URUGUAI CRIA UM GRANDE PROGRAMA PARA O PLANTIO DE ÁRVORES

O Pampa, também chamado de Campos Sulinos, é o bioma brasileiro mais rico em biodiversidade de plantas – podem ser encontradas até 57 espécies diferentes a cada metro quadrado de terreno. O bioma ocorre em todo o Extremo Sul do Brasil e avança na direção da Argentina e do Uruguai. 

No Brasil, o Pampa ocupa o segundo lugar na lista de biomas mais devastados, só perdendo para a Mata Atlântica. As grandes ameaças são o intenso pastoreio de rebanhos animais e o avanço da agricultura, especialmente a soja e o arroz. Há várias décadas vem sendo observada a arenização de extensas áreas do bioma, especialmente na região Sudoeste do Rio Grande do Sul, próximo da fronteira com o Uruguai e a Argentina. 

Na Argentina, onde o bioma é conhecido como La Pampa e ocupa cerca de 25% do território do país, os problemas são muito parecidos e os processos de arenização (o termo desertificação não cabe aqui pois o nível de chuvas é bem alto) são preocupantes. Vamos falar hoje dos problemas na Pampa do Uruguai. 

No passado, o Uruguai fez parte do Vice Reino do Rio da Plata, ligado a coroa de Espanha, e depois, entre 1817 e 1828, foi incorporado ao Brasil com o nome de Província Cisplatina. Em 1828, com a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro, o Uruguai passou a ser um Estado independente. 

Fisicamente, o território uruguaio, que possui uma área total de pouco mais de 176 mil km² e tem uma população de 3,3 milhões de habitantes, é praticamente uma continuação da Pampa Sul-rio-grandense e, por extensão, apresenta praticamente os mesmos problemas ambientais. 

Segundo informações da Uruguai 21, agência de promoção de exportações e investimentos do país, as atividades agropecuárias ocupam cerca de 93% do território uruguaio. Na pauta de exportações destacam-se a carne bovina, representando 21% do volume total, celulose (19%), soja (17%), laticínios (8%) e arroz (6%). 

Esse uso intensivo dos solos, é claro, cobra o seu preço: de acordo com informações de pesquisadores da UNCCD – Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, na sigla em inglês, aproximadamente 30% do território do Uruguai apresenta algum tipo de degradação ambiental, onde se destaca a arenização de grandes trechos da Pampa

Em qualquer país do mundo, esse nível de degradação ambiental seria considerado crítico – no Uruguai, onde a produção dos setores agrícola e pecuário forma uma das principais bases da economia do país, trata-se de uma situação trágica. A agropecuária responde por cerca de 10% do PIB – Produto Interno Bruto, do Uruguai e emprega cerca de 12% da população do país (dados de 2010). 

Também existe um problema social importante – a grande maioria das propriedades rurais no Uruguai são pequenas e médias, com gestão familiar. A produção de carne e lã responde por mais de 65% da renda dessas famílias, seguida pela produção de vegetais, responsável por 12% da renda, e da produção leiteira, com participação de 11% na renda. São justamente essas famílias as que mais geram impactos ambientais e também as que mais sofrem com as suas consequências. 

Buscando reduzir o tamanho dos impactos ambientais da agropecuária em seu território, o Uruguai criou, em 2005, o SNAP – Sistema Nacional de Áreas Protegidas, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente local. São 16 áreas sob proteção ambiental, onde se incluem biomas terrestres e marinhos, totalizando cerca de 311 mil hectares. Apesar da iniciativa merecer todos os aplausos, essas áreas correspondem a menos de 2% do território do país

A mais recente iniciativa na área ambiental do Uruguai é chamada de Plantatón, cujo objetivo é a promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres, o combate à perda de biodiversidade e a degradação dos solos, além do combate à desertificação. A primeira ação dessa iniciativa ocorreu em março de 2019, quando 500 árvores nativas foram plantadas na localidade de Artigas, no Norte do país (vide foto). 

Essa iniciativa foi idealizada pela Rede Uruguaia de ONGs Ambientais, com apoio do Ministério da Habitação, Planejamento Territorial e Meio Ambiente, além do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O Plantatón replica experiências já consolidadas em El Salvador e na Colômbia. 

Em El Salvador, citando um exemplo, a iniciativa permitiu o plantio de mais de 17 milhões de árvores em áreas degradadas do país, ajudando na recuperação de solos e na prevenção de inundações. Conforme já tratamos em postagem anteriorEl Salvador é o país mais desmatado da América Central – conforme a fonte consultada, entre 80% e 94% da cobertura vegetal do país já foi devastada. Entre outros problemas, a população de 6 milhões de habitantes sofre cada vez mais com a escassez de água potável. 

As metas do Plantatón são ambiciosas e preveem a recuperação de um total de áreas florestais equivalentes a 5,2% da superfície total do Uruguai. Essa área corresponde a 8 mil km² ou cerca de cinco vezes a área total da cidade de São Paulo. Isso parece muito pouco para um país do tamanho do Brasil, mas para o pequeno Uruguai será uma enorme conquista. 

A iniciativa tem feito grandes esforços para promover uma grande articulação entre o Governo e a iniciativa privada incluindo estudantes, aposentados, militares, empresas públicas e privadas, entre outros. Os principais eixos da iniciativa são: regeneração natural de espaços degradados, plantio de árvores nativas em zonas prioritárias para a conservação e controle de espécies exóticas invasoras que competem e deslocam espécies autóctones. 

Com relação às espécies exóticas, é preciso fazer um destaque: de acordo com dados de 2012, as florestas comerciais de pinus e eucalipto já ocupavam um total de 950 mil hectares no Uruguai. Cerca de um terço dessas florestas comerciais estão sob controle de quatro grandes empresas multinacionais, que formam verdadeiros latifúndios e contam com um enorme poder econômico e político. 

Um dos maiores problemas dessa iniciativa é a altíssima concentração da população do Uruguai em áreas urbanas – 96,1% dos uruguaios vivem nas cidades. Somente na cidade de Montevidéu (ou Montevideo), a capital do país, vivem cerca de 1,3 milhão de pessoas, o que corresponde a um terço da população do Uruguai. Essa urbanização excessiva cria uma série de dificuldades logísticas para o plantio de árvores pelo interior do país. 

Ainda é muito cedo para avaliarmos os impactos ambientais da iniciativa, especialmente os positivos. Porém, já existem indícios animadores: o Uruguai foi o único país das Américas onde a área coberta por matas nativas aumentou nos últimos anos. Esse aumento em termos de área é bem pequeno, mas todos os países das três Américas vem apresentando números negativos ou crescimento zero. 

Isso é uma boa notícia e nos enche de esperança. 

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