OS VENTOS DA DISCÓRDIA, OU FALANDO DOS PROBLEMAS CRIADOS PELA GERAÇÃO EÓLICA NO NORDESTE BRASILEIRO 

Em um desenho clássico dos Estúdios Walt Disney, o impagável Pato Donald está tentando dormir desesperadamente. Primeiro, ele é perturbado pelas luzes do luminoso de uma lanchonete vizinha a sua casa que são refletidas nas paredes do quarto. Depois de muita confusão, o personagem consegue pregar uma cortina contra a janela e se livra dos reflexos. 

Logo depois, ele passa a ser atormentado pelas gotas que caem de uma torneira na pia da cozinha. Por mais que Donald tente fazer parar o gotejamento, a água sempre consegue escapulir e faz barulhos ritmados que levam o pato ao desespero. Ao final do episódio, o Pato Donald recebe um telefonema da companhia de água informando que o fornecimento será cortado por falta de pagamento. Ao invés de se lamentar, ele sorri como um louco. 

Comecei a postagem relembrando dessa animação para falar de um problema muito parecido que está acontecendo por toda a Região Nordeste do Brasil: famílias que moram ao lado de parques de geração eólica estão se sentindo muito incomodados pelo barulho constante da rotação das pás. Muitos deles, a exemplo do Pato Donald, não estão conseguindo dormir confortavelmente. 

Em uma reportagem que trata desse e de outros problemas da geração eólica na Região Nordeste, é citado o caso do agricultor Simão Salgado da Silva de 73 anos. Morador de Caetés, cidade no agreste pernambucano localizada a 243 km do Recife, ele e a família abandonaram a sua casa na zona rural por causa do barulho dos geradores eólicos. 

Segundo seu relato, a esposa – Edite Maria da Silva, de 72 anos, adoeceu. “Ela não dormia, não se alimentava bem e entrou em uma grande depressão, teve crises de ansiedade e passou mal“. A família buscou refúgio na zona urbana, onde passou a morar em uma casa alugada. E esse, nem de longe, é um caso isolado. 

Para todos aqueles que, como eu, moram em grandes cidades, o “barulho de fundo” que nos cerca mal é percebido no nosso dia a dia. Minha casa, citando um exemplo, fica a cerca de 300 metros da Marginal Pinheiros, uma das vias expressas mais movimentadas de São Paulo. Ao lado dessa avenida existe uma linha do sistema metropolitano de trens, além de uma estação do metrô a algumas centenas de metros à frente. 

Os carros circulam por aqui 24 horas por dia. Os trens começam a circular as 4h da manhã, na linha do sistema metropolitano, e as 5h da manhã na linha do metrô, operando até a meia noite. Ou seja – o barulho é contínuo, mas os “urbanoides” mal o percebem. Já para um sertanejo, acostumado com o silencio das noites tranquilas no “meio do nada”, o ronco contínuo das engrenagens dos aerogeradores é terrível. 

E os problemas não se limitam ao barulho. 

A mesma reportagem cita o caso da comunidade quilombola do Cumbe em Aracati, município do litoral do Ceará. Formada por cerca de 1.500 pessoas, a comunidade passou a enfrentar problemas após a instalação de um parque com 70 aerogeradores em sua cercania. 

Os problemas começaram durante as obras, quando caminhões e máquinas pesadas das construtoras passaram a circular nas estradas da região. Muitas casas e cisternas passaram a apresentar rachaduras. As canaletas das laterais das estradas, abertas para ajudar na drenagem das águas pluviais, também foram danificadas e essa água passou a invadir as casas de muitos moradores. 

Concluídas as obras de montagem das torres e dos aerogeradores, surgiu um novo problema – a área foi cercada e a passagem de pedestres foi proibida. Além da pesca, as atividades ligadas ao turismo formavam a base da economia da comunidade, que passou a ser fortemente prejudicada. 

Em muitas comunidades agrícolas do interior nordestino já existem movimentos que lutam contra a instalação de parques de geração eólica. Um desses casos é o município de Remígio, no semiárido paraibano. Na região foi instalado um polo de agricultura familiar na Serra da Borborema, onde os moradores falam abertamente que não querem a instalação de parques eólicos. 

Contando com ventos fortes e contínuos, a Região Nordeste foi transformada na maior geradora de energia elétrica por fonte eólica do Brasil. De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Eólica, a Região concentra 708 parques eólicos de um total de 805 instalados em todo o país. A geração eólica representa, segundo dados de dezembro de 2021 do Ministério de Minas e Energia, quase 11% de toda a matriz energética do Brasil

O potencial eólico da Região é tão grande que já existe um grande projeto para a instalação de centenas de torres offshore (dentro do mar ao longo da costa) por todo o litoral nordestino. Segundo informações preliminares, esse potencial seria equivalente a 50 usinas hidrelétricas do tamanho de Itaipu

As empresas que operam os parques eólicos no interior nordestino se defendem de todas as acusações e informam que sempre que são acionadas por algum morador do entorno de suas unidades, fazem o possível para resolver os problemas. 

Na minha modesta opinião, o que ocorreu foram processos de licenciamento ambiental muito mal feito, onde ninguém se lembrou de fazer testes de ruído contínuo junto aos moradores das vizinhanças. Agora, depois dos aerogeradores instalados e dos estragos feitos, a remediação será mais complicada e muito mais cara. 

A energia eólica, apesar de problemas desse tipo, é uma das mais renováveis e de menor impacto ambiental. Com projetos bem feitos e com uma avaliação adequada dos impactos positivos e negativos, ela sempre será muito bem-vinda. O respeito à vizinhança deve ser um dos pontos principais dessas avaliações. 

Que venham novos bons projetos. 

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