AS “CONTRIBUIÇÕES” FLUMINENSES PARA A DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO GUANDU, OU A CULPA NÃO É SÓ DO RIO PARAÍBA DO SUL

Distrito Areeiro de Serpédica-Itaguaí

Na postagem anterior, nós afirmamos que parte dos problemas ligados à má qualidade da água distribuída para uma parcela significativa da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro tem origem na poluição do rio Paraíba do Sul, manancial responsável por mais de 60% das águas transpostas para o rio Guandu. Lançamentos de grandes volumes de esgotos domésticos e industriais sem tratamento, destruição de matas ciliares e extração de areia, estão na origem desse problema. Entretanto, essa é apenas uma parte da tragédia ambiental. 

Dentro da sua própria bacia hidrográfica, o tratamento dispensado ao precioso líquido no rio Guandu não é dos melhores – esse rio, principal manancial de abastecimento do Estado, figura como o 15° rio mais poluído do país, fazendo companhia a verdadeiros ícones da degradação ambiental como os rios Tietê, Iguaçu, Ipojuca e das Velhas, entre outros, os ocupantes das primeiras posições dessa lamentável lista de corpos d’água poluídos. 

A transposição de águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul em direção da Bacia Hidrográfica do rio Guandu teve início em 1903, quando a concessionária dos serviços de geração e de distribuição de energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro, a Light and Power Company, iniciou a construção do Complexo de Lajes. Uma das primeiras intervenções hidráulicas desse complexo passou a desviar parte dos caudais do rio Piraí, um afluente do rio Paraíba do Sul, na direção da Reservatório de Lajes. Em intervenções posteriores, a Light construiu a Barragem de Santa Cecília no rio Paraíba do Sul, o que passou a permitir a transposição de cerca de metade dos caudais desse rio para reforçar a alimentação dos reservatórios de suas usinas hidrelétricas. 

Graças a todo um conjunto de obras para o aumento da disponibilidade de água nos sistemas geradores de energia elétrica da Light no Estado do Rio de Janeiro, a vazão na Bacia Hidrográfica do rio Guandu aumentou de históricos 25 m³ por segundo para até 160 m³ por segundo. Esse providencial “efeito colateral” da geração de energia elétrica literalmente salvou grande parte da população fluminense e carioca de séculos de carência de fontes de abastecimento de água, conforme apresentamos em postagens anteriores. 

Infelizmente, como é uma espécie de regra aqui no Brasil, essas “águas sagradas” não receberam o cuidado e a atenção merecido. O crescimento desordenado de cidades localizadas dentro da Bacia Hidrográfica do rio Guandu teve como consequência o aumento dos volumes de esgotos e de resíduos sólidos lançados nas águas. Resíduos de fertilizantes e de defensivos agrícolas usados em grandes quantidades em áreas agrícolas também passaram a ser carreados pelas chuvas em direção da calha dos rios formadores da bacia hidrográfica. 

A poluição de origem industrial também cresceu fortemente ao longo de todo o século XX, contribuindo fortemente para a degradação das águas de toda a Bacia hidrográfica do rio Guandu. Um verdadeiro ícone dessa poluição dentro do Estado do Rio de Janeiro é a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, localizada na cidade de Volta Redonda. Durante décadas, a CSN despejou, direta e indiretamente, centenas de toneladas de poluentes nas águas do rio Paraíba do Sul – grande parte desses poluentes acabavam sendo transferidos para a Bacia Hidrográfica do rio Guandu através dos sistemas de transposição de águas da Light

Um dos grandes focos de problemas ambientais no rio Guandu é o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, um dos maiores do Brasil e que está inserido dentro da bacia hidrográfica do manancial. Até a década de 1960, a economia dessa região tinha como base a agricultura, com destaque especial para a produção de laranjas. Com o crescimento das atividades de mineração, a agricultura foi perdendo relevância e a produção mineral passou a responder pela maior parte das receitas dos municípios da região. Esse crescimento descontrolado da mineração passou a criar uma série de problemas ambientais, sentidos especialmente nos recursos hídricos (vide foto). 

Seropédica e Itaguaí são dois municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distantes cerca de 60 km do centro da capital do Estado. Até 1995, eles formavam um único município – Itaguaí; o distrito de Seropédica foi então desmembrado, passando a constituir um município independente. Entre esses dois municípios encontramos o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, que ocupa uma área com aproximadamente 50 km², onde operam cerca de 100 empresas mineradoras, que fornecem quase 90% da areia e da brita usada pela construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.  

Além dos inúmeros problemas ambientais criados pelas cavas de extração de areia nas águas da Bacia Hidrográfica do rio Guandu, as atividades mineradoras também causam problemas no Aquífero Piranema. Esse aquífero ocupa uma área de aproximadamente 180 km² (algumas fontes chegam a falar de 500 km²) entre os municípios de Itaguaí, Queimados, Japeri e Seropédica. O Aquífero Piranema tem capacidade de fornecer até 1,6 m³ de água por segundo e tem como principal área de ocorrência o Distrito Areeiro. De acordo com estudos geológicos, o Aquífero Piranema é uma reserva estratégica de água e tem potencial para atender o abastecimento de água de toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro por um mês.   

As cavas de extração de areia ficam inundadas com as águas do Aquífero Piranema e assim ficam expostas ao contato com diversos poluentes, entre eles os combustíveis que vazam das bombas de sucção instaladas nas dragas e também pelos diversos rejeitos de mineração. Esses poluentes provocam uma deterioração na qualidade das águas, que são sentidas por moradores de diversos bairros vizinhos, que dependem exclusivamente da água retirada de poços para o abastecimento de suas casas.  

Para completar o quadro de falta de cuidado com os recursos hídricos regionais, foi construído um grande aterro sanitário no município de Seropédica, ocupando terrenos acima do Aquífero. O aterro recebeu a ingrata missão de substituir o famoso lixão do Jardim Gramacho, fechado em 2011. Atualmente, esse aterro sanitário recebe 10 milhões de toneladas diárias de resíduos sólidos gerados pelas cidades de Seropédica, Itaguaí e Rio de Janeiro. 

A somatória de tanta falta de cuidados com os recursos hídricos no Estado se reflete na péssima qualidade da água bruta que chega na ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu, localizada em Nova Iguaçu. Essa unidade produz até 43 mil m³ de água tratada por segundo e abastece cerca de 80% da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Dezenas de toneladas de produtos químicos precisam ser utilizados diariamente nos processos de tratamento da água captada no rio Guandu, que antes precisa passar por processos de gradeamento e pré-filtragem para a remoção de grandes quantidades de lixo flutuante, resíduos sólidos e muita areia. 

Com os dias de forte calor do verão e também com muita chuva, a qualidade das águas do rio Guandu pioram ainda mais e os sistemas de tratamento não conseguem deixar a água incolor e sem cheiro. É por isso que muitos moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro estão se queixando, e com razão, da péssima qualidade da água que chega nas suas torneiras. 

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