O DESAPARECIMENTO DO DOURADO DAS ÁGUAS DO COMPLEXO LAGUNAR GUAÍBA/LAGOA DOS PATOS

Dourado

A piabanha (Brycon insignis), que em muitas referências bibliográficas é chamada de piabinha, é um peixe típico da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Espécie voraz e extremamente forte, sobre a qual falamos na última postagem, a piabanha é um peixe adaptado para a vida em rios com forte correnteza e muitos obstáculos. A construção de inúmeras barragens, a forte poluição das águas e a destruição das matas marginais, praticamente dizimou a piabanha do trecho paulista do rio Paraíba do Sul – atualmente, a espécie só é encontrada em alguns trechos preservados de afluentes do médio e baixo Paraíba do Sul. 

A situação da piabanha não é muito diferente de outras espécies de peixes, crustáceos, répteis, anfíbios, aves e mamíferos aquáticos, que tiveram seus habitats destruídos por ações humanas. Na postagem de hoje, vamos falar da situação do dourado no Complexo Lagunar Guaíba/Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. O dourado é uma espécie simbólica e já foi um dos peixes mais apreciadas na culinária gaúcha. Mas, de alguns anos para cá, o dourado simplesmente desapareceu das águas dos rios e lagos do Leste do Rio Grande do Sul. Hoje, para se apreciar um bom dourado assado na brasa a moda gaúcha, primeiro é necessário importar o peixe de outras regiões do Estado ou de outras regiões do Brasil e de países vizinhos aqui da América do Sul, para só depois acender a churrasqueira. 

O dourado (Salminus brasiliensis, que já foi chamado de Salminus maxillosus), é uma espécie de peixe carnívoro encontrado, principalmente, nas bacias hidrográficas dos rios da Prata, que engloba áreas do Brasil, Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai, do rio Madalena, a principal bacia hidrográfica da Colômbia, do rio Orenoco ou Orinoco, na Venezuela, e em alguns rios do Peru, entre outras bacias hidrográficas menores. Na bacia Amazônica existe uma espécie conhecida como dourada (Brachyplatystoma flavicans), que não tem ligações “familiares” com os dourados. Uma característica interessante da espécie é o grande disformismo sexual – enquanto os machos pesam, em média, entre 5 e 7 kg, as fêmeas podem superar os 25 kg.

Famosos por serem peixes “brigadores” pelos praticantes da pesca esportiva, os dourados também são conhecidos pelos nomes de pirajú e tigre de rio, nome esse que se deve as listras laterais em seu corpo. A denominação científica Salminus se deve ao fato da espécie (que é dividida em várias subespécies) ocupar, na América do Sul, o mesmo nicho ecológico ocupado pelos salmões e trutas no Hemisfério Norte. E como essas espécies, os dourados realizam grandes migrações no período da sua reprodução – a piracema. Nessas ocasiões, os dourados costumam nadar cerca de 15 km por dia contra a correnteza, buscando locais tranquilos nas áreas das cabeceiras dos rios para a desova. No rio Uruguai, há registros de exemplares que nadaram mais de 50 km num único dia. 

Um dos habitats dos dourados no Brasil engloba o Complexo Lagunar dos Patos e a bacia hidrográfica do Guaíba, onde se encontra o Lago Guaíba e as sub-bacias dos rios Gravataí, dos Sinos, Caí, Taquari-Antas, Alto-Jacuí, Vacacaí-Vacacaí-Mirim, Pardo e Baixo Jacuí. Essa região hidrográfica compreende uma área total de 84.700 km², onde vive uma população de 7 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 250 municípios, sendo que a população urbana corresponde a 83,5% e a população rural 16,5%

As águas do Lago Guaíba são o habitat de cerca de 56 espécies de peixes residentes permanentes, sendo que 10 espécies são classificadas com alto valor econômico, ou seja, são as espécies mais buscadas pelos pescadores. A lista inclui: branca, peixe-cachorro ou tambicu (Oligosarcus jenynsii e Oligosarcus robustus), pintado (Pimelodus pintado), jundiá (Rhamdia quelen), grumatã (Prochilodus lineatus), piava (Leporinus obtusidens), traíra (Hoplias malabaricus) e voga (Schizodon jacuiensis). Também existem as espécies migratórias, como o dourado, que utilizam o Guaíba como um corredor de passagem para acesso ao Delta do Jacuí e cabeceiras dos rios formadores das diferentes bacias e microbacias. Nos últimos anos, os estoques pesqueiros dessa importante região têm se reduzido a olhos vistos – a intensa poluição das águas, os desmatamentos e avanços das frentes agrícolas, a extração de areia, entre outros sérios problemas ambientais, estão entre as principais causas do desaparecimento dos peixes. 

Segundo dados de um relatório do Pró-Guaíba do ano 2.000, cerca de 960 mil m³ de esgotos domésticos, 890 m³ de esgotos e resíduos industriais, 16.500 litros de agrotóxicos e 3.700 toneladas de lixo, são despejados ou lançados nas águas da região da bacia hidrográfica do Guaíba diariamente. A conta também precisa incluir uma grande quantidade de sedimentos resultantes do carreamento de solos expostos por desmatamentos e queimadas, além dos danos biológicos provocados pela destruição de banhados e matas ciliares, que afetam diretamente toda a rica biodiversidade associada aos corpos d’água do sistema hidrográfico. Todo este “conjunto da obra” têm repercussões na biodiversidade específica do Lago Guaíba e Lagoa dos Patos

Águas contaminadas por esgotos, domésticos e industriais, apresentam, entre outros inúmeros problemas, baixíssimos níveis de oxigênio dissolvido, algo que impede a sobrevivência de peixes e crustáceos, que dependem desse oxigênio para respirar. Grandes trechos poluídos de rios como o Caí e dos Sinos, que figuram na lista dos rios mais poluídos do Brasil, funcionam como uma espécie de “barreira”, que impede a migração de peixes como o dourado. E sem realizar a migração até as cabeceiras dos rios, a espécie tem seu ciclo reprodutivo altamente comprometido – sem o nascimento de novos indivíduos, qualquer espécie de ser vivo passa a caminhar rumo à extinção (extinção regional nesse caso). 

Um dos mais sérios problemas nas águas da região do Complexo Lagunar Guaíba/Lagoa dos Patos está ligado a invasão do mexilhão dourado, uma espécie exótica que chegou ao continente americano através da água de lastro de navios cargueiros. Para equilibrar a carga, esses navios bombeiam água do oceano e enchem tanques de lastro ao longo da embarcação. Quando chegam ao porto de destino, esses cargueiros esvaziam os tanques e liberam, junto com a água, inúmeras espécies marinhas que estavam aprisionadas nesses tanques, O mexilhão dourado se fixa na raiz dos juncos e outras plantas aquáticas dos Lagos, reduzindo a resistência das plantas à força das ondas e dos ventos. As áreas de juncais e de outras espécies vegetais são bercários naturais de peixes e crustáceos – sem esses ambientes, há um forte declínio populacional dessas espécies, lembrando que essas predadas por outras maiores como os dourados. 

A presença de sedimentos nas águas, resultante do açoreamento provocado pela agricultura e destruição de matas ciliares e fragmentos florestais, assim como das muitas cavas de areia por toda a bacia hidrográfica, também criam importantes problemas na cadeia alimentar das águas. Os sedimentos do fundo dos Lagos apresentam as chamadas comunidades bentônicas, colônias de pequenas plantas, crustáceos e vermes, que são a base da cadeia alimentar de inúmeras espécies aquáticas. Para que você tenha uma ideia do tamanho físico dessas espécies de plantas e animais, algumas apresentam uma densidade de 5 indivíduos para cada grão de areia. Os sedimentos em suspensão nas águas decantam e soterram essas comunidades, comprometendo toda a cadeia alimentar de espécies maiores que habitam nas mesmas águas

Além de terem suas fontes de alimentação comprometidas, os peixes do Complexo Lagunar também sofrem com a pesca excessiva – indivíduos adultos e em idade reprodutiva são capturados em grande quantidade pelas redes e varas de pesca, antes de poderem nadar até as cabeceiras dos rios menos poluídos para se reproduzir. À médio e longo prazo, isso se refletirá numa diminuição contínua das populações, o que também contribui para a extinção de espécies no longo prazo. 

A soma de todos esses problemas resultou, literalmente, no desaparecimento dos dourados e de muitos outros peixes de toda essa extensa região hidrográfica. Lastimável!

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