A GRANDE TRAGÉDIA AMBIENTAL QUE TOMA CONTA DAS FILIPINAS  

Boraclay Filipinas

A República das Filipinas é um grande país insular do Sudeste Asiático. É formada por mais de 7 mil ilhas, com um território de aproximadamente 300 mil km² e onde vive uma população de pouco mais de 100 milhões de habitantes. A exceção das bizarrices e excentricidades do Presidente do país, Rodrigo Duterte, que entre outras polêmicas defende o abate indiscriminado de traficantes de drogas pela polícia, raramente se ouvem notícias sobre as Filipinas. 

Uma das bandeiras de campanha de Rodrigo Duterte na sua corrida presidencial foi o combate ao tráfico de drogas com violência. Uma vez eleito, o Presidente deu ordens aos policias do país para “atirar para matar”. Mais de 350 supostos traficantes de drogas foram mortos apenas nos seus primeiros 6 meses de governo. Os trágicos números, infelizmente, incluem muitos civis e crianças “mortos por engano”. Essa rápida introdução lhes dá uma ideia do nível de problemas enfrentados pelos filipinos. 

Muitos especialistas consideram as Filipinas como o pior caso de degradação ambiental de todo o mundo. Muitos cientistas chegam até a afirmar que o país é uma “causa perdida” em termos ambientais. A exploração intensiva de madeira, citando um exemplo, que começou nos tempos da colonização espanhola e aumentou vertiginosamente a partir do século XX, já dizimou três quartos das matas nativas das ilhas. Alguns autores chegam a afirmar que só resta algo entre 6 e 8% da vegetação nativa original, algo muito parecido com a situação da Mata Atlântica aqui no Brasil

Esse nível de degradação das florestas, é claro, tem seus reflexos na vida animal e vegetal. De acordo com informações da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza na sigla em inglês, uma das mais respeitadas organizações ambientais do mundo, cerca de 21% dos animais vertebrados e metade das espécies de plantas das Filipinas estão ameaçados.  

Aqui é importante lembrar que, como se tratam de ecossistemas de ilhas, existe um alto grau de endemismo nas espécies animais e vegetais nas matas das Filipinas – ou seja, grande parte das espécies só são encontradas em suas respectivas ilhas. Das 1.100 espécies de vertebrados conhecidos, quase a metade são endêmicos. No caso das plantas, as estimativas oscilam entre 45 e 60% de endemismo. A extinção de qualquer um desses seres vivos é uma perda irreparável para todo o mundo

Vários estudos recentes vêm encontrando dezenas de novas espécies endêmicas de mamíferos e especialistas alertam que as Filipinas podemabrigar a maior concentração de espécies únicas de mamíferos do planeta“. Isso aumenta o tamanho da crise ambiental local.

Os males, infelizmente, não ficam restritos apenas aos ecossistemas terrestres – as águas marítimas do país também estão cheias de problemas. De acordo com estudos oceanográficos já concluídos, apenas 5% dos recifes de coral das Filipinas mantém entre 75 e 100% de sua cobertura viva. As razões para esta destruição maciça dos corais locais são muitas – pesca predatória com redes de arrasto, uso de dinamite e veneno na pesca, poluição, choque de embarcações contra as formações, entre outras agressões.  

Metade do PIB – Produto Interno Bruto, das Filipinas é gerado pela pesca e pelos transportes marítimos, o que nos dá uma ideia da importância dos mares para a economia do país e que mostra também como os recursos marinhos são super explorados, muitas vezes até o limite. 

Um exemplo da situação de caos ambiental vivida pelo país se deu em abril de 2018, quando o Governo Central ordenou a interdição total por seis meses da Ilha Boracay, um dos principais destinos turísticos das Filipinas, por causa da intensa poluição das águas do oceano. Essa ilha ocupa uma área total de pouco mais de 1 mil hectares e chega a receber 2 milhões de visitantes por ano.  A linda imagem que ilustra essa postagem é usada na divulgação turística da ilha e, como sempre acontece nesses casos, foi escolhida a dedo entre centenas de outras.

A origem dos problemas na ilha são os sistemas de esgotos, que simplesmente coletam as águas servidas dos hotéis, pousadas e estabelecimentos comerciais, e as lançam diretamente nas águas do mar sem qualquer tipo de tratamento. Nós brasileiros estamos bem acostumados com esse tipo de situação em muitas regiões litorâneas do país. 

Um outro exemplo do descaso com as águas marinhas é visto na Baía de Manila, onde a fica a cidade homônima e capital do país. Os níveis de coliformes, uma bactéria de origem fecal presente nos esgotos, na Baía de Manila alcançam a impressionante marca de 330 milhões de bactérias para cada 100 ml de água. Esse nível de poluição é muito superior aos 47,4 mil coliformes encontrados na Ilha Boracay há época da interdição e infinitamente superior aos níveis recomendados internacionalmente, que é de 1 mil coliformes fecais para cada 100 ml de água

Baía de Manila

A cidade de Manila tem 1,7 milhão de habitantes, mas está encravada em uma grande região metropolitana onde vivem perto de 22 milhões de pessoas. Como acontece com outras grandes metrópoles em países em desenvolvimento, a grande mancha urbana sofre com problemas de saneamento básico, poluição do ar, falta de habitações e de sistemas de transporte de massa, entre muitos outros. Somente na área de entorno da Baía de Manila, vivem perto de 220 mil famílias em assentamentos precários, sem as mínimas condições de vida e infraestruturas urbanas. 

Desde que assumiu a presidência do país em 2016, Rodrigo Duterte vem tentando levar a cabo uma série de reformas sociais nas Filipinas, fazendo inclusive importantes mudanças na política ambiental do país. Um dos projetos mais ambiciosos do Governo é a recuperação completa da orla da Baía de Manila, numa extensão total de 119 km. Esse projeto implica na transferência e reassentamento de centenas de milhares de famílias e em gastos multi milionários.  

As importantes medidas voltadas para a área ambiental vêm encontrando, é claro, forte oposição dos grupos oligárquicos e econômicos que dominam a cena nacional há várias décadas. A Ministra do Meio Ambiente indicada por Duterte, Regina Lopes, proibiu a mineração a céu aberto no país e fechou mais de metade das minas existentes devido a inúmeras irregularidades ambientais. As empresas do setor pressionaram os Parlamentares em Manila, conseguindo que a Ministra fosse demitida apenas dez meses depois da posse, mesmo contando com forte apoio do Presidente Duterte

Apesar dessa derrota inicial, o Presidente continua firme em sua posição de acabar com o “vale tudo” ainda existente na exploração dos recursos naturais das Filipinas. Em uma entrevista, o Presidente declarou que “a proteção do ambiente é uma prioridade maior do que a mineração e outras atividades que causam grandes danos”. Uma das estratégias que passou a ser adotada para controlar a exploração dos recursos naturais do país é um aumento progressivo dos impostos – quanto mais perto essas atividades estiveram de áreas de preservação ambiental, maior será o valor dos impostos. 

O Governo filipino, à sua excêntrica maneira, está tentando efetuar uma série de mudanças na legislação ambiental do país, de forma a reduzir o grau de degradação ambiental que toma conta de todo o arquipélago. A antiga classe dominante, que vem mandando nas Filipinas há muito tempo e ganhando muito dinheiro, é contra e está fazendo todo o possível para boicotar as ações do Governo. Vamos acompanhar para ver onde essa briga vai acabar.

Só que, enquanto isso, o povo vai continuar padecendo das graves mazelas ambientais do país.

3 Comments

  1. […] No arquipélago das Filipinas, a situação é um pouco diferenciada – por causa de antigos laços comerciais e pela proximidade geográfica, o país foi transformado no grande fornecedor de madeiras para o Japão, nação que durante várias décadas foi a grande potência econômica da Ásia. Conforme comentamos em postagem anterior, as Filipinas ocupam a nada honrosa posição de país com um dos maiores percentuais de destruição de florestas nativas do mundo.  […]

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