipamentos de Proteção Individual. Doenças ocupacionais como a silicose, doença pulmonar provocada pelo exposição contínua dos trabalhadores ao pó das rochas, completam esse quadro dramático.

Todos os anos, milhares de mineiros morrem ou ficam soterrados por vários dias em minas, muitas vezes sem que a notícia chegue aos meios de comunicação. Muitas vezes, são as próprias companhias mineradoras que escondem esses acidentes temendo represálias dos governos locais; em várias situações, essas informações até chegam aos ouvidos das autoridades, que optam por medidas administrativas brandas contra a empresas de mineração como forma de não prejudicar o atingimento das metas de produção. São muitos os países pobres e em desenvolvimento que tem nas atividades mineradoras importantes fontes de recursos externos. 

A mineração do carvão é, de longe, a atividade mineradora que mais mata trabalhadores no mundo. O carvão é uma importante fonte energética, indispensável em usinas siderúrgicas e em usinas termelétricas geradoras de energia elétrica. Ao longo de todo o século XX, com o crescimento do uso de combustíveis fósseis derivados do petróleo, o consumo e a importância do carvão diminuiu bastante no mundo. Entretanto, com o forte aumento nos preços do petróleo verificado nas últimas décadas, a produção e o consumo de carvão voltaram a crescer. Projeções econômicas indicam que em cerca de dez anos, o consumo de carvão mineral vai superar o de derivados de petróleo, o que é uma péssima notícia do ponto de vista ambiental

As minas de carvão da China são consideradas as mais inseguras do mundo. Com o forte crescimento econômico do país nas últimas décadas, a mineração do combustível sofreu um forte crescimento, crescimento esse que não foi acompanhado de melhorias nos níveis de segurança. De acordo com os dados disponíveis (muitas informações não são divulgadas), cerca de 13 mineiros morrem a cada dia nas minas chinesas. Esses números colocam a China na trágica primeira posição em número de fatalidades na mineração do carvão, sendo responsável por 80% das mortes nessas atividades; o país responde hoje por cerca de 48% da produção mundial de carvão. 

Se nos grandes complexos de mineração espalhados pelo mundo a segurança dos trabalhadores é frequentemente negligenciada, a situação nas pequenas minas é muito pior. A exploração de ouro, diamantes, prata e outros minerais raros é, muitas vezes, feita em lavras ilegais, onde as condições de segurança são as piores possíveis e onde os trabalhadores não contam com nenhuma rede de proteção social e médica em casos de acidentes. Exemplos são as minas de ouro na Tanzânia, de diamantes em Serra Leoa (vide foto) e a exploração da prata nas minas de Potosí, na Bolívia, sobre a qual comentamos em postagem recente. Muitos desses trabalhadores vivem sob um regime de escravidão, crianças pequenas exercem atividades de alto risco, sem contar a exposição de muitos trabalhadores ao mercúrio, uma substância perigosa usada na separação do ouro e da prata. 

Entre os grandes riscos da mineração, as explosões provocadas por gases acumulados nas galerias merecem destaque. O metano é um desses gases, que se forma dentro das camadas de carvão. Conforme é feita a remoção do carvão, pequenos volumes de gás metano vão sendo liberados e, caso a mina não possua sistemas de ventilação e de exaustão forçada, esse gás começa a se acumular nas galerias, podendo atingir níveis altamente perigosos – basta uma pequena centelha criada pela quebra de uma lâmpada para que haja uma grande explosão. Os riscos do gás metano são amplificados pela presença de grandes quantidades de pó de carvão na atmosfera das galerias. 

A explosão combinada de gás metano e pó de carvão foram as responsáveis pelos dois piores acidentes da mineração na história. Em 1906, na cidade de Courrières, no Norte da França uma gigantesca explosão nas galerias de uma mina de carvão matou 1.099 mineiros. Um outro acidente com as mesmas causas ocorreu em Colliery Benxu, na China, em 1942. Esse acidente matou 1.549 mineiros, sendo considerado o pior desastre da mineração até hoje

Outra fonte potencial de riscos aos trabalhadores são as explosões realizadas para a quebra e o desmonte das rochas. Estudos indicam que a maior causa de lesões graves e mortes de mineiros em minas a céu aberto são as chamadas “rochas voadoras”, pedras arremessadas pelas explosões. Esses acidentes ocorrem porque os trabalhadores não foram colocados a uma distância segura do ponto da explosão ou porque as pedras foram lançadas a uma distância muito maior do que a que foi calculada pelos engenheiros. No caso das minas subterrâneas, as explosões podem liberar vapores venenosos devido a falhas de ignição ou por explosões prematuras

Uma outra fonte de risco para os trabalhadores são os abalos sísmicos, que podem provocar o desabamento de galerias e soterrar os mineiros. Aqui na América Latina, por exemplo, algumas das mais importantes províncias minerais se encontram na faixa Oeste do continente, acompanhando a Cordilheira dos Andes. Nesta região destacam-se importantes minas no Chile, Argentina, Bolívia, Peru e Equador. Nessa região se encontra o ponto de encontro entre duas importantes placas tectônicas – a Placa Sul Americana e a Placa de Nazca, o que torna a região propensa a fortes terremotos. Em 2010, um terremoto atingiu o norte do Chile e provocou o soterramento de 33 mineiros na mina San José. Os mineiros ficaram presos por mais de dois meses até que as equipes de socorro conseguissem abrir um poço para o resgate – todos os mineiros foram salvos. 

Infelizmente, nem sempre o socorro chega a tempo nesse tipo de acidente e centenas de trabalhadores acabam morrendo à centenas de metros de profundidade.. 

A MINERAÇÃO DE COBRE E SALITRE NO CHILE, OU OS ECOS DE SANTA MARIA DE IQUIQUE

Santa Maria de Iquique

O cobre foi, muito provavelmente, o primeiro metal utilizado pela humanidade. Estudos arqueológicos indicam que o cobre começou a ser minerado e trabalhado por agrupamentos humanos por volta do ano 9.000 a.C. Durante vários milênios, todas as ferramentas e armas metálicas produzidas pela humanidade foram feitas com cobre. Por volta do ano 2.000 a.C., os egípcios passaram a adicionar pequenas quantidades de estanho durante a fundição do cobre e, assim, passaram a produzir peças em bronze, um metal mais duro que o cobre puro. Com o aprimoramento da fundição do ferro, uma tecnologia que surgiu por volta do ano 1.200 a.C., o cobre passou a ocupar um papel secundário na vida humana. 

Foi somente a partir de meados do século XIX, com o início das primeiras aplicações da eletricidade na vida humana, que o cobre voltou a ter importância significativa, graças às suas excelentes características de condução de corrente elétrica. Sistemas de redes telegráficas, seguidos posteriormente de redes telefônicas e de distribuição de energia elétrica, passaram a ser implantados em todo o mundo. Essa súbita valorização do cobre levou a uma intensa busca por fontes minerais e colocou no mapa mundial um país isolado da América do Sul – o Chile. 

A mineração acabou se transformando na principal atividade econômica do país e o cobre é principal produto exportado pelo Chile. Cerca de 60% das receitas externas do país vem da venda do cobre. No Norte do país são encontradas algumas das maiores reservas mundiais de cobre, calculadas em mais de 115 milhões de toneladas. O Chile responde atualmente por mais de 10% da produção mundial do metal. Uma das mais famosas minas a céu aberto do mundo, Chuquicamata, fica na região, ocupando uma extensão de 4,5 km e uma largura de 3,5 km – a profundidade é superior a 900 metros. 

Outro produto de destaque na mineração chilena é o salitre, também conhecido como nitrato, um mineral que tem múltiplas aplicações, que vão da produção de fertilizantes até seu uso para a produção da pólvora. A multiplicação de conflitos e das guerras de independência em diversos cantos do mundo ao longo do século XIX, aumentou grandemente o uso do salitre para fins militares. A intensa disputa pelas minas de salitre na região do Deserto do Atacama levou Chile, Bolívia e Peru à uma guerra territorial, episódio que ficou conhecido com o nome de Guerra do Pacífico e se desenrolou entre 1879 e 1883. A Bolívia foi a grande derrotada nesse conflito, perdendo uma importante faixa do seu território e sua saída para o Oceano Pacífico. 

Apesar da imensa importância e do grande volume das atividades de mineração no Chile, seus impactos ambientais são bem diferentes daqueles vistos em outras partes do mundo.  A razão para isso é a falta crônica de água no Norte do país e, lembrando, a mineração do cobre é uma atividade que necessita de grandes volumes de água. O Chile tem uma geografia única, com a Cordilheira dos Andes ocupando toda a faixa Leste do país de Norte a Sul – praticamente todos os rios têm suas nascentes na Cordilheira, de onde a água de degelo de glaciares escorre lentamente e forma pequenos cursos de água. Na região do Atacama, considerado como um dos desertos mais secos e quentes do mundo, essa água criada pelo degelo dos Andes se evapora rapidamente. Uma combinação de relevo, ventos e correntes marinhas impede a chegada das chuvas, que são raríssimas no Atacama e nas regiões circunvizinhas. 

Um exemplo do uso da água na mineração é a lavagem do material escavado para separação dos minérios. De acordo com informações da Comissão Chilena do Cobre, se estima um consumo próximo de 27 mil litros de água por segundo na mineração do cobre no ano de 2021, um consumo superior ao da cidade de São Paulo com seus mais de 11 milhões de habitantes. No caso no salitre, um minério que se formou na superfície e se encontra praticamente puro do solo, não há necessidade do uso de volumes tão grandes de água. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, o aquecimento global vem provocando uma redução sistemática dos glaciares de montanhas em todo o mundo – a Cordilheira dos Andes não é exceção. Diversas fontes de água e rios chilenos vem apresentando redução sensível dos seus caudais, um problema que já está causando preocupação em muita gente. Diversos grupos ambientalistas têm aumentado sua pressão sobre empresas mineradoras, exigindo mudanças em seus processos de produção, com vistas a economia de água. Uma das opções em estudo pelas empresas é o uso de água dessalinizada em um futuro bem próximo – já para o mesmo ano de 2021, a expectativa das empresas de mineração do Chile é a de usar mais de 9 mil litros de água dessalinizada por segundo em seus processos. 

Além dos conflitos gerados pela intensa disputa pelos recursos hídricos, a mineração no Norte do Chile tem um longo histórico de desrespeito aos direitos dos trabalhadores. Durante várias décadas, esses trabalhadores foram recrutados em aldeias indígenas no Chile, Argentina, Bolívia e Peru. Entre os abusos se incluem baixos salários, jornadas de trabalho exaustivas, além de condições de trabalho inseguras, um problema que é agravado pela grande frequência de terremotos no país. Para citar um caso de 2010, um grupo de 33 mineiros ficou preso por mais de dois meses na mina San José, soterrados a uma profundidade de 688 metros. Graças a um grande esforço internacional, todos os mineiros foram resgatados com vida. 

Um dos casos mais dramáticos da história da mineração mundial, que muita gente faz questão de esquecer, ocorreu na cidade de Iquique, no Norte do Chile, em 1907. Trabalhadores das minas de salitre da região iniciaram um movimento grevista em função das péssimas condições de trabalho e, especialmente, contra o pagamento dos salários em fichas, algo que também era muito comum nos seringais brasileiros na época. Essas fichas só podiam ser trocadas em armazéns da própria mina, onde os produtos e alimentos eram vendidos a preços exorbitantes, Milhares de mineiros se dirigiram para a cidade de Iquique (vide foto), onde se concentraram na Escola Santa Maria. 

Inflexíveis em suas reivindicações, os mineiros prometeram manter a greve até que conseguissem negociar com os patrões. Ao invés de negociar, as empresas optaram em pedir ajuda ao Governo do Chile, que ao invés de negociadores, mandou o exército para a cidade. Com um impasse nas negociações, os militares partiram para o confronto – mais de 5 mil mineiros desarmados sucumbiram ao fogo das metralhadoras. Em 1970, o grupo musical chileno Quilapayn lançou uma cantata popular – Santa Maria de Iquique, onde narra em versos musicais o drama dos mineiros do salitre. 

Além de destruir o meio ambiente, a mineração também destrói vidas. 

NAURU: A ILHA QUE EXPORTOU A MAIOR PARTE DOS SEUS SOLOS

Nauru

A Ilha Nauru, no Oceano Pacífico, tem apenas 21 km² de superfície, sendo considerado um dos menores países do mundo. Para que todos tenham uma ideia real da superfície desse país insular, Nauru é menor que o arquipélago de Fernando de Noronha, que tem uma área total de 26 km². A população da ilha é de aproximadamente 13 mil habitantes. 

Apesar de ser um pequeno ponto de terra perdido no meio do imenso Oceano Pacífico, o drama social e ambiental vivido na Ilha Nauru é, proporcionalmente, o maior do mundo. A raiz do problema é a mineração do fosfato, um elemento químico essencial para a produção de fertilizantes agrícolas fosfatados. Junto com o nitrogênio e o potássio, o fosfato forma o principal conjunto de nutrientes para as plantas. A extração sistemática de fosfato para exportação já destruiu 80% do território da ilha. Vamos entender como algo dessa magnitude pôde acontecer: 

No final do século XIX, exploradores ingleses que estudavam as ilhas do Oceano Pacífico desembarcaram em Nauru e, rapidamente, descobriram que a ilha inteira era um gigantesco bloco de rocha fosfática. Prometendo riqueza e melhoria de vida para toda a população nativa, uma grande empresa de mineração britânica fechou um contrato com os governantes locais para a exploração do fosfato, uma atividade que foi iniciada em 1899. 

Como era comum entre as populações das ilhas polinésias, os nauruenses viviam dos recursos pesqueiros e do cultivo da terra, especialmente da produção da batata-doce, um produto fundamental na culinária local. A criação de galinhas e porcos complementava a base da dieta das população. Como a implantação das atividades de mineração foi concentrada na área central da ilha e longe da faixa habitada na linha costeira, a ingênua população nativa não se deu conta do que lhes reservaria o futuro.

Essa relativa “miopia” ante o avanço da mineração sobre os ricos solos de Nauru foi intensificada pela visível melhoria nos padrões de vida da população, graças à chegada dos royalties pagos pelo fosfato. Os antigos casebres cobertos com palhas de coqueiro (vide foto abaixo) passaram a ser substituídos por confortáveis bangalôs; a população passou a ter um acesso mais fácil aos serviços de saúde e as crianças passaram a frequentar escolas com boa infraestrutura. Aparentemente, Nauru havia alcançado o tão sonhado patamar de “paraíso tropical dos mares do sul”. 

Nativos de Nauru

Uma das formas mais simplificadas de definirmos a mineração seria a escavação dos solos para a retirada de bens minerais – rochas e metais que têm um valor comercial. Também, de forma bastante simplificada, podemos afirmar que o que sobra após o esgotamento desses bens minerais é “um grande vazio no chão”. Uma história que contei em uma postagem anterior e que é bastante conveniente repetir para explicar esses processos – anos atrás, em função do meu trabalho, eu viajava com bastante regularidade até a cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ao lado da rodovia já bem próximo da cidade, havia um sítio de exploração de minério de ferro, onde se via um grande morro sendo “escavado”. Em um período de dez anos, eu vi esse morro, literalmente, desaparecer. 

Em Nauru, as atividades de mineração, fizeram exatamente isso: a ilha começou a desaparecer. A primeira grande vítima foram áreas utilizadas para agricultura. Pouco a pouco, com o avanço das cavas, a produção da batata-doce começou a diminuir e passou a ser necessária a importação a partir de ilhas vizinhas. Depois, as áreas que eram utilizadas para a criação de galinhas e porcos também passaram a minguar, sendo também necessária a importação de carnes para o abastecimento da população.  

Os recursos pesqueiros, fonte ancestral de alimentos para os nauruanos, também acabaram afetados pela mineração. Logo no início das atividades na ilha, os ingleses construíram um terminal portuário para o embarque do fosfato. O coração desse terminal era uma grande esteira para o transporte do produto desde os galpões de beneficiamento até os navios cargueiros. Pela vibração da esteira e por força dos ventos, pequenas quantidades de fosfato passaram a cair no mar, destruindo os corais e a espantando os cardumes de peixes e de crustáceos que viviam nas águas rasas ao redor da ilha. Atualmente, todos os alimentos consumidos pela população de Nauru precisam ser importados, especialmente da Austrália

A mudança no regime alimentar dos nauruenses, com a substituição de alimentos frescos por produtos enlatados e congelados, resultou em inúmeros problemas de saúde. O povo de Nauru é considerado um dos mais doentes e obesos do mundo, com grande percentual de diabéticos, cardíacos e hipertensos. Cerca de 94% da população têm sobrepeso e 72% são considerados obesos. Outro problema de saúde é o diabetes tipo 2, que afeta mais de 40% da população. Doenças renais e cardíacas, além de outras associadas aos problemas de alimentação, também são bastante comuns entre os habitantes da ilha

A surreal paisagem do interior da Ilha Nauru lembra áreas que sofreram intensos bombardeios em uma guerra – terrenos com uma elevação de até 60 metros e que eram cobertos por matas foram transformados numa sucessão de crateras e de terras arrasadas, despidas de qualquer vegetação. Além dos evidentes impactos sociais e econômicos, essa devastação da ilha provocou uma forte alteração no clima local, que passou a apresentar longos períodos de seca. Isso é muito preocupante, pois Nauru possui uma única fonte de água doce, o Lago Buada, alimentado pela água das chuvas – com a escassez das chuvas, a tendência no longo prazo será o desaparecimento completo do Lago. 

As únicas áreas “intocadas” da ilha ficam na orla oceânica, que forma um anel coberto por coqueirais ao redor da grande “cratera” que foi deixada por mais de um século de mineração. E como se toda essa tragédia sócio-ambiental já não fosse muita coisa, há uma outra a porvir: o aquecimento global está provocando uma gradativa elevação do nível dos oceanos em todo o mundo e a faixa costeira da Ilha Nauru poderá acabar submersa dentro de poucas décadas. 

Não tardará chegar o dia em que poderemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a ganância da mineração e a insensatez humana riscaram um pequeno país insular do mapa mundial  – a Ilha Nauru.