RECICLANDO AS LATAS, OU FALANDO DE ICEBERGS E TRANSATLÂNTICOS

siderurgia

Problemas ambientais são muito parecidos com icebergs, aquelas gigantescas montanhas de gelo flutuante que representam um enorme risco para os navios (o Titanic que o diga): normalmente se consegue ver apenas a ponta do iceberg acima da superfície da água, mas o verdadeiro risco está submerso: 80% da massa de gelo fica abaixo da superfície do mar; se você assistiu ao filme que conta a história deste famoso transatlântico que afundou em 1912, vai lembrar que foi o impacto contra o gelo submerso que rasgou a estrutura de aço da embarcação, resultando no naufrágio do navio e na morte de 1.514 pessoas (número oficial). A moral da história no nosso contexto é: problemas ambientais, assim como icebergs, não podem ser subestimados.

Quem leu os meus últimos posts falando sobre alguns dos problemas associados à indústria das embalagens de aço, conhecidas popularmente como latas (mineração, derrubada de matas nativas para a produção do carvão vegetal inclusive com uso de mão de obra infantil e a recuperação das áreas devastadas por atividades mineradoras) vai achar o texto de hoje extremamente “light”, pois estaremos falando do final da cadeia produtiva do aço.

Vamos aos números: considerando dados disponíveis do ano de 2012, a produção total de aço no Brasil corresponde a aproximadamente 3,5 milhões de toneladas/ano, sendo que aproximadamente 600 mil toneladas  foram destinadas à produção de embalagens de aço, o que corresponde a um quarto do consumo total. Aproximadamente 47% das embalagens de aço produzidas no Brasil são recicladas, incluindo-se neste universo as populares latas de alimentos como carnes, peixes, vegetais, doces, molhos, bebidas, tintas e massa corrida e os mais diferentes tipos de produtos químicos; inclui-se neste montante as tampas de aço destas embalagens.

Esses números são ao mesmo tempo animadores, pois indicam que quase metade das embalagens de aço são recicladas, e preocupantes pois mais da metade destas embalagens são descartadas ou diretamente no meio ambiente ou enviadas para os aterros sanitários e lixões. O aço é o material mais reciclado do mundo, com um volume anual de 385 milhões de toneladas. Aproximadamente um quarto do aço novo produzido é originário das sucatas recuperadas.

A coleta seletiva de materiais feita pelos próprios consumidores é o melhor caminho para aumentar o percentual da reciclagem – o valor de mercado pago aos coletores/recicladores de materiais pelo quilograma de sucatas em geral (onde se incluem as embalagens de aço) é de apenas R$ 0,20; uso os valores pagos pelas empresas de reciclagem próximas da minha casa – esses valores variam muito de uma região para outra. Como citei em post anterior quando comparei as diferenças de volumes na reciclagem das latinhas de alumínio em relação às garrafas plásticas PET, o baixo valor pago pelas sucatas ferrosas não estimula a sua coleta. Numa certa ocasião eu dispunha de mais de 100 kg de restos de tubos de aço carbono para descarte, que foram oferecidos para um catador de recicláveis que apareceu na empresa: o homem simplesmente afirmou que “não iria se matar carregando todo aquele peso na sua carrocinha para ganhar uma miséria”; por falta de melhor opção na época, a sucata acabou descartada no lixo comum.

Diferente dos materiais plásticos que precisam passar por um processo prévio de seleção (lembrando que cada um dos tipos de resíduos plásticos serve para reutilização em diferentes tipos de produtos), as sucatas de materiais ferrosos (eletroímãs são usados para separar os metais ferrosos dos não ferrosos) não apresentam qualquer tipo de discriminação – todo o material recuperado e entregue nas usinas de fundição segue diretamente para fornos com temperatura média de 1.550° C. Quando atingido o ponto de fusão, o metal liquefeito pode ser laminado em chapas ou moldado em peças para uso nos mais diferentes setores industriais; as sucatas também podem ser misturadas ao aço novo produzido pelas usinas siderúrgicas.

As características físicas do aço reciclado são idênticas às do aço novo, o que possibilita a reciclagem infinita dos materiais metálicos, sem implicar em qualquer prejuízo na qualidade dos produtos que serão fabricados com esta matéria prima. O descarte inadequado das embalagens de aço (e do aço em geral) não trará grandes impactos ambientais devido à deterioração, mais rápida ou mais lenta, dos metais ferrosos na natureza – latas comuns se deterioram em 5 anos e o outrora poderoso Titanic jaz em lenta decadência no fundo do mar. A reutilização de toda a sucata de aço é muito mais racional a fim de se evitar a necessidade de novas retiradas de minérios do solo, o que sempre causa danos irreparáveis ao meio ambiente.

Portanto, fique de olho na destinação das suas latas – a natureza sempre agradece!

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