A POLUIÇÃO DO GUAÍBA, OU AS “GURIAS” DE IPANEMA

Lago Guaíba

A primeira de muitas vezes que estive em Porto Alegre foi em 1980, num voo da hoje lendária Cruzeiro do Sul, com direito a almoço quente e talheres de prata – naqueles tempos voar ainda era uma experiência marcante. Vários amigos fizeram recomendações de pontos turísticos imperdíveis da cidade. Uma senhora, amiga de minha mãe, fez uma indicação que, na hora, pareceu ser uma grande brincadeira: “- não deixe de visitar a Praia de Ipanema!”

E não é que chegando por lá encontrei o calçadão de Ipanema, com praia de rio (naqueles tempos, o Guaíba ainda era considerado um rio), mesinhas nas calçadas com grupos de amigos bebendo cerveja e alguns, mais tradicionalistas, tomando mate. Claro que não poderiam faltar as famosas gurias, forma gaúcha de se referir as garotas, da Ipanema Porto-alegrense.

O bairro de Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, foi criado na década de 1930 e, dada a beleza da orla lacustre e do pôr do sol da região, acabou sendo batizado com o mesmo nome dos famosos bairro e praia da cidade do Rio de Janeiro. O bairro ainda mantém as características da época, com ruas arborizadas e construções baixas e um ar praiano, apesar de estar distante das praias de Tramandaí, Balneário Pinhal e Cidreiras, entre tantas outras do litoral do Rio Grande. O clima de balneário só não é mais completo por que, há muitos anos, as praias estão interditadas para banhos. A razão: os altos índices de poluição das águas do Guaíba.

Durante séculos, o Guaíba foi chamado pelos moradores da região de Lago de Viamão ou Lago de Porto Alegre. O famoso cientista francês Auguste de Saint-Hilarie esteve na região em 1820 e anotou em seu diário que o corpo d’água era um lago. De acordo com registros históricos, durante os séculos XVIII e início do século XIX, o trecho final do rio Jacuí, entre a foz o Delta, era conhecido como rio Guaíba – então, sabe-se lá por qual motivo, todo o lago passou a ser chamado de rio Guaíba. Recentemente, após um grande estudo realizado por especialistas da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a polêmica teve um fim e o Guaíba voltou a ser classificado como um lago.

O Lago Guaíba tem uma área total de 496 km², com um comprimento máximo de 50 km e uma largura que varia entre 900 metros e 19 km. A profundidade média é de 3 metros – os muitos velejadores da cidade afirmam que a profundidade atual é bem menor que esta, com o Lago apresentando inúmeros bancos de areia (vide foto) e de detritos, tornando a prática do esporte arriscada para quem não conhece bem as suas águas. O lago possui ainda um canal de navegação com profundidade entre 4 e 6 metros. Além de Porto Alegre, as águas do Guaíba também banham os municípios de Guaíba, Eldorado do Sul, Barra do Ribeiro e Viamão. O Lago Guaíba desemboca na Lagoa dos Patos e, por fim, as águas vão encontrar o Oceano Atlântico mais ao Sul.

Os principais formadores do Guaíba são os rios Jacuí, dos Sinos, Caí e Gravataí, que contribuem, respectivamente, com volumes de água da ordem de 84,6%, 7,5%, 5,2% e 2,7%, além de receber contribuições de um grande número de arroios. Pelas condições ambientais atuais destes rios, que tratamos ao longo de diversas postagens, fica fácil perceber que a qualidade das águas do Lago Guaíba não é das melhores. A cidade de Porto Alegre, com 1,5 milhão de habitantes, junto com outros municípios do entorno do Lago, também fazem a sua parte, despejando mais de 80% de seus esgotos sem qualquer tipo de tratamento nas águas do Guaíba. O resultado é um Lago com águas altamente poluídas e cada vez menos adequado para o fornecimento de água para o abastecimento das cidades. Aqui vale salientar que, até bem pouco tempo atrás, as águas do Guaíba garantiam 100% do abastecimento da cidade de Porto Alegre e de muitos outros municípios da região.

Quando se analisam as principais fontes de poluição do Lago Guaíba em um mapa, observa-se que os pontos que apresentam águas com as piores qualidades ficam na região do Delta do Jacuí, onde os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul (rios dos Sinos, Gravataí e Caí) desaguam, e ao longo da orla de Porto Alegre, onde inúmeros arroios despejam água contaminada por esgotos e resíduos industriais. Esta é uma situação encontrada com grande frequência na maioria das cidades brasileiras, que cresceram e se desenvolveram sem maiores preocupações em realizar obras de infraestrutura de saneamento básico e que usaram os rios e córregos (chamados de arroios no extremo Sul) como coletores de esgotos.

Na falta de estudos mais atualizados sobre os níveis de poluição no Guaíba, encontrei um interessante estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre a PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS PESCADORES DO LAGO GUAÍBA, que nos dá uma clara visão dos problemas ambientais. Os pescadores estão entre os grupos que mais sofrem com a degradação das águas, fonte do seu trabalho e sustento, e têm observado a redução gradativa da quantidade de peixes no Guaíba. De acordo com a observação dos pescadores, a poluição das águas por esgotos é o principal problema ambiental do Lago Guaíba. O descarte de lixo nas águas vem em segundo lugar, seguido pela extração de areia por dragas em vários pontos do Lago e da contaminação por esgotos de industrias. Pela sua lida diária em embarcações, esses pescadores sabem indicar o local exato onde são feitos os despejos de esgotos e de lixo, além dos locais onde veem os problemas causados pela extração de areia. Os pescadores também entendem que os resíduos de inseticidas, herbicidas e de fertilizantes das muitas plantações ao longo das margens dos rios trazem problemas para o Guaíba.

Um outro problema ambiental importante citado pelos pescadores é o avanço do mexilhão dourado, uma espécie exótica que chegou ao Brasil através da água de lastro despejado por cargueiros estrangeiros em áreas de porto ao longo da costa e que se transformou numa espécie invasora das mais preocupantes. O molusco gruda no casco de seus barcos, muitas vezes entupindo o sistema de refrigeração do motor. O mexilhão dourado também é o responsável pela destruição de extensas áreas de junco, locais onde várias espécies de peixes desovam e onde os alevinos se refugiam – o molusco se fixa na raiz dos juncais, deixando as plantas menos resistentes às forças dos ventos e das ondas. Com a redução da quantidade de peixes no Guaíba, muitos pescadores abandonaram a profissão e passaram a lidar com a terra, especialmente nas ilhas do Delta do Jacuí. Grandes áreas de vegetação nativa foram queimadas para a abertura de campos para a agricultura e a criação de gado; banhados foram drenados e transformados em pequenas áreas de cultivo de arroz – de vítimas da poluição das águas, esses pescadores se transformaram em pequenos agressores ambientais, como tantos outros da grande bacia hidrográfica do Guaíba.

A presença de grandes quantidades de matéria orgânica nas águas devido aos despejos de esgotos gera um outro grande problema: a chamada eutrofização, condição que propicia a superprodução de algas. A eutrofização ocorre quando os níveis de fósforo e nitrogênio, nutrientes naturais dos vegetais, são muito altos – as micro algas presentes na água se multiplicam sem controle deixando grandes regiões do Guaíba com a água na cor verde. Com o processo de fotossíntese destas algas, os níveis de oxigênio dissolvido na água são reduzidos, o que causa a morte das bactérias aeróbias; as bactérias anaeróbias, que retiram o oxigênio que necessitam para sobreviver da putrefação da matéria orgânica, se proliferam – é a decomposição anaeróbia que provoca a liberação do mal cheiro nas águas. Esse mal cheiro liberado pelas águas do Guaíba, juntamente com o aspecto sujo das águas e o lixo flutuante, são as maiores reclamações dos habitantes que vivem perto ou que utilizam sua orla para caminhadas e prática de esportes.

Quanta saudade dos tempos em que programa de Porto-alegrense era pegar uma praia lá em Ipanema…

 

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