AS PAISAGENS GLACIAIS DA PATAGÔNIA ARGENTINA E AS AMEAÇAS PROVOCADAS PELAS TRUTAS E SALMÕES INVASORES

Urso

Na nossa última postagem, interrompemos uma sequência de temas ligados aos impactos da degradação ambiental dos recursos hídricos sobre a biodiversidade aquática e falamos da trágica “morte” de uma geleira na Islândia. Vou usar essa tragédia ambiental como gancho para uma outra, que está acontecendo aqui deste nosso lado do mundo, mas que guarda algumas similaridades importantes – a introdução de peixes Boreais em águas de terras Austrais.

As paisagens da Islândia apresentam vales verdejantes onde correm cursos com água fria, montanhas com geleiras nos cumes e, graças à localização particular do país no ponto exato do encontro de duas grandes placas tectônicas, vulcões. Esse cenário, a exceção dos vulcões, é comum em terras de alta latitude no Hemisfério Norte e poderá ser visto no Canadá e no Alasca (que pertence aos Estados Unidos), na Europa – principalmente na Escandinávia, e na Ásia. As características físicas e climáticas dessas regiões culminaram na evolução e adaptação das espécies a um meio ambiente bastante específico.

Trutas e salmões são espécies de peixes que pertencem a uma mesma grande família e são comuns nessas regiões. Uma característica comum nessas espécies são as impressionantes migrações que realizam rumo às cabeceiras dos rios na época da reprodução, onde são obrigados a lutar contra as fortes correntezas e quedas d’água. Animais como ursos, lobos, aves e também seres humanos, adaptaram seus ciclos de vida às migrações desses peixes, que representam um período de fartura de alimentos e de acúmulo de reservas de energia para os difíceis tempos do inverno (vide foto). A prática da pesca esportiva dessas espécies surgiu como uma consequência dessa convivência entre presas e predadores.

No Hemisfério Sul não existem tantos territórios nessas mesmas latitudes – se você consultar um mapa mundi, verá que as águas dos oceanos predominam por aqui. Mas existem alguns territórios no Sul da América do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia, que apresentam exatamente essas mesmas paisagens do Norte do Hemisfério Norte. A semelhança é tão grande que até mesmo a famosa Aurora Boreal, um fenômeno de luzes atmosféricas criadas pelo magnetismo terrestre em regiões próximas do Círculo Polar Ártico, tem sua equivalente no Hemisfério Sul – a Aurora Austral.

Com a existência de paisagens tão parecidas com as do distante Norte, muita gente nesses territórios aqui do Sul acabou não resistindo à tentação e tudo fizeram para introduzir espécies de peixes como as trutas e salmões nas águas frias de rios e lagos Austrais. O raciocínio era simples – pescadores do Hemisfério Norte ganhariam uma opção de pesca no Hemisfério Sul: os mesmos cenários, o mesmo clima e os mesmos peixes. Em tese, nada poderia dar errado. Infelizmente, muita coisa deu errado.

A Patagônia argentina é um desses territórios Austrais alterados artificialmente e onde os problemas ambientais decorrentes da introdução dessas espécies exóticas crescem sem parar. Trutas e salmões capturados em rios de países do Hemisfério Norte passaram a ser introduzidos em rios e lagos das províncias de Rio Negro, Neuquén, Chubut, Santa Cruz e Terra do Fogo, todas na região Sul da Argentina, ainda no início do século XX. Seguindo o raciocínio que citei, as autoridades dessas Províncias imaginavam estar criando um cenário perfeito para o desenvolvimento da pesca esportiva e assim poderiam atrair milhares de pescadores de países do Hemisfério Norte.

Como todos devem lembrar, as estações do ano são invertidas nos dois Hemisférios – quando é inverno no Norte, vivemos o verão aqui no Sul. Esse seria um apelo irresistível a todos os endinheirados amantes da pesca esportiva, que passariam a contar com duas temporadas de pesca a cada ano. Regiões do Sul da Austrália e Nova Zelândia seguiram essa mesma linha de raciocínio e fizeram exatamente a mesma coisa.

De acordo com estudos realizados por órgão ambientais da Argentina, as trutas e os salmões se adaptaram perfeitamente aos corpos d’água locais e passaram a representar uma grande ameaça a toda uma série de espécies autóctones. Os estudos indicam que houve redução nas populações de rãs e comunidades betônicas (algas, vermes e pequenos crustáceos que colonizam o fundo dos rios e lagos), assim como de espécies de crustáceos e peixes. A truta-crioula (Percichthys trucha) e o peixe-rei-patagônico (Odontesthes microlepidotus) são as espécies de peixes locais mais ameaçadas.

Existe aqui um detalhe importante e que merece um comentário: a convergência evolutiva ou evolução convergente. Esse é um interessante conceito da biologia que explica que espécies diferentes de seres vivos evoluem de forma semelhante em ambientes iguais. A truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss), citando um exemplo, evoluiu em rios turbulentos de águas frias da América do Norte. Vivendo em rios da Patagônia com essas mesmas característica, a truta-crioula, que não tem relações familiares com as trutas-arco-íris, desenvolveram exatamente o mesmo comportamento e ocupam o mesmo nicho ecológico.

Um pescador norte-americano ou canadense se sentiria em casa pescando uma esperta e brigadora truta-crioula – talvez ele nem percebesse que está bem longe do seu país durante uma pescaria. Com os salmões acontece a mesma coisa – existem espécies locais praticamente iguais e cito como exemplo o dourado (Salminus brasiliensis), um dos peixes mais amados pelos praticantes de pesca esportiva aqui na América do Sul. Graças a existência desses peixes autóctones, a introdução de espécies exóticas seria absolutamente desnecessária para o desenvolvimento da pesca esportiva por aqui. Infelizmente, depois que a “Caixa de Pandora” foi aberta e os males (ou peixes) foram liberados, não há muito mais o que se fazer.

De acordo com a UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza, as trutas são uma das espécies de peixes invasores mais impactantes de todo o mundo. Extremamente fortes e adaptáveis, as trutas ocupam nichos ecológicos de espécies autóctones, passando a competir com vantagem nas disputas por espaços e alimentos. Só que as trutas invasoras vão além – elas também podem predar ovos e filhotes de pássaros, algo que as trutas-crioulas nunca fizeram. Na Patagônia argentina, o macá tobiano (Podiceps gallardoi), uma espécie ave endêmica que só foi descrita pela ciência em 1979, está em estado crítico por causa das trutas-arco-íris.

De acordo com informações de organizações argentinas que trabalham para a preservação de aves, existem entre 3 e 5 mil exemplares de macás distribuídas em 130 lagoas da estepe patagônica na Província de Santa Cruz. Os macás constroem instintivamente seus ninhos em moitas de vegetação rasteira ao lado de lagos – essas aves não possuem uma “programação” em seu DNA que lhes alertem do comportamento predatório de trutas na sua vizinhança. As trutas-arco-íris sentem o cheiro dos ovos e dos filhotes e dão saltos para fora d’água, investindo diretamente contra os ninhos e assim conseguem um apetitoso lanche. É esse comportamento das trutas que está levando os macás à beira da extinção.

Para as pessoas que tiveram um grande trabalho para importar e introduzir essas espécies de peixes exóticos em rios e lagos da Patagônia há mais de um século, essa atitude representaria no futuro uma grande fonte de receitas externas para seu país e suas Províncias. O tempo provou que, na verdade, elas estavam ligando uma bomba relógio, que causaria terríveis impactos ao meio ambiente – uma grande lição ecológica a ser aprendida por muita gente nos dias atuais.

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