A MARCHA DO CAFÉ RUMO AO OESTE PAULISTA

A vegetação que cobria originalmente o Estado de São Paulo tinha uma característica interessante: perto de 69% do território paulista era coberto por Mata Atlântica – uma estreita faixa de vegetação de Cerrado dividia o Estado exatamente ao meio. Os solos de Cerrado, conforme já tratamos em outras postagens, são extremamente ácidos e pouco férteis, só vindo a ser utilizados com alta produtividade a partir da década de 1970, quando a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu sementes de grãos adaptadas para esses solos.  

O avanço dos cafezais pelo interior de São Paulo acompanhou esse capricho da natureza, tendo como ponto de partida a região de Campinas, que no passado foi uma grande produtora de açúcar e aguardente. Essa região ficava num dos antigos caminhos que levavam na direção das Minas Gerais e de Mato Grosso. Por ali passava uma movimentada rota de tropeiros que transportavam alimentos, ferramentas e outros produtos para as regiões de mineração de ouro nas Geraes do século XVIII. As cachaças paulistas produzidas nessa região faziam sucesso entre os mineradores dos sertões. 

O primeiro cafeeiro que se tem notícia na região de Campinas foi plantado em 1797, nos fundos da casa do Sargento-Mor Raimundo Álvares dos Santos Prado. Como era comum em todo o Brasil, as famílias costumavam plantar o café em seus quintais e os frutos produzidos eram torrados e moídos apenas para consumo próprio. 

A primeira “plantação” de café na região ficava num sítio que pertencia ao Tenente Antônio Fonseca de Andrade. Contam as histórias que, entre os anos de 1807 e 1809, o militar costumava espalhar o café colhido para secar na calçada de sua casa no centro da cidade de Campinas, algo que chamava a atenção e criava os famosos “falatórios” por toda a vizinhança. O Tenente Andrade foi transferido pelo Exército para o Sul do Brasil e esse cafezal acabou sendo abandonado. A cultura cafeeira só chegaria com força na região em meados do século XIX. 

Até a década de 1830, a principal atividade econômica da região de Campinas, coração do então chamado Oeste Paulista, era a produção da cana de açúcar. Registros de 1836 indicam que existiam na região 93 engenhos de açúcar e destilarias de cachaça – as famosas “caninhas paulistas”, também conhecidas como “fogo paulista”. Em 1854, o número de engenhos e destilarias cairia para apenas 44 unidades, ao mesmo tempo em que a cafeicultura começava a despontar na região. 

Os grandes cafezais de São Paulo surgiram inicialmente no Vale do Paraíba e, a partir dali, foram acompanhando as pequenas cidades ao longo das encostas da Serra da Mantiqueira até chegar nas regiões de Campinas, Piracicaba e Rio Claro. Os cafezais seguiram cada vez mais rumo a direção Noroeste, chegando em cidades como São Carlos, Araraquara, Catanduva, Pirassununga, Casa Branca e Ribeirão Preto. Em todas essas cidades, os fazendeiros abandonaram a produção da cana de açúcar, produto que estava com o preço em forte queda, e abraçaram a cafeicultura. 

A cultura cafeeira só se consolidaria nessa região, conhecida como Depressão Periférica ou Oeste Paulista, a partir da década de 1870. As dificuldades para o escoamento limitavam o aumento da produção. Outro problema era a carência de mão de obra, que até então era formada por escravos. Desde 1850, a entrada de novos escravos vindos da África estava proibida no Brasil pela Lei Eusébio de Queirós. Criou-se então um forte mercado interno de venda de “peças usadas” entre as Províncias.  

Em 1871, foi assinada a Lei do Ventre Livre, que tornava os filhos de mãe escrava automaticamente livres, uma legislação que criou ainda mais dificuldades para os grandes fazendeiros paulistas. Os escravos disponíveis no “mercado” acabavam sendo absorvidos pelas imensas fazendas de café da Província do Rio de Janeiro, região que estava vivendo o auge da prosperidade graças à sua grande produção cafeeira. 

Um exemplo das grandes dificuldades relativas à mão de obra para os trabalhos nos cafezais de São Paulo é Araras, uma cidade que fica bem próxima de Rio Claro. Os movimentos pró-abolição da escravatura na cidade eram intensos – contando inclusive com a participação de muitos filhos de grandes fazendeiros da região. A cidade publicou um decreto municipal abolindo a escravidão cerca de um mês antes da assinatura da Lei Áurea

A situação dos produtores de café paulistas só não era pior devido ao avanço constante das estradas de ferro. A primeira delas foi a Ferrovia Santos Jundiaí – a São Paulo Railway, inaugurada em 1867 e que seria o primeiro marco da expansão ferroviária no Estado de São Paulo e a primeira ferrovia a vencer as escarpas da Serra do Mar (vide foto). As sacas de café eram transportadas por tropas de burros e mulas até Jundiaí e, dali, levadas até o Porto de Santos. O avanço dos cafezais rumo ao Oeste forçaria o avanço das ferrovias cada vez mais rumo aos “sertões” paulistas. 

Muitos dos ramais ferroviários que começaram a se espalhar pelo interior de São Paulo foram bancados com recursos dos próprios cafeicultores. Um desses casos foi o Conde do Pinhal – Antônio Carlos de Arruda Botelho, um grande proprietário de terras nas regiões de Jaú e São Carlos. O fazendeiro financiou a construção de uma ferrovia, que chegou a ter uma extensão de 300 km, entre Rio Claro e Araraquara em 1885, e depois até Jaú em 1887. 

Com a carência de mão de obra escrava, muitos fazendeiros paulistas passaram a se valer da mão de obra livre de imigrantes europeus que chegavam em quantidades cada vez maiores na Província. Conforme a citação de Caio Prado Júnior em seu livro História Econômica do Brasil, um dos primeiros casos conhecidos foi o do Senador Nicolau de Campos Vergueiro, um grande fazendeiro de Cordeirópolis, cidade próxima a Rio Claro.

Entre 1847 e 1857, esse fazendeiro contratou 177 famílias de imigrantes alemães, suíços, portugueses e belgas para trabalhar na produção do café. Muitos fazendeiros da região acabaram por seguir esse exemplo e foram formadas cerca de 70 colônias de imigrantes

A princípio, esse sistema de trabalho apresentou bons resultados. Esses trabalhadores conheciam técnicas agrícolas que eram bem mais avançadas que as técnicas rudimentares usadas pelos locais, o que garantia uma ótima produtividade. Os problemas começaram no relacionamento com os patrões e na divisão dos lucros da produção – os contratos de trabalho previam a divisão dos lucros da produção.

Acostumados a lidar com escravos, que ou obedeciam ao patrão ou acabavam sendo colocados no tronco, os fazendeiros se achavam no direito de ficar com a maior parte dos lucros e não respeitavam os termos previamente combinados. Valia a velha máxima: manda quem pode, obedece quem tem juízo!

Os problemas também se estendiam ao relacionamento dos europeus com os escravos – muitos achavam que era indigno para um branco fazer os mesmos trabalhos de um negro. Essas reclamações começaram a chegar em grande quantidade nas representações consulares dos países de origem desses imigrantes, sendo depois levadas para os Governos dos respectivos países europeus. A Alemanha, por exemplo, abriu uma investigação para apurar os fatos e proibiu a imigração dos seus cidadãos para o Brasil por muitos anos. 

Em menor intensidade, também começaram a surgir os problemas de ordem religiosa – muitos desses europeus professavam fé protestante e tinham um calendário religioso diferente do tradicional catolicismo brasileiro. Esse problema religioso gerou tamanhas repercussões que, no futuro, o Governo brasileiro passaria a vetar a entrada de grandes contingentes de imigrantes alemães por professarem a religião luterana. 

Esses problemas se estenderiam até o final da década de 1870, quando então a cafeicultura paulista ganhará musculatura e terá início um ciclo virtuoso de produção de café e de destruição de matas na Província de São Paulo. Já a mão de obra, essa seria garantida pelo intenso fluxo de imigrantes italianos que passariam a chegar em grandes contingentes a partir da década de 1880.

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