A MINERAÇÃO, AS BARRAGENS DE REJEITOS MINERAIS E OS RISCOS PARA AS ÁGUAS DO RIO PARAÍBA DO SUL

Em uma postagem anterior comentamos sobre os graves problemas ambientais criados na calha do rio Paraíba do Sul pela mineração de areia. Material fundamental para a construção civil, a areia extraída nas margens do rio alimenta os insaciáveis mercados da construção civil das regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas e de parte do Rio de Janeiro, além de inúmeras cidades ao longo do extenso vale do rio Paraíba do Sul. 

Essa mineração, entretanto, não fica restrita apenas a areia. Grande parte da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul é ocupada por regiões com forte atividade mineradora, especialmente em regiões no Sul e Sudeste do Minas Gerais. Os minérios extraídos do solo raramente se apresentam puros e são acompanhados por diversas impurezas que precisam passar por um processo de beneficiamento.  

É aqui que surgem os famosos “rejeitos da mineração”, sobras que precisam ficar acumuladas em barragens específicas. Uma das técnicas mais usadas para a construção dessas barragens é o alteamento a montante, onde os próprios rejeitos minerais são compactados para a formação de uma barragem. Conforme o volume de rejeitos vai aumentando, essa barragem vai sendo aumentada em degraus.   

Por razões de segurança, essas barragens de rejeitos precisam ser monitoradas constantemente por pessoal técnico especializado, ocasiões onde são emitidos laudos que comprovam a sua estabilidade e segurança. Infelizmente, mesmo com todo o cuidado do mundo, existem inúmeros fatores que podem levar uma barragem ao colapso – movimentações de solo, excesso de fluidez nos rejeitos, temporais, terremotos, etc. Todos devem recordar de dois grandes acidentes recentes com barragens de mineração – os casos de Mariana e de Brumadinho

Tanto a barragem de Fundão em Mariana, quanto a barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho, foram construídas usando a técnica do alteamento a montante. Os colapsos sofridos por essas duas barragens e o vazamento de gigantescos volumes de rejeito devastaram extensas áreas das calhas dos rios Doce e Paraopebas, o que comprova que os riscos de acidentes são reais.  

Um exemplo dos riscos enfrentados pelas populações que dependem das águas do rio Paraíba do Sul foi o rompimento de uma barragem de rejeitos da produção de celulose em Cataguases, ocorrido em 2003. Nesse acidente, vazou 1,4 bilhão de litros de lixívia ou licor negro, um rejeito tóxico do processo de produção da celulose (algumas fontes consultadas falam de um vazamento na ordem de 1 bilhão de litros).   

O vazamento atingiu primeiro o córrego do Cágado, atingindo na sequência o rio Pomba e, por fim, o rio Paraíba do Sul, provocando fortes danos ao meio ambiente e causando muitos prejuízos para as populações ribeirinhas de cidades nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A contaminação química da água foi tão grande que as autoridades ambientais proibiram a captação das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento, deixando 600 mil pessoas sem água nas suas torneiras.  

Felizmente para cariocas e fluminenses da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, esse vazamento ocorreu a jusante (rio abaixo) da barragem da Usina Elevatória de Santa Cecília, responsável por desviar parte das águas do rio Paraíba do Sul na direção das usinas hidrelétricas e do rio Guandu. Agora, imaginem se o rio Pomba tivesse sua foz algumas dezenas de quilômetros a montante e se parte desses rejeitos tóxicos fossem bombeados na direção dos complexos hidrelétricos Estado do Rio de Janeiro?  

É claro que numa situação como essa, bastaria que se desligasse o bombeamento da usina elevatória por alguns dias, até que os rejeitos tóxicos fossem diluídos e as águas do rio voltassem a apresentar uma qualidade melhor. Além disso, a Represa do Funil, já no Estado do Rio de Janeiro, poderia manter as águas fluindo na direção do rio Guandu por um bom tempo.

Mas, e se fosse uma torrente de rejeitos de mineração como a que atingiu o rio Doce? Passados mais de cinco anos desde o fatídico rompimento da barragem de Fundão, as águas do rio ainda apresentam altos níveis de contaminantes. Como ficaria o abastecimento da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro numa situação como essa?  

Esse incidente não é um caso isolado – nos últimos 40 anos foram diversos acidentes com despejos de resíduos de mineração nas águas do rio Paraíba do Sul. Vejam alguns desses casos: 

– Um vazamento de rejeitos minerais na empresa Paraibuna de Metais lançou, em 1982, mais de 18 milhões de litros de água com lama contaminada com mercúrio e cádmio (metais pesados altamente tóxicos) nas águas do rio Paraibuna (esse rio fica em Minas Gerais), um dos principais afluentes do Paraíba do Sul. A mancha do vazamento se estendeu até o município de Campos, no Norte Fluminense, numa extensão de cerca de 300 quilômetros.

A captação de água para o abastecimento das cidades ao longo do rio Paraíba do Sul teve de ser suspensa por uma semana. A repercussão deste acidente foi tão grande que, mesmo após a liberação do uso da água pela CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, a população das cidades se mostrou receosa em consumir a água; 

– Em 2006, após o rompimento de uma barragem da mineradora Rio Pomba Cataguases no Município de Miraí, na região da Zona da Mata Mineira, houve o vazamento de 400 milhões de litros de rejeitos de bauxita, água e lama, no rio Muriaé, um afluente do rio Paraíba do Sul. A cidade de Laje de Muriaé foi obrigada a suspender preventivamente a captação de água do rio para o abastecimento da população; 

– Em 2007, o rompimento de uma barragem da mesma empresa despejou mais de 2 bilhões de litros de lama misturada com bauxita e sulfato de alumínio no Rio Muriaé. O acidente forçou a remoção de um terço dos moradores da cidade, além de comprometer o abastecimento de água nos municípios de Muriaé e Patrocínio do Muriaé, em Minas Gerais e em Laje de Muriaé e Itaperuna, no Estado do Rio de Janeiro. 

Estudos realizados em 2013 pelo INEA – Instituto Estadual do Ambiente, órgão do Governo fluminense, encontrou cerca de 300 barragens de rejeitos minerais inseridas dentro da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. A maior parte dessas barragens fica dentro do território de Minas Gerais. Foram identificados riscos de acidentes em 12 dessas barragens, onde estão armazenados cerca de 22 bilhões de litros de resíduos minerais.  

Além de barragens de rejeitos de mineração, existem inúmeras indústrias instaladas em todo o Vale do Paraíba que produzem montanhas de rejeitos e escórias de metais – destaque para a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda. Basta um descuido na fiscalização de uma barragem de rejeitos ou nos depósitos de uma indústria química, ou ainda uma temporada de chuvas mais forte, para iniciar uma grande tragédia ambiental.  

Só para lembrar – cerca de 80% da água consumida pela população da cidade do Rio de Janeiro e de grande parte das cidades da Baixada Fluminense vem da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Caso ocorra um “acidente” igual ao que se abateu com o rio Doce, em Minas Gerais, toda essa gente vai ficar de torneiras vazias, simplesmente por que não existe uma fonte alternativa de água. 

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