O GAVIÃO CARAMUJEIRO E OUTRAS ESPÉCIES SOB AMEAÇA NOS BANHADOS

Gavião Caramujeiro

Nas postagens anteriores, falamos dos problemas ambientais criados pela expansão descontrolada dos arrozais na direção das áreas de banhado no Estado do Rio Grande do Sul.  Apesar dos importantes benefícios econômicos e sociais gerados pela atividade, o custo ambiental é extremamente alto – diversas espécies animais e vegtais estão sob ameaça; nascentes de importantes rios também. Encerrando esse tema, separei um longo trecho de um postagem anterior que mostra com maiores detalhes os impactos ambientais que as áreas de banhado dos Pampas gaúchos têm sofrido nas últimas décadas:

Os banhados são ecossistemas extremamente ricos em vida, podendo ser comparados aos bancos de corais dos oceanos. Funcionando como uma espécie de “esponja natural”, as áreas de banhado acumulam grandes volumes de água nos períodos de chuva, auxiliando inclusive no controle das cheias dos rios; nos períodos de seca, fornecem água para as lagoas, garantido a sobrevivência de um sem número de espécies animais e vegetais. Os solos úmidos dos banhados são ricos em matéria orgânica, resultante da decomposição dos juncos e gramíneas – essa excepcional fertilidade dos solos tornou essas áreas em alvo para a expansão das fronteiras agrícolas.

As algas estão na base da cadeia alimentar das áreas de banhado. Estes vegetais se nutrem a partir da filtragem das partículas em suspensão na água, desempenhado um papel de filtro biológico do ecossistema. Diversas espécies de moluscos se alimentam destas algas e, por sua vez, servem de alimento para diversas espécies de peixes – aves locais e migratórias buscam alimento e abrigo nos banhados, assim como toda uma cadeia de animais como capivaras, lontras, ratões-do-banhado e jacarés-do-papo-amarelo. Toda uma frágil teia de vida e de inter-relações entre espécies animais e vegetais sobrevive nos banhados.

Um exemplo da fragilidade do equilíbrio ambiental dos banhados pode ser visto numa espécie de caramujo encontrado nestes locais – a pomácea. Esse caramujo é uma importante fonte de alimento para diversas espécies de aves, sobretudo ao gavião caramujeiro (vide foto), espécie que se alimenta exclusivamente desta “iguaria”. A drenagem dos banhados para a implantação de culturas de grãos ou o carreamento de grandes volumes de resíduos de defensivos agrícolas, pode levar à extinção de grandes colônias deste caramujo – a maioria das aves perderá um dos seus alimentos: o gavião caramujeiro, entretanto, perderá a sua única e exclusiva fonte de alimentação.

Um outro exemplo da importância biológica das áreas de banhado tem a ver com uma série de aves migratórias que utilizam estes ecossistemas como áreas de descanso, alimentação e até como territórios de nidificação. Os cisnes-do-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus) tem seu território distribuído desde a Terra do Fogo, no extremo Sul da América do Sul até áreas na região Sudeste do Brasil – esse extenso território inclui, além do nosso território, regiões da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Ilhas Malvinas. Diversos banhados dos pampas gaúchos ficam no caminho das rotas migratórias da espécie. Uma outra espécie, a coscoroba (Coscoroba coscoroba), também chamada de cisne-coscoroba e capororoca, é uma ave migratória com território indo desde a Patagônia, no sul da Argentina e do Chile, até as regiões Sul do Brasil e Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul. Estas aves utilizam áreas de banhados do extremo Sul para descanso, alimentação e nidificação ao longo de suas migrações. O comportamento instintivo destas aves é o resultado de milhares de anos de adaptação ao meio ambiente e, quando um dos seus habitats é destruído ou modificado, estes animais não conseguem mudar seus hábitos rapidamente – grupos inteiros de animais podem morrer de fome ou simplesmente não conseguir se reproduzir, colocando a espécie sob pressão e ameaça de extinção.

As áreas de banhado também têm importância ímpar para os rios gaúchos. Conforme já comentamos, eles atuam na regulação dos níveis de água tanto nos períodos de cheias quanto de secas; também são fundamentais para a manutenção da biodiversidade das espécies animais que vivem nos rios, incluindo-se peixes, crustáceos, mamíferos, aves e répteis, que têm nos banhados importantes áreas de alimentação e reprodução. Uma função crítica desempenhada pela vegetação dos banhados é a retenção e a depuração de sedimentos e despejos que correm na direção da calha dos rios, auxiliando na manutenção da qualidade das águas.

Nos banhados também se encontram nascentes que contribuem com substanciais volumes de água, recurso importante nos períodos de seca. Diversos rios em todo o Estado do Rio Grande do Sul têm sofrido fortes impactos devido a esta sistemática e contínua destruição dos banhados, onde destacamos os problemas dos rios Caí, Gravataí e dos Sinos, corpos d’água que, infelizmente, integram a lista dos dez rios mais poluídos do Brasil.

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