TOCANTINS-ARAGUAIA: A SEGUNDA BACIA HIDROGRÁFICA EM PRODUÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA DO BRASIL

Tocantins-Araguaia

A bacia hidrográfica formada pelos rios Tocantins e Araguaia ocupa uma área total de 960 mil km², o que corresponde a 11% do território brasileiro. Ela se estende por cerca de 2.500 km no sentido Sul-Norte, desde as nascentes do rio Araguaia na Serra do Caiapó, próxima ao Parque Nacional das Emas no município de Mineiros em Goiás, até a foz do rio Tocantins na Baía da Ilha do Marajó, no Estado do Pará. É, ao lado do rio São Francisco, uma das maiores bacias hidrográficas localizadas inteiramente em território brasileiro. 

A bacia hidrográfica Tocantins-Araguaia é considerada como a segunda maior em produção de energia elétrica do Brasil. No rio Tocantins foram construídos vários complexos hidrelétricos, transformando o rio numa sucessão de represas. A primeira usina hidrelétrica do rio Tocantins foi Tucuruí, concluída em 1984 e causadora de inúmeros problemas ambientais e sociais. Em 1998, foi concluída a Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, que formou um dos maiores espelhos d’água do Brasil; em 2002 foram finalizadas as Usinas de Cana Brava e Luís Eduardo de Magalhães; em 2006 foi a vez da Usina de Peixe Angical e em 2009 as Usinas de Estreito e São Salvador

Já o rio Araguaia ficou com seu curso totalmente livre da construção de barragens e usinas hidrelétricas. Estudos técnicos feitos na sua bacia hidrográfica indicavam um potencial de geração hidrelétrica de 3,1 mil megawatts e havia a previsão para a construção de três usinas hidrelétricas: Santa Isabel, Torixoréu e Couto Magalhães. Para a sorte do rio, Governo Federal acabou desistindo desses projetos

O rio Araguaia percorre uma extensão total de 2.115 km até desaguar no rio Tocantins, na divisa dos municípios de Esperantina, no Estado do Tocantins, e São João do Araguaia, no Pará. A bacia hidrográfica do rio Araguaia abrange uma área total de mais de 380 mil km², tendo as nascentes dos seus afluentes ocorrendo exclusivamente em áreas de Cerrado. No Oeste do estado do Tocantins, o rio Araguaia se divide em dois braços, sendo um dos braços chamado de rio Javaés, formando a ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo. Um trecho de 1.160 km do rio Araguaia, entre as cidades de São João do Araguaia e Beleza, é navegável durante o período da cheia. 

Com cerca de 2.450 km de extensão, o rio Tocantins é o segundo maior rio totalmente brasileiro, só ficando atrás do rio São Francisco. O Tocantins se forma a partir da junção dos rios Paraná e Maranhão, cursos d’água com nascentes na região da Serra Dourada em Goiás. Na região conhecida como Bico do Papagaio, na divisa entre os Estado do Tocantins, Maranhão e Pará, as águas do rio Araguaia se juntam ao rio Tocantins, formando um rio caudaloso, navegável por cerca de 2 mil km no período das cheias. 

Assim como vem ocorrendo com o rio São Francisco, a bacia hidrográfica do Tocantins-Araguaia também está sofrendo com a redução sistemática dos seus caudais. E a causa é basicamente a mesma – a destruição sistemática de extensas áreas de vegetação natural de Cerrado para a abertura de novos campos agrícolas. Durante séculos, os solos do Cerrado foram considerados muito pobres para a agricultura em larga escala. Esse cenário começou a mudar na década de 1950, quando foram desenvolvidas técnicas para a correção da forte acidez desses solos como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. Na década de 1970, foram desenvolvidas sementes de cultivares, especialmente milho e soja, adaptados para o clima e os solos do bioma, inovações que transformaram toda a região do Cerrado brasileiro numa gigantesca fronteira agrícola. 

O grande salto da agricultura na região se deu na década de 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. Com o avanço da agricultura e o corte da vegetação nativa do Cerrado, foi iniciada a contagem regressiva para o fim dos grandes rios da região. 

À medida que as grandes plantações de grãos e as extensas pastagens para as boiadas passaram a ocupar as paisagens do Cerrado, passou-se a observar também uma forte redução dos níveis dos rios Tocantins e Araguaia nos meses de seca. Essa redução dos caudais, que sempre foi considerada normal nesses períodos, passou a transformar grandes trechos do rio em filetes de água entrecortando grandes brancos de areia, o que passou a afetar a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. 

Uma imagem que se tornou comum nas margens dos rios Araguaia e Tocantins são as gigantescas voçorocas criadas pelas chuvas, algumas alcançando mais de 70 metros de largura e 50 metros de profundidade. Essas formações são resultado da forte erosão dos solos durante a época das chuvas e carreiam, a cada ano, milhões de toneladas de sedimentos para a calha dos rios. A origem dessas erosões está no manejo inadequado dos solos e na remoção da cobertura vegetal nativa. Apesar da aparência pobre acima da superfície, as espécies vegetais do Cerrado possuem sistemas de raízes extremamente complexas e profundas, que permitem a infiltração de porcentagens significativas das águas das chuvas em direção aos aquíferos subterrâneos, ao mesmo tempo que protegem o solo contra a erosão. Cultivares como o milho e a soja, ao contrário, possuem raízes muitos curtas, e facilitam a formação de fortes enxurradas e a erosão dos solos.  

Os antigos rios grandes e caudalosos, com fartos estoques de peixe e muita vida em suas margens, cada vez mais se transformam em pequenos córregos nos meses de seca, com profundidades de poucos centímetros. Trechos que em décadas passadas só podiam ser atravessados em balsas ou embarcações, agora podem ser atravessados facilmente a pé, caminhando sobre os montes de entulho e areia. Sem entrarmos nos problemas de abastecimento de água das populações, da perda de uma importante fonte de alimentação fornecida pela pesca e da destruição de um ambiente fundamental para a manutenção de inúmeras espécies aquáticas e terrestres, essa redução dos caudais é um “tiro no pé” em termos de transporte. A consolidação da Hidrovia Tocantins-Araguaia, uma via de transportes fundamental para a produção de grãos de uma extensa região do Cerrado, tende a ficar restrita, cada vez mais, aos períodos de cheia dos rios.  

A redução dos caudais da bacia hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia também pode afetar em cheio a produção de energia elétrica nas inúmeras hidrelétricas instaladas ao longo da sua calha. Vamos começar a falar desses empreendimentos a partir da próxima postagem. 

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