O SOFRIDO E POUCO LEMBRADO RIO JEQUITINHONHA

Sempre que se ouve falar do Vale do Jequitinhonha, no Norte do Estado de Minas Gerais, a primeira lembrança que vem à mente das pessoas são as péssimas condições de vida e de pobreza de sua população. Apesar de estar inserido dentro da Região Sudeste, o Vale do Jequitinhonha tem características ambientais e sociais do Semiárido Nordestino. 

O coração do Vale é o rio Jequitinhonha, que tem suas nascentes em Serro, uma localidade na Serra do Espinhaço a cerca de 320 km de Belo Horizonte. A partir das encostas montanhosas, o rio segue por um curso de 1.090 km através do Norte de Minas Gerais e Sul da Bahia, até desaguar no Oceano Atlântico no município de Belmonte. 

A bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha ocupa uma área de mais de 70 mil km², se espraiando entre os biomas Mata Atlântica e Caatinga. Os primeiros habitantes do Vale do Jequitinhonha foram indígenas das tribos aranãs e tocoiós, entre outros grupos do Tronco Macro-jê. O baixo curso do rio no Sul da Bahia fazia parte do território dos temíveis índios Botocudos

A primeira expedição a penetrar no Vale do então chamado rio das Almas foi comandada por Francisco Bruza Espinosa em 1553, e chegou até aos sopés da Serra do Espinhaço. Uma segunda expedição em 1573, sob o comando de Sebastião Fernandes Tourinho, fez várias prospecções nos rios da região em busca de metais e pedras preciosas.

Em 1729 foram descobertos diamantes em Diamantina e, logo depois, em Grão Mogol. Há mesma época foram feitas descobertas de ouro em Minas Novas. Assim como já havia acontecido na lendária Serra do Sabarabuçu, multidões de aventureiros foram atraídos para a região em busca do sonho da riqueza fácil do garimpo. 

Felizmente, entre essas levas de “caçadores de fortuna fácil” chegaram também alguns artistas, estudiosos e naturalistas, que deixaram registros preciosos do ambiente natural original do Vale do Jequitinhonha. Um importante testemunho foi o deixado por José Joaquim da Rocha, um famoso pintor, dourador e restaurador especializado em arte sacra há época. No seu livro Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais, escrito entre 1780 e 1781, registrou: 

“O Rio Jequitinhonha, que tem o seu nascimento ao norte das serras de Santo Antônio e Itambé da Vila do Príncipe, é o tesouro mais precioso destas Minas; não só o Jequitinhonha, mas todos os mais rios e ribeiros que nele se metem, desde o seu nascimento” 

Outra figura ilustre que fez registros importantes das paisagens da região foi Johann Baptist Emanuel Pohl, integrante da Missão austríaca ao Brasil entre 1817 e 1822. Especialista em mineralogia e botânica, o austríaco Pohl acabou se desligando da Missão e empreendeu uma expedição por conta própria ao longo de quatro anos pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. As impressões e descobertas dessa expedição foram publicadas no livro Viagem ao Interior do Brasil Empreendida nos Anos de 1817 a 1821

As descrições do Vale do Jequitinhonha deixadas por Pohl falam das extensas chapadas que dominavam o cenário da região e também das inúmeras grotas de onde brotavam pequenos cursos d’água e se formavam pequenos vales. “Nas suas margens, matas úmidas e fechadas, chamadas capões, com árvores altas, produziam sombras e temperaturas amenas.” 

Já as regiões dos morros e das chapadas eram cobertas por uma floresta de árvores anãs conhecidas como carrasqueiros, e também por vegetação arbustiva e por capinzais. No período da seca, os solos ficavam esturricados e as folhas da vegetação caíam quase que completamente. O botânico francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire, que participou de expedições científicas no Brasil Colônia entre os anos de 1816 e 1822, atravessou o Vale do Jequitinhonha durante o período da seca em 1817 e deixou relatos semelhantes. Saint-Hilarie ressaltou que “viu poucas flores, aves e mesmo insetos, em razão da seca”. 

Os relatos desses dois cientistas também nos legaram muitas informações sobre a fauna local. Nas florestas de matas virgens perambulavam grandes manadas de veados, além de bandos de macacos, antas, capivaras, porcos-do-mato, tartarugas, lontras e aves como araras, tucanos, papagaios e mutuns. As narrativas dão destaques para as perigosas onças, pretas e pardas, e também para as serpentes como a sucuri, surucucu e cascavel. Pohl ficou impressionado com a jaritacaca, um pequeno mamífero que disparava um odor fétido ao ser atacado por algum homem ou animal. 

As paisagens bucólicas descritas por Pohl e Saint-Hilaire começaram a desaparecer já nas últimas décadas do século XIX devido ao aumento da criação de gado nessa região. Esse surto é chamado por muitos de “colonização baiana” e foi muito forte entre 1890 e 1930. A exemplo do que aconteceu na região do Semiárido Nordestino, onde grandes extensões da caatinga eram queimadas para a formação de campos para a criação do gado, matas das planícies do Vale do Jequitinhonha também passaram a ser derrubadas e queimadas para a abertura de fazendas e de pequenos sítios de produção de culturas subsistência. 

Em um relato de 1905, Leopoldo Pereira, um ex-agente executivo do município de Araçuaí, já alertava para o grande avanço do gado na região. Segundo ele, “os rebanhos bovinos então passaram a usar crescentemente os regatos para dessedentação e substituíram os porcos nos alagadiços da caatinga, bem como nas pequenas lagoas formadas a pouca distância das margens do Jequitinhonha durante as chuvas”. Num trecho mais a frente, Leopoldo Pereira faz um relato dramático da situação dos rios: 

“…que de 40 anos, e mais acentuadamente, de 20 anos a esta parte [1905], as águas do Norte de Minas têm diminuído de mais da metade. É convicção dos velhos residentes neste município que os próprios rios grandes e navegáveis, Jequitinhonha e Araçuaí, já não são volumosos como antigamente. 

…o machado do lavrador e o fogo das queimadas estão esterilizando o Norte de Minas 

As águas do rio Jequitinhonha formavam até então um importante eixo de comunicações e transportes entre o Norte de Minas Gerais e o Sul da Bahia. As populações do Vale em Minas Gerais transportavam sua produção de carne-seca e algodão na direção do litoral baiano, e de lá traziam artigos europeus e sal a preços bem melhores do que os encontrados em grandes cidades mineiras. 

Esse transporte era feito em canoas grandes, com 5 metros de comprimento, 1 metro de largura e 0,7 metro de profundidade. As melhores eram feitas com madeira de ipê, que “duravam muitos anos”. Também se utilizava a madeira da sapucaia, “que se prestavam apenas três ou quatro anos”. Essas canoas contavam com uma tripulação de três pessoas – um piloto e dois proeiros, que faziam o trabalho de remar.

Existem relatos de canoas que eram usadas exclusivamente para o transporte de passageiros. Como parete do serviço, esses passageiros tinham direito a duas refeições ao longo do dia – feijoada tradicional, arroz e peixe pescado à noite. As canoas faziam paradas nas margens para o pernoite nas praias de areia. 

Com o crescimento cada vez maior dos desmatamentos em todo o Vale do Jequitinhonha, os caudais do rio foram ficando cada vez menores, o que passou a inviabilizar a navegação em muitos trechos. E o antigo Vale, rico em biodiversidade, acabou sendo transformado em uma das regiões mais pobres do Brasil. 

Continuamos na próxima postagem. 

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