A ÁGUA NOSSA DE CADA DIA, OU AINDA FALANDO DO RIO GUANDU

Fontes de água

Quem está acompanhando as últimas postagens aqui do blog já percebeu as dificuldades e os problemas para o abastecimento de água das populações da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Assim como acontece em outras grandes regiões metropolitanas como São Paulo, Nova York e Los Angeles, os mananciais de água ficam a centenas de quilômetros de distância e são necessárias grandes obras de engenharia para transportar essa água até os consumidores finais. 

No caso do Rio de Janeiro, a principal fonte de água é o sofrido rio Guandu, um manancial com nascentes na Região Serrana do Estado, que por sua vez recebe grandes volumes de água transpostos da Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Conforme apresentamos em postagens anteriores, esses sistemas de transposição de águas entre as bacias hidrográficas foram construídos ao longo de grande parte do século XX com o objetivo de reforçar a geração de energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro – a água que “sobra” nesses processos é lançada na direção do rio Guandu e usada para o abastecimento de aproximadamente 9 milhões de pessoas

Falamos muito também dos problemas de poluição das águas que já começam ao longo da calha do rio Paraíba do Sul e depois se acentuam na bacia hidrográfica do rio Guandu. Para conseguir tratar e potabilizar essas águas poluídas, a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro, precisa fazer uma verdadeira “alquimia”. Prestem atenção nesta lista de produtos químicos: 

140 toneladas de sulfato de alumínio, 20 toneladas de cloreto férrico, 25 toneladas de cal virgem, 15 toneladas de cloro, 10 toneladas de ácido fluo silícico (o famoso flúor), entre outros produtos.” 

Em muitas pequenas e média cidades brasileiras, essa é a compra de insumos para vários meses de operação de suas ETAs – Estações de Tratamento de Água. No caso da ETA do Guandu, esse é o consumo diário da unidade para conseguir tratar todo o volume de água potável ali produzido. 

Considerada a maior estação de tratamento de água em produção contínua do mundo pelo Guinness Book, o livro dos recordes, em 2007, a ETA do Guandu produz uma média de 43 mil litros de água potável a cada segundo. Com essa produção toda, já seria de se esperar um grande consumo de produtos químicos nas suas operações. A intensa poluição das águas do rio Guandu, entretanto, é quem ajuda a turbinar esses números. 

Entre o final de maio e o início de junho de 2018, acho que muitos de você devem se lembrar, os caminhoneiros realizaram uma grande greve em todo o Brasil em protesto contra o aumento do preço do óleo diesel. Esse movimento prejudicou fortemente a economia do país e muitos produtos começaram a faltar no mercado, inclusive os produtos químicos consumidos pela ETA do Guandu. Se essa greve tivesse se estendido por um tempo maior, a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro teria ficado com as torneiras secas, o que só demonstra como o tratamento e a importância dessas unidades são críticas para a nossa sociedade. 

Além do uso intensivo de produtos químicos, bombear essa quantidade tamanha de água requer o uso de muita energia elétrica – são dezenas de grupos de motobombas elétricas, onde são consumidos cerca de 45 mil MWh. Para que vocês tenham ideia do que é isso, tal quantidade de energia elétrica é suficiente para abastecer uma cidade com perto de 500 mil habitantes. 

Os processos de tratamento da água bruta, nome que se dá a água retirada dos mananciais, começam com processos mecânicos, onde o objetivo é a retirada de lixo flutuante, resíduos sólidos e sedimentos como a areia.  No caso de águas poluídas como as do rio Guandu, esses processos são bem intensos. Vejam: 

Peneiramento/Gradeamento: Elimina as sujeiras maiores (folhas, galhos e lixo) através da filtragem por grades e telas; 

Sedimentação ou Decantação: A água bruta é armazenada em tanques, onde pedaços de impurezas que não foram retirados com o peneiramento são depositados no fundo dos tanques pela ação da gravidade; 

Aeração: Ar comprimido é injetado nos tanques com o intuito de retirar substâncias responsáveis pelo mau cheiro da água como o ácido sulfídrico (substância liberada pela decomposição de esgotos) e substâncias voláteis. 

Concluído essa fase de tratamento inicial, a água precisa passar por uma série de processos químicos para a remoção das impurezas e destruição de bactérias e outros microrganismos nocivos à saúde humana. É aqui onde todo o volume de produtos químicos relacionados começam a ser utilizados: 

Oxidação: O primeiro passo é oxidar os metais presentes na água, principalmente o ferro e o manganês, que normalmente se apresentam dissolvidos na água bruta. Para isso, injeta-se cloro ou produto similar, pois tornam os metais insolúveis na água, permitindo, assim, a sua remoção nas outras etapas de tratamento; 

Coagulação: A remoção das partículas de sujeira se inicia no tanque de mistura rápida com a dosagem de sulfato de alumínio ou cloreto férrico. Estes coagulantes têm o poder de aglomerar a sujeira, formando flocos. Para potencializar o processo adiciona-se cal virgem; 

Floculação: Na floculação, a água já coagulada movimenta-se de tal forma dentro dos tanques que os flocos se misturam, ganhando peso, volume e consistência; 

Decantação: Na decantação, os flocos formados anteriormente separam-se da água, sedimentando-se, no fundo dos tanques; 

Filtragem: A água ainda contém impurezas que não foram sedimentadas no processo de decantação. Por isso, ela precisa passar por filtros constituídos por camadas de areia ou areia e antracito (variedade de carvão mineral compacto e duro) suportadas por cascalho de diversos tamanhos que retêm a sujeira ainda restante; 

Desinfecção: A água já está limpa quando chega a esta etapa. Mas ela recebe ainda mais uma substância: o cloro. Este produto é um poderoso bactericida que elimina os microrganismos nocivos à saúde ainda presentes na água, garantindo também a sua qualidade nas redes de distribuição e nas caixas de água dos consumidores. 

Fluoretação: Finalizando o tratamento, a água recebe uma dosagem de composto de flúor (ácido fluo silícico), em atendimento a portaria do Ministério da Saúde. O flúor reduz a incidência de cáries nos dentes, especialmente no período da sua formação, que vai da gestação até a idade de 15 anos. 

Quando os níveis de poluição de um manancial ultrapassam o que podemos chamar de “níveis máximos da escala”, como vem acontecendo no rio Guandu nesse verão, esses processos de tratamento convencionais não conseguem deixar a água cristalina e sem cheiro – são necessários alguns processos de tratamento extras. Os esgotos domésticos presentes na água são ricos em matéria orgânica, que dissolvida na água provoca a eutrofização, o fenômeno do crescimento excessivo de plantas aquáticas através de uma super fertilização. Quando há um excesso de micro algas na água, os processos de tratamento não conseguem ser 100% eficientes e resíduos dessas plantas aquáticas aparecem na água distribuída para a população, alterando a cor e o cheiro do líquido. 

É aqui que chegamos a um ponto fundamental da discussão: ou se aumentam e se melhoram os processos de tratamento da água nas ETAs, o que vai garantir uma purificação adequada da água, ou se faz o que já deveria estar sendo feito há muito tempo – passar a cuidar com muita atenção e carinho das fontes de água, evitando o lançamento de esgotos e lixo nos rios, lagos e represas. 

Na minha modesta opinião, essa última alternativa é a melhor, mais barata e, sem qualquer dúvida, a mais saudável para todos. Salvem o rio Guandu! 

 

PS: A CEDAE exonerou o chefe da ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu, Júlio César Antunes, na noite da terça-feira, dia 14, em função dos muitos problemas que a unidade vem apresentando há mais de 10 dias

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