O DILEMA DOS CARROS ELÉTRICOS EM UM MUNDO EM CRISE ENERGÉTICA 

Carros elétricos estão na moda. Aliás, podemos até afirmar que eles viraram uma “febre” nos últimos anos. Um dos grandes impulsos para essa indústria foi dado pela grave crise ambiental decorrente das mudanças climáticas, um problema global que passou a ficar cada vez mais evidente nas últimas décadas. 

Os combustíveis fósseis, especialmente derivados de petróleo como a gasolina e o óleo diesel, ganharam o rótulo de “grandes vilões” do meio ambiente. Durante mais de um século, esses combustíveis movimentaram frotas gigantescas de veículos nas ruas das cidades e nas estradas de todo o mundo. A passagem desses veículos sempre deixava um rastro de poluição atmosférica, um mal que foi crescendo cada vez mais. 

Os carros movidos a eletricidade, que durante muito tempo foram tratados como uma excentricidade de alguns malucos, surgiram como uma alternativa de transporte limpo e eficiente, despertando cada vez mais o interesse de grandes montadoras e conquistando cada vez mais a preferência dos consumidores. 

Apesar da aura de modernidade, os carros elétricos são uma ideia antiga, tão antiga quanto os carros com motores a combustão interna. Diversos experimentos com baterias e motores elétricos foram feitos durante todo o século XIX. Em 1881, o francês Gustave Trouvé saiu as ruas com um triciclo movido a eletricidade. 

Outro pioneiro na área foi o inglês Thomas Parker que, em 1884, construiu um carro elétrico que usava para ir diariamente ao trabalho. Em 1888, surgiu na Alemanha o Flocken Eletrowagen, uma espécie de carruagem movida por um motor elétrico. Nesse mesmo ano, o lendário Ferdinando Porsche criou o seu carro elétrico, o primeiro da famosa marca alemã. 

A funcionalidade desses veículos, entretanto, não ra das melhores, especialmente por causa das problemáticas baterias disponíveis há época. Essas baterias eram do tipo chumbo-ácido, e liberavam gases tóxicos durante a recarga. Pior ainda – essas baterias podiam explodir durante o processo de recarga. Os motores a combustão interna, que se mostraram mais seguros e funcionais, acabaram por impor sua hegemonia. 

Foi justamente o grande desenvolvimento das baterias nas últimas décadas a mola propulsora da indústria dos carros elétricos que assistimos atualmente. A partir da invenção dos transistores no final da década de 1950, a indústria de aparelhos eletrônicos ganhou forte impulso, o que, por sua vez, acabou estimulando o desenvolvimento de pilhas e de baterias cada vez mais eficientes. 

Na década de 1970, com a popularização cada vez maior dos computadores pessoais – especialmente os “portáteis”, a busca por pilhas e baterias cada vez menores e mais eficientes ganhou um novo fôlego. Nas décadas seguintes, com a popularização dos games portáteis, walkman (quem tem mais de 40 anos lembra deles) e dos telefones celulares, as indústrias foram forçadas a buscar soluções técnicas cada vez mais inovadoras. 

Metais raros e caros como o lítio, o níquel e o cobalto, passaram a ser utilizados na fabricação das baterias, o que garantiu uma significativa redução no peso e no tamanho das unidades, além de proporcionar uma carga elétrica com duração cada vez maior. E foram justamente esses desenvolvimentos que permitiram a criação de veículos elétricos eficientes e “ambientalmente” limpos nos últimos anos. 

Um dos fabricantes de maior prestígio atualmente é a norte-americana Tesla. Um veículo de luxo da marca utiliza um conjunto de baterias recarregáveis de lítio com cerca de 200 kg de peso e autonomia para percorrer mais de 400 km com uma uma única recarga nas baterias. Apesar do preço bem salgado, os carros da marca possuem um excelente apelo de marketing ambiental – o proprietário roda toda essa quilometragem sem emitir poluentes na atmosfera. 

De acordo com informações do mercado, a Tesla fabricou cerca de 900 mil carros em 2021, e projeta atingir a marca dos 2 milhões agora em 2022. E ela não está sozinha nesse mercado – surgiram uma infinidade de outros fabricantes, inclusive as tradicionais grandes montadoras de veículos, que gradativamente estão abandonando os motores a combustão interna e passando para linhas de veículos híbridos e/ou totalmente elétricos. 

Anunciados como uma espécie de salvação do meio ambiente, os veículos elétricos foram ganhando cada vez mais espaço no mercado e provocando outras mudanças. Um exemplo: anúncios de novos edifícios em construção aqui na minha vizinhança estão ficando diferentes – todas as peças publicitárias destacam que as vagas de veículos são dotadas de tomadas elétricas para a recarga. Os edifícios também vão contar com sistemas de geração elétrica fotovoltaica. 

A recarga dos veículos elétricos, inclusive, passou a ser um dos grandes problemas para os novos proprietários. Além de não existirem pontos de recarga em quantidade suficiente e bem distribuídos nos bairros das cidades e ao longo das rodovias, o tempo de recarga para as baterias usadas atualmente nos veículos é muito longo. Essas “pequenas” dificuldades são limitadoras importantes para um crescimento ainda mais expressivo da frota de veículos elétricos no mundo. 

Um outro problema grave surgiu nos últimos meses: diversos países do mundo – especialmente na Europa, passaram a enfrentar uma gravíssima crise energética. O gás natural, cujo maior fornecedor para os países europeus era a Rússia, simplesmente desapareceu do mercado. Sem dispor de gás em abundância, esses países perderam a sua capacidade de gerar energia elétrica para atender plenamente os seus cidadãos. 

Os países europeus não estão sozinhos nesse drama – outros países também estão enfrentando suas próprias crises energéticas por razões um pouco diferentes. Aqui entram problemas provocados por fortes estiagens, elevação dos preços do carvão, do petróleo e do gás natural, problemas na transmissão de energia elétrica a longas distâncias, entre outros. 

Recapitulando o que já tratamos em postagens anteriores, uma enorme onda de “políticas verdes” varreu diversos países nas últimas décadas e “fontes de energia suja” foram sendo gradativamente varridas do mapa. Essa onda foi muito forte na Europa. Aqui se incluem principalmente a queima de carvão e de outros combustíveis fósseis. O gás natural, que apesar da sua origem fóssil, é bem menos poluente e ganhou espaço como fonte energética no continente. 

Sem contar com o gás natural, a maioria dos países da Europa está, literalmente, penando para gerar eletricidade, inclusive com a reativação de centrais termelétricas a carvão. A capacidade de geração de energia na Europa será colocada a prova nos próximos meses – o inverno está chegando e o consumo de energia deverá aumentar drasticamente. 

E a pergunta que não quer calar – será melhor usar a energia elétrica para abastecer os ecológicos e descolados carros elétricos ou usar essa energia para aquecer as casas em meio ao inverno rigoroso? 

Continuaremos na próxima postagem. 

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