AS MISTERIOSAS MANCHAS DE ÓLEO NAS PRAIAS DO NORDESTE BRASILEIRO

Equipes reconhendo óleo no Nordeste

A Praia de Tambaba, situada no Município de Conde, é considerada uma das praias mais bonitas do Estado da Paraíba. Localizada a cerca de 30 km de João Pessoa no município de Conde, Tambaba tem um visual paradisíaco, sendo cercada por falésias coloridas, formações vulcânicas, piscinas naturais e muitos corais. Mas a praia se destacava até poucas semanas atrás por uma particularidade – Tambaba foi a primeira praia brasileira a permitir o naturismo ou nudismo através de uma lei municipal. 

A rotina muito particular de Tambaba e de duas outras praias próximas, a de Jacumã e a de Gramame, mudou radicalmente no último dia 30 de agosto, quando grandes manchas de óleo foram encontradas nas areias e pedras das praias. Acostumados ao convívio com um dos trechos mais bem preservados do litoral brasileiro, os paraibanos se assustaram com essa ocorrência, que a princípio parecia ser apenas um problema isolado. 

Ao longo da primeira semana de setembro, as mesmas manchas de óleo passaram a ser encontradas em seis Estados nordestinos, com uma concentração maior nas praias do Rio Grande do Norte. Não tardou muito para que as manchas de óleo se espalhassem por uma extensão com cerca de 2 mil km, atingindo praias nos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe

Nos últimos dias, pequenas manchas de óleo passaram a ser encontradas no Arquipélago de Abrolhos, localizado ao largo da costa Sul da Bahia e considerado o maior santuário de vida marinha do Oceano Atlântico Sul. De acordo com as projeções de especialistas, há sérios riscos de praias do Espírito Santo e do Rio de Janeiro também serem atingidas por esse derramamento de óleo, que já se consolida como o maior desastre ambiental em águas territoriais do Brasil.  

O tamanho da tragédia rapidamente expôs a fragilidade de nossas infraestruturas de defesa civil e de resposta a calamidades e emergências – autoridades dos diversos órgãos responsáveis pela área do meio ambiente, das forças militares – especialmente da Marinha do Brasil, e dos Governos dos Estados atingidos pelo óleo, começaram a “bater cabeça” e mostrar uma total falta de coordenação. A situação se mostrou ainda mais complicada com a entrada do Poder Judiciário nesse verdadeiro “balaio de gatos” que se formou – diversas ordens judiciais passaram a exigir que o Governo Federal instalasse barreiras para a contenção das manchas de óleo. 

Apesar das boas intenções das ações da Justiça, elas esbarravam em um problema prático – as características químicas desse óleo fazem com que as manchas se desloquem através das águas do mar a uma profundidade média de 1,5 metro. Essa particularidade inviabiliza o uso dos sistemas tradicionais de contenção de derramamentos de petróleo, que são baseados em flutuadores para interceptar manchas superficiais de óleo. Enquanto muitas autoridades perdiam tempo “discutindo o sexo dos anjos”, as manchas de óleo se alastravam pelo litoral. 

Uma das características desse óleo, que se mostrou na verdade como uma mistura de diferentes tipos de petróleo, a sua consistência, muito parecida com a do piche usado no asfaltamento de ruas e avenidas de nossas cidades. As manchas de óleo encontradas sobre as areias das diversas praias podem ser facilmente removidas com pás e até mesmo com as mãos. Verdadeiros exércitos de trabalhadores, incluindo-se militares, servidores públicos e muitos voluntários, passaram a trabalhar ininterruptamente na limpeza das praias – cerca de 4 mil toneladas desse óleo já foram removidas até hoje

Uma das grandes preocupações das autoridades médicas está relacionada com a toxicidade desse óleo, que entre outros elementos químicos possui benzeno, tolueno e xileno, substâncias que podem provocar doenças no sistema nervoso central. Parte do pessoal envolvido nos trabalhos de limpeza das praias, especialmente os voluntários leigos, estavam removendo os resíduos de óleo com as próprias mãos e sem o uso de qualquer EPI – Equipamento de Proteção Individual (vide foto). Muitos desses voluntários apresentaram sintomas de intoxicação. 

Além dos visíveis impactos na degradação das belas praias da Região Nordeste, o que por si só já vai representar uma forte repercussão no turismo local, que é uma das principais fontes de receitas dos Estados do Nordeste, esse grande derrame de óleo está provocando enormes problemas para todas as espécies marinhas da região. Uma das mais impactadas são as diversas espécies de tartarugas-marinhas que procuram as praias da Região para a desova. Dezenas dessas tartarugas foram resgatada com o corpo completamento coberto por óleo – mais de 80 animais não sobreviveram

As tartarugas-marinhas, aliás, são há muito tempo foco da proteção dos ambientalistas. O Projeto Tamar, uma iniciativa conservacionista que desde 1980 trabalha pela preservação das tartarugas-marinhas no litoral brasileiro, suspendeu preventivamente a soltura dos filhotes das espécies nascidos em seus viveiros. O Tamar monitora centenas de praias, acompanhando a desova das cinco espécies de tartarugas-marinhas que vivem ao longo do nosso litoral. Os ovos são recolhidos e levados para as bases do Projeto, onde permanecem até a eclosão dos filhotes, que são soltos em segurança nas praias. Por causa da presença do óleo nas praias, o Projeto Tamar tem adiado a soltura dos filhotes. 

O risco de contaminação de peixes, crustáceos e moluscos também é muito grande. A pesca e a venda dessas espécies foram proibidas em toda a Região pelo Governo Federal, uma medida que está afetando a vida e o trabalho de milhares de famílias que sobrevivem da pesca e da coleta desses animais. O Governo está estendendo o prazo de pagamento do Seguro Defeso, que é equivalente ao valor de um salário mínimo, por até dois meses, como forma de garantir uma pequena renda para essas famílias até a eventual normalização das atividades. 

De acordo com as investigações em andamento, o responsável pelo derramamento de óleo foi um navio tanque de bandeira grega – o Boubolina, pertencente à empresa Delta Tankers. Os investigadores chegaram ao navio a partir da identificação de uma grande mancha de óleo em alto mar, a cerca de 700 km da costa do Nordeste. Essa mancha foi encontrada a partir de análises de imagens de satélites feitas no final de julho. Cruzando-se essa informação com os registros dos navios que atravessaram a região no período, chegou-se ao Boubolina. A empresa proprietária nega qualquer incidente. 

A origem do petróleo também já foi identificada – análises de laboratório feitas em dezenas de amostras encontradas em diferentes praias indicaram se tratar de uma mistura de, pelo menos, três tipos diferentes de petróleo venezuelano. Conforme comentamos na última postagem, a Venezuela, que sofre uma série de sanções econômicas internacionais, está vendendo petróleo clandestinamente no mercado negro. O Governo do país, é claro, nega tudo. 

Em meio a toda essa tragédia, que está colocando em forte ameaça quase 1/3 do litoral do Brasil, estamos vendo muitas das medidas de reparação e de limpeza funcionando na base do “jeitinho” e de muito improviso, muitos Governantes se aproveitando da situação para “fazer política” e milhares de moradores e trabalhadores do mar das regiões impactadas sem saber o que esperar do futuro. 

Se Deus é mesmo brasileiro, rezemos para que ele seja nordestino e que dê um jeito nessa situação caótica! Se possível, bem rápido.

 

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