A RIZICULTURA E A DESTRUIÇÃO DOS BANHADOS NO RIO GRANDE DO SUL

Saracura do banhado

Nesta série de postagens, estamos tratando dos impactos da agricultura irrigada no meio ambiente. Os usos da água na agricultura correspondem, em média, a 70% do consumo da água disponível em uma região – aqui no Brasil, esse consumo é até um pouco maior: 74%. Como se já não fosse suficiente esse alto consumo de água, a maior parte dos sistemas de irrigação em uso são altamente ineficientes e têm perdas próximas a 50%. Já mostramos vários exemplos em outros países – é hora de começarmos a falar dos problemas da irrigação aqui no Brasil. Comecemos falando dos impactos das atividades agrícolas nos banhados sulinos. 

Os banhados são áreas planas e alagadiças, típicas das regiões dos Pampas gaúchos. Em outras regiões são chamados de charco, pântano, brejo, várzeas, turfas, entre outros. São áreas de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres, que têm uma série de funções ecológicas importantes – uma das mais importantes é a capacidade que as áreas de banhado têm de armazenar grandes quantidades de água nos períodos chuvosos e liberar lentamente essa água acumulada nos períodos de seca. Os banhados são, literalmente, ecossistemas reguladores dos fluxos de água dos rios e abrigam uma grande biodiversidade de espécies animais e vegetais. 

Existem aproximadamente 600 espécies de aves identificadas no Rio Grande do Sul, das quais, aproximadamente 1/3 utilizam as áreas de banhados em algum momento de suas vidas. Cerca de 100 espécies de aves, de espécies nativas e migratórias, utilizam as áreas de banhado para nidificar. Também são inúmeras as espécies de peixes, mamíferos, répteis, anfíbios, crustáceos e insetos que tem como habitat as áreas de banhado. Essa rápida descrição mostra a importância desse ecossistema para a vida animal, vegetal e para a formação de inúmeros riachos e rios em toda a região dos Pampas sulinos. O avanço dos cultivos de arroz na direção das áreas de banhado no Rio Grande do Sul está, literalmente, destruindo esses ecossistemas. Vejamos o exemplo do Banhado Grande: 

O Banhado Grande, localizado entre os municípios de Santo Antônio da Patrulha, Gravataí, Glorinha e Viamão, reúne todas estas características, recebendo contribuições de inúmeros cursos d’água de diversos municípios, inclusive de áreas dos Banhados Chico Lomã e dos Pachecos. O Banhado Grande é o principal formador do rio Gravataí. Por sua importância regional, a região foi elevada a APA – Área de Proteção Ambiental, a partir do Decreto Estadual n° 38.971, de 23 de outubro de 1998. Com uma área total de 133 mil hectares, esta APA reúne áreas do Banhado Grande, Banhado de Chico Lomã e Banhado dos Pachecos, tendo como principais objetivos a proteção dos ecossistemas naturais restantes e a recuperação das áreas degradadas

Formado pelos biomas Pampa e Mata Atlântica, o Banhado Grande ocupa uma área correspondente a 2/3 da bacia hidrográfica do rio Gravataí. A vegetação original é composta predominantemente por espécies de banhados e de matas de restinga, sobre os solos arenosos da Coxilha das Lombas, que é uma região com as chamadas paleodunas, resquícios de tempos antigos quando a região foi coberta pelas águas do Oceano Atlântico. Entre as espécies vegetais destacam-se a tarumã, árvore símbolo da cidade de Gravataí, o angico, o açoita-cavalo, a guajuvira, os araçás, as pitangueiras, entre outras espécies. Na fauna, são destaques os famosos ratões-do-banhado, as capivaras, os lobos guarás, jacarés-do-papo-amarelo e também os cervos-do-pantanal – aliás, a região é o último refúgio destes animais na região Sul do Brasil.  

Um outro animal, o curioso tuco tuco (Ctenomys lami), é uma espécie de roedor que lembra uma pequena marmota americana e só é encontrada na região da Coxilha das Lombas – a espécie está sob forte ameaça de extinção pela diminuição do seu habitat.  Os terrenos úmidos também possuem uma rica variedade de répteis e anfíbios. Entre as aves merecem destaque o inhambu, a garça branca, a pomba, a saracura (vide foto) e o araquã, uma espécie de faisão, além de uma infinidade de aves migratórias que buscam refúgio e alimentação nos banhados durante as escalas de suas longas jornadas. 

Os solos dos banhados possuem grandes volumes de matéria orgânica em decomposição, resultado do acúmulo de folhas, gramíneas e juncos mortos – estas características tornam estes solos altamente férteis e cobiçados pelos agricultores. As áreas de entorno do Banhado Grande vêm sendo ocupadas por grandes extensões de cultivos agrícolas, especialmente arroz, desde a década de 1940. Estes produtores, inicialmente, passaram a abrir redes de canais para a irrigação de suas plantações – esses canais passaram a funcionar como drenos, reduzindo gradativamente as áreas encharcadas e aumentando as áreas agricultáveis, que avançaram sem controle contra as terras dos banhados. 

Além dos impactos diretos resultantes da redução das áreas dos banhados, a produção do arroz necessita de grandes volumes de água, que é bombeada ininterruptamente das áreas úmidas e dos rios, geralmente nos meses de janeiro e fevereiro, época de maior demanda pela cultura e, coincidentemente, auge do período das chuvas, quando os banhados acumulam grandes estoques de água. As áreas de banhados, que funcionam como esponjas naturais, acumulam água nos períodos de chuva e fornecem água nos períodos de seca – sem poder acumular a água desviada para os arrozais, os banhados ficarão com estoques muito reduzidos para fornecimento ao meio ambiente no período das secas.  

Um outro problema grave, resultante do bombeamento de água para os arrozais, são os resíduos de fertilizantes e de pesticidas que são carreados com as águas excedentes e que voltam para as áreas de banhado. Esses produtos químicos interferem com os ciclos de vida de algas, insetos e pequenos crustáceos, que vivem em meio a água e vegetação do banhado, e que estão na base da cadeia alimentar do ecossistema, sendo fundamentais para a alimentação de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis.  

Continuaremos com esse assunto na próxima postagem. 

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