AUMENTAM OS ENCALHES DE BALEIAS-JUBARTE NA COSTA BRASILEIRA

Quem está acompanhando as últimas postagens aqui no blog deve estar estranhando o título de hoje: qual seria a relação entre ondas de calor extremo, incêndios florestais e a morte de baleias-jubarte? 

Em resumo – tudo! 

De acordo com levantamentos feitos pelo Instituto Baleia Jubarte, uma organização não governamental que se dedica ao estudo, preservação e ações de educação ambiental voltadas à conservação da espécie, já foram 48 encalhes desses animais em praias brasileiros entre janeiro e junho deste ano. Todos esses animais já estavam mortos. Em julho, foram registrados mais 26 encalhes, elevando o total registrado para 74 em 2021.  

Há coisa de uns três anos atrás, eu vi (a uma distância bem confortável) um desses encalhes na Praia do Centro em Peruíbe, cidade do litoral Sul de São Paulo. Segundo as informações dos especialistas que estavam no local, o animal havia morrido vários dias antes e foi arrastado até a praia por correntes marítimas. Quem tentou chegou mais perto do local para ver o “cadáver” teve suas narinas tomadas pelo forte cheiro de toneladas de carne em avançado estado de putrefação. 

Segundo os registros feitos nos últimos anos, a média de casos documentados vinha se mantendo na casa de duas dezenas de encalhes anuais. Existem também registros de anos com números atípicos como 2010, quando foram registrados 96 casos, e 2017, com um total de 122 casos. 

A maior parte dos encalhes registrados neste ano foram de animais jovens e com peso muito abaixo do que seria de se esperar. Pesquisadores especulam se esses animais se aproximaram da costa em busca de alimento e assim acabaram morrendo enroscados em redes de pescas ou após encalhar em trechos rasos. 

As baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), que normalmente são chamadas apenas de jubarte, também são conhecidas como baleia-corcunda, baleia-cantora, baleia-de-corcova, baleia-de-bossas e baleia-preta. É um mamífero marinho da ordem dos cetartiodáctilos. Os machos da espécie podem chegar a um comprimento de 14 metros e as fêmeas, ligeiramente maiores, podem chegar aos 16 metros. O peso se situa entre 25 e 30 toneladas, sendo que já foram encontrados espécimes com mais de 40 toneladas. 

As baleias-jubarte são encontradas em todos os oceanos do mundo e tem como característica comum a realização de grandes migrações anuais de verão entre as suas áreas de alimentação em águas polares até as águas quentes de regiões tropicais e subtropicais para acasalar e ter seus filhotes. Em alguns casos, essas migrações cobrem rotas de 25 mil km. É justamente este aspecto da ecologia dessas baleias que as ligam aos focos de calor e aos incêndios florestais. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as regiões polares estão entre as que mais rápida e intensamente estão sofrendo as consequências do aquecimento global. A Antártida é um grande exemplo – nos últimos 40 anos, o enorme continente gelado assistiu a velocidade do derretimento do seu manto de gelo aumentar 6 vezes. A Antártida perdeu cerca de 3 trilhões de toneladas de gelo apenas nos últimos 20 anos

Grandes volumes de água doce resultante desse degelo são despejadas nas águas dos mares polares, alterando substancialmente a ecologia dessas águas e, muito pior, fazendo o nível dos oceanos de todo o mundo aumentarem gradualmente. Entre 1979 e 2017, foram 1,4 centímetro de aumento médio no nível dos oceanos

Os mares polares formam grandes correntes de água fria que circulam através de todos os oceanos do mundo, criando um mecanismo de circulação de nutrientes marinhos. As águas geladas favorecem o armazenamento de carbono nas profundezas do oceano, o que atrai milhares de espécies marinhas para essas águas férteis. Um desses casos é o do krill antártico (Euphausia superba), um pequeno crustáceo que é o principal alimento de animais como as baleias-jubarte. 

Os krills se parecem com pequenos camarões e atingem um comprimento de até 6 cm e um peso de 2 gramas. Apesar de pequenos, os krills costumam se reunir em grandes cardumes, onde a densidade fica entre 10 mil e 30 mil animais por metro cúbico de água. As baleias-jubarte são dotadas de conjuntos de placas de queratina que descem do céu da boca e formam estruturas chamadas de barba. Essas barbas filtram o seu alimento da água do mar, onde o krill é um dos principais. 

As alterações climáticas nas regiões polares e também nos mares que circundam essas regiões estão reduzindo os estoques de alimentos como o krill, o que vem prejudicando o ciclo de vida de animais como as baleias-jubarte. Durante as suas migrações e estadias em águas polares, as baleias-jubarte comem dezenas de toneladas de krill e de outros crustáceos e pequenos peixes, armazenando energia para o período das migrações de verão e acasalamento em águas tropicais e subtropicais. 

É justamente esse elo da ecologia das baleias-jubarte que pode estar sendo quebrado e que pode estar por trás da morte dos animais encontrados encalhados em praias brasileiras. Com a baixa oferta de alimentos nas águas da Antártida, esses animais não estão contando com estoques de energia suficientes para chegar até suas áreas de procriação, a exemplo do Arquipélago de Abrolhos, no litoral Sul da Bahia.  

Buscando cardumes de pequenos peixes e/ou de camarões em águas mais próximas da costa, essas baleias se aproximam das mesmas águas usadas pelos pescadores. Segundo as informações disponíveis, ocorreram ao menos 34 casos de emalhe, situação onde as baleias ficam enroscadas em redes de pesca. Segundo informações do Projeto Baleia Jubarte, nem todos esses acidentes resultaram em mortes de baleia, mas seu número também foi recorde.   

O aumento do número de encalhes de baleias-jubarte ao longo do litoral brasileiro, felizmente, parece não representar qualquer risco à sobrevivência da espécie num curto e médio prazos. Ao contrário – é um sinal claro do sucesso dos programas de conservação implementados ao longo das últimas décadas. Uma das medidas mais importantes se deu em 1986, quando a Comissão Baleeira Internacional, formada por mais de 80 países – inclusive o Brasil, decretou uma moratória na caça de baleias. 

Os resultados dessa moratória não tardaram a aparecer – no ano 2000, o censo populacional da espécie baleia-jubarte em águas brasileiras encontrou cerca de 3.500 indivíduos. Atualmente, essa população é estimada em mais de 20 mil indivíduos. 

A situação relativamente confortável da espécie hoje poderá ficar seriamente ameaçada em um futuro próximo caso as populações de krill e de outros pequenos animais que formam a dieta das baleias-jubarte no Oceano Antártico continuem a declinar. Tudo culpa do aquecimento global criado por nós, os seres humanos. 

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