FORTES CHUVAS CAUSAM MORTES E MUITA DESTRUIÇÃO NA BAIXADA SANTISTA, LITORAL DE SÃO PAULO

Chuvas na Baixada Santista

Entre o início da noite dessa segunda-feira, dia 02 de março, até o início da tarde de hoje, a região da Baixada Santista, no litoral do estado de São Paulo, foi castigada com fortíssimas chuvas. 

O volume de chuvas acumulado em um período de 12 horas foi de 282 mm no Guarujá, 218 mm em Santos, 170 mm em Praia Grande, 169 mm na Praia Grande, 160 mm em Mongaguá, 132 mm em Cubatão e de 110 mm em Itanhaém e Bertioga. Esses volumes de chuvas correspondem, em alguns casos, a todo o volume esperado para todo o mês de março. 

As cidades que mais sofreram com as chuvas foram Santos, Guarujá e São Vicente – desmoronamentos de encostas nessas cidades já deixaram 13 pessoas mortas e 45 seguem desaparecidas. Equipes do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo estão realizando buscas em oito locais diferentes, sendo quatro em Santos, dois no Guarujá e dois em São Vicente. 

Entre as vítimas já confirmadas estão dois bombeiros que trabalhavam no Morro do Macaco, no Guarujá, que foram soterrados enquanto trabalhavam nas buscas. Os bombeiros tentavam resgatar uma criança e a mãe atingidos por um deslizamento, que também morreram quando uma parte da encosta desmoronou. 

Além dos estragos nas áreas urbanas, as fortes chuvas também causaram a queda de barreiras na Via Anchieta, uma das rodovias que faz a ligação entre a Baixada Santista e o Planalto de Piratininga. Dois trechos da rodovia estão bloqueados em Cubatão. 

MADAGASCAR E SEUS INÚMEROS PROBLEMAS AMBIENTAIS

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Algumas semanas atrás, nós publicamos uma postagem falando sobre os graves problemas ambientais da Austrália, que naquele momento ainda sofria com grandes incêndios florestais. Ao contrário do papel de “vítima” dos incêndios, posição que foi amplamente divulgada e defendida nos meios de comunicação de todo o mundo, nós afirmamos que a Austrália é sim uma das principais responsáveis pelos incêndios descontrolados que atingiram áreas com remanescentes florestais do país.  

A mineração, a agricultura e a pecuária no país têm avançado ferozmente contra o que restou das antigas florestas nativas, que sofrem com grandes desmatamentos. Essa intensa supressão vegetal tem criado inúmeros fragmentos florestais mais secos e, portanto, mais susceptíveis aos incêndios naturais, que nesse ano foram turbinados pelas mudanças climáticas globais. 

A Austrália, infelizmente, faz parte de um grande grupo de países com uma péssima postura no respeito ao meio ambiente e onde a destruição da natureza parece estar completamente fora de controle. Vamos começar falando da gravíssima situação da Ilha de Madagascar. 

A Ilha de Madagascar fica no Oceano Índico, na costa Sudeste da África, ao largo de Moçambique. É considerada a quarta maior ilha do mundo e surgiu em consequência da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana. Até cerca de 165 milhões de anos atrás, a América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso subcontinente indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas, formavam um único bloco contínuo de terras. Com o início da movimentação das placas tectônicas e de um forte ciclo de erupções vulcânicas, esse grande bloco continental se fragmentou e as “peças” começaram a se movimentar sobre o globo terrestre, formando assim a atual configuração continental do planeta. 

Durante um longo período geológico, a Ilha de Madagascar se manteve ligada com o bloco que viria a formar o subcontinente indiano. Cerca de 88 milhões de anos atrás, Madagascar e a Índia se separaram – Madagascar se manteve como uma grande ilha isolada e o bloco que formaria o subcontinente indiano continuou sua viagem de milhões de anos até se chocar com o Sul da Ásia. 

Assim como aconteceu com outros grandes blocos de terra que se mantiveram isolados de outros continentes como a Austrália e a Nova Zelândia, a Ilha de Madagascar também acabou desenvolvendo uma fauna única, diferente de qualquer outra parte do mundo. Cerca de 90% das espécies da ilha são endêmicas. Dois exemplos das formas animais únicas de Madagascar são os lêmures, uma classe de primatas autóctone da Ilha, e as fossas, um mamífero carnívoro que se assemelha fisicamente aos grandes felinos, mas que, na realidade, é aparentado com as fuinhas europeias

Originalmente, 90% do território malgaxe era coberto por florestas tropicais – atualmente, restam entre 10 e 15% das florestas. Segundo estimativas de Alexandre Georget, Ministro do Meio Ambiente do país, “caso a destruição continue nesse ritmo, daqui a 40 anos Madagascar terá o seu território completamente desmatado“. 

Com uma população na casa dos 24 milhões de habitantes, Madagascar é um dos países mais pobres do mundo e, não por acaso, é uma das ex-colônias da França na África. A pressão econômica da população contra as florestas está na raiz da devastação ambiental da Ilha. As queimadas para a abertura de campos para agricultura de subsistência, a extração de madeiras para exportação e a produção de carvão vegetal são as atividades que lideram os desmatamentos. 

Um dos principais produtos agrícolas de Madagascar é o arroz, que é plantado em pequenos lotes com menos de 2 hectares. Esses lotes têm sua cobertura vegetal derrubada e queimada, numa prática conhecida pelos malgaxes como “tavy”, muito parecida com a nossa coivara. Esses lotes produzem no máximo por um período de 2 anos, quando então são abandonados para um período de “descanso” entre 4 e 6 anos. Passado esse período, o lote volta a ser plantado. Esse ciclo de uso da terra dos lotes pode ser repetido de 2 a 3 vezes, quando então a terra é abandonada por absoluta falta de fertilidade e novos trechos de matas nativas serão transformados em lotes agrícolas. 

Além do arroz, o país tem uma importante produção de café, item que responde pela maior fatia das exportações da Ilha. Também são destaques a produção de cana-de-açúcar, mandioca e de frutas como bananas, laranjas, maçãs e abacaxis. Também são comuns as criações de ovelhas, cabras, galinhas e porcos. No campo da mineração, uma atividade que costuma ser devastadora para o meio ambiente, Madagascar só dispõe de algumas reservas de tungstênio. 

Outra fonte importante de desmatamentos em Madagascar é a exploração madeireira, que muitas vezes é feita dentro das poucas áreas de florestas protegidas. Algumas das madeiras nativas de Madagascar como o ébano e o rosewood possuem um altíssimo valor no mercado internacional, com preços chegando à casa do US$ 2 mil por tonelada. Contando com uma legislação ambiental fraca e com uma rede de autoridades facilmente corrompíveis, o contrabando de madeiras “corre solto” na Ilha. 

Por fim, e não menos devastadora, a produção de carvão vegetal e lenha avança sobre as árvores que não têm um grande valor comercial, especialmente as árvores das chamadas “florestas espinhentas” formadas por árvores da espécie Allauadia. A lenha e o carvão são vendidos livremente na beira das estradas e são usados como fonte de energia para se cozinhar pelas famílias das vilas e aldeias do país. 

Madagascar é cortada pelo Trópico de Capricórnio e possui um clima predominantemente tropical, caracterizado por uma forte temporada de chuvas nos meses do verão. Como a maior parte da Ilha foi desflorestada, os processos erosivos arrastam, todos os anos, milhões de toneladas do que restou dos solos férteis da ilha, comprometendo cada vez mais a produção agrícola de subsistência das famílias malgaxes. Esses processos também resultam no assoreamento de rios e riachos por toda a Ilha, resultando em enchentes generalizadas em algumas regiões. 

A situação da Ilha de Madagascar pode ser definida como autofágica, palavra de origem grega que significa “comer a si próprio”. A pobreza de muitos e a esperteza de uns poucos está levando toda a Ilha a um ponto de destruição sem volta – dentro de poucos anos não haverá mais solos férteis para a agricultura e criação de animais, além de não existirem mais árvores para exploração madeireira e produção de carvão e de lenha. 

Para finalizar, deixo uma pergunta: quando foi a última vez que você ouviu a ativista teen Greta Thunberg ou o Presidente da França, Emannuel Macron, falando da trágica situação da floresta tropical de Madagascar? 

O ENCALHE DO NAVIO CARGUEIRO STELLAR BANNER NO LITORAL DO MARANHÃO, OU OS PERIGO DA NAVEGAÇÃO NA AMAZÔNIA

Stellar Banner

Na noite da última segunda-feira, dia 24 de fevereiro, o navio cargueiro Stellar Banner, de bandeira sul coreana, encalhou a 100 km da costa do Maranhão. O navio havia acabado de deixar o Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, em São Luís, carregado com 280 mil toneladas de minério de ferro que seriam transportadas para a China. 

De acordo com informações preliminares divulgadas pelo comandante da Capitania dos Portos no Maranhão, Alekson Porto, o navio colidiu com algo não identificado, o que causou fissuras no casco da embarcação. Para evitar o naufrágio, o comandante do navio realizou um movimento de varação, que nada mais é do que encalhar o navio em um banco de areia. A Marinha abriu um inquérito para investigar as causas do acidente. No momento, a maior preocupação das autoridades é evitar o desastre ambiental que poderá ocorrer na região caso haja vazamento da carga de minério de ferro ou dos tanques de combustível da embarcação. 

A presença de bancos de areia a mais de 100 km da costa do Maranhão, apesar de surpreendente, não é novidade nessa região que se encontra dentro do raio de influência da foz da Bacia Amazônica. O tráfego de navios cargueiros cada vez maiores e com cargas cada vez mais pesadas nessa região é muito preocupante. O risco de acidentes como o que ocorreu com o Stellar Banner tende a ser cada vez mais frequente. 

A Bacia Amazônica possui a maior rede hidrográfica do mundo – há época das chuvas, o famoso inverno amazônico, perto de um quarto de toda a água doce do planeta circula nos rios dessa região. Ocupando aproximadamente 7 milhões de km², a Bacia Amazônica possui mais de 1.000 rios tributários – alguns destes rios, como o Negro e o Madeira, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo.  

A cada segundo, a foz do rio Amazonas despeja até 180 mil metros cúbicos de água no Oceano Atlântico. Esse imenso volume forma uma pluma de água doce com uma espessura com até 25 metros e que se estende num raio de 400 km. Esse imenso volume de águas carreia cerca de 31 toneladas de sedimentos a cada segundo, formando ilhas, como aconteceu com o Arquipélago de Marajó no passado, e inúmeros bancos de areia, como aquele que pode ter sido o responsável pelo acidente com o Stellar Banner

A navegação fluvial é o principal meio de transporte de pessoas e de cargas na Bacia Amazônica. De acordo com informações da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAOC), região que abrange os Estados do Amazonas, Roraima, Acre e Rondônia, mais de 33 mil embarcações estavam cadastradas e em circulação pelos rios da região em 2017. As autoridades não têm ideia da quantidade de embarcações clandestinas que navegam pelos rios da região. A cada ano, cerca de 1.800 novas embarcações são cadastradas apenas no Estado do Amazonas.  

Essa imensa “frota fluvial” é responsável pelo transporte de centenas de milhares de pessoas todos os dias; pelo abastecimento das pequenas cidades ribeirinhas com alimentos, produtos de consumo e combustíveis; transporte de estudantes e de doentes, entre outros. Sem existir estradas de rodagem na maior parte da região Amazônica, embarcações de todos os tipos são utilizadas em substituição ao uso de carros, ônibus e caminhões, veículos usados para o transporte em outras regiões do país.  

Esse uso intenso de embarcações, muitas das quais em péssimas condições de conservação, sem cadastro nos órgãos oficias e conduzidas por pessoal não habilitado, tem seu preço: 60% das mortes com acidentes em embarcações ocorrem na região Norte do Brasil. Somente nos quatro primeiros meses de 2018, o 9° Distrito Naval da Marinha em Manaus registrou 30 acidentes com embarcações, onde 12 pessoas morreram. Esses números, muito provavelmente, são bem maiores: muitas ocorrências, especialmente nos casos das embarcações clandestinas, não são notificadas. Colisões entre embarcações, choques com troncos de árvores flutuando nas águas, naufrágio devido aos excessos de carga e má conservação das embarcações, incêndios e panes em motores, e, principalmente, em encalhes em bancos de areia, estão entre os acidentes mais comuns. 

Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, o clima da Amazônia possui apenas duas estações – o verão, que é quente e seco, e o inverno, que é quente e chuvoso. O nível dos rios de toda a região varia muito ao longo do ano. Cito como exemplo o rio Madeira, que tem variações de nível de até 20 metros entre a época das cheias e a vazante. Conforme os rios vão perdendo água durante a época da vazante, bancos de areia e afloramentos rochosos começam a aparecer ao longo de suas calhas, aumentando muito os riscos de acidentes com embarcações. 

Diferente dos grandes cargueiros oceânicos, que são dotados da mais moderna tecnologia de navegação, sistemas de radar e de GPS (e ainda assim se envolvem em acidentes), a navegação pelos rios da Bacia Amazônica é feita, basicamente, através dos olhos e ouvidos dos capitães nativos da região. Certa vez eu ouvi o capitão de uma embarcação que fazia o trajeto Porto Velho-Manaus falando de sua técnica para a navegação noturna – ele se guiava pela diferença entre o brilho da água e o escuro da mata nas margens em suas viagens. Para os troncos flutuantes e bancos de areia, se dependia puramente da sorte durante as noites – mesmo durante a luz do dia, nem sempre se consegue enxergar esses obstáculos submersos nas águas. 

Incêndios em embarcações também são assustadoramente frequentes nos rios da Amazônia. Embarcações construídas predominantemente com madeira, dotadas de cozinha e transportando, entre outras, cargas infláveis como gás engarrafado e combustíveis, podem se transformar em um braseiro flutuante em poucos minutos. Outra causa importante de incêndios nas embarcações são as operações de abastecimento. É comum a venda clandestina de gasolina e óleo diesel por embarcações, que funcionam como uma espécie de “postos de gasolina flutuantes”.  

Essas transferências de combustíveis de uma embarcação para outra são feitas sem a observância dos requisitos mínimos de segurança, muitas vezes com pessoas fumando, e sem a presença de equipamentos de segurança como extintores de incêndio. Basta um leve descuido para as embarcações arderem em chamas e fazerem inúmeras vítimas. 

Na última sexta-feira, dia 29 de fevereiro, um barco com cerca de 60 passageiros naufragou no rio Jari no Amapá. De acordo com as últimas informações, a tragédia deixou pelo menos dois mortos. Segundo o relato preliminar do comandante da embarcação, a causa do naufrágio foi um forte vendaval que adernou o barco. Talvez pelo impacto com o acidente com o navio cargueiro Stellar Banner no Maranhão, essa notícia acabou sendo veiculada em rede nacional. Em condições “normais”, só a população do Amapá seria informada dessa tragédia.

Todas as preocupações com os riscos ambientais que podem ser provocados pelo encalhe do Stellar Banner são bem-vindas, mas é preciso prestar mais atenção aos outros milhares de acidentes com embarcações que ocorrem na Região Amazônica e que não são divulgados.

PS: Na segunda-feira, dia 2 de arço, o número de mortos no naufrágio do Amapá foi atualizado para 13 vítimas.